13.7.09

Morrer a ter de olhar: Sexton


[s/i/c]



Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women



Perhaps I was born kneeling,

born coughing on the long winter,

born expecting the kiss of mercy,

born with a passion for quickness

and yet, as things progressed,

I learned early about the stockade

or taken out, the fume of the enema.

By two or three I learned not to kneel,

not to expect, to plant my fires underground

where none but the dolls, perfect and awful,

could be whispered to or laid down to die.



Now that I have written many words,

and let out so many loves, for so many,

and been altogether what I always was—

a woman of excess, of zeal and greed,

I find the effort useless.

Do I not look in the mirror,

these days,

and see a drunken rat avert her eyes?

Do I not feel the hunger so acutely

that I would rather die than look

into its face?

I kneel once more,

in case mercy should come

in the nick of time.



Anne Sexton



Cigarros e Uísque e Loucas Mulheres Loucas



Talvez tenha nascido prosternando-me,

A tossir durante o longo inverno,

A esperar o beijo do perdão,

Provinda com uma paixão pela vertigem,

e, no entanto, no correr do tempo,

cedo aprendi sobre o presídio

ou ser solta, a espuma do enema.

Aos dois ou três aprendi a não prosternar-me,

não esperar, a semear meu fogo subterrâneo,

onde ninguém, a não ser bonecas, perfeitas e horrendas,

pudessem ser alvos de boatos ou morrer à míngua.



Agora que já escrevi tantas palavras,

e liberei tantos amores, para tantos,

e passei por tanto do que já fui desde sempre—

uma mulher de excesso, de zelo e ganância,

acho debalde o esforço.

Não sou eu que miro o espelho,

esses dias,

e vejo um rato ébrio driblar-lhe os olhos?

Não sou a que sente a fome tão aguda

que preferiria morrer a ter de olhar

o rosto dela?

Prosterno-me uma vez mais,

para o caso de o perdão chegar

no talho do tempo.




Nota - agradeço a Aldir Brasil Jr. por me haver chamado a atenção para este poema.

* * *

12.7.09

O signo da flor a emprestar o tema: Creeley


John Chamberlain, Automobile parts and other metal, 1960




The Rhyme


There is the sign of

the flower

to borrow the theme.

But what or where to recover

what is not love

too simply.

I saw her

and behind her there were

flowers, and behind them

nothing.


Robert Creeley



A Rima


Há o signo da

flor

a emprestar o tema.

Mas o quê e onde recobrar

o que não é tão simplesmente

amor.

Eu a vi

e atrás dela havia

flores, e atrás delas

nada.




Nota - Este é um dos mais conhecidos poemas de Creeley. Amplamente traduzido para várias línguas [e, em particular, para o alemão, onde sua poesia conheceu especial destaque antes de chegar a outros falares]- e nem sempre bem. A peça é bastante simples, à primeira e até à segunda e à terceira vista. Mas a cada vez que releio Creeley, mais me convenço de que ele é o mais importante poeta em língua inglesa da segunda metade do sec. XX. Desde que também se entenda que os norte-americanos produziram muito melhor e mais diversa poesia do que os europeus. Os britânicos, os alemães, os italianos, os ibéricos. Dos franceses, nem falar. A cultura francesa é a mais engessada, acadêmica e burocrática que se pode perceber no Ocidente no segundo quadrante do sec. XX - talvez com a exceção do cinema e de Asterix. E, inclusive, tomou uma direção pavorosa após a II Guerra. Especialmente esteada num laicismo, num reforço ao republicanismo, à idéia do intelectual como sacerdote e em certo senso de sacralização da arte que são medonhos, para dizer o de menos. Mais sobre esse nefastismo da cultura francesa é discutido aqui. Mas voltemos à Creeley e ao frescor de um poema como este, que é de For Love [Para Amor ou Por Amor], seu primeiro livro em edição comercial, que reúne toda sua produção da década de 50. "A Rima" é o tipo de poema que jamais poderia ser escrito por um inglês, por exemplo. E por quê? Porque a concepção de poesia para uma autor britânico é excessivamente "poética", quase divorciada da fala, ao contrário da norte-americana. Está muito centrada em esquemas métricos e rímicos. Um hieratismo quase teatral ou shakespeariano. E a fala é a melhor tradução, a mais concreta e vívida da vida coletiva de um povo. Portanto, é seu alto grau de informalidade que diferencia Creeley e os norte-americanos de seus pares do lado de lá do Atlântico. Neste, "A Rima" toda essa diferença começa na comezinha despretensão, casualidade, gratuidade dessas primeiras linhas: "há o signo da/ flor/ a emprestar o tema". O signo da flor, ao qual ele se refere, é, naturalmente, o signo mais universal da poesia. Esse signo designa ao mesmo tempo o verso [daí que, antigamente, em português as antologias eram chamadas de "florilégios", coleções de flores - ou seja, de versos] como também, claro, a flor é a metáfora mais recorrente para a mulher em qualquer tradição de poesia. Até mesmo na Oriental. Num segundo momento, de modo um tanto irônico, é como se ele dissesse: "tudo bem, há esse clichê da flor, que é bonitinho, etc.; mas onde, de fato achar falar de amor que não se resuma a esse signo, que não lance mão exclusivamente dele, da simbologia da flor?" Creeley, então, matreiramente, diz ver a mulher de sua eleição num primeiro plano: "eu a vi". Essa instância de ver é também concreta e americana - não por acaso, cinema é sinônimo de Estados Unidos. E se pode dizer isso apesar de Creeley não ser um poeta-fotógrafo ou pintor como Williams. A despeito disso, esse "ver" ["eu a vi"] destaca essa mulher, lhe empresta uma dignidade, uma importância impressentidas. Mas também diz que havia mais flores -- ou seja mais versos, e, no entanto (muito ironicamente também) mais mulheres -- atrás dela. O ponto é que num segundo "atrás" desse pano de fundo de "versos e outras mulheres" há um outro, um cenário mais definitivo: o "nada". O nada, que, de outro modo, agrega ao poema uma dimensão absolutamente inusitada e devolve a importância à figura da mulher que se encontra, avulsa, adiante, em primeiro plano, "ela", que foi vista distinta e singularmente, à frente das demais. Mas a poesia de Creeley é também marcada pelas ambiguidades. Pode-se, por exemplo, indagar se "ela", a primeira a ser vista, a eleita, a destacada, também não compõe o grupo com "elas" no segundo plano diante do "nada" ao fundo da cena toda. Se ela também não faz parte desse "them" ["delas"]. É uma possibilidade de leitura. Porque há essa possibilidade, que, ainda uma vez, remete para ambiguidade da fala. Não para uma ambiguidade conceitualmente teórica, elaborada filosoficamente ao modo de uma logopéia, decalcada de uma tradição poética clássica e anterior, como tanto agrada aos europeus.
Digo tudo isso apenas para não entrar nos aspectos mais formais da poesia de Creeley, que já são tão mais conhecidos no Brasil: o encadeamento, o uso de prosaísmos, o deslocamento de preposições, as suspensões, sínquises, a tendência ao minimalismo, o privilégio das partículas expletivas, a estranheza sintática, etc. E que, de resto, foram, no atacado, tão mal pastichados ou absorvidos por aqui.



* * *

Com mais fotos suas


Nick Mauss, Everything Comes and Goes Marked by Lovers and
Styles of Clothes
, 2004



Resolução Sentimental


De agora em

diante, quero

viver com mais

fotos suas, amor—

disse à beldade

sem bravata—

com flores à mão,

o xeque em boa data

e atirando ao cesto

o porta-retrato

das bodas de prata.



* * *


É verão no haikai


Pablo Picasso, Corps Perdus, 1950



Momento num Casal



Dentro do sonho
a vida parou.
Cada página é um posto
à beira do nada.

Sair correndo
por dentro do sonho,
isso ainda não
garante estrada.

-De onde você veio?
-Para onde você vai?
-Com quem você está?
-O que você perdeu no meio?

A sombra da ave
voa sobre a calçada.
De manhã, a rua abre-se
sem giro de chave.

É verão no haikai.
Por que tanta tensão?
Estou aqui para agradá-la.
O que mais lhe atrai?



* * *

11.7.09

Duas reminiscências de uma gravação à beira-via


Com uma Z-1, tentando roubar alma ao inanimado durante a gravação de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]



Com a Bolex 16mm de Ivo também durante a gravação de Aparazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]





Aqueles Momentos Olho e Olho

i. Z-1

Era como colher o espírito de uma natureza morta às expensas de um pensamento que tinha em Ozu sua referência. O estático das sucatas à beira da estrada atestando mais vida pela distinção da ruína. Pelo agregado do tempo na dinâmica do inerte. Pela vida que a ferrugem agrega como substância e testemunho. Como se ali o tempo fosse demarcado por um diário de óxido, que, no entanto, revela muito mais vida e movimento que o tráfego fluindo na estrada ou o burburinho da feira. Era como encontrar as rugas do lugar. E, sem marcas de expressão, nenhum semblante é propriamente singular. Nem mesmo o de um lugarejo perdido no meio do nada. Logo, o que mais me satisfez: concluir que o sertão prosseguia, para mim, mesmo depois da gravação, ainda o mistério insolúvel de antes do documentário. A outridade indevassável.

ii. Bolex

E há aquele momento em que se esquece que a câmera e você são duas instâncias distintas. O olho coincide com a objetiva, incide não sobre ela, mas com ela; e o movimento das pernas, como as de um tenista, conduz o giro do olhar. É algo parecido com aquele instante em que se grafa a palavra sem intencionar escrevê-la, porque ela simplesmente provem de algo que não passa pela consciência tal qual a concebemos. Mas por uma sorte de intuição. Gesto não determinável, ateleológico.

Excerto

Tanto apreciei a gravação do Aprazível, que passei mal no último dia, quando cheguei à conclusão de que nada mais havia a registrar. E que, tudo colhido, podíamos voltar à Fortaleza e passar à ilha de edição. A frustração de concluir um trabalho de ordenamento criativo é semelhante ao de não testemunhar uma filha crescendo permanentemente sob teu olhar-cotidiano.



* * *

Enviesos de luz: Jen Hadfield


[s/i/c]



Glid


I turn the camera on my dissolving self,

pale-tongued and rabbit-eyed -


I turn the camera on dazzled

Everything -


plain rain - the loch -

the incandescent horses


forged black against the broch -

me, my brimming head,


precarious as a dandelion clock -

and dimpling the loch,


black button on bright,

a dinghy row-rowed,


skewered with light


Jen Hadfield



Resvalo


Aponto a câmera para meu ser dissolvente,

meia-chama e olho-de-lebre-


aponto a câmera ao deslumbrante

Tudo-


chuva plena - o lago -

os cavalos incandescentes


forjados em preto contra lápides-

eu, minha cabeça repleta,


precária como um relógio de estanho-

e encrespando o lago


botão breu na contra-luz

um barco de arrema-remos,


enviesado de luz



* * *


Assepsia, prisão e vôo: Virna Teixeira


[s/i/c]



Departure


três horas presa, janelas de vidro
no aeroporto em las vegas
procuro cents
nos bolsos

letreiro do cassino
tokens, puxar a alavanca
os caça-níqueis
tilintam

as barras alinham
ganho
vinte dólares

lá fora, o sol
brilha nas turbinas
vermelho e prata

aeronaves
alçam vôo


Virna Teixeira





Nota - este poema figura em Trânsitos o recém-lançado volume de poemas de Virna Teixeira publicado pela Lumme Editor, com a usual acuidade gráfica de Francisco dos Santos.

* * *

Às palavras boas, pássaros gráficos


[s/i/c]



Muitas Graças



Só para registrar minha gratidão aos livros de boas palavras [e as boas palavras recebidas sem livros] recentemente. Esses livros, artigos, revistas e essas palavras boas vieram de Virna Teixeira, Jen Hadfield, Maria da Paz Ribeiro Dantas, Ana Carolina Marossi, Mariana Botelho, Mariana Fontenele, Érica Zingano, Fayga Bedê, Anna Cavalcanti, Fernanda Meireles, Diego Vinhas, Richard Price, Claudio Daniel, Aldir Brasil Jr., Rodrigo Garcia Lopes, Francisco dos Santos, Odorico Leal, Carlos Augusto Lima, Diatahy Bezerra de Menezes, Helmut Schmitz, José Kozer, Tarciso Gavros, Gabriel Andrade, Juca Santabaia, Daniel Lopes, Manoel Aires Jr. [Kant], Lira Neto, José Carlos Cordeiro Freire, Victor da Rosa, Renato Mazzini, Cândido Rolim & Kelsen Bravos, entre outros que hão de me perdoar o lapso de memória.

Toda essa tessitura de boas coisas em profusão me lembra, uma vez mais, aquele trecho de um poema de Creeley que diz:

"To the hands come many things / In time of trouble // A wild exultation"
["Para as mãos vêm muitas coisas/ Em tempos difíceis // Um regozijo selvagem"]


Um forte abraço a todos!


p.s. -- Érica, não esqueci a postagem de seu livro. Apenas errei o endereço. A remessa foi devolvida. Vou estar reenviando por esses dias. Favor, tenha paciência com este correspondente atrapalhado.


* * *

O Volume do Momento


Capa da edição Nº19 da Revista Coyote, lançada neste início de julho



Palavras ainda não ouvidas de Cabral & outras colheitas


Recém-lançado o novo número da revista Coyote, editada em Londrina. Destaques vão para uma preciosa entrevista inédita com João Cabral de Melo Neto; poemas da poeta paraguaia Monserrat Alvarez, traduzidos por Luís Roberto Guedes [com quem certa feita tive uma impagável conversa no terraço do primeiro andar da Casas das Rosas, em Sampa]; um conto de Donald Barthelme, em tradução de Caetano Waldrigues Galindo; poemas de Anita Costa Malufe; entre outras colheitas.

Nela participamos, mediante o convite de Rodrigo Garcia Lopes, um dos editores da revista, com a tradução de dez poemas de George Oppen, o importante poeta objetivista norte-americano ainda inédito em livro no Brasil. Assim como uma pequena nota biográfica de contexto sobre esse estranho poeta de poetas.

Enfim, esta edição da Coyote é para passar a vista com carinho. A revista pode ser encontrada, com distribuição da Editora Iluminuras, nas melhores livrarias do ramo pelo país afora.



Nota - aos primeiros cinco leitores de Afetivagem que enviarem seus endereços postais para o imeio deste blogue [afetivagem@gmail.com], garanto a remessa gratuita de um exemplar pelos correios. Aproveitem!




* * *

10.7.09

E Outras Variadas Canções de Amor


Gordon, Radle, Whitlock e Clapton, o time base de Derek and The Dominos [sem a presença de Duane Allman], em foto de 1970


A Mais Desgraçada Banda de Todos os Tempos


Em 1970, fugindo da adulação da fama e dos milionários contratos para lançar discos mais palatavelmente vendáveis, Eric Clapton largou o Blind Faith, onde produziu música de extrema qualidade ao lado de Steve Winwood, para sair em turnê com a banda americana que... abria os shows desse supegrupo: Delaney and Bonnie.

Ás vezes creditada como Delaney and Bonnie and Friends, essa banda, de início apenas um aperitivo quase anônimo, foi eventual e progressivamente agregando algumas mega-estrelas dispostas a se divertir nos palcos longe das atribuições de seus grupos de origem. George Harrison e Leon Russell faziam aparições em suas gigs.

Clapton sentia-se particularmente atraído pela informalidade e radicalidade desses músicos americanos sulistas—e, portanto, mais próximos do berço dos blues. Nesse ínterim, sua vida pessoal atingia um nível de desarmonia notável e grande conturbação. Seu dia-a-dia era mantido por um pesado coquetel de drogas e, para entortar de vez a coisa, ele apaixonara-se por Pat Boyd, a bela modelo que era casada com George Harrison, então um de seus melhores amigos.

Desolado, Clapton reuniu parte dos músicos de Delaney and Bonnie e lançou-se, em Miami, à gravação de um álbum duplo. O álbum viria a se chamar Layla and Other Assorted Love Songs [Layla e Outras Sortidas Canções de Amor].

Além dos músicos de Delaney – o tecladista Bob Whitlock, o baixista Carl Radle e o baterista Jim Gordon – Clapton arregimentou ninguém menos que o virtuoso da guitarra em slide, Duane Allman, por quem estava completamente fascinado em termos musicais. Ao grupo, numa tirada de galhofa, deram o nome de Derek and the Dominos.

O resultado dessa insólita reunião entre o mago britânico da guitarra e a verve desses músicos americanos, tendo à frente o talentosíssimo Duane Allman, foi um dos álbuns mais brilhantes do universo pop. O repertório de Layla and Other Assorted Love Songs traz pérolas como a própria faixa título, que é uma sonata pop em dois movimentos, “Bell Bottom Blues”, “Nobody Knows You When You're Down And Out”, “I Am Yours”, “Thorn Tree in the Garden", "I Looked Away", "It's Too Late"... Layla, o álbum duplo, foi, de resto, o único registro de estúdio de Derek and The Dominos. Mas também se pode ouvi-los soar com brio em uns poucos discos ao vivo. Especialmente em faixas como “Presence of The Lord”, “Blues Power” e “Let it Rain”, entre algumas outras que apontam, sobretudo, para o encontro de duas guitarras exponenciais: as de Allman e Clapton. E chega a ser comovente que hajam gravado um cover de "Little Wing" em tributo ao então recém-falecido Hendrix. Embora essa versão não esteja propriamente entre as melhores realizações do grupo.

Talvez o aspecto musical mais relevante é o modo expressamente sinfônico com que as guitarras de Allman e Clapton guiam essas baladas, canções folks e blues. Há uma altivez épica. Algo que faz com que soem com a solenidade de hinos. Além do que as guitarras bases seguem nunca só calcadas em acordes de ritmo batido, mas suplementadas por desenhos melódicos [um pouco ao estilo de Keith Richards, pero com mais sutileza]. E, então há os solos, que são capítulo a parte. O que Allman extrai de sua Les Paul em "Layla" é quase inacreditável. Há um momento em que a guitarra soa entre flauta e assovio. Clapton por sua vez colhe toda uma suave sequência calcada só nos harmônicos em uns poucos compassos do solo de "Bell Bottom Blues". E tudo amparado pelos outros três que eram experimentadíssimos músicos de estúdio, com largas horas de vôo e colaborações com os nomes mais diversos da música britânica e, sobretudo, americana.

Porém, não menos intrigante foi o pavoroso destino individual de cada um dos instrumentistas dessa banda efêmera, à exceção de Whitlock e do próprio Clapton. Quem ao escutar a beleza produzida à cada faixa, registrada em cada mínimo fonograma, por esses ases reunidos sob a rubrica - um tanto ridícula - de Derek and The Dominos poderia pressenti-la? Duane Allman morreu logo em seguida num desastre de motocicleta. Tinha 25 anos incompletos. Carl Radle faleceu de uma infecção provocado por excesso de álcool e narcóticos, em 1980. E Jim Gordon foi sentenciado ao manicômio judiciário depois de matar a própria mãe a marteladas em 1983, confirmando, assim, um diagnóstico de esquizofrenia que já vinha de há muito perturbando sua carreira como músico.

Viver é muito perigoso. Participar de certas bandas, não menos:


Up and down the City Road,

In and out the Eagle,

That's the way the money goes--

Pop goes the weasel!

[W. R. Mandale]


Bom, mas isso eram em tempos heróicos, que precederam o mordaz comentário de George Harrison sobre as Spice Girls [que bem pode ser estendido a tantos outros grupos, como o recente Jonas Brothers]: "The good thing about them is that you can listen to them with the sound turned down". ["A boa coisa sobre elas é que a gente pode ouvi-las com o volume de som no zero"]. Há, no entanto, o contrário disso. Pense em Radiohead, para ficar num exemplo. E sempre haverá espaço para boa música pop nos cansados labirintos de nossos ouvidos.


[Fortaleza, 10.07.09, depois de uma semana muito trilhasonada pela música de Derek and The Dominos]

* * *



Não se deixam prender no copião


Cartaz promocional do Blow-Up de Michelangelo Antonioni, 1967



Blow-Up

tanto queria amor
corpos no chão

estações da paixão
não se deixam

prender no copião
já vem editadas

em tufos de relva
ao léu, sem dreno

ou qualquer prévia
quadra de tênis

onde raquetes no ar
bolam gestos pelo parque

e os clowns algures
feitos de mudo cinema

são guiones ou clones
de julios, redgraves, antonionis




* * *

9.7.09

Outro momento num café


Gebrürder Thonet Co., cadeira de café, c.1880


A Que Fica


Numa quente noite, era maio,

de perfil, quase de costas,

sentada num banco alto

ao balcão do café,

um vestido de verão

flavo de estampas

rubras e castanhas,

com capuccino, cadernos

e um manual de francês à volta,

o cabelo em rabo de cavalo,

uma fita presa ao pulso direito,

as mãos sendo as mãos

que tocavam de cor

todo O Cravo Bem Temperado

sem mover uma falange:

o que ela diria se soubesse

da primeira impressão

que causou.

Compadre, foi algo, digamos,

tão lancinante quanto o som

das trombetas hebraicas

ante o pó dos muros de Jericó.


E digo mais, se Bandeira a tivesse visto

àquele momento, no café, teria escrito tudo

menos que a vida é agitação

feroz, sem finalidade.



* * *


8.7.09

Água de fundas jazidas


Antonio Frasconi, Oda a Lorca, 1962




Quatro quadras em segunda pessoa


[ao modo de Lorca]



Vejo teus olhos

como a investida

da lua cheia de hoje

suspensa sobre avenidas.



Carros carburam.

A cidade é uma cabala.

Um ciclista desvia-se

da insensatez de sua escala.



Em meu quarto, avulso,

o feixe da luminária acesa

sobre a página do livro

é magra talha de beleza;



da que trazes entre os cílios,

água de fundas jazidas,

da lua cheia de hoje

suspensa sobre avenidas.




* * *


7.7.09

Vanguarda de micareta


Tony Fitzpatrick, Indian Music, 2004



Foda é o Dia do Índio
-sobre a vanguardota brasileira, sibilas e Michael Jacksons


Leia-se um poema como este:

Dia



As aves noturnas

que faziam de meu peito um pátio de agonias

silenciaram

quando vi a manhã debruçada em teu rosto

Não contenho minha vida

Nada sei de mim

Não conheço o princípio o meio e o fim

de tudo que passa

é quando te vejo que percebo

o movimento das sombras e das águas na terra

sob o sol do tempo



[Francisco Alvim]



É bom constatar (como não?) que um poema escrito na década de 70, como este, de Chico Alvim, continua sendo poesia da melhor. E há esses autores. Às vezes um tanto low profiles, como o próprio Alvim - que, aliás, é irregular, mas quando acerta é alvo puro. Poetas que levam anos e anos sem lançar livro: Duda Machado, Angela de Campos, Nelson Ascher, Josely Vianna, Júlio Castañon, Age de Carvalho entre outros. Alguns dentre eles também ilustres tradutores. Eles parecem não nutrir qualquer compromisso com a necessidade de publicar a rodo. Ou frequentar o mais que suspeito reino das resenhas pré-aquecidas. Rescenções para enfiar no micro-ondas das redundâncias: publicações ralas de cartas e curriolas marcadas; ou da empulhação e da camisa-de-força acadêmica [aqui, com exceções para lá de conspícuas]. São poetas que publicam com parcimônia o que entendem por poesia. E porque entendem ainda alguma coisa por poesia. Há nisso uma via. Estações e paixões. Uma sabedoria diante de não entrar na disputa para ver quem está pastichando melhor a última lorota ou prótese teórica inventadas em Duke, Stanford, Suny Buffalo, Yale ou quejandos. As mesmas que, depois são regurgitadas nas pós-zinhas locais, com o beneplácito das Fundaçãos Ford --- embora com menos imaginação e brilho que o assoalho da mamãe ou o sapato do papai. Para esses poetas menos, digamos, prolíficos ou midiáticos, poesia ainda é um valor a se ter em conta. Eles parecem bem intuir que disputar para ver quem desfila com a fantasia do mais contemporâneo [ou pós-contemporâneo] no Baile do Teatro Municipal da vida é coisa para diabos, arlequins, piratas da perna de pau, grãos vizires e odaliscas. Mas, bem, Clóvis Bornay já morreu, em 2005, e os Teatros Municipais da vida [com o de Sampa bem à testada] já conheceram melhores dias e usanças. Isso em semanas outras, em neves d'antanho, que, aliás, já se aproximam de robustas efemérides. Centúrias. Ah, esses certames de apurar quem desdenha melhor do outro, dos outros, de todos, do país, da leitura dada ao fato x, y, iota. Ah, essas erudições de pacotilha que vão da música erudita a Michael Jackson passando por Jimmy Hendrix, Jean-Luc Godard, Antonioni, Spike Lee, Jim Morrison e a indumentária proto-marcial dos Beatles no Pepper's. Quem é melhor que quem? Quem se releva mais alto? E, ah, esse declinar carradas de nomes feito grifes. Mas grifes mundializadas. Grifes em idiomas outros. E, de como, ao contrário desses pseudo-cosmopolitas enfastiados, a vomitar surradas grifes ou novidades de quinze segundos, todos são energúmenos mentecaptos no Brasil pop. Artistas venais se comparados aos ícones imorredouros, que cadenciam um “ning” e suam puro altruísmo e aversão á auri sacra fames. Melhor mesmo é vendermos o país para a Mandchúria ou a Bessarábia. É, o mais nefasto vislumbre estético ainda vem dessa rôta e estúpida esquerda. Dessa vanguardota auto-presumida. Aberta à quase nenhuma pluralidade que não seja uma sorte de apressada -- e superficialíssima -- aferição de méritos, onde os brasileiros saem sempre como sapos-cururus da beira do rio, com o rabo entre os fêmures. E até algo mais escatológico na mão. Esses caras formam uma sorte de vanguaespingarda que atira para todos os lados e não acerta nada. Formam um bloco de sujo fora do ciclo momino, uma vanguarda fora de época. Vanguarda-micareta, para não trocar o m por p. Vanguardistas, sim, subindo escadas de Wittgensteins e de cátedras menos reputáveis, mas com lavores de joalheiro às mãos. E é assim, tudo quanto é belo, tudo quanto é vário, cantam no martelo dessa parnaso-vanguarda. Coach, coach! Até parece que nunca leram um carinha que falava de uns tais... chato-boys? Seria isso?[1]


[1] Um amigo de juventude, que namorava com uma garota que trabalhava num pré-primário, dizia que ela costumava repetir a cada meados de abril: "Foda é o Dia do Índio!" Ele não entendia. Mas como gostava dela e queria mudar o rumo da prosa para algo menos metafísico -- como em certo poema de Bandeira ou em certo capítulo do Brás Cubas -- nunca a inquiria. No entanto um dia, muitos Dias do Índio depois, inquiriu: "Pô, amor, cê num tá sendo um pouco severa demais com nossos primeiros habitantes? Lembre de Iracema, Peri, Ceci, Turuna, Raoni, Sting". E ela: "Não, não é isso, fofo: foda é ter que vestir essa criançada toda de cocar, saiote de penas e o furdunço que elas fazem com as lanças, tacapes, flechas e arcos! É um Deus nos acuda!" Pois bem, a curriola dessa vanguardota, reunida em torno de publicações como Sibila, vai mais além: se esquece de reciclar o "tupi or not tupi" - que é, de resto e convenhamos, uma bela sugestão. Coisa de modernistas, dizem eles com desdém, muxoxos e sinais de fumaça. Nesses tempos de Al Qaeda, Obama, Sarkozy, Carla Bruni, Chávez, Ingrid Betancourt, Cristiano Ronaldo e Ahmadinejad, o mínimo que eles querem do Dia do Índio é ser comanches. Vá lá, kiowas ou siouxs.

[Para contextualizar melhor tudo que segue menos ou mais expresso neste improviso sobre essa vanguarda brasileira de ersatz, clique aqui. Mas aviso: ao contrário da leitura de Alcântara Machado, você não será conduzido a conhecer mais a fundo um Brás ou um Bexiga. E, no entanto, se deparará com uma barafunda dos diabos.]



* * *

Toda felicidade, com notas de rodapé: Bei Dao


Isamo Noguchi, c. 1941



Tudo


Tudo é fado

tudo é nuvem

tudo é começo sem fim

tudo é busca que, ao nascer, exicia-se

toda alegria deve sorrisos

todo pesar, lágrimas

toda língua é repetir-se

todo contato, primeiro encontro

todo amor, no coração

todo passado, num sono

toda felicidade, com notas de rodapé

toda fé, com gemidos

todo rasgo tem uma súbita calma

todos os mortos, um eco demorado



Bei Dao



Nota - pseudônimo do poeta chinês contemporâneo Zhao Zhenkai, nascido em 1949. Dissidente do regime comunista, optou pelo exílio e ensinou em importantes universidades nos Estados Unidos e Europa. A versão deste "Tudo" foi feita em 1998 a partir da tradução para o inglês de Bonnie S. McDougall. Faz parte, aliás, de um livro que jamais publiquei apenas com textos do Oriente Extremo: China e Japão. Originalmente a expressão Bei Dao em mandarim significa "Ilha do Norte" [北島] e foi escolhida pelo escritor por seu grande apreço pela solidão e o isolamento.



* * *