terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Não podes mais revisar: Bishop


[s/i/c]




North Haven



In Memoriam: Robert Lowell

I can make out the rigging of a schooner

a mile off; I can count

the new cones on the spruce. It is so still

the pale bay wears a milky skin; the sky

no clouds except for one long, carded horse's tail.



The islands haven't shifted since last summer,
even if I like to pretend they have
--drifting, in a dreamy sort of way,
a little north, a little south, or sidewise,
and that they're free within the blue frontiers of bay.

This month, our favorite one is full of flowers:
Buttercups, Red Clover, Purple Vetch,
Hackweed still burning, Daisies pied, Eyebright,
the Fragrant Bedstraw's incandescent stars,
and more, returned, to paint the meadows with delight.

The Goldfinches are back, or others like them,
and the White-throated Sparrow's five-note song,
pleading and pleading, brings tears to the eyes.
Nature repeats herself, or almost does:
repeat, repeat, repeat; revise, revise, revise.

Years ago, you told me it was here
(in 1932?) you first "discovered girls"
and learned to sail, and learned to kiss.
You had "such fun," you said, that classic summer.
("Fun"--it always seemed to leave you at a loss...)

You left North Haven, anchored in its rock,
afloat in mystic blue...And now--you've left
for good. You can't derange, or re-arrange,
your poems again. (But the Sparrows can their song.)
The words won't change again. Sad friend, you cannot change.


Elizabeth Bishop



North Haven


In Memoriam: Robert Lowell

Posso distinguir o apito de uma escuna

uma milha ao longe; posso contar
as novas pinhas no espruce. Há tanta calma

que a pálida baía veste uma pele leitosa; o céu

sem nuvens senão por um longo rabo de cavalo em cartolina.


As ilhas não se moveram desde o verão passado,
Mesmo que eu pretenda que sim
—À deriva, de uma forma onírica,
A direita, a esquerda, para os lados,
E que são livres na fronteira azul da baía.

Este mês, nossa favorita está cheia de flores:
Botões d'ouro, trevos, boas-noites,
Orquídeas flamejantes, irisadas margaridas, eufrásias,
As flagrantes estrelas incandescentes das rubis
E mais, de volta, para pintar o prado de delícias.

Os pintassilgos voltaram, ou outros como eles,
E a canção de cinco notas do pardal-de-gola-branca,
Rogando e rogando, rasa os olhos de lágrimas.
A natureza se repete, ou quase:
Repete, repete, repete; revisa, revisa, revisa.

Anos atrás, tu me disseste que foi aqui
(Em 1932?) que "descobriste as meninas"
E aprendeste a velejar, aprendeste a beijar.
Fora “tão bom”, disseste, aquele clássico verão.
(“Bom” – sempre parecia te deixar no prejuízo...)

Deixaste North Haven, ancorada em suas rochas,
Flutuando em místico azul... e agora te foste
De vez. Não podes embaralhar, ou re-arranjar
Teus poemas de novo. (Mas os pardais os cantam.)
As palavras já não mudarão. Doce amigo, já não podes mudar.




Nota – Outra elegia espantosa. Outra espantosa forma de memória urgente e amorosa. Todas as formas da natureza se dobram para os signos mais clássicos da escrita. Como se sabe, versos são flores – é uma das figuras mais clássicas para o verso no Ocidente (daí que uma antologia, uma coleção de versos se chame também “florilégio”). O canto dos pássaros também é outra metáfora clássica para poesia. E, no caso, para uma poesia métrica: as cinco notas do pardal-de-gola-branca. Lowell era conhecido pela obsessão com que revisava seus textos, modificando completamente seus poemas de uma para outra edição (como, no poema a natureza muda de estações e cores). Somente uma poeta como Bishop – uma das mais altas poetas do sec. XX – pode escrever algo assim tão belo. Ou seja, onde tudo que é concreto acha um equivalente abstrato imediato e indescolável. Para maior contexto deste poema, clique AQUI.



2 comentários:

  1. Ruy,

    Anos atrás, tu me disseste que foi aqui
    (Em 1932?) tua “primeira vez com meninas”
    E aprendeste a velejar, aprendeste a beijar.
    Fora “tão bom”, disseste, aquele clássico verão.
    (“Bom” – sempre parecia te deixar no prejuízo...)

    lowell e bishop. bonito!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


    aldir brasil
    abrsços

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  2. é, sim, aldir,

    o poema é artigo fino. tão à altura da mestria e do rigor dessa excepcional poeta, de certo modo, tão vinculada ao brasil, onde morou tantos anos.

    abs.

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