segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Por um lugar à mesa: Resnikoff




Te Deum

Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day's work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.

Charles Resnikoff


Te Deum

Não canto por conta
de vitórias,
não as tenho,
mas pelo raio de sol,
a brisa,
a nobreza da primavera.

Não pela vitória
mas pelo dia de trabalho
no melhor que pude;
não por um assento no estrado
mas um lugar à mesa.

Do lado de lá da metade




nosso futuro foi ontem. E veio fazendo cabotagens imperceptíveis por derrotas cada vez menores. Até o destino da viagem coincidir com onde se está agora, descartesiando coordenadas. Agora, este corredor estreito

verdade. Agora é sempre meandro. Mas também: necessário pensar que não. O passado é que foi ontem, etc. E não por ousadia ou dédalo. Ou para consumir os produtos anti-oxidantes da vez. Ler nas colunas o proceder

tão longe de como éramos. Certo desconforto no mundo, o charme em tudo. Nem notávamos. E sentar-se no corredor para escrever, como se o corredor fosse antecâmara de sonho

para manter chama. Perder-se num espaço cada vez mais situável. Substituível. Como se ainda possível olhar para ela. E vê-la. Vê-la. Digo, vê-la cercada daqueles impasses, bravuras. De quando se tem ideias, cabeça. Ou acha que tem

e vinte anos. Puro vento. E tudo tão tenro, que os cabelos parecem capinzinho novo. À brisa. E no olhar a transparência de gamboa. Cabeça e vento. Que semeia e procela. Porque acha a calmaria um tédio. Não mais 

eia

15 Ensaios Indigestantes




Uma Escolha de Ensaios, Enquadros e Cores, sem Indigestão dos Leitores
alguns textos longos em prosa postados em Afetivagem no ano de 2012 e que jamais irão ao Reader's Digest

Pode-se ir da Poesia Concreta a Roberto Carlos, passando por Vilém Flusser e Sam Peckinpah e, a meio caminho, divagar por David Foster Wallace e os descaminhos da tradução ou pela natureza da imagem nos diascorrentes. O panorama de temas é insuportável de amplo.

E, ainda assim, é. E é legível. E convida.

Por que será?


*   

i.
Ei, Vilém Flusser...  – (A recepção de Flusser - nem sempre crítica - sua crescente popularidade (ou moda), e algum ressentimento-ambiente)

ii.
É stupendo: Oscar Niemeyer (1907-2012) - (Um necrológio com algumas observações sobre a estética da arquitectura de Niemeyer e suas correlações com a literatura brasileira)

iii.
O que do Rei não perdeu a majestade – (Acerca de Roberto Carlos visto sob um aspecto geracional)

iv.
Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – (A alta contemporaneidade dos temas e do temperamento desse autor cearense morto prematuramente e encerrado no estreito rótulo de naturalista)

v.
Turbulência, anti-distônicos e amor como espectro: uma biografia de David Foster Wallace – (Resenha da primeira biografia do autor estadunidense, que é também o primeiro herói literário pós-digital)

vi. 

vii.

viii.
Peckinpah: poeta de um idílio sem saídas – (Mais que da fronteira ou da violência, Peckinpah é um poeta das aporias pós-contemporâneas)

ix.
No Centro de um Império Equivocado: a Centralidade do Inglês, Tradução e Astúcia - (De como levar uma vida fora do idioma inglês é viver na periferia, mas também de como levar uma vida só no idioma inglês é a pior das periferias)

x.
As Vilas Volantes como exercício de escuta - (Análise dos motivos e dinâmicas na feição de um documentário lançado em 2005)

xi.
Re-Flexão sobre Virtualidade, Imagem e Projectos de Arte – (Uma re-flexão sobre a imagem técnica e a imagem não técnica – e o quanto a imagem técnica vem ditando nosso modo não-técnico de ver o mundo)

xii. 
Sequestrar um príncipe - (Pela Improvável Reunificação de Portugal e Brasil numa Nação Transatlântica)

xiii. 
Vão Gogo, o descendido Guru do Méier – (Um necrológio: Millôr Fernandes – e suas relações com a inteligência brasileira na segunda metade do séc. XX)

xiv. 
Gilberto Freyre e a Invenção do Nordeste - (O modo como o Nordeste está disposto na Obra do autor que inventou a região)

xv. 
O George Harrison da Poesia Concreta - (Uma breve reflexão informal e inconveniente sobre Augusto de Campos e o concretismo enquanto impulso estético)

bonus track:

xvi.
Deleuze e Guattari: confusão e revolução na era da entropia - (uma análise bastante heterodoxa e desabusada sobre as ideias dessa dupla sertaneja de pensadores franceses). 

As Precedências


Clemens Krauss, 2010


Quando pai e filho chegaram ao terreiro, a Mãe de Santo pediu que trouxessem um cadeira, e ofereceu-a ao filho. Depois, indicou ao pai que sentasse no chão. Ficaram nessa arrumação por mais de meia hora, quando, então, o filho protestou em nome do pai e seu desconforto.

Mesmo que nada. A Mãe de Santo não lhe deu ouvidos, e prosseguiram com a cerimônia. 

Sem falar em Michelângelo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A rua sossega o pé: Heitor Ferraz

A Av. Paulista da perspectiva de uma janela da Faculdade Cásper Líbero


Quadro Paulistano


Precisava jantar
caminhar um pouco mais 
a rua tem isso
sossega o pé
a cabeça vai junto
aliviando
terapia do asfalto
duas mulheres de shortinho
dentro da vitrine
já devia ser tarde
nesta época do ano
as lojas fecham mais tarde
as moças ficam
de shortinho
arrumando as roupas
remexidas e amarrotadas
nos balcões e cabides
depois saem da loja
sorriso vai pela avenida
sapato alto
o mágico equilíbrio
das vendedoras depois
de um dia na loja
mas não eram só elas
calor exorbitante
que corria por todo canto da avenida
com sacolas de compra
árvores falsas
enroladas com luzinhas coloridas
o prédio da Fiesp enrolado
com luzinhas coloridas
tive que me desculpar
com a família que fazia uma foto
pai mãe e filha
passei bem na frente deles
não queria
tentei evitar
jogo de cintura
o corpo está duro
enrijecido pela ironia
Precisava jantar
sumir pelo desvão
a escada rolante
hora de ficar quieto
engasgado
diante do rosto
que não responde
do outro lado
da porta automática.

Heitor Ferraz 

Cristais de Sal: o amor segundo Stendhal e um exemplo em Benjamin



                                                  “A vida é feliz e é preciso sorrir sempre”
                                                                                      [Uma imigrante armênia na Grécia]

Há aquele trecho de O Narrador em que Benjamin nos fala de um conto de Hebel. Um mineiro que às vésperas de casar morre no interior da mina por conta de um desmoronamento. Estamos em pleno séc. XVIII. Por uma fortuita combinação química, o corpo do mineiro é preservado. E, assim, descoberto, intacto, décadas depois, já no século seguinte. E, por esse acaso, à sua noiva - então já uma senhora idosa - é aberta a possibilidade de reencontrá-lo de novo. Porém jovem e intacto, exatamente como às vésperas das malogradas núpcias. Ela o contempla fascinada. E morre só uns poucos dias depois. Mas o modo como o narrador – no caso, Hebel – procura dimensionar a passagem de tempo do desastre até o inusitado reencontro é marcado por um longo inventário de factos (de certa ressonância pan-europeia):

Enquanto isso, Lisboa foi arrasada por um terremoto, e acabou-se a Guerra dos Sete Anos, o Imperador Francisco I morreu, e a ordem dos Jesuítas foi dissolvida, a Polônia foi retalhada, e morreu a Imperatriz Maria Teresa, Struensee foi executado, os Estados Unidos tornaram-se independentes e as potências aliadas da França e da Espanha não lograram conquistar Gibraltar. Na Hungria, os Turcos aprisionaram o General Stein na Grota dos Veteranos, e o Imperador José também morreu. O Rei Gustavo da Suécia tomou dos russos a Finlândia, e começaram a Revolução Francesa e as grandes Guerras, e o Rei Leopoldo II também morreu. Napoleão conquistou Paris e os ingleses bombardearam Copenhague. Os camponeses semearam e ceifaram. O moleiro moeu. Os ferreiros forjaram. E os mineiros cavaram atrás de veios preciosos, nas suas oficinas subterrâneas. Porém quando em 1809, os mineiros de Falun...”

Benjamin nos chama a atenção para duas coisas. Primeiro, para o modo hábil com que Hebel inscreve o tempo largo, dos grandes acontecimentos históricos, no tempo privado e subjetivo de uma história de amor. Mas também para a recorrência da morte, que brota a todo instante no inventário com uma precisão metronômica.

E, no entanto, algo ainda há aqui. Algo que não creio haver sido apontado antes. E na atmosfera, na ambiência mesma. Pois Benjamin vai buscar exatamente no fundo das minas essa metáfora de preservação. Notem que tudo isso surge bastante rente à imagem do amor num dos romancista que versou mais insistentemente sobre o tema: Stendhal.

Há o famoso conceito de “cristalização” em Stendhal:

Aux mines de sel de Salzbourg, on jette dans les profondeurs abandonnées de la mine un rameau d'arbre effeuillé par l'hiver; deux ou trois mois après, on le retire couvert de cristallisations brillantes (…) Ce que j'appelle cristallisation, c'est l'opération de l'esprit, qui tire de tout ce qui se présente la découverte que l'objet aimé a de nouvelles perfections.
[Stendhal, De L'amour]

Ou:

Au moment où vous commencez à vous occuper d'une femme, vous ne la voyez plus telle qu'elle est réellement, mais telle qu'il vous convient qu'elle soit. Vous comparez les illusions favorables que produit ce commencement d'intérêt à ces jolis diamants qui cachent la branche de charmille effeuillée par l'hiver, et qui ne sont aperçus, remarquez-le bien, que par l'œil de ce jeune homme qui commence à aimer.

Parece que esse conceito de amor como algo cristalizado na escuridão e pureza das minas é algo expressamente caro ao Romantismo. E, claro, há em Benjamin essa nítida inclinação, essa predileção por autores românticos. Esse fascínio por coisas jogadas de lado como trastes e depois resgatadas como tesouros ornados por vestes imperiais em sua mais elevada pompa.

Não pensem que há algum preciosismo na analogia que traçamos. Ela é apenas uma intuição. Não foi pinçada, em retalho, num seminário de pós-graduação. (Se bem que agora começo a ficar em dúvida).

O conceito de cristalização em Stendhal vulgarizou-se, virou moeda corrente. Algo tão vulgar quanto o “complexo de Édipo”. E como esse Édipo, evidente, há um verbete sobre ele na Wikipédia, em mais de um idioma. Ou seja, é algo que segue na boca de todos, embora poucos tenham ido até Freud ou Stendhal para verificá-lo, ponderar, saber do que se trata, de facto. E até mesmo Serge Gainsbourg irá compor uma canção – um pouco tonta, em tom de asneira e parodia – chamada C'est la cristallisation comme dit Stendhal. Talvez Gainsbourg apenas achasse irritante ter de ler Stendhal no colégio, e resolveu vingar-se. Essas vendetas que adiamos desde a adolescência, e também seguem adormecidas em minas interiores até despertar quando menos se espera.

Ou, ainda seja, se visto à lupa, o conceito de Benjamin, tomado a Hebel, não é mais que uma cristalização literal – ou no caso, carnal - da cristalização metafórica, de Stendhal.

Paro por aqui.

(Mas quem sabe, se eu fosse um ambicioso scholar, versado em literatura francesa, ou morasse num país meio periférico e sem nenhuma importância nas franjas da Europa (digamos, na Rumânia) ou na América Latina (digamos, em qualquer um), talvez fosse mais adiante. E escrevesse toda uma tese de doutorado que, posteriormente, pudesse ser refundida em best-seller ao agregar, quem sabe, algumas sugestões de Denis de Rougemont, além de certas bobagens e clichês da psicanálise e uns dois ou três conceitos pegados às pressas em Derrida ou Deleuze: bons elementos para um Frankenstein. Borges, se vivo fosse, bem que podia escrever um romance disso, em meio a gargalhadas tanto maiores quanto mais floreasse o estilo, para deixá-lo ainda mais acadêmico e afrancesado.

É mais ou menos como essas coisas são feitas hoje em dia. São “pesquisadas”, "defendidas".  (Será que há nelas um mínimo de prospecção próxima da que existia nas antigas minas? Alguma vida para além da múmia?) E há tolos o suficiente para comprá-las de olhos bem abertos. Aqui como alhures).


sábado, 29 de dezembro de 2012

O Tempo, a Graphia, os Acordos



Quando a gente era adolescente, achava o cúmulo que farmácia um dia tivesse sido pharmácia. Não fazia muito sentido. Depois via que Fernando Pessoa, entre outros, defendia essa grafia. 

Hoje, é já possível calcular o que se perde por não graphar pharmácia.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Canção do fim e do mundo

Mel Lisboa em Presença de Anitar, 2001

este ano inventaram um tal de fim de mundo Maia. Uma nova modalidade de acabar com tudo que se acabou no dia 21 de dezembro último. Foi o fim. E a picada. Foi o fim de mais este fim de mundo. E, arre, a picada já não nos deixa tão tontos. Ai que marasmo. Mas parece que os maias já não eram mais os maiorais quando os espanhóis chegaram cheios de marra, elmos, empáfia, sífilis, canhões e missais. Já não eram assim esses balacobacos todos. Não eram mais os bam bam bans do pedaço lá por Yucatán. E até já tinham perdido alguma capacidade de calendário e cálculos. Digo, já não eram mais tão maias assim. Assim como o quê, cara pálida? Como o Zé Mayer em presença de Anita. (Lembram de Anita? Onde andará Anita? Que inveja do Zé). Então, talvez os maias à altura dos conquistadores já fossem de algum modo mais próximos daqueles outros Maias, os de Eça. Quem sabe. Difícil prognosticar como lidavam com incestos. Ou certa inescapável decadência. E, no entanto, dizem os doutos que os maias não tinham algo parecido com arrebatamentos ou  fins de mundo.¹ Não importa. Todo mundo precisa acreditar em alguma coisa por alguns segundos. Nem que seja de mentirinha. Acreditar no que quiser. Em Papai Noel, em Negrinho do Pastoreio, no Supremo, na inexistência, na heterodoxia, em Anita, na ideia de Europa - esta muito cara aos alemães, se vista de determinada janela da Chancelaria Federal - na agnose, nos dezesseis cilindros, e até na imortalidade de Senor Abravanel. Tá valendo. Acreditar que o placar do jogo é o prenúncio de alguma coisa, no próximo ano, em Papua-Nova Guiné. Faz parte. E com todo respeito (essa frase infame de desrespeitosa): faz parte acreditar. Até para se descrer. Ou debitar na crença dos outros certa descrença. Acreditar num guilhotinado de boné, batendo uma falta no ângulo. Num monsenhor que escrevia poesia concreta depois de ter servido no serviço secreto de Sua Majestade numa Segunda Guerra já tão distante. Ou, quem sabe, na tua calcinha rendada, pendurada na torneira, pigando sobre os ladrilhos deste mundo. Deste imenso mundo. E a gente flutuando mais alto que o Himalaia. Nesse ínterim, alguma coisa acontece cada vez mais longe, que tem cada vez mais impacto aqui por perto. Tudo se interliga atrás da fachada do mundo. Ou como diz o poeta: "cuidado! Há sempre um sorriso. De irrefletida maldade: As coisas se estão reunindo. Por detrás da realidade". É, não está fácil comover-se de verdade neste fim de ano de 2012. E os patos voam para o sul nos documentários. E as pessoas dizem que se amam, que se odeiam nas telenovelas. E os perigos do meio-termo. E as alcateias da meia-idade. Tudo como sempre foi, na casa de Abrantes, etc. Mas só um cego não vê que o fim do mundo se dá a cada fim de ano. E o sul, na verdade, é aqui. E os patos acabaram de passar. Vi a sombra deles no asfalto. Nas dunas. As asas retesadas como folhas secas. Ou camisas engomadas. E, então, vamos dançar. Todos. Digo, sem compromisso. E depois é só somar

e depois, nem isso.

___________________
¹E eu fico pensando, em registro profundamente político e incorreto, se os desgraçados desses maias eram tão desprovidos de imaginação a ponto de não imaginar um fim de mundinho básico, desses qualquer. Ou se essa falta de imaginação e escatologia é, em verdade, do antropólogo francês que traduz para nós - leigos e sem capacetes no meio de uma partida de hóquei sobre patins quanto aos aspectos numinosos da civilização maia - como era o tal do imaginário desses evoluídos selvagens. E depois a gente fica sabendo que o antropólogo francês era da Aquitânia. E até meados século XIX os seus antepassados falavam e pensavam primeiramente em occitano. (Por exemplo, quando martelavam o próprio dedo e exclamavam). Até que a turma de Paris e de Nanterre extinguisse de roldão, por decreto, ferro e fogo todas as delicadas culturas e línguas alternantes no Midi. Faz parte da civilização. À la vôtre.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

25 acasos depois de Cacaso




esse não chegou a ficar grisalho. Morreu faz exatos 25 anos nesse mesmo espaço anódino entre o Natal e o Ano Bom. Espaço traiçoeiro. De previsíveis gestos e sons. Que não fede nem cheira. Quadrante meio mineiro. Arrastou-o a Indesejada com olhos de desfaçatez e lagarto na ponta da lâmina fria de um infarto. Com seu acanhamento, jeito de tabaréu. Com óculos de Lennon. Um pouco de Orfeu e órfão dos anos polares. O monstruoso mal tinha um rosto. (Suas fuças de borracha, metal, gases, cascos, decretos). Bissexto nas letras apenas para quem é duro de cintura: letrista. Sabia de coisas e filosofias. Preferiu a linguagem simples. Sestros do interior que fez questão de não perder para ser mais pop, de agora e de todo mundo em diante. Os chatos virão dizer que publicou letras de música fáceis junto com a poesia completa – talvez por falta de mais. Talvez por falta de musa. Ou por falta de missas e pós-grados. Mas Torquato não fez o mesmo? A intenção era de realçar a qualidade das letras. De reafirmar o poeta em sua versatilidade pop. E a diferença na política não fez que Merquior e ele fossem desamigos. Mas até muito pertinhos em prefácios. Isso é que é bonito. Mas também foram mortos precoces. A uma geração que viveu a última aguda vida sem virtualidade, um poeta vivido e rápido, passado na casca de alho do som. Do orvalho de antigas serestas em cercas que já se foram. Brusco como versos devem ser. Dizem que desenhava bem. Mas seu sentido vívido vai mesmo pelo ouvido. O desenho do som. Eu hoje li poemas de Antonio Carlos de Brito. E ouvi canções onde há palavras dele. E elas me levaram até um país que já não há. Onde éramos jovens e eternos. E padecíamos no paraíso. E ainda falávamos sobre lua e pedras preciosas. E passávamos sempre por perto uns dos outros. Ou por dentro da que queríamos. E chegávamos à gema sem precisar de teoria, de teoremas, embora houvesse o pulmão sem fibra dos concretos. E sonhando ser Carlos Williams e Dylan ao mesmo tempo. Ou Simão no deserto. E a simplicidade de Bandeira ainda prometia boas coisas. Fica aqui um abraço, poeta. Para ti. Pra esse apelido moldado em cacófato. Um abraço de quem ainda pouco te leu. E precisa atualizar-se por doses cavalares de passado. 

Pelos dias de cicatriz.

*


Três Textos de Antonio Carlos de Brito (Cacaso):


HAPPY END

O meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

*

MEIO-TERMO

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo

*

CINEMA MUDO

I

Um telegrama urgente
anuncia a bem amada
para o século vindouro.
Arfando diante do espelho
principio
a pentear os cabelos.
O oceano se banha nas próprias águas.


II

Acordei grávido e uma dúvida
dilacera minhas partes: quem seria a mãe
de meu filho?
Demônios graduados me visitam
enquanto retoco para a posteridade
a maquiagem do arco-íris.


III

Vejo seu retrato como se eu
já tivesse morrido.
Grinaldas batem continência.
Livre na sua memória escolho a forma
que mais me convém: querubim
gaivotas blindadas
suave o tempo suspende a engrenagem.
Do outro lado do jardim já degusto
os inocentes grãos da demência.


IV

Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
Tão belos e tão perfeitos
como quando a tarde pressente
as glândulas aéreas da noite.
Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.
*


__________________
Segue o linque para o famigerado artigo "Nosso verso de pé quebrado" em que Cacaso e Heloísa Buarque de Hollanda traçam um breve panorama da poesia brasileira à altura de então. O texto foi originalmente publicado em janeiro de 1974 e de alguma forma delimita na pós-vanguarda o fenômeno que tem sido nomeado de "poesia marginal". Nenhum dos poetas citados no artigo, aliás, sobreviveu ao tempo. Mas isso não depõe contra o texto. O artigo é importante, entre outras, por falar de uma certa dispersão da produção que antecipa essa escola dispersiva e profusa que são as novas mídias. Pode-se dizer, grosso modo, que as novas mídias digitalizaram e amplificaram espetacularmente essa dispersão inicial e essa vontade de democracia da dita "mimeógrafo generation", lá nos já distantes anos 70. (E não deixa de ser emblemática a presença de algo tão indicador de um resto de aura, de uma matriz, de uma intensa materialidade ou analogia como o próprio mimeógrafo enquanto aparato. Além, claro, de certa precariedade quase aporística). De início, uma das diferenças: naquele tempo havia uma poesia que corria por fora, hoje quase toda poesia escorre por fora. E há profusos, imperscrutáveis foras por este mundo afora. Uma simultaneidade de foras, uma diversidade deles. Fora há muito deixou de ser um barato, algo charmoso, para virar norma constituída. E, claro, faz mais ou menos uma geração que muitos lucram pesado com o que se chama um tanto ingenuamente de "indie". Mas também consolida-se uma geração de poetas sem livro, cuja produção já se vem tecendo sobretudo na ambiência virtual. Ou sendo composta nesse ambiente de hipertexto, não é de hoje.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Repertório de Natal?

Assis Valente na década de 1930

Que tal Assis Valente, sambista de muito sucesso nas décadas de 30 e 40, nascido na mesma pequena cidade santo-amarense de Caetano Veloso? Baiano mas com todo o suingue, a astúcia e a gíria cariocas. Compositor de “Camisa Listrada”, “Brasil Pandeiro”, e de um sem número de outras canções que cantamos como hinos. Gravado por João Gilberto, Carmem Miranda, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Novos Baianos, Adriana Calcanhoto, Fagner, o próprio Caetano, entre tantos outros. 

(Aliás, a propósito do malogrado fim do mundo (supostamente) Maia, essa deliciosa versão de "E o mundo não se acabou" com a não menos deliciosa Paulinha Toller):




De Santo Amaro, onde foi criado como filho adoptivo, passou a Salvador. Na capital da Bahia, cursou o Liceu de Artes e Ofícios. Em seguida, a reboque de um circo mambembe, o Rio, onde trabalhou como protético e chegou a ganhar alguns trocados como desenhista, antes de compor os primeiros sambas. O famoso Heitor dos Prazeres foi um de seus incentivadores. Depois, foram sucessos encarrilhados. Alguns na voz de Carmem Miranda e consagrados em Hollywood. É lendária sua facilidade tanto para compor sambas quanto para vender-lhes a autoria ao preço de uma rodada de chope.

Assis Valente suicidou-se ao ingerir formicida num banco de praça. Era um fim de tarde tranquilo e quente, março de 1958. No bolso de seu paletó havia um bilhete sentimental. Ele se encontrava endividado até a raiz dos cabelos. Já havia tentado sem sucesso pular do Morro do Corcovado e topado com a má sorte de cair sobre uma copa de paineira, que amorteceu-lhe a queda. Era negro e pobre, uma combinação um tanto letal à época. E, como se não bastasse, em algum lugar também comenta-se de preferências sexuais heterodoxas e mal resolvidas. Tinha 47 anos.

Valente é autor de um tema de Natal, “Boas Festas”, perto de tão popular quanto “Noite Feliz”. Foi composto originalmente para o Natal de 1933 e, portanto, completará 80 anos, em 2013. E não deixa de ser estranho que essa canção seja incluída em coletâneas de música de Natal. E que ao escutá-la na infância, pelo ritmo e a melodia, passe um tanto despercebida, em meio às demais. E só quando chegamos à mais idade venha a percepção de sua distinção, ao atentarmos para a letra.


Poderia ser a versão de João Gilberto. Mas vamos de Maria Bethânia: 




UM FELIZ NATAL PARA TODOS!

Outros não se curam




Vou te contar um caso real de uma pessoa que cria ter um encosto: o fantasma de uma namorada da adolescência, metido dentro de casa. E todo mundo dizia: esse não bate bem da bola. Mas a verdade é que sofrera um abuso na infância, o que o tornou complacente: abusos em fila, dos demais, ao longo da vida. Impermeável a qualquer reação, como se pele não tivesse, só nervos. Peixe fora d'água. Colecionou um ror de relações frustradas com mulheres. Incapaz de reagir. Abusou de outras tantas. Outras, perseguiu. Inclusive na rede. Mas mais frequentemente na cama. Havia uma confusão extrema em sua mente, porque fazia uma coisa má: relacionar-se com mulheres. Muitas. Milhares delas. Talvez a resposta estivesse nos homens. Mas não era o caso. E, então, quem sabe, devesse persistir, porque encontrar a escolhida, o amor ideal, não parecia lá muito fashion. Como todo mundo sabe, esse negócio de amor ideal acontece só nas novelas, etc. Mas a verdade é que, um dia, quando menos esperava, uma mulher chegou, e tomou sua mão. E não largou mais. E é preciso ter muita coragem para tomar uma mão assim. E ainda mais hoje em dia. E é aquele negócio de passarinho que come pedra. E ele não voltou a ver os fantasmas, porque, entre outras, a presença dela tornou-se maior que esses espectros. 
Esse sujeito hoje leva uma vida de muita utilidade, alegria. Uma vida um bocado preocupada com também outras vidas. Se isto existe, se é possível. E nunca mais viu fantasmas. 
A esse sujeito, lhe curaram o Amor e seu esforço.

Outros não se curam.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Palavra Cinema


Joel e Ethan Coen, Barton Fink, 1991


Não deve ser usada em vão. Para algo que nada proponha vazando fora de um universo dobrado sobre si. Que nada vaze de suas convenções. De suas convenções sedimentadas historicamente para outros modos de sentir, conhecer, conversar. Por isso os filmes mais maçantes são os excessivamente meta-confeccionados. O cinema, do contrário, está ocupado com sons e imagens mais rentes às que encontramos no dia a dia. E num dia a dia cada vez mais assolado por sons e imagens de tempos formatos e definições diversos - mas que, no atacado, vendem coisas (e, entre essas coisas, a ideia de que o cinema é um universo fechado sobre si). Há uma grandeza que consiste no seguinte: em o espectador sentir-se parte do que segue na imagem, ainda quando cônscio das artificialidades e estratégias investidas na formulação dessa imagem. E é precisamente aqui que muitos jovens realizadores pisam na bola. Eles pensam que discutir história do cinema ou propor vagos gestos "políticos" (no filme) são suficientes para gerar grandeza. Não são. O espectador quer sua humanidade posta na tela. Um mínimo de empatia. Ele a busca, e não acha. E porque ela é muito mais complexa que a unilateralidade de uma tese. Enquanto isso o realizador passeia pelo quarto com o gravador de som na mão pensando que seu gesto é revolução. Ou discute a natureza da imagem, como se estivesse num simpósio de pós-graduação. O problema é que a vasta maioria da humanidade nunca sequer pisou numa faculdade. Muito menos numa faculdade de Comunicação. Ou  de Cinema. E francamente há outras coisas com o que se ocupar, ante meras demonstrações de conhecimento de causa ou destreza. Afinal, nem todo mundo acha o máximo que filmes citem filmes o tempo todo.
O fato de esquivar-se de um meta-cinema, à sua vez, não é álibi para atirar-se a um cinema ingênuo ou "espontâneo". Se o filme perderá ou não seu dispositivo padrão – sala de exibição, DVD, etc. - isso é secundário diante da abstração da ideia que rege o cinema em si, como forma de expressão. E que é análoga à ideia do livro. Ou que vem lá? A rigor, não se sabe. Mas a literatura não será extinta pelo aporte do digital. E até porque a ideia de livro é mais resistente que as materialidades que o suportam. Assim também o filme, enquanto ideia. [Transcende a sala, o vídeo-cassete, o home-theater, a bidimensionalidade, etc. Se um dia vamos escrever por imagens não há o que lamentar nessa transformação. O fato é que ela não será para já. Embora a tendência.]
Aparentemente, nenhuma postura mais estúpida hoje que a de reivindicar o realismo.
Ora, reivindicar uma arte realista, nos diascorrentes, paradoxalmente, parece ser a mais astuta e revolucionária das atitudes. Porque igualmente a mais paradoxal. Especialmente numa época que confunde realismo com um naturalismozinho tacanho. Ou com uma realidade que pode ser auscultada sob o prisma de outros olhares a-humanos, maquínicos ou cientificistas. Como se ciência e arte fossem modos idênticos de conhecer. Ou como se não fosse necessária uma enorme carga de convenção e artificialismo – que um autor como Deleuze chama (em acerto) de “as potências do falso” - para se chegar, de fato, à esfera do realismo enquanto representação. E enquanto representação ainda que de um mundo inteiramente fascinado pelo grau de virtualidade a que se pode chegar. 
Apesar de se estar só no limiar dessa chegada.
Cinema é limiar. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Ideia puxa ideia: de associações nem tão impressentidas assim




É o máximo. Chega ser uma homenagem. Tomo como pessoal. E um acerto. Quer dizer, que alguns leitores tenham imediatamente feito a ponte do texto sobre Cassavetes (dois abaixo) com ESTE. (Um é teoria; o outro, ilustração). 

Esses leitores não estão prosa. Sabem o que querem por aqui. 

E eu com isso. No melhor sentido.

Quer dizer, eu com eles. Porque obviamente há muita conversa entre posts por aqui. E às vezes, eles me lembram de coisas. É bom ter esse retorno. 

(Mas não o chamo de feedback. Porque com isso de alimentação, aprendi a ser bastante literal). 

Alguns Quilômetros




Às vezes, no ruído das chaves, ouço teu chegar: não estás mais. Ninguém. Um ano vai inteirar. O ruído das chaves conjuram saltos batendo. São teus não. Rojões cortam a noite. E alguém deve estar bêbado. Só hoje morreram a mulher mais alta do mundo, a mais sexy do mundo, a menos moura, a mais torta, a mais velha. Também Oscar Niemeyer, que era um dos arquitetos mais velhos. E Dave Brubeck, que disse tome cinco, pondo dez dedos nas teclas. Como ponho os meus nessas outras, num e-mail para a A. B. Veiga: lembra dela? Vocês estudaram juntas no Santa Cecília. Por que isso de comemorar o Ano Novo começa tão cedo: já no início de dezembro? A cidade toda pisca. Parece mais próspera. Ou alegre. E, no entanto, há algo encardido. É. A economia talhou este ano. Mas pelo menos não deu pra trás como na Europa. O Fluminense foi campeão jogando uma bolinha de papel. E as crianças adoram as luzinhas no rosto das casas, enroscando-se pelas varandas dos prédios.

Nada disso vês. Nem a grande árvore, erguida na Praça Portugal. Mais uma. Para outro.

Faz um ano que estás debaixo do chão, a alguns quilômetros daqui. No escuro.

Os vermes a devorar tuas carnes.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O que houve, Quim, meu velho?




Quim! Que negócio mais esquisito, cara! Porque o Ricardo todo mundo sabe que é pau mandado. Mas tu, Brutus? Será que foi o vento? Descobriram algum podre teu: o que aconteceu contigo, meu rapaz? Que amarelada sem verde foi essa, Quim? Teu cavalo refugou, que nem o Baloubet du Rouet? Conta. Foi no vestiário? Pois então, eu também sou boleiro: aconteceu de te aplicarem um sabacu mais bem dado que nos jogadores do Tigre? Você tava indo tão bem, cara. E eu até já tinha comprado o espumante mais caro qu'eu dei de botar na prateleira nos últimos anos: um Perini Prosseco Brut, safra 2010. Eu queria comemorar os gajos na prisão para melhor passar o Natal, e você vem com uma dessas, Quim, meu velho, meu lateral esquerdo preferido desde o Zorro. O mundo não acabou, mas caiu um pouquinho mais hoje. E enquanto isso, na sala de justiça, o pessoal tira na porrinha o direito de não estar entre os ímpios. E, claro, todo mundo é santo. Mas o pau é oco. Agora, Quim, será que a turma já te comprou por trinta dinheiros, filho duma mãe? Não é possível, figura. Você era e é o ultimo dos moicanos nesta terra de gatunos disfarçados de arlequins. Será que só ladrão de galinha e traficante de pouca maconha vai pra cadeia neste país, meu chapa? Cê tá de brincadeira, né? Cê tá é despistando, confundindo os cab'a, né, não? Jogando verde. Quem sabe você não decreta uma auditoria federal no Maranhão e em São Paulo. Aguardo novas tuas via TV, Quim.

Quando for a hora de colher maduro.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Um Breve Instante em Cassavetes




John Cassavetes, A Woman Under the Influence, 1974


Há esses breves instantes em que o cinema transforma-se em verdade. Sobre eles não é bom que recaiam análises. Especialmente eles não devem ser interpretados. Ou classificados. Eles pedem para ser fruídos, porque ampliam nossa capacidade de sentir. De enxergar/ouvir/tocar coisas. Perceber nosso tempo. Eles nos tornam mais humanos. Nos fazem chorar. Mas não do mesmo jeito que outros filmes nos fazem chorar. Eles nos fazem chorar sem lágrimas.
Um desses instantes de insofismável cinema se dá em Cassavetes. É um pequena sequência de A Woman Under the Influence (1974). Nela, Gena Rowlands no papel de Mabel Longhetti, uma dona de casa assaltada por surtos psicóticos, entra em parafuso após um telefonema. Do outro lado da linha, o marido acabara de quebrar um pacto, por conta de uma emergência no trabalho: voltar para casa ao fim do dia. Ainda que eles tivessem previamente marcado uma noite especial, e mandado as crianças para a casa dos avós. 
Mabel então sai de casa. Deambula por Los Angeles à noite em meio a carros que passam, faróis, luminosos, luzes borrados, belamente desfocados ao longo da avenida. Ela adentra um bar, mas não se agrada da ambiência. Ouve-se tacos e bolas de sinuca. E uma luz rajada cai sobre seu rosto na intensa penumbra, são reflexos de um globo de luz. Caminha mais um pouco, até entrar numa boate, e dar com um homem de meia-idade. Depois de alguma conversa e os drinques de praxe, o sujeito lhe dá uma carona até casa, e eles dormem juntos.
O trecho mais belo, no entanto, é esse breve instante de busca (ou fuga): ela perambulando na noite antes de chegar na boate, e há esse teminha profundamente lírico soando ao piano desde que desliga o telefone. E sabe que a noite talhou. Pode-se pressentir que o tema foi gravado com uma artesanalidade de registro doméstico. E que a voz soa com uma poesia e uma solidão extraordinárias, de quem canta com certo descuido. Como para entreter-se. Como quem assovia. Ou solfeja. Naqueles instantes em que a própria voz quer ser a companhia do dono. 
Desde sempre essa passagem encanta. Desde a primeira vez que a gente a percebe (vê/ouve, sem dissocio) no filme, junto com os ruídos ambiente. Ela responde pelo grau de detalhismo obsessivo de Cassavetes. A dificuldade que ele tinha de dar por encerrada a tarefa de edição. Desejo de ficar editando para sempre. E sempre achando que há algo a apurar. Esse apuramento respondendo pela cadeia sem fim da edição.
Dificilmente haverá outra mulher tão plena na imagem quanto Gena Rowlands em A Woman Under the Influence. Não uma menina, uma garota, uma adolescente, uma senhora, uma sereia, uma velha, uma modelo, uma big-brother, uma beldade, uma diva; mas uma mulher. É diferente. Ela assoma carregada de uma beleza contemporânea, meio louca. Essa beleza está em toda mulher. E em nenhuma mulher naquele grau. A não ser em momentos extremos. Em momentos de crise, riscos e urgência. Está prestes a explodir. O modo como se veste, movimenta, gesticula, dança, fala, vale por manifestos feministas. A gente sabe, a gente sente, mesmo à distância, o que causa a loucura daquela mulher. Sua desesperada ânsia de expressar-se sendo podada à cada vez que aflora, quer brotar à flor d'água.
Um filme subsequente de Cassavetes chama-se Love Streams. O fluxo dessas correntes, dessas nascentes comandam, no entanto, todos os filmes do diretor de Shadows. As tramas não caminham para um desfecho. Não se trata disso. O desenrolar é o ato potencial. E, assim a ação das personagens. Guarda um valor de momento que lhes retira qualquer possibilidade de tipo. Elas são humanas demasiado para ser tipos. E as coisas que lhes sucedem, em sua unicidade, inscrevem-se numa escala de vida. Como o trecho da caminhada de Mabel pelas esquinas da noite. Há uma caráter de ficção já meio embaralhado por certa inequívoca tendência documental. 
O trecho é um daqueles milagres em que som e imagem foram definitivamente fundidos. Ou em que os acordes ao piano e esse fio de voz que se ouve ao fundo guardam algo que se suplementa no padrão de estampas do vestido que Rowlands enverga, e que é tão anos 70 em sua extravagância floral. Ou nos gestos bruscos. Crispações. Ou no modo como a câmera recusa a acompanhar o movimento de ascensão da protagonista, e por algumas segundos capta apenas a exublerância floral desse vestido. Ou no desesperado passeio, em que Rowlands assoma cantarolando, sozinha e devastadoramente bela, no meio da noite. Uma certeza: o que ela cantarola só pode ser esse teminha de fundo.
Anos atrás, consultando livros - ainda não havia a conveniência e o hábito do Google, da Wikipédia - pensei que o tema houvesse sido composto pelo próprio Cassavetes, que era pianista amador. Um livro, aliás, confirmava equivocamente essa hipótese. Mas não é bem assim. O tema foi composto por Bo Harwood.
Harwood fez o som de alguns dos filmes de Cassavetes. E compôs trilhas para eles. O revelador é que Cassavetes em muitos casos prefira – como no caso em questão – a gravação doméstica, crua, caseira, sem muita elaboração ou firula posterior: efeitos, filtros, limpa ruídos, corretores de afinação, corta pês, câmaras de ecos ou cordas acrescidas num estúdio: os tão propalados overdubs, que fizeram a glória de discos como o Sargeant Peppers. E contra a vontade de Harwood, Cassavetes aplicava sobre a imagem as versões demo. Coisas gravadas um tanto de improviso em seu próprio escritório. Registros despretensiosos, feitos apenas com propósitos mnemônicos.
Pode-se entender por que Cassavetes queria assim. Há registros domésticos que não podem ser "melhorados", sequer em estúdios profissionais.  Como se portassem uma aura ou feitiço na gravação, que pedissem para ser expostos exatamente assim, com certo ar de esboço. 
Michel Chion nos fala da simultaneidade de som e imagem criando um terceiro elemento, que não é mais nem só som, nem só imagem. A esse fenômeno Chion chama de síncrese (mistura de simultaneidade - ou seja, de sincronia - e síntese). O que ele não diz é que há síncreses que de tão bem elaboradas nunca que nos deixam. Ou nos deixam na mão.
Outro dia revi esse trecho de a Woman Under The Influence. Tinha chegado até ele de novo por uma série de acasos que, claro, não são. E lembrei de como gosto dele. De seu heroísmo tenso e moderno. Da beleza dessa mulher ferida, caminhando sozinha, na noite, com sua mágoa e loucura. O tema, isolado, pode ser ouvido logo abaixo numa versão que é ligeiramente diversa da empregada no filme:



Ou a tal síncrese, como a chama Chion, pode ser vista/ouvida entre 10:21 e 12:00 – embora para melhor contexto, tomar de 7:50 até 13:2o - na postagem do filme, abaixo, em sua íntegra. Note que na versão do filme, a melodia em determinado momento é feita por meio de um vocal hesitante, meio improvisado e absolutamente encantador, escandido entre a simplicidade dos acordes. O'Neill escreveu uma peça chamada Long Day's Journey Into Night. Esse trechinho que passa quase despercebido num filme de Cassavetes, apesar de sua aparente brevidade, banalidade, de ser um instante, instantinho de nada, também o é: 



Bo Harwood tem um site, onde esses temas podem ser comprados, assim como alguma iformação adicional:
Mr. Harwood has a site where those tunes can be bought, along with some additional information:
http://boharwood.com/music.html


P.S. - Da colaboração entre Cassavetes e Harwood há igualmente uma cena em The Killing of a Chinese Bookie (1976), rematada por uma canção escrita a quatro mãos: "Rainy Fields of Frost and Magic". Na cena, o cafetão avalia a performance de uma jovem dançarina, sua protegida. A mocinha evolui seminua no palco ao som justamente da canção, que é uma balada lastimosa, ao modo dos 70: voz e piano. E, então, surge alguém que põe fim à audição. Todo o bem construído ritmo da cena impressiona, e, em especial, duas coisas: a) as diferentes âncoras de intensidade rítmica, fornecidas pela (i)canção, pelos (ii)ruídos ambiente, pela (iii)voz do cafetão e, em especial, pelos (iv.)passos da dançarina por vezes em suaves contratempos;  e b) o modo como o cafetão "vê" a chegada da intrusa no rosto da dançarina. E todos os três surgem tão avulsos, desgarrados uns dos outros que a cena repassa uma sensação de cada um por si, que só é atenuada pelo rompante ao final: