sábado, 31 de dezembro de 2011

Dia claro, é janeiro

Henri Matisse, L'escargot, 1953


Feliz Ano Novo, queridos Leitoras e Leitores!!! 
Que o tempo seja igualmente feliz e útil. 


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Dia claro, é janeiro
dia amigo
coisas de novo lustrosas
o azul descobre-se a si mesmo
o tempo
garça um momento detida
sobre a água musical
uma fábula de amor vai modulando
vida
reinventada


Carlos Drummond de Andrade


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Relaxe e goze, como dizia a Marta

[s/i/c]

Diálogo cheio de Louros

Dia após dia, um papagaio ao outro dizia a Ilíada numa edição anotada. O outro apenas escutava compenetrado e, algo, tímido. Meses a fio até silêncio.

Certa manhã, depois de mastigar o silêncio por uns dias, o outro então danou a falar. Mas o máximo que conseguiu dar de volta foi Os Lusíadas. Semanas nisso. E as sábias especulações de Wilhelm Storck, Carolina Michäelis, Hernâni Cidade...

O primeiro ouviu a perder de vista, achando aquilo tudo engenhoso, embora um tanto moderno.

Depois, quando as últimas armas, os últimos barões, os últimos sinais, as últimas praias ocidentais se foram, Inês era mais que morta e o Velho do Restelo Trisavô, satisfeito, o primeiro pigarreou. E cheio de bossa, como se guardasse uma surpresa, as peninhas eriçadas, disse todo o On the Road. Nisso as chuvas chegaram. Calhou que o dono ouvia jazz. Tudo ficava mais em casa. Até que “in the deep glens where they lived all things were older than man and they hummed of mystery".

"Curupaco Wow!" Com as chuvas em plena torrência, o outro, agastado, resolveu contratacar ainda mais em zás. Tascou a letra de "I Heard It Through the Grapevine".

Alguém precisa ser feliz neste mundo.


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Alguma vida em 16mm

Damien Chazelle, Guy and Madeline on a Park Bench, 2009

Num banco de Praça
-O inesperado musical

Shadows (1959) de John Cassavetes é um marco do cinema independente americano. Toca em questões raciais tabus à época, possui uma exuberante trilha sonora composta por Charles Mingus e apresenta pontos de vista incomuns, para além de uma montagem não previsível. Passado meio-século, Guy and Madeline on a Park Bench, que foi lançado em 2010 – mas só este ano e após muitos festivais começa a despertar mais atenção – apresenta-se bem perto de um remake de Shadows: a fotografia em branco e preto e 16mm – quando hoje todo mundo grava com câmeras digitais – o recurso ao jazz, o casal multiracial, certa idoneida de montagem, um selo de artesanalidade a chancelar os fotogramas e a banda sonora. E, no entanto, é um filme do seu tempo e de méritos próprios, que merece ser destacado sobretudo por suas qualidades documentais na ficção. O diretor, Damien Chazelle, é um jovem baterista de jazz que aparece tocando fugazmente em alguns takes, pois boa parte da trilha sonora não orquestrada foi registrada durante a gravação das imagens. O filme transpira vida e compõe uma atmosfera sagaz e íntima, só encontrável a custo em grandes produções. Há uma enorme dignidade no rosto das mulheres. Não menos em seus corpos lançando-se à dança. Há muita alegria e alguma tristeza. Há casas conjugadas numa rua escura e um chiado bate-estaca provindo de um sedã. Parece que é música. Mas de um tipo diferente da que Guy aprecia. Há presenças de cidade: Boston e Nova York. A câmera treme feito vara verde em algumas cenas. Elena (Sandra Khin) é uma bela mulher de ascendência oriental e certa vocação para o alheamento. Guy (Jason Palmer), um trumpetista negro – mas ao contrário de Ben Carruthers em Shadows, ele de fato toca o instrumento. Madeline (Desirée Garcia) é uma jovem tímida e intensa, que gosta de música. Há uma cena no metrô, de encostar mãos, que poderia ocorrer em qualquer ônibus a caminho do Benfica. O filme começa com o rompimento do casal, num banco de parque durante o inverno. Há uma fantástica atmosfera de gigs e sapateados em apartamentos de estudantes e pequenos cafés. Guy and Madeline on a Park Bench é um dos mais inesperados musicais a que se pode assistir. E, de repente, as ruas são apenas ruas, os atores, apenas gente. Por que assomam bem menos "a serviço" de uma trama?


Segue o link do trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=KJUzALdI--k


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La piel que habito en otra Tierra

Mike Cahill, Another Earth, 2011

Dois sci-fi vistos com um pouco mais de lupa
–notas para uma resenha de Another Earth (Mike Cahill, Estados Unidos, 2011) e La piel que habito (Pedro Almodóvar, Espanha, 2011)

Há uma espécie de oposto entre esses dois filmes. O primeiro é um drama sci-fi um tanto sentimental, que só se salva graças ao empenho da jovem equipe e certa situação proposta pelo roteiro. (Mas como se salva bem!) O segundo, também com sua carga de ficção científica, é uma comédia negra – mas em qualquer caso uma comédia, como muitos críticos esqueceram de dizer – em que mais uma vez e de forma brilhante Almodóvar inunda Hollywood com as convenções das telenovelas latinas.
O grau de comédia de La piel que habito pode ser aferido em diversas passagens. Passa pelo folhetim da trama. Alia-se ao excesso de grotesco. Como na chegada de Zeca fantasiado de tigre à casa de seu irmão médico depois de assaltar um banco. Ou o desejo que Vicente nutre pela assistente lésbica da mãe e sua fantasia de, nem que por um dia, envergar um dos vestidos do ateliê. 
Zeca e Marília constituem, sem embargo, os personagens mais folhetinescos do filme. E os mais divertidos. A trama é perfeitamente refolhetinada: o fato de Robert desconhecer que Marília é sua mãe e Zeca seu irmão, por exemplo, é bastante telenovela. O que Almodóvar burilou nesse ínterim foi sua mestria em dominar a forma cinema. Impregná-la de folhetim barato e de kitsch, saturar o cinema do que se lê nas revistas, ouve no rádio, vê na TV ou na internet e causa certa repulsão estética – preocupação semelhante à da Tropicália na música – sempre fez parte de seu projeto. Incorporar essa repulsão, esses sobejos de feiura, que certos teóricos afundam no inferno. E, então, a tarefa de Almodóvar semelha um esforço de desrecalcamento do cinema – arte considerada "nobre", a sétima delas. O que ocorre agora é que ele conduz essa mescla como ninguém. E aqui, a exemplo de nas comédias negras dos irmãos Coen, o que dá para rir dá igualmente para chorar. Embora em alguns trechos seja impossível não rir. O espaço em que Vera está aprisionada, permanentemente monitorado por câmeras, é uma espécie de versão doméstica de Big Brother.
La piel que habito, com seu quinhão de ficção científica, também aproxima-se de pesadelos bem ordenados, mas nos quais a própria representação é atacada, caso em castelhano, de La invención de Morel, o romance de Bioy-Casares – que também pode ser lido como uma grande comédia. 
Another Earth são outros quinhentos. Além de nos apresentar uma atriz, Brit Marling, de quem ainda se vai ouvir falar, guarda aquele frescor de filme artesanal, feito no quintal de casa. Apela fundamentalmente para duas obsessões, dois mitos americanos – a conquista do espaço e uma segunda chance na vida tomada no nível do pragmatismo – para através de ambos promover uma purgação de culpa. Uma compensação. Uma purgação pueril, de resto. Pois como devolver a John os anos sem a família? Ou, indo mais longe: como compensá-lo de alguma forma? Quer dizer, o filme é instigante porque visualmente atrai e indica o quão longe pode chegar o diretor e a jovem equipe que o realizou com tão parcos recursos. Mas em termos de trama não deixa de ser abissalmente ingênuo. 
No epicentro mesmo dessa trama, a relação entre Rodha e John é tudo menos complexa ou tensa, realista, verossímil. A própria e fascinante condição da duplicação, no entanto, é o que abre estimulantes possibilidades e responde pelo clima feérico do filme. E responder pela criação desse clima feérico não é fácil. Na ficção-científica quem talvez haja atingido algo próximo à perfeição manejando um orçamento limitado foi Tarkovski com seu Stalker (1979). À sua vez, ao situar a aproximação do planeta duplicado, em vez de apontar para a histeria, Mike Cahill indica uma crise existencial coletiva, o que é algo tão mais saudável. E compõe uma solução diversa da que ocorre em filmes análogos.


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma questão de nomes?

[s/i/c]


A "Cordialidade" Brasileira e os Scholars

Há um ponto comum, que se repete à exaustão, no panorama traçado por scholars estrangeiros que de momento escrevem sobre o Brasil. E esta interseção tem a ver com certo pasmo diante da ausência de maiores antogonismos ou conflitos. Via de regra, esses scholars atribuem à abolição tardia - e, logo, à inércia do regime escravagista - essa tradição de não conflito. Mas esquecem que a abolição no Brasil se deu cerca de duas décadas após a americana. E duas décadas em história, convenhamos, não é lá grande coisa. Também esquecem que ao contrário de nossos vizinhos na América Latina, o Segundo Império conheceu, para a época, um razoável grau de democracia. Logo, fica patente que o que esses analistas desejam ardentemente é um maior número de conflitos, greves, revoltas, sangue. Certo dramatismo social a compor com alguns dinamismos econômicos aparentemente inexplicáveis - como nosso primeiro surto de industrialização ainda década de 10 do século passado, por exemplo. O certo é que há um desejo de revoluções maiúsculas, gestos palinódicos. Algo mais radical que 30. Um dramatismo que, de resto, eles encontrariam em Os Sertões, se estivessem melhor embasados. Mas a maioria deles nunca leu Os Sertões, apressados que estão em tecer uma análise do presente: a apologia do governo Lula ou explicar as razões da boa base econômica do Brasil à reboque da necessidade da China suprir-se de commodities.
Fica patente também que, para o azar deles, nunca leram Casa Grande & Senzala e Raízes do Brasil. Especialmente o primeiro. A cordialidade, nestes livros, assoma como uma nova forma de violência. Mais sutil, mais em desfaçatez. Mas nem por isso menos aguilhoante. Estas duas obras, a duas décadas de completarem cem anos, prosseguem sendo a base indispensável do pensamento sociológico sobre este país. E, de resto, livros agradabilíssimos de ler. Sobretudo o primeiro, que é uma obra-prima também do ponto de vista literário. E de uma originalidade que não concede ao cânone sociológico europeu ou norte-americano. Apesar de tomar emprestado de ambos. A própria Universidade de São Paulo por décadas ignorou Gilberto Freyre para cultivar um marxismozinho tacanho, que para variar louvava a ditadura cubana e do qual descendem entre outros Fernando Henrique Cardoso, a teoria da dependência em sua versão brasileira e alguns dentre os ideólogos do PT.
Pode-se, então, dizer que os scholars da vez se interessaram pelos Freyres e Buarques errados. Paulo Freire e Chico Buarque são recorrentemente mencionados em artigos do tipo. É chover no molhado reiterar que ambos aportam algo. Muito. Porém nem por sombras são tão importantes quanto Gilberto e Sérgio para se chegar a uma compreensão mais profunda deste país.


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Vendedores de fumaça

[s/i/c]

Muito Chicago e Bruxelas por Nada

No início da década de 90, a condução da política econômica do México era apontada como modelo em todas as manchetes mundo afora. Vivia-se então a época em que o neoliberalismo era tido como a panaceia para todos os males, no rescaldo de Reagan e Thatcher.
Os Estados Unidos, com George Bush, o pai, conheciam os estertores dessa euforia neoliberal. As teorias da  Escola de Chicago, de que o mercado regularia tudo, ainda estavam na crista. E a Europa regurgitava com a perspectiva de selar de vez a União Europeia em 1993. Os blocos econômicos pareciam ser o único paradigma de competitividade num mundo globalizado. E quem estava dentro deles, estava feliz.
Àquela altura, ainda pouco se falava da China mas ninguém dos BRICS, e não poucos economistas por aqui deploravam a excessiva reserva do governo brasileiro em relação à Alca, o projeto de livre comércio proposto pelos Estados Unidos para as Américas. Segundo estes arautos neoliberais, estávamos perdendo uma oportunidade única, o trem da história, o bonde do sucesso, a chance de ouro, o caminho até o fim do arco-íris, o cavalo selado.
Hoje com a penúria da Zona do Euro a se aprofundar, ninguém mais fala em Alca. Nem os próprios Estados Unidos. E esses mesmos economistas desconversam quando alguém adentra o assunto. Teria sido um desastre haver selado numa associação de livre comércio tutelada pelos norte-americanos àquela altura.
Hoje, tudo isso se dimensiona muito bem.
Um dia, a conta pela não produtividade dos países europeus – com a patente exceção da Alemanha, da Polônia e de alguns poucos – tinha de chegar. Assim como a conta da drástica redução das taxas de crescimento demográfico e o progressivo envelhecimento da população. Itália e Espanha seguem à beira do colapso. O Reino Unido desindustrializou-se e fala até em abandonar a União. A França é séria candidata à bancarrota. O estado francês, ao contrário do alemão – onde a idade para aposentadoria foi esticada aos 68 anos – é irresponsavelmente assistencialista, e o jubilamento se dá aos 62. E enquanto os franceses se aposentam ou administram, os imigrantes árabes subpagos e morando mal suam, operam máquinas e realizam os trabalhos braçais que os franceses não acham mais digno fazer. Num escasso momento de lucidez, o próprio Sarkozy acendeu polêmica nacional ao divisar na Alemanha o modelo. A França ainda vai pagar muito caro esta conta. [E, de certa forma, o Brasil também, já que o governo Lula, na contramão da história, rebaixou a idade de aposentadoria para o serviço público].
Há só uns poucos anos atrás, ter uma vasta população era ônus. Hoje, é uma das poucas vantagens que um país como Bangladesh tem sobre a Suíça. Há, aqui, uma perspectiva de futuro em jogo. Há vinte anos, entre os países lusófonos, Portugal reluzia, aparecia no local certo, na época certa, com o bilhete premiado à mão. Ao Brasil só cabia lamentar sua australidade, incompetência e distância da próspera União Europeia, envolvido numa crise política que destituiu o primeiro presidente eleito por voto direto, a entrever o insucesso de seguidos planos econômicos de choque e uma inflação galopante: o moral era baixo.
Hoje, tudo virou do avesso. 
Nada mais volátil que elogios a fundamentos macroeconômicos. Eles mudam radicalmente num estalar de dedos. E fica essa impressão de que há pernas para o ar. Além de muita fumaça.
Será que daqui a uns quinze anos vai estar tudo ao avesso de novo?


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um Breve Relógio

[s/i/c]

Não Tarda

Antevéspera de Natal mas é sobretudo sexta-feira. Um frêmito desenfreia-se pela cidade. Um anti-clímax. A sensação de que todas as crianças resolveram por um dia no ano sair juntas e ocupar a rua. Pode-se ouvir as vozes delas em coros, muxoxos, vaias. O grito tiple das meninas.
Como é estar longe de todos? Como é estar distante assim da infância? Ao ponto de ouvi-la? Ao ponto de individuar cada voz? Ao ponto de não haver cortinas cobrindo as polifonias? 
Não se exaspere, Princesa. Tudo teve seu tempo. Tudo seu tempo terá. O modo como essas exultações, concórdias, vaias, refrões calcam solidão na noite não é desassossego de um. Porque não há uma só coisa neste mundo – nem mesmo para o eremita – que seja exclusiva.
Não tarda e essas vozes plenas de ímpeto, selva serão sequestradas pelo Departamento de Biologia, o Banco do Brasil, a Petrobrás, os balcões da Pedro I, o Fórum Clóvis Beviláqua, o Jornal O Povo, as clínicas da Aldeota, as indústrias de Maracanaú, os escritórios de contabilidade, os Shoppings. É a vida. Ganha-se dessa forma.
E dessa forma também se morre.


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Bucha de canhão para teses

[s/i/c]


O Cordel, esse artifício turístico

Durante anos o cordel foi essa bucha de canhão para teses.

O cordel estava fadado a morrer. Não há nada de errado nisso. Há um ciclo que se fecha na espiral, para lembrar de Vico. Sua fonte era a narrativa oral, densa, assentada em esquemas mnemônicos que já não há.

Da narrativa oral só restaram minúsculos cacos, cinzas ou uma forma parcial, bastante híbrida, que detem algum débil empréstimo da tradição popular mas muito mais de rádio, de TV, de internet, do previsível jargão das associações comunitárias. Gente que andou coletando essas gestas populares, já faz tempo, como Sílvio Romero, Gustavo Barroso, Leonardo Mota, Mário de Andrade ou Câmara Cascudo sabia que essa morte seria iminente. Ou a pressentia.

Há formas que se extinguem simplesmente porque desaparecem os contextos sociais em que surgiram. E, claro, tentar perpetuar as formas sem os contextos é equívoco. É bisonho. É onde o movimento armorial, por exemplo, mostra sua face menos convidativa.

Vão dizer que a literatura de cordel está viva, que passa bem, etc. O que está vivo e passa bem não são os cantadores populares iletrados ou semi-letrados, nômades ou semi-nômades, que cantavam em feiras, nos terreiros de fazendas ou acompanhando comitivas. E cujas redondilhas constituíam uma das raras opções de lazer na escuridão da noite. Estes desapareceram. E porque já não há comitivas; as feiras não passam perto do que eram até meados do séc. XX; e há eletricidade, televisão e internet no cafundó mais cafundó do Judas. O que há, de momento, é muito mais uma espetáculo para turista ver.

O fato, aliás, de se alardear a todo instante que o cordel foi matéria de estudo na Sorbonne é infame. E menos para a Sorbonne.

O que também precipitou a morte do cantador popular e a tornou ainda mais inglória foi sua folclorização pela academia. Ou indo adiante, a absorção da cultura popular por programas ou subvenções do tipo Mestres da Cultura. A não ser que sejam extremamente bem conduzidas, intervenções dessa ordem costumam ser desastrosas, verdadeiras Guerras de Canudos ou estação de caça ao imaginário popular.


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Uma tag do Twitter

Alberto Giacometti, Femme debout, 1947


Álisson, o centrifugador

Ah,tá, isso é coisa do Álisson.¹
O Álisson era um garoto proparoxítono, que tirava fotos e lia fatos no Twitter:
Bom dia, Álisson!
Bom dia, Narrador, você viu a Soraya?
Rapaz, vi não.
E os dois prosseguiram caminhando em opostas mãos pela calçada estreita, um pouco arrebentada. O Narrador entrou na venda:
Ei, Terceiro Excluído, 'cê sabe por onde é que anda a Soraya?
Meu camarada, é preciso descobrir antes que o Álisson dê com o paradeiro dela – disse em gatilho mais rápido o Jogador de Damas.
É, faz dois dias que ele brinca de Giuliano Gemma, pra cima e pra baixo com aquele berro carregado, o vira-lata abanando o rabo, depois de centrifugar metade do brilho da comunidade – disse o Terceiro Excluído.
Assim, nem o delegado do 23º limpa a barra dele.
E então, meio-dia para tarde, quando o Terceiro Excluído e o Jogador de Damas finalmente deram com a Soraya, Álisson ponderava se levava ou não a sério a seguinte tag do Twitter: “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena#GrandesPoetas" – enquanto babava diante de uma foto mais ousada de Patrícia Poeta.


¹Segundo estatísticas, cerca de 7% dos brasileiros tem o primeiro nome terminado em “son” (“filho”). Talvez pela vontade dos pais de que os meninos portem algo de anglo-saxão. Nem que seja no nome. É dessa volição que vêm os Wilson's, Émerson's, Álisson's, Edilson's, Edmilson's Edson's, Nilson's...


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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mesmo que ele não pertença a ninguém: W. S. Merwin

[s/i/c]


Convenience

We were not made in its image
but from the beginning we believed in it
not for the pure appeasement of hunger
but for its availability
it could command our devotion
beyond question and without our consent
and by whatever name we have called it
in its name love has been set aside
unmeasured time has been devoted to it
forests have been erased and rivers poisoned
and truth has been relegated for it
we believe that we have a right to it
even though it belongs to no one
we carry a way back to it everywhere
we are sure that it is saving something
we consider it our personal savior
all we have to pay for it is ourselves

W. S. Merwin


Conveniência

Não fomos feitos à imagem dele
mas do princípio cremos nisto
não pelo mero saciar da fome
mas por sua predisposição
ele podia comandar nossa devoção
fora de dúvida e sem nosso aquiescer
e seja por que nome a gente o chame
por seu nome o amor foi posto de lado
tempos sem conta foram-lhe dedicados
florestas riscadas, rios  envenenados
e a verdade foi por ele relegada
críamos ter direito a ele
mesmo que ele não pertença a ninguém
voltamos a ele por toda parte
certos de que está salvando algo
o consideramos nosso salvador
tudo que lhe devemos somos nós


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Lula's Brazil

[s/i/c]

Os Anos Lula

Cabem não poucas ressalvas, emendas, mas conforma um painel abrangente dos anos de Lula no poder, seu legado, seu alcance, seus contratempos, um ensaio de Perry Anderson no London Review of Books.
Há alguns acertos. Por exemplo, citar o historiador da literatura Antonio Candido como "uma pedra de toque intelecto-moral da esquerda". Mas não é exagero dizer que Roberto Schwarz, a despeito de um bom ensaísta e crítico literário, seja "the finest dialectical critic anywhere in the world since Adorno"? Ou que o Cidade de Deus, livro de Paulo Lins, haja sido espoliado pelo comercialismo do filme homônimo de José Padilha, quando se sabe que provavelmente não há uma maior defasagem de um para outro? Ou ainda não há uma sorte de superdimensionamento da Revista Piauí? Ou, de resto, pouca investigação ou aprofundamento do tremendo impacto das novas mídias no processo de transformação do país - algo que, sem embargo, é levado em conta por um historiador como Hobsbawm, ao analisar revoltas da classe-média em diversas metrópoles ao redor do globo?
Relativizando, ressalvando, discordando ou não do que está proposto por Perry Anderson, seu ensaio constitui possivelmente um dos mais agudos textos sobre o Brasil publicados no exterior este ano.


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Mar de rosas?

[s/i/c]


Na imprensa, por aqui

Ontem, o grande alarde dado ao fato de o Brasil haver suplantado o Reino Unido em termos de PIB global, passando à sexta economia do planeta. Só produzimos menos riqueza que Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Há o que comemorar? Há, claro. Mas há mais ainda que se trabalhar para que nosso PIB per capita, que é pouco mais de um terço de seu equivalente no Reino Unido, recorte distâncias nos próximos anos. E com tantos recursos à mão, não podemos ficar atrás de países como França e Alemanha. Os sucessos econômicos são tão estrondosos quanto voláteis. E há que trabalhar, acima de tudo, para que o padrão de vida médio no Brasil atinja níveis minimamente respeitáveis em uns dez ou quinze anos. E aprofundar a distribuição da renda. É possível. Embora paire uma desconfiança de o que será deste país se houver um resfriado na China. Se a crise europeia persistir ou se aprofundar. Se as quinquilharias chinesas e um real demasiado forte prosseguirem minando nossa base industrial. Ou se o atual modelo de excessiva oferta de crédito interno engatilhar - por conta desses juros altíssimos -  uma onda de inadimplência, e entrar em colapso. 


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Escrever é triste, mas ler é alegre como quê

Rita Roquette de Vasconcellos


Este cartoon -- clique na imagem para vê-lo em melhor resolução -- e mais uma mancheia de boas coisas seguem sendo publicados no Escrever É Triste. E o que há? Há um grupo de autores a animar um espectro de ideias que vai da literatura ao cinema passando por variedades, gostos pessoais, música, arquitetura, design, ficção, comentários sobre notícias e publicações, resenhas, etc. E há dois emissários extra-muros das mui antigas, nobres, invictas, leais e, sobretudo, queridas cidades de Lisboa e do Porto. Um na Itália, outro no Brasil. O do Brasil, por acaso, é este locutor que vos fala. Quando cair na folga, caia um pouquinho também na leitura do Escrever. Vai encontrar com textos instigantes de Eugénia de Vasconcellos, Teresa Conceição, Rita Roquette de Vasconcellos, Manuel S. Fonseca, António Eça de Queiroz, Pedro Norton, Pedro Bidarra, Bernardo Vaz Pinto, Vasco Grilo, Diogo Leote e Pedro Marta Santos. 

Está feito o convite.


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sábado, 24 de dezembro de 2011

Pasta e devaneio

 [s/i/c]


Paixão e Macarrão

Cegaram à conclusão que casamento é sem apelo algo sério. Ou no mínimo tão relevante quanto a inauguração do museu do macarrão instantâneo. E, nessa trilha, muitos miojos depois, os cônjuges podem, se a vida for bela, tornar-se acionistas da Nissim. E fabricar seu próprio macarrão. Ainda que dentro do maracujá, fruta da paixão, nunca tenha havido “macarrõezinhos”. Como nos devaneios bisonhos – ainda que inarredavelmente mágicos – da infância: lembram do jingle do Macarrão Fortaleza?


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O outro mestre das seis

Juan Gris, Guitar and Glasses, 1914


Laurindo

Da guitarra brasileira, indisputável que o "messianato" é dele: Roberto Baden Powell de Aquino. E, no entanto, o São João Batista chama-se Laurindo. Laurindo Almeida. Nada de Laurindo soa improvisado. Longe disso. Há uma elegância jazzística. Do músico superlativo que foi. Em seus últimos anos, ele já falava português com o carregado sotaque de quem mudou-se para os Estados Unidos à época de Carmem Miranda. Acompanhando-a. Naquela época era virtualmente impossível ser apenas um violonista, viver disso no Brasil. Mesmo para esses caras geniais. Alguns anos depois, o próprio Baden também teve de exilar-se para poder viver de sua música. E talvez por pilhéria - o que não era seu fraco - fixou-se na cidade de Baden-Baden.

Há muitos anos atrás, ainda na década de 70, lembro de uma matéria no Fantástico. Era sobre um casal de crianças da favela que havia sido adotado por suecos ainda na primeira infância. O menino seguira de meses, e já não lembrava de nada. Sua mente escandinavizara-se por completo. A menina, então já uma mocinha, referia-se ao Brasil com algum vestígio de saudade. Como uma terra remota e sonhada. Com olhos onde havia uma evidente vontade de volta. Nem que para refazer de um lugar de novo um local. E complementava essa vontade de regresso cantando.

A canção era... “Manhã de Carnaval”. Ela cantava com imensa dificuldade e carregado sotaque, mas com visível vontade de fazê-lo. De expressar-se. Foi um momento raro na televisão. Tocante mesmo. E um vero atestado da força da música como um dos mais fortes índices de cultura.

Voltando à limpidez emblemática do violão de Laurindo Almeida, segue ele aqui acompanhando a mezzo soprano Salli Terri numa versão do primeiro movimento (Aria) da Bachiana Brasileira N.5, esse outro documento da raça, a exemplo de "Manhã de Carnaval". Villa-Lobos compôs a quinta das Bachianas para um ensemble de violoncelos mais soprano. E no entanto a fluidez desta versão logrou-lhe, asseguram alguns, ser a favorita do autor:


Um Bom Natal pra Você!


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ho ho ho








Feliz Natal e um Dois Mil e Doze de Antologia!



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Onze Cinemas

Lech Majewski, The Mill and The Cross, 2011

Mike Cahill, Another Earth, 2011

Alguns Colírios

Bons filmes este ano. Dos que vi, Shame (até que enfim um filme adulto sobre sexo, fazia tempo), The Tree of Life (as formas artesanais de filmar e editar via digital aclimatando-se a grandes produções) e Straw Dogs (uma refilmagem à altura de Peckinpah). Mas também Another Earth (sci-fi de baixo orçamento realizado por uma equipe jovem com luvas de pelica e imaginação), além de War Horse (para a coletânea dos melhores momentos de Spielberg, embora o todo não seja), Hugo (a despeito de uma excessiva pirotecnia), Guy and Mandeline on a Park Bench,¹ Le Quattro Volte, The Mill and The Cross (fotografia e direção de arte para não esquecer, provindas de quadros de Brueghel), Poetry (uma produção coreana), Brighton Rock (noir ambientado na Inglaterra) e Meek's Cutoff (que mantém o Western em chama viva, e o humaniza por tempos mortos).

Nota Posterior - cabe mencionar igualmente: Margin Call, La piel que habito, Higher Ground, Rio, The Adventures of Tintin, The Artist, Drive, The Turin Horse, Once Upon a Time in Anatolia, Coriolanus, Le Havre e Tinker Taylor Soldier Spy.

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¹Clique para ver resenha algumas postagens acima.


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Livro do Tempo, (Livre do Tempo?): Lygia Pape e a felicidade mesmo que

Lygia Pape, Em Laranja e Azul, 1956


Lygia em Londres

Lygia Pape ali, aqui, em Londres. 

Há leveza, certa inexplicável alegria, arejamento. Uma solaridade, uma brincadeira. A obra desses neo-concretistas - Oiticica, Clark, Weissman, Amílcar de Castro, Jardim - vaza do formalismo racional, abstrato, europeu, utópico para a sensualidade concreta e cósmica e americana. A proposição da própria utopia na carne da obra. E na carne da obra, a carnadura das ruas. Dos dias. Uma luz e fiança tão pertinentes ao Brasil dos anos 50 e 60. Aquela vontade de ir mas allá, que é instantânea e impulsivamente naïf e um bocado cultivada ao mesmo tempo.[1] E há uma espécie de brincadeira com a bandeira do Brasil, que cada um porta à sua maneira e bel-prazer. De diferentes formas, argumentos, estilos...

Saudades de quando este país possuía artistas tão incisivos quanto Lygia. De sua arquitetura dobrada em origames, das cores básicas, das formas simples, da pouca sisudez diante da pompa do programa concretista.

E essa espessa, estupenda necessidade de alegria, mesmo que.


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[1] O Brasil era, então, a terra desses "aos mesmos tempos", dessas compositividades impossíveis. E elas se encontram no fulcro da utopia brasileira expressa pela geração que começou a ser jovem ai pelo final dos anos 50.


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Arte e Internet

/sic/


E penar para tornar mais venal o virtual

Em geral, a sociabilidade com gente ligada à arte gera compromisso. Em geral, espúrio. [Seria necessário esclarecer e exceptuar, aqui, mas não é o momento]. Tem havido uma cerrada burocratização de procedimentos na esfera da arte. Daí que termos como "gestor", "consultor", "curador" hajam migrado da esfera burocrática para a artística. Em geral, o mesmo se pode dizer da academia. O simples convívio com práticas artísticas (estabelecidas) ou práticas acadêmicas doma e poda criatividade.

Se isso era já moeda corrente antes do advento da internet e das novas mídias digitais, imaginem depois. Terá sido coincidência que quem melhor pensou a questão esteve à margem? Há, aqui, toda uma linhagem de inadaptáveis, começando por Simmel, passando por Huinzinga, Benjamin, Kracauer, Bazin, Flusser, Elias et alli. E quando houve mais consórcio com a academia: i) ou o pensamento inflou-se de pompa e metalinguagem, esquecendo a actualidade do mundo, como no caso dos franceses pós-estruturalistas; ii) ou a derivação de um pensamento sugerente e subtil hieratizou-se em um formalismo excessivamente sistêmico, incapaz de abrir margens para sugestão e cotidianos, como em Habermas e o "prosseguimento" dado às ideias propostas pela primeira geração dos teóricos de Frankfurt.

A melhor produção tem saído de fora do novelo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Do consórcio espúrio com as ONG's (que não são mais do que velhas práticas de dominação realocadas e um tanto mais dispersas, pulverizadas. Embora os mais incautos creem que estão "mudando o mundo" por meio delas). E quando se pensa que alguns artistas vendem a alma para estar no centro dessas práticas!

É mais ou menos óbvio que a internet bagunçou por completo o coreto do “artista profissional”. Músicos e escritores, que cobravam fortunas por um cerrado e milimétrico controle de suas “obras”, de repente se ressentem de vê-las tão descaradamente ao alcance de todos. E de graça. É o que se nota no discurso de gente ressentida, inclusive aqui pelo Brasil, com a suposta "morte da obra". Não passa antes esse ressentimento pela queda de um faturamento que já foi mais, digamos, "polpudável" na linha do horizonte?

O advento da internet reaproximou o artista do público de duas formas: α) fisicamente – pois o músico teve de voltar ao palco, o escritor à palestra, etc. (por conta da avassaladora exposição não controlada da obra, a que desde antes da internet já se chamou prontamente de pirataria, e implica numa drástica redução de ganhos) e β) através de um potencializador quase infinito do que é descrito por Walter Benjamin em “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit”. Ou seja, a obra agora conhece desdobramentos reprodutivos – novos plissados e trampolins e cachos e convênios e ganchos de reprodução, de virtualidades, de anamorfoses, suplementos, conexões, hibridismos, fissuras, descontinuidades – inimagináveis antes da década de 90. 


Logo, é fora das formas "sub-auráticas" -- que ainda existiam na imprensa, no filme, no disco de vinil -- que ora se dá a reprodução. Isto é, dá panos para as mangas pensar o que é a materialidade do MP3 por contraposição ao suporte material do disco de vinil com lados e faixas a serem sulcadas analogicamente por uma agulha de cristal, facilmente vulnerável a arranhões, com uma estampa de papel ao centro, guardado numa capa, com encartes, etc. Capa e encartes que podiam ser até assinados pelo zeloso dono. À sua vez, o MP3 perecerá muito mais rapidamente que essa agulha, que essas faixas que quando arranhadas como que recobravam uma aura, uma unicidade. Assim como as capas assinadas também estavam bastante vulneráveis a ação do tempo: arranhados, superficie preenchida por decalques, selos, etc. Podiam, dessa forma e ao contrário do MP3, reunicizar-se. Isto é, tornar-se únicas outra vez. Ou ao menos recobrar uma sub-aura, por serem ao mesmo tempo produtos da seriealidade e únicos enquanto objetos, pois eram evidentemente mais materiais que seus sucedâneos digitais. Aqui, o adjetivo virtual cai como uma luva para descrever esses novos entes da era digital. Caso do MP3, dos arquivos de texto em formatos diversos, do e-mail, do post. Com o velho jornal ainda era possível embrulhar um peixe. Com um tweeter, nem isso. Isto é, a rigor esse processo de reprodução é algo tão diverso do analógico que deveria ser renomeado: virtualizacão.

O advento da internet, em suas duas décadas iniciais, representou algo como a reinvenção da imprensa sob o signo de um acesso absurdamente mais universal – porque precedido pelo folhetim, pelo cinema, pela TV, pela cultura pop, etc. Por um breve instante o capitalismo vacilou, penou para pôr preços em uma mercadoria que era muito mais abstrata, escorregadia: é literalmente virtual. Em outras marés, é bem mais amoldável "ao gosto do freguês", manipulável, costumizável, enviável, etc. Mas, entre tantos atributos terminados no sufixo '-ável', nenhum é lembrado com mais pesar pelos executivos da esfera do showbusiness, do entretenimento, das gravadoras, dos estúdios, das editoras, das redes de TV, da indústria cultural e de seu mercado do que: incontrolável. Este os faz acordar para um pesadelo diurno. Eles que haviam se acostumado a controlar milimetricamente as porções de direitos autorais e de cópia com frações generosas para si próprios e seus empreendimentos. E, logo, é todo o conceito de direito autoral e a legislação que o rege que precisam ser revistos. [E estão a ser em toque de caixa. Em abril de 2012, um usuário de internet em Portugal foi preso por copiar e partilhar arquivos de música sob copyright. Mas os indícios do controle que está por vir nos próximos anos ainda são incipientes. Esse controle ainda será férreo; e os conteúdos, domados e postos sob preços, devidamente desdemocratizados.]

A mediocridade, no entanto, contenta-se com essa disciplinarização da internet sob as regras da limitação de seu alcance - fenômeno em franca expansão. Em limitá-la no tempo, no espaço, o que coincide com o projeto capitalista e aos poucos segue retirando, sugando dessa universalidade inicial e absurdamente inesperada. Certos conteúdos, por exemplo, já só são encontráveis em determinadas regiões ou países. Ou para o assinante premium.  E cada vez mais direitos de imagem e copyright os regulam. A Wikipedia, uma glória dos novos tempos digitais, tem sido ameaçada constantemente. E uma área que conhece um quantum perto de inimaginável é a do direito que regula tudo isso. É dessa regulagem medíocre, contra a qual se debatem os hackers - como no passado os bandoleiros sociais (tratados por Hobsbawm e outros autores) - que emergirá uma internet consideravelmente menos universal. Ao menos em refluxo e por tendência. Monopólios como o Google já devolvem em seus motores uma busca "adaptada" ao contexto cultural, linguístico e geográfico em que se empreendeu a pesquisa, etc.

Porém a mediocridade também se encontra no centro mesmo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Em seus filistinismos. Em sua (má) fé na crença de que a tutela da arte pela burocracia resulta em algo auspicioso. Em seu desejo de apôr à arte o discurso sobre ela. Ou sujeitar a arte a um sectarismo político, ao politicamente correto, ou ao relativismozinho da vez. Não poderia ser diferente. E só a extrema exceção, só o gênio – o Corelli digital, o Händel digital¹ – é capaz de safar-se de ver sua produção amortecida pelas rotinas grises dessa cadeia vazia de colóquios e simpósios resucessedendo-se mundo afora. E se a ilustração – aparte desses meio e vida – encontra-se mais diluída por toda parte, é quase nada por méritos do “meio artístico”, da “vida acadêmica”, porém pela contingência do meio internet enquanto mensagem – como assim, sem conhecê-lo propriamente sonharam Benjamin, Bazin, McLuhan ou o Gene Youngblood de Expanded Cinema (1970). Pois de alguma forma esses autores já falam de internet antes mesmo. À sua vez, a internet em seus primeiros anos foi o suplemento do segundo grau ou a graduação de centenas de milhões que sequer chegaram à universidade. Para não calar sobre a centralidade da rede aos que chegaram ou estão nela dia após dia. E da rede como imagem geral [ou alegoria - esta palavra é importante] de uma biblioteca muito mais vasta, atualizada e dinâmica que a biblioteca [analógica] de qualquer instituição de ponta pelo planeta afora. Não é pouca coisa.

Um autor como Borges gastou sua vida e trabalhos e afetos no empenho de “ser” uma biblioteca. Mas esse empenho, como o de Prometeu, gera grandes ressentimentos. E então, em sua própria ficção Borges sonhou com uma saída mágica, mística: o Aleph. Hoje em dia, é desnecessário “ser” uma biblioteca, porque a internet converteu-se no Aleph sonhado por Borges: o acesso à memória, ao conhecimento; o acesso à redefinição do próprio conceito de acervo. Acesso a uma erudição fora do corpo, arquivada megametricamente em memória artificial. A interseção que contém o universo. 

Pode-se dizer que um dos grandes méritos da internet passa pelo megamétrico (mas, ressalve-se: só em parte). E esse mérito provem de sua capacidade de ampliar desmesuradamente o que era cravado como “quadro epistemológico”. Nos primeiros anos da internet, o especialista extremo e o leigo extremo tiveram diante de si o mesmo “quadro epistemológico”. Só passado o pasmo inicial é que o conhecimento - fator de posse classista (caso em especial do conhecimento jurídico) - na internet passou a ser mais disciplinarizado e regido pela lógica capitalista. Por outro lado, possivelmente mais do que as políticas assistencialistas, foi a internet, pela democratização de conhecimentos especializados e gerais, enciclopédicos, o que possibilitou o surgimento das novas classes médias em países como Turquia, China, Índia, Bangladesh, Chile, Brasil... E isso se dá porque a intuição é o estímulo básico para se mover na internet.

E, porém, a megametria da internet, se funciona no atacado -- no sentido de ampliar formidavelmente a audiência e torná-la mais aplicada à confecção de objetos de arte, assim como esses objetos mais modeláveis e plásticos -- também admite no varejo – isto é, especialmente por parte dos produtores de arte a interferir na mídia digital – as enormes distorções e os filistinismos característicos de épocas palinódicas. É de se sublinhar não menos o quanto a figura do produtor de arte, do autor, no ambiente da rede, é antes de mais nada a de um grande consumidor. E consumidor de imagens e sons técnicos que, cada vez mais, sugam para fora do corpo os momentos decisivos da criação enquanto técnica e forma.  Quer dizer, a internet levou a um paroxismo inimaginável, só há uns poucos anos atrás, a consumização do autor, do produtor de arte. Está claro que este precisa, antes de mais nada, converter para virtual o que já foi elaborado antes ou começar no ambiente virtual o que ainda não foi feito. E, sem essas tarefas, é impossível à vastíssima maioria sobreviver de sua arte: criar apenas por representação analógica, sem virtualizar. 

A misantropia, a hesitação, o receio, a desconfiança são antídotos contra uma recepção demasiado festiva das ONG's junto com formulações acríticas, ralas ou pueris da internet e das novas mídias, e que as tomam apenas como alavancas democratizantes.²

(Aqui, misantropia deve ser tomada como método).


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¹Em outras palavras, aquele que obtêm muito êxito e vive no vero centro da esfera artística, como esses compositores viveram em séculos passados, e, ainda assim, produz uma obra que transcende essa esfera no rumo da intuição e do mistério, embora solidamente lastrada na autoridade de um conhecimento prévio. Este conhecimento, de agora em diante, redundará cada vez mais do consórcio entre os sentidos e aparatos que os potencializam à infinitude, como os smart glasses - conectados à rede e interagindo com bases de dados, serviços GPS, motores de busca, tradutores automáticos, etc. Visão e audição ampliam-se até que limite? Será possível a confecção de biônicos, como no seriado da década de 70? Tudo indica. Mas também  se fortalecerá a tendência a se criar nichos de acesso a internet de acordo com o poderio econômico. E isso progressivamente irá minar a democracia e a universalidade que experimentamos nos primeiros anos do fenômeno.

²Neste sentido, se tomarmos o universo dos supersítios, dos sítios mais acessados, é já notável a diferença entre a Wikipedia e o Youtube no que diz respeito à publicidade. Por outro lado, o conceito de jornal dá voltas na tumba sem decidir ao certo como reaflorar na rede. A vitória definitiva do virtual sobre o impresso se deu, contudo, este ano. Mais precisamente no momento em que se anunciou que a Encyclopaedia Britannica, que há 244 anos é impressa, será a partir deste ano apenas disponibilizada em ambiente digital.  


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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Prototipia e Dois

Howard Hawks, The Big Sleep, 1946

Nobody is

δRespectivamente
O duplo noir clássico se dá entre The Big Sleep (1946) e The Maltese Falcon (1941). E em ambos, aliás, há o mesmo ator fazendo os papéis respectivamente de Philip Marlowe e Sam Spade, dois dos detetives mais emblemáticos da literatura transpostos para cinema, criações respectivas de Raymond Chandler e Dashiell Hammett.¹ [E fosse para aludir um terceiro excluído, ficaria com The Asphalt Jungle (1950), que é de alguns anos depois e um tanto mais filme B, porém, da mesma forma, fora de série. E, aqui, especialmente por sua sintaxe visual].

ε. Hawks, Coadjuvantes, Bogart & Bacall
Entretanto, The Big Sleep, dirigido por Howard Hawks, desdobra para ainda mais longe o humor, o innuendo das réplicas e o tratamento de certos temas que a aclamada obra-prima de John Huston.² E não propriamente por creditar Faulkner entre os roteiristas.³ Mas pela destra direção; a filigranada fotografia em branco e preto; a direção de arte; a beleza e o charme das atrizes coadjuvantes; e, não menos, por colher algumas das melhores cenas entre Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Aqui, o sonho americano diz: Hello! – e certamente no mesmo tom em que Bogart comemora o fato de certa livreira [Dorothy Malone] aceitar a dose de uísque, fechar a livraria, retirar os óculos e soltar os cabelos. Chove lá fora.

ζ. Exemplos?
Como na cena em que Bacall segue ao encontro de Bogart na agência de detetives, e ele chega atrasado. As linhas são:
(Bogart) Good Morning!
(Bacall) So you do get up! I was beginning to think you worked in bed like Marcel Proust.
(Bogart) Who's he?
(Bacall) You wouldn't know him, a French writer.
(Bogart) Come into my boudoir.
Sempre a chamar as garotas de pal ou angel, Bogart destila tanta assertividade em suas réplicas que – e não por estar no script – Bacall, nessa cena, adentra o escritório num semi-riso de quem não esperava pela corrente magia improvisada. E não é em parte disso que resultam os grandes filmes?
Mas logo em seguida, eles prosseguem a conversa, e ela, suntuosamente sentada sobre a escrivaninha, parece estar incomodada com algo:
Go ahead and scratch! – diz então Bogart de sua cadeira.
Ela rapidamente levanta um pouco a saia e coça-se perto do joelho.
Mas entre essa cena e outras – como com a bela livreira ou uma taxista – Bogart segue em céu de brigadeiro. A exemplo de quando Carmen, a irmã doidivanas da lide, lhe indaga:
Is he as cute as you are?
A resposta de Bogart soaria pretensiosa dita por qualquer outro, e é o sumário perfeito de um ator divertindo-se às raias do impossível:
Nobody is.


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¹Há um filme de Wim Wenders chamado Hammett. A produção, conturbada e polêmica, é de Francis Ford Coppola. Conta possivelmente entre os filmes menos amados e glosados pelos wenderianos. E um projeto que Wenders evita comentar a respeito, talvez por conta de o corte final haver sido feito à sua revelia. Para vender melhor. E não foi o caso. Outrossim, a performance de Bogart em The Maltese Falcon simplesmente estabelece o perfil do detetive – até certo ponto honrado, mas um bocado ganancioso e sem escrúpulos – nos filmes noir.

²Originalmente no roteiro, alusões à pornografia e ao homossexualismo foram limadas pela pesada censura da época. Sem embargo, há vestígios dessas temáticas diluídas na trama. E o que mais comove é constatar o quanto filmes que dão o que pensar, como esses dois, divertem tão amplamente na mesma medida.

³Pouco provável que Faulkner, em meio a um e muitos drinques, tenha contribuído mais do que com umas linhas e a grife do nome para a solução final de roteiro. E roteiros que eram confeccionados em verdadeiras linhas de montagem. E em que é muito difícil separar até onde vai o contributo individual de cada có-roteirista. Ainda assim, uma das virtudes de The Big Sleep é a astúcia vitriólica dos diálogos.


NOTA SOBRE AS NOTAS - certa leitora me perguntou por que minhas notas só vão até ³. A resposta é simples: só sei inserir esses caracteres reduzidos até o algarismo ³. É certo, adoraria pôr mais notas. E, contudo, se vou pelo automático, no editor de textos, os algarismos não saem assim bonitos e reduzidas como devem ser. Não obstante, me agrada que seja o ³. E não o quatro ou o ². ATENÇÃO! A FAPESP, a CAPES, o CNPq gostam que as notas sigam rigorosamente o padrão da ABNT! Em Portugal, no entanto --- que é o país mais bem aqui --- já não há mais ABNT.


NOTA SOBRE AS NOTAS SOBRE AS NOTAS - implicar que o detetive, cínico e longe da família, protagonista do noir, com todo seu anti-heroísmo e dubiedade, gera uma nova forma de cinema. E porque, a exemplo dos desenhos animados e suplementando o cinema mudo, põe a voz ao centro do corpo e do filme de modo mais enfático, uma vez que abre espaço para uma característica chave da voz: sua antinomia. Se isso implica naquilo que Michel Chion chama de 'vococentrismo', são outros quinhentos. Mas que representou um caminho a derivar, quem duvida? Pois é evidente, em ambos as faces do duplo, o modo como a condução da narrativa e traslação da ambiência dimanam da voz de Bogart.


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