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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Repertório de Natal?

Assis Valente na década de 1930

Que tal Assis Valente, sambista de muito sucesso nas décadas de 30 e 40, nascido na mesma pequena cidade santo-amarense de Caetano Veloso? Baiano mas com todo o suingue, a astúcia e a gíria cariocas. Compositor de “Camisa Listrada”, “Brasil Pandeiro”, e de um sem número de outras canções que cantamos como hinos. Gravado por João Gilberto, Carmem Miranda, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Novos Baianos, Adriana Calcanhoto, Fagner, o próprio Caetano, entre tantos outros. 

(Aliás, a propósito do malogrado fim do mundo (supostamente) Maia, essa deliciosa versão de "E o mundo não se acabou" com a não menos deliciosa Paulinha Toller):




De Santo Amaro, onde foi criado como filho adoptivo, passou a Salvador. Na capital da Bahia, cursou o Liceu de Artes e Ofícios. Em seguida, a reboque de um circo mambembe, o Rio, onde trabalhou como protético e chegou a ganhar alguns trocados como desenhista, antes de compor os primeiros sambas. O famoso Heitor dos Prazeres foi um de seus incentivadores. Depois, foram sucessos encarrilhados. Alguns na voz de Carmem Miranda e consagrados em Hollywood. É lendária sua facilidade tanto para compor sambas quanto para vender-lhes a autoria ao preço de uma rodada de chope.

Assis Valente suicidou-se ao ingerir formicida num banco de praça. Era um fim de tarde tranquilo e quente, março de 1958. No bolso de seu paletó havia um bilhete sentimental. Ele se encontrava endividado até a raiz dos cabelos. Já havia tentado sem sucesso pular do Morro do Corcovado e topado com a má sorte de cair sobre uma copa de paineira, que amorteceu-lhe a queda. Era negro e pobre, uma combinação um tanto letal à época. E, como se não bastasse, em algum lugar também comenta-se de preferências sexuais heterodoxas e mal resolvidas. Tinha 47 anos.

Valente é autor de um tema de Natal, “Boas Festas”, perto de tão popular quanto “Noite Feliz”. Foi composto originalmente para o Natal de 1933 e, portanto, completará 80 anos, em 2013. E não deixa de ser estranho que essa canção seja incluída em coletâneas de música de Natal. E que ao escutá-la na infância, pelo ritmo e a melodia, passe um tanto despercebida, em meio às demais. E só quando chegamos à mais idade venha a percepção de sua distinção, ao atentarmos para a letra.


Poderia ser a versão de João Gilberto. Mas vamos de Maria Bethânia: 




UM FELIZ NATAL PARA TODOS!

sábado, 1 de dezembro de 2012

O que do Rei não perdeu a majestade


A Via Anchieta (São Paulo-Santos), em 1969, ano da composição de "As Curvas da Estrada de Santos" e da inauguração dessa estrada, que, ao que tudo indica, não é a da canção.

Há os que dizem, no entanto, que a estrada da canção é, na verdade, a chamada Estrada Velha de Santos (foto), já desativada, e que também corta a Serra do Mar entre São Paulo e Santos.

A Rio-Santos (BR-101, que depois emenda com a SP-55), cortando uma das mais belas paisagens litorâneas do país, parece ser a estrada de "As Curvas da Estrada de Santos". Ela passa por locais paradisíacos como Angra dos Reis, Paraty, São Sebastião e Ilhabela. E o que não escasseiam são curvas. Dirigi por essa estrada  em duas ocasiões. Na primeira delas,  em 1997. Inclusive ouvindo "As Curvas da Estrada de Santos", num determinado momento. 

Lembro que a primeira vez que fui ao Rio o clima estava ameno, com ares de inverninho, embora já fosse outubro. Chovia quase todo dia. E o dia todo. E, pela noite, as minas do Leblon iam para os barzinhos de gola roulé: 14ºC na Cidade Maravilhosa. No mínimo era algo mediterrâneo, mas parecia até mais. Quer dizer, até menos no termômetro. Era o cúmulo. Eu saíra de São Paulo com o desejo febril de pegar uma praia, e levara um calção de banho na mochila. Sem chance. Inútil paisagem.
O Cristo permanecia encoberto, lá em riba, por brumas que, com certeza, eram mais espessas que as de Avalon. O Centro antigo da cidade revelou-se uma maravilha. E entrar em certos locais - a Leonardo da Vinci, a Colombo, o Gabinete Português - um sonho. E os serviços, em geral, um pouco mais bagunçados que em São Paulo. E, no entanto, parecia que definitivamente a gente estava mais no Brasil. Desde que o samba é samba, etc. 
Especialmente na Lapa, à noite, num boteco contemplando os arcos. E imaginando ao tomar umas e outras, as outras mesas ocupadas também por quem já as haviam ocupado: Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Sérgio Buarque, Noel Rosa, Mário Lago ou Madame Satã. Havia grupos de chorinho no Carioca da Gema. E num tempo em que era impossível manter-se sóbrio por mais de oito horas.
No Bairro Peixoto, ali entre Copacabana e a montanha, onde me arranchei, todo mundo parecia morar em prédios de apartamento. Havia padarias, praças com playgrounds, babás de avental, crianças, totós, lulus e uma sossegada ambiência de bairro, além de belas garotas debaixo de pulôveres e cardigãs, voltando da faculdade. Por conta disso, dessa onda de frio temporã, o meu Rio de Janeiro, para todos os efeitos e até hoje, ficou sendo uma cidade “temperada”. Uma cidade à beira das ondas. Porém meio fria, como Floripa. E que nem sempre dá praia. 
Mas, então, certo fim de tarde, em que o sol abriu com mais pormenor e promessa, fomos caminhar pela Urca, com um olho na marina, outro na enseada, um terceiro no Pão de Açúcar, etc. Há muitas direções para se olhar em quase qualquer parte por onde se passa no Rio. E foi então que alguém disse apontando para um condomínio antigo, de não muitos andares:
-O Roberto Carlos mora aí.
Imediatamente começamos a cantar: “Se você pretende saber quem eu sou...” E depois, emendamos, com “As Canções que Você Fez Pra Mim”; e, em seguida, tornamos a “Quero que vá tudo pro inferno” - esta cantada com uma particular ênfase. E a coisa foi rendendo pelo menos até o Cassino, sob o qual passa a avenida do bairro. O prédio foi recuperado recentemente. Mas à época encontrava-se fechado. E com aquela autoridade muda de quem viu coisas do arco da velha. Mas ainda não era propriamente o inferno. E estávamos quase dois meses entrados na primavera.
E, logo, a noite veio caindo sobre aquela cidade cinza e fria, úmida; de montanhas e mar. Quase tão inóspita quanto Liverpool.
*
À semelhança dos Beatles, Roberto Carlos é um gênero musical. Uma espécie de ubiquidade brasileira. E, no entanto, não todo ele, mas expressamente o que registrou os discos que vão de meados dos 60 até dez anos adiante, e a constatação de que "É Preciso Saber Viver", aí por 74. 
Oito a dez álbuns para antologia. Ou, por outra, muito ao pé do ouvido, aqueles bolachões gravados de 68 a 72, ouve-se praticamente sem ter de pular faixa. Eles respondem por uma onda meio soul, com órgãos Hammond cumprindo solos, guitarras e violões base descoladíssimos, além de certos empréstimos vindos não só dos Beatles ou dos jovens cantautori italianos, mas sobretudo em linha reta da Motown - caso dos naipes de metais e seus ataques incisivos ou dos coros femininos em modo soul. Um suingue que vibra no corpo de cada instrumento. Algo também cristalizado em composições de Tim Maia registradas pelo Rei, mas não só. Uma actualidade fascinante. E gestada pelos melhores session musicians brasileiros - o que não é pouco.
Isso para não falar daquela ambiência um pouco sombria, existencial, de uma sopesada angústia, que salpica as letras dessa fase. Letras ditas numa voz levemente nasalada, mas limpa e distinta, embora carregada de pesar. Desassossego de quem aparentemente ganhou na vida mas perdeu no amor. Tristeza de amor recolhido, que sabe bem: merecia mais. E então semeia dobras de blues na voz. Nem todas são de autoria de Roberto Carlos, ou são parcerias com Erasmo, mas invariavelmente soam como se fossem. E, sem embargo, há coisas ali que já pedem orquestra, mas são levadas à base de guitarras, baixos e tambores, como “As Flores do Jardim de Nossa Casa”. E muito bem levadas.
Ou atravessando a planície dessas levadas, noutra direção, chega-se a certa sensação de inevitabilidade, abandono, que é plasmada, por exemplo, na neurótica “Agora Eu Sei”. Há paixão, violência e juventude, como nas “Curvas da Estrada de Santos” ou em “Sua Estupidez”; ou de forma mais direta e ingênua em “Nasci Para Chorar”, "Se você pensa" e "Quero que vá tudo pro inferno".¹ E há os grandes hinos românticos: “Como Vai Você”, “De Tanto Amor”, “Detalhes”. E há já revisões prematuras e uma atmosfera amarga, densa, fatalista e até uma citação na maior delas: “As Canções Que Você Fez Pra Mim”.
E dá vontade, mesmo a nós, que não sabemos fazer canção ou sequer concluir uma progressão em ré maior ao violão: trancar-se num estúdio, dia após outro, por pelo menos uma hora, ao longo de meses. E aprender a tocar, e gravar uma porção de canções bacanas, que a gente bolou para quem nos quis. Para quem nos quis nem que pelo espaço de quinze minutos.²
E, no futuro, então, esse "quem nos quis", possa, assim, imediatamente lembrar de nós, quando, ao acaso, escutar as canções que a gente fez. Ou mesmo se um outro cabeludo aparecer. Talvez. O certo é que éramos todos cabeludos. O que quase ninguém é mais. E aparecíamos mais nas casas uns dos outros. Ou mais para o mundo também, de acordo com a disposição, o empenho e o talento de cada. Mas certamente todos sonharam ser Roberto Carlos um dia. Até Chico Buarque confessou isso. E, afinal, já havia um Roberto Carlos entre os detentos de Pixote, o filme de Babenco, que é de 1981. Acreditem.
Alguns desses  candidatos a Roberto Carlos, alguns desses Roberto Carlos virtuais, aliás, já estão calvos. Outros trabalham na Receita, na Petrobrás, no Banco do Nordeste. Um é já Professor Emérito na Universidade Federal. Outro perito forense. E todos já contam os dias para se aposentar, coçando os ventres proeminentes. Depois, evidente, virá o pijama de bolinhas, a casaca de madeira. Morte de facto. Porque a morte de direito, sabemos, já está aí de há muito. Entre nós. Mascando as tardes. Comendo pelas beiradas. A comandar, pós-graduar, bacharelizar nossos dias.
Mas, para além, outros ainda optaram por carreiras menos ortodoxas: são curadores de arte, videoartistas, dão palestras, concorrem a editais e mantém ONG's. (Estes, já meio calvos, grisalhos, um pouco raquíticos é verdade; mas com o indefectível rabinho de cavalo e, se possível, cavanhaque ou aquela barba rala e meio sebosa). Um dos mais brilhantes morreu de cirrose. Mas a vida segue. Uma das mais brilhantes foi parar na Dinamarca. E lá comeu o pão que Hamlet amassou. Outra foi morta no cruzamento da Padre Antônio Tomás com Via Expressa, na estupidez de um assalto. É, a vida segue. 
A ideia das gravações, no entanto, parece auspiciosa. E especialmente porque nunca foi tão fácil gravar. E compartilhar - esse verbo, sórdido, no sentido tal qual foi pinçado pela moda - o gravado com quem de direito.
Agora, auspiciosa mesmo era a própria música de Roberto Carlos entre 68 e 72. Acontece que quase nunca era como a ouvíamos, porque ela fazia muito sucesso. E se não atentávamos para sua imensa qualidade e capacidade de companhia, era porque ela dissolvia na paisagem. Ficava camuflada, como o Platypelis grandis ou o Gongylus gongylode. Dissimulada, lá, onde não existia a distância do senso e do crítico. Mimetismos. Escondia-se entre o riso da garota e a onda quebrando contra o casco da canoa. O bustiê cobrindo só em parte, e a primeira vez em que a gente disse o nome. Os quadrinhos de Disney e o Sítio do Pica-Pau Amarelo - ainda o livro. A primeira Coca-Cola e os casais evoluindo na pista de dança do clube, com um terraço abrindo-se ao rio. Como um gênero que rodava diferente dos demais. Talvez para um outro lado, em dissimulação; e, por isso, não devêssemos nos ocupar dela.
Anos depois, já mais crescidos, se quiséssemos um pouco mais de sofisticação harmônica, era bandear-se para a Bossa Nova, Jobim, Edu Lobo, os mineiros. Se quiséssemos mais das letras: Vinícius, Caetano, Chico, Fernando Brant, Belchior. Se o caso demandasse mais a presença de pura música: Baden, Hermeto Paschoal, Gismonti. Ou se balanço, o caso fosse: Luiz Gonzaga, Jackson, Simonal, Jorge Ben – que depois trocaria de nome. Nas vozes, havia Elis e Milton. E para aprender algo com uma sensibilidade de saias: Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Sueli Costa, para além de Rita Lee.
Tudo muito claro no Panteão, na Sala de Justiça, exceto o seguinte: havia uma zona que era distinta de tudo isso e, ao mesmo tempo, podia nos receber com opulentas canções. Um estado da federação da música que era bem menos demarcado que esses outros estados, e pelo simples fato de estar sempre presente. 
Um estado de espírito, que nascera no Espírito Santo, mas sua capital desde sempre fora o Rio, essa cidade fria e cinza, como depois constataríamos. E sua melodia passava soando ao fundo de tudo isso. Trilhasonando tudo. Esse filme editado na íntegra, que era a vida da gente, e que rodava por muito longe da Estrada de Santos, com suas curvas bruscas. Mas, ainda assim, talvez mais perto do que se imaginava. Pois quando se passou em frente à casa dele, na Urca, pela primeira vez, cantou-se “As Curvas da Estrada de Santos” quase em piloto automático. Numa homenagem não menos sincera que anônima.
Roberto Carlos Braga. Um estado de espírito, que nos acercava desde o serviço de alto-falantes no interior – com sua pracinha e as meninas circulando à volta. E depois pela Feirinha do Bairro de Fátima, já na capital, passando pela Volta da Jurema. Ou uma célebre Praça Portugal, que ficava acesa até o dobrar da madrugada. Atravessando esses espaços, assim como a sala de casa, e seguindo até o pátio do colégio com sua algazarra, à hora do recreio. Ali também esteve o Rei. Nas festas de família e aniversários. E, depois, na faculdade. Nas reuniões de músicos e poetas no CA da Psicologia, trepado num sobrado que imitava um castelo, ainda que caindo aos pedaços. E posteriormente no mall, mais bem cuidado e macio, calçado a granito polido, dos primeiros shopping centers. Ou, antes, dos barzinhos da Praia de Iracema. Ali, Sua Majestade esteve também. Assim como nos exílios: lá fora ou em Santas Cecílias,  Belas Vistas, Vilas Clementinos, Perdizes, Pompeias, Florianópolis. Uma ubiquidade majestosa, egrégia, que respondia por uma trilha sonora mais ou menos natural disso tudo. Ou seja, de nossas vidas, lugares. Cicatrizes. Canudos e Vietnames da alma. Eldorados. Carandirus, onde atuamos ao mesmo tempo como os detentos, os agentes prisionais e a polícia de reforço. Cotidiano mais impressentido. 
E, apesar de tudo, ainda é nosso dever tentar triar trigo, joio. Mesmo que sabendo: o buraco é mais embaixo nesses casos a joeirar. E é por isso que não se deve abrir mão de acercar-se de certos sedimentos preciosos. E por divisar neles uma fase mais luminosa. Como nessa galáxia Roberto Carlos, a constelação que responde pela fase 68-72. 
É possível, no entanto, que uma das maiores dificuldades em ser Roberto Carlos, deva ir pela solidão. E, aqui, a coisa não é tão simples. Não é só a impossibilidade de ir a locais públicos. Afinal, há viagens e outros países. É mais que isso. Quer dizer, por exclusão, Roberto Carlos não pode ter por ídolo a figura que o resto do país tem: Roberto Carlos. Isso é que deve ser terrível. Perguntado por artistas que admira, ele cita Chaplin, os Beatles, Elvis Presley, Nelson Gonçalves, João Gilberto, Tito Madi. Mas também há um outro, sempre mencionado. E que vem até antes de todos esses outros. Este ninguém mais quase conhece: Bob Nelson. 
Bob Nelson, o Vaqueiro Alegre, era o nome artístico de Nelson Roberto Perez, um cantor de Campinas, que fez algum sucesso à época do rádio. Vestia-se como um caubói dos filmes, gravou uma versão de "Oh! Susanna" em português e misturava ritmos sertanejos à música country com influxos do yodeling. Em 1974, Erasmo Carlos gravou uma canção (feita em parceria com Roberto) em sua homenagem: "A Lenda de Bob Nelson". Perez morreu em 2009. Mas foi quem despertou num jovem capixaba de nove anos o desejo de ser músico. E cumpriu, assim, um papel de fundamental importância: ser o Roberto Carlos de Roberto Carlos. 
E seguem, por fim, de chapéu nas mãos e cachimbo na boca (só pelo charme, mas devidamente apagado), dez motivos para celebrar a grandeza de Sua Majestade:


É difícil olhar o mundo e ver” -
As Canções Que Você Fez Pra Mim” (1968) -

Peça alguém pra me contar sobre seu dia”-
Como Vai Você” (1972) –

Se você pretende saber”
As Curvas da Estrada de Santos” (1969)

Você vai ter que ouvir” -
De Tanto Amor” (1971) -

Na longa estrada do tempo que transforma todo o amor” -
Detalhes” (1971) -

Quem sabe menos das coisas, sabe muito mais” -
Agora Eu Sei” (1972) -

Conte ao menos até três” -
Sua Estupidez” (1969) -

Relembro a casa com varanda” -
O Divã” (1972) -

Não me interessa o que de mais existe” -
Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” (1965) -

Sem resposta, digo adeus e vou-me embora” -
Nasci Para Chorar” (1964) -

Uma saudade imensa, de alguém que pensa e morre” -
E Por Isso Estou Aqui (1967) -



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¹Reza a lenda que o então Arcebispo do Rio de Janeiro protestou junto ao jovem cantor contra esse negócio de mandar tudo pro inferno. E, então, no disco seguinte, Roberto, um hábil conciliador, abria o álbum dizendo justamente que daria o seu amor, mas também o céu à amada ("Eu te darei o céu"). De outro modo, aos poucos os arranjos foram perdendo essa pulsação soul para ganhar em sofisticação até resvalarem, como os 70 a meio, para algo mais previsível e francamente kitsch. Em "Detalhes" essa opulência dos arranjos conhece um auge. E pode-se dizer que os detalhes estão até mais na música que na letra. A onda, então, já é mais latina, menos Motown. E há um bocado de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma procissão de pequenos solos, provindos de xilofone, cordas, piano, flauta e violão.
²Agora, imagine - ainda que só por um pouquinho - que esse "quem nos quis", não refere tão só a cada um, individualmente, mas a toda uma geração. Aquela geração que cresceu ouvindo as canções que Roberto Carlos fez para nós, e que não quer, de jeito nenhum, abrir mão delas em nome de qualquer cinismo mais rasteiro,  das distâncias e ironias, ou de uma insidiosa maturidade pós-graduada. Pois já nos basta haver crescido no espaço estreito, no gargalo existencial entre o Golpe de 64 e o impeachment de Collor. Ou levar nos ombros o karma e a canga de ter de oscilar - modo maniqueísta - entre o Pasquim e a UDN. Ou entre células de guerrilha e o General Mourão. E, então, ler entrevistas com todos aqueles exilados de esquerda, quando ainda estavam lá fora, aí por volta de 1979. E cheios de uma atenciosa e ingênua esperança: a de eles serem, de facto, diferentes. A de as coisas só poderem ir para muito melhor, quando voltassem. E só para depois perceber concretamente quem eles eram. Quem era Miguel Arraes em Pernambuco ou Leonel Brizola no Rio. E o grau de aliança espúria que tinham de fazer para governar. Ou, ainda mais recentemente, José Dirceu ou José Genoíno. Ou as pensões estatais de Jaguares, Ziraldos, e por aí vamos. E entender, então, o grau de patriciado, de reserva de mercado da esquerda, que esse pessoal compunha e compõem. Ou seja, com poucas e notáveis excepções, o modo como eles praticamente apenas constituem a outra face do mesmo patriciado de direita. Só que na esquerda. Com um discurso de esquerda. E, no entanto, com os mesmíssimos vícios e cacoetes dos políticos de direita: privilégios, clientelismo, corrupção, tráfico de influência, etc. E inclusive com  várias dessas prerrogativas mantidas no exterior, quando foram banidos. Quer dizer, mantidas não a todos, evidente, mas à elite desses exilados, já que os privilégios não se estendiam à maioria daqueles que amargaram essa experiência traumática do exílio. E que, portanto, viveram-na sem as benesses reservadas a essa suposta "elite do bem", a esses "estadistas ilustrados", reunidos à força no exterior - e dela fazia parte, não esqueçamos, um futuro presidente eleito do país. E, quem olha assim, apressadamente, ainda hoje, até julga tratar-se de estadistas. Porém, entre os próprios exilados há quem discorde, e denuncie a comodidade de fazer parte dessa elite no exílio. É o caso de Sérgio Kokis, um dissidente brasileiro que inicialmente morou na França, e depois migrou para o Canadá. Kokis trabalhou muitos anos como psicólogo e acabou naturalizando-se. Ele é hoje um dos principais escritores do Québec, expressando-se em francês. Guarda, contudo, uma visão muito pouco lisonjeira da elite de esquerda brasileira no exterior. Visão que ele vaza para o próprio Brasil enquanto projeto social ou construção histórica. Seu ponto de vista, todavia, é praticamente desconhecido por aqui. Talvez porque não haja interesse que seja divulgado. Ainda que somente para ser discutido, ou mesmo contestado, relativizado - pois há ressentimentos pessoais e de classe a descontar em casos assim - seria importante que fosse conhecido. Os curadores de Bienais do Livro ou de encontros e simpósios literários, no entanto, preferem empenhar-se na vinda de intelectuais estrangeiros - por vezes de um peso até menor - mas desde que não incomodem tanto a esse cardinalato de esquerda ou a seus herdeiros políticos. 
Não haveria, aqui, algo de mal resolvido? Ora, especialmente num momento de inquérito, como o nosso - de revisão, em que arquivos são reabertos e há grandes gestos pós-anistia, no sentido da apuração da justiça - outra forma de apurar essa justiça não seria conhecer melhor - e de modo mais matizado - a história desses brasileiros no exílio? E especialmente do ponto de vista daqueles que não compunham propriamente o núcleo ou mesmo a periferia dessa elite? Ainda hoje quando se fala em pluralidade, infelizmente parece não se falar em algo que seja amplo o suficiente para entrar em escrutínios que possam manchar a imagem da esquerda institucional. Como se pluralidade fosse sinônimo ou monopólio dessa esquerda institucional. E tudo isso não indica, no fundo e apenas, o quão próximo encontram-se a direita e a esquerda no Brasil?

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

As Melhores Virtudes: the Grateful Dead

John Huston, The Misfits, 1961


Please forget you know my name


Se há um grupo que sintetiza as melhores virtudes americanas da compositividade, de algo um pouquinho mais mestiço, californiano, que aponta e aposta à fronteira e ao futuro bebendo nas fontes, esse grupo deve flutuar entre Crosby, Stills & Nash e o incrível Greateful Dead. Naturalmente menos careta que aquele patriciado puritano e auto-suficiente da Nova Inglaterra, do Leste em geral, esses grupos guardam uma pulsão tão forte, inexcedível de terra e gente combinadas em lugares e momentos do agora, que sua dinâmica musical revela - por despojamento e simplicidade - algo muito mais sofisticado que a aparente sofisticação um tanto mercadeada e afetada dos grupos britânicos em geral. Há uma proximidade, uma familiaridade com o assunto tratado, que, quem as despreza, não faz mais que entregar um punhado de pérolas aos porcos. Fico pensando como devia ser para esses caras que entendiam por dentro o ritmo, a dinâmica harmônica, lírica e melódica de seu povo, verem a sua música assumida – e mesmo conduzida – por outros que dela faziam, às vezes, uma qualquer outra coisa. Como uma espécie de “forró universitário” diante do “pé-de-serra”, se me entendem. 

Para todos os efeitos, toda vez que o Dead tocava, o “pé-de-serra” deles ganhava desdobramento e modernidades:



domingo, 18 de novembro de 2012

Alguma Música para o Final de Ano e Natal (Edição 2012 – Ano 2)


Carl Theodor Dreyer, Ordet (A Palavra), 1955 


Jean-Baptiste Lully (1632-1687) - o florentino pobre e auto-didata cujo talento levou-o a ser superintendente da música de câmara da corte de França. Libertino, teve casos com mulheres e homens. Segundo alguns, com o próprio Luís XIV - o que é disputado. Era também bailarino. Morreu da gangrena que sobreveio após ter acertado os dedos do pé com o bastão com que se regia à época (marcando com pancadas no chão). Sua música é caracterizado pela prevalência do baixo contínuo. Como nest'As Folias de Espanha:
Há um filme sobre sua vida: Le Roi Danse (2000)

Dietrich Buxtehude (1639-1707) - é o dileto precussor de Bach e expressamente dedicado à temática sacra. Esse compositor teuto-dinamarquês, que também era organista e um fervoroso luterano, chegou a acolher Bach em sua casa. Dele ouviremos um Magnificat (ou seja, um canto de louvor à Virgem por carregar em seu ventre o Salvador. Concretamente, o Magnificat designa o encontro de Maria com sua prima Isabel, então grávida de João Baptista): 

Monsieur de Sainte Colombe (1640–1700) – há um belo filme sobre este compositor chamado Touts le matins du monde. Provavelmente quase todo o filme é ficcional, pois perto de nada se sabe deste compositor da Aquitânia que aparentemente viveu nas cercanias de Pau e era protestante. No filme, Sainte Colombe é retratado como um jansenista recluso. Sainte Colombe foi um dos expoentes da viola da gamba, instrumento que precedeu o violoncelo. E é a peça Le Pleurs (O Pranto) para viola da gamba solo que ouviremos agora. A peça faz parte de um conjunto de temas chamados de Tombeau Les regrets (Tumba dos Lamentos):

Johann Pachelbel (1653-1706) – compositor alemão que viveu ao tempo de Bach. É mais conhecido pelo Cannon in G, que apresentamos ano passado. Este ano, dele ouviremos, uma peça que é uma das favoritas, a Partita "Christus, der ist mein Leben". O tema retorna e é glosado várias vezes em fuga. Esta peça macia, exulta alegriaª, serenidade, fé e tem, especialmente em seu início, a estrutura de um hino devocional:
http://www.youtube.com/watch?v=zNFt0jPAd58&feature=my_liked_videos&list=LL3cA86tI6hSRDhagTdcap6A

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ªÉ provável que o conceito de alegria em música para o brasileiro seja algo tão vinculado a ritmos fortes em andamentos acelerados, que deve soar estranho dizer que este tema é alegre. Mas a alegria é algo que pode ser conduzido também pela melodia, e até comportar um marcante senso de serenidade. Como nesta peça. 

Marin Marais (1656-1728) –  compositor francês especialista em viola da gamba. Foi aluno de Lully e do Sieur de Sainte Colombe. Dele, optamos por esta Chaconne para Viola da Gamba Solo - o violoncelo com seu timbre tendendo ao grave e a grande extensão é um dos naipes mais encorpados, e era também o instrumento de Villa-Lobos. Às vezes, é possível ouvir essas peças solo como uma conversa, com suas pontuações inflexivas, perorações, redundâncias, interjeições, apelos, perguntas, ênfases, exultações, súplicas, etc.:

Phillip Heinrich Erlerbach (1657-1714) – compositor alemão ligeiramente anterior a Bach. Uma Cantata de Natal em estilo algo pomposo, que lembra o de Händel:

Antonio Vivaldi (1678–1741) - o padre ruivo florentino dispensa apresentações. Seguem seu Concerto de Natal para Dois Trumpetes e Baixo Contínuo e, num segundo momento, o magnífico Concerto Grosso em Sol Menor RV578, com sua abertura estacada e a característica vivacidade, os dramáticos contrastes, a paixão, certa atmosfera de inexorabilidade tão característicos da música vivaldiana. Há de geométrico e frio na música de Vivaldi. Algo de cálculo. E, no entanto, um dramaticidade que não se encontra em lugar algum. Possivelmente o mais importante compositor do barroco, depois de Bach:

Francesco Manfredini (1684-1762) – discípulo do anterior, compôs extensivamente. Este músico nascido em Pistoia passou uma fase de sua carreira na corte de Mônaco. Dele ouviremos um Concerto de Natal em estilo vivaldiano:

Georg Phillip Telemann (1681-1767) – músico germânico contemporâneo de Bach. Dele escolhemos a Ária de seu Oratório de Natal: "Hirten aus den goldnen Zeiten":

Georg Friedrich Händel (1685–1759) - outro que dispensa apresentação. Selecionamos a Suite I da Water Music. Esplêndida e solene como só Händel, que foi também um mestre do gênero Oratório. E em especial a introdução dessa belíssima peça. Händel, Lully e os violistas franceses constituem os momentos de música leiga. Mas no barroco ainda não há suficiente descolamento entre medieval e moderno, e, portanto, toda a música barroca, mesmo a mais profana, é percorrida por um sopro de fé e celebração. Há nela uma pulsão para a comensalidade - e, logo, para a comunhão - porque o ser, súdito de um Senhor tão desmedidamente superior, nivela até mesmo as rígidas hierarquias sociais de então:

Pietro Locatelli (1695 –1764) – compositor e virtuose precoce do violino. Dele, para nossa coletânea predominantemente de música para o Natal, um movimento (V. Andante) de seu Concerto de Natal, onde a semelhança vai por Acangelo Corelli. Seu estilo mescla Corelli e Vivaldi. Ou seja, provem dos Concerti Grossi e vai até às Árias e Concertos de estilo vivaldiano:
E, num segundo momento, dois movimentos [IV. Allegro e V. Capriccio] do Concerto para Violino em Ré Maior. Onde no Capriccio há já algo maneirista:
http://www.youtube.com/watch?v=uo1pctDLQu0&feature=relmfu[Violin

Emerico Lobo de Mesquita (1746 –1805) – do barroco mineiro, este belo Te Deum seguido de um Salve Rainha: 


* * *


Johann Sebastian Bach (1685-1750) – felizmente falamos bastante dele este ano. Então, melhor calar-se, ouvir sua música numa escolha expressamente sacra:

http://www.youtube.com/watch?v=a6MMW-NJmt8 [Abertura do Oratório de Natal, BWV 248 -  "Jauchzet, frohlocket, auf, preiset die Tage"]
http://www.youtube.com/watch?v=Y1bfAmz05Do&feature=related [A Sinfonia - ou Pastorale - do Oratório de Natal, BWV 248 - Abertura da Segunda Parte: descreve a chegada dos Pastores para a adoração do Menino].
Para uma versão completa do Oratório: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=VVeluHdzcBY&feature=endscreen
*
http://www.youtube.com/watch?v=dKMRNuCKHlM  [Cantata BWV 8 "Liebster Gott, wenn werd ich sterben?]
*
Sôbolos Rios de Babilônia
Am Wassernflüssen Babylon, BWV 653:
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Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 Chorus: "Wir setzen uns mit Tränen nider"

Há no Youtube, entre outras, esta versão completa da Paixão: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?v=YUNdQ_GW9Tw&feature=related

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Bach e os imigrantes

Oscar Niemeyer, Museu de Arte Contemporânea de Niterói (vista(o) do interior)

-é difícil imaginar, mas naquele tempo podia-se contratar Bach para tocar num casamento – diz o narrador do documentário 

o que o narrador do documentário não presume é que fazer um bico tocando em casamentos e batizados é parte integrante da obra, vasta e gloriosa, do autor da Missa em Si Menor. Há demandas práticas. Quase todos os músicos que conheço ainda hoje, tenham empregos fixos em sinfônicas, filarmônicas ou não, fazem bicos tocando "por fora"

num inverno demasiado brando, aliás, Bach escreve a um amigo uma carta lamentando que não haja morrido gente o bastante para que ele pudesse auferir algum estipêndio extra tocando em funerais, como em invernos anteriores. Ao invés de revelar misantropia (modo como o homem contemporâneo inclina-se a ler a situação), o lamento de Bach aponta mais para uma aceitação do ciclo da vida, que inclui seu fim: a morte. E, para outro fato: se é inevitável morrer, que ao menos os mortos deem de comer aos vivos

de alguma forma. Ou pelo menos partam ao som de boa música, encomendados por um Réquiem solene e bem composto

ora, sem essas funções prosaicas, de batizados a funerais, passando por casamentos ou coroações, Bach não haveria sido o grande compositor que foi. E é precisamente isso o que roteiristas, produtores e narradores de documentários não dimensionam em nossos dias. Ou seja, que sem essas vivências aparentemente prosaicas, desimportantes, maçantes mas que demandavam música de encomenda, Bach não teria levado a vida que levou. Nem praticado, composto, repetido, variado, compilado e arranjado tanto. Nem conduzido a música aos limites 

e provavelmente nós não estaríamos aqui, escutando-o. Ou discutindo-o

há uma necessidade de se eliminar o sacrifício. Ou qualquer esforço e empenho em nível prático: o de ganhar a vida, o de dominar de fato uma linguagem. Basta diluí-los na genialidade. E escondê-los ou negá-los nos documentários padrões, junto com os tempos mortos. Pois, verdade, mesmo um virtuoso, como Bach, precisava trabalhar duro, suar para viver ou manter sua reputação de grande organista. Estudar horas extraordinárias sobre o órgão, o violino, a viola, o cravo. Era um esforço sobre-humano, que o fazia estudar à luz de velas quando adolescente, para aprender mais durante a noite. O que teria precipitado seus problemas de visão, que o levaram à cegueira ao fim da vida

ao contrário da Europa de hoje. A que vive do suor que é vertido em outras partes do planeta, para que se possa ir aos centros culturais ouvir Bach

hoje tudo na Europa é outsourcing. E qualquer trabalho braçal, mecânico ou mais pesado e repetitivo, logo rotulado de trabalho escravo. Estigmatizado como embrutecedor. Mas cinicamente reservado aos imigrantes. Ou subcontratado por vias oblíquas no exterior pagando salários que os europeus se recusam a receber. E, no entanto, em cadeia última, é esse trabalhador subcontratado, ganhando um salariozinho ínfimo, lá em Bangladesh a ou na Costa do Marfim, quem verdadeiramente confecciona o smartphone ou o chocolate que será posto em uma vistosa prateleira na Europa. E, pior, sem nenhum crédito a ele - em todos os sentidos que se possa imaginar (e não menos no econômico). E, contudo, não se deve esquecer: música é um "trabalho braçal". Requer um bocado de suor, repetição e, nos melhores casos, também algum cálculo, para se efetivar

hoje Bach, que palmilhou meia Alemanha a pé para encontrar os mestres com quem aprendeu - Buxtehude, Telemann, Schein, et alli - bem poderia ser o compositor desses imigrantes. Porque a alma é imigrante. O imigrante é cabeça-de-vento¹. E o vento sopra onde quer

a música de Bach é o rumor desse vento.



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¹Ou Luftmensch na saborosa inversão proposta por Flusser.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eletrobach, Pretobach



é a linha curva da música de Bach que acha desdobramentos no chorinho e na arquitetura brasileira - e, entenda-se, não só na de Niemeyer. Assim como seu caráter compósito: síntese de diversas culturas, caldos e tendências 

reenxertou-se bem por cá. E por sua materialidade e sensualidade, que nos são caras. E mesmo quando coroas, é bom ouvi-la. A celebração da criação como instância do que está aqui, agora, conosco, sensualmente. Pelo fato de ser única, apesar de dever a tantos. Casa e companhia. Pão e sonho. Um abrigo. Ser e estar no mundo com menos desconforto: toldo e para-chuvas em dias de temporal. E a janela abrindo-se, depois, às ruas lavadas, gotas a pingar de suas folhas.

uma concretude. Um fluxo. As baixarias dos violões de sete ou dos choros de Pixinguinha também são tributárias da densa polifonia bachiana.

tudo isso para não falar em Villa-Lobos, Baden, Vinícius...

sábado, 20 de outubro de 2012

Polifonia



tratar as vozes secundárias como um elemento que tem vida própria - e não apenas ajuda no brilho e na emissão da voz principal - é dos grandes méritos da música de Bach. E o que a faz soar tão extraordinariamente complexa e profunda

como fossem necessários bilros auditivos para tecê-la. Ao modo de rendeira. E que a rendeira faz com a destra simplicidade de quem converteu habilidade em segunda natureza. Uma que, de tão automatizada, aparenta ser da ordem do comezinho

ou seja, que a faz soar simples 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Observação Semi-Musical


Jean-Baptiste-Siméon Chardin


Há os frios como Vivaldi. Ou os quentes como Brahms. Bach está equidistante de ambos. Assim como dos maneirismos de Mozart. Se insistirem em polarizar, bebendo mais na fonte do italiano, de quem chegou a transcrever e arranjar alguns concertos. (Até porque os outros dois lhe são posteriores). Mas então, há uma arte que passa mais pelo intelecto, como em Vivaldi, que pratica uma música de belas séries matemáticas. E por isso interrompia missas para correr até a sacristia e anotar o trecho da música que vinha à cabeça em hora imprópria. E, todavia, em Bach, o enorme esforço e estudo, à época de frutificar¹, dá em coisas intuitivas e racionais. Simultaneamente. Pois até mesmo o racional bachiano está tingido de humanidade, do espírito da subjetividade, da ordem da adivinhação e do dia-a-dia, da generosidade, da inclusão, do abrigo e da emoção. E vice-versa. A música de Bach cava espaços para sermos e estarmos mais confortáveis e abrigados neste mundo. Mais em consórcio com ele. Sentindo-o e desdobrando-o melhor. Aceitando nossa finitude por via de um Senhor.

Em Bach o subjetivo objeta-se e o objetivo sujeita-se.

E sujeita-se, bem entendido, ao único Senhor a que se deve sujeitar. 

Amém. 

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¹Que como entre os mestres não se dissocia do exercício.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Três temas dos tempos de algum ontem

A Estação Ferroviária de Camocim em foto da década de 30

1. "Que acaba de partir da praça" 

Parque Araxá” foi composta em 1986, um ano de muitas descobertas e de intenso comércio com o pessoal do Grupo Latim em Pó, que se dissolveu no começo do ano seguinte. Eles representaram mais que uma graduação intensiva não só em música, em artes (e, muito mais importante, na vida). Mas a canção não chegou a ser tocada pelo grupo. A letra faz referências a temas do dia a dia, como ter de tomar um ônibus diariamente na Praça José de Alencar para ir ao Campus do Pici (onde fazia Computação), e achar que a palavra “araxá”, vista de relance no letreiro de um outro ônibus, era bela, evocativa, e portava uma espécie de síntese secreta e inalienável. Mas também faz referência à Odisséia (a “Aurora de róseos dedos”), que lera maravilhado àquela época. A canção foi gravada pioneiramente por Marcus Britto (que atualmente assina seus trabalhos como Marcus Caffé). E posteriormente por Idilva Germano. E ambas as versões me agradam bastante.  A primeira é arejada, contemplada por certo humor resignado na voz de Caffé, e possui samplers característicos de meados dos anos 199o (um dia ainda vou precisar dizer pessoalmente ao Marcus o quanto gosto de sua versão). A segunda, de quase dez anos depois abre um primoroso disco de jazz com uma atmosfera de música de câmera, ao modo de uma sorte de Lied. Esta gravação caseira, abaixo, foi feita ao final de 2009. E consiste apenas de violão e voz. Deem nos ouvidos os devidos descontos: para o violonista amador e o compositor bissexto: 






2. "No Oeste, eu sei"

Parodiando Pete Brown” foi escrita em parceria com Domingos Fazio um ano depois do “Parque”, em 1987. Foi um tempo de uma intensa e calma solidão, porque os amigos haviam partido e se instalado em Tatuí, no interior de São Paulo, para estudar música no conservatório famoso. Não havia muito que fazer a não ser ler, tocar violão, estudar um pouquinho de teoria musical, enquanto me preparava para o mestrado. Mas antes disso, fui passar o Carnaval em Recife, e Domingos, que estava morando lá, me mostrara um tema que, achei, tinha a ver com western. Era em tom menor e um bocado plangente. Depois acresci algumas partes ao tema original de Domingos e à letra, que escrevera nos intervalos do Carnaval de Olinda. Pete Brown foi o letrista de algumas canções de Jack Bruce, do Cream. Entre elas, “Theme for an Imaginary Western”. Western e cinema confundiam-se em Camocim, durante a infância. Filmes de faroeste foi onde passei parte da minha infância. Se não era western, não era propriamente filme, tal a paixão que tínhamos pelo gênero imortalizado por Ford e Wayne. Por isso quando digo na letra: “No Oeste, eu sei”, desejo (também) referir-me expressamente a Camocim, que fica no oeste do Ceará. E que à época possuía um elemento emblemático dos westerns: uma ferrovia. Possuía também um rio com um delta de mangue. E cujas praias desertas e devastadoramente belas, como Barra dos Remédios ou Tatajuba, tinham muito daquela locação do deserto. Nesta gravação, de 2010, usei dois violões e algumas vozes sobrepondo-se em certas passagens. O registro é tão artesanal quanto o anterior:






3. Para Leamington e mais além

Royal Leamington-Spa é uma cidade de águas termais com bela arquitetura vitoriana e que fica há só uns poucos quilômetros de Coventry, onde morei no início da década de 90. As viagens de trem até lá eram fantásticas, como quase qualquer viagem de trem. Como as que fazíamos na infância, entre Camocim e Fortaleza com uma baldeação em Sobral. E ainda mais na Inglaterra, com ramais para todos os lados, aqueles campos e bosques desenhados à mão e de onde sobressaem campanários normandos, jardins e pequenos cemitérios rurais. Aquela paisagem mais "racional", antiquíssima, cruzada por rios que já correm ali desde à época das Cruzadas e muito antes, quando o Imperador Adriano mandou erguer muralhas a nordeste da Cumbria, por exemplo. (Era quase tão bonito quanto no Ceará. Mas, claro, Ceará há só um, e uma infância). Agora, Leamington, mais ao centro, é apenas há uns poucos quilômetros de Stratford-on-Avon, terra natal de Shakespeare e o próprio coração da Inglaterra: o Warwickshire. E há muitas boas recordações que se cristalizaram neste teminha chamado de “Journey to Leamington”: uma atmosfera de evocação e também algo de estrada-de-ferro. Registrei-o com um violão, algumas guitarras (em afinação alternativa) e voz. E preferi não pôr uma letra como forma de chamar atenção para a melodia. A gravação caseira é da mesma época da composição do tema: julho de 2010. Foi um tempo em que voltei a tirar o violão debaixo da cama e compor alguma coisa pensando em utilizar os temas como trilha de um documentário que estava editando:




domingo, 7 de outubro de 2012

A Primeira Suíte para Cello de João Sebastião Ribeiro

Pere Portabella, O Silêncio Antes de Bach, 2007


Em O Silêncio Antes de Bach (Die Stille Vor Bach), de Pere Portabella, há uma cena que diz muito para quem escuta como músico. 
Não é necessário ser músico para entendê-la.¹ Para escutá-la ao vê-la. E perceber que o centro da cena vai pelo contraste entre os ruídos que se dão antes e depois com o “ruído da música” e o deslizar do trem lá fora, durante.
A peça, no caso, é o Prelúdio da primeira das suítes para cello, a mais bela da série.
E é encantador como num único momento uma das cellistas, fugindo das indicações de direção, não consegue conter o sorriso. Provavelmente provocado pelo mungango de algum gaiato sentado, diante dela, no fora de campo. (Ou porque um chaveiro caiu no piso do vagão ou alguém errou a arcada ou pôs os dedos onde não devia). Esse aparente deslize, no entanto, ilumina a cena. E a humaniza de vez.
E demarca a diferença do filme para "os filme".
Sim, porque, notem, o heroísmo desse "clipe" vai pelo contraste entre os jeans,  os tênis, as sandália, as t-shirts fuleiras envergados pelos jovens músicos e a nobreza das formas curvas e o som, desesperadamente próximo do registro humano em lamento ou rogo, dos cellos.
Talvez O Silêncio Antes de Bach não seja uma obra-prima. É irregular demais. Nem todas as sequências possuem a mesma tensão, coesão e ousadia desta. E então: nem mesmo digno de contar numa antologia de filmes sobre ou com a música de Bach? É possível. Mas alguns de seus momentos valem à pena. Mesmo à alma mesquinha. Como esta gravação do prelúdio entre estações do metrô.



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¹É antes preferível que haja musicalidade que propriamente técnica (ou exibição de destreza: mera técnica, falsa técnica) musical. Quantos não tocam peças de grande grau de dificuldade, de velocidade e, no entanto, não são músicos. São técnicos, tanto quanto o bancário, o agricultor, o balconista, o professor. O melhor exercício para quem não é acostumado a ouvir coisas enquanto as vê é ouvir a banda sonora isoladamente. Depois ver o filme sem som. E, enfim, fazer a soma, que ninguém é de ferro ou  à prova de fogo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A hora e a vez de João Sebastião (ou A arte da Fuga)



é tocante. Simplesmente acaba. De repente

o modo como se figura a morte de Bach num documentário da BBC. Você vê as notas escritas, ouve a música soando. O nome inscrito na pauta. E logo depois há apenas o pentagrama vazio

e silêncio

deve haver melhores modos de se figurar a morte. Mas este¹:
[se estiver com pressa, favor, vá a 2:29]




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¹É provável que se o momento se desse num desses filmes da vanguarda norte-americana, fosse saudado com flores críticas de perfumar os vãos do Centro de Eventos Ceará ou o Anhembi. Como algo do engenho estético de Kubelka ou Jonas Mekas. Mas como se encontra "escondida" em um documentário um tanto padrão, bem produzido mas nada vanguardista, meio fuleiro, middlebrow, para consumo de simples mortais, a cena, que é conduzida por uma instrumentista vestida com a extravagância étnica lançada nos 90 (ou algum sobejo punk tardio), passa um tanto batida...A sacada dessa instrumentista, no entanto, é que é o bicho. E revela todo o conhecimento de causa que ela porta, através de si, a respeito de Bach. Tudo isso também me lembra certa conversa com Alexandre Veras, ao tempo em que montávamos "Uma Encruzilhada Aprazível". Veras certa vez informou, com aquela sua ênfase particular, o quanto lhe impressionava que, num documentário sobre a II Guerra, os soldados simplesmente ficassem imóveis quando atingidos e mortos. Ao contrário das contorções e espasmos teatrais dos filmes de ficção. E a morte em imagem é mesmo essa imobilidade, nem que sob a forma do silêncio, quando transposta para os domínios do tempo. Há uma  frase de Bresson que, de tão simples, chega a ser tautológica. E, talvez por isso mesmo, vá de encontro à norma de representação mais instituída: "não se deve mostrar a morte, mas a sua consequência: a imobilidade".