terça-feira, 17 de julho de 2007

Imposturas sobre uma imprensa muito mais impostora do que você pensa


Henri Rousseau, 1903




Life has a practice of living you, if you don't live it.
Philip Larkin
Desistiria de ler jornal. Se fosse possível, desistiria. Mas então não haveria vida. E de retinas tão fatigadas há anos dispensei o Jornal Nacional. A vida é melhor sem ele. Experimente. Até me desinteressei de escrever para jornal depois que fiquei sabendo mais das coisas. De algumas. A vida tem o costume de te viver, se você não a vive.

Agora, ainda assisto – e muito – futebol. Inclusive jogos da seleção. Mas desde a Copa de 98 que a voz de Galvão Bueno não entra aqui em casa. Se a Globo monopoliza a transmissão, retiro o som. De início, ficava incomodado. Só a imagem. Cinema mudo. Mas, como diz Bresson, "o cinema sonoro inventou o silêncio". E, percebi: é uma ótima estratégia para começar a “ler” de novo uma partida. A sentir com maior precisão movimento e gesto. A tática, o lance de dados. E, confesso, até o modo como se faz a direção de imagens. Mas não prescindo do som. Se não se é posto à prova do ridículo por Galvão Bueno, pela Rede Globo.

Gosto de mesas-redondas sobre futebol. Gosto é eufemismo. As favoritas são as da Espn-Brasil. Assisto tanto que, outro dia, ouvi uma menção ao Odorico Leal, escritor aqui de Fortaleza, feita pelo Flávio Gomes. E, se bem me lembro, o Odorico reclamava da imperícia de Dunga para definir a zona de sintonia fina entre o jogador e o espaço a ser ocupado. Não, não era bem isso. Mas acho que o Flávio Gomes não concordou com o comentário. E lembro que a mensagem do Odorico estava cheia de advérbios. E tinha um travo, algo, antigo, como às vezes o texto dele ousa ser.

Discutir futebol está para o Brasil como discutir filosofia para a Alemanha. E, se duvidar, é até mais importante a nossa conversa. E mais saborosa. Pois entre o futebol e a filosofia, é claro que fico com o primeiro. Gosto tanto de futebol, que acredito que seja a única instância da vida brasileira onde a gente se lembra que o país tem memória – uma história lapseada por quadriênios – e ainda alguma via para inteligência e originalidade de pensamento. Via cada vez mais estreita.

Cheguei a escrever um artigo sobre o jargão das transmissões de futebol na televisão. O artigo incluía também algumas considerações sobre a cobertura dos jornais, inclusive estrangeiros, lidos na incipiente internet. Foi em 1998, durante a Copa. Perdi esse artigo antes de publicar, numa dessas reconfigurações da informática vida. Artigo acadêmico, com notas de rodapé, bibliografia, volúveis abnt's, tudo de direito. Acho que em parte estou escrevendo isto porque me lembrei desse artigo e sei que não vou poder recuperá-lo. E que ele me rendeu um trabalho danado. Dias tomando notas diante da tv. Me impedindo de simplesmente assistir os jogos. A gente pode ser tão sério com as coisas.



Anotei, então, inúmeros chavões. Os verbos, em gerúndios, indeterminando-se. Sínqueses. As expressões que só podem ser ditas, ou só funcionam num contexto de uma transmissão. Cheguei a uma conclusão: quem melhor escreve sobre futebol são argentinos e espanhóis, nesta ordem. Os argentinos passionais até a medula. Um sentido do trágico e da hipérbole, que neles ocorre como respirar. O texto humaniza-se, e fica pleno de humour.


Mas se eles escrevem bem, falamos melhor. E falar vem antes de escrever. Pelo menos acreditava-se nisto até Derrida achar de dizer que inventamos o passado. E isso de inventar o passado já estava em Santo Agostinho de forma mais graciosa, para a angústia de Derrrida e de Bloom e de Ricouer. E de quem mais? Sei lá, quem só fica lendo filosofia em casa é poste. Bom, voltando ao artigo, também esquematizei uma tipologia, à Weber, dos narradores na televisão. Um seria autoritário; o outro, contemporizador. O exemplo do primeiro era Galvão Bueno. O do segundo, Cléber Machado.


Não ilustraria mais assim nem que a vaca. Até porque não suportaria a transmissão. Especialmente a de Bueno.


Mas, Cléber Machado não fica muito atrás. Vem contemporizando tanto que, hoje, chega a ser irritantemente autoritário. Ou seja, chato. Relativo demais. Não há mais nenhum valor, nehum conceito absoluto na pós-mediocridade. E mesmo que você acredite, fique calado. Ou então, fale besteira, como os outros. Todos. Pois se tudo é relativo por que a opinião dos outros tem relevo? Ou então, escreva despoesia para não-leitores. Ah, parnasianismo da gota. O chavão é o mesmo: “cada qual com sua opinião”. Não há nada de muito mais autoral em Cléber Machado -- por razões opostas às de Galvão Bueno. Nada de mais original, incisivo, opinioso. Pois não há mais também conclusão alguma. Ainda que parcial. Antes havia. Revisada, palinódica, se o argumento do outro era melhor. Mas havia.


Já Galvão Bueno é um um caso mais sério. Nele só há conclusões. Sabemos disto há muito tempo. Tratou de grudar sua imagem à seleção – como, antes, já havia feito em relação a Senna. Loteou a seleção entre si et caterva. Bueno quer atribuir tanta infalibilidade à sua transmissão que chega a paroxismos. Por equívoco, narrou todo um primeiro tempo entre duas seleções européias invertendo as escalações. Ele narrava a partir de imagens geradas, e àquela altura não havia Google. Sequer fax. Ele deve ter recebido as escalações por telex. Ou comprado La Gazzetta dello Sport de dois dias antes, numa banca da Av. Atlântica. O fato se deu em um torneio de 74. Alguém, provavelmente um austríaco ou um alemão oriental de passagem pelo Brasilien, percebeu o logro. A emenda chegou a Bueno por telefone, no intervalo do jogo. Mas, claro, ele não quis consertar o soneto. Ao receber a informação de que atribuía, digamos, à Áustria o que era da Alemanha Oriental, Bueno simplesmente desinverteu os nomes dos jogadores para o correto, consultando a escalação impressa. E, sem nenhuma satisfação ao espectador, seguiu com a segunda etapa. Como se nada. E o Fritz virou Walter.


Eram tempos heróicos, e ainda havia Alemanhas Orientais.


Quem sabe do que estou falando, sabe do que estou falando. E pode até lembrar do trecho de Kundera em que ele nos diz de certo enternecimento ao deparar-se com uma foto de Hitler. Não por ser Hitler. Por ser sua juventude, mesmo que ele não quisesse. Ou seja, não desejasse que o verdor dos anos houvesse sido conspurcado pela insanidade do ditador alemão e tudo que dela sobreveio. E, ainda assim, a foto de Hitler - depois de muito tempo sem ser vista - era, querendo ele ou não, um ícone de sua juventude. Viva a sua vida, cara, mesmo quando uma foto de FHC lhe despertar ternura. Senão a vida vem e te vive. E nunca vi rasto de cobra. E se correr é pior.


Pensando bem, não há nada de mais nisso. Quer dizer, na falácia de Bueno. E o episódio todo é até bem divertido. Quer dizer, se fosse avulso. Pois há algo de errado, sim: a recusa em reconhecer o erro uma vez na vida ao longo de tantas transmissões. Ou no fazê-lo com contrariedade, desassossego desmesurados. Supondo que a própria autoridade está tendo prejuízo ou que o espectador, comprando fiado uma vez, vai acabar virando um desconfiado. E, então, Bueno nunca aprendeu a funcionar sem as ironiazinhas torpes, rasas, destiladas contra repórteres, comentaristas ou ainda contra um Arnaldo César Coelho que está sempre na linha de tiro ao modo de um Sancho. Não, de um maninelo mecânico fumando um narguilé. A narração de Bueno Kid pode esgotar a cisterna do prazer mais límpido: ganhar da Argentina com um time inferior.


A vontade de precisão de Bueno – me recuso a usar o familiar ‘Galvão’ para falar de um tipo assim –, sua sede de ser factível, preciso, infalível lembram o papel do 'informador' diante do 'narrador', no ensaio, célebre, de Benjamin ["O Narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov"].


Ah, bordões infames.


E nada de bem amigos.


domingo, 1 de julho de 2007

De uma terra salpicada quase do outro lado do Atlântico


Paul Klee, Sacred Islands, 1926




De uma luz em Cabo Verde
-A celebração dos cem anos da geração Claridade pode ser bom prefácio para o conhecimento da cultura caboverdeana. Alguns dentre os escritores que compuseram o movimento atingiriam um século de existência em 2007. Comemorações estão em curso, especialmente em Cabo Verde e Portugal.


Sinal aberto. Em 1936, jovens escritores de Cabo Verde acharam uma forma de essa terra auscultar-se. E publicaram seus desassossegos em uma revista: Claridade. Um dos aportes literários que os auxiliaram nessa tarefa veio do Brasil: a estilística dos regionalistas de 30, com sua ênfase etnográfica, sede de paisagem. Humana, inclusive. No momento em que Cabo Verde e os países de língua portuguesa comemoram os cem anos dos mentores de Claridade: hora de aprender.
Há sempre um travo de banalidade, de rito laico e postiço, um mal-cheiro oficialesco, nisso de efemérides. Os escritores de Claridade já morreram, em datas diversas, ao longo de seu século. Então, melhor efeméride para os “claridosos”: seus livros seguirem vivos, reeditados, vetores de memória e testemunho desse pequeno grande país.
Guardadas as proporções – e a escala é conceito importante, aqui – a geração da revista Claridade está para Cabo Verde como a da Semana de Arte para o Brasil. Mas, melhor é pensar que ambas são para o mundo. Para lugar qualquer e seguir por aí.
A Espanha entrava em noite escura. A Alemanha armava o pior. Os Estados Unidos esperneavam para reemergir de depressão e lama. Um travo de abrasivo ódio rondava o mundo. Brasil, deitado em berço esplêndido, sob o tacão do Estado Novo. Salazar e tantos outros azares em Portugal. 1936.
Numa esquina daquele e deste mundo, jovens escritores sem dinheiro, sonhando um jornal numa colônia remota, onde se falava um português mascavo. Esquina ou dobradiça? Placa giratória? Encruzilhada no meio do Atlântico? Mar que abraça, desterra? Nossa história começa no Mindelo. Estavam em São Vicente. Sabor de vidro e corte. E Mindelo era o centro do mundo.
Jornal não veio. Era caro. Sujeito ao controle da morosa burocracia colonial. Depósitos, licenças. O novo gesto expandiu-se em revista. Mais que esporádica, escassa: nove números no vau de décadas. Claridade. Cabo Verde. Morabeza. Cem e mais anos de clarividente solidão globalizada. E alguma imaginação à barlavento.
Jovens escritores que decidiram: Cabo Verde existiria. Precisava existir. E, então, pisaram o solo gris. Solo de larva de vulcão da Ilha do Fogo. Passo lunar antecipado em três décadas. E, de repente, era possível escrever eximindo-se do bolor da metrópole. De puídas convenções literárias. Era possível imaginar algo além de Lisboa. Algo da planura áspera da Boa Vista, do Maio, do Sal. Das águas de São Nicolau. Da paisagem ocre esculpida à sol e sal. De fomes seculares e paludismos. De mínguas e mortes muitas. Da fantasmática Ribeira Grande – onde, no Quinhentos, fidalgos portugueses amealharam seu cabedal traficando escravos da Guiné e iludindo o cabido. Das estiagens pairando sobre o mundo. Da chuva braba caindo, muito esporádica. Da inevitável diáspora. E tudo era arquipélago. Fragmento. Puzzle. Como caco de quebra-cabeça é cada caboverdeano que migrou para terras outras portando o timbre de uma ilha respectiva, de um acento crioulo. E, reza a estatística, há mais deles fora que em seu próprio país.
Os claridosos buscaram sugestão em escritores de outras terras, mesmo mar. Terras igualmente ásperas. E, prosseguiram, em estado de conversa. Com Nordestinos. Lins do Rego, Graciliano, Manuel Bandeira foram tomados como sugestão. Mote Para Cabo Verde tornar-se também, pelas hábeis mãos desses moços, pequeno pedaço de Brasil atirado ao mar, perto da costa africana.
Outro brasileiro lido foi o poeta paulista Rui Ribeiro Couto. Gilberto Freyre esteve entre eles. Visitou essa esquina do mundo. E houve controvérsia. Não se esperaria menos. Os “claridosos” entendiam mestiça sua cultura, acreditando-a um tanto européia. Freyre achou-a africana. A verdade, ao que parece, estava com ambos. A verdade quase nunca é fácil.
Baltazar Lopes aclimatou, filtrou, a seu modo, o que de bom há no lusotropicalismo de Freyre – porque há um mundo de bom em Freyre, alheio às emendas pueris feitas nas apressadas, protocolares teses de pós-graudação dos dias de hoje. Ou ao fato da obra de Freyre haver sido “apropriada” pela ditadura salazarista. Mas a casa é grande, e transcende apropriações espúrias se a senzala é maior.
Jorge Barbosa, o mais ressonante poeta da geração Claridade, diz de seu amor pelo Brasil [ver, abaixo, trecho inicial do poema]. E é perspicaz o suficiente para ir direto a uma questão de escala que chega a ser poética fulcral: “Eu bem sei que você é um mundão/ e que a minha terra são dez ilhas perdidas no Atlântico,/ sem nenhuma importância no mapa”.
Na mosca, o Brasil é majestoso e substantivo (“mundão”). Mas as ilhas de Cabo Verde, ao rimarem com o substantivo Brasil conjugam o verbo mais essencial da língua: ser. E, de mais a mapas, mapas não são mais importantes que o mapeado. Não queriam o mar português. Queriam o mar, que não é de Portugal ou de Espanha ou de Holanda, mas das gaivotas, etc. Mar que não se dobra em mapas. Mar de todo mundo.
E Baltasar Lopes escreveu Chiquinho. Manuel Lopes ouviu O Galo que Cantou na Baía. Jorge Barbosa decidiu que “nessa hora inicial/ começou a cumprir-se/ esse destino ainda de todos nós”. É bom ouvir este ‘ainda’. É uma senha. Habitamos a mesma diversa língua. Grito e alarme nesses tempos de espaços sonegados em que vivemos. Ou vice-versa: nesses espaços de tempos sonegados. Desmapas.
Parte importante do que temos de aprender com Cabo Verde vem da geração de Claridade. É como se eles nos devolvessem nossos escritores recém-desembarcados. Ou seus temas transfigurados, deslocados. Ou a língua portuguesa posta entre parênteses de hastes feitas por uma fibra que desconhecemos. Algo de maresias, enjôos. Mas só de leve. Pois tudo volta para nos encontrar em semi-espelho. Revigorado de alguma forma. Ondas batendo em cascos.
Pensar nesses caras dá um entorce na alma. Algumas pequenas ilhas a mais no próprio corpo. Insulados numa esquina do mundo. Que fazer quando o barco-de-papel é, na verdade, a terra em que se pisa? Essa fragilidade forte, badio. E tornar essas esquinas o centro do mundo. E navegar esses barcos.
Qual a sua ilha? Há sobras de tragédia na Ribeira Grande entre as histórias muitas de Santiago. Há um pelourinho e fantasmas rondando campas de velhas famílias brasoadas. Há os vizinhos, suas “encomendas”. O fantasma de Eugênio Tavares regendo uma banda na Brava. E as crioulas do Maio. Mas, depois de um gole de grogue, sigo para Santo Antão. Em boa hora.



Você, Brasil

Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.

E o seu povo parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma de nossa gente humilde que reflete
a alma de sua gente simples.

Nós também temos a nossa cachaça,
o grog de cana que é bebida rija.
Temos também o nosso café da Ilha do Fogo
que é pena se pouco,
mas - você não fica zangado -
é melhor que o seu.

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
mas há no entanto uma diferença: é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar. [...]

Jorge Barbosa

sábado, 23 de junho de 2007

Indício de fé no sobressalto do olhar: Oppen


Mark Steinmetz, 2000


Psalm

Veritas sequitur…

In the small beauty of the forest
The wild deer bedding down—
That they are there!

Their eyes
Effortless, the soft lips
Nuzzle and the alien small teeth
Tear at the grass

The roots of it
Dangle from their mouths
Scattering earth in the strange woods.
They who are there.

Their paths
Nibbled thru the fields, the leaves that shade them
Hang in the distances
Of sun

The small nouns
Crying faith
In this in which the wild deer
Startle, and stare out.

George Oppen


Salmo

Veritas Sequitur…


Na pequena beleza da floresta
Os gamos selvagens pastando—
Que eles lá estão!

Os olhos
Fluidos, os lábios macios
Fossam e os pequenos inusitados dentes
Moem a relva

Cujas raízes
Pendem de suas bocas
Espalhando terra pelos bosques estranhos.
Eles, que lá estão.

Seus rastos
Esboçados pelos campos, as folhas que os abrigam
Oscilam em lapsos
De sol

Os pequenos nomes
Plangente fé
Nisso em que os gamos selvagens
Sobressaltam-se e observam.




Nota – tradução originalmente publicada em Inimigo Rumor n.5, dezembro 1998. Veritas sequitur, a epígrafe, alude à máxima de Santo Tomás: “Veritas sequitur esse rerum” [“a verdade segue a existência das coisas”]. A banal expressão “Nisso em que” [“This in which”], penúltimo verso, é título do terceiro livro de Oppen.

Dois poetas que são, dois rios, e pronto


Timothy O'Sullivan, 1873


Em meio a tanta mistificação, dois poetas do Nordeste: Joaquim Cardozo e Hindemburgo Dobal [H. Dobal]. Em verdade pertencem ao mundo antes de serem daqui. Tirem a prova. Seguem duas amostras. E são feitas de levedo e cinema. Poemas para rios: Persinunga, Parnaíba.



Os Dias

Sobre as águas de um rio onde vareiros

silenciaram suas mágoas.

Sobre outro rio cantado

por lavadeiras,

e o riozinho proclamado

pelos buritizeiros,

sobre os brejos sem nome

onde os riachos começam,

sobre todas as águas

o espírito perene.

Sobre o espírito das águas

que memoraram os dias,

sobre um rio perdido onde os bichos do mato

beberam o fim da tarde,

sobre um vale pastoral onde os rios pensam

sobre a música de vida

dos rios reduzidos a um nome

PARNAÍBA

sobre os rios plenos,

os dias consumidos.


H. Dobal



Cinematógrafo

E assim vos digo:
Foi no engenho Araçu que encontrei o Persinunga:
Colhi a rapidez das suas correntezas,
Apanhei todas as cotas do fundo do seu leito,
Detive o volume de suas águas cor-de-mel,
Liguei, amarrei muito bem as suas margens cobertas de ingazeiras.
Trouxe depois comigo todo o rio
Dentro da minha caderneta de campo
Que tenho ali guardada naquela escrivaninha.
Em tardes de verão, quando me regresso nas lembranças,
Faço correr o Persinunga. Liberto suas águas morenas,
E me contemplo nelas. Contemplo as esperanças de longe
Na paisagem de outros tempos;
E, molhada nessas águas-imagens, impercebida e rastejante,
Uma insinuação de presenças invencíveis se propaga.

Joaquim Cardozo

Pavana para um amante defunto: Bogan ou um relógio de cascas e raízes


Roy Lichtenstein, 1970




To a Dead Lover

The dark is thrown
Back from the brightness, like hair
Cast over a shoulder.
I am alone,

Four years older;
Like the chairs and the walls
Which I once watched brighten
With you beside me. I was to waken
Never like this, whatever came or was taken.

The stalk grows, the year beats on the wind.
Apples come, and the month for their fall.
The bark spreads, the roots tighten.
Though today be the last
Or tomorrow all,
You will not mind.

That I may not remember
Does not matter.
I shall not be with you again.
What we knew, even now
Must scatter
And be ruined, and blow
Like dust in the rain.

You have been dead a long season
And have less than desire
Who were lover with lover;
And I have life—that old reason
To wait for what comes,
To leave what is over.

Louise Bogan


Para um Amante Defunto

O breu é sacudido a partir
Do claro, feito cabelos
Sobre um ombro.
Estou só,

Quatro anos mais velha;
Como as cadeiras e as paredes
Que certa vez vi luzindo,
Você a meu lado. Para eu acordar
Nunca desse jeito, não importa o que veio ou foi desfeito.

O caule cresce, o ano pulsa ao vento.
Maçãs chegam, e o mês em suas quedas.
A casca espalha, as raízes apertam.
Embora hoje seja a última,
E amanhã todas,
Não é da tua conta.

Que posso não lembrar,
Não é da conta.
Não vou estar contigo de novo.
O que sabemos, mesmo agora
Deve espalhar
E puir, e vazar
Como areia ao vento.

Morreste já faz tempo
E tens menos de desejar
A amada do amado;
E eu tenho vida—esse velho motivo
De esperar pelo que vem,
Largar o que é passado.

Empatados a tanto mais: Louise Bogan


Joan Jonas, Double Lunar Dogs, 1984



Zone

We have struck the regions wherein we are keel or reef.
The wind breaks over us,
And against high sharp angles almost splits into words,
And these are of fear or grief.

Like a ship, we have struck expected latitudes
Of the universe, in March.
Through one short segment’s arch
Of the zodiac’s round
We pass,
Thinking: Now we hear
What we heard last year,
And bear the wind’s rude touch
And its ugly sound
Equally with so much
We have learned how to bear.

Louise Bogan


Zona

Atingimos as regiões onde somos quilha e coral.
O vento nos rebate,
E contra rijos ângulos agudos quase se parte em nomes,
Isso é de medo e pesar.

Como um navio, atingimos esperadas latitudes
Do universo, em março.
Por entre um miúdo arco segmentado
Do círculo zodiacal
Passamos,
Pensando: Agora ouvimos
O que ano passado ouvimos,
A suportar o rude apalpo do vento
E a fealdade de seu som
Empatada a tanto mais
Aprendemos a suportar.





Nota – quando estava traduzindo este poema pensei - e mais de uma vez - em Paul Celan. Em um poema chamado Corona, cuja tradução se encontra em Fortaleza Voadora n#1.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

De como tornar seu um poema do outro: Lowell


Egon Schiele, 1910




Sylvia

Sylvia, do you remember the minutes
in this life overhung by death,
when beauty flamed
through your shy, serious meditations,
and you leapt beyond the limits
of girlhood?

Wild,
lightning-eyed child,
your incessant singing
shook the mirror-bright cobbles,
and even the parlour
shuttered from summer,
where you sat at your sewing
and such girlish things—
happy enough to catch
at the future’s blurred offer.
it was the great May,
and this is how you spent your day.

I could forget
the fascinated studies in my bolted room,
where my life was burning out,
and the heat
of my writings made the letters wiggle and melt
under drops of sweat.

Sometimes, I lolled on the railing of my father’s house,
and pricked up my ears, and heard the noise
of your voice
and your hand run
to the hum of the monotonous loom.

I marveled at the composed sky,
the little sun-gilded dust-paths,
and the gardens, running high
and half out of sight,
with the mountains on one side and the Adriatic
far off to the right.
How can human tongue
Say what I felt?

What tremendous meaning, supposing,
and light-heartedness, my Sylvia!
what a Marie-Antoinette
stage-set
for life and its limits!
I turn aside to deride
my chances wrenched into misadventure.
Nature, harsh nature,
why will you not pay
your promise today?
Why have you set
your children a bird net?

Even before the Sirocco had sucked
the sap from the grass,
some undiagnosable disease
struck you and broke you—
you died, child,
and never saw your life flower,
or your flower plucked
by young men courting you
and arguing love
on the long Sunday walk—
their heads turned and lost
in tour quick, shy talk.

Thus hope subsided
little by little;
date decided
I was never to flower.
Hope, dear comrade of my shrinking summer,
How little you could keep
Your colour! You make me weep.
Is this your world?
These, its diversions, its infatuations,
its accomplishments, its sensations,
we used to unravel together?
you broke before the first
advance of truth;
the grave
was the final, shining milestone
you had always been pointing to
with such insistence
in the undistinguishbable distance.

Robert Lowell


Sílvia

Sílvia, lembra os minutos
desta vida tocaiados pela morte,
quando a beleza luzia
sobre teus sóbrios, sérios pensamentos
e saltavas a fronteira
da infância?

Brusca
criança de faísca no olho,
teu incessante canto
trepidava as pedras espelhadas do macadame,
e mesmo o salão,
com venezianas à veraneio,
onde sentavas a coser
e outras coisas de mulher –
feliz o bastante para apreender
a embaçada oferta de futuro.
Era o enorme maio,
e eis como gastavas teu dia.

Eu me esquecia
dos estudos fascinantes em meu quarto aferrolhado,
onde minha vida oxidava,
e o calor
de minha caligrafia serpeava e derretia
sob gotas de suor.
Às vezes, reclinava no balcão da casa de meu pai
e afinava o ouvido, e escutava o rumor
de tua voz
e tua mão correndo
ao zumbido monótono do tear.

Eu admirava o céu compósito,
as esguias, aureoladas trilhas poeirentas,
e os canteiros, estendendo-se ao alto
e quase fora de esquadro,
com as montanhas de um lado e o Adriático
bem à direita.
Que língua humana
diria meu sentido?

Que tremendo senso, suponho,
e vida solta, minha Sílvia!
Que cenário
de Maria Antonieta
para uma vida e seus limites!
Quando penso no supremo sopro de orgulho,
acres reservas me sufocam,
viro-me para troçar
de meus acasos retorcidos de infortúnio.
Natureza, cruel natureza
por que não pagas
hoje tua promessa?
Por que tão cedo
aninhaste tuas crias?

Antes ainda do Sirocco sugar
a seiva da relva,
alguma indiagnosticável doença
colheu-te e te partiu –
morreste, menina,
e nunca viste tua vida em flor,
ou tua flor colhida
por mancebos cortejando-te
e protestando amores
na longa senda do domingo –
suas cabeças viradas, absortas
em tua ágil fala apianada.

Assim, o porvir precipitou-se
pouco a pouco;
e destino decidiu
que eu nunca chegasse a florir.
Porvir, querida amiga de meu pulsante verão,
quão pouco pudeste manter
tua cor! Me dás pena.
Era esse teu mundo?
Com seus divertimentos, embaraços
realizações, sentidos,
que costumávamos desenredar?
Tu te trincaste antes do primeiro
tranco da verdade;
o túmulo
foi o marco final e luzente
que sempre indicavas
com tanta insistência
na indistinguível distância.




Nota – poema do volume Imitations [1961], em que Robert Lowell recria em inglês alguns dos grandes poemas do Ocidente. Neste caso, uma célebre peça de Giacomo Leopardi (1798-1837) “A Silvia” (rimembri ancora/ quel tempo della tua vita mortale [...]). ‘Sirocco’ (7ªe, v1) – o vento que sopra das costas africanas para as praias da Itália, e que se acreditava portar qualidades maléficas.

Nem Ronsard nem Baudelaire: Desnos


René Magritte, 1928




Non, l’amour n’est pas mort

Non, l'amour n'est pas mort en ce coeur et ces yeux et cette bouche
qui proclamait ses funérailles commencées.
Écoutez, j'en ai assez du pittoresque et des couleurs
et du charme.
J'aime l'amour, sa tendresse et sa cruauté.
Mon amour n'a qu'un seul nom, qu'une seule forme.
Tout passe. Des bouches se collent à cette bouche.
Mon amour n'a qu'un nom, qu'une forme.
Et si quelque jour tu t'en souviens
Ô toi, forme et nom de mon amour,
Un jour sur la mer entre l'Amérique et l'Europe,
À l'heure où le rayon final du soleil se réverbère sur la surface ondulée des vagues, ou bien une nuit d'orage sous un arbre dans la campagne, ou dans une rapide automobile,
Un matin de printemps boulevard Malesherbes,
Un jour de pluie,
À l'aube avant de te coucher,
Dis-toi, je l'ordonne à ton fantôme familier, que je fus seul à t'aimer davantage et qu'il est dommage que
tu ne l'aies pas connu.
Dis-toi qu'il ne faut pas regretter les choses: Ronsard avant moi et Baudelaire ont chanté le regret des vieilles et des mortes qui méprisèrent le plus pur amour,
Toi, quand tu seras morte,
Tu seras belle et toujours désirable.
Je serai mort déjà, enclos tout entier en ton corps immortel, en ton image étonnante présente à jamais parmi les merveilles perpétuelles de la vie et de l'éternité, mais si je vis
Ta voix et son accent, ton regard et ses rayons,
L'odeur de toi et celle de tes cheveux et beaucoup d'autres choses encore vivront en moi,
En moi qui ne suis ni Ronsard ni Baudelaire,
Moi qui suis Robert Desnos et qui, pour t'avoir connue et aimée,
Les vaux bien.
Moi qui suis Robert Desnos, pour t'aimer
Et qui ne veux pas attacher d'autre réputation à ma mémoire sur la terre méprisable.

Robert Desnos


Não, o amor não morreu

Não, o amor não morreu neste coração e nestes olhos e nesta boca
que proclamaram o começo de seus funerais.
Escutem, estou nauseado do pitoresco e das cores
e do encanto.
Amo o amor, sua ternura e sua crueldade.
Meu amor tem um só nome, uma só forma.
Tudo passa. Bocas se colam a esta boca.
E se qualquer dia recordares -
Ah tu, forma e nome do meu amor, -
Um dia sobre o mar entre América e Europa,
Na hora em que os últimos raios de sol reverberarem sobre a superfície
crespa das vagas, ou então numa noite de tempestade sob uma árvore do
interior, ou dentro de um carro veloz,
numa manhã de primavera no Bulevar Malesherbes,
dia de chuva,
de manhã antes de deitares,
diz, ordeno a teu fantasma familiar, que fui o único que te amou
mesmo, e que desgraçadamente não o reconheces.
Repete: não se deve arrepender das coisas: Ronsard antes de mim e
Baudelaire disseram do arrependimento de velhas e defuntas que
desprezaram o amor mais puro.
Tu, quando estiveres morta,
Serás bela e sempre desejável.
E eu já estarei morto, todo envolto em teu corpo imortal, e tua
imagem fascinante sempre presente entre as maravilhas perpétuas
da vida e da eternidade, mas e se sinto
tua voz e seus acentos, tua aparência e seus raios,
teu cheiro e o de teus cabelos e um bocado de outras coisas
ainda vivas em mim,
em mim que não sou nem Ronsard nem Baudelaire,
em mim que sou Robert Desnos, que por te ter conhecido e amado
tanto se me dá.
Em mim que sou Robert Desnos, só para te amar
e que não quero somar outra honra à minha memória sobre a
terra desprezível.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Por quem o pranto das capideiras: Wright


Sergio Asti, 1968




A Dream of Burial

Nothing was left of me
But my right foot
And my left shoulder.
They lay white as the skein of a spider floating
In a field of snow toward a dark building
Tilted and stained by the o wind.
Inside the dream, I dreamed on.

A parade of old women
Sang softly above me,
Faint mosquitoes near still water.

So I waited, in my corridor.
I listened for the sea
To call me.
I knew that, somewhere outside, the horse
Stood saddled, browsing in grass,
Waiting for me.

James Wright


Um Sonho com Velório

Nada me sobrou
Além de pé direito
E ombro esquerdo.
Eles jazem alvos como o vime de uma aranha flutuando
De um campo de neve a um prédio escuro
Enristado e encardido pelo vento.
Por dentro o sonho, que sonhei.

Um cortejo de mulheres idosas
Cantava suave acima.
Vagos mosquitos sobre água parada.

E eu esperava, no corredor.
Escutava o mar
Me chamar.
Sabia que, ali por fora, o cavalo
Selado ruminava a relva
À minha espera.

Borramento em um conto de fadas: Ashbery


Giorgio de Chirico, 1915



Thoughts of a Young Girl

‘It is such a beautiful day I had to write you a letter
From the tower, and show I’m not mad:
I only slipped on the cake of soup of the air
And drowned in the bathtub of the world.
You were you good to cry much over me.
And now I let you go. Signed, The Dwarf.’

I passed by late in the afternoon
And the smile still played about her lips
As it has for centuries. She always knows
How to be utterly delightful. Oh my daughter,
My sweetheart, daughter of my late employer, princess,
May you not be long on the way!

John Ashbery


Pensamentos de uma Moçoila

'O dia está tão bonito que tenho de lhe escrever uma carta
Aqui da torre e provar que não estou doido:
Apenas escorreguei na barra de sabão do ar
E submergi na banheira do mundo.
Você era boa demais para chorar por mim.
E então vou lhe deixar partir. Assinado, O Duende!'

Agonizei ao fim da tarde
E o sorriso ainda brincava nos lábios dela
Como tem sido há séculos. Ela sempre sabe
O modo de ser um rematado encanto. Ah, minha filha,
Minha amada, filha de meu finado empregador, princesa.
Que você não demore na estrada!



Nota – a tela de De Chirico, que é um dos pintores favoritos de Ashbery, intitula-se “Divertimentos de uma moçoila”. E note que também possui uma torre. "Ut pictura Poesis"? Pois sim. Ashbery, a exemplo de O’Hara trabalhou na revista Art News e vem mantendo renovado interesse por artes plásticas.

domingo, 22 de abril de 2007

Embrulhado como panettone: Lowell


Milton Avery, 1958




Sailing Home from Rapallo
[February 1954]

Your nurse could only speak Italian,
but after twenty minutes I could imagine your final week,
and tears ran down my cheeks...

When I embarked from Italy with my Mother’s body,
the whole shoreline of the Golfo di Genova
was breaking into fiery flower.
The crazy yellow and azure sea-sleds
blasting like jack-hammers across
the spumante-bubbling wake of our liner,
recalled the clashing colors of my Ford.
Mother traveled first-class in the hold;
her Risorgimento black and gold casket
was like Napoleon’s at the Invalides....

While the passengers were tanning
on the Mediterranean in deck-chairs,
our family cemetery in Dunbarton
lay under the White Mountains
in the sub-zero weather.
The graveyard’s soil was changing to stone—
so many of its deaths had been midwinter.
Dour and dark against the blinding snowdrifts,
its black brook and fir trunks were as smooth as masts.
A fence of iron spear-hafts
black-bordered its mostly Colonial grave-slates.
The only “unhistoric” soul to come here
was Father, now buried beneath his recent
unweathered pink-veined slice of marble.
Even the Latin of his Lowell motto:
Occasionem cognosce,
seemed too businesslike and pushing here,
where the burning cold illuminated
the hewn inscriptions of Mother’s relatives:
twenty or thirty Winslows and Starks.
Frost had given their names a diamond edge...

In the grandiloquent lettering on Mother’s coffin,
Lowell had been misspelled LOVEL.
The corpse
was wrapped like panettone in Italian tinfoil.

Robert Lowell


Voltando de Rapallo por Mar
[Fevereiro, 1954]

A enfermeira só falava italiano,
Mas em vinte minutos pude imaginar as últimas semanas,
E lágrimas escorreram à face...

Quando embarquei na Itália com o corpo de minha mãe,
Todo o litoral do Golfo de Genova
Rompia-se em fogosas flores.
Os doidos amarelos e celestes malhos-de-mar
Tinindo como britadeiras ao longo
Do borbulha-espumante rastro do navio
Lembravam as cores berrantes do meu Ford.
Mamãe viajava de primeira classe no porão;
Seu casquete do Risorgimento preto e áureo
Era como Napoleão nos Inválidos...

Enquanto passageiros bronzeavam
No Mediterrâneo em espreguiçadeiras,
O cemitério de nossa família em Dunbarton
Jazia sob as Montanhas White
Em temperatura abaixo de zero.
O solo do cemitério empedrava-se—
Tantas foram as mortes inverno a meio.
Severo e sombrio contra a ofuscante corrente de neve,
Seu arroio negro e troncos de abeto eram macios como mastros.
Uma cerca de ferro em ponta-de-lança
Ladeava em negro as lápides mais coloniais,
A única alma “a-histórica” a vir ali foi
o Pai, agora enterrado sob o recente
mármore rosa-venado, sem marcas de tempo.
Mesmo o latim do lema dos Lowell:
“Ocasionem Cognosce”,
Soava um tanto mercantil e deslocado ali,
Onde o frio abrasivo iluminava
As sepulturas rachadas dos parentes de Mamãe:
Vinte ou trinta Winslows e Starks.
A nevasca deu a seus nomes uma borda diamante...

Nas letras grandiloqüentes sobre o caixão de Mamãe,
Lowell grafara-se em gralha por LOVEL.
O corpo fora embrulhado como panettone em papel de estanho >italiano.




Nota – ‘Risorgimento’ [1E. –v.9], indica o período da reunificação italiana, que começou a ganhar fermento após 1815. ‘Os Inválidos’ (ou ‘Les Invalides’)[1E, v.10] – famoso distrito parisiense, que consiste num conjunto de museus e monumentos além de um amplo hospital. É onde estão enterrados os militares franceses de destaque. O mais conhecido dos quais é Napoleão Bonaparte, que está sepultado na cripta da Igreja dos Inválidos.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Uma observação astronômica: Mark Strand


Henri Rousseau, 1897




From the Long Sad Party

Someone was saying
something about shadows covering the field, about
how things pass, how one sleeps towards morning
and the morning goes.

Someone was saying how
the wind dies down but comes back,
how shells
are the coffins of wind
but the weather continues.

It was a long night
and someone said something about the moon shedding its
white
on the cold field, that there was nothing ahead
but more of the same.

Someone mentioned
a city she had been in before the war,
a room with two
candles against a wall, someone dancing, someone watching.
We began to believe

the night would not end.
Someone was saying the music was over and no one had
noticed.
Then someone said something about the planets,
about the
stars, how small they were, how far away.

Mark Strand


Da Longa Festa Triste

Alguém dizia
algo sobre sombras escondendo um campo, sobre
como tudo passa, como se dorme até de manhã
e a manhã segue.

Alguém dizia de como
o vento desmaia mas retrocede,
de como conchas
são os esquifes do vento
mas o tempo prossegue.

Era uma longa noite
e alguém disse algo sobre a lua vazando seu
claro
no campo frio, que não estava nada adiante
mas bem aqui.

Alguém mencionou
uma cidade em que esteve,
um quarto com duas
velas contra uma parede, alguém dançando, alguém reparando.
Começamos a crer

que noite não teria fim.
Alguém dizia que a música acabara, e ninguém
notou.
Então alguém disse algo sobre os planetas,
sobre as
estrelas, de como eram miúdos, de como distavam.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Duas versões para o mesmo apressado trem de MacCaig.


George Barnard, 1866



London to Edinburgh

I'm waiting for the moment
when the train crosses the Border
and home creeps closer
at seventy miles an hour.

I dismiss the last four days
and their friendly strangers
into the past
that grows bigger every minute.

The train sounds as urgent as I am,
it says home and home and home.
I light a cigarette
and sit smiling in the corner.

Scotland, I rush towards you
into my future that,
every minute,
grows smaller and smaller.

Norman McCaig


De Londres a Edimburgo

Estou esperando o momento
quando o trem cruza a fronteira
e mais perto de casa rasteja
a cem quilômetros por hora.

Descarto os quatro últimos dias
e a hospedagem estrangeira
para um passado
que a cada minuto se amplia.

O trem soa a minha urgência,
ele diz casa, casa e casa
acendo um cigarro
e na curva sorrio na cadeira.

Escócia, para você eu me apresso
para o meu futuro que
a cada minuto
decresce na dianteira.

Virna Teixeira


De Londres a Edimburgo

Aguardo o momento
do trem cruzar a fronteira
e na rasteira vir a casa
a setenta milhas por hora.

Dispenso os quatro últimos dias,
os simpáticos forasteiros
mando ao passado,
que cresce a cada minuto.

O trem soa urgente como eu,
ele diz casa e casa e casa.
Acendo um cigarro
e sento sorrindo ao canto.

Escócia, precipito-te
para meu futuro que,
a cada minuto,
é menor e menor adiante.

Ruy Vasconcelos

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Tudo que o pesado recesso do escuro objeta: Tomlinson


Maya Deren, 1943




Knowledge

I want the knowledge of the afternoon as it recedes
Up to the very edge of disappearance;
And all the space I see it passing through,
And all the time it takes for light
To linger out of its slow retreat from sight—
Tree after tree, roof after roof—
And sensing them present there, to feel
All that the charged recesses of the dark conceal.

Charles Tomlinson


Conhecimento

Eu quero o conhecimento da tarde que reflui
Para a margem mesma do sumiço;
E por todo o espaço a vejo atravessar,
E quanto de tempo ela toma por luz
A demarcar sua lenta retirada dos olhos—
Árvore após árvores, teto após teto—
E percebendo-lhes a presença ali, sentir
Tudo que o pesado recesso do escuro objeta.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Perda e devaneio num álbum de família: Lowell


Édouard Vuillard, 1894



For Sale

Poor sheepish plaything,
organized with prodigal animosity,
lived in just a year—
my Father’s cottage at Beverly Farms
was on the market the month he died.
Empty, open, intimate,
its town-house furniture
had an on tiptoe air
of waiting for the mover
on the heels of the undertaker.
Ready, afraid
of living alone till eighty,
Mother mooned in a window,
as if she had stayed on a train
one stop past her destination.

Robert Lowell


À venda

Brinquedo mais acanhado,
preparado com pródiga animosidade,
durou só um ano—
o chalé de meu pai em Beverly Farms
foi a mercado no mês de sua morte.
Vazio, aberto, íntimo,
a mobília de prefeitura
na ponta dos pés
esperava pelo proponente
no calcanhar do agente funerário.
Atenta, temerosa
de viver só até os oitenta,
mamãe sonhava à janela
como se estivesse num trem
uma parada após a dela.




Nota – num típico poema da dita ‘confessional poetry’, seu expoente máximo, Robert Lowell [1917-1977], entre outras, recorda o chalé do pai sendo rapidamente posto à venda após a morte deste. As famílias às quais o novo-inglês Lowell pertencia eram antiqüíssimas. Uma delas teria vindo no próprio Mayflower [o primeiro navio com puritanos a chegar na Baía de Plymouth, em 1620]. Lowell, escandalizou a família, ao, entre outras, converter-se ao catolicismo, após viver algum tempo no Sul [Louisianna]. Verdadeira heresia para esses velhos quakers de Massachussetts. Lowell era um habilidoso versejador em formas fixas. E foi um dos poetas mais apreciados pelo New Criticism. Conheceu enorme sucesso em vida, o que o fez amigo do casal Kennedy, p. ex. Livros como Lady Weary's Castle [1946] e Life Studies [1959] foram saudados como clássicos instantâneos. Esteve muito ligado por admiração mútua e amizade a Elisabeth Bishop - que, hoje, talvez seja mais lida que ele. Foi também um tradutor versátil. Há mesmo um volume seu chamado Imitations (Imitações, 1961), em que recria, a seu modo, peças de poetas europeus de sua preferência: Homero, Safo, Villon, Leopardi, Heine, Baudelaire, Rilke, Montale, Pasternak, entre outros. Trata-se, de resto, de um belo volume, sempre listado entre os demais livros de poesia do autor.

domingo, 15 de abril de 2007

Depende, uma boa idéia nem sempre dá bons frutos: problemas na recepção da poesia de Robert Creeley no Brasil.


Jackson Pollock, 1948



Nota sobre Ceeley dois anos após sua morte


Ler Creeley em meados dos 80 foi descobrir uma poesia das possibilidades. Uma forma nova em uma mente aguda. Porém o que mais atrai em Creeley está longe de ser sua sintaxe errática, randômica, desorientada – ou seja, o ingrediente de mais apelo a poetas brasileiros de ouvidos menos apurados. Lembremos que essa sintaxe é derivativa. Sobrevem do modo como Creeley, na esteira de Williams, às vezes escreve roçando a fala. O que atrai mais em Creeley é compressão, coloquialismo estilizado, aferição de percurso do pensamento e senso de abstração em processo. E é pontual sublinhar que, à exceção da compressão, há gente que realiza melhor cada um destes aspectos individualmente. O’Hara coloquializa com mais graça. Ashbery acompanha melhor o percurso do pensamento. Oppen tece um melhor abstrato da coisa tratada. Os livros de Creeley não têm prefácios. Ao menos prefácios delegados a outrem. Ou um esboço de contexto; contato. Pôr um prefácio a eles e seria o equivalente a reescrevê-los. Ou admitir um fracasso. Ou delegar-se a um terceiro. Esta última opção deveria soar terrível para Creeley. E não só porque trai o solipsismo de sua proposta. Mas pelo fechamento do caso. De uns tempos para cá, Creeley tem sido o poeta mais imitado – sobretudo em sua sintaxe – pelos brasileiros. E em equívoco, porque nenhum em meio a essa legião teve fôlego para agregar Creeley como um vetor de criatividade. Mas também porque ele é de difícil digestão num país que passou muito rápido da medida à poesia concreta sem senso de mesura. Ora, como assegura Williams, Creeley possui “o mais apurado sentido de medida que podemos encontrar por aí a exceção dos versos de Ezra Pound” (“The subtlest feeling for the measure that I encounter anywhere except in the verses of Ezra Pound”). Hoje é já possível vislumbrar que esse homem que sempre escreveu o mesmo poema talvez tenha uma obra excessivamente volumosa. Algo a pensar. Os heróis de Creeley são todos do alto-modernismo – Pound, Williams, Olson, Zukofsky e, no plano de idéias afins, Wittgenstein, mas também Benjamin, Bresson. Assim, muito embora Creeley tenha tentado reiventar-se, nos 60’ e nos 70’, a tentativa desandou porque, malgré lui, sua medida de dizer as coisas sempre foi mais resplandecente do que o que está sendo dito. O que implica em dizer rachando com o próprio lema de Creeley, apregoado por Olson na teoria do ‘verso projetivo’ [‘projective verse’, qual seja “a forma não é mais que uma extensão do conteúdo"] que há aqui uma falácia de argumento. Pois para Creeley a forma sempre foi mais que uma mera extensão de conteúdo. O trunfo da vez para a poesia brasileira – bastante avessa à idéia da forma, ou de uma arte “fria” – teria sido apreendê-lo pelo seu estilo mais do que pelo que vai declarado. Sintaxe é ordem de declaração. Passam os anos. E, no Brasil, esse importante poeta é muito mais assaltado pela diluição que reconhecido pela idéia.


Nota – há alguns poemas de Creeley bem como outras tantas referências a ele postados em Afetivagem.

Um longo título, uma medida, uma preciosa linha ao fim: Wright


Walker Evans, 1936




Lying In A Hammock At William Duffy's Farm
In Pine Island, Minnesota


Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year's horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

James Wright


Deitado Numa Rede Na Fazenda William Duffy
Em Pine Island, Minnesota

Acima da cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Florescendo como uma folha em sombra verde.
Ravina abaixo ao pé da casa vazia,
Os chocalhos de vaca sucedem-se
Pelas distâncias da tarde.
À minha direita,
Num campo, réstias entre dois pinhos,
O esterco dos cavalos do passado ano
Rebrilham feito pepitas.
Reclino-me de novo, enquanto a noite ameaça e chega.
Um filhote de falcão paira, buscando abrigo.
Desperdicei minha vida.




Nota – James Wright [1827-1980] foi um dos poetas que melhor plasmou a atmosfera rural dos Estados Unidos no séc. XX. Wright foi também um importante tradutor do espanhol e do alemão. Ao abandonar parcialmente formas fixas e rimadas que dominava com maestria, publicou em 1963 seu livro mais seminal: The Branch Will Not Break [O Galho Não Quebrará], lançando mão de medidas mais livres. Wright foi quase uma exceção numa época de alinhamentos a grupos poéticos e devoção irrestrita ao verso livre [free verse], pois mesmo em seu “verso livre” pode-se pressentir a justeza da medida. Em geral, é alinhado, junto com Robert Bly, W.S. Merwin, Jerhome Rothenberg e outros sob o rótulo de Deep Image. Foi leitor e tradutor entusiasta do poeta peruano César Vallejo, bem como tradutor de Trakl e Rilke. Possuía um estilo tão próprio que é quase indelicado dizer que adotou, no início da carreira, algumas sugestões de Theodor Roethke, de quem foi aluno. Seu melhor universo centra-se no condado em que nasceu, Martin’s Ferry, Ohio. Há um outro poema de Wright em Afetivagem ["Rain"]. Bem como um de Roethke ["Elegy to Jane"].

Mente e corpo são quase um: Levertov


Barbara Probst, 2005




Bedtime

We are a meadow where the bees hum,
mind and body are almost one

as the fire snaps in the stove
and our eyes close,

and mouth to mouth, the covers
pulled over our shoulders,

we drowse as horses drowse afield,
in accord; though the fall cold

surrounds our warm bed, and though
by day we are singular and often lonely.

Denise Levertov


Deitados

Somos prados onde abelhas zunem,
mente e corpo quase se unem

como o fogo crepita na estufa
e nosos olhos surfam,

e boca à boca, as cobertas
sobre os ombros abertas,

no campo como cavalos com sono
acordamos; embora o frio do outono

cerque nosso leito quente, e na trilha
do dia sigamos únicos e muito sozinhos.

sábado, 14 de abril de 2007

E 'Ut Picura Poesis' É O Nome Dela: Ashbery


Pablo Picasso, 1913




And Ut Pictura Poesis Is Her Name

You can’t say it that way any more.
Bothered about beauty you have to
Come out into the open, into a clearing,
And rest. Certainly whatever funny happens to you
Is OK. To demand more than this would be strange
Of you, you who have so many lovers,
People who look up to you and are willing
To do things for you, but you think
It’s not right, that if they really knew you . . .
So much for self-analysis. Now,
About what to put in your poem-painting:
Flowers are always nice, particularly delphinium.
Names of boys you once knew and their sleds,
Skyrockets are good—do they still exist?
There are a lot of other things of the same quality
As those I’ve mentioned. Now one must
Find a few important words, and a lot of low-keyed,
Dull-sounding ones. She approached me
About buying her desk. Suddenly the street was
Bananas and the clangor of Japanese instruments.
Humdrum testaments were scattered around. His head
Locked into mine. We were a seesaw. Something
Ought to be written about how this affects
You when you write poetry:
The extreme austerity of an almost empty mind
Colliding with the lush, Rousseau-like foliage of its desire to communicate
Something between breaths, if only for the sake
Of others and their desire to understand you and desert you
For other centers of communication, so that understanding
May begin, and in doing so be undone.

John Ashbery


E Ut Pictura Poesis É Seu Nome

Não se pode mais dizer desse jeito.
Incomodado pela beleza se tem de
Ir para fora, até uma clareira
E repousar. Bem, o que acontecer de engraçado
Está OK. Demandar mais que isso seria estranho
De você. De você que tem tantos amantes,
Gente que olha e quer
Logo lhe servir, mas você acha
Que não está certo, que se de fato lhe conhecessem...
Tanta auto-análise. Então,
O que pôr no seu poema-pintura:
Flores são sempre belas, o delfínio em particular.
Nomes de meninos que se conheceu um dia e seus trenós,
Foguetes são bons—será que ainda existem?
Há um monte de outras coisas da mesma espécie
Das que mencionei. Então se pode
Achar umas poucas palavras importantes, outras contidas,
Cacofônicas. Ela aproximou-se querendo
Vender-me sua escrivaninha. Súbito a rua era
Bananas e o tinir de instrumentos japoneses.
Enfadonhos testamentos espalhavam-se por aí. A cabeça dele
Lacrada à minha. Éramos uma gangorra. Algo
Deve ser escrito do quanto isso lhe afeta
Quando você escreve poesia:
A extrema austeridade de uma mente quase vazia
Colidindo com a vistosa folhagem à Rousseau do desejo de comunicar
Algo entre fôlegos, ao menos por conta
Dos outros e do desejo deles de lhe entender ou lhe desertar
Em prol de outros centros de comunicação, de modo que o >entendimento
Possa começar, e em assim sendo se desfaça.




Nota – ‘Ut pictura poesis’ é a célebre fórmula do poeta latino Horácio que trata da relação entre pintura e poesia [e significa justamente ‘assim na imagem como na poesia’; ou ‘assim no quadro como na palavra’, und so weiter]. Conta-se que, pelas inusitadas imagens, a intrincada linguagem, e as associações imprevistas, John Ashbery ao ler este poema tinha que aguardar mais de uma vez que a platéia se refizesse das gargalhadas. De que trata? Entre outras, dos limites da representação, da linguagem. Para mais poemas de Ashbery em Afetivagem, busque acima à esquerda: 'pesquisar blog'.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Um mais estranho poema de amor na Via Láctea: Oppen


Odilon Redon, 1914





Who Shall Doubt
consciousness

in itself

of itself carrying

'the principle
of the actual' being

actual

itself ((but maybe this is a love
poem

Mary) ) nevertheless

neither

the power
of the self nor the racing
car nor the lilly

is sweet but this

George Oppen

Quem Duvida

consciência

em si

para si portando

‘o princípio

do contingente’ ser

contingente

para si ((mas talvez isto seja um poema
de amor

Mary)) contudo

nem
o poder
do ser nem o bólido
nem o lírio

é tão suave quanto isto









George Oppen[1908-1984] – seu nome está ligado aos objetivistas de 30. Após uma viagem de visita a Pound publicou Séries Discretas (1934). Em seguida, preocupado com a opressiva pobreza dos Estados Unidos nos anos da Grande Depressão, Oppen largou a poesia pelo ativismo político de esquerda. Trabalhou como cortador de tecidos numa fábrica [“a vida deve ser vivida, a partir daí se tem o que escrever”]. Só voltou a escrever 28 anos depois, quando estava exilado na Cidade do México, fugindo da sanha mccartista. Conhecido por suas habilidades manuais e descaso diante da academia foi, paradoxalmente, leitor atento de Heidegger e da filosofia em geral. Seu volume Of Being Numerous [De Sermos Numerosos, 1968], um poema longo fragmentado e tanto abstrato, situado em Nova York, parece de algum modo antecipar certa atmosfera dos eventos de 11 de Setembro de 2001. Há outros poemas de Oppen traduzidos em Afetivagem. Aos interassados, basta tão-só usar a busca[Pesquisar Blog], acima à esquerda. Para mais sobre Oppen em português, clique AQUI.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Prendar, comprimir, condensar: Niedecker


Gerhard Heufler, 1996




Poet's Work


Grandfather
advised me:
Learn a trade

I learned
to sit at desk
and condense

No layoffs
from this
condensy

Lorine Niedecker


Ofício de Poeta

Meu avô
aconselhava:
Aprenda uma prenda

Aprendi
a sentar à mesa
e condensar

Suspensão
qualquer dessa
condensação





Lorine Niedecker [1903—1970] - poeta americana, morou a maior parte da vida numa cabana na ilha de Black Hawk, Wisconsin. Correspondeu-se copiosamente com Louis Zukofsky, Cid Corman, William Carlos Williams e George Oppen. Seu nome está vinculado aos objetivistas da década de 30, já que Zukofsky era seu mentor. O estilo de Niedecker tende ao miniatural – o que precede um tanto do minimalismo radical e espirituoso de um Creeley. Seu trabalho centra-se em dois conceitos: condensação e musicalidade.

Poesia é passatempo: Basil Bunting


Vasily Kandinsky, 1933




What the Chairman Told Tom

Poetry? It's a hobby.
I run model trains.
Mr. Shaw there breeds pigeons.

It's not work. You don’t sweat.
Nobody pays for it.
You could advertise soap.

Art, that's opera; or repertory--
The Desert Song.
Nancy was in the chorus.

But to ask for twelve pounds a week--
married, aren't you?--
you've got a nerve.

How could I look a bus conductor
in the face
if I paid you twelve pounds?

Who says it's poetry, anyhow?
My ten year old
can do it and rhyme.

I get three thousand and expenses,
a car, vouchers,
but I'm an accountant.

They do what I tell them,
my company.
What do you do?

Nasty little words, nasty long words,
it's unhealthy.
I want to wash when I meet a poet.

They're Reds, addicts,
all delinquents.
What you write is rot.

Mr. Hines says so, and he's a schoolteacher,
he ought to know.
Go and find work.

Basil Bunting


O Que o Gerente Disse a Tom

Poesia? É passatempo.
O meu são trens de brinquedo.
O Sr. Shaw ali cria pombos.

Não é sério. Não se sua.
Ninguém compra.
Anuncie sabão.

Arte é ópera; teatro—
A Canção do Deserto.
Nancy era do coro.

Mas doze libras semanais—
Casado, né?—
Você tem peito.

Como olhar um motorista
de ônibus na cara
se lhe pago doze?

Quem disse que é poesia, afinal?
As do meu garoto de dez
ainda rimam.

Tiro trezentos no bruto,
carro, garantias,
mas sou contador.

Fazem o que mando,
a empresa é minha.
E você?

Palavrinhas, palavronas,
uma insanidade.
Quero me lavar quando vejo um poeta.

São comunas, viciados,
uns delinqüentes.
O que você escreve é lixo.

O Sr. Hines diz isso e é professor,
sabe das coisas.
Vá, arranje emprego.





Basil Bunting [1900-1985] - poeta inglês, foi secretário de Pound em Rapallo. Depois marinheiro. Sob o encorajamento de Pound publicou seus primeiros poemas e tornou-se amigo de outro protegido do autor de The Cantos, o norte-americano Louis Zukofsky. Durante a II Guerra foi mandado para a Pérsia a serviço da RAF, país que o fascinou e de onde vem sua mulher. A necessidade de deixar a casa e de voltar para ela é um de seus temas obsessivos. Por viver distante do millieu, foi reconhecido tardiamente, mas com entusiasmo, em seu país. Bem, julgava que este poema fosse inédito em português. Engano. Pesquisando, dei com uma versão feita pelo poeta paulistano Nélson Ascher. Ela pode ser encontrada aqui: http://peledelontra.zip.net/arch2006-01-01_2006-01-07.html

quarta-feira, 11 de abril de 2007

O que virou a vida depois da tv: Ashbery


Lee Friedlander, 1966




My Philosophy of Life

Just when I thought there wasn't room enough
for another thought in my head, I had this great idea--
call it a philosophy of life, if you will. Briefly,
it involved living the way philosophers live,
according to a set of principles. Ok, but which ones?

That was the hardest part, I admit, but I had a
kind of dark foreknowledge of what it would be like.
Everything, from eating watermelon or going to the bathroom
or just standing on a subway platform, lost in thought
for a few minutes, or worrying about rain forests,
would be affected, or more precisely, inflected
by my new attitude. I wouldn't be preachy,
or worry about children and old people, except
in the general way prescribed by our clockwork universe.
Instead I'd sort of let things be what they are
while injecting them with the serum of the new moral climate
I thought I'd stumbled into, as a stranger
accidentally presses against a panel and a bookcase slides back,
revealing a winding staircase with greenish light
somewhere down below, and he automatically steps inside
and the bookcase slides shut, as is customary on such occasions.
At once a fragrance overwhelms him--not saffron, not lavender,
but something in between. He thinks of cushions, like the one
his uncle's Boston bull terrier used to lie on watching him
quizzically, pointed ear-tips folded over. And then the great rush
is on. Not a single idea emerges from it. It's enough
to disgust you with thought. But then you remember something
>William James
wrote in some book of his you never read--it was fine, it had the
>fineness,
the powder of life dusted over it, by chance, of course, yet
>still looking
for evidence of fingerprints. Someone had handled it
even before he formulated it, though the thought was his and
>his alone.

It's fine, in summer, to visit the seashore.
There are lots of little trips to be made.
A grove of fledgling aspens welcomes the traveler. Nearby
are the public toilets where weary pilgrims have carved
their names and addresses, and perhaps messages as well,
messages to the world, as they sat
and thought about what they'd do after using the toilet
and washing their hands at the sink, prior to stepping out
into the open again. Had they been coaxed in by principles,
and were their words philosophy, of however crude a sort?
I confess I can move no farther along this train of thought--
something's blocking it. Something I'm
not big enough to see over. Or maybe I'm frankly scared.
What was the matter with how I acted before?
But maybe I can come up with a compromise--I'll let
things be what they are, sort of. In the autumn I'll put up jellies
and preserves, against the winter cold and futility,
and that will be a human thing, and intelligent as well.
I won't be embarrassed by my friends' dumb remarks,
or even my own, though admittedly that's the hardest part,
as when you are in a crowded theater and something you say
riles the spectator in front of you, who doesn't even like the idea
of two people near him talking together. Well he's
got to be flushed out so the hunters can have a crack at him--
this thing works both ways, you know. You can't always
be worrying about others and keeping track of yourself
at the same time. That would be abusive, and about as much fun
as attending the wedding of two people you don't know.
Still, there's a lot of fun to be had in the gaps between ideas.
That's what they're made for! Now I want you to go out there
and enjoy yourself, and yes, enjoy your philosophy of life, too.
They don't come along every day. Look out! There's a big one...

John Ashbery


Minha Filosofia de Vida

Assim que pensei que não tinha mais espaço
para um outro pensamento na cabeça, tive essa grande idéia—
chame de filosofia de vida, se quiser. Em tempo,
consiste em levar uma vida como a dos filósofos,
de acordo com uma série de princípios. Ok, mas quais?

Essa é a parte mais dura, certo, mas eu tinha uma
espécie de nebuloso pressentimento do que ela seria.
Tudo, desde comer melancia ou ir ao banheiro
ou apenas ficar numa estação do metrô, no mundo da lua
por uns minutos, ou preocupar-se com as florestas tropicais
seria afetado, ou, mais precisamente, modificado
por minha nova atitude. Eu não seria rezingueiro
ou preocupado com as crianças e os velhos, exceto
da forma mais geral prescrita por nosso universo mecânico.
Em vez disso eu meio que deixaria as coisas serem como são
enquanto nelas injetasse o soro da nova atmosfera moral,
que eu achava que havia encontrado, como quando um estranho
pressiona acidentalmente um painel e uma estante abre-se
revelando uma escada em espiral com luzes esverdeadas
lá por baixo, e ele automaticamente entra no recinto
e a estante fecha-se, como é de uso nessas ocasiões.
E, de repente, um perfume o domina—nem açafrão, nem lavanda
mas algo a meio termo. Ele pensa em almofadas, como a que
o bull-terrier de seu tio em Boston costumava deitar-se olhando-o
zombeteiro, as pontas das orelhas dobradas. Então dá-se a grande
virada. Nem uma única idéia emerge. É o suficiente
para lhe indispor com o pensamento. Mas então, você lembra algo >que
>William James
escreveu em um de seus livros que você nunca leu—e era fino, >possuía a
finura do pó da vida espargido por sobre, por acaso, é claro, mas
ainda à busca da evidência de impressões digitais. Alguém >manipulara-o
antes de ele havê-lo formulado, embora o pensamento fosse dele
e só dele.

É bom no verão ir pro litoral.
Há uma série de viagens curtas a fazer.
Um bosque de emplumadas faias recebe o viajante. Perto
há os toaletes públicos onde peregrinos exaustos gravaram
seus nomes e endereços e, quem sabe, recados também,
recados para o mundo, enquanto sentavam
e pensavam no que fariam depois de usar o toalete
e lavar as mãos à pia, antes de cair
no mundo de novo. Será que eles foram persuadidos por princípios
e suas palavras eram filosofia, de um tipo assim mais grosseiro?
Eu confesso que não consigo seguir mais longe nessa linha de >pensamento—
algo bloqueia. Algo que não sou
grande o bastante para sobrepor a vista. Ou talvez me encontre >assustado.
Qual era mesmo a questão de como eu agia antes?
Mas talvez eu possa firmar um pacto—vou
deixar as coisas serem como são, lá sei. No outono vou guardar >geléias
e compotas, contra o frio e a futilidade do inverno,
e isso será algo humano, e inteligente também.
Não ficarei envergonhado pelos comentários estúpidos dos amigos,
ou mesmo meus, embora essa seja a pior parte
como quando se está num cinema lotado e algo que se diz
irrita o espectador à sua frente, que sequer gosta da idéia
de duas pessoas conversando perto dele. Ora, ele
deve ser evacuado, de modo que os cães de caça possam arrancar->lhe um pedaço—
essas coisas têm mão-dupla, sabe. Você não pode
cuidar sempre dos outros e achar seu paradeiro
ao mesmo tempo. Isso seria um abuso, e ao menos tão engraçado >quanto
ir ao casamento de duas pessoas que você não conhece.
É, há um mundo de graça que se tem entre o vão de duas idéias.
É para o que elas servem! Agora eu quero que você saia
e tire uma folga, e, claro, curta a sua filosofia de vida, também.
Não é fácil conciliar ambas todo dia. Olha só! Essa é boa...








Nota – este poema é ramatada farsa. Bastante coloquial. Semelha um daqueles longos monólogos nonsenses de Woody Allen em seus melhores momentos. [E, não custa lembrar, que, a exemplo de Allen, Ashbery é de Nova York e também judeu.] É, em parte, uma diatribe contra a sabedoria do senso-comum. Ou, ao menos, a do homem mediano vivendo numa metrópole, muito exposto à mídia, à tv, etc. Ou ainda aproxima-se do discurso que um paciente faria para um analista. Ou, imaginando uma situação mais tétrica, o contrário. Bem podíamos ver parte dessa formulação, por exemplo, na boca de um personagem de reality show. Não, não. Pensando bem, mesmo esse corolário de asneiras engatadas seria demais para um participante de Big Brother. A ervilha germina. Certos cérebros vegetam. [E, como de uso, pelas limitações do editor de texto, o símbolo ">" indica a continuidade do verso.]

terça-feira, 10 de abril de 2007

Se estiver escuro quando isto lhe for dado: Creeley


Marc Chagall, 1942



A Form of Women

I have come far enough
from where I was not before
to have seen the things
looking in at me from through the open door

and have walked tonight
by myself
to see the moonlight
and see it as trees

and shapes more fearful
because I feared
what I did not know
but have wanted to know.

My face is my own, I thought.
But you have seen it
turn into a thousand years.
I watched you cry.

I could not touch you.
I wanted very much to
touch you
but could not.

If it is dark
when this is given to you,
have care for its content
when the moon shines.

My face is my own.
My hands are my own.
My mouth is my own
but I am not.

Moon, moon,
when you leave me alone
all the darkness is
an utter blackness,

a pit of fear,
a stench,
hands unreasonable
never to touch.

But I love you.
Do you love me.
What to say
when you see me.

Robert Creeley


Uma Forma de Mulheres

Eu vim de muito longe
de onde não estive antes
para ver as coisas
mirando-me pela porta errante

e caminhei à noite
sozinho
para ver o luar
e vê-lo como árvores

e vultos mais terríveis
porque temia
o que não sabia
mas queria saber.

Meu rosto é o meu, pensei.
Mas você o viu
transtornado em mil anos.
Eu lhe vi chorar.

Não pude tocá-la.
Quis muito
tocá-la
mas não pude.

Se estiver escuro
quando isto lhe for dado,
tenha cuidado com seu conteúdo
quando a lua brilhar.

Meu rosto é o meu.
Minhas mãos são as minhas.
Minha boca é a minha
mas eu não sou.

Lua, lua,
quando me deixas só
todo escuro é
rematado breu,

um poço de medo,
um fedor,
mãos imponderáveis
nunca para tocar.

Mas eu te amo
e você a mim.
Que dizer
quando você me vê.

Um duplo critério para almas: Creeley


Walker Evans, 1936



After Lorca

For M. Marti

The Church is a business, and the rich
are the business men.
When they pull on the bells, the
poor come pilling in and when a poor man dies, he has a wooden
cross,
and they rush through the ceremony.

But when a rich man dies, they
drag out the Sacrament
and a golden Cross, and go doucement, doucement
to the cemetery.

And the poor love it
and think it's crazy.

Robert Creeley


Depois de Lorca

para M. Marti

A Igreja é uma firma, e os ricos
os empresários.
Quando eles puxam os sinos, os
pobres acorrem e, quando morre um pobre, ele tem uma
cruz
de madeira, e eles apressam a cerimônia.

Mas quando morre um rico, eles
arrastam o Sagrado
e uma Cruz de ouro, e seguem doucement, doucement
até o cemitério.

E os pobres adoram
e acham o máximo.

Mesmo que pareça (note!) um desastre: Bishop


Wols (A. O. Wolfgang Schulze), 1946-47




One Art


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

Uma Arte

A arte de perder não é de difícil lastro;
certas coisas parecem tão prenhes de perda
que perdê-las não constitui nenhum desastre.

Perca um pouco a cada dia. Aceite o arrasto
do molho de chaves perdido, a hora mal gasta.
A arte de perder não é de difícil lastro.

Então teste perder mais longe, mais rastros:
lugares, nomes, o destino onde pensou passar
as férias. E nada disso pressupõe desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E, ah, que impacto!,
a última ou penúltima das três casas que amei.
A arte de perder não é de difícil lastro.

Perdi duas cidades, que belas. E, mais vasto,
algumas terras, dois rios, um continente,
que saudade, mas não chega a ser desastre.

―Mesmo perder você (anedota na voz, gesto
que adoro) não deve enganar-me. Pois é claro
que a arte de perder não é de tão difícil lastro,
mesmo que pareça (note!) um desastre.







Nota- este é possivelmente um dos mais notáveis e amados poemas em língua inglesa escritos no séc.XX. Extensamente traduzido, tanto no Brasil quanto em Portugal. No Brasil, a versão mais conhecida é a do poeta carioca Paulo Henriques Britto. Não resisti à tentação de traduzi-lo. Originalmente esta versão foi publicada, com uma pequena variação, no Papel de Rascunho, de Virna Teixeira, em 17.01.2006.

O tumulto no coração mantém perguntas: Bishop


Marcel Duchamps, 1912




Conversation

The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.

Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only half-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;

until a name
and all its connotation are the same.

Elizabeth Bishop


Conversa

O tumulto no coração
mantém perguntas.
E então estaca e aceita responder
no mesmo tom de voz.
Ninguém pode dizer a diferença.

Culpadas, essas conversas começam,
e então engatam os sentidos,
tão-só a meio sentido de.
E então não tem escolha,
e então não faz sentido;

até um nome
e toda sua conotação serem o mesmo.




Nota- embora tenha me educado para admirar uma vertente de poesia [Pound, Williams, Creeley, Language Poets, e, em outro registro, O’Hara, Ashbery et all] completamente distinta, acho Bishop uma poeta maravilhosa. Este poema, por exemplo, só pode ter sido escrito por alguém que conhece ou um dia sonhou conhecer a poesia em português. Não a moderna. Mas a do 'Quinhentos' – que, para mim, ainda é, de longe, a mais elevada, a mais sublime. Há neste poema, de modo simples e esplêndido, impresso como um selo, nítido como seixos debaixo da água mais translúcida, algo de Camões, e, sobretudo, de Sá de Miranda – o primeiro a cultivar o soneto em Portugal [em simultâneo ao que fizeram Juan Boscán e Garcilaso de la Vega em Espanha]. Uma sensibilidade sul-européia, uma medida [que é a do decassílabo fracionado], uma sentimentalidade portuguesa, uma saudade, que são completamente alheias à sensibilidade do Norte da Europa. E atingir isso através do inglês! Ah, meus camaradas, não é brincadeira!

A falta que a música faz: Elisabeth Bishop


John Cage, 1961



I Am in Need of Music

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling fingertips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.

Elizabeth Bishop


Ando Precisada de Música

Ando precisada de música que deflua
Sobre meus dedos irritados, sensíveis,
Sobre meus lábios bronzeados, flexíveis,
Com profunda melodia, clara e lenta grua.
Ah, a lenitiva ginga, lenta e crua,
De uma canção para acalmar os fartos mortos,
Uma canção caindo como água sobre os corpos
Crispando braços, sonho que à chama se gradua!

Há uma mágica feita pela melodia:
Um feitiço dolente, e fôlego quieto, e frio
Peito, que mergulha fundo por murcha cor
Para a subaquática calma da baía,
E flutua sempiterno num lago lunar-frágil,
Nos braços do ritmo e do torpor.