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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Croqui de uma cidade sem cidade

Wilhelm Wagenfeld, Egg Cups, 1938


Um Ovo sem Sal Faz mais Bem que Mal?
-A cidade de N. S. da Assunção dos diascorrentes, rápido esboço


Fortaleza é um ovo.

Pela desigualdade social, que cai sobre ela como uma lepra, praticamente todos que formam opinião se conhecem. Formar opinião está ligado umbilicalmente com ter poder. Ter poder equivale a dizer: ter um mínimo de grana. Um mínimo de grana que, ao menos, possa ter viabilizado uma educação formal acima da média.

Isso tudo é um evidente truísmo. E acontece em qualquer parte do mundo. E está dito apenas para ressaltar que isso de ter olhos em terra de cegos é, por aqui, muito mais ressaltado.

Mas ter poder é também ter acesso aos espaços de modernidade em Fortaleza. Que são guetos: shopping centers; restaurantes e cafés mais sofisticados; casas de veraneio ou os modernos condomínios horizontais, que proliferam mais a leste – e são as atuais meninas dos olhos da especulação imobiliária. Ter poder resguarda o condão de manter, enfim, um mínimo de acesso a bens culturais: o cinema, a livraria, o jornal, o café, a pós-graduação.

Notem que espaços de urbanidade, como os cafés – que se proliferaram com certa rapidez na última década – nada têm de equívocos em si. São espaços para a convivialidade e a troca de ideias. O que há de errado, no entanto, é que o acesso a eles seja facultado a tão poucos.

E, nesse universo de rebanho escasso em curral pequeno, essa demarcação de poder encontra manifestações diversas de mostrar o nariz. E, quase sempre, bastante ostensivas. Melhor seria dizer ostentatórias. De um modo mais tosco, essa ostentação se dá por aportes de consumo: lustrosas camionetas, roupas de grifes, a frequentação de certos espaços, que, para todos os efeitos, são elitizados, a reforma quase semestral da casa ou do apartamento como demarcação do nível de prosperidade da família.

Isto último, de reformas, é quase o oposto do que se vê, por exemplo, nos países europeus. Onde as características das residências – em especial nos bairros mais afluentes – são preservadas com um zelo canino. Nas áreas ricas de Londres: Mayfair, Highgate, Chelsea – há posturas municipais tão rígidas, quanto a isto, que qualquer modificação que descaracterize o padrão arquitetônico/histórico do imóvel ou o faça destoar dos demais é severamente monitorada.

Porém uma das formas em que esse poder de poucos mais se faz notável em Fortaleza é no modo como a sociabilidade se dá, para alguns, ao modo de um esporte. E esse esporte poderia, digamos, se criássemos um neologismo, ser rotulado de "vantagismo". Essa esportividade já recebeu outros nomes. Alpinismo social, por exemplo. E digamos que ela possa ser expressa na seguinte fórmula: “quanto mais agrego gente de poder à volta, mais poder agrego”. E não só pela instância do poder em si – que tem óbvias reverberações no campo da sexualidade e do consumo; instâncias, de resto tão imbricadas em qualquer lugar do mundo – todavia por explorar ao máximo certo “momento de prestígio de alguém”. Por mais ínfimo que seja.

Há uma espécie de corsariedade psitacídea, aqui. A necessidade de sair na foto. De ser o papagaio de corsário da vez. Como na maioria das ocasiões, esse prestígio é efêmero ou tem a ver com trívias passageiras: algum dinheiro a mais, uma suposta adequação à moda, o destaque por alguma ninharia ligada a prêmio ou cargo, o aspecto jovial, a "boa vibe", a aparência (ainda que se esteja caindo aos pedaços para mantê-la), no geral – tudo isso é calcado numa lógica tão efêmera quanto o endêmico selo nouveau-riche que grassa entre nossa desgraçada elite.

É talvez por essa elite que temos – uma das mais nefastas elites urbanas do planeta – que a cidade seja tão desnivelada e repugnante. Que a preocupação com a coisa pública, a começar da escola básica, assome tão amesquinhada: o transporte coletivo de bom nível, os parques, praças, o acesso a bens culturais na forma de bibliotecas públicas, museus, locais de lazer ao ar livre e comunitários, a preocupação com a memória, com a rua, a preservação do patrimônio arquitetônico, etc. e etc.

Os jovens dessa elite, nossa jeunesse dorée – como os jovens de qualquer outro ponto do planeta – possuem todo o direito de buscar dar vazão ao excesso de hormônios que vaza pelos seus poros em qualquer clube noturno no entorno do Dragão do Mar, durante seus momentos de lazer. Ou aspirar passar o final de semana em torno de um deck-bar à borda de uma piscina no Porto das Dunas, degustando uma lagosta ou entornando um bloody mary.

Faz parte.

O que não faz parte é que a coisa esgote aí. E que pela escassa dimensão dessa elite, mesmo as relações pessoais sejam tremendamente assentadas muito mais em clichês do que no convívio tête-à-tête entre as pessoas.


Isso em parte absolve os jovens. O que fazer, numa cidade planejada para o turista e não para si. Onde não há teatros, universidades realmente fortes, museus, uma efervescência cultural sadia - de alguma feição endentada no local? Reunir-se ao fim-de-semana e encher a cara, nos clubes de forró ou nas festinhas em que os DJ's que comandam a pândega seriam incapazes de compreender uma progressão harmônica de três acordes. 


E, ainda assim, há na cidade locais aprazíveis, potencialmente votados ao lazer público, mas que não são valorizados, não recebem um tratamento urbanístico. Ou, aqui e lá, uma paisagem doce aos olhos, apesar de em certos casos sequer se poder vê-la. Pelo excesso de poluição visual.

De outro modo, a ostensiva necessidade de autodemarcar-se dentro do círculo de giz dessa elite rarefeita, incentiva nas pessoas um culto de pseudo-sofisticações que tiraria riso em uma sociedade onde, de fato, se consolidou uma aristocracia de longa data. Distante desse brilhos efêmeros e, sobretudo, dessa compulsiva necessidade de se dissociar das classes mais pobres.

É claro que esse descompromisso com a dura realidade social da cidade, com sua apartação social, com o fato de haver alguns quistos de classe média em meio a uma favelópolis a perder de vista, é compensado de muitas formas. Uma delas passa pela opção de adotar expressões supostamente “regionais”. Usadas pelo "povo". O povão que comuta de ônibus nos terminas desde muito cedo. E realmente pega no pesado. E aí, esses jovens de classe-média adotam como moeda corrente a linguagem desse povão.


Para bons ouvidos, isso soa como uma espécie de 'mea-culpa'. Ou um certo flerte com um pavoroso humor que se convencionou achar de ser uma característica “local”. Como se houvesse algo análogo a um “cearensês” – ou como, de uso, tanto se vê em mensagens escritas na Internet.

E é também evidente que tudo isso refrata-se nessa sociabilidade exageradamente exaltada via o virtual, exibida com uma ostensividade quase agressiva. Não raro através de índices que agregam tantos signos de modernidade e, logo de poder, como uma necessidade compulsiva: demonstrar aos demais que se cultiva gostos muito singulares – especialmente em termos de música ou das artes no atacado. Como se pode constatar no universo virtual. Daí que celulares, tablets, câmeras digitais, pequenos gadgets, a incorporação de um inglês um tanto capenga – mas derivado em parte dessa terminologia da TI – conformem moeda de troca corrente entre essa elite escassa e autocentrada.

Muito pouco vocacionada a olhar, em desespelho, para tudo que ela não é.

* * *

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Uma necessidade de transparência


Tiago Santana, 2003




Onde o sol dá xeque-mate à tristeza

Imagens do Ceará, de Herman Lima, Edições UFC, Coleção Alagadiço Novo, 1997.

Dos escritores cearenses poucos são tão prazerosos de ler quanto Herman Lima. Não falo dos incorrigivelmente cultos, corretos, de consagrada mestria. Se você anda atrás disso, é melhor se ocupar com Alencar, José Albano, Gustavo Barroso. Os livros de Herman Lima são irregulares. Salta-se de uma página admiravelmente composta para a seguinte, onde há pedantismos, incorreções, equívocos históricos, sentimentalismo em excesso. Mas isso não o diminui. Há algo nele que só encontra paralelo no Gustavo Barroso memorialista. Algo que brota da gratuita pulsão do colecionador. É assim. Herman Lima é possuído de um afeto que quer ressuscitar tempos, lugares. Literalmente. Sem mediação de ficção.
É claro que ele não consegue. E é também em parte por essa não consecução que sua obra de memorialista se estabelece em toda sua dimensão e humanidade. Não sendo a narração o forte de Lima, ele se especializou em captar atmosferas e anedotas -- quase todas coadas num filtro doméstico. É um perito em paisagens, climas, texturas, gestos coletivos, lentas artesanias intuitivas, cores, coisas apreendidas pelos sentidos. É bem mais efetivo -- mas não menos coletivo -- quando se afasta do épico, debruçando-se sobre o concreto dos pequenos afazeres que tomam tempos longos. Seus livros celebram um espécie de etnologia poética. Sua escritura é colorida e solar. Sinestésica. De cortes rápidos, descontínuos. Essencialmente visual. Muita atenta ao digníssimo reino dos detalhes. Às polainas dos dias.
Imagens do Ceará não está sequer na primeira linha da obra de Lima. Não tem o volume e a distância de Poeira do Tempo. Não é difícil perceber no livro inadequações, descontinuidades, falhas. E, no entanto, bem presente assoma essa marca amorosa do colecionador. Esse desejo, impossível, de retorno a tempos e lugares. Ou a vontade de legar para adiante uma cidade e um tempo irremissivelmente desmontados. Um proustianismo. Escrita feita expressamente desde experiência e testemunho.
O Ceará das imagens de Lima é Fortaleza e, quando muito (um único capítulo), deriva para os sertões jaguaribanos com o Aracati na foz. É só isso.
É só isso mas está lá, repleto de sensações. Está lá propiciatório. No sentido de nos inclinar para o resgate de dimensões históricas que estariam perdidas para sempre. De distendê-las, dimensioná-las com vasto senso de inscrição no fluxo do tempo. Um dos capítulos começa com uma definição da cidade de Nossa Senhora da Assunção que é quase um hai-kai: "Fortaleza é um tabuleiro de xadrez colorido, em que o sol dá xeque-mate à tristeza o dia todo".
Pode ser. Pode ser assim, solar. Mas o centro desse espaço é o sítio da família, no Meireles. Para onde tudo converge. Para onde Lima está sempre voltando de férias. É isso mesmo. Chega a ser engraçado, porque hoje o Meireles é um dos bairros mais verticalizados de Fortaleza. Mas, em meados do século passado, quando Lima vinha do Rio em férias, o sítio -- chegando cada vez mais perto da cidade -- ainda estava lá, em sua plenitude de quinta portuguesa, nos arrabaldes. Isso aí pelos anos 50.
Do sítio se sente tudo, até os cheiros. Estão lá os cajueiros, as guabirabas, mofumbas, pinhões bravos, jatobás, o alpendre com redes de varanda armadas, a aragem do mar quebrando ao largo, o ponto de passagem para o Mucuripe, o farol velho piscando lá, acima das dunas, as lagoas que encorpam nos invernos mais caudalosos, os três caminhos de acesso a Fortaleza. O que seguia para a Aldeota, então, atingia a cidade pelo Castelo do Plácido -- hoje, cruzamento da Santos Dumont com Monsenhor Bruno. Herman Lima é uma leitura que Miguel Angelo Azevedo (Nirez) deve fazer com um prazer tanto especular quanto labiríntico.
A marca amorosa do colecionador é patrimônio de ambos. É o eixo da escritura de Lima assim como das coleções de Nirez. Neles não há sistema, mas modos de sentir. Tempos e lugares escaneados pelos sentidos. No caso de Lima, que vive num exílio compensado por retornos esporádicos, o excesso de apego quase neurastênico às coisas passadas ronda o livro à cada página. Em certos trechos, tamanhos apego e sentimentalidade ameaçam amarrar de vez as páginas entre as capas. Expulsar o leitor, em sua intrusividade. E fechar o caso. Lima sabe o quanto um leitor pode ser abelhudo. Viver metendo o nariz onde não é chamado. Embora, em certas passagens, conceda ainda mais de pessoal ao leitor do que manda a prudência. Sua sensibilidade é a de um narrador à antiga, posto à prova de novidades nem sempre alvissareiras. Capaz de depurar um acervo coletivo de sabedorias. Ele nos conta de um pescador paralítico, de uma rendeira que era uma espécie de geômetra intuitiva, de uma cozinheira que conheceu a cidade grande (Recife) graças a uma mordida de cachorro. Seu reino é o das anedotas. Seu exílio, o da nostalgia que surge não como depressão mas remendo.
Mesmo um leitor desatento, no entanto, pode perceber a fixação que Lima tem pelo pai. O carinho pelas filhas. A reticência com que fala da mãe e da esposa. A obsessão com que diz da graça das "caboclinhas" -- filhas de pescadores das proximidades do sítio ou sertanejas que viu passar, enquanto feitor de uma estrada de rodagem, ligando o Aracati ao sertão do Jaguaribe. Algo do que também vai expresso em seu primeiro livro de contos, Tigipió. E, embora sua visão dos tipos cearenses -- vaqueiros, jangadeiros, rendeiras, personagens que fazem parte da mitologia do Centro de Fortaleza -- retenha algum estereotipia, há também coisas de um observador para lá de atento. Coisas que não podem ser vendidas em separado.
O noves fora é sairmos mais conscientes do espaço. Das inflexões passadas pelo espaço no correr dos anos. Esse filtro do espaço através do tempo é extremamente bem cristalizado. E o resultado é uma fina coleção de cristais. Ou uma pilha de roupas brancas, bem engomadas, depois de estendidas no quaradouro e batidas à quartzo e luz.
Por uma espécie de proustianismo muito próprio, Lima quer remontar o passado em um outro lugar. Sob outras circunstâncias. Ao menos uma vez recomposto. Para o prazer dos sentidos. Ou então, carregá-lo consigo. E seguir sendo fiel às boas promessas que não se realizaram.
É de uma visita ao Aracati, com impressões de beira de estrada bastante bem compostas, que sai o trecho abaixo, onde se nota, ainda uma vez, a necessidade de sequestrar o passado para outro lugar. Para perto do coração:

"Três vezes, subo e desço, no correr do dia a rua longa, parando aqui e ali na contemplação de algum daqueles sobrados de azulejos, todos de quadradinhos azuis e brancos, polidos ao sol, e que dão na gente a vontade maluca de carregar inteirinhos de avião, para morar no Rio..."
[Fortaleza, 31.07.08]




Nota - Esta resenha segue dentro de um gesto mais amplo que chamo de contra-resenha. Ou seja, resenhar livros que 1. não foram recém-lançados, mas mereceriam pelo menos serem relançados, dada a sua importância; 2. não fazem parte de qualquer interesse pessoal imediato de quem resenha (ou seja, no caso, de uma coleção que eu estou editando ou que um amigo meu está editando, o que um amigo de um amigo... etc.); 3. que apenas seja um bom livro, embora esteja passando despercebido porque, entre outras, foge à categoria imediatamente anterior. Outro dia, tentei pesquisar algo sobre Herman Lima na rede. Ora, não há sequer um verbete sobre ele na Wikipédia. E olha que Lima, entre outras, foi um dos grandes -- senão o maior -- estudioso da caricatura no Brasil.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Uma necessidade de cidade


Ruy Vasconcelos, 2008



Espaço, dimensão humana:
por uma ontologia da aldeia

No instante em que as relações humanas são cada vez mais deslocadas para extensões indefinidas de tempo e de espaço [Giddens], cada vez mais sinto uma necessidade de cidade. Do volume de uma fruta sobre a mesa. Cor e aroma de café, fumaça do cigarro. Um forte desejo de transparência. Contornos bem definidos. Nitidez. Um pouco mais de conclusão. Alguém dando bom-dia. Ou certas letras em alto relevo na fachada de uma casa da rua em que moro: Pax et Bonum. Hoje nossas cartas são trocadas em virtualidade. Os jornais, lidos no espaço imponderável.

Mas essa necessidade de cidade. Ruas. Gente andando. Cambiando bons-dias. E todos os dias da cidade acumulados nesta manhã. Vejo areia de dunas e bredos-de-praia sob o asfalto. Lavandeiras pairando por cima. Lagoas intactas. O espaço da cidade antes de ser cidade.

Dia desses, passei algum tempo caminhando no quintal do velho Palácio do Bispo, ali nos fundos da Sé. Impossível, ao ver o esgoto em que se converteu o riacho em torno do qual a cidade se ergueu, não pensar no quanto o poder das comodidades modernas vem da mesma fonte abjeta que acumula toda ilimitada circunstância de vontade.

E, no entanto, muito antes disso, é preciso supor o espaço da cidade anterior a ela. Uma espécie de ontologia da aldeia.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O que mais aspiram redear


[s/i/c]



Um sobrevôo sobre Twitter


Após uma estadia de uns poucos meses, para sentir a porta nos guizos, saí do Twitter.

Explico. Nada tenho contra quem lança mão dessa ferramenta. Mas a figura adequada para defini-la é uma esponja. O Twitter suga o quotidiano das gentes: diários, lembretes, mementos, pequenos - íntimos - recados, para convertê-los em assunto público.

Por isso mesmo, repassa a sensação de um micro-Big Brother grafado. Um em que as pessoas sentem-se niveladas com o que mais almejam ser: celebridades. Ou com o que mais aspiram redear: a possibilidade de formar opinião.

Porém, se coadas, as micro-mensagens do Twitter, como das redes sociais no atacado, nada trazem de novidade. São tão-só uma ampliação de Narciso. Certa necessidade de se auto-afirmar, de assegurar aos outros que se está inserido dentro de uma teia social que, no mais das vezes, apenas reproduz, em régua milimetrada, a política institucional.

A analogia, aqui, é a da horrenda obrigatoriedade da propaganda eleitoral gratuita. Com a patente diferença de que esta propaga as propostas - quase sempre ralas, vagas e populistas - de um número consideravelmente mais reduzido de pessoas.

O Twitter não. Está aberto ao bizarro de qualquer um que disponha de acesso à rede.

Ele é uma poderosíssima ferramenta de propaganda. E uma bastante desporporcional, desde que as celebridades, que já o são fora da virtuália mais estrita, dele lançam mão para ampliar ainda mais, seu poder. E, claro, com mais brevidade. A brevidade do Twitter tem nada a ver com concisão.

Os 140 caracteres é o supra-sumo da 'informação', por contraposição à 'narração' - no senso benjaminiano. Mas na barbárie informativa em que esse dispositivo se tornou não há espaço para uma nova forma de sabedoria, tal qual entrevista por teóricos como, digamos, Agamben.

Há, isto sim, a lógica da exposição e do lucro. O Twitter é uma ferramenta indispensável para muitos, porque, além de afastá-los da auto-reflexão que só uma pequena fração diária de tempo proporcionaria, possui também uma espécie de darwinismo: os que mais são seguidos são os que menos seguem. Ou seja, os mais aptos a devorarem a mente dos outros numa cadeia de formação de opinião, são os menos afetados pelos demais. Os demais são presas. As celebridades, predadores.

O Twitter, desde sua concepção, fere avassaladoramente os princípios judaico-cristãos de compaixão e, mais especificamente, de solidariedade. Daí que, quase de modo infantil, os utilizadores queiram, via de regra, possuir mais seguidores que seguidos.

Ou seja, querem mais que os outros com eles se importem do que o contrário.

Tamanho grau de exposição pública difere radicalmente do texto literário. Este, ainda encontrou nos blogues seu canto de cisne. No Twitter, a pedra de toque passa ao largo da generosa gratuidade da poesia, da imaginação, do livro. E do tempo que é necessário para fruí-los. É por isso que sua especiosa objetividade consiste, de fato, na mais insidiosa forma de má subjetividade jamais alcançada nos circuitos virtuais.

Nele, a bizarra necessidade de afirmação de uma individualidade cosmética e plastificada chega a seu paroxismo. Especialmente num país que vem passando por uma enorme mudança na instância do consumo. A necessidade de se auto-representar como "in", pelo que se consome praticamente decuplicou. E isto eleva-se ao cubo, numa cidade nova-rica, como Fortaleza. As pessoas querem ser tomadas como "especiais" pelos iogurtes, câmeras, música ou pequeno gadgets eletrônicos que consomem. Isso tudo assilhueta o Twitter em algo, por vezes, tão sombrio, que só encontrável em certas páginas de Conrad. Ou, mais propriamente, no Livro do Eclesiastes.

O vôo do pássaro de seu logo rouba qualquer possibilidade de real tédio. Ou imersão pessoal. O tédio salutar. O tédio que aponta para "o estofo de que são feitos os sonhos". O que conduz, posteriormente à criação de artefactos carregados de uma beleza imperecível, feita das experiências de que realmente necessitamos - e são as mais amesquinhadas. Das experiências que conduzem à confecção do belo - tanto no sentido matemático - pois o Twitter é uma desmesura - como no dinâmico - porque sua mixórdia impede uma concatenação de ideias, uma vez que é ainda mais fracionado, disparatado, que a falta de correlação entre as notícias em um jornal. O Twitter é uma espécie de contra-Sublime.

Verdade, isto tudo são apenas reclamos. E a potência de uma ferramenta como esse micro-"Bog" Brother veio para ficar. Quiçá assumindo num breve futuro o aspecto de um Ferrabrás ainda mais desmedido.

O poeta Carlos Augusto Lima definiu-o como um freak show.

Não está longe disso.



* * *

terça-feira, 1 de abril de 2008

Sozinho com a cidade: passar pelos lugares é ler história inscrita no espaço


Frank Lloyd Wright, 1906



Conversar com casas

Há uma sorte de conversa íntima que você só entretece com uma cidade. E me lembro de caminhar por Fortaleza entretecendo essa conversa horas a fio, um dia depois do outro.
Minha própria noção de Fortaleza é muito limitada. E ela se faz do Centro para leste, na direção do eixo conformado pelas principais ruas e avenidas que cortam a Aldeota Velha – como dizem, em definição perfeita, alguns office-boys.
Foi mais ou menos nesse espaço que vai da Praça do Ferreira à Rua Monsenhor Bruno – e da Antônio Sales para o mar – que mais me movi nos anos em que morei na cidade. E, aqui, sim, conheço mais ou menos de cor toda seqüência de ruas e o que há de mais interessante para ver nelas. E minha geografia se estende, com pequena expansão para os bairros do Benfica, Pici, as Praias de Iracema e do Futuro. Mas também aos novos bairros do Leste – que são, no entanto e de todo, os menos interessantes, pelo menos para mim, à exceção da Cidade dos Funcionários.
Alguém já disse que os locais, as casas, as ruas, os edifícios, as árvores, as esquinas, devolvem a atenção de um olhar. Se sentem em próprio estado de diálogo, de conversa, com o caminhante que lhes lança despretensiosamente os olhos. E é assim, exatamente, que costumo a caminhar – ou mesmo pedalar – por Fortaleza. Não só como exercício físico. Mas como exercício cívico. Tentando fisgar, em meio a prédios e casas, a história dessa cidade quase à prova de história.
Algumas velhas casas da região mais antiga da Aldeota, conheço como ninguém. Se acrescentaram um novo andar em improviso. Se retiraram do muro a graciosidade das colunatas antigas. Se revestiram de ladrilhos a fachada, como se fosse um lavabo – onde antes havia um discreto chapisco cinza. Se desfiguraram de vez a forte eloquência, de sobriedade e calma, que as linhas de uma velha fachada nos repassam. Se aterraram um canteiro onde havia grama e espirradeiras. Tudo isso posso perceber de prima. Pois essas casas parecem reclamar, gemer quando qualquer dessas contrafações é cometida contra sua bela integridade de testemunho. Seu poder de evocação, quase epifânico, é o mesmo de certas velhas canções. Ou quase o mesmo de uns poucos perfumes raros, e que nos datam o tempo com digital precisão interior.
Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas, e não seus donos, fossem os vizinhos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela marquise. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos, um salão de beleza, um centro de fisicultura. Por que a necessidade desses estúpidos lambris?
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
A virtual ausência de planejamento urbano aliada à ganância e ao poder manipulador das grandes construtoras degradaram a cidade ao extremo nos últimos vinte e poucos anos. E, se nesses mesmos vinte e poucos anos, se houvesse preservado a melhor parte das belas residências da Aldeota Velha e do Bairro de Fátima teríamos simplesmente uma razão a mais de auto-estima.
Se pode até entender que muitos fatores entraram em conjunção para provocar esse desastre urbano. Mas não se pode perdoar o afã de modificar as características essenciais dos prédios e casas, deformando-os por completo, apenas em nome de ridículos caprichos pessoais ou efêmeras demonstrações novas-ricas de status. Ou mesmo de partições de herança. Deveria haver uma legislação forte e que cuidasse efetivamente disso. Mas se o fenômeno se dá a reboque de razões eminentemente econômicas, essas distorções poderiam ao menos ser atenuadas houvessse um verniz mínimo de planejamento, pois basta passar os olhos por fotos antigas para perceber que já houve mais amenidade em nosso circuito urbano.
É possível pensar, nesse ritmo, no próprio esvaziamento de funções que a casa de classe-média sofreu em Fortaleza nos últimos vinte e poucos anos. A casa não é mais um local para receber. Os encontros foram deslocados para os restaurantes e lobbies de hotéis e shoppings. Já os aniversários – especialmente os infantis – assim como os grandes eventos familiares – casamentos, bodas, batizados, etc. – foram cada vez mais transferidos de casa para os bifês. Ou se dão no salão de festas do condomínio quando casa não mais há. Bem como também, em termos de lazer, as quadras domésticas de esporte e áreas afins perderam sua importância em prol inicialmente dos clubes e raros parques e praças praticáveis; e, mais recentemente para as escolas, os centros de fisicultura e os condomínios. Além disso, as famílias de classe-média não possuíam tantos carros trinta anos atrás. E assim havia mais orçamento disponível para se gastar no zelo do imóvel. E mais espaço no imóvel para abrigar o zelo do corpo.
O excesso de carros nas ruas estreitas da cidade é, aliás, um dos fatores que contribuíram decisivamente para que Fortaleza perdesse muito do charme, algo ibérico, que ainda possuía na década de 70. Quase ninguém caminha ou anda de bicicleta por Fortaleza. Às vezes, percursos mínimos são ostensivamente perfeitos sempre de carro. E há mesmo o ridículo do número de automóveis que se aglomera diariamente, de manhã bem cedo, à Beira-Mar. E esses veículos levam aqueles que vão... caminhar. Quer dizer, para se caminhar em Fortaleza se usa... o carro.
Isso dá o que pensar. Não seria mais prudente, cívico, e muito mais ecológico passear a pé pelas imediações de casa? E isso até serviria para fortalecer laços de vizinhança e solidariedade. Já que famílias inteiras, amigos e vizinhos estariam nas ruas de manhã cedo e passando pelos espaços onde, de fato, moram. Podendo eventualmente observar e zelar pelos equipamentos públicos e até conhecer-se melhor e se organizar no sentido de apurar a qualidade de vida de seu pedaço de cidade, bem como reocupar coletivamente uma rua cuja insegurança também brota da falta de pedestres. E isso não é nenhuma utopia. E é bem fácil de atingir. Bastava que houvesse políticas públicas que incentivassem a prática de caminhadas e passeios de bicicleta em volta da vizinhança. Mas também que todos aqueles que tivessem condição ou disposição para se deslocar a seu local de trabalho de bicicleta ou a pé, o pudessem fazer, e em condições razoáveis de segurança e conforto pessoal.
Admiramos Amsterdã pelo número de ciclistas que se deslocam pela cidade, acrescendo-lhe o charme típico de uma urbe tranqüila e de alta qualidade de vida. E mal nos damos conta de que vivemos numa cidade plana. E que bastaria exclusivisar algumas vias somente para bicicletas – além de excessionar apenas aos moradores, o tráfego de veículos em baixa velocidade nessa vias – para, então, a curto prazo, atingir patamares de qualidade de vida bem mais expressivos e dignos. Inclusive por uma maior desobstução das vias de tráfego, bem como por certa desvalorização simbólica do automóvel. Fácil entender que esculpir uma cidade é uma tarefa essencialmente do olhar. Inclusive no que diz respeito à sua poluição visual.
E tudo isso é tarefa do estado, claro (até hoje me recuso a escrever estado com maiúscula). Mas, por igual, deveria passar pela boa-vontade e pela consciência e cooperação de cada cidadão de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Cada um sabendo de seus potenciais em contribuição para atingir tais metas.
Voltando às velhas casas, há mesmo uma que resume para mim esse elo entre paisagem, história e integridade. Se não me falha a memória, depois de quase cinco anos morando fora de Fortaleza, ela fica na Antônio Augusto. No próprio quarteirão que antecede a Santos Dumont, sentido sertão-praia.
Não é nada opulenta. Poderia passar despercebida para a maioria. Sequer possui um segundo andar ou um vasto jardim gramado à frente. Mas há algo nela que é realmente encantador. Essa residência, hoje ilhada em meio a clínicas, escolas infantis, salões de beleza, concentra toda um estilo de fracionar espaços que me atrai de algum modo. Algo da ruralidade das casas de chácara no bairro do Outeiro – o antigo nome de parte da Aldeota – de que nos falam autores como Herman Lima.
Há essas estreitas janelas. Geralmente ocupando, em trípitico, o espaço que poderia ser preenchido por um só, desgracioso, janelão. Estreitas janelas guarnecidas por venezianas, naturalmente. Estão à esquerda, na fração da casa que avança em bloco sobre o pequeno vão de jardim, que a precede. Há um alpendre em L, que se estende por todo flanco direito. E nele se pode entrever o móvel conforto de redes avarandadas. Há também esse jardim lateral, contíguo à ala direita do alpendre. Esguio e bastante fechado por diversas árvores, ao modo dos antigos caramanchões. Vertendo sombra e conforto para uma faina doméstica e sem fim.
Me espanta um pouco o tanto que há de história naquela casa. Não conheço seus donos. E nunca parei para tomar qualquer informação a respeito dela. Mas, a cada ocasião em que, nas minhas caminhadas, passo em frente a ela, sinto o quanto ela convoca meu olhar. Posso intuir, secretamente, seu misterioso poder de passado e dignidade. A eloquência do que ela testemunhou ao longo de tantos anos. Há uma outra casa assim, só que infinitamente mais triste, numa dobra de esquina, por trás da Escola Normal.
Sei que muito do que toco neste texto são apenas reclamos, e que mal serão ouvidos. E é um pouco inútil chorar o leite derramado. As casas e as edificações que foram postas abaixo ou desfiguradas não vão renascer de seus alicerces. Elas foram derrubadas para sempre. Ou desfiguradas sem remissão.
Mas, desde sempre, para minhas próprias palavras – em meus livros, contos, poemas, letras de música – quero criar um espaço semelhante ao delas. Quero que minhas palavras se organizem dentro dessas densas formas da história. Dentro dessas estreitas janelas, dessas móveis venezianas; desses alpendres laterais vazados para o trabalho dos dias e o brinquedo das noites; dessas redes com varandas; desses caramanchões e latadas. Em certo sentido, sempre dentro dessa perspectiva de sítio ou chácara, pendendo para rua. Algo que indica a própria motivação inicial do bairro em que, por primeiro, residi em Fortaleza. Algo que está nas fachadas e no grau de testemunho e companhia dessas velhas casas, a nos ensinar um caminho mais íntegro. Ou mesmo algo mais lúcido sobre nós próprios e nossa integridade e história enquanto povo
E, então, quem sabe, essas casas e essas palavras nos possam, de novo, nos indicar um futuro mais liberto de ganância ou lucro fácil.







Nota – Artigo originalmente publicado em O Povo. Em 2000, quando o texto foi escrito, eu estava morando em São Paulo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


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Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

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domingo, 24 de junho de 2012

Dois sinais na perna esquerda de um n caído para a esquerda


A Promenade, o calçadão à beira-mar em Split

A Placa (ou Stradun), emDubrovnik, pérola do Adriático

Duas cidades na Dalmácia concluídas numa frase 
Oliveira, vinha, montanha, mar: o litoral mais belo da Europa

A Croácia é um N em direção ao Noroeste. A perna esquerda desse N caído segue, por sinal, roída. Ou foi mal apagada: desfaz-se em farelos. Esses farelos estão na água: são ilhas. Elas são mais de mil. Perto de uma dessas ilhas está Split, na costa da Dalmácia. Perto de outra, Dubrovnik [os croatas pronunciam proparoxitando: Dúbrovnik].

Split, que é a maior cidade da Dalmácia, vem de um colônia grega, Spalatos. Mas seu núcleo central remete a um palácio mandado erguer pelo Imperador Diocleciano, no séc. IV d.C. Hoje em dia, dentro do que foi esse palácio erguem-se cafés, lojas e até a catedral da cidade. A baía é um mimo. E a avenida peonal à beira dela, a Promenade, um projeto exemplar. Essas cidades guardam algo de uma escala urbana que desconhecemos. Quer dizer, onde há muita urbanidade dentro de pouca área e ao longo de toda ela. É uma concentração de serviços uniforme, inversa ao de nossas metrópoles imensas, caóticas, desiguais.
Split não conta com mais de 800.000 habitantes. Mas isso na conurbação. A cidade em si é muito menor. E, contudo, há museus e boa arquitetura para o lado em que se teimar ir. E para qualquer lado onde se vá, montanhas suaves metidas em entradas de banho. A colina mais alta, junto ao porto, chama-se Marjane. E há essa canção, muito popular entre os partisans iugoslavos da Segunda Guerra, que é cantada até hoje: "Marjane, Marjane".
Num enclave, 230 km mais ao sul, vem o clímax: Dubrovinik, a Pérola do Adriático. É não menos conhecida pelos antigos como Ragusa, cidade-estado satelizada por Veneza, mas que chegou a competir com a metrópole à época em que a rota das especiarias fazia a glória do Mediterrâneo.
Pela força de sua astúcia, Ragusa sobreviveu séculos entre grandes potências - como a República de Veneza, o Império Otomano ou o Império Austro-Húngaro. Seu corpo diplomático fez história. Fortunas cumularam-se nos porões. Dubrovinik recebeu um considerável contingente de judeus portugueses no sec. XVI. A sinagoga – que é ainda referida por “sinagoga” (como em Amsterdã ainda há a “esnoga”) - guarda referências dessa migração sefardí. E Dubrovnik, apesar de haver sido destruída por um terremoto no sec. XVI e atingida por bombardeios na Guerra de Independência (1992), constitui um dos mais orgânicos e admiráveis exemplos de cidade medieval murada, na Europa.
Com não mais de 50.000 habitantes, a pequena cidade – que, não obstante, é servida por um aeroporto internacional - triplica de população no verão, quando é literalmente tomada de assalto por alemães, italianos e ingleses, sedentos pelo sol, pelas praias esplêndidas - de seixos ao fundo e água cristalina.
A Placa (ou Stradun), como é conhecida a rua principal da cidadela, em Dubrovinik, não tem mais de três quarteirões. Porém constantemente palmilhados por hordas e hordas de turistas, a ponto de haverem polido as pedras calcárias que revestem o leito da rua. Toda a parte antiga é vedada à circulação de veículos. De um lado das muralhas, barcos e iates oscilam suave na calma baía. No oposto - pois a cidadela ocupa uma pequena península - as ondas quebram violentamente contra as muralhas que escalam os arrecifes. Adiante há ilhas alflorando no mar. E montanhas do lado do continente, por onde também se espalha a zona mais moderna da cidade. Alguém bem-humorado, certamente visando a combinação entre montanha, mar e outras formas rotundas, rebatizou uma das praias circunvizinhas de Copacabana.
Mas, se falta algo da alegre solaridade tropical do Rio a essas praias recortadas e crespas - como decerto sobra algo ao risco comportado do biquíni das garotas locais - a paisagem ao longo do litoral de Split e Dubrovinik, estendendo-se até a Baía de Kotor, já em Montenegro, com suas ilhas, enseadas, istmos, golfos, canais, angras, estreitos e penínsulas, sitiados por montanhas e dominados por antigas cidadelas medievais - onde sobressaem e sobrepassam-se torres e campanários (ou ainda ruínas romanas e gregas) - é de descoser a tênue linha entre sonho e vigília, quando o sol é suave; seja ao fim da tarde, seja principalmente ao amanhecer, que acerca as praias desde a silhueta das colinas.


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Nota - havia lido muitos tuítos ao longo da tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que dava uma espiada no jogo da Eurocopa (Espanha 2x0 França). Aí, cansado do tanto de esforço - de resto inútil - que as pessoas fazem para soarem lapidares, epigramáticas no Twitter, veio essa necessidade de escrever um texto em que pudesse jogar o pensamento numa frase longa. Como a última do texto acima, que ocupa um parágrafo inteiro. Pois as pessoas parecem esquecer que mesmo o estilo conciso, quando jogado de qualquer jeito (ou seja, quando mal jogado), apenas aborrece. E que escritores como W. G. Sebald esticam-se por períodos que seguem por páginas e mais páginas. E é o que há de delicioso, por exemplo, quando se lê um desses cronistas do Quinhentos. As frases parecem não ter fim. E, logo, não fazer sentido. Mas, do contrário, fazem muito. Fazem todo. E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição. Sua relação com as outras frases e a totalidade do texto. Eis porque cansa ler textos jornalísticos hoje em dia. Eles estão tão vendidos à necessidade da inteligibilidade, da economia de tempo e espaço, da exatidão, à serviço da informação e da comunicação mais rasteiras e imediatas, que não há mais lugar algum para o calor de um pensamento menos entregue à venda. Mais misterioso, místico, intuitivo. Mais sinestésico. Perto do coração selvagem. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Só o realismo resguarda a empatia dos perigos do cinismo e das ironias ocas


Francis Bacon, 1949



Para passear por fora do próprio crânio

The most obvious, ubiquitous, important realities are often the ones that are the hardest to see and talk about. [David Foster Wallace]

Os perigos de pensar que o estético é auto-suficiente é também o perigo de desistir da perspectiva realista em arte.
É o momento terrível de se pensar que se perdeu de uma vez e para sempre as chaves de decifração do mundo. A possibilidade de contato com ele. É contra isto que se insurgiu a mente brilhante de, digamos, um David Foster Wallace. Ele percebeu algo contra o qual se insurgir em sinceridade: o cinismo e a hipocrisia contida na estética de alguns dos prosadores pós-modernos que vieram antes dele, por mais brilhantes que fossem enquanto escritores dotados de uma técnica: Pynchon, DeLillo, Coover, Burroughs, Gaddis, Barth.
O experimentalismo em arte não pode se auto-nutrir. Ou ser feito deixando os outros de fora. Os outros estão no mundo, concretamente. Ainda não existe um corpo virtual. Não se pode escolher uma outra humanidade, virtual, para conviver com ela nos termos ideais que se deseja por capricho ou volubilidade.
Ora, deixar os outros de fora, equivale a deixar o mundo de fora. A se estar completamente vedado dentro de si mesmo. Sem um canal de comunicação com a realidade que passe pelo mínimo poro do corpo. O que sai do devaneio narcisista, do fechar-se-sobre-si a partir de referências livrescas ou profusocitações, de alguns, é apenas ruído. Narcisismo inconsistente, vanguarda árida, dandismo inconseqüente. Mas não arte. Ou sequer pensamento estruturado em honestidade.
Esses prosadores pós-modernos, de início, tinham uma missão que parecia de todo razoável. Sua missão era a de denunciar que o modo realista como a literatura estava tentando traduzir o mundo, à altura dos turbulentos anos 60, era equívoco – porque suas convenções já estavam desgastadas, rotas, cansadas, convencionadas e aclichesadas demais – para dar conta do mundo. Então, era necessário apontar essas fissuras e debilidades. Ou o modo como elas eram tomadas em naturalidade. Mais ou menos como o cinema de montagem “invisível” hollywoodiano foi denunciado pela perspicácia dos “jovens turcos” franceses, do cinema-novo.
O que tornava o realismo clássico – bisneto de Flaubert, neto de Joyce e Hemingway, filho de Bellow – inviável para a época, era que a própria realidade já nem de perto era a mesma dos tempos desses heróis do modernismo. As sentenças criptográficas de Pynchon; os artefatos auto-canibais de Coover; as intrusões narrativas de Barth, o cinismo programado de Borroughs, tudo isso se arregimentava para estilhaçar a hipocrisia de uma sociedade pós-industrial complexa, monstruosa, excessivamente afeita ao consumo, à abundância, ao mesmo tempo que desprovida de qualquer idéia de sacrifício por parte do indivíduo. O ponto é que ao desenvolver tal projeto, essa geração de escritores conseguiu apenas legar a seus leitores e epígonos hábitos de escrita e normas estilísticas como um valor em si. Ou seja, a segunda parte do caminho, o reencontro com o mundo, restou secundarizada e amesquinhada no processo. Ou simplesmente não existiu.
Portanto, esses prosadores, de meados dos 60 aos 90, se empenharam mais em denunciar a má representação do mundo por uma realismo cansado – tarefa negativa – do que em achar uma alternativa possível para essa representação. E, assim, a meio-caminho ficaram presos, siderados pela própria perspicácia de sua denúncia. Deslumbrados com suas habilidades de artesãos da denúncia. Como artesãos eles agiram, malcomparando, como carrapatos: sugaram o sangue do cavalo que parasitavam – e que se chamava realidade – mas foram incapazes de plantar seu próprio de comer no solo dessa realidade-cavalo. O mundo foi abandonado em favor de um universo estético fechado, repleto de devastadoras ironias e cinismos sem referencialidade. Uma grande farra estética. Vigorosas demonstrações de virtuosismo, como naqueles longos solos de guitarra onde, por vezes, há mais datilografia veloz que propriamente melodia, paixão, engenho e algum sentimento humano: seja suave, seja sonoro e furioso.
Esse louvor da arte como um valor em si (no fundo, aurático, religioso – e logo, idólatra –) é a mesma pasmaceira que se nota em alguns artistas por toda parte hoje em dia. [E, inclusive, claro, também aqui pelo Brasil, em diversas áreas: poesia, audiovisual, dança, artes plásticas, etc.]. Artistas que, cheios de ilusão – e não de fantasia radicada no real – entendem que o pequeno mundo que constroem dá conta de ler as realidades que estão lá fora. Ou ainda pior, estão convictos: é impossível lê-la.
O ponto, aqui, é que as obras gestadas por esses artistas sequer se põem a serviço de apaziguar o espírito do próprio artista que, mesmo sem nelas acreditar, necessita continuar elaborando-as “daquela” maneira niilista para não se ver face a face com sua própria hipocrisia ou mediocridade. A renúncia ao realismo – a um realismo complexo, sopesado, buscado, de nova estirpe – conforma também um auto-consumo da própria arte como uma sorte de droga em nada diferente do tabaco, do álcool, da maconha, da cocaína, da heroína, do blogue como purgação do tédio, do fumo de mascar, das horas na academia esculpindo o corpo, das telenovelas ou das bandas de forró que soam uníssonas.
Dependência que vive de si. Para si. Que causa paralisia. Que é vício, não virtude. Engessa. Mesmo quando se pensa estar produzindo feito um escravo de Jó. Essa dependência torna o artista incapaz de saltar para fora de seu ciclo auto-semovente. De seu umbigo repleno de hedonismos, bocejos, ironias e pseudo-sofisticações. Artefatos exóticos, esquisitos – supostamente bebidos em fontes da cosmópolis, porque alavancados pela internet –, mas formalmente ocos é o que surge desse deplorável mundo novo em que o artista posta em segundo plano o que é necessário em favor do como é necessário.
Uma perspectiva maneirista, fechada sobre si mesma. Tumular. É nessa perspectiva, amaneirada, afrancesada nas idéias, muito afeita a sofisticar coisas simples, que muitos optamos por viver. Dos nacos de uma linguagem prolixa, que, apesar de criar conceitos em espantosa voragem, não resiste quando é torcida pelos dedos ásperos do cotidiano – como se torce café num daqueles velhos panos enodoados pelo uso. Aqueles que por mais que se lave, ainda se fica com impressão de que a alma dos grãos de café nele restam como por um golpe de inércia ou pela misericórdia do ato enquanto rotina inescapável.
Porém há mais dignidade nesse pano enodoado pela necessidade de se fazer, diariamente, com paciência e método, com experiência, uma boa medida de café, forte e aromático – para se saborear melhor a manhã antes de se lançar à rotina dos dias – do que nessas trívias espúrias de tornar a arte o lenitivo químico da vez: tolas instalações de panos ou lençóis pendendo de um varal, por exemplo.
A questão aqui é que o varal da instalação não resguarda um segundo moral do varal real, em que a lavadeira estende com mãos rachadas a sua roupa recém-lavada. Porque são precisamente as ranhuras nas mãos rudes da lavadeira, grossas como uma casca, o que empresta dignidade ao lençol que a brisa agita, feito uma bandeira branca sopre o capim da várzea à volta da lagoa. É o costume, a rotina desse estendimento o que não vaza para a instalação. O gesto do costumeiro. O relógio das tarefas longas e pacientes, onde o amor reside de modo tão pouco atraente. Porque as verdadeiras formas do amor nada tem de glamour. Pois, sendo as mais belas, conseguem ser também as mais úteis.
E, portanto, são essas as mãos que sempre ficam do lado de fora das instalações. Justo as que mais precisariam ser internalizadas, porque conhecem seus assuntos desde dentro, a ponto de serem só um com eles. E, logo, a instalação se situa milhas náuticas de distância de qualquer possibilidade de interação com a história e com o passado comum. Afinal, “o mundo não pode ser representado ou revelado”.
E é pensando por aqui que também se pode divisar: não se pode assumir o mundo como capricho. Com o espírito do volúvel. Do tipo, resolução repentina: agora vou inovar. Ou isso é ingênuo demais, ou embute má-fé. Má-fé consciente ou sub-reptícia. Mas mesmo quando sub-reptícia, ela se vai explicitando, ao longo das horas, dos dias, dos anos. As possibilidades de uma inovação verdadeira, em arte, sabemos, são escassíssimas. E radicam também num mapeamento do local. O local aqui no sentido mais prosaico: os vizinhos, o boteco, a rua, o bairro, a cidade, as palavras que te cercam.
Toda a vontade legítima de inovação aponta para um ângulo inevitável: a superação do que já foi feito. Ora, superar o que já foi feito, ou, no mínimo, expressar-se com a unicidade de uma voz achada, requer horas queimando pestanas e apurando o que de melhor já foi gestado, imitado, jogado, brincado, citado, digerido, variado, tresvariado, dissonado, etc. E isso vinculando a área específica em que se age com o contexto amplo, macro, do atual, da circunstância. Mas, aqui, pelo menos, há duas coisas: 1. a necessidade de se aprender com o passado – única possibilidade real de se estar no presente de modo alerta, à altura do presente e 2. ascese (que, originalmente em grego quer dizer “exercício” e, portanto, rotina, esforço continuado e também atenção – no sentido de concentração extrema, extática: êxtase).
A raiz da palavra ascese não indica apenas o esforço do místico para se lavar das impurezas do mundo, mas, indo bem mais longe, um exercício capaz de tornar esse mundo mais cômodo e habitável. Fruível. Também para os outros. O custo disso está encascado na mão da lavadeira. Mas é só por conta dessa casca que o mundo torna-se um lugar menos insalubre para os que virão depois de nós. Sobre esse segundo ponto, o da ascese, Auden nos diz que “rotina num jovem é sinal de [boa] ambição”. Sobre o primeiro argumento, o da necessidade da memória e do passado – de onde se decalca, entre outras, toda a obra de Benjamin – há a afirmação de outro mestre alemão, Karl Kraus: “o historiador é como se fosse um profeta olhando para trás” (e quem aqui não lembra, é quase automático, do Agelus Novus benjaminiano?). Mas claro, só após esse exercício das articulações do pescoço, do olhar para trás sem virar estátua de sal, é que se pode divisar melhor os próprios dias que correm. Os dias em que moramos, no dizer de Larkin.
George Oppen, escritor acima de qualquer suspeita – pois passou quase 25 anos sem escrever poesia porque havia coisas “mais importantes” onde empregar as mãos – é um testemunho disso. Quando o poeta Richard Wilbur insinua que é preciso afastar-se da esfera do discurso – ou seja ocupar-se com experiências que nada tem a ver ortodoxamente com a área lingüística, da poesia, para poder retornar à poesia com a precisão do artesão – ele está também indicando que não se pode escrever a não ser a partir de experiências sedimentadas com o mesmo vagar com que os detritos, os pequenos seixos, o cascalho, as cracas, ostras, algas, sargaços, restolhos e restos de mariscos se deitam no leito de um rio, ao longo de anos, décadas, séculos – tempos sem tempos – conformando o próprio leito do rio. Tornando-se um com ele. Em causalidade e tempo longo. Ao mesmo tempo ele e sua memória. Eis a imagem para o artista e sua arte.
Na escrita – ou em qualquer outra linguagem – se dá o mesmo. E esse sedimento de experiência, essa crosta do já vivido, é tão preciosa quanto a própria vida do artista, porque assenta nas suas reminiscências. Cair na ilusão de uma arte que sai de tua cachola sem relacionar-se com a concretude – inclusive material, apalpável, farejável, degustável, visível, memorável – do mundo é conversa para um rebanho de búfalos cochilar, mesmo se com os cascos afundados na lama mais densa dos charcos e igarapés – com vivazes vitórias régias e profusos aguapés – da Ilha de Marajó. Tentar tornar arte e memória, arte e história compatíveis é uma das poucas tarefas que restam a um escritor, a um artista. Foge da gratuidade de uma arte que se compraz apenas de virtuosismos irônicos e jogos de estilo.
O resto, é recepção acrítica de teorias da recepção, classes de redação criativa, escombros do politicamente correto e as prolixas lições pós-modernistas à francesa.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um conto, um porto, um ponto de partida

Aspecto de Camocim, em maio de 2008



O Prefácio do Mar


Em algum lugar, que prefiro não buscar com sistema, na obra de Simone Weil, ela nos diz que “a cada forma de ser da alma humana corresponde algo físico. À tristeza corresponde água salgada nos olhos”.

Posso tomar isso como ponto de partida. Como porto de partida para buscar entender minha relação com o mar. Nascido diante de uma água que é quase mar, mas não chega a ser mar, porém um prefácio de mar – porque o estuário, a foz de um rio – minha relação com o mar nunca foi das mais plácidas. E no entanto, algo de uma centralidade e presença absolutas para minha constituição não só como escritor – o que, convenhamos é algo menor – mas como gente.

É algo menor como escritor, porque como nos diz Nicolas Bouvier: “não é o fato de ser escritor que nos propõe as questões, mas o fato de ser”.

Então, uma das coisas que mais aprecio vem do fato de provir de famílias, tanto pelo lado materno, quanto paterno, que, ao mesmo tempo extraordinariamente litorâneas - onde a água, seja salgada, doce ou salobra verte-se por todos os poros - gostam de contar histórias. E onde o senso do passado é quase espontâneo, ininterrupto como o bater das ondas. O regime das marés. É como respirar ou fritar um ovo. Desconhecendo qualquer antagonismo em relação ao presente. Uma sorte de continuidade. Em que os mortos nunca estão totalmente mortos. Do contrário, assomam bastante suplementares em relação ao agora.

Nos únicos dois anos em que meu pai passou, por dever de ofício, em uma cidade longe do mar, longe das marés, da rebentação, ainda solteiro, foram torturantes para ele. Nunca que ele disse isso abertamente. Mas isso de dizer coisas abertamente não é de seu feitio. É preciso pescar esse mal-estar a partir de brechas em anedotas e pequenos fatos, que narra. E nessas anedotas há uma espécie de tempo cristalizado. Mas cristalizado a partir de referências tão concretas – da paisagem ou da atmosfera das cidades de ao final da década de 50 – que para bom entendedor, meia-palavra.

Desse senso de contração do tempo em pequenas anedotas cristalizadas – relacionáveis entre si, notáveis pela sabedoria ou humor latentes – e dessa contação de micro-histórias, em ondas sucessivas, em diferentes épocas, sobre diferentes aspectos mas envolvendo quase sempre esse prefácio de mar, essa mesma paisagem ou algo relacionado ou relacionável à ela – deriva um mar de histórias em família. O mar de histórias que me forneceu a vontade de recontá-las. Porque sentia a necessidade de, ao refletir sobre elas – por senti-las minhas, no fim das contas –, tentasse delas retirar algumas gotas. Algumas gotas de algo que está completamente fora de compasso: uma espécie de moral. Ao modo das fábulas.

Talvez não se deva, aqui, falar de um mar de histórias. Porém mais propriamente de uma foz de histórias. De um estuário de histórias. A evocação desse passado profundamente enganchado numa circunstância ao mesmto tempo local, mas que sempre impele para além, foi o que me abriu um caminho. Para um devir não só abstrato, mas geográfico, extremamente concreto. Pois que não se refere só ao presente ou ao devir, mas sobretudo aos tempos passados, vivificando-os. Mas também – e isto é pedra angular – a algo alcançável pelo olhar, pelos sentidos. Um prolongamento material dessas histórias.

Daí que eu possa perfeitamente pensar o porto de Camocim, onde nasci, sem mim. Ou seja, quando eu ainda não existia. Não era. Até porque na limpidez de suas praias, nos tempos da infância, havia um resto desse “não era” bastante visível; depositado na forma de areais, seixos, conchas, búzios, vieiras, cracas, ostras, recifes, corais que estavam lá, às camadas, há séculos, como nos sambaquis, muito antes de eu nascer.

E havia também uma diferença entre o prefácio de mar, que era o estuário do rio, e o mar aberto, o mar oceano.

As águas da foz do rio, como limiaridade composta – ao mesmo tempo salgada e doce (salobra para todos os efeitos) – eram ao menos tão importantes para mim quanto o vasto mar aberto. Entre outras coisas por me ligarem a uma paisagem exuberante que se encontrava na outra margem, conformando, assim, do contrário, mais algo que me aproximava ao modo de estrada dessa paisagem – de dunas e mangues, de vastas luas cheias erguendo-se a leste sob a bela espessura dos mangues ao prenúncio da noite – do que algo que me separava disso tudo. E tendo a entendê-la como uma paisagem que ensina a sintaxe do local por contraposição ao Atlântico, que se abre para a África e a Europa – e, logo, para um mundo mais vasto, fora do alcance da minha vista. Perceptível, num primeiro momento, apenas pela mediação da foto, do filme, da enciclopédia, do dicionário e, após eu ter cinco anos, claro, da TV.

O mar aberto era o livro aberto. O outro lado do rio era o caminho concreto, ao alcance da fala. Esse prefácio de mar era um caminho. Um caminho para aquilo que qualquer camocinense designava como O Outro Lado. Como se, aqui, se tratasse do outro lado do mundo. Ou da própria vida.

E, claro, o modo como se chegava até esse outro lado, esse avesso, esse contrário, onde sequer havia cidade, onde tudo era natureza, uma “não-cidade”, dava-se através das águas. E a forma de chegar até ele, sua mediação, não era o livro – como no caso do mar aberto - mas a canoa. A canoa que porta o nome de uma mulher. E, portanto, guarda todo o mistério do mundo. A despeito de gerá-lo. Ou por isso mesmo. Uma vez que as causas últimas das coisas são indevassáveis.


No fim de tudo, pode-se concordar com Gérard de Cortanze quando ele nos avisa que um "escritor se mobiliza para pisar o país do silêncio: o da reconciliação com suas origens e suas leituras da infância". 


Do anyone need to go further?





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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ARQUITETURA INTUITIVA DA ALDEOTA


Na década de 70, qualquer sinal de uma região mais comercial se extinguia à altura da Rua Barão de Aracati. Havia, na esquina com a Av. Heráclito Graça, um terreno baldio de um lado, com alguns eucaliptos, e do outro uma revendedora da Volkswagen - que lá está até hoje. Essa revendedora demarcava o último sinal de comércio mais amplo à leste da cidade. O que se seguia era um bairro de casas. Essas casas eram ajardinadas. E havia um grande cuidado com esses jardins. E se cuidar de jardins é um índice de bairro residencial, a Aldeota dessa época era essencialmente para morar.

Algumas árvores eram muitas populares, então. Castanholas, oitis, fícus, mangueiras, algum pau-brasil e, posteriormente, jambos e acácias emolduravam as ruas. Nos jardins, além de diversas espécies de gramíneas - algumas delas não mais em uso - era comum se topar com espirradeiras, coqueirinhos, crótons e roseiras. O destaque eram papoulas de espécimes diversas, quase sempre em renques calcados contra os muros - que ainda eram baixos e, em geral, chapiscados. Mas havia também árvores mais exóticas, como pinheiros - muito cultivados durante certo tempo e um tanto na contramão de sua aclimação.

Pela Av. Santos Dummont seguiam as casas mais aristocráticas. E também algumas das mais antigas. Elas ficavam entre a Praça do Cristo Rei e a Avenida Barão de Studart. Algumas ainda com um certo traço de rústica ruralidade. Essas possuíam um só pavimento e aqueles alpendres laterais, suspensos por vigorosas colunas arredondadas, de alvenaria. Mas também, quando mais achalezadas, os alpendres findavam em uma treliça de madeira com algum arabesco simples, e as colunas eram esguias - fossem de madeira ou metal. E transmitiam uma certa atmosfera ferroviária, vagamente européia. O certo é que pareciam mais com casas de chácara do que de cidade. E são elas que estão na própria raiz do bairro, que antigamente não passava de um ajuntamento de chácaras, quintas e sítios para o fim-de-semana. Um conceito, aliás, bastante ibérico. E como tudo que é ibérico, quase varrido do mapa na Fortaleza de hoje em dia.

Mais recentes que essas, eram as casas em estilo mediterrâneo. Geralmente assobradadas e transmitindo uma certa sensação de solidez e peso. Os jardins eram amplos, guarnecidos por sebes, e a varanda da frente se reproduzia acima e nas laterais. Essas varandas eram suportadas por colunas maciças, e que deixavam vãos de consideráveis tamanhos entre si - embora limitados por pesadas sobre-paredes. Alguns elementos europeus se faziam presentes, como os olhos-de-boi. E havia uma certa compulsão para formas rotundas. Todas elas transmitiam peso e alguma dose de calculado terror.

A geração seguinte eram casas de feição mais americana. Talvez as primeiras riscadas pelos arquitetos que se diplomaram na escola local. As varandas quase desapareceram. Legaram espaço para uma coberta lateral onde se podia pôr o carro. Um espaço que, então, se conhecia como descansa-carro, geralmente antecipado por pérgolas. Mas a garagem era ainda avulsa. Os telhados armavam-se em águas simples e ângulos pronunciados, com destaque para os beirais largos e acolhedores. As janelas ocupavam vasta área. E não eram incomuns imensos janelões correndo sobre trilhos.

Depois dessas, e um tanto no influxo de Brasília, sobrevieram casas modernistas. Algumas belas. Outras excessivamente moldadas em concreto para serem belas. Brutalistas em excesso, num clima que reclama mais vazamento de varandas que bloqueios em cimento armado.

O comércio no meio de tantas casas, quando muito, se limitava a uma bodega na esquina. Os termos ainda eram esses: bodega e mercearia. Há uma secreta integridade nesses nomes. Eles são muito distantes de shopping ou mall. Bodega, em espanhol, quer dizer mais "adega" que qualquer outra coisa. Mercearia também não fica por menos, provém direto do latim merce = mercadoria (de onde mercadejar, mercantil, mercado etc.). Essa proximidade entre palavra, radicalidade histórica e espaços não é desprezível.

Mas havia também um tempo lento e católico naquela Aldeota. Ela era menos leiga e esse tempo se amplificava nos domingos e dias santos. A própria luz que descia sobre os gramados parecia incendiar o dia com mais lentidão. Longos domingos em que se respirava um sabá.

O dia mais morto na Aldeota - em Fortaleza, suponho - era Sexta-feira da Paixão. O mundo parava. Ainda mais que nos domingos. Não se ouvia música. Não se ouviam passos nas ruas. Não havia qualquer expansão de gestos. Hoje em dia, não se tem noção do que representava um luto fechado como o daquelas sextas-feiras. Estamos excessivamente escolados em nos prover 24 horas ao dia já faz algum tempo. E esses certos dias da rememoração pulverizaram-se na uniformidade shopping-center do dia-a-dia presente.

Não tenho nenhuma saudade daquele tempo em si, ou do bairro como se organizava então. O menor traço de recolheita. Certamente era mais tranqüilo do que hoje. Tenho, sim, saudades do que não aconteceu para melhor a partir daquele tempo e daquele espaço. Não acreditando em progresso e sendo bastante simpático a coisas que nos ensinam pela permanência, é claro que penso que a verticalização não foi uma boa saída para a Aldeota, assim como a excessiva mercantilização do bairro. E creio que o futuro poderia ter sido mais generoso com a Aldeota ou com Fortaleza em geral.

Mas depois que, no início dos 80, se desmatou uma perna de mangue e por cima se ergueu um shopping de ares monumentais, a melhor ponte para um futuro digno de Fortaleza foi desmontada. Claro que isso se reveste de uma estratégia política. Ou mesmo geopolítica, se quiserem. Mas, nesse ritmo, apenas se atolou na lama mais infecta a possibilidade de dotar de dignidade a memória da própria cidade. O Iguatemi apenas amesquinhou o Centro, a Aldeota, Fátima, e bairros mais antigos, como o Jacarecanga ou o Benfica.

Nada de tão singular. As elites brasileiras reproduziram a mesma estupidez em todas as outras capitais do país. Da Barra, no Rio, à Beira Mar Norte, em Florianópolis. É a mesma necessidade de se alienar da memória - como se de um esqueleto dentro do armário. Quando se cometem crimes, não deixar vestígios é a única possibilidade de prosseguir cometendo-os. Essa é a lógica que desfigura nossas cidades quando elas estão prestes a esboçar um sorriso.

Fortaleza não é exceção. Então, as saudades vão não para o que a Aldeota foi. Mas para o que Fortaleza não é.



Ruas da Aldeota

perfeitas de carro
essas ruas não são

nada, a não ser o
branco do olho

mas se vistas
a pé, à sombra

espessa de oitis
o olho a seguir

na luminosa tarde
as velhas fachadas

as formas da história
uma senha de noite

cai sobre as palavras



Nota – o artigo “Arquitetura Intuitiva da Aldeota” foi inicialmente publicado em O Povo [31/12/2002] e na revista de arquitetura Vivercidades (Rio)[17/01/2003]. O poema “Ruas da Aldeota” [1999] foi publicado em revistas diversas, e também no Caderno: uma literatura sem livros [2006], editado por Eduardo Jorge Oliveira para o Núcleo de Literatura da Funcet. Em geral, há a tendência de se ler o “perfeitas” no 1º verso do poema como adjetivo. Nada contra, mas eu, pessoalmente, leio como flexão do verbo “perfazer”. “[Quando] se perfaz de carro as ruas, elas não são nada, a não ser o branco do olho, etc”. Há uma tendência – tão ancestral quanto a própria poesia – de se não dirimir ambigüidades. As literaturas contemporâneas acham o máximo isso de ambigüidades. Mas eu não sou contemporâneo. E posso ser muito mal-humorado. E, por vezes, é importante que, ao menos, o leitor esteja a par das ambigüidades – ou seja, de outras possibilidades de ler um poema.