sábado, 30 de maio de 2009

A cineasta de Hitler


Leni Riefenstahl, Olympia, 1938




Nenhum Anjo Azul para Leni Riefenstahl
Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, por Steven Bach, Knopf, 386 ps.
Dramas alpinos—como A Luz Azul, A Montanha Sagrada—uma espécie de sub-gênero bastante característico do cinema proto-nazista, contam entre os êxitos iniciais de Leni Riefenstahl. E essa notável documentarista começou como atriz. Nesses melodramas, os valores morais "corretos," como lealdade e esforço por uma “regeneração” da humanidade, sob bases laicas e ultra-nacionalistas, eram exaltados, assim como a “germanidade”. O irônico é que boa fração dessa safra de filmes foi financiada justo por produtores judeus. Ou mesmo escrita por roteiristas judeus – caso do grande teórico do cinema húngaro Belá Balázs, que, de outro modo foi mais um, na legião de amantes de Riefenstahl. Dramas alpinos são da época do cinema mudo, prenúncios do sonoro. Riefenstahl atuava neles lançando mão de sua experiência como bailarina de cabaret: largos gestos de pantomima e intenso magnetismo físico. Ela era uma mulher de beleza e carisma ímpares.
Harry Sokal, um banqueiro judeu, foi o protetor de Riefenstahl durante os anos 20 e início dos 30. Cobriu-lhe de jóias e casacos de peles. Pediu-a em casamento. Debalde. Mas a colaboração entre ambos foi conturbada e frutífera, até que Sokal, a exemplo de Balázs, acabasse banido da Alemanha e seu crédito de produtor retirado de êxitos de bilheteria como A Luz Azul, que tornaram a atriz Leni Riefenstahl uma celebridade, antes mesmo de passar para o outro lado das câmeras, ainda antes de completar trinta anos.
Riefenstahl queria ser atriz de Hollywood no início da carreira. E mesmo fez tudo para ser indicada para o papel principal de certo filme, O Anjo Azul. A mesma película que chamaria a atenção dos produtores de Hollywood para o potencial explosivo da atriz que acabou sendo indicada para protagonista. Uma tal Marlene Dietrich. Tivesse o talento de Dietrich e talvez o nazismo houvesse sido privado de sua cineasta.
A despeito de sua mediocridade geral, esses filmes siroposos e datados ensinaram muito à futura diretora de Triunfo da Vontade [1934] e Olympia [1938], seus dois documentários clássicos, até hoje vistos e analisados nas escolas de cinema, planeta afora. Especialmente quando, nos dramas alpinos, trabalhava tendo Arnold Franck como diretor e Hans Schneeberger como cinegrafista. Ambos possuíam legítimo interesse por experimentações visuais. Algo a ser derivado pela Riefenstahl diretora.
Mas no momento em que assume a direção, a personalidade vibrante de Riefenstahl já se encontra enfeitiçada por Hitler. E ela assim descreve a primeira impressão inicial que teve do ditador alemão, durante um comício no Palácio dos Esportes, de Berlim:
Eu tive quase uma visão apocalíptica que nunca esquecerei. Parecia que a superfície da terra se partia em duas diante de mim, e um hemisfério talhava-se fora, lançando um enorme jato d'água; tão poderoso que tocava o céu e estremecia a terra.
É esse interesse apaixonado, aliás, que se faz presente em Triunfo da Vontade. A magnitude do filme chegou a despertar a atenção do próprio Hitler. E Riefenstahl converteu-se na única cineasta subordinada diretamente ao Führer e não a Göbblels, o ministro da propaganda. A cineasta oficial de Hitler. O filme centra-se nos comícios nazistas em Nuremberg, e foi gravado nos moldes de uma megaprodução hollywoodiana: 36 operadores de câmera, 17 iluminadores, dois fotógrafos de still – um dos quais, conta-se, designado pela diretora para fotografar unicamente a ela própria em ação.
Triunfo da Vontade começa com Hitler. Nos céus, a bordo de um avião sobrevoando Nuremberg. Ao modo de um semi-deus que baixa à terra dos mortais. É de uma epicidade absurdamente bem orquestrada. Pois Riefenstahl consegue traduzir para película toda pompa e grandiosidade das paradas nazistas movendo-se pela arquitetura austera de Albert Speer. E também com Hitler o filme se despede, como se numa profissão de fé que, aparentemente, jamais foi abjurada por Riefenstahl, mesmo após a derrota nazista. E o espantoso de ela ser julgada inocente [quando se pensa que gente como Ezra Pound apodreceu anos na prisão!]. Conta-se, de resto, que o próprio Göebbels enfrentou problemas ao decidir banir todos os filmes estrangeiros, uma vez que Hitler era, sem embargo, um ardoroso fã de Mickey Mouse.
Já em Olympia, Rifenstahl abre o filme com alusões à Grécia e Roma. O paralelo com o Império Romano sempre foi algo ardentemente buscado pelos ideólogos nazistas – assim como ardentemente detectado e deplorado por uma intelectual do calibre de Simone Weil, que identificava o Ocidente livre à Grécia, os nazistas à Roma.
Nos primeiros planos de Olympia surge a clássica estátua do Discóbulo – o lançador de discos – uma cópia que Hitler havia mandado comprar em Roma, ás pressas, em 1938. Rapidamente a imagem passa para um atleta moderno. Um saudável representante da raça ariana, também lançando o disco. A ironia é que o modelo usado por Riefenstahl era, na verdade, um jovem russo, Anatol Dobriansky – que, não por acaso ela agregou a sua legião de amantes após pagar um cachê aos pais do rapaz. De resto, rapidamente ela se cansou do adolescente russo. E então teve um caso com um atleta de verdade, o americano Glenn Morris, vencedor do decatlo.
Quarenta e cinco câmeras e sete meses de edição tornaram Olympia um filme esplendoroso, quase irresistível. Nunca se prendera antes as proezas do esporte em fotograma como ela, então, o fez. Em Olympia, Riefenstahl experimenta bastante: suspende câmeras em balões e teco-tecos, amarra-as ao pescoço de corredores da maratona e fixa-as nas selas dos cavalos em provas de adestramento e salto. Seus problemas com Göebbels quanto a financiamento de filmes tornaram-se ainda mais agudos. Ela, no entanto, credita a animosidade que o ministro da propaganda lhe devotava a razões que passavam mais pela cama do que pelo orçamento do Ministério: Göebbels presumivelmente teria visto frustrado o desejo de tê-la como amante.
Não se pode acusar Olympia de ser fascista por ser racista, uma vez que tão obviamente o centro do filme é Jesse Owens, o atleta americano negro. Mas se pode acusar Olympia de ser fascista pelo culto ao corpo perfeito. E apenas a ele. Em descarte de toda mal-formação física como uma espécie de mal-formação moral. O atleta, tomado por analogia ao grande líder, como encarnação do super-homem nietzscheano. Por essa pretensão de pureza. De não mistura. De água e azeite. De eliminar a presença do corpo mal-formado, anômalo ou deformado. Pela incapacidade, enfim, de achar beleza na fragilidade, na vulnerabilidade, no anonimato dos trabalhos pequenos, braçais, desimportantes ou obscuros.
Havia ainda sua incapacidade para dirigir a contento filmes de ficção. Seu feature Tiefland, que demandou-lhe uma década até ser lançado, em 1954, é um pequeno prodígio kitsch que não chamaria a atenção do crítico de cinema do bairro. Em uma das cenas, a própria Riefehnstahl surge como bailarina de flamenco num ridículo a toda prova. Alega-se também que os extras usados em muitas cenas, ciganos recrutados em um campo de refugiados em Salzburgo, não sobreviveram aos campos de concentração nazistas. E, mesmo que ela alegue o contrário, o caso é controverso. E resta provado que muitos não escaparam à carnificina.
Ao que tudo indica, foi seu vasto domínio da técnica cinematográfica – emprestada em parte por Arnold Fank – e o talento de seu diretor de fotografia, Hans Schneeberger, somados, claro, ao seu intenso magnetismo pessoal, que a tornaram apta a ser a técnica que Hitler desejava para traduzir na tela o espetacularismo da estética de massas fascista. Algo análogo ao que Benjamin entreviu ao dizer que o fascismo estetizou a política. Embora, ao que tudo indique, o deslumbre de Riefenhstahl com o nazismo ia mais pela casca: os grandes movimentos de massas, comícios, rituais coletivos, e o culto pessoal de um líder onipotente. O mecanicismo bizarro desses movimentos.
Riefenstahl, no entanto, não tinha competência artística para entender a catástrofe vivida na Alemanha. Ou mesmo para se reinventar a partir de uma auto-crítica. Seus esforços ao largo da grandiosidade épica das paradas nazistas ou do uso do aparato técnico do Estado para o registro das Olimpíada  foram rematados fracassos. A consciência da Alemanha pós-guerra, no cinema, viria somente um tanto depois dela, na década de 60, com cineastas como Herzog, Fassbinder e Wenders.
Mais importante para Riefenstahl: o registo da tribo. A narrativa de seu rito. Sempre a partir do ângulo de um vetor laico. Aparentemente o que ela via nos Nuba, a tribo africana a quem dedicou um minucioso ensaio fotográfico, na maturidade, era o mesmo que via nos comícios nazistas: ordem, disciplina, força coletiva, beleza, certa calistenia sob algum comando: uma espécie de culto da tribo. À sua imaculada beleza e juventude. Se a tribo é um bando de ciganos, guerreiros sudaneses ou tropas da SS, isso lhe era indiferente, em sua frieza. Em seu desejo de poder e glória. Em seu empenho pelo triunfo da vontade.
Nos seus últimos anos, ela dedicou-se a uma série de documentários sob a vida nas profundezas dos oceanos. Belas imagens, mas nada comparado ao impacto de seus dois prismáticos documentários dos anos 30, que atravessam o tempo como mais estáveis e medonhos atestados da histeria de todo um povo. Já com idade avançada, ela mergulhava em águas profundas, talvez um ambiente tão rarefeito e “harmônico” quanto as alturas dos Alpes, que o nazismo explorou como símbolo de pureza e harmonia. Susan Sontag dedicou-lhe um ensaio exaltado [Fascinating Facism, 1974], que é até hoje referencial.
Leni Riefenstahl morreu aos 101 anos, em 2003.

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A Guerra de W. Bush


[s/i/c]



Um Oriente Médio de Pesadelos Peso-Pesados



Alguns analistas, como Ian Buruma, comparam a declaração de guerra ao terrorismomo de Bush ao discurso de Churchill ao declarar guerra à Alemanha. Mas apenas em sua casca. Em certa postiça grandiloquência. Espécie de história se repetindo como farsa. Afinal, quando Churchill manifestou-se, a Inglaterra estava sendo ameaçada, de fato, pelo maior poderio bélico da Europa. Ao contrário de Bush, como reforça Buruma, que se viu diante de um bando de fanáticos predominantemente sauditas.

Mas logo os Estados Unidos perceberam que o problema não era tanto de pobreza quanto de opressão. O raciocínio era o de que regimes ditatoriais provocavam a escalada do terrorismo. O ponto então seria redemocratizar o Oriente Médio para livrar-se do terrorismo. Mas o problema não se afigura tão simples uma vez que os maiores aliados dos Estados Unidos, o Egito e a Arábia Saudita, são regimes fechados – e, logo, não há qualquer interesse americano em se atritar com eles.

Por seu turno, o ataque ao Iraque – um ex-aliado – fortaleceu outro regime que subsidia terroristas islâmicos: o Irã. E este talvez com mais vigor ideológico que o Iraque. Uma vez que o ex-ditador iraquiano era uma espécie de déspota desesclarecido avulso, mais efêmero, que não tinha tanto interesse na propagação da fé islâmica quanto têm os aiatolás que manobram os fios do poder da política iraniana. E, mais, Saddam Husseim governava um país marcado por divisões. Como a dos separatistas curdos, que também são maioria no sudeste da Turquia.

Houve também um erro de avaliação ao se julgar que os terroristas ligados ao ataque de 11 de Setembro estavam predominantemente baseados no Iraque, como se supunha inicialmente. Na verdade, Bin-Laden tem sua base de operações no Afeganistão e seu grupo encontra-se disseminado por vários países. E, em predominância, na Europa e nos próprios Estados Unidos. Sem esquecer da suspeita que a tríplice fronteira na América do Sul, em torno da cidade de Foz do Iguaçu, parece ser também um dos focos de interseção dessa rede terrorista mundializada.

Ao contrário de estudiosos como Norman Podhoretz, Buruma argumenta que é um equívoco comparar o poderio fascista clássico na Europa como os diversos, fragmentados poderios dos estados islâmicos – muitas vezes guerreando entre si – ou com os grupos terroristas, como a Al-Qaeda, que se encontram disseminados pelo globo, usam a internet como fonte de comunicação, compõe-se de poucos elementos, e, portanto, não dispõem de grandes exércitos estruturados ou de voz de comando sobre estados nacionais.

Que real ameaça alguém como Saddam Husseim representava, então, para os Estados Unidos? Saddam se arriscaria a usar armas químicas contra os americanos? Ou pior, nucleares? Ele ao menos as teria? Podhoretz, ainda aqui, afirma que sim. [Afinal, sua prioridade parte do pressuposto da defesa intransigente de Israel]. Mas, então, porque Saddam não empregou as tais armas químicas e/ou nucleares quando os Estados Unidos invadiram seu próprio território?


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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Primeiro Alguma-Coisa


[s/i/c]



Uma questão de gênero

Que designação seria dada ao marido de Dilma Rousseff, no caso de ela, eleita, ter um: primeiro-senhor, primeiro-cavalheiro, primeiro-par, primeiro-consorte, primeiro-marido, primeiro-cônjuge, primeiro-respectivo, primeiro-esposo? Ou numa versão PT: primeiro-companheiro? [Não vale brincar: primeiro-gigolô, primeiro-amante... Uma só certeza: seria o primeiro "primeiro-alguma-coisa" de nossa história política].

Mas talvez isso nem seja necessário, uma vez que ela divorciou-se duas vezes e se encontra solteira. E sabe-se lá se faz planos de casar. Provavelmente não. Há muitos outros assuntos em pauta. A primeira prefeita eleita numa capital brasileira, em 1985, chamava-se Maria Luiza Fontenele, e fez uma desastrada administração em Fortaleza. Era também do PT. E também divorciada duas vezes. Talvez por isso, à época, não surgiu a atroz dúvida acima. Alguns anos depois, São Paulo elegeu Erundina, mas, bem, ela era, para variar, solteira também. Embora não divorciada. A atual prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, também é solteira. Parece que casamento e executivo feminino não se dão muito bem. Os gaúchos, no entanto, são governados por Yeda Crusius, que tem um marido. Mas o chamam, com notável falta de imaginação, apenas de "o marido da governadora".

Uma pergunta: será que ele seria admitido num encontro de primeiras-damas? Se não for, é DISCRIMINAÇÃO!




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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Homage to Catalonia






Homenagem à Catalunha



Para lembrar do título de um dos livros mais lindos - sob o prisma da honestidade política - lidos na juventude. Para lembrar de um clube que teve um de seus dirigentes mortos nos horrores do franquismo.

Mas é também, como sempre, a clássica vitória do Sul contra o Norte, na Europa. O Sul de onde somos mais na Europa. E, acima de tudo, a vitória, semelhante à da Espanha na Euro-2008, do futebol que ataca: toca, arrisca, não se intimida. Quem sabe essa moda de atacar acabe sendo redevolvida aos gramados brasileiros, repletos de volantes brucutus e treinadores retranqueiros, que jogam no ferrolho, à europeia, à Paul Scholes, à italiana [alguém ainda lembra 82'?]. Já que nossa sina, no último quarto de século - e à reboque das facilidades de comunicação -tem sido a de levar na mímica tudo que vem da Europa, dos E.E. U.U. Muita coisa de péssimo, inclusive: políticas étnicas equivocadas, práticas consumistas, exacerbação dos direitos de minorias sobrepujando-se aos das maiorias, modelos teóricos podres, inaplicáveis, etc. e etc. e etc. Mas, por ora...

Visca, Barça!



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À Pessoa Anta


A Av. Pessoa Anta, em Fortaleza, no início do sec. XX



Pedro Quem?

O nome desse meia do Coritiba, Pedro Ken, que hoje pode substituir Marcelinho Paraíba na semifinal da Copa do Brasil, contra o Inter, é mesmo espantoso. Guarda um sabor tão despretensioso quando se ouve pela primeira vez e não se sabe que é grafado de outra forma. Soa como coisas do tipo "Zé Ninguém" ou "Fulano de Tal dos Anzóis". Esses tipos que somos todos nós. Pedro? Quem?

Parece ilustrar algo que segue bem delineado no comentário de um leitor deste blogue sobre a verve crítica de Augusto Pontes.

Numa dessas noites sem-fim do Estoril, a turma de Augusto se divertia ao som de boa música e no ritmo da conversa bem fiada. Até que um ego mais exaltado, recém-chegado ao grupo, começou a declinar todo seu espetacular acervo de prêmios literários. Augusto ouviu ao imprescindível inventário em silêncio. E, depois, virando-se para o amigo mais próximo, tascou:
—Quando for secretário de cultura vou instituir o “Prêmio À Pessoa Anta”!



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Mais visceralmente


Chico Albuquerque, déc. de 40




'a forma mais visceral'

a forma mais visceral

de ser cosmopolita

jamais receia


falar de seu quintal

de sua aldeia





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terça-feira, 26 de maio de 2009

Os desertos de Simão


Luis Buñuel, Simon del Desierto, 1965



Simão no Deserto


i. Exórdio

Ontem, no começo da noite saí para encontrar uma jovem escritora. Era para ter sido a hora do recreio, porque antes, à tarde, havia uma palestra, que, de tão obtusa, preferi dar uma desculpa de última hora e não ir. A coisa ia por cearensidade, negritude e cotas. E falar contra cotas na universidade, hoje em dia—como teria feito—é ser visto como um rutilante monstro conservador. E, logo, eu precisava de um bom argumento. Algo estruturado, com citações, como manda a academia e seu sovado figurino. E não havia escrito esse argumento. Só sei me expressar bem quando escrevo. E, claro, nem sempre acerto o alvo. Porque acho muito fácil falar. Falar é gratuito. E é mais fino. É para se gastar com os amigos no botequim. Então, limei a palestra. Passei a tarde lendo, escrevendo. E vi um pouco de TV. E era preciso não ter ido àquela palestra para ser um pouco mais feliz. Porque há dias em que se quer apenas ser Simão no deserto.


ii. Invocação

Assim, esperançado em dar com um ambiente ermo—e apesar de um vergonhoso atraso—cheguei ao café ao limiar da noite. E eis que lá havia... um evento. Em outras circunstâncias teria gostado do evento. Muito. Mas não em meu dia de eremita.

Há uma saturação de eventos por onde se passa. Aonde se vai. E eles moldam a tua vida. Talvez se proliferem com o passar dos anos. E, breve, ninguém possa mais sentar num café e se demorar numa conversa menos pública com uma colega. Os eventos nos perseguem feito totós. Acontecem às mancheias. Basta sair de casa. E alguns são mais vazios que um saco sem fundo. [ Não era o caso do de ontem]. Escorrem pelo teu bolso. Batem no chão. Ou quem sabe, no meio-fio. Então, fio-me que foi tão-só uma má coincidência num dia em que você quer mesmo é estar mais longe. Longe das prosas, das pressas. Dias em que é difícil ouvir mais de uma voz. E frustra seguir, involuntariamente, no meio de tanta gente. Há dias que pedem mais sombra. Menos sol. Uma espécie de transparência vítrea. De invisibilidade. Como se gastasse ser visto, ver. E que qualquer saudação, mesmo dita com melhor retidão e calor, soa protocolar.


iii. Peroração

Em dias assim, sigo disperso, meio indolente. Os sentidos brigam. E o olho se descola do ouvido. O paladar do olfato. Cada um funciona avulso, em desmantelo: o gosto da cerveja; o grau de fosforescência no verniz do belo assoalho de tábuas corridas; o odor incisivo do capuccino amargo; a maquiagem forte no semblante, algo Goya, algo Ingres, da dona do café. Cada sensação é fruída à sua vez, avulsa, em mônada. Como se numa tela cubista. Elas não engancham. Mesmo que depois impliquem em certa recolha do pretérito imediato para o presente.

Nesses dias uma força quase espiritual te acerta: a grande necessidade de pobreza e tempos lerdos. Uma pobreza de mavé. De guardar apenas uma frase. Um raspão. Usar poucas palavras. Encontrar no máximo duas pessoas. Demasiar três. Ver, se tanto, uma árvore.

Na minha semiose de botequim, as artes mais elevadas – música, pintura, arquitetura, literatura, cinema – são tanto mais atraentes quanto mais distanciam-se da presença física de quem as faz. É quando conseguem armar um espaço que nos acolhe. Um espaço em que os sentidos se prendem, se mesclam de modo misterioso. Desconcertante. Mas não disperso. E o corpo se faz mais presente, justamente por sua ausência.

[ADENDO: a única arte em que a presença do corpo é absolutamente indispensável é o futebol. Mas sabemos de muito futebol desde muito cedo. E seria, então, necessário contrabalançar esse excesso de fisicalidade na arte. Nos filmes brasileiros há um mau excesso de corpo humano. Na arte brasileira em geral. Uma vontade de chocar pela exposição do corpo que assoma quase sempre pueril ou ingênua [mas nunca nos grandes mestres: em Alejadinho, em Athayde, em Machado, em Rosa, em Cabral, em Joaquim Pedro! Por que será?]. Na poesia, não é de entender porque tão pouca gente se ocupa com paisagem, com narração, com história, com etnografia, com geografia, com falares, etc. Ao que parece ou se é fotógrafo minimalista ou pintor barroco de cabaré cubano. Ou vanguardista tardio na linha de Beckett e dos distanciamentos metareferenciados à la Brecht. Quem, de fato, inventa? Ouve fala, vê gesto, regista movimento? Será que local virou sinônimo de abstração? E, no entanto, mesmo entre os abstratos há os que são suficientemente sãos para figurar paixões locais. Pense em Antônio Bandeira. Em Volpi].


iv. Confirmação

Muito ao contrário, há uma absurda concentração. Como quando se está num belo casarão antigo, e não se pensa em quem o construiu. Ou como construiu. Apenas se está. E bem. O local te acolhe. Há um calor de coisa antiga que se insinua quase sem se perceber. O pressentimento que muitos passos que pisaram por ali já não estão neste mundo. E é como ouvir Bach. A última coisa que se pensa é no compositor escrevendo música. A gente apenas se deixa ir. Porque há um grau de pureza tão elevada que qualquer palavra torna tudo menor. Ou abusivo. È como se algo de belo na obra se corrompesse pela presença física do autor. Será? Nem sempre penso assim. Só em meus dias de Simão no deserto.

E ontem foi um deles. De momento há palestras, encontros, colóquios, curadorias, congressos em excesso. De momento também há dias para tudo: o dia internacional do museu; o dia nacional da consciência indígena; o dia estadual da consciência vã.

Vou auto-legislar: daqui em diante, o 26 de maio será o Dia Universal do Eremita.



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domingo, 24 de maio de 2009

Une nouvelle réunion


[s/i/c]




Poesia sim, em segunda edição

E o Simpoesia vai para sua segunda edição. E converte-se, assim, num dos principais fóruns de debate de poesia e poética no país sob a atenta e criteriosa curadoria da poeta e tradutora Virna Teixeira [que este ano montou seu próprio selo editorial, chamado Arqueria]. Tive a oportunidade de participar, como convidado, da primeira edição do Simpoesia, ano passado. E foi experiência das mais estimulantes. Abaixo seguem detalhes sobre o encontro deste ano, junto com um linque onde se pode conferir a programação e os respectivos convidados do evento:


II SIMPÓSIO DE POESIA CONTEMPORÂNEA - SIMPOESIA


Experiência literária de quatro dias, que reunirá entre de 4 a 7 de junho de 2009, vozes das mais relevantes da poesia e da crítica literária internacional, além de uma feira de editoras independentes de poesia do Brasil e Argentina promovida pela revista Grumo.

Um encontro que envolve a troca de ideias, a exposição da diversidade intelectual e o intercâmbio artístico e cultural entre diversas expressões da poesia contemporânea.

Curadoria: Virna Teixeira

Realização: Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo

Produção: Casa das Rosas e Organização Social POESIS de Cultura

Patrocínio: Instituto Cervantes, Consulado do México e Centro Cultural da Espanha em São Paulo

Web site: http://www.simpoesia.wordpress.com

Que vida não é assombrada?


Antônio Bandeira, Football in Hyde Park



Prorrogação Pessoal do Estádio Oblíquo


para Victor da Rosa


ainda zero a zero

é a final, estádio cheio

você, ponta-de-lança

de raro elenco,

aos quinze do segundo tempo

segue tragando palavrões

no metro, pelo capim

sob um sorriso discreto

até bater nas mãos do

volante de contenção convocado,

enquanto ouve o urro da galera

para o professor:

burro, burro”, e


passa o resto da vida

saindo daquele gramado,


o filme, na cabeça, a repetir

tudo o que você teria jogado

naquela meia-hora sem fim.


que vida não é assombrada

por um calvário assim


num lance ou noutro

nem que por um quarto

de hora escroto?



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Placidez não eventual


[s/i/c]



Carlos Augusto Lima lança seu terceiro livro


O primeiro, Objetos, é uma pequena plaquette de costura à mostra editada em Santo André, e se constitui de um inventário de objetos e perdas. O segundo, Vinte e Sete de Janeiro (Lumme Editor, 2008) ensaia sair para fora [de casa, do bairro?] puindo um pouco os limiares entre fora e dentro. [Para uma breve apreciação deste livro e um poema, clique AQUI]. O que vem a ser esse terceiro? Carlos Augusto Lima, um dos poetas mais lúcidos desta cidade de Nova Bragança - no sentido da coerência de uma trajetória não só de escritura como de vida - está a lançar sua terceira coleção de poemas. O convite me chegou por esses dias. Augusto, que está aprontando as malas para o II Simpoesia, em São Paulo, agora no início de junho, lança seu Manual de Acrobacias nº1, próxima quinta, no Café-Restaurante Verdelima, à Rua Joaquim Nabuco, nº 1283. E ouvi-lo, com a placidez habitual, ler seus poemas, é sempre um prazer não eventual. Um exercício de discrição.



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sábado, 23 de maio de 2009

Eu colecionava tampinhas pelas coxias: Brasil Jr.


[s/i/c]



Nixon sob os oitizeiros


A Ruy Vasconcelos


Nixon nos encarava triste, sem rancor pela TV Colorado.

Entre pessoas de meia idade comentava-se: “só lhe restam as meias.

Os sapatos lustrosos foram confiscados pelos congressistas", disse a Maggy.

De alguma maneira comovia-me a despedida de Nixon, o anti-herói. Alguém que envergonhava John Wayne e os rapazes no Camboja.

Passei a sonhar com enormes borboletas que resgatariam Nixon para uma casa de verão em Cape Cod.

Em agosto, meu pai resolveu fazer uma rápida visita ao Cura D´Ars, saiu sem que ninguém percebesse. Nunca mais voltou.

Voltei a lembrar de Nixon. Os milicos incensavam Caxias na praça da Bandeira. O bispo afagava-me o cocuruto, eu colecionava tampinhas pelas coxias.

Volto a sonhar com enormes borboletas, atravessando poderosas a Costa Barros, enquanto Nixon e meu pai conversam animadamente sob os oitizeiros.

-O menino anda meio esquisito ultimamente, talvez seja melhor chamar o Padre Moreira.

O jesuíta obrigou-me ler em dias alternados a Carta de Paulo aos Coríntios.

Esqueço o amor paulino, volto a TV Colorado, agora com a certeza de que Leivinha e Marinho Peres derrotam a Laranja Mecânica. Em vão.

Depois do Cruiyff e do Watergate nunca mais fui o mesmo.


Aldir Brasil Jr.


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sexta-feira, 22 de maio de 2009

O preço de piladeiras de arroz


Joseph Albers, Homage to the Square, 1962



De algumas passagens curiosas aqui pelo blogue:



Alguém de Barcarena, Portugal, que anda investigando se São João da Cruz era homossexual.

Uma legião doida para saber a simbologia do ramo de visgo ao final de 2008 – e que quadruplicaram o número de visitas ao blogue em dezembro.

Um caipira de São Paulo que buscava fotos de... epigramas.

Um de Goiânia que andava atrás de saber como se escreve noventa em francês.

Um paulistano que peca na concordância: “o que é coágulos econômicos”?

Alguém do Mato Grosso querendo saber o “preço de piladeiras de arroz”.

Gente do mundo inteiro, do Caribe, do Leste Europeu, da África, do Sudeste Asiático, da Oceania...

Além daqueles que periodicamente passam atrás de conferir o que sobre eles está publicado em linha.

E assim, via Google, caminha a humanidade.

Afetivagem está há pouco mais de dois anos na rede. Traz publicado mais de 250 traduções de cerca de 110 poetas em cinco distintos idiomas, além de textos diversos sobre literatura, cinema, atualidades e aspectos que dizem mais diretamente respeito à cidade de Fortaleza. Somadas são quase 700 postagens entre crônicas, resenhas, traduções, poemas, artigos, notas, contos curtos, etc.



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terça-feira, 19 de maio de 2009

Um renovado lance de dados


Édouard Manet, Stéphane Mallarmé, 1876



Curso de Criação Poética com Claudio Daniel



O poeta Claudio Daniel realiza um curso de criação poética no Ateliê do Centro, localizado na rua Epitácio Pessoa, 91, próximo à estação de metrô República, em São Paulo. O curso, que acontece aos sábados, das 15 às 17h, é dividido em vários módulos, com exposições teóricas sobre Mallarmé, Valéry, Ezra Pound, Haroldo de Campos, entre outros poetas, e exercícios práticos de criação.

Para aqueles que moram em outras cidades, o curso pode ser feito on line, via Skype.

Informações sobre o curso estão disponíveis no blog Laboratório de criação poética, na página http://labcripoe.blogspot.com.

Quem estiver interessado em participar pode enviar uma mensagem para o e-mail claudio.dan@gmail.com.



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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sou tudo o que você não teve: Larkin


Jac Leiner, 2009


Money


Quarterly, is it, money reproaches me:

'Why do you let me lie here wastefully?

I am all you never had of goods and sex.

You could get them still by writing a few cheques.'


So I look at others, what they do with theirs:

They certainly don't keep it upstairs.

By now they've a second house and car and wife:

Clearly money has something to do with life


- In fact, they've a lot in common, if you enquire:

You can't put off being young until you retire,

And however you bank your screw, the money you save

Won't in the end buy you more than a shave.


I listen to money singing. It's like looking down

From long French windows at a provincial town,

The slums, the canal, the churches ornate and mad

In the evening sun. It is intensely sad.


Philip Larkin



Dinheiro


Quinzenalmente, será, o dinheiro me reprova:

'Por que me deixar mofando aqui na cova?

Sou tudo que você não teve de sexo e pileques

E ainda pode tê-los preenchendo uns cheques'.


O que outros fazem dele, é questão curiosa:

Já têm uma segunda casa, carro e esposa.

Decerto, não o mantêm no sótão, feito jazida:

Líquido, dinheiro tem algo a ver com vida.


Ambos têm muito em comum quando se pesquisa:

Mas se você banca a sovinice, acumula divisas,

E, de jovem, desanda a poupá-lo até se aposentar,

Não te paga no fim muito além de um barbear.


Ouço o canto do dinheiro. É mirar do piso superior

Por amplas janelas, numa cidadezinha do interior,

Os casebres, o canal, os brocados da igreja em riste,

Doidos, ao entardecer. É intensamente triste.


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domingo, 17 de maio de 2009

Mas se duas vezes malogro: Frost


Robert Artschwager, 1972




Fire And Ice

Some say the world will end in fire;
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To know that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Robert Frost


Fogo e Gelo


Uns dizem que o mundo acaba em fogo;
Outros, em gelo.
Depois que com o desejo jogo
Fico com os que dizem fogo.
Mas se duas vezes malogro,
Acho que tenho ódio bastante
Para saber que gelo
Também é massacrante
E capaz de fazê-lo.



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Retira das pedras de gamão


[s/i/c]



Mão


retira das pedras
de gamão a possibilidade
de uma mão dobrada

a coincidência
suave de uma chuva
em que cada gota
jorrada

caia exatamente
onde caiu

noite passada



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Por que não divididas em parágrafos?: MacCaig


Louise Bourgeois, 1977




Bookworm


I open the second volume

of a rose

and find it says, word for word,

the same as the first one.


The waves of the sea

annoy me, they bore me;

why aren't they divided

in paragraphs?


I look at the night

and make nothing of it—

those black pages

with no print.


But I love the gothic script

of pinetrees and

on the pond the light's

fancy italics.


And the cherry tree's petals—

they make

a sweet lyric, I appreciate

their dying fall.


But it's strange, girl, how I come back

from the library of everything

to stare and stare

at the closed book of you.


When will you open to me

and show me the meaning of all

the hard words

in the lexicon of love?


Norman MacCaig



Rato de Biblioteca


Abro o segundo volume

de uma rosa

e constato que diz, palavra por palavra,

o mesmo que o primeiro.


As ondas do mar

me irritam, fico entediado:

por que não são divididas

em parágrafos?


Observo a noite

e dela nada faço—

Essas páginas negras

sem impressão.


Mas adoro o cursivo gótico

dos pinheiros e

no lago o falso itálico

das luzes.


E as pétalas da cerejeira—

elas compõem

uma lírica suave, aprecio-lhes

a agonia da queda.


Mas é estranho, menina, o modo como

retorno da biblioteca de tudo

para fixar e fixar

teu livro fechado.


Quando me vai abri-lo,

mostrar-me o significado de todos

os difíceis termos

no léxico do amor?



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sábado, 16 de maio de 2009

Não, agora é só uma galinha


Luís Buñuel, Esse Obscuro Objeto do Desejo, 1977




Ilustração de Augusto Pontes


por Augusto César Costa


Anos 70, sábado, 10 horas, sessão do Cinema de Arte no Cine Diogo. O filme era de Luis Buñuel. Augusto Pontes sentado sozinho numa das fileiras de poltronas. Na fileira à sua frente um casal de namorados, ansiosos por entender as tramas surrealistas de Buñuel. Eis que numa cena aparece em primeiro plano uma galinha. Os namorados começam a cochichar, tentando entender o significado. Augusto se impacienta com o colóquio e diz: “Isto não é uma galinha, é um símbolo”. Os jovens silenciam assustados, mas gratos pelo esclarecimento. Cenas adiante aparece novamente a tal galinha. A jovem, toda excitada cutuca o namorado: “Olha aí, o símbolo!”. Augusto, irritado com a conversa, semeia a confusão epistemológica: “Não, agora é só uma galinha”.


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Quantas vezes eu mudei de conversa


Augusto Pontes (1935-2009), em foto de fins dos anos 70



O morcego se foi

Ontem morreu Augusto Pontes. Tinha setenta e três anos. Difícil defini-lo. Sua inteligência e seu carisma eram tremendos. Contribuiu com muitas ideias para o Pessoal do Ceará. Foi um dos idealizadores da Massafeira Livre. Um inovador da linguagem publicitária à frente da agência Scala, nos anos 80. Era profundamente irreverente. De um sarcasmo que não poupava a si mesmo quanto mais aos amigos. E, no entanto, os amigos lhe tinham uma grande e estável estima. Não era de muito sistema. Um conversador por vocação. Provocador por hábito. Aglutinador por temperamento. Nutria um saudável desprezo pela pompa que vem a reboque da autoridade, algo que lhe deve ter atrapalhado a própria gestão como secretário da cultura do estado, por breve tempo, no início dos anos 90.

A última vez que o encontrei foi em janeiro passado, num bar. Gostava de bares. De conversar em mesas. Mas nessa noite, estava um pouco consigo, mais contido que de hábito, observando amigos a disputar uma partida de bilhar. Bebia uísque. Conversamos longamente. E ele, como sempre, discorreu com grande sabor sobre muita coisa: a efervescência que era a Faculdade de Arquitetura ao fim dos anos 60; a destreza lírica de letristas como Brandão e Fausto Nilo; a magia mitológica do Bar do Anísio; o grande instantâneo coletivo da música cearense que foi a Massafeira [como evento e como álbum duplo]; de como Belchior trazia Os Lusíadas quase de cor; ou como a letra de “Apenas um rapaz latino americano” surgira de uma sua carta, em que dizia também que não tinha dinheiro no bolso nem "patentes" importantes; da importância do cinema para sua geração como atesta, entre outras, certa letra de Evangelista Moreira [Dedé]. Ao nos despedirmos, à saída, na madrugada sonolenta e chuvosa, ele encaminhando-se para o táxi, com sua inseparável bolsa de napa à tiracolo, me largou um:
-É isso, amigo, a gente se vê por aí!

Parece que a vida de Augusto era cercada de um permanente, inefável senso de anedota literária. Uma espécie de dom de inspirar arte nas outras pessoas. Um Midas de frases curtas. Ele adorava tiradas, ditos espirituosos, improvisos, blagues, blefes, analogias burlescas. E, claro, trocadilhos. Era quase um epigrama ambulante. Uma imensa presença de espírito. Difícil imaginá-lo como professor da UnB nos anos 70. Ele definitivamente estava imune à proverbial chatice acadêmica. Perdia o amigo, nunca a piada. E, no caso de Augusto isso não é bem verdade. Pois nele era quase inverossímil a vocação de ser simultâneamente mordaz e cativante. Tinha algo de bruxo. Guardava um quê de morcego em seu semblante—e assim foi caricaturado mais de uma vez no jornal.
"O comunismo acabou antes de chegar aos pobres"; "estou do seu lado, mas não me olhe de banda", "a união se faz à força"; "vida, vento, vela, leva-me daqui" (que Belchior aproveitou para verso final de "Mucuripe") são de sua lavra. Era antes de mais nada um grande phrase-maker. Daqueles que não deixavam passar nada em vão. O mínimo que fosse. Conta-se, por exemplo, que quando o músico Eugênio Leandro foi apresentado a ele, que era então secretário da cultura, durante uma audiência, disse no aperto de mão:
—Prazer, Eugênio!
Ao que Augusto respondeu:
—Prazer, eu também!

Augusto escreveu também letras de música emblemáticas. Como esta, para um tema de Petrúcio Maia [gravado por Téti e Ednardo]:

Lupcínica
Vamos acabar com essa briga, amor,
Que eu estou cansado.
Fique aqui ao meu lado e não fale mais,
Que eu estou calado.
E não balance essa chave,
Vai acordar meu remorso,
A tua bolsa guarda segredos de mim.
E por mais que eu mexa e remexa,
É você que não deixa ver
Quantas vezes eu mudei de conversa
Pra não falar,
Tantas vezes eu dobrei a esquina para não ver.
E hoje, sinto ciúmes até da tua falta,
Mas não vou mais
Matar ninguém por tua causa:
Mate-me, que eu já te matei!
Inutilmente bêbado,
Triste como um peixe afogado
Na madrugada sonolenta
De bolero em bolero,
'Acuerdame daqui a poco',
Você está com a vida que pediu a Deus.


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Mesmo acima, na senda, já não há só liberdade: Gunn


[s/i/c]


Tamer and Hawk


I thought I was so tough,

But gentled at your hands,

Cannot be quick enough

To fly for you and show

That when I go I go

At your commands.


Even in flight above

I am no longer free:

You seeled me with your love,

I am blind to other birds?

The habit of your words

Has hooded me.


As formerly, I wheel

I hover and I twist,

But only want the feel,

In my possessive thought,

Of catcher and of caught

Upon your wrist.


You but half civilize,

Taming me in this way.

Through having only eyes

For you I fear to lose,

I lose to keep, and choose

Tamer as prey.


Thom Gunn



Adestrador e Falcão


Pensei que tinha vigor

Mas sob teu toque brando

Não tenho veloz sobrevôo

Para ir longe, mostrando

Que quando eu vou eu vou

Sob teu comando.


Mesmo acima, na senda

Já não há só liberdade:

Teu amor é uma venda,

Fiquei cego a outras aves?

Tua conversa de encomenda

Me impôs grades.


Como antes, eu giro

Mergulho, parafuso,

Mas só quero o respiro

De meu zeloso impulso

De presa e predador

Sobre o teu pulso.


Assim quase me domaste,

Domesticando-me a rudeza.

Não tenho olhar que baste

Em ti, e receio a surpresa

De perder-te, ao tomar-te

De adestrador por presa.


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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quando não se orgulhar assinala para um afeto mais completo


[s/i/c]



Auto-estima não é cria de decretos, campanhas


Vou comentar o artigo de Plínio Bortolloti, hoje, em O Povo ["Por que não me orgulharia?"]. Senão, porque ele parece reforçar o eco do que chamamos de “consciência importada”. Ou, como diz Roberto Schwarz: “idéias fora do lugar”. Ou seja, um modo de pensar que toma categorias gestadas em outras latitudes e, sem a menor preocupação em filtrá-las, empenha-se no seu emprego para realidades que são radicalmente diversas.

Também porque Bortolotti é um jornalista sério: já foi ombudsman de O Povo, e a sua lista de serviços prestados à terra que tomou como de adoção não é pequena.

O mote do artigo de Bortolotti provem de um comentário, em geral desaprovador, de um texto previamente publicado por Rosemberg Cariry sobre o tema da “auto-estima cearense” ["Porque não me orgulho"].

E, no entanto, é possível entender bem o que o cineasta Rosemberg Cariry, veterano de [boa] guerra do audiovisual no Ceará—concorde-se ou não com suas premissas estéticas—pretende ao dizer que “não se orgulha de ser cearense”.

O que poucos pressentem é que o que Rosemberg quer dizer talvez implique em um afeto ainda mais complexo, mais verdadeiro e pungente pelo Ceará do que esse discurso ingênuo de auto-estimas faz supor.

E por quê? Porque, de fato, sabe dissociar a verdadeira auto-estima coletiva de ridículas campanhas que visam elevar a “auto-estima" [seja cearense, marciana ou pigméia]—a exemplo da promovida recentemente pelo grupo O Povo de comunicação, do qual, aliás, faz parte Bortolotti. Como se esse alavancamento de auto-estima fosse possível, assim, por decreto, de orelhada, instantânea e gratuitamente: “elevar a auto-estima de um povo”. Isso não se dá com slogans, marcas, campanhas ou algo do gênero. O imenso esforço de elevar a auto-estima do povo alemão, após um revés militar e um tratado de paz humilhante, deu no que sabemos bem. E foi, de resto, calcado em novos símbolos, slogans, campanhas, documentários. Toda uma nova semiose que se propunha a sacralização do rito político laico.

O ponto, aqui, é que auto-estimas não se promovem com campanhas desse gênero. Não é, aliás, “Brasil ame-o ou deixe-o”, um retorno às nefastas campanhas de “auto-estima” da época da ditadura o que, de fato, elevará o apreço e o apego que quem habita uma terra tem para com ela. Mas, do contrário, a verdadeira auto-estima requer muito ódio também [que é o amor que se revolta diante da imperfeição mal-tamanha] e, acima de tudo, todo um conjunto de transformações sociais aplicadas, e de modo mais coerente: educação pública e gratuita de qualidade (em especial no nível básico); previdência social que garanta um mínimo de perspectiva de vida, estabilidade e segurança no trabalho e justa aposentadoria; infra-estrutura pública que propicie certo conforto à mobilidade, a ida ao trabalho, ao desfrute do lazer; abertura de novas ruas, avenidas, vias-expressas; zelo pelos locais públicos: praças, parques, museus, bibliotecas; judiciário bem estruturado e ágil; níveis de segurança coletiva que nos permita estar em casa, despreocupados quanto a assaltos, sequestros, furtos; desincentivo ao uso do automóvel mediante melhor transporte público, metrô, construção de ciclovias; perspectivas de uma sociedade mais justa quanto à partição das riquezas e ao senso de interesse pelo patrimônio público; incentivo a um maior convívio com a história local; acesso à cultura e às novas mídias não por políticas que macaqueiam as americanas e européias, mas que sejam inventivas o suficiente para serem aplicadas às nossas distintas realidades e nossa diversa construção histórica. Políticas culturais, enfim, que estejam à altura de nossos processos históricos, das boas promessas neles contidos—contemplando e, inclusive, exaltando aspectos em que avançamos mais do que a América do Norte e a Europa. Pois eles existem.

Ora, é precisamente esse último item o que essas campanhas de auto-estima sequer são capazes de divisar. Ou ajudar a propagar. Por que se decalcam de categorias importadas, insuficientes, inadequadas [em parte ou nas próprias premissas].

Cariry está certo ao investir contra essas campanhas de “orgulho negro”, por exemplo. E nada há de racista em seu ponto-de-vista. Há, isso sim, um desejo de que a questão étnica seja tratada neste país de modo mais coerente e cuidadoso. Mais consequente. Ou seja, sem mimetizar acriticamente a forma como essas questões são tratadas nos países do dito Primeiro Mundo. E por quê? Porque não somos e—com um pouco de sorte—jamais seremos uma sociedade de Primeiro Mundo. Temos de trabalhar, sempre, para sermos melhores do que isso. Se há miopia, aqui, é para perceber que, em alguns tantos aspectos já o somos. Temos algo a ensinar a eles. A eles com quem só aparentemente aprendemos há cinco séculos.

Não parece razoável pensar, por exemplo, que a discriminação contra os negros se dê simplesmente por uma questão de “cor da pele” ou de uma alteridade de traços físicos. Isso soa de um simplismo sem peias. A discriminação contra os negros—e ela existe—se dá porque se associa historicamente a cor negra à pobreza, à escravidão, aos baixos níveis de escolaridade, etc. Todos esses processos também foram vivenciados—verdade que em escala menor ou menos estigmatizadora por brancos pobres, índios, mamelucos, cafusos [ou seja, por uma série de “não negros”]. E, no entanto, não é lançando mão de cotas para afro-brasileiros, na esteira da experiência norte-americana, que se vai solver ou minorar problemas por aqui.

Por que será que hoje os orgulhosos europeus—esses, sim, orgulhosos de sua cultura [e, sem dúvida, com algumas boas razões para isso, outras nem tanto]—hoje olham com outros olhos os chineses, por exemplo? Será que porque os chineses ficaram menos amarelos e mais branquelos? Antigamente, nos clubes britânicos na China havia a inscrição à soleira: “Proibida a entrada de cachorros e chineses”. Isso quando a China era uma espécie de chiqueiro da Inglaterra e os chineses morriam como piolhos na miséria das endemias e no escapismo avassalador do ópio. Não, os europeus, hoje olham com reverência a China por outras razões. Em especial, por seu imenso poderio econômico já consolidado e pela potencialidade de sua expansão tecnológica e, claro, bélica.

Desde que houve contatos entre distintas civilizações, a mais instrumentalizada tecnologicamente—como a China está esboçando sê-la num futuro não tão distante— sempre se impôs sobre a(s) outra(s).

Se, numa hipótese, no passado, os negros africanos houvessem desenvolvido uma civilização que conseguisse vencer o poderio europeu ou asiático, hoje apenas estaríamos discutindo “discriminação” sob ângulo inverso. E, aliás, eles quase empreenderam isso, com a pujança cultural e bélica dos califados islâmicos ao sul da Espanha e de Portugal, de onde os mouros ameaçaram penetrar para uma conquista de todo o Ocidente. Numa determinada época, chegaram a dominar o centro-sul da Península Ibérica, a Provença a Sicília, a Calábria. Por pouca palha isso não se espalha, barrados que foram pelos reis francos á altura dos Pirineus.

Não devemos esquecer também outros fatores. Na África Negra, a escravidão já era uma instituição consolidada e aceita séculos antes da chegada dos europeus. Negros escravizavam negros—assim como no passado brancos escravizaram brancos. Isso era prática corrente, quando os europeus lá chegaram. Foi justamente porque a civilização ameríndia não tinha a instituição da escravidão tão entranhada como um valor, que seguiu sendo tão difícil instrumentalizar os índios para o trabalho escravo. Então, por que ter orgulho de ser negro, ou branco, ou índio, ou amarelo ou azul ou cearense? Se a história, num determinado sentido é o da exploração do azul sobre o amarelo, se o azul se encontra em vantagem. Ou do amarelo sobre azul, em caso contrário?

A compositividade, sim, essa é uma riqueza. A mistura entre o azul e o amarelo, por exemplo dá no verde – que é um pouco de amarelo, um pouco de azul, mas como sensação ótica é algo distinto, próprio. E a compositividade é uma das características do Brasil.

É curioso que, pensando duas vezes, talvez sejamos um país mais justo do que os Estados Unidos no campo étnico, para ficar importando lições de tolerância e justiça étnicas de lá, vomitadas por Fundações Ford, algumas tendenciosas ONG's pseudo-ambientalistas ou pseudo-pró-cidadãs ou órgãos do gênero, ou a nossa academia tão devotada à cópia— ou ainda como faz gente como Plínio Bortolotti e tantos outros formadores de opinião neste país.

Alguns, diga-se de passagem, com razoável boa intenção, mas lamentável desconhecimento histórico de causa e cândida ingenuidade. É curioso também que nunca se propaguem campanhas do tipo: “orgulho de ser mestiço”, “orgulho de ser compósito”. Orgulho de viver num país, que, apesar de suas quase incontornáveis injustiças históricas—que devem ser apontadas e estudadas, e reparadas—permitiu, especialmente no Norte e no Nordeste que, ao contrário dos Estados Unidos, a população indígena sobrevivesse, justamente ao mesclar-se a brancos e negros, deixando traços culturais muito mais duradouros, distintos e inovadores. Um processo histórico que, ao contrário da radical chacina dos índios nos Estados Unidos,--e os poucos sobreviventes foram logo segregados nos guetos das reservas-- o índio, como o negro brasileiro, esteja culturalmente muito mais ao centro da cultura brasileira. No caso dos índios, que eles tenham sobrevivido pelo simples fato de uma boa parte dos brasileiros ter algo de índio. Descender deles. E o índio compor então um largo contingente entre os cidadãos brasileiros. E não uma minoria que mereça proteção especial, como uma criança que não sabe cuidar de si ou o mito do bom-selvagem de Rousseau.

Textos, como os de Bortolotti, que defendem essa “consciência importada”, sem qualquer ocupação crítica com suas linhas, parecem exemplificar o que discutimos AQUI.




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