quinta-feira, 1 de março de 2012

De Novo Joris Ivens e um Pouquinho de Hanns Eisler

Joris Ivens operando uma Philips à manivela [década de 1930]

Uma nova versão de Regen foi lançada. Pode-se vê-la, aqui, no Youtube. A versão vem restaurada, limpa de ruídos na imagem e com uma outra música de fundo. São doze minutos e meio de dois meses de filmagem que fazem as vezes de um único dia de chuva na Amsterdam do final dos anos 1920. O documentário é também um dos exemplos mais bem acabados daquele cacho de filmes conhecido como Sinfonias Urbanas. Para uma notícia sobre ele, aqui.

*

SOBRE EISLER COMPONDO PARA REGEN E UM POUCO MAIS
A "outra" música que pontua o filme é nada menos que as 14 maneiras de descrever a chuva [14 Arten den Regen zu beschreiben], de Hanns Eisler. Eisler a compôs em 1941, sob medida para Regen, que foi feito doze anos antes. E, não obstante, as cópias do filme com a música de Eisler editada foram perdidas num incêndio. E não se sabe ao certo como se dava a sincronia entre música e imagem. O que se tenta reproduzir dessa relação é suposição. Ou aproximação. E houve cuidadosa pequisa no Instituto de Cinema dos Países Baixos. De resto, Eisler dedicou a peça, considerada uma pequena obra-prima dodecafônica, a seu professor, Arnold Schöenberg. Talvez soe vanguardista e dissonante demais para alguns ouvidos. No entanto, é preciso entender que Eisler foi não só um dos grandes compositores para cinema, como um teórico do emprego da música na imagem. Viveu assim na tênue encruzilhada entre música erudita e popular [ou de massa, se quiserem]. E busca impregná-las reciprocamente. Chegou a co-escrever com Adorno um livro chamado O Cinema e a Música, que é lido até hoje - embora a tradução mais próxima por aqui esteja em espanhol [El Cine y la Música]. Até certo ponto, Eisler rejeitou a vanguarda, o modernismo e a música experimental ou dodecafônica, dedicando-se à composição de música "ligeira", para cinema, teatro e cabaret. O ponto é que o que ele considerava "ligeiro", despretensioso, ainda é música de um extraordinário valor. À altura, inclusive, de compor um panorama da Shoah e do exílio. Este último assombrado pelo macartismo, que precipitou seu retorno para a Alemanha (Oriental). À sua vez, deve ser relativizado esse distanciamento de Eisler da vanguarda mais cerrada.  Ele apenas abriu-se a novas vertentes, para o pesar de Schöenberg [que o considerava seu discípulo mais talentoso ao lado de Alban Berg e Anton Webern]. À música dos cabarets e teatros de revista, o jazz, etc. Mas, por outra trilha, Eisler nunca abandonou de todo sua formação erudita e seus vínculos com a vanguarda. O que lhe levou inclusive a escrever uma série de peças (Zeitungsausschnite, Opus 11, 1934) cujas letras eram adaptadas de notícias de jornais. Entre as muitas trilhas que compôs encontra-se a de Nuit et Brouillard [Noite e Neblina], o emblemático documentário de Resnais. A versatilidade de Eisler pode ser aferida nestes momentos youtubeanos:

i.
Eisler compôs Três Peças para Orquestra [Drei Stücke für Orchester] para um outro documentário de Ivens [Os 400 Milhões], que trata da Guerra Sino-Japonesa. Porém tão melancólica, heróica, expressamente cinemática é a Suíte Para Orquestra Nº5 Opus34, escrita para o filme Dans le rues, de Victor Trivas (1934):
[Duração: 19min47s]

ii.
Um tema de Eisler originamente intitulado An den kleinen Radioapparat [Ao Pequeno Aparelho de Rádio ou Ao Radinho, se quiserem], foi tomado por Sting  que lhe acresceu uma letra em inglês e gravou como faixa de seu álbum Nothing Like the Sun (1987), sob o título de "The Secret Marriage". A letra de Sting, em seu fluxo, nada tem a ver com a original, que está reproduzida (junto com sua tradução) mais abaixo, é de Brecht, e reporta-se às vicissitudes de um exilado - presumivelmente judeu - que, na solidão, dialoga com o próprio rádio: 
E para analogia, o original An den kleinen Radioapparat [numa gravação ao vivo apenas razoável]: 
http://www.youtube.com/watch?v=EX4W1RvO-pg&feature=related
[Duração: 47s]
Para uma boa gravação, com uma versão em inglês da letra, mas que preserva da composição original a urgência e o piano solo: 
http://www.youtube.com/watch?v=xuGK7fOVXlY&feature=related
[Duração: 1min24s]
Para uma versão jazzística, com típica sonoriade ECM, década de 80: 
http://www.youtube.com/watch?v=hjnhDkiiGwU
[Duração: 4min32s]
Ou ainda para uma versão com violões folk e vozes:
http://www.youtube.com/watch?v=nOx8UWnEdAU&feature=related
[Duração: 1min09s]

iii.
Um breve trecho de suas Peças de Piano Para Crianças [Klavierstücke für Kinder], que alguém sobrepôs a um pré-cinema de Muybridge: 
[Duração: 29s]


Eisler musicou muitos poemas do alemão contemporâneo. Em especial, de Brecht, com quem manteve estreita colaboração. Conta, assim, entre os mais copiosos compositores de Lied do século passado. Aqui segue um deles, Im Blumengarten [No Jardim das Flores]: 
http://www.youtube.com/watch?v=-NRYdG88sjg&feature=related
Ou ainda em sua forma mais característica [voz/piano] neste L'Automne californien: 



An den kleiner Radioapparat

Du kleiner Kasten, den ich flüchtend trug,
Dass seine Lampen mir auch nicht zerbrächen,
Besorgt von’ Haus zum Schiff, vom Schiff zum Zug,
Dass meine Feinde weiter zur mir sprächen,

An meinem Lager und zu meiner Pein,
Der letzten nachts, der ersten in der Früh,
Von ihren Siegen und von meiner Müh:
Versprich mir, nicht auf einmal stumm zu sein!

Bertold Brecht


Ao Pequeno Rádio

Tu, pequena caixa que tomei na fuga
Para que tuas válvulas não quebrassem,
Cauteloso fui de casa para o barco e para o trem,
Enquanto meus inimigos me atalhavam,

Concentrado no campo e em meu pesar,
Ontem à noite, no primeiro amanhecer,
A cada vitória deles e aflição minha,
Promete não calar um só minuto.


Há  outras duas soluções de trilha sonora no caso de Regen. A mais recente, a do guitarrista americano Larry Marotta, que possui um disco apenas de trilhas compostas para documentários de vanguarda dos anos 1920 aos 1950, escritas da distância que décadas propiciam - um exercício, de resto, bem interessante. E há também uma partitura de 1932, escrita por Lou Lichtveld, que se encontra nos créditos originais do filme. Mas não é revelador que essas trilhas sigam se acumulando ao longo do tempo? Elas parecem indicar o desejo de diferentes épocas: pontuar com música - ou criar uma diferente moldura musical - para a mesma sintaxe de imagens. A necessidade de cada tempo participar do tempo do filme.

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário