sábado, 10 de janeiro de 2009

A Nobreza do Porte


[s/i/c]



Ornitologia


Venho de uma família de ornitólogos amadores. Até onde onde sei do riscado, a linhagem desce de meu bisavô, ainda nos tempos do Império, que, apesar de republicano e abolicionista, ainda teve escravos domésticos, mas não passarinhos em gaiola. Meu avô, que morava numa chácara, nela não facultava o uso de baladeiras. Gostava de fotografia. De ouvir dobrados. Colecionava selos. Graças à Deus, não teve mais escravos, domésticos ou não. Costumava envergar ternos brancos, chapéu. Cheirava rapé. Foi possivelmente o homem mais alto que vi na infância. E apreciava observar pássaros e ninhos. Tinha binóculo, lupas, amostras de plumas.

Já meus pais são tão zelosos quanto a essa coisa de passarinho por perto que, ainda hoje, diariamente dispõem sobre o piso de ardósia do jardim uma porção de alpiste e outra de farelo moído. E espetam nacos de banana em ganchos sob a goiabeira ou o abacateiro. De manhã cedo, o jardim fervilha de pássaros. Certa ocasião, uma fogo-pagou teve um problema na pata. Trataram-na durante algum tempo com zelos, insopesáveis cuidados. Ganhou brevê de vôo. Foi solta. O ponto é que volta e meia, ela retornava em visita. E entendia querer entrar de novo na gaiola em que restou por convalescença de tão bem tratada que foi. Mas eles trataram de dissuadi-la, com certa suave inospitabilidade. Finalmente, ela chispou. E hoje já deve contar com avultada milhagem pelos céus do planeta.

Aqui por casa aparecem bem-te-vis, sibites, fogo-pagous, bicos-de-lacre, pardais, azulões. Nos últimos tempos, lavandeiras, que trotam pelo chão, mais do que se empoleiram nos galhos. São pássaros de beira-mar. O que acho um tanto insólito, pois estamos há quase dois quilômetros da praia. Isso me faz lembrar de um amigo que diz, vai mudar-se de Fortaleza antes de 2010, porque um profeta, que apareceu no Fantástico, vaticinou que o Brasil do litoral irá cair em plataforma, de setenta quilômetros de fundo, sobre o oceano. Se isso acontecer, de fato, parte do sertão vai virar mar. Será a presença dessas lavandeiras, que costumam mais correr sobre a grama, como correm sobre a areia de praia, um prenúncio dessa catástrofe?

Havia também uma família de gaviões. A única, pelas redondezas. Belos, como só aves-de-rapina podem ser. Aquele olho agudo, de vendeta solene, onde a pupila negra bóia com invulgar brasa sobre piscina verde da esclerótica. As belas garras feitas de esporas flavo-retorcidas. O bico em gancho, precedido por um buco amarelo. A nobreza do porte. E o peculiar modo de deslocar o colo com a altivez de potestade. Pode-se entender porque a falcoaria era uma espécie de esporte nobre na Idade Média. Uma sorte coragem, de destemor devia passar de ave a falcoeiro. De amestrando a amestrador.

Quando estava dando pouco mais que os primeiros passos, minha filha mais nova se detinha, a observar um desses gaviões. Um que, nas manhãs mais limpas, costumava encarapitar-se sobre a antena de tv da casa vizinha. Gostava dessa atalaia. Talvez o diâmetro dos frisos da antena fossem na medida para suas garras. Tornava a ela com freqüência manhãs sem conta. E, ao fim do dia, não era inusual ouvir seus guinchos lá, bem alto, acima dos condomínios recém-erguidos, e aquele vôo de assas articuladas – menos planado e limpo que o dos urubus.

Bicho atrevido é bem-te-vi. Às vezes, se metiam a atazanar a vida dos grandões. Voavam por cima do cocuruto deles e lascavam bicada. Depois saiam volteando, jingando pelo ar, que não tinha gavião que pegasse. Mais lisos que garrinchas diante de joões. Salutar atrevimento.

Aliás, desconfio que alguém pegou os gaviões. Não vi mais o casal. Ou então, algum desses ambientalistas chatos deve tê-los levado para seu habitat natural, para mangues costeiros ou planícies sertanejas. Certamente, para morrerem por lá, pois já estavam habituados com usos e costumes urbanos. Já eram bichos da cidade.

O certo é que, para meu pesar, os céus acumulam chá de sumiço dos gaviões nestes começos de 2009.

E a rua ficou menos nobre.


4 comentários:

  1. aldir@mat.ufc.br10/1/09 10:59 AM

    oi Ruy

    "
    O certo é que, para meu pesar, os céus acumulam chá de sumiço dos gaviões nestes começos de 2009.

    E a rua ficou menos nobre."

    gaviões, morrer, pai, menos nobre,
    brasil jr, avô, bootstrap,
    bonito !!!!!!!!!!!!!!!

    abraços

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  2. bom silke,

    prazer vê-lo passear por aqui. como num recreio do GO.

    abs.

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  3. Belo espécime!
    Tem um olhar muito mau, e captura suas presas (outras aves)sem nenhuma compaixão e devoram gulosamente sua caça, mesmo antes dela morrer! Assistam este vídeo do Gavião-do-norte (Accipiter gentilis): http://ornitologia-2012.blogspot.com.br/2012/03/acor-milhafre-accipiter-gentilis.html

    Ja estou seguindo este Blog.
    Abraços! Jisohde G. Posser - 120403 09.22

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  4. de fato, o olho é altivo e mau

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