quinta-feira, 26 de abril de 2007

De como tornar seu um poema do outro: Lowell


Egon Schiele, 1910




Sylvia

Sylvia, do you remember the minutes
in this life overhung by death,
when beauty flamed
through your shy, serious meditations,
and you leapt beyond the limits
of girlhood?

Wild,
lightning-eyed child,
your incessant singing
shook the mirror-bright cobbles,
and even the parlour
shuttered from summer,
where you sat at your sewing
and such girlish things—
happy enough to catch
at the future’s blurred offer.
it was the great May,
and this is how you spent your day.

I could forget
the fascinated studies in my bolted room,
where my life was burning out,
and the heat
of my writings made the letters wiggle and melt
under drops of sweat.

Sometimes, I lolled on the railing of my father’s house,
and pricked up my ears, and heard the noise
of your voice
and your hand run
to the hum of the monotonous loom.

I marveled at the composed sky,
the little sun-gilded dust-paths,
and the gardens, running high
and half out of sight,
with the mountains on one side and the Adriatic
far off to the right.
How can human tongue
Say what I felt?

What tremendous meaning, supposing,
and light-heartedness, my Sylvia!
what a Marie-Antoinette
stage-set
for life and its limits!
I turn aside to deride
my chances wrenched into misadventure.
Nature, harsh nature,
why will you not pay
your promise today?
Why have you set
your children a bird net?

Even before the Sirocco had sucked
the sap from the grass,
some undiagnosable disease
struck you and broke you—
you died, child,
and never saw your life flower,
or your flower plucked
by young men courting you
and arguing love
on the long Sunday walk—
their heads turned and lost
in tour quick, shy talk.

Thus hope subsided
little by little;
date decided
I was never to flower.
Hope, dear comrade of my shrinking summer,
How little you could keep
Your colour! You make me weep.
Is this your world?
These, its diversions, its infatuations,
its accomplishments, its sensations,
we used to unravel together?
you broke before the first
advance of truth;
the grave
was the final, shining milestone
you had always been pointing to
with such insistence
in the undistinguishbable distance.

Robert Lowell


Sílvia

Sílvia, lembra os minutos
desta vida tocaiados pela morte,
quando a beleza luzia
sobre teus sóbrios, sérios pensamentos
e saltavas a fronteira
da infância?

Brusca
criança de faísca no olho,
teu incessante canto
trepidava as pedras espelhadas do macadame,
e mesmo o salão,
com venezianas à veraneio,
onde sentavas a coser
e outras coisas de mulher –
feliz o bastante para apreender
a embaçada oferta de futuro.
Era o enorme maio,
e eis como gastavas teu dia.

Eu me esquecia
dos estudos fascinantes em meu quarto aferrolhado,
onde minha vida oxidava,
e o calor
de minha caligrafia serpeava e derretia
sob gotas de suor.
Às vezes, reclinava no balcão da casa de meu pai
e afinava o ouvido, e escutava o rumor
de tua voz
e tua mão correndo
ao zumbido monótono do tear.

Eu admirava o céu compósito,
as esguias, aureoladas trilhas poeirentas,
e os canteiros, estendendo-se ao alto
e quase fora de esquadro,
com as montanhas de um lado e o Adriático
bem à direita.
Que língua humana
diria meu sentido?

Que tremendo senso, suponho,
e vida solta, minha Sílvia!
Que cenário
de Maria Antonieta
para uma vida e seus limites!
Quando penso no supremo sopro de orgulho,
acres reservas me sufocam,
viro-me para troçar
de meus acasos retorcidos de infortúnio.
Natureza, cruel natureza
por que não pagas
hoje tua promessa?
Por que tão cedo
aninhaste tuas crias?

Antes ainda do Sirocco sugar
a seiva da relva,
alguma indiagnosticável doença
colheu-te e te partiu –
morreste, menina,
e nunca viste tua vida em flor,
ou tua flor colhida
por mancebos cortejando-te
e protestando amores
na longa senda do domingo –
suas cabeças viradas, absortas
em tua ágil fala apianada.

Assim, o porvir precipitou-se
pouco a pouco;
e destino decidiu
que eu nunca chegasse a florir.
Porvir, querida amiga de meu pulsante verão,
quão pouco pudeste manter
tua cor! Me dás pena.
Era esse teu mundo?
Com seus divertimentos, embaraços
realizações, sentidos,
que costumávamos desenredar?
Tu te trincaste antes do primeiro
tranco da verdade;
o túmulo
foi o marco final e luzente
que sempre indicavas
com tanta insistência
na indistinguível distância.




Nota – poema do volume Imitations [1961], em que Robert Lowell recria em inglês alguns dos grandes poemas do Ocidente. Neste caso, uma célebre peça de Giacomo Leopardi (1798-1837) “A Silvia” (rimembri ancora/ quel tempo della tua vita mortale [...]). ‘Sirocco’ (7ªe, v1) – o vento que sopra das costas africanas para as praias da Itália, e que se acreditava portar qualidades maléficas.

Nem Ronsard nem Baudelaire: Desnos


René Magritte, 1928




Non, l’amour n’est pas mort

Non, l'amour n'est pas mort en ce coeur et ces yeux et cette bouche
qui proclamait ses funérailles commencées.
Écoutez, j'en ai assez du pittoresque et des couleurs
et du charme.
J'aime l'amour, sa tendresse et sa cruauté.
Mon amour n'a qu'un seul nom, qu'une seule forme.
Tout passe. Des bouches se collent à cette bouche.
Mon amour n'a qu'un nom, qu'une forme.
Et si quelque jour tu t'en souviens
Ô toi, forme et nom de mon amour,
Un jour sur la mer entre l'Amérique et l'Europe,
À l'heure où le rayon final du soleil se réverbère sur la surface ondulée des vagues, ou bien une nuit d'orage sous un arbre dans la campagne, ou dans une rapide automobile,
Un matin de printemps boulevard Malesherbes,
Un jour de pluie,
À l'aube avant de te coucher,
Dis-toi, je l'ordonne à ton fantôme familier, que je fus seul à t'aimer davantage et qu'il est dommage que
tu ne l'aies pas connu.
Dis-toi qu'il ne faut pas regretter les choses: Ronsard avant moi et Baudelaire ont chanté le regret des vieilles et des mortes qui méprisèrent le plus pur amour,
Toi, quand tu seras morte,
Tu seras belle et toujours désirable.
Je serai mort déjà, enclos tout entier en ton corps immortel, en ton image étonnante présente à jamais parmi les merveilles perpétuelles de la vie et de l'éternité, mais si je vis
Ta voix et son accent, ton regard et ses rayons,
L'odeur de toi et celle de tes cheveux et beaucoup d'autres choses encore vivront en moi,
En moi qui ne suis ni Ronsard ni Baudelaire,
Moi qui suis Robert Desnos et qui, pour t'avoir connue et aimée,
Les vaux bien.
Moi qui suis Robert Desnos, pour t'aimer
Et qui ne veux pas attacher d'autre réputation à ma mémoire sur la terre méprisable.

Robert Desnos


Não, o amor não morreu

Não, o amor não morreu neste coração e nestes olhos e nesta boca
que proclamaram o começo de seus funerais.
Escutem, estou nauseado do pitoresco e das cores
e do encanto.
Amo o amor, sua ternura e sua crueldade.
Meu amor tem um só nome, uma só forma.
Tudo passa. Bocas se colam a esta boca.
E se qualquer dia recordares -
Ah tu, forma e nome do meu amor, -
Um dia sobre o mar entre América e Europa,
Na hora em que os últimos raios de sol reverberarem sobre a superfície
crespa das vagas, ou então numa noite de tempestade sob uma árvore do
interior, ou dentro de um carro veloz,
numa manhã de primavera no Bulevar Malesherbes,
dia de chuva,
de manhã antes de deitares,
diz, ordeno a teu fantasma familiar, que fui o único que te amou
mesmo, e que desgraçadamente não o reconheces.
Repete: não se deve arrepender das coisas: Ronsard antes de mim e
Baudelaire disseram do arrependimento de velhas e defuntas que
desprezaram o amor mais puro.
Tu, quando estiveres morta,
Serás bela e sempre desejável.
E eu já estarei morto, todo envolto em teu corpo imortal, e tua
imagem fascinante sempre presente entre as maravilhas perpétuas
da vida e da eternidade, mas e se sinto
tua voz e seus acentos, tua aparência e seus raios,
teu cheiro e o de teus cabelos e um bocado de outras coisas
ainda vivas em mim,
em mim que não sou nem Ronsard nem Baudelaire,
em mim que sou Robert Desnos, que por te ter conhecido e amado
tanto se me dá.
Em mim que sou Robert Desnos, só para te amar
e que não quero somar outra honra à minha memória sobre a
terra desprezível.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Por quem o pranto das capideiras: Wright


Sergio Asti, 1968




A Dream of Burial

Nothing was left of me
But my right foot
And my left shoulder.
They lay white as the skein of a spider floating
In a field of snow toward a dark building
Tilted and stained by the o wind.
Inside the dream, I dreamed on.

A parade of old women
Sang softly above me,
Faint mosquitoes near still water.

So I waited, in my corridor.
I listened for the sea
To call me.
I knew that, somewhere outside, the horse
Stood saddled, browsing in grass,
Waiting for me.

James Wright


Um Sonho com Velório

Nada me sobrou
Além de pé direito
E ombro esquerdo.
Eles jazem alvos como o vime de uma aranha flutuando
De um campo de neve a um prédio escuro
Enristado e encardido pelo vento.
Por dentro o sonho, que sonhei.

Um cortejo de mulheres idosas
Cantava suave acima.
Vagos mosquitos sobre água parada.

E eu esperava, no corredor.
Escutava o mar
Me chamar.
Sabia que, ali por fora, o cavalo
Selado ruminava a relva
À minha espera.

Borramento em um conto de fadas: Ashbery


Giorgio de Chirico, 1915



Thoughts of a Young Girl

‘It is such a beautiful day I had to write you a letter
From the tower, and show I’m not mad:
I only slipped on the cake of soup of the air
And drowned in the bathtub of the world.
You were you good to cry much over me.
And now I let you go. Signed, The Dwarf.’

I passed by late in the afternoon
And the smile still played about her lips
As it has for centuries. She always knows
How to be utterly delightful. Oh my daughter,
My sweetheart, daughter of my late employer, princess,
May you not be long on the way!

John Ashbery


Pensamentos de uma Moçoila

'O dia está tão bonito que tenho de lhe escrever uma carta
Aqui da torre e provar que não estou doido:
Apenas escorreguei na barra de sabão do ar
E submergi na banheira do mundo.
Você era boa demais para chorar por mim.
E então vou lhe deixar partir. Assinado, O Duende!'

Agonizei ao fim da tarde
E o sorriso ainda brincava nos lábios dela
Como tem sido há séculos. Ela sempre sabe
O modo de ser um rematado encanto. Ah, minha filha,
Minha amada, filha de meu finado empregador, princesa.
Que você não demore na estrada!



Nota – a tela de De Chirico, que é um dos pintores favoritos de Ashbery, intitula-se “Divertimentos de uma moçoila”. E note que também possui uma torre. "Ut pictura Poesis"? Pois sim. Ashbery, a exemplo de O’Hara trabalhou na revista Art News e vem mantendo renovado interesse por artes plásticas.

domingo, 22 de abril de 2007

Embrulhado como panettone: Lowell


Milton Avery, 1958




Sailing Home from Rapallo
[February 1954]

Your nurse could only speak Italian,
but after twenty minutes I could imagine your final week,
and tears ran down my cheeks...

When I embarked from Italy with my Mother’s body,
the whole shoreline of the Golfo di Genova
was breaking into fiery flower.
The crazy yellow and azure sea-sleds
blasting like jack-hammers across
the spumante-bubbling wake of our liner,
recalled the clashing colors of my Ford.
Mother traveled first-class in the hold;
her Risorgimento black and gold casket
was like Napoleon’s at the Invalides....

While the passengers were tanning
on the Mediterranean in deck-chairs,
our family cemetery in Dunbarton
lay under the White Mountains
in the sub-zero weather.
The graveyard’s soil was changing to stone—
so many of its deaths had been midwinter.
Dour and dark against the blinding snowdrifts,
its black brook and fir trunks were as smooth as masts.
A fence of iron spear-hafts
black-bordered its mostly Colonial grave-slates.
The only “unhistoric” soul to come here
was Father, now buried beneath his recent
unweathered pink-veined slice of marble.
Even the Latin of his Lowell motto:
Occasionem cognosce,
seemed too businesslike and pushing here,
where the burning cold illuminated
the hewn inscriptions of Mother’s relatives:
twenty or thirty Winslows and Starks.
Frost had given their names a diamond edge...

In the grandiloquent lettering on Mother’s coffin,
Lowell had been misspelled LOVEL.
The corpse
was wrapped like panettone in Italian tinfoil.

Robert Lowell


Voltando de Rapallo por Mar
[Fevereiro, 1954]

A enfermeira só falava italiano,
Mas em vinte minutos pude imaginar as últimas semanas,
E lágrimas escorreram à face...

Quando embarquei na Itália com o corpo de minha mãe,
Todo o litoral do Golfo de Genova
Rompia-se em fogosas flores.
Os doidos amarelos e celestes malhos-de-mar
Tinindo como britadeiras ao longo
Do borbulha-espumante rastro do navio
Lembravam as cores berrantes do meu Ford.
Mamãe viajava de primeira classe no porão;
Seu casquete do Risorgimento preto e áureo
Era como Napoleão nos Inválidos...

Enquanto passageiros bronzeavam
No Mediterrâneo em espreguiçadeiras,
O cemitério de nossa família em Dunbarton
Jazia sob as Montanhas White
Em temperatura abaixo de zero.
O solo do cemitério empedrava-se—
Tantas foram as mortes inverno a meio.
Severo e sombrio contra a ofuscante corrente de neve,
Seu arroio negro e troncos de abeto eram macios como mastros.
Uma cerca de ferro em ponta-de-lança
Ladeava em negro as lápides mais coloniais,
A única alma “a-histórica” a vir ali foi
o Pai, agora enterrado sob o recente
mármore rosa-venado, sem marcas de tempo.
Mesmo o latim do lema dos Lowell:
“Ocasionem Cognosce”,
Soava um tanto mercantil e deslocado ali,
Onde o frio abrasivo iluminava
As sepulturas rachadas dos parentes de Mamãe:
Vinte ou trinta Winslows e Starks.
A nevasca deu a seus nomes uma borda diamante...

Nas letras grandiloqüentes sobre o caixão de Mamãe,
Lowell grafara-se em gralha por LOVEL.
O corpo fora embrulhado como panettone em papel de estanho >italiano.




Nota – ‘Risorgimento’ [1E. –v.9], indica o período da reunificação italiana, que começou a ganhar fermento após 1815. ‘Os Inválidos’ (ou ‘Les Invalides’)[1E, v.10] – famoso distrito parisiense, que consiste num conjunto de museus e monumentos além de um amplo hospital. É onde estão enterrados os militares franceses de destaque. O mais conhecido dos quais é Napoleão Bonaparte, que está sepultado na cripta da Igreja dos Inválidos.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Uma observação astronômica: Mark Strand


Henri Rousseau, 1897




From the Long Sad Party

Someone was saying
something about shadows covering the field, about
how things pass, how one sleeps towards morning
and the morning goes.

Someone was saying how
the wind dies down but comes back,
how shells
are the coffins of wind
but the weather continues.

It was a long night
and someone said something about the moon shedding its
white
on the cold field, that there was nothing ahead
but more of the same.

Someone mentioned
a city she had been in before the war,
a room with two
candles against a wall, someone dancing, someone watching.
We began to believe

the night would not end.
Someone was saying the music was over and no one had
noticed.
Then someone said something about the planets,
about the
stars, how small they were, how far away.

Mark Strand


Da Longa Festa Triste

Alguém dizia
algo sobre sombras escondendo um campo, sobre
como tudo passa, como se dorme até de manhã
e a manhã segue.

Alguém dizia de como
o vento desmaia mas retrocede,
de como conchas
são os esquifes do vento
mas o tempo prossegue.

Era uma longa noite
e alguém disse algo sobre a lua vazando seu
claro
no campo frio, que não estava nada adiante
mas bem aqui.

Alguém mencionou
uma cidade em que esteve,
um quarto com duas
velas contra uma parede, alguém dançando, alguém reparando.
Começamos a crer

que noite não teria fim.
Alguém dizia que a música acabara, e ninguém
notou.
Então alguém disse algo sobre os planetas,
sobre as
estrelas, de como eram miúdos, de como distavam.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Duas versões para o mesmo apressado trem de MacCaig.


George Barnard, 1866



London to Edinburgh

I'm waiting for the moment
when the train crosses the Border
and home creeps closer
at seventy miles an hour.

I dismiss the last four days
and their friendly strangers
into the past
that grows bigger every minute.

The train sounds as urgent as I am,
it says home and home and home.
I light a cigarette
and sit smiling in the corner.

Scotland, I rush towards you
into my future that,
every minute,
grows smaller and smaller.

Norman McCaig


De Londres a Edimburgo

Estou esperando o momento
quando o trem cruza a fronteira
e mais perto de casa rasteja
a cem quilômetros por hora.

Descarto os quatro últimos dias
e a hospedagem estrangeira
para um passado
que a cada minuto se amplia.

O trem soa a minha urgência,
ele diz casa, casa e casa
acendo um cigarro
e na curva sorrio na cadeira.

Escócia, para você eu me apresso
para o meu futuro que
a cada minuto
decresce na dianteira.

Virna Teixeira


De Londres a Edimburgo

Aguardo o momento
do trem cruzar a fronteira
e na rasteira vir a casa
a setenta milhas por hora.

Dispenso os quatro últimos dias,
os simpáticos forasteiros
mando ao passado,
que cresce a cada minuto.

O trem soa urgente como eu,
ele diz casa e casa e casa.
Acendo um cigarro
e sento sorrindo ao canto.

Escócia, precipito-te
para meu futuro que,
a cada minuto,
é menor e menor adiante.

Ruy Vasconcelos

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Tudo que o pesado recesso do escuro objeta: Tomlinson


Maya Deren, 1943




Knowledge

I want the knowledge of the afternoon as it recedes
Up to the very edge of disappearance;
And all the space I see it passing through,
And all the time it takes for light
To linger out of its slow retreat from sight—
Tree after tree, roof after roof—
And sensing them present there, to feel
All that the charged recesses of the dark conceal.

Charles Tomlinson


Conhecimento

Eu quero o conhecimento da tarde que reflui
Para a margem mesma do sumiço;
E por todo o espaço a vejo atravessar,
E quanto de tempo ela toma por luz
A demarcar sua lenta retirada dos olhos—
Árvore após árvores, teto após teto—
E percebendo-lhes a presença ali, sentir
Tudo que o pesado recesso do escuro objeta.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Perda e devaneio num álbum de família: Lowell


Édouard Vuillard, 1894



For Sale

Poor sheepish plaything,
organized with prodigal animosity,
lived in just a year—
my Father’s cottage at Beverly Farms
was on the market the month he died.
Empty, open, intimate,
its town-house furniture
had an on tiptoe air
of waiting for the mover
on the heels of the undertaker.
Ready, afraid
of living alone till eighty,
Mother mooned in a window,
as if she had stayed on a train
one stop past her destination.

Robert Lowell


À venda

Brinquedo mais acanhado,
preparado com pródiga animosidade,
durou só um ano—
o chalé de meu pai em Beverly Farms
foi a mercado no mês de sua morte.
Vazio, aberto, íntimo,
a mobília de prefeitura
na ponta dos pés
esperava pelo proponente
no calcanhar do agente funerário.
Atenta, temerosa
de viver só até os oitenta,
mamãe sonhava à janela
como se estivesse num trem
uma parada após a dela.




Nota – num típico poema da dita ‘confessional poetry’, seu expoente máximo, Robert Lowell [1917-1977], entre outras, recorda o chalé do pai sendo rapidamente posto à venda após a morte deste. As famílias às quais o novo-inglês Lowell pertencia eram antiqüíssimas. Uma delas teria vindo no próprio Mayflower [o primeiro navio com puritanos a chegar na Baía de Plymouth, em 1620]. Lowell, escandalizou a família, ao, entre outras, converter-se ao catolicismo, após viver algum tempo no Sul [Louisianna]. Verdadeira heresia para esses velhos quakers de Massachussetts. Lowell era um habilidoso versejador em formas fixas. E foi um dos poetas mais apreciados pelo New Criticism. Conheceu enorme sucesso em vida, o que o fez amigo do casal Kennedy, p. ex. Livros como Lady Weary's Castle [1946] e Life Studies [1959] foram saudados como clássicos instantâneos. Esteve muito ligado por admiração mútua e amizade a Elisabeth Bishop - que, hoje, talvez seja mais lida que ele. Foi também um tradutor versátil. Há mesmo um volume seu chamado Imitations (Imitações, 1961), em que recria, a seu modo, peças de poetas europeus de sua preferência: Homero, Safo, Villon, Leopardi, Heine, Baudelaire, Rilke, Montale, Pasternak, entre outros. Trata-se, de resto, de um belo volume, sempre listado entre os demais livros de poesia do autor.

domingo, 15 de abril de 2007

Depende, uma boa idéia nem sempre dá bons frutos: problemas na recepção da poesia de Robert Creeley no Brasil.


Jackson Pollock, 1948



Nota sobre Ceeley dois anos após sua morte


Ler Creeley em meados dos 80 foi descobrir uma poesia das possibilidades. Uma forma nova em uma mente aguda. Porém o que mais atrai em Creeley está longe de ser sua sintaxe errática, randômica, desorientada – ou seja, o ingrediente de mais apelo a poetas brasileiros de ouvidos menos apurados. Lembremos que essa sintaxe é derivativa. Sobrevem do modo como Creeley, na esteira de Williams, às vezes escreve roçando a fala. O que atrai mais em Creeley é compressão, coloquialismo estilizado, aferição de percurso do pensamento e senso de abstração em processo. E é pontual sublinhar que, à exceção da compressão, há gente que realiza melhor cada um destes aspectos individualmente. O’Hara coloquializa com mais graça. Ashbery acompanha melhor o percurso do pensamento. Oppen tece um melhor abstrato da coisa tratada. Os livros de Creeley não têm prefácios. Ao menos prefácios delegados a outrem. Ou um esboço de contexto; contato. Pôr um prefácio a eles e seria o equivalente a reescrevê-los. Ou admitir um fracasso. Ou delegar-se a um terceiro. Esta última opção deveria soar terrível para Creeley. E não só porque trai o solipsismo de sua proposta. Mas pelo fechamento do caso. De uns tempos para cá, Creeley tem sido o poeta mais imitado – sobretudo em sua sintaxe – pelos brasileiros. E em equívoco, porque nenhum em meio a essa legião teve fôlego para agregar Creeley como um vetor de criatividade. Mas também porque ele é de difícil digestão num país que passou muito rápido da medida à poesia concreta sem senso de mesura. Ora, como assegura Williams, Creeley possui “o mais apurado sentido de medida que podemos encontrar por aí a exceção dos versos de Ezra Pound” (“The subtlest feeling for the measure that I encounter anywhere except in the verses of Ezra Pound”). Hoje é já possível vislumbrar que esse homem que sempre escreveu o mesmo poema talvez tenha uma obra excessivamente volumosa. Algo a pensar. Os heróis de Creeley são todos do alto-modernismo – Pound, Williams, Olson, Zukofsky e, no plano de idéias afins, Wittgenstein, mas também Benjamin, Bresson. Assim, muito embora Creeley tenha tentado reiventar-se, nos 60’ e nos 70’, a tentativa desandou porque, malgré lui, sua medida de dizer as coisas sempre foi mais resplandecente do que o que está sendo dito. O que implica em dizer rachando com o próprio lema de Creeley, apregoado por Olson na teoria do ‘verso projetivo’ [‘projective verse’, qual seja “a forma não é mais que uma extensão do conteúdo"] que há aqui uma falácia de argumento. Pois para Creeley a forma sempre foi mais que uma mera extensão de conteúdo. O trunfo da vez para a poesia brasileira – bastante avessa à idéia da forma, ou de uma arte “fria” – teria sido apreendê-lo pelo seu estilo mais do que pelo que vai declarado. Sintaxe é ordem de declaração. Passam os anos. E, no Brasil, esse importante poeta é muito mais assaltado pela diluição que reconhecido pela idéia.


Nota – há alguns poemas de Creeley bem como outras tantas referências a ele postados em Afetivagem.

Um longo título, uma medida, uma preciosa linha ao fim: Wright


Walker Evans, 1936




Lying In A Hammock At William Duffy's Farm
In Pine Island, Minnesota


Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year's horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

James Wright


Deitado Numa Rede Na Fazenda William Duffy
Em Pine Island, Minnesota

Acima da cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Florescendo como uma folha em sombra verde.
Ravina abaixo ao pé da casa vazia,
Os chocalhos de vaca sucedem-se
Pelas distâncias da tarde.
À minha direita,
Num campo, réstias entre dois pinhos,
O esterco dos cavalos do passado ano
Rebrilham feito pepitas.
Reclino-me de novo, enquanto a noite ameaça e chega.
Um filhote de falcão paira, buscando abrigo.
Desperdicei minha vida.




Nota – James Wright [1827-1980] foi um dos poetas que melhor plasmou a atmosfera rural dos Estados Unidos no séc. XX. Wright foi também um importante tradutor do espanhol e do alemão. Ao abandonar parcialmente formas fixas e rimadas que dominava com maestria, publicou em 1963 seu livro mais seminal: The Branch Will Not Break [O Galho Não Quebrará], lançando mão de medidas mais livres. Wright foi quase uma exceção numa época de alinhamentos a grupos poéticos e devoção irrestrita ao verso livre [free verse], pois mesmo em seu “verso livre” pode-se pressentir a justeza da medida. Em geral, é alinhado, junto com Robert Bly, W.S. Merwin, Jerhome Rothenberg e outros sob o rótulo de Deep Image. Foi leitor e tradutor entusiasta do poeta peruano César Vallejo, bem como tradutor de Trakl e Rilke. Possuía um estilo tão próprio que é quase indelicado dizer que adotou, no início da carreira, algumas sugestões de Theodor Roethke, de quem foi aluno. Seu melhor universo centra-se no condado em que nasceu, Martin’s Ferry, Ohio. Há um outro poema de Wright em Afetivagem ["Rain"]. Bem como um de Roethke ["Elegy to Jane"].

Mente e corpo são quase um: Levertov


Barbara Probst, 2005




Bedtime

We are a meadow where the bees hum,
mind and body are almost one

as the fire snaps in the stove
and our eyes close,

and mouth to mouth, the covers
pulled over our shoulders,

we drowse as horses drowse afield,
in accord; though the fall cold

surrounds our warm bed, and though
by day we are singular and often lonely.

Denise Levertov


Deitados

Somos prados onde abelhas zunem,
mente e corpo quase se unem

como o fogo crepita na estufa
e nosos olhos surfam,

e boca à boca, as cobertas
sobre os ombros abertas,

no campo como cavalos com sono
acordamos; embora o frio do outono

cerque nosso leito quente, e na trilha
do dia sigamos únicos e muito sozinhos.

sábado, 14 de abril de 2007

E 'Ut Picura Poesis' É O Nome Dela: Ashbery


Pablo Picasso, 1913




And Ut Pictura Poesis Is Her Name

You can’t say it that way any more.
Bothered about beauty you have to
Come out into the open, into a clearing,
And rest. Certainly whatever funny happens to you
Is OK. To demand more than this would be strange
Of you, you who have so many lovers,
People who look up to you and are willing
To do things for you, but you think
It’s not right, that if they really knew you . . .
So much for self-analysis. Now,
About what to put in your poem-painting:
Flowers are always nice, particularly delphinium.
Names of boys you once knew and their sleds,
Skyrockets are good—do they still exist?
There are a lot of other things of the same quality
As those I’ve mentioned. Now one must
Find a few important words, and a lot of low-keyed,
Dull-sounding ones. She approached me
About buying her desk. Suddenly the street was
Bananas and the clangor of Japanese instruments.
Humdrum testaments were scattered around. His head
Locked into mine. We were a seesaw. Something
Ought to be written about how this affects
You when you write poetry:
The extreme austerity of an almost empty mind
Colliding with the lush, Rousseau-like foliage of its desire to communicate
Something between breaths, if only for the sake
Of others and their desire to understand you and desert you
For other centers of communication, so that understanding
May begin, and in doing so be undone.

John Ashbery


E Ut Pictura Poesis É Seu Nome

Não se pode mais dizer desse jeito.
Incomodado pela beleza se tem de
Ir para fora, até uma clareira
E repousar. Bem, o que acontecer de engraçado
Está OK. Demandar mais que isso seria estranho
De você. De você que tem tantos amantes,
Gente que olha e quer
Logo lhe servir, mas você acha
Que não está certo, que se de fato lhe conhecessem...
Tanta auto-análise. Então,
O que pôr no seu poema-pintura:
Flores são sempre belas, o delfínio em particular.
Nomes de meninos que se conheceu um dia e seus trenós,
Foguetes são bons—será que ainda existem?
Há um monte de outras coisas da mesma espécie
Das que mencionei. Então se pode
Achar umas poucas palavras importantes, outras contidas,
Cacofônicas. Ela aproximou-se querendo
Vender-me sua escrivaninha. Súbito a rua era
Bananas e o tinir de instrumentos japoneses.
Enfadonhos testamentos espalhavam-se por aí. A cabeça dele
Lacrada à minha. Éramos uma gangorra. Algo
Deve ser escrito do quanto isso lhe afeta
Quando você escreve poesia:
A extrema austeridade de uma mente quase vazia
Colidindo com a vistosa folhagem à Rousseau do desejo de comunicar
Algo entre fôlegos, ao menos por conta
Dos outros e do desejo deles de lhe entender ou lhe desertar
Em prol de outros centros de comunicação, de modo que o >entendimento
Possa começar, e em assim sendo se desfaça.




Nota – ‘Ut pictura poesis’ é a célebre fórmula do poeta latino Horácio que trata da relação entre pintura e poesia [e significa justamente ‘assim na imagem como na poesia’; ou ‘assim no quadro como na palavra’, und so weiter]. Conta-se que, pelas inusitadas imagens, a intrincada linguagem, e as associações imprevistas, John Ashbery ao ler este poema tinha que aguardar mais de uma vez que a platéia se refizesse das gargalhadas. De que trata? Entre outras, dos limites da representação, da linguagem. Para mais poemas de Ashbery em Afetivagem, busque acima à esquerda: 'pesquisar blog'.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Um mais estranho poema de amor na Via Láctea: Oppen


Odilon Redon, 1914





Who Shall Doubt
consciousness

in itself

of itself carrying

'the principle
of the actual' being

actual

itself ((but maybe this is a love
poem

Mary) ) nevertheless

neither

the power
of the self nor the racing
car nor the lilly

is sweet but this

George Oppen

Quem Duvida

consciência

em si

para si portando

‘o princípio

do contingente’ ser

contingente

para si ((mas talvez isto seja um poema
de amor

Mary)) contudo

nem
o poder
do ser nem o bólido
nem o lírio

é tão suave quanto isto









George Oppen[1908-1984] – seu nome está ligado aos objetivistas de 30. Após uma viagem de visita a Pound publicou Séries Discretas (1934). Em seguida, preocupado com a opressiva pobreza dos Estados Unidos nos anos da Grande Depressão, Oppen largou a poesia pelo ativismo político de esquerda. Trabalhou como cortador de tecidos numa fábrica [“a vida deve ser vivida, a partir daí se tem o que escrever”]. Só voltou a escrever 28 anos depois, quando estava exilado na Cidade do México, fugindo da sanha mccartista. Conhecido por suas habilidades manuais e descaso diante da academia foi, paradoxalmente, leitor atento de Heidegger e da filosofia em geral. Seu volume Of Being Numerous [De Sermos Numerosos, 1968], um poema longo fragmentado e tanto abstrato, situado em Nova York, parece de algum modo antecipar certa atmosfera dos eventos de 11 de Setembro de 2001. Há outros poemas de Oppen traduzidos em Afetivagem. Aos interassados, basta tão-só usar a busca[Pesquisar Blog], acima à esquerda. Para mais sobre Oppen em português, clique AQUI.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Prendar, comprimir, condensar: Niedecker


Gerhard Heufler, 1996




Poet's Work


Grandfather
advised me:
Learn a trade

I learned
to sit at desk
and condense

No layoffs
from this
condensy

Lorine Niedecker


Ofício de Poeta

Meu avô
aconselhava:
Aprenda uma prenda

Aprendi
a sentar à mesa
e condensar

Suspensão
qualquer dessa
condensação





Lorine Niedecker [1903—1970] - poeta americana, morou a maior parte da vida numa cabana na ilha de Black Hawk, Wisconsin. Correspondeu-se copiosamente com Louis Zukofsky, Cid Corman, William Carlos Williams e George Oppen. Seu nome está vinculado aos objetivistas da década de 30, já que Zukofsky era seu mentor. O estilo de Niedecker tende ao miniatural – o que precede um tanto do minimalismo radical e espirituoso de um Creeley. Seu trabalho centra-se em dois conceitos: condensação e musicalidade.

Poesia é passatempo: Basil Bunting


Vasily Kandinsky, 1933




What the Chairman Told Tom

Poetry? It's a hobby.
I run model trains.
Mr. Shaw there breeds pigeons.

It's not work. You don’t sweat.
Nobody pays for it.
You could advertise soap.

Art, that's opera; or repertory--
The Desert Song.
Nancy was in the chorus.

But to ask for twelve pounds a week--
married, aren't you?--
you've got a nerve.

How could I look a bus conductor
in the face
if I paid you twelve pounds?

Who says it's poetry, anyhow?
My ten year old
can do it and rhyme.

I get three thousand and expenses,
a car, vouchers,
but I'm an accountant.

They do what I tell them,
my company.
What do you do?

Nasty little words, nasty long words,
it's unhealthy.
I want to wash when I meet a poet.

They're Reds, addicts,
all delinquents.
What you write is rot.

Mr. Hines says so, and he's a schoolteacher,
he ought to know.
Go and find work.

Basil Bunting


O Que o Gerente Disse a Tom

Poesia? É passatempo.
O meu são trens de brinquedo.
O Sr. Shaw ali cria pombos.

Não é sério. Não se sua.
Ninguém compra.
Anuncie sabão.

Arte é ópera; teatro—
A Canção do Deserto.
Nancy era do coro.

Mas doze libras semanais—
Casado, né?—
Você tem peito.

Como olhar um motorista
de ônibus na cara
se lhe pago doze?

Quem disse que é poesia, afinal?
As do meu garoto de dez
ainda rimam.

Tiro trezentos no bruto,
carro, garantias,
mas sou contador.

Fazem o que mando,
a empresa é minha.
E você?

Palavrinhas, palavronas,
uma insanidade.
Quero me lavar quando vejo um poeta.

São comunas, viciados,
uns delinqüentes.
O que você escreve é lixo.

O Sr. Hines diz isso e é professor,
sabe das coisas.
Vá, arranje emprego.





Basil Bunting [1900-1985] - poeta inglês, foi secretário de Pound em Rapallo. Depois marinheiro. Sob o encorajamento de Pound publicou seus primeiros poemas e tornou-se amigo de outro protegido do autor de The Cantos, o norte-americano Louis Zukofsky. Durante a II Guerra foi mandado para a Pérsia a serviço da RAF, país que o fascinou e de onde vem sua mulher. A necessidade de deixar a casa e de voltar para ela é um de seus temas obsessivos. Por viver distante do millieu, foi reconhecido tardiamente, mas com entusiasmo, em seu país. Bem, julgava que este poema fosse inédito em português. Engano. Pesquisando, dei com uma versão feita pelo poeta paulistano Nélson Ascher. Ela pode ser encontrada aqui: http://peledelontra.zip.net/arch2006-01-01_2006-01-07.html

quarta-feira, 11 de abril de 2007

O que virou a vida depois da tv: Ashbery


Lee Friedlander, 1966




My Philosophy of Life

Just when I thought there wasn't room enough
for another thought in my head, I had this great idea--
call it a philosophy of life, if you will. Briefly,
it involved living the way philosophers live,
according to a set of principles. Ok, but which ones?

That was the hardest part, I admit, but I had a
kind of dark foreknowledge of what it would be like.
Everything, from eating watermelon or going to the bathroom
or just standing on a subway platform, lost in thought
for a few minutes, or worrying about rain forests,
would be affected, or more precisely, inflected
by my new attitude. I wouldn't be preachy,
or worry about children and old people, except
in the general way prescribed by our clockwork universe.
Instead I'd sort of let things be what they are
while injecting them with the serum of the new moral climate
I thought I'd stumbled into, as a stranger
accidentally presses against a panel and a bookcase slides back,
revealing a winding staircase with greenish light
somewhere down below, and he automatically steps inside
and the bookcase slides shut, as is customary on such occasions.
At once a fragrance overwhelms him--not saffron, not lavender,
but something in between. He thinks of cushions, like the one
his uncle's Boston bull terrier used to lie on watching him
quizzically, pointed ear-tips folded over. And then the great rush
is on. Not a single idea emerges from it. It's enough
to disgust you with thought. But then you remember something
>William James
wrote in some book of his you never read--it was fine, it had the
>fineness,
the powder of life dusted over it, by chance, of course, yet
>still looking
for evidence of fingerprints. Someone had handled it
even before he formulated it, though the thought was his and
>his alone.

It's fine, in summer, to visit the seashore.
There are lots of little trips to be made.
A grove of fledgling aspens welcomes the traveler. Nearby
are the public toilets where weary pilgrims have carved
their names and addresses, and perhaps messages as well,
messages to the world, as they sat
and thought about what they'd do after using the toilet
and washing their hands at the sink, prior to stepping out
into the open again. Had they been coaxed in by principles,
and were their words philosophy, of however crude a sort?
I confess I can move no farther along this train of thought--
something's blocking it. Something I'm
not big enough to see over. Or maybe I'm frankly scared.
What was the matter with how I acted before?
But maybe I can come up with a compromise--I'll let
things be what they are, sort of. In the autumn I'll put up jellies
and preserves, against the winter cold and futility,
and that will be a human thing, and intelligent as well.
I won't be embarrassed by my friends' dumb remarks,
or even my own, though admittedly that's the hardest part,
as when you are in a crowded theater and something you say
riles the spectator in front of you, who doesn't even like the idea
of two people near him talking together. Well he's
got to be flushed out so the hunters can have a crack at him--
this thing works both ways, you know. You can't always
be worrying about others and keeping track of yourself
at the same time. That would be abusive, and about as much fun
as attending the wedding of two people you don't know.
Still, there's a lot of fun to be had in the gaps between ideas.
That's what they're made for! Now I want you to go out there
and enjoy yourself, and yes, enjoy your philosophy of life, too.
They don't come along every day. Look out! There's a big one...

John Ashbery


Minha Filosofia de Vida

Assim que pensei que não tinha mais espaço
para um outro pensamento na cabeça, tive essa grande idéia—
chame de filosofia de vida, se quiser. Em tempo,
consiste em levar uma vida como a dos filósofos,
de acordo com uma série de princípios. Ok, mas quais?

Essa é a parte mais dura, certo, mas eu tinha uma
espécie de nebuloso pressentimento do que ela seria.
Tudo, desde comer melancia ou ir ao banheiro
ou apenas ficar numa estação do metrô, no mundo da lua
por uns minutos, ou preocupar-se com as florestas tropicais
seria afetado, ou, mais precisamente, modificado
por minha nova atitude. Eu não seria rezingueiro
ou preocupado com as crianças e os velhos, exceto
da forma mais geral prescrita por nosso universo mecânico.
Em vez disso eu meio que deixaria as coisas serem como são
enquanto nelas injetasse o soro da nova atmosfera moral,
que eu achava que havia encontrado, como quando um estranho
pressiona acidentalmente um painel e uma estante abre-se
revelando uma escada em espiral com luzes esverdeadas
lá por baixo, e ele automaticamente entra no recinto
e a estante fecha-se, como é de uso nessas ocasiões.
E, de repente, um perfume o domina—nem açafrão, nem lavanda
mas algo a meio termo. Ele pensa em almofadas, como a que
o bull-terrier de seu tio em Boston costumava deitar-se olhando-o
zombeteiro, as pontas das orelhas dobradas. Então dá-se a grande
virada. Nem uma única idéia emerge. É o suficiente
para lhe indispor com o pensamento. Mas então, você lembra algo >que
>William James
escreveu em um de seus livros que você nunca leu—e era fino, >possuía a
finura do pó da vida espargido por sobre, por acaso, é claro, mas
ainda à busca da evidência de impressões digitais. Alguém >manipulara-o
antes de ele havê-lo formulado, embora o pensamento fosse dele
e só dele.

É bom no verão ir pro litoral.
Há uma série de viagens curtas a fazer.
Um bosque de emplumadas faias recebe o viajante. Perto
há os toaletes públicos onde peregrinos exaustos gravaram
seus nomes e endereços e, quem sabe, recados também,
recados para o mundo, enquanto sentavam
e pensavam no que fariam depois de usar o toalete
e lavar as mãos à pia, antes de cair
no mundo de novo. Será que eles foram persuadidos por princípios
e suas palavras eram filosofia, de um tipo assim mais grosseiro?
Eu confesso que não consigo seguir mais longe nessa linha de >pensamento—
algo bloqueia. Algo que não sou
grande o bastante para sobrepor a vista. Ou talvez me encontre >assustado.
Qual era mesmo a questão de como eu agia antes?
Mas talvez eu possa firmar um pacto—vou
deixar as coisas serem como são, lá sei. No outono vou guardar >geléias
e compotas, contra o frio e a futilidade do inverno,
e isso será algo humano, e inteligente também.
Não ficarei envergonhado pelos comentários estúpidos dos amigos,
ou mesmo meus, embora essa seja a pior parte
como quando se está num cinema lotado e algo que se diz
irrita o espectador à sua frente, que sequer gosta da idéia
de duas pessoas conversando perto dele. Ora, ele
deve ser evacuado, de modo que os cães de caça possam arrancar->lhe um pedaço—
essas coisas têm mão-dupla, sabe. Você não pode
cuidar sempre dos outros e achar seu paradeiro
ao mesmo tempo. Isso seria um abuso, e ao menos tão engraçado >quanto
ir ao casamento de duas pessoas que você não conhece.
É, há um mundo de graça que se tem entre o vão de duas idéias.
É para o que elas servem! Agora eu quero que você saia
e tire uma folga, e, claro, curta a sua filosofia de vida, também.
Não é fácil conciliar ambas todo dia. Olha só! Essa é boa...








Nota – este poema é ramatada farsa. Bastante coloquial. Semelha um daqueles longos monólogos nonsenses de Woody Allen em seus melhores momentos. [E, não custa lembrar, que, a exemplo de Allen, Ashbery é de Nova York e também judeu.] É, em parte, uma diatribe contra a sabedoria do senso-comum. Ou, ao menos, a do homem mediano vivendo numa metrópole, muito exposto à mídia, à tv, etc. Ou ainda aproxima-se do discurso que um paciente faria para um analista. Ou, imaginando uma situação mais tétrica, o contrário. Bem podíamos ver parte dessa formulação, por exemplo, na boca de um personagem de reality show. Não, não. Pensando bem, mesmo esse corolário de asneiras engatadas seria demais para um participante de Big Brother. A ervilha germina. Certos cérebros vegetam. [E, como de uso, pelas limitações do editor de texto, o símbolo ">" indica a continuidade do verso.]

terça-feira, 10 de abril de 2007

Se estiver escuro quando isto lhe for dado: Creeley


Marc Chagall, 1942



A Form of Women

I have come far enough
from where I was not before
to have seen the things
looking in at me from through the open door

and have walked tonight
by myself
to see the moonlight
and see it as trees

and shapes more fearful
because I feared
what I did not know
but have wanted to know.

My face is my own, I thought.
But you have seen it
turn into a thousand years.
I watched you cry.

I could not touch you.
I wanted very much to
touch you
but could not.

If it is dark
when this is given to you,
have care for its content
when the moon shines.

My face is my own.
My hands are my own.
My mouth is my own
but I am not.

Moon, moon,
when you leave me alone
all the darkness is
an utter blackness,

a pit of fear,
a stench,
hands unreasonable
never to touch.

But I love you.
Do you love me.
What to say
when you see me.

Robert Creeley


Uma Forma de Mulheres

Eu vim de muito longe
de onde não estive antes
para ver as coisas
mirando-me pela porta errante

e caminhei à noite
sozinho
para ver o luar
e vê-lo como árvores

e vultos mais terríveis
porque temia
o que não sabia
mas queria saber.

Meu rosto é o meu, pensei.
Mas você o viu
transtornado em mil anos.
Eu lhe vi chorar.

Não pude tocá-la.
Quis muito
tocá-la
mas não pude.

Se estiver escuro
quando isto lhe for dado,
tenha cuidado com seu conteúdo
quando a lua brilhar.

Meu rosto é o meu.
Minhas mãos são as minhas.
Minha boca é a minha
mas eu não sou.

Lua, lua,
quando me deixas só
todo escuro é
rematado breu,

um poço de medo,
um fedor,
mãos imponderáveis
nunca para tocar.

Mas eu te amo
e você a mim.
Que dizer
quando você me vê.

Um duplo critério para almas: Creeley


Walker Evans, 1936



After Lorca

For M. Marti

The Church is a business, and the rich
are the business men.
When they pull on the bells, the
poor come pilling in and when a poor man dies, he has a wooden
cross,
and they rush through the ceremony.

But when a rich man dies, they
drag out the Sacrament
and a golden Cross, and go doucement, doucement
to the cemetery.

And the poor love it
and think it's crazy.

Robert Creeley


Depois de Lorca

para M. Marti

A Igreja é uma firma, e os ricos
os empresários.
Quando eles puxam os sinos, os
pobres acorrem e, quando morre um pobre, ele tem uma
cruz
de madeira, e eles apressam a cerimônia.

Mas quando morre um rico, eles
arrastam o Sagrado
e uma Cruz de ouro, e seguem doucement, doucement
até o cemitério.

E os pobres adoram
e acham o máximo.

Mesmo que pareça (note!) um desastre: Bishop


Wols (A. O. Wolfgang Schulze), 1946-47




One Art


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

Uma Arte

A arte de perder não é de difícil lastro;
certas coisas parecem tão prenhes de perda
que perdê-las não constitui nenhum desastre.

Perca um pouco a cada dia. Aceite o arrasto
do molho de chaves perdido, a hora mal gasta.
A arte de perder não é de difícil lastro.

Então teste perder mais longe, mais rastros:
lugares, nomes, o destino onde pensou passar
as férias. E nada disso pressupõe desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E, ah, que impacto!,
a última ou penúltima das três casas que amei.
A arte de perder não é de difícil lastro.

Perdi duas cidades, que belas. E, mais vasto,
algumas terras, dois rios, um continente,
que saudade, mas não chega a ser desastre.

―Mesmo perder você (anedota na voz, gesto
que adoro) não deve enganar-me. Pois é claro
que a arte de perder não é de tão difícil lastro,
mesmo que pareça (note!) um desastre.







Nota- este é possivelmente um dos mais notáveis e amados poemas em língua inglesa escritos no séc.XX. Extensamente traduzido, tanto no Brasil quanto em Portugal. No Brasil, a versão mais conhecida é a do poeta carioca Paulo Henriques Britto. Não resisti à tentação de traduzi-lo. Originalmente esta versão foi publicada, com uma pequena variação, no Papel de Rascunho, de Virna Teixeira, em 17.01.2006.

O tumulto no coração mantém perguntas: Bishop


Marcel Duchamps, 1912




Conversation

The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.

Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only half-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;

until a name
and all its connotation are the same.

Elizabeth Bishop


Conversa

O tumulto no coração
mantém perguntas.
E então estaca e aceita responder
no mesmo tom de voz.
Ninguém pode dizer a diferença.

Culpadas, essas conversas começam,
e então engatam os sentidos,
tão-só a meio sentido de.
E então não tem escolha,
e então não faz sentido;

até um nome
e toda sua conotação serem o mesmo.




Nota- embora tenha me educado para admirar uma vertente de poesia [Pound, Williams, Creeley, Language Poets, e, em outro registro, O’Hara, Ashbery et all] completamente distinta, acho Bishop uma poeta maravilhosa. Este poema, por exemplo, só pode ter sido escrito por alguém que conhece ou um dia sonhou conhecer a poesia em português. Não a moderna. Mas a do 'Quinhentos' – que, para mim, ainda é, de longe, a mais elevada, a mais sublime. Há neste poema, de modo simples e esplêndido, impresso como um selo, nítido como seixos debaixo da água mais translúcida, algo de Camões, e, sobretudo, de Sá de Miranda – o primeiro a cultivar o soneto em Portugal [em simultâneo ao que fizeram Juan Boscán e Garcilaso de la Vega em Espanha]. Uma sensibilidade sul-européia, uma medida [que é a do decassílabo fracionado], uma sentimentalidade portuguesa, uma saudade, que são completamente alheias à sensibilidade do Norte da Europa. E atingir isso através do inglês! Ah, meus camaradas, não é brincadeira!

A falta que a música faz: Elisabeth Bishop


John Cage, 1961



I Am in Need of Music

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling fingertips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.

Elizabeth Bishop


Ando Precisada de Música

Ando precisada de música que deflua
Sobre meus dedos irritados, sensíveis,
Sobre meus lábios bronzeados, flexíveis,
Com profunda melodia, clara e lenta grua.
Ah, a lenitiva ginga, lenta e crua,
De uma canção para acalmar os fartos mortos,
Uma canção caindo como água sobre os corpos
Crispando braços, sonho que à chama se gradua!

Há uma mágica feita pela melodia:
Um feitiço dolente, e fôlego quieto, e frio
Peito, que mergulha fundo por murcha cor
Para a subaquática calma da baía,
E flutua sempiterno num lago lunar-frágil,
Nos braços do ritmo e do torpor.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Se a vida é arrastada à proeminência por semi-poetas, o resultado é semi-poesia: Moore


Max Ernst, 1920




Poetry

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
discovers in
it after all, a place for the genuine.
Hands that can grasp, eyes
that can dilate, hair that can rise
if it must, these things are important not because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
they are
useful. When they become so derivative as to become
unintelligible,
the same thing may be said for all of us, that we
do not admire what
we cannot understand: the bat
holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
wolf under
a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
that feels a flea, the base-
ball fan, the statistician--
nor is it valid
to discriminate against "business documents and

school-books"; all these phenomena are important. One must make
a distinction
however: when dragged into prominence by half poets, the
result is not poetry,
nor till the poets among us can be
"literalists of
the imagination"--above
insolence and triviality and can present

for inspection, "imaginary gardens with real toads in them,"
shall we have
it. In the meantime, if you demand on the one hand,
the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
genuine, you are interested in poetry.

Marianne Moore


Poesia

Eu, também, desgosto dela: há coisas que importam para além
de todo esse ramerrão.
Lendo-a, no entanto, em perfeita aversão, pode-
se perceber nela,
enfim, um lugar para o genuíno.
Mãos que apertam, olhos
que se dilatam, cabelos que crispam
se preciso, essas coisas são importantes não porque uma

interpretação sonoro-esmerada pode vesti-las mas porque
são
úteis. Quando tornam-se tão secundárias ao ponto de
ininteligíveis,
o mesmo pode ser dito de nós, que
não admiramos o que
não conseguimos entender: o morcego
pendendo de cabeça para baixo ou atrás de algo para

comer; elefantes arremetendo; o rodopio do cavalo selvagem, um
infatigável lobo atrás
da árvore, impassível crítico contraindo a pele como um cavalo
ante uma mosca, o fã de base-
ball, o estatista
nem vale
discriminá-los ante “papéis de negócio e

manuais escolares”; todos esses fenômenos são importantes. Mas há que fazer uma distinção,
no entanto: quando arrastados à proeminência por semi-poetas,
o resultado não é poesia
ao menos até que os poetas entre nós sejam
“literalistas da
imaginação”—acima
da insolência e da trívia e possam apresentar para

inspeção, “jardins imaginários com sapos reais”,
que apre-
endemos. Nesse ínterim, se se busca numa mão
a matéria prima da poesia em
toda sua crueza e
aquilo que na outra mão é
genuíno, se está interessado em poesia.

Digressão sobre papéis em resposta ao Prof. Ludovico


anon., s/d


Um leitor chamado Ludovico, talvez o Prof. Ludovico, mestre do Prof. Pardal, me perguntou se 'straw-paper' é mesmo papel-de-arroz, porque diz ele que achou bonito no contexto de uma tradução. [Ver a tradução do poema ‘Gray Room’, de Wallace Stevens, postada em 06.04.]

Bom, a rigor, a rigor, não é. Certamente nem temos um equivalente imediato para 'straw-paper'. Trata-se de um papel artesanal, levemente corrugado, que pode ser utilizado para diversos propósitos, inclusive decorativos. Como fosse um papel reciclado. Só que dos menos encorpados. Então, a rigor não é 'papel-de-arroz'. Papel-de-arroz é fino demais, semelhante ao papel de seda, aquele de enrolar cigarros ou ao papel manteiga ou ao papel bíblia. Agora, convenhamos, cá entre nós, que papel-de-arroz fica mais bonito [inclusive no ouvido], dentro do contexto do poema. E a inverdade não é assim tão grande, já que o papel-de-arroz pode, por igual, ser artesanal – e o tal ‘straw-paper’ é papel artesanal dos mais finos. E o papel-de-arroz pode também ser decorativo. Deve-se lembrar, Prof. Ludovico, que a missão do artista - e mesmo a de um artesão modesto como o tradutor - não é copiar servilmente a realidade. Para tanto existem os políticos ou a máfia ou os traficantes de drogas ou os homi ou os publicitários ou o presidente dos Estados Unidos. Ou então, os maus jornalistas. [para saber mais a respeito: o ensaio 'Der Erzhäler' ('O Narrador'), de Walter Benjamin]. De outra forma, os conceitos às vezes enganam. O que em inglês se entende por 'palha' [straw] é, strictu-sensu, algo bem diverso do que nós, nos trópicos, entendemos. Se fôssemos dizer a eles que a nossa 'palha' é de folhas de palmeiras, coqueiros, ou de fibras vegetais como o tucum, a juta ou o sisal, a maioria iria achar muito exótico e curioso. Isto porque a palha deles vem dos cereais: trigo, aveia, cevada, etc. O q. há de comum entre ambas é a cor [o amarelo esmaecido] e o fato de serem resíduos vegetais. É isto. Acima, de qualquer modo, Prof. Ludovico e demais leitores, vocês podem ver como é o 'straw-paper’. O exemplar em questão é feito a partir do trigo.
Saudações, Ludovico!

Relação da Virgínia --- o poema como crônica histórica ou história crônica: Resnikoff


André Bauchant, 1926





The English in Virginia, April 1607

They landed and could
see nothing but
meadows and tall
trees—
cypress, nearly three
fathoms about at the
roots,
rising straight for
sixty or eighty feet
without branch.
In the woods were
cedars, oaks, and
walnut trees;
some beech, some elm
black walnut, ash,
and sassafras; mul-
berry trees in
groves;
honey-suckle and
other vines hanging
in clusters on
many trees.
They stepped on
violets and other
sweet flowers,
many kind in many
colors; straw-
berries and rasp-
berries were on
the ground.
Blackbirds with red
shoulders were
flying about
and many small birds,
some red, some blue;
the woods were full of deer;
and running
everywhere
fresh water—
brooks, rundles,
springs and creeks.
In the twilight,
through the thickets
and tall grass,
creeping upon all
fours—the
savages, their
bows in their
mouths

Charles Resnikoff

Baseado na obra do Capitão John Smith,
Edited by Edward Arber. [Nota de Resnikoff]



Os Ingleses na Virgínia, Abril 1607

Eles desembarcaram e não
viram nada além de
prados e altas
árvores—
ciprestes, quase três
braças de espessura nas
raízes,
erguendo-se retos por
sessenta ou oitenta pés
sem galhos.
Nas matas havia
cedros, carvalhos e
nogueiras,
umas faias, uns olmos
nogueira negra, freixos,
e sassafrás; pés de
amora em
bosques;
madressilva e outras
vinhas pendendo em
cachos de
muitas árvores.
Toparam com
violetas e outras
flores fragrantes,
muitos tipos em muitas
cores; mo-
rangos e fram-
boesas restavam
no solo.
Melros com dorsos
rubros voa-
vam à volta
e muitos sibitis,
uns rubros, outros azuis;
a mata estava cheia de cervos;
correndo
por tudo
água fresca—
ribeiros, arroios,
nascentes e riachos.
No ocaso,
pelas moitas
e capim alto,
rastejando de
quatro—os
selvagens, com os
arcos nas
bocas.

Os óculos de Heidegger nos olhos de Oppen


Louis Lumiére, 1895


Sara in Her Father’s Arms

Cell by cell the baby made herself, the cells
Made cells. That is to say
The baby is made largely of milk. Lying in her father’s arms,
the little seed eyes.
Moving, trying to see, smiling for us
To see, she will make a household
To her need of these rooms—Sara little seed,
Little violent, diligent seed. Come let us look at the world
Glittering: this seed will speak. What will she make of a world
Do you suppose, Max, of which she is made.

George Oppen

Sara nos Braços do Pai

Célula a célula a bebê se faz, as células
Fazem células. Noutras palavras
A bebê é feita sobretudo de leite. Deitada nos braços do pai,
olhinhos de semente.
Movendo-se, tentando ver, sorrindo-
Nos, ela irá constituir um lar
De suas necessidades destes quartos—Sara pequena semente,
Pequena semente, violenta, diligente. Vem vamos olhar o mundo
Brilhando: esta semente vai falar. O que ela fará de um mundo
Você supõe, Max, a partir do que ela é feita.

domingo, 8 de abril de 2007

Um poema de Páscoa: George Herbert


Paul Klee, 1926





Easter

Rise heart; thy Lord is risen. Sing his praise
Without delayes,
Who takes thee by the hand, that thou likewise
With him mayst rise:
That, as his death calcined thee to dust,
His life may make thee gold, and much more just.

Awake, my lute, and struggle for thy part
With all thy art.
The crosse taught all wood to resound his name
Who bore the same.
His stretched sinews taught all strings, what key
Is best to celebrate this most high day.

Consort both heart and lute, and twist a song
Pleasant and long:
Or since all music is but three parts vied,
And multiplied;
O let thy blessed Spirit bear a part,
And make up our defects with his sweet art.

I got me flowers to straw thy way;
I got me boughs off many a tree:
But thou wast up by break of day,
And brought’st thy sweets along with thee.

The Sunne arising in the East,
Though he give light, and th’ East perfume;
If they should offer to contest
With thy arising, they presume.

Can there be any day but this,
Though many sunnes to shine endeavour?
We count three hundred, but we misse:
There is but one, and that one ever.


George Herbert


Páscoa

Acorda ser; teu Senhor acordou. Canta em louvor
A teu Senhor,
Que te traz à mão, para te ensinar
Junto a Ele acordar:
Assim se Sua morte reduziu-te a pó,
Sua vida far-te-á ouro ou ainda melhor.

Acorda guitarra, apressa-te por tua parte
Com toda arte.
A cruz ensinou a cada tábua Seu nome ressoar,
E por igual suportar.
Seus tendões partidos ensinaram às cordas que tom
É melhor para bem celebrar um dia tão bom.

Juntem-se ambos, ser e guitarra, e teçam uma canção
De boa duração.
E como a música está em três partes fracionada,
E multiplicada,
Ah, deixai Vosso Santo Espírito gestar uma delas,
E reparar nossos defeitos em Suas aquarelas.

Trouxe flores para forrar-Te o caminho
E ramos de árvores várias em abrigo,
Mas acordaste antes dos raios em arminho,
E trouxeste as fragrâncias junto contigo.

O sol sai a leste, sai todo dia
E entanto luz lance e bálsamo do leste;
Se dados fossem em analogia
Nada seriam frente ao que fizeste.

Que outro dia a este é soberano,
Ainda que plácido como um novilho?
Contamos trezentos, mas engano:
Como este há um só, e seu único brilho.

Nota- George Herbert (1593-1633) faz parte do que se acostumou a chamar de "poetas metafísicos" ingleses do sec. XVII. Era um dos favoritos de T. S. Eliot, ao lado de nomes como John Donne, Andrew Marvell, George Chapman, Robert Southwell e Henry Vaughan. Influenciados pelo neo-platonismo eram poetas de grande apuro formal e sutileza de argumentos. Prezavam o conceito, a símile e a metáfora rara. Marvell, em certa passagem compara a alma a uma gota de orvalho. Mas, por vezes, não eram tão metafísicos assim, como o jovem Donne. O rótulo 'metafísico', aliás, foi proposto no século seguinte por ninguém menos que Dr. Johnson. A tradução acima é bastante "livre" quanto à literalidade. Busca preservar o ritmo, as rimas e capturar o espírito geral desta sorte de canção. Um outro aspecto: algo que alguém -- um tradutor principlamente -- pode não se conformar é com a palavra -- tão extensa -- 'coração', em português. Em português arcaico era simplesmente 'cor' -- bem próximo do latim. De onde vem a palavra 'cordial'. Ou, curiosmente, a palavra 'cordeiro'. Ser cordial equivaleria ser manso como um cordeiro. Imagem recorrente no Novo Testamento. Os mansos de coração, que herdarão o Reino, etc. Na tradução deste poema, pensei em usar 'cor' [v.1, est.1] -- como nossos tataravós, os trovadores galego-portugueses, faziam. E nós ainda fazemos em expressões como "saber de cor" [=saber de coração, saber tão amorosamente que se traz no coração. No fundo, tem muito pouco a ver com "decorado", "decoreba", etc. -- pois o que sabemos de cor, sabemos por afeto e experiência]. Mas, enfim, preferi usar 'ser', pois 'cor' parece indicar 'cor', o fenômeno ótico de perceber, através da íris, a distinta tonalidade à superfície dos objetos e das formas .

Por uma trilha para as ilhas: Denise Levertov


Alberto Giacometti, 1951




Overland to the Islands

Let's go - much as that dog goes
intently haphazard. The
Mexican light on a day that
'smells like autumn in Connecticut'
makes iris ripples on his
black-gleaming fur - and that too
is as one would desire - a radiance
consorting with the dance.
Under his feet
rocks and mud, his imagination, sniffing
engaged in its perceptions - dancing
edgeways, there's nothing
the dog disdains on his way,
nevertheless he
keeps moving, changing
pace and approach but
not direction - 'every step an arrival.'

Denise Levertov


Pela trilha para as Ilhas

Vamos—meio como esse cão vai
endereçado ao acaso. A
luz mexicana em um dia que
‘cheira a outono em Connecticut’
faz a íris agitar-se em sua
negra peliça lustrosa—e também isto
é como se desejaria—radiação
consortando dança.
Sob seus pés
pedras e lama, sua imaginação, farejando
ocupada em percepções—dançando
para os lados, não há nada
que o cão desdenhe em sua rota,
não obstante ele
segue em frente, mudando
marcha e abordagem mas
não o rumo—‘cada passo é chegada’.

gritos e sussurros do homem que grafava o próprio nome em caixas baixas:CUMMINGS


Pablo Picasso, 1912




[Picasso]

Picasso
you give us Things
which
bulge:grunting lungs pumped full of sharp thick mind

you make us shrill
presents always
shut in the sumptuous screech of
simplicity

(out of the
black unbunged
Something gushes vaguely a squeak of planes
or

between squeals of
Nothing grabbed with circular shrieking tightness
solid screams whisper.)
Lumberman of The Distinct

your brain's
axe only chops hugest inherent
Trees of Ego,from
whose living and biggest

bodies lopped
of every
prettiness

you hew form truly

e.e. cummings


[Picasso]

Picasso
tu nos deste Coisas
que
avultam:arfantes pulmões plenos de tiples mentes espessas

nos fizeste agudos
presentes sempre
presos nos suntuosos guinchos da
simplicidade

(do
preto dessarolhado
Algo jorra vagamente um ranger de aviões
ou

entre uivos de
Nada agarrados com circulares pressões estrídulas
sólidos estrépitos sussurram.]
Lenhador do Distinto

o machado
de tua mente só decepa vastas inerentes
Árvores de Ego,de cujos

corpos podados
de toda
formosura

desbastas a forma mesma

O último verso como xeque-mate: Roethke


Gabriel Orozco, 1995





Elegy for Jane
(My student, thrown by a horse)

I remember the neckcurls, limp and damp as tendrils;
And her quick look, a sidelong pickerel smile;
And how, once startled into talk, the light syllables leaped for her,
And she balanced in the delight of her thought,

A wren, happy, tail into the wind,
Her song trembling the twigs and small branches.
The shade sang with her;
The leaves, their whispers turned to kissing,
And the mould sang in the bleached valleys under the rose.

Oh, when she was sad, she cast herself down into such a pure depth,
Even a father could not find her:
Scraping her cheek against straw,
Stirring the clearest water.
My sparrow, you are not here,
Waiting like a fern, making a spiney shadow.
The sides of wet stones cannot console me,
Nor the moss, wound with the last light.

If only I could nudge you from this sleep,
My maimed darling, my skittery pigeon.
Over this damp grave I speak the words of my love:
I, with no rights in this matter,
Neither father nor lover.

Theodor Roethke


Elegia a Jane
(minha aluna, morta em queda de cavalo)

Lembro das mossas do pescoço, suaves e úmidas como gavinhas;
E o olhar abrupto, riso oblíquo de lúcio;
E de como, uma vez começada a fala, ela saltava as sílabas fracas;
E librava-se no deleite do pensar,

A calda, feliz, de carriça ao vento,
o canto vibrando em ramos, pequenos galhos.
E a sombra cantava com ela;
As folhas, seus sussurros tornados beijos,
E o humo cantava nos alvacentos vales sob a rosa.

Ah, quando triste, lançava-se a tão completo abismo,
Que mesmo um pai não a encontraria:
Esfregando a face na palha,
Turvando a macia água.

Meu pardal, não estás mais aqui,
Esperando como samambaia, abrindo-se em sombra de latada.
O lado úmido das pedras não pode me consolar,
Nem o musgo, ferido de luz última.

Se ao menos eu pudesse espertá-la deste sono,
Meu encanto quebrado, transcorrida lavandeira.
Sobre esta úmida cova digo as palavras de meu amor:
Eu, sem direito algum em questão,
Nem pai nem amante.

sábado, 7 de abril de 2007

Entropia e semiose urbanas na voltagem vertiginosa de um fôlego whitmanesco: O'Hara


Gaetano Pesce, 2007





A Step Away from Them

It's my lunch hour, so I go
for a walk among the hum-colored
cabs. First down the sidewalk
where laborers feed their dirty
glistening torsos sandwiches
and Coca-Cola, with yellow helmets
on. They protect them from falling
bricks, I guess. Then onto the
avenue where skirts are flipping
above heels and blow up over
grates. The sun is hot, but the
cabs stir up the air. I look
at bargains in wristwatches. There
are cats playing in the sawdust.
On
to Times Square, where the sign
blows smoke over my head, and higher
the waterfall pours lightly. A
Negro stands in a doorway with a
toothpick, languorously agitating.
A blonde chorus girl clicks: he
smiles and rubs his chin. Everything
suddenly honks : it is 12:40 of
a Thursday.
Neon in daylight is a
great pleasure, as Edwin Denby would
write, as are light bulbs in daylight.
I stop for a cheeseburger at JULIET'S
CORNER. Giulietta Masina, wife of
Federico Fellini, è bell' attrice.
And chocolate malted. A lady in
foxes on such a day puts her poodle
in a cab.
There are several Puerto
Ricans on the avenue today, which
makes it beautiful and warm. First
Bunny died, then John Latouche,
then Jackson Pollock. But is the
earth as full as life was full, of them?
And one has eaten and one walks,
past the magazines with nudes
and the posters for BULLFIGHT and
the Manhattan Storage Warehouse,
which they'll soon tear down. I
used to think they had the Armory
Show there.
A glass of papaya juice
and back to work. My heart is in my
pocket, it is Poems by Pierre Reverdy.

Frank O'Hara


Um Passo para Longe Deles

É minha hora de almoço, e eu vou
dar uma volta entre os táxis de cores
berrantes. Primeiro rua abaixo
onde os operários nutrem seus torsos
imundos cintilantes de sanduíches
e Coca-Cola, os capacetes flavos
protegendo-os de tijolos
cadentes, penso. Então pela
avenida onde saias esvoaçam
por cima de saltos e estufam-se sobre
grelhas. O sol é forte, mas os
táxis avivam o ar. Confiro
ofertas de relógios de pulso. Há
gatos brincando na serragem.
Para
Times Square, onde o letreiro
deita poeira em meu cabelo, e acima
a cascata verte de leve. Um
negro de pé num portal
palita os dentes, languidamente.
Uma corista loura pisca: ele
sorri e esfrega o queixo. De repente
tudo buzina: é 12:40 de
uma quinta.
Neon à luz do dia é um
grato prazer, como Edwin Denby
escreveria, como são lâmpadas à luz do dia.
Paro para um cheeseburguer no JULIET’S
CORNER. Giullieta Masina, mulher de
Frederico Fellini, é bell’atrice.
E chocolate maltado. Uma dama de
peliça num dia assim põe seu poodle
Num táxi.
Há muitos porto-
riquenhos na avenida hoje, o que a
torna bela e animada. Primeiro
Bunny morreu, e aí John Latouche,
e aí Jackson Pollock. Mas a terra
segue cheia como a vida estava cheia, deles?
E alguém come e passeia,
ao lado dos nus nas revistas
e dos cartazes de TOURADA e
da Companhia de Estocagem de Manhattan,
que breve serão rasgados. Me soe
pensar que eles tinham o Armory
Show ali.
Um copo de suco de mamão
e de volta ao batente. Meu coração segue no
bolso, é o Poems de Pierre Reverdy.