segunda-feira, 30 de junho de 2008

Do futebol visto de meu sofá numa dessas tardes de Eurocopa

Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, 2006

Tudo isso passou a ser mais importante do que o futebol

Faz pouco mais de dez anos que se tornou praxe pôr em quadro a reação dos treinadores de futebol à beira do gramado. Não sei por que acho que há algo de excedente nessa ampliação da câmera. E, embora tenha me acostumado com ela, pressinto que não avalizo de todo essa relevância dada à “reação” dos treinadores e a criação das chamadas áreas técnicas. Certamente a imagem ficou mais retalhada.
Talvez eu reaja assim porque venho de um tempo em que isso simplesmente não existia. Quer dizer, a câmera voltava-se para a partida. E, até inícios dos 90, para efeitos de televisão, a partida se resumia à ação dos jogadores. Assim, as câmeras – em muito menor número do que hoje - seguiam estritamente os vinte e dois e a bola. E só por eles se interessavam. 
Nessa época, a rigor, o treinador não fazia parte da partida de futebol. E não só para efeitos de televisão. Sabia-se que ele estava por ali. Mas ele estava apenas por ali. Acessoriamente. Do lado de fora. Ás vezes, sequer aparecia em quadro. Na Copa de 70, que, aos sete anos foi o primeiro grande evento de futebol assistido (e que evento!), não me recordo de, uma única vez, a imagem descolar do campo para se dirigir ao banco. Isso seria uma heresia para os padrões da época. 
O banco era completamente secundário. E, provavelmente, dentro de campo, os times eram modificados muito mais por iniciativas de jogadores como Gérson do que pelos gritos desentoados de treinadores como Zagalo. Treinadores que se sentavam naqueles remotos e, para o telespectador, quase inexistentes bancos de reservas. 
Assim, as coisas se resolviam muito mais dentro de campo. E se resumiam muito mais ao que se passava no campo. Não havia imagens de bastidores: vestiários, entornos de estádios, ônibus. Casas de familiares de jogadores, nem pensar. E por que registros de treinos, se o que importava, de fato, era a partida?
Sequer na hora de uma substituição a câmera optava por planos de detalhe. Entrava um, saía o outro. Era rotina. Como não havia closes, sequer se percebia se o cidadão havia deixado o campo contrariado ou plácido. Isso não tinha a menor importância. Substituições eram apenas momentos chatos, porque interferiam no fluxo da partida.  
Como tudo mudou. Hoje apenas em transmissões precárias a câmera deixa de transformar o treinador, o banco de reservas, a platéia – com uma eventual celebridade de permeio – em parte integrante da transmissão. E a reação de todos, por mais previsível que seja, passou a ser um elemento-chave na economia narrativa da coisa toda. Dá o que pensar essa relevância atribuída à reação das pessoas. Ou seja, a necessidade de sublinhar que elas se emocionam. 
Não sei se gosto mais assim ou assado. 
Certamente antes era, quiçá, mais fácil educar-se para perceber as nuances táticas. E justamente porque a ação era mais importante do que a reação. O jogo em si era o tema da câmera. Hoje, a câmera busca o espetáculo, não propriamente o jogo. Vive para registrar a reação do técnico, dos substitutos, da torcida. A reação dos próprios contendores, que outrora, preservada pela decorosa distância dos planos gerais, era quase que apenas intuída.  
E tudo isso passou a ser tão ou mais importante do que o futebol. 


domingo, 29 de junho de 2008

Algumas notas avulsas sobre novos & velhos rumos & assuntos

  Roberto Burle-Marx e Oscar Niemeyer, Projeto do Parque Ibirapuera, 1953. 

Ao ler algumas notícias ontem à noite. Ontem de madrugada. Ontem à noite. 

Angela Park

Há uma golfista brasileira chamada Angela Park. Ela liderou por algum tempo a edição deste ano do US Open, que segue em curso. De momento, caiu para a séptima posição. Park nasceu em Nova Iguaçu de pais coreanos. Aos oito anos, mudou-se com a família para o sul da Califórnia. É, no entanto, no mínimo intrigante que haja mantido a nacionalidade brasileira. Seria, entre outras, pela facilidade de se inscrever em grandes eventos do golfe como brasileira? Sim, porque anos para a naturalização norte-americana ela parece ter de sobra. De qualquer modo, é bom ver surgir um talento brasileiro em uma área esportiva na qual não temos qualquer tradição. Uma matéria na International Herald Tribune me chamou a atenção para a façanha dessa moça. Não sei que motivações levaram Angela Park a manter a cidadania brasileira. Mas, desde já, torço por ela. 

Muitos caracteres html ainda vão ser digitados

Aos poucos as manchetes sobre as candidaturas para as eleições municipais vão encorpando na capa dos diários brasileiros. 

E se fosse a China?

A comunidade internacional pressiona o regime de Robert Mugabe e questiona a lisura das recém-eleições no país. Bush acenou, hoje, com a possibilidade de sanções econômicas. É possível agir assim. Afinal, o infrator dos direitos humanos é Zimbábue e não, digamos, a China. 

Felipão e o fisco

Felipão, que se encontra de mudança para a Inglaterra foi acusado pelo diário português Sol de se haver envolvido em uma fraude fiscal na nossa ex-metrópole. A irregularidade está sendo investigada por uma tal “operação furação”. O manager nega a acusação em nota divulgada no site de seu assessor de imprensa. Disso tudo, fique-se com a última frase. Estranho mundo esse em que um técnico de futebol acusado de fraudar a receita tem de se justificar por meio do site de seu assessor de imprensa. Enquanto isso, sequer se sabe pela matéria – divulgada no Estadão, mas com assinatura da Associated Press – onde o ex-treinador da seleção brasileira se encontra: se em Portugal, se no Brasil, se na Inglaterra. Essa espécie de imunidade territorial parece ser um direito adquirido pelas personalidades de nosso tempo. Elas estão por aí. Entre um e outro aeroespaço. De resto, "Sol" não é bom nome para jornal. Está mais para nome de tablóide inglês.  

Omnia munda mundis

Melhor dizer que as personalidades não estão nem aí. Para elas quase que se aplica o Omnia munda mundis, de São Paulo. Só que, aqui, seria algo como: "para as personalidades, tudo é permitido".

O bom humor de Lessa

E falar em tablóide inglês e personalidade,  me vem a mente Ivan Lessa. Recentemente ele escreveu uma bem-humorada crônica sobre o tema "celebridade" ("Big Brothers e outras Bobagens") em que diz: "se eu fosse um professor marxista de literatura inglesa na Universidade de Manchester, feito Terry Eagleton, eu veria a coisa por viés e ótica. Conforme a praxe acadêmica. O importante é não acompanhar o que na casa lá se passa". 

Espelhos 

Em geral, a imagem do Brasil, mundo afora, segue em alta – como há anos não se via. E é visível que há boas coisas acontecendo no governo Lula. Sem dúvida a melhor delas: a redução da pobreza e do desnível econômico entre classes sociais. Isso é notável. E tais tarefas não são nada fáceis de atingir. E pensar que poderão ser atingidas, mais plenamente, de uma hora para outra, é coisa para ingênuos de um lado e mal-intencionados do outro. Ou seja, de uma hora para outra, como quer a turma do PSTU de um lado. Ou como não quer, do outro lado, os interesses da modorrenta elite que esteve à frente do país por décadas de coágulo econômico e que hoje se concentra em torno de partidecos de aluguel ou do espólio do PFL

Compositividade

A compositividade é a grande lição do Brasil para o mundo. De momento, os Estados Unidos ensaiam eleger um presidente “mestiço”. Vamos ver se conseguem. Isso gera polêmica por lá. Pode-se, aliás, discordar de muita coisa de Caetano Veloso – como, por exemplo, sua afirmação de que “Feitiço da Vila” é uma canção racista – mas não de sua excelência como artista (quem duvidar escute “Mãe”, “Trem das Cores”, a fluência com que ele canta ao lado de João Gilberto) ou de sua declaração: “O Brasil já teve um presidente branco?” [ Leia-se “um presidente que não fosse ‘mestiço’ ou mesmo ‘negro’ para os padrões euro-americanos?”] E ele próprio responde, de modo muito bem-humorado: “Quem sabe, o Geisel”. É. Caetano tem razão. De fato, é impossível transplantar critérios raciais norte-americanos para o Brasil, como quer uma parte da academia tupiniquim. Não às cotas raciais! E o que Caetano quer implicar, com justificado orgulho, é: “vejam, os Estados Unidos: se esforçam para eleger um presidente mestiço – e talvez nem consigam. Ora, no Brasil, quase todos os presidentes foram mestiços, assim como o atual”. Essa analogia segue para nossa cultura como um todo. Nosso maior escritor era um mulato, Machado de Assis, que o crítico Harold Bloom chama de “the greatest black writer in Western Literature”. Ou seja, para os critérios norte-americanos – país onde até hoje se estuda a literatura dos negros separada da dos brancos – sequer existe algo como um escritor “mulato”. O que seria um ‘mulato’ nos Estados Unidos, um afro-american? Ora, um afro-american! Isso não existe! Um argelino branco, descendente de franceses e um bôer sul-africano que emigraram para os Estados Unidos poderiam também ser afro-americans? Bem, be-le-lém, quando se vê tanta complacência nos ditos “estudos culturais” – e nos excessos do “politicamente correto” que seguem à reboque – pode-se pensar na hipocrisia de que isso tudo se reveste. Ou seja, ainda hoje na própria academia norte-americana, a literatura dos negros e a dos hispânicos são estudadas como fenômenos “diferentes” da grande e histórica literatura norte-americana (essa escrita por brancos e postada ao centro do país e da história). Isso apesar de toda complacência do politicamente correto. Quer dizer, o que se retira daqui é que se não há mestiçagem – como felizmente houve aqui no Brasil, com toda a violência embutida no processo (e ainda assim, disso vamos sair no lucro, pois não há um documento de civilização que não seja também bárbaro (Benjamin e etc.)) – não há possibilidade de ampla convivência cultural ou de uma originalidade resultante de uma síntese profunda. Não há caminhos comuns. Dramas comuns. Alegrias comuns. Eles não confinam, se entrelaçam. Ao menos não na mesma nossa intensidade e entrelaçamento. Nesse último aspecto – com todos os senões de nossa cultura (e eles não são poucos) – não existe país mais original que o Brasil. Nesse sentido, apontamos para o futuro. Somos o futuro. Aos poucos, esse aspecto compósito, extremamente resiliente e típico de nossa cultura em esferas diversas, assoma como motivo de admiração – e, por vezes até de inveja – de muita gente por esse mundo afora, porque é fácil perceber que a mentalidade excludente e ensimesmada dos europeus e seus descendentes aqui teve muito menos terreiro para grassar. Porque a África e a América nos ajudaram a ser melhores. Eu, de minha parte, gosto de ser brasileiro. Gosto da literatura. Gosto da história. Admiro as relações familiares e de amizade. Gosto imensamente da música e da língua. Deleito-me com nossa vocação para o compósito e com o modo como seguimos forjando nosso caráter enquanto povo. E nisso não vai qualquer patriotada investida, mas o fato de me sentir bem. E bem resolvido com o meu país.

Da resenhice

Só posso considerar patética certa faceta do resenhismo dos jornais - resenhice, não crítica literária - que reivindica não fazer distinções de valor entre textos. Um desses resenhistas - os temos às dezenas diariamente - chega mesmo a ser engraçado ao escrever que não lhe interessa "discutir se um texto é bom ou ruim, porque isso é da pobreza do pensamento". De fato, se tem discutido muito pouco nas resenhas. Elas são impositivas. Tão minguadas de argumento quanto infladas por citações inócuas. São perfeitamente endêmicas, no sentido de assuntar e consagrar os amigos e as panelas de costume. "Não me interessa discutir", diz o resenhador. Então, tá. Não vamos distinguir entre Machado de Assis e o jornalismo de serviços. Nada de estabelecer prioridades. Não há diferenças entre textos. É claro: quem sairia perdendo se houvesse espaço para argumentos e discussão seria a maioria desses resenhistas, que, no fundo, não passam de pseudo-escritores cujas "obras" são validadas pelos "miguinhos" e lidas às migalhas. E, seguindo o conselho do resenhador em questão, numa espécie de democracia perfeita - e perfeitamente burra - vamos ler o que cair nas mãos. Mesmo que seja uma cobra criada ou uma bomba. Ou seja, a "recomendação" de quem não discute, impõe. Mas de outro modo, tenho certa dó desses fulanos. O esforço que eles fazem para ler - com rabo de olho é verdade - certas calamidades escritas pelos amigos e ainda achar um jeito de elogiá-las chega a ser impagável. 


De promessas & alguns lugares comuns

Rosenthal Porzellan A.g.,  c.1958

Dos três poemas abaixo & de contos do vigário pelo planeta afora

Veja os três poemas abaixo ("Sonnet", "The Sting", "Not Yet My Mother"). São  escritos por autores jovens, de quem se espera algo, no universo da poesia britânica contemporânea. Os poemas, no entanto, são apenas corretos. Certamente melhores – no sentido também de mais vários – do que o que se publica hoje em dia no Brasil. Mas não muito. E, como foi dito, nada há de particularmente conspícuo neles. O primeiro ("Sonnet") joga bem com a coloquialidade – o que é um exercício difícil. O terceiro ("Not Yet My Mother") tem um único verso fora de série (deduza qual!) e um bom final. O do meio possui boas imagens, embora seja decalcado de lugares-comuns: a culpa católica, a descoberta da sexualidade dos pais, etc. A autora deste, aliás, Patience Agbadi, é também ungida por lugares-comuns, no sentido de ser apresentada como estereótipo da jovem poeta do primeiro mundo. Vive em Londres; mas é negra, portanto faz parte de uma minoria étnica. Descende de uma minoria cultural, já que é filha de imigrantes nigerianos, e, logo, provem das ex-colônias. Assume-se como lésbica, portanto pertencente a uma minoria sexual. E é mulher, portanto parte de um gênero perseguido e que devemos olhar com condescendência. Quer dizer, ela já sai sextuplamente mais qualificada para os padrões atuais. Em franca vantagem no panorama hodierno, diante, digamos, de um escritor 1. branco anglo-saxão, 2. heterossexual, 3. metropolitano,  4. do sexo masculino, 5. de uma família de classe média para alta e 6. religioso (em especial católico). Não estou hostilizando, aqui, nem de longe, a condição da escritora em questão ou menosprezando suas conquistas - seu poema é bem elaborado e ela possui suas qualidades e é apresentada como promissora por um importante jornal inglês (The Guardian). Estou apenas deplorando que se tomem tais critérios como determinantes para analisar méritos literários, como fazem alguns. Mas será que tem alguém que acredita mesmo nesses contos de carochinha ou de vigário? Ou seja, crê que há uma escritura feminina, étnica, de gênero? Deve existir. Mas não faz muito o gênero de quem lê com o mínimo de sinceridade ou consequência. Bons escritores não o são por serem fêmeas ou machos; casados ou solteiros; veados ou heteros; lésbicas ou straights; ninfos ou beatas; religiosos ou leigos, de esquerda ou de direita; metropolitanos ou colonos; negros ou brancos; mestiços ou "puros"; ricos ou remediados; torcedores do flamengo ou do olaria; sádicos ou masoquistas; bispos ou juízes de fora; comedores de ópio ou antropófagos; patriotas ou traidores; franceses ou papua-novaguineenses; aidéticos ou sifilíticos; motoristas ou pedestres; honestos ou ladrões; desembargadores ou líderes sindicais; melômanos ou artistas gráficos; com duas ou com uma corcova;  fãs da Disney ou da Warner; com dobras ou desdobrados; fiéis de Padre Cícero ou tradutores de Cícero; da cidade baixa ou do castelo; maconheiros ou caretas; da aldeota ou da megalópole; gibelinos ou guelfos, etc.

Bons escritores são bons escritores, porque, entre outras coisas, conseguem justo escapar a qualquer classificação em moda durante algum tempo.  Como algumas das ruidosas classificações criadas nos cursos de Creative Writing ou Cross-Cultural Studies


Um soneto?: Oswald

Valie Export, Breath Text: Love Poem, 1970-1973. 

Sonnet

I can't sleep in case a few things you said
no longer apply. The matter's endless,
but definitions alter what's ahead
and you and words are like a hare and tortoise. 
Aaaagh there's no description — each a fractal 
sectioned by silences, we have our own
skins to feel through and fall back through — awful
to make so much of something so unknown.
But even I — some shower-swift commitments
are all you'll get; I mustn't gauge or give
more than I take — which is a way to balance
between misprision and belief in love
both true and false, because I'm only just
short of a word to be the first to trust. 


Alice Oswald


Soneto

Sou incapaz de dormir caso o que você disse
já não convenha. O assunto não tem fim,
mas as definições alteram o que está por vir
e palavras e você são como tartaruga e lebre. 
Aaaarre, não dá pra descrever – cada, um fractal
seccionado por silêncios, temos nossas próprias
peles para sentir por e esconder-se em – animal 
fazer tanto de algo tão sem ciência. 
Mas mesmo eu – alguns compromissos chuvinha rala
é tudo que ‘cê vai ter; não devo aferir ou dar
mais do que recebo – que é um jeito de equilibrar
entre omissão e crença no amor tanto
verdadeiro quanto falso, porque estou 
só sem palavras para ser a primeira a crer. 

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Os estigmas passados a sujo: Agbadi


August Sander, Mother and Daughter, 1912.

The Sting 

At twelve I learnt about The Fall, 
had rough-cut daydreams based on original sin, 
nightmares about the swarm of thin-
lipped, foul-mouthed, crab apple-
masticating girls who'd chase me full
throttle: me, slipping on wet leaves, a heroine
in a black-and-white cliche; them, buzzing on nicotine
and the sap of French kisses. I hated big school
but even more, I hated the lurid shame
of surrender, the yellow miniskirt
my mother wore the day that that man
drove my dad's car to collect me. She called my name
softly, more seductive than an advert. 
I heard the drone of the engine, turned and ran.

Patience Agbabi

A Marca

Aos doze soube d’ A Queda,
tinha devaneios imprecisos sobre o pecado original,
pesadelos com o enxame de garotas de finos
lábios, bocas infames, mastigando maçãs como
cânceres, que me perseguiam a todo 
vapor: a mim, derrapando em folhas úmidas, a heroína
em clichê preto-e-branco; elas, propagando nicotina
e o travo dos beijos de língua. Eu detestava a escola
e ainda mais à custódia, a minissaia amarela 
que minha mãe usava no dia em que aquele homem
veio me apanhar ao volante do carro de meu pai. Ela me chamou
suavemente, mais sedutora que num comercial.
Ouvi o ronco do motor, dei a volta e chispei. 

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Velhos álbuns, novas revelações: Sheers

David Wark Griffith,  The Mothering Heart, 1913

Not Yet My Mother 

Yesterday I found a photo
of you at seventeen, 
holding a horse and smiling, 
not yet my mother.

The tight riding hat hid your hair, 
and your legs were still the long shins of a boy's. 
You held the horse by the halter, 
your hand a fist under its huge jaw.

The blown trees were still in the background
and the sky was grained by the old film stock, 
but what caught me was your face, 
which was mine. 

Owen Sheers


Ainda não minha mãe

Ontem achei uma foto 
sua aos dezessete,
segurando um cavalo e sorrindo,
ainda não minha mãe. 

O quépi de equitação, justo, escondia o cabelo,
e suas pernas eram já longas canelas de mancebo.
Você segurava o cavalo pela rédea,
sua mão, um punho, sob a enorme mandíbula. 

As árvores crespas já estavam ao fundo
e o céu granulado pelo velho papel fotográfico,
mas o que me abismou foi seu rosto,
que era o meu. 

segunda-feira, 23 de junho de 2008

1968, forty years after: uma balada de Joni Mitchell

Jack Robinson, 1969

California

Sitting in a park in Paris, France
Reading the news and it sure looks bad
They won't give peace a chance
That was just a dream some of us had
Still a lot of lands to see
But I wouldn't want to stay here
It's too old and cold and settled in its ways here
Oh, but California
California, I'm coming home
I'm going to see the folks I dig
I'll even kiss a sunset pig
California I'm coming home

I met a redneck on a Grecian isle
Who did the goat dance very well
He gave me back my smile
But he kept my camera to sell
Oh the rogue, the red red rogue
He cooked good omelettes and stews
And I might have stayed on with him there
But my heart cried out for you, California
Oh California I'm coming home
Oh Make me Feel Good Rock'n'Roll Band
I'm your biggest fan
California, I'm coming home

Oh it gets so lonely
When you're walking
And the streets are full of strangers
All the news of home you read
Just gives you the blues
Just gives you the blues

So I bought me a ticket/
I caught a plane to Spain
Went to a party down a red dirt road
There were lots of pretty people there
Reading Rolling Stone, reading Vogue
They said, how long can you hang around?
I said a week, maybe two,
Just until my skin turns brown
Then I'm going home to California
California I'm coming home
Oh will you take me as I am
Strung out on another man
California I'm coming home

Oh it gets so lonely
When you're walking
And the streets are full of strangers
All the news of home you read
More about the war
And the bloody changes
Oh will you take me as l am?
Will you take me as l am?
Will you?

Joni Mitchell



Califórnia

Sentada num parque em Paris
Lendo as costumeiras manchetes
más
A paz sempre está por um triz
É apenas sonho que ficou para trás
Ainda muito chão pra correr
Mas não quero ficar por aqui
São tão velhas, tão frias, tão arrumadas
As coisas daqui
Mas, ah, Califórnia
Califórnia, já estou chegando
Vou rever a galera que pira
E até beijar na Beira-Mar um tira
Califórnia, já estou chegando

Encontrei um capiau numa ilha grega
Que sabia fazer a cabra dançar
Me deu de volta a graça ao rosto
Mas afanou minha câmera pra repassar
Ah, o malandro, o malandro ruivo
Fazia bons omeletes e baiões
E até podia ter ficado por lá com o cujo
Mas meu peito gemia por ti, Califórnia
Ah, Califórnia, estou já chegando
Ah, Me-Faz-Sentir-Bem-Banda-de-Rock
Sou tua fã mais sem retoque
Califórnia já estou chegando

Ah, é tão sozinho
Quando se passeia
E a rua segue cheia de estranhos
E todas as notícias de casa
Só te dão mais banzo
Só te dão mais banzo

Aí então eu comprei uma passagem
E embarquei num vôo pra Espanha
Fui a certa festa por estrada carroçável
Onde tinha uma pá de gente bacana
Lendo a Rolling Stone, lendo a Vogue
Disseram: “quanto tempo ‘cê está por onde?”
Eu disse sete dias, talvez duas semanas,
Só o tempo de pegar um bronze
E aí, me mando pra Califórnia
Ah, Califórnia, estou já chegando
Ah, será que você me quer como eu sou
Ora amarrada a um outro senhor?
Califórnia, já estou chegando

Ah, é tão sozinho
Quando se passeia
E a rua segue cheia de estranhos
E todas as notícias de casa
Marcadas pela guerra
E a porra das mudanças
Ah, será que você me quer como eu sou?
Ah, será que me quer como sou?
Quer como sou?




Nota - "Sunset pig" [v. 11] (literalmente "porco de Sunset") era como se conheciam os policiais de Los Angeles que davam batidas em Sunset Boulevard, à época, final dos 60, repleta de músicos, artistas e hippies. De resto, o verso "I'll even kiss a Sunset pig", tem o significado: estou com tanta saudade que até beijaria um daqueles policiais sacanas. Foi para Joni Mitchell que Jimmy Page e Robert Plant escreveram "Going to California". O que ficou de 68 é, sobretudo, o que fica de qualquer época, qualquer: beleza. Para os que não conhecem, há versões dessa balada ao vivo no Youtube. O instrumento que Mitchell utiliza para nela se acompanhar é um dulcimer dos Apalaches. Na gravação em estúdio, com muitos outros instrumentos  - e bem melhor, como de uso, que a versão vivo - o violão é tocado por James Taylor. Mitchell, de resto, é famosa pelo uso de afinações alternativas ao violão. Em geral, letras de música se prestam ainda menos à tradução do que poemas. Desta canção, dois pontos: 1. o sentido geral de saudade de casa é posto com muito conhecimento de causa e 2. certa sensação muito americana - no sentido mais amplo, e que nos inclui aqui no Sul também - de que o excesso de história e civilização deixa, por vezes, a Europa com ares de estagnação, passado, saturação e morte ("It's too old and cold and settled in its ways here"). É adorável a facilidade com que Mitchell modula dos médios para os agudos nessa balada  folk de inusual melodia. A canção é a quinta faixa de seu disco Blue (1971). 



sexta-feira, 13 de junho de 2008

Um gaio poema about food


The Aluminum Cooking Utensil Co., 1932



O importante é comer

para M. B. de L.

Sim, o importante é comer com os pés
Talvez mais importante seja comer com os olhos
Mas menos desafiador que comer pelos cabelos
Pois o importante é comer com os pelos
E os poros também comem
Como os brutos cotovelos
Ás vezes, comer com a mão
E não com a virilha
Dá algumas espinhas na estampilha

Comer, comer
Com talheres ou chopsticks
Com a mente ou fora de hora
Torna tudo tão comezinho
Quanto a cabidela do meirinho
Ora, por que comer com as mãos
É tão aborrecido e pobrezinho?
Por que não comer uvas
Que antes eram passas?
Não passarão?

Comer água de passarinho
Comer, verbo transitivo
Ah, indigesto ato
Vamos fazer política
Calçar luvas, deitar alpiste
De cima dos Alpes da sandice

Comer está fora de moda
Não há lugar para comer
Tem feijão, arroz, capim?
Não. Só vincas, compromissos éticos
Dilatoriedades, articulações oblíquas
A destruição de toda voz, toda origem
Um mesmo entre os dois
Mas tudo isso só vale pros de casa
Tem macarrão, jojoba, amendoim?
Não. Tem a possibilidade de um devir
Sombra conduzida, evaporação do sentido
Desdobramento do efeito provocado
Astúcia da convicção, ou, quem sabe, pitibiribas.

(Não, pitibiribas, não: a-pitibiribas)

Comer é pequeno
Coisa de meteco
Barthes já dizia
Mas quem comeu Barthes
Ao molho pardo da pós-estruturalia
Hoje escreve apoemas sobre metapoesia
Na mesa da cantina lá da faculdade
Ainda que a faculdade de se perceber um
Lugar para comer ou... descomer
Esteja fora de.

(Arrotadas delicadezas)

que Ainda
Que o de jejuar gesto
lembre Mais ninguém

Não comei, nem bebei
Sem transtextualidade
Ide por mim
Fio-me, confio-me, como-me
Por dentro como por fora
Cheio de dobras deleuzianas

E, só para terminar sem conclusão
Amanhã ou no Maranhão
:
O importante é comer com a mão


Nota - este poema não tem título. Você vê o título. Mas é só sua imaginação. Como dizia Blanchot. Afinal, tudo depende do ponto de vista do leitor. Inclusive a dependência e o leitor. Afora o rei, a nudez, etc.