segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aparências nem sempre enganam



Depois da cheia ele perdeu tudo. A seguradora alegou que não cobria Tudo. Havia uma cláusula contra Tudo, caso Tudo ocorresse. Seguradoras propõem cláusulas e nutrem grande aversão às simultaneidades. E, então, ele saiu remando sem ânimo com aquela cara de quem comeu e não, típica dos que foram asperamente traídos pela mulher. E pela mulher com o melhor amigo. Como se isso de um esporte consistisse. E havia algo de uma ave um pouco gorda, assexuada e em seu semblante. Como um capão. Triste. As coisas não melhoraram no estio. A mulher prosseguiu cercas pulando. O amigo a malversar verbas no escritório, e dormir com a mulher. E ele não sabendo de nada em aparências. Quer dizer, sem café com leite, ele já não sabia mais o que fazer ou como. A não ser, de desentendido. Como manda a querida Prudência. Perdê-la, seria perder boas chances de negócio. E a ópera prosseguia. Era desentender-se em excesso para não perder a mulher. E Prudência se envolvia cada vez mais com o sócio e, por sua vez, lhe deixava amplas noites para se divertir. Era como voltar ao secundário. Até ele dizer chega? Mas para quê, se a vida não é muito mais que isso, essa fina arte de manter as aparências que nem sempre enganam? Por um outro grampo, seguro, era ele quem enganava a todos. 


E cada um acha estranhos consolos nesta vida.

domingo, 29 de abril de 2012

O depoimento da artista, as fuças e Bazin


Jeito Mais ou Menos Meio Estúpido de Ser

-Eu não posto continuadamente imagens minhas há mais de 20 anos, porque não penso que seja o caso – ela disse - e se a internet fosse para além disso no passado, acho que também não postaria. Porque cada qual tem o seu jeito mais ou menos meio estúpido de ser.
E depois de um respiro longo e profundo:
-Agora, estou longe de hostilizar quem posta. Quem acha que as fuças do artista devem seguir juntas com o trabalho. Ou o que chamam de obra, sei lá...E as duas não podem ser vendidas em separado. Mais ou menos como os incisivos dos camundongos e as aparas do queijo, cheias de furinhos mineiros, lunares e graciosos, são enquadrados na mesma tomada.

Talvez Bazin gostasse disso. Dessa possibilidade de plano-sequência entre o artista, sua obra. E ser do artista também ser a obra. Embora algo me diga que ele pegaria abuso da prática. Por temperamento. 
E, outrossim, nos últimos tempos há muito discurso e pouca obra.

sábado, 28 de abril de 2012

De Sermos Numerosos




De Sermos (Mais) Numerosos (Que Nunca)

os rostos em torno dos nossos rostos eram a fiança de que os nossos rostos também tinha uma feição coletiva. E porque havia limiares, o mundo era uma aventura sem fim. Nós víamos nesses rostos as marcas dos nossos. E vice-versa. Íamos nos acostumando com eles no dia a dia. No trabalho. Em casa. Na escola. De passagem ou doucement. Tecíamos relações de correspondência ou estranhamento. O nariz empinado de Clara nas grandes olheiras de Joel. Guizo de serpente entre os dentes de Estêvão na testa franzida de Aline. A anedota do pai nos lábios da filha. Ruga ou riso neles respingava nos nossos. Olhávamos água ou espelho, e víamos os outros
era nossa forma de rede, teia para feixes de olhar 
e dava-se o fade. havia um fechamento de perspectiva. Série finita. O mundo acabava no fim do bairro dos gestos. Na família grande passando férias na chácara. O resto nos era dado imaginar. E por isso imaginávamos forte. 
mas antes, claro, víamos expressões e fisionomias que, de certo modo, eram nossas expressões e nossas fisionomias nos demais. Agudamente. E esse constante remascaramento, mutação. Conversávamos com os demais sem câmeras, caracteres, fones. Havia um elo impressentido entre eles e nós
hoje, entramos na rede, e há milhões de rostos à disposição. Uma arte em mostruário. Uma mostruariedade. Fotos em fichas, como nos arquivos da polícia, se for gosto ou caso. E virtuais vítimas ao alcance dos que matam em série. E, depois de um tempo, em que vimos alguns desses rostos - e eles parecem pôr o nosso a perder - pode-se propor a áspera pergunta: daria ao menos tempo de ver o rosto de cada um dos sete bilhões? 

não haveria tempo a perder, se fosse estipulado que seu neto ou bisneto terminasse a tarefa. provavelmente seria necessário gastar várias vidas nesse árduo encargo. E só por alguns segundos poderíamos ver cada rosto. (Esqueça falar) E, porém, ao invés dos antigos impressentimento e vínculo, restaria apenas tédio.

essa sensação de que a vida não vale a pena sete vezes sete bilhões de vezes.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Me rompe el alma


Mark Rothko

A propósito de meia-dúzia de jogadores do Chelsea estar fora da final, muito se gastou caracteres em tuítos, fóruns, caixas de comentário em línguas e dialetos.
Mas quando chega no espanhol, a  coisa ganha contornos trágicos. E se estende, dor que não cessa, até gerações futuras. Como nessa mensagem de uma fã do Chelsea no Twitter:
Me rompe el alma saber que Ivanovic, Ramires y Meireles no podrán jugar en la final”.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vá perguntar ao seu freguês do lado

Mark Rothko

alguma dúvida de que o futebol vai mais pela vida que os outros esportes? Até anteontem, certo encontro surgia na insistência de uma torneira pingando. Estávamos com a partida na ponta esquerda da língua. E agora a final espanhola não passa de uma ficção encardida. 

Caixa de Pizza sob Saco Azul

Juan Miró

havia aquela caixa de pizza dentro de um saco azul sobre a calçada, e que ele viu após o inesperado temporal que largara da hora do almoço e lavara a sesta profunda. A correnteza esculpira uma linha de detritos em sua calçada. E foi então que reparou: a rua estava mais rasa. No comprido do quarteirão, as calçadas haviam afundado, porque as máquinas tinham passado por ali, ao longo da semana e das insônias, e deitado mais três quartos de palmo de asfalto no leito da rua. E as meninas que porventura cruzassem a rua, em desoras, deviam pisar o trottoir muito atentas para não enganchar o salto na vala, cavada entre o asfalto e o meio-fio. Os carros eram mesmo protagonistas. Outro dia um caminhão podara bruscamente um dos galhos mais densos do fícus. Porém era o saco azul com a embalagem de pizza dentro, sob aquele céu cinza e pesado, só um pouco após sua porta, que o fez contornar minutos para o desvão de um tempo em que comia pizza dia sim, dia sim, vivendo em uma cidade distante e mais temperada. E ela também vinha dia sim, dia sim, esguia e branca e de vez - a flexão das juntas, o queixo duplo, a bunda - sob o blusão de couro, o jeans e um cachecol adoravelmente desalinhado, que iam para as pontas do cabide mais rápido do que fiéis dizem amém. Em pelo. Vinha para ser comida. Dia sim, dia sim. E trazia uma garrafa de vinho romeno comprada na feira dos paquistaneses, em Longsight. E então brincavam um bocado. E ninguém dizia coisa com coisa melhor que eles. Fissura de esquecer partida da Liga. E ela possuía aquele mesmo sestro prolongado das campeãs ao bater na bola. E sobretudo ao sacar. E como o jogo ia invariavelmente pro tie-break do quinto set, os vizinhos de cima começaram a olhá-los com certo ressentimento característico, e um corredor de sorrisos amarelos e cenhos franzidos. Será que é impossível fugir disso na meia idade? E o cachorro dela – modelo de sobriedade, elegância – a ficar com ciúmes. E pior, às vezes até sem jantar, a enterrar as fuças em algum resto de calor nos gomos do sutiã caído no assoalho. Mas à cama e sempre. E esta um pouco esguia, desfeita mesmo restava. Já nem se davam mais ao trabalho. E se a TV proclamava que o frio aumentava lá fora, devia ser ficção. Lenda urbana.

o que uma embalagem de pizza, posta sob um saco azul diante de casa por um acaso de água, não convoca num dia assim

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Re-Flexão sobre Virtualidade, Imagem e Projectos de Arte



Quando a vida não vive
-Divagação inicial sobre virtualidade e imagem (ou Pequena peça de ficção acadêmica)

Entre as muitas formas de pensar a questão do mundo hipermidificado de nosso tempo, a mais ingênua é a de acreditar numa "neutralidade" da tecnologia. Vivemos neste mundo museificado em que todos querem ser obras de arte de si mesmos, e se dar a isso por via do virtual. O modelo de vida mais desejado é o que supostamente dilui arte e vida. E viabiliza a equação, de acordo com a qual, o máximo de prazer é atingido com um mínimo de sacrifício. A isso muitos chamam "qualidade de vida". Se as novas mídias possibilitam um maior acesso à arte, e se esse acesso é celebrado em verso e prosa por governos e grandes conglomerados transnacionais, então é porque essa arte, longe de incomodar esses governos e conglomerados, apenas justifica certo status-quo prevalente. E, logo, compensa ser incentivada. Vivemos expressamente para consumir, ao ponto de quando não consumimos, nossa importância social ser atingida em cheio. Se pensarmos na perspectiva pós-industrial, a palavra consumo é a mais central de todas. E "serviços" são uma nebulosa fórmula através da qual se justifica uma sorte de neo-colonialismo, onde de fato quem mais consome é quem menos pega no pesado. Falamos do setor terciário, apanágio das economias pós-industriais. Nele ninguém sua ou suja as mãos. E nesse neo-colonialismo, ao se abdicar da agricultura e da indústria, garante-se mediante intrincados jogos financeiros a melhor fatia dos lucros. E garante-se, aliás, sem qualquer produtividade, porque também sem qualquer produção. Ou quando muito com uma produção ínfima e fortemente subsidiada. Enquanto isso, a produção propriamente dita é vista como jogo sujo ou ocupação indigna. Por isso é terceirizada, largada aos imigrantes e varrida para a periferia. E é na periferia do planeta que se dá o trabalho duro e de fato, o hardware. Se de alguma forma essa periferia ameça a centralidade econômica, imediatamente é taxada de recrutar trabalho escravo, associada a autoritarismo ou condenada, em bloco, como ecologicamente incorreta. E amesquinhada, de um jeito ou de outro enquanto projeto, instância ética. Ainda que seja ela quem, de fato e concretamente, põe produtos no carrinho de compras dos países que vivem do Outsourcing. A todo esse processo se chama tercerização da economia. E de uma economia radicalmente globalizada. E é o que assegura a países que praticamente nada produzem - pois a maioria deles já devastou todos seus recursos naturais, florestas incluídas - um nível de vida estratosférico, casos da Holanda e dos países nórdicos, por contraposição aos países que eles parasitam sistematicamente. Isso se dá mediante uma intrincada engenharia financeira. A Costa do Marfim produz uma grandiosidade de cacau, mas sua participação nos lucros do negócio do chocolate, embora detenha a própria matéria prima, é irrisória, se comparada à parte do leão que fica com a Holanda, onde não se vai encontrar um só pé de cacau de Groningen à Zelândia. Logo, o correspondente dessa economia, para todos os efeitos virtual, é uma superestrutura cada vez mais virtualizada pelo aporte das novas mídias. Ora, esse modelo, hipermidificado, faz daqueles que têm acesso às chaves das catedrais da arte - curadores, facilitadores, críticos, professores de oficinas criativas, estetas, marqueteiros culturais, webartistas, teóricos da informação e especialistas em mídia - os novos arcanos e sacerdotes, que ditam o discurso, e divisam diante de si o grande futuro. Eles estão para a arte como o financista para a economia de serviços: dominam as regras do jogo. São versados na matéria. À sua vez, se o corpo é o oikos, a casa por excelência da beleza, então vamos retorcê-lo, enxertá-lo, aspirá-lo, espichá-lo, até ficar conforme. O corpo precisa consumir-(se). Ele deve despender energias e suar. Mas não para produzir em benefício de outros. Não para cansar-se sujo de terra, graxa, carvão ou fuligem. Rompido por hérnias, contusões ou insônias. Do contrário, o suor e as horas gastas para esculpi-lo, a fadiga de havê-lo exercitado devem estar a serviço do prazer do próprio dono numa sala asséptica, refrigerada, cheia de espelhos. E, quando muito, gerar endorfinas. Nada mais. Para se exercitar a contento, o corpo não deve produzir nada além de seu próprio bem-estar. E, nada produzindo enquanto trabalho, restar intacto para a esfera do consumo. Essas esferas de consumo incluem não menos toda um perfumaria teórica, uma inflação de discurso que conhece na França seu epicentro. Ora, a novidade da era pós-industrial no campo da estética é esta: a de um artista consumidor vivendo num mundo carregado de imagens e sons técnicos que apontam para consumo - até mesmo quando seu discurso passa por desenvolvimento sustentável ou por qualquer preocupação ambientalista. Não que no passado artista e consumo não se tenham interseccionado. A questão é que agora ser consumidor e propor sua obra, serializada, para ser consumida, em larga escala, são atributos precedentes do artista. Nunca antes, um esteticismo laico - pois no caso dos gregos é bem outra história - esteve tão no centro, não apenas da vida comum (como sua mais tentadora opção existencial), mas do poder enquanto tal. Nunca a política esteve mais estetizada. O controle que o governo, sob a forma de bancos de dados precisos, exerce sobre cada indivíduo é imenso, assim como através dos mecanismo de que já dispõe para o controle da rede. Ou ainda a carga extrema de publicidade institucional a que o indivíduo está sujeito na rede e em torno dela. E a rede será ainda mais severamente monitorada. O que equivale dizer: os mecanismos de controle que o poder político-estético dispõe são de uma sofisticação aterradora. Fazem o Grande Irmão - ou seja, a televisão clássica e monopólica, de antes da web -  parecer um anacronismo da Baixa Idade Média. E, aqui, oscilam entre a esfera da instituição e a esfera da corporação. Ou seja, entre o Estado  e os conglomerados que controlam a esfera do consumo. Passa-se um e-mail falando de sapatos. E, no instante seguinte, tudo são ofertas de calçados a preços módicos. E para onde quer que se vire na rede, há um oceano não pacífico de sapatos, tênis, sandálias. Uma avalanche de botas, galochas, patins, meias e sapatilhas. Um despautério de tamancos, saltos-altos, pantufas, camurças e mocassins alemães. Disso se tem nutrido a moda, a publicidade, o marketing esportivo, o cinema, o jornalismo, a fina arte da esoteria e tudo que pode ou venha a ser virtualizável. Basta entrar no Facebook ou frequentar alguns blogues para constatar o fenômeno. Imolar-se nesse altar, a prazo, como bons meninos - referendados pelos colegas, amigos, alunos ou epígonos, e não menos por gostos próprios e supostamente sofisticados - é mais que projeto nosso, virou a própria convivialidade. Eixo em torno do qual gira o mundo. Uma norma. E norma sem a qual muitos já não conseguem viver. Os que suportam menos uma existência ao largo da conectividade, aliás, esforçam-se mais e mais para auto-espetacularizar a vida íntima. E por qualquer brecha: o que comem, bebem, veem, vestem, leem, usam, ouvem; a quem encontram; como se curam; o que assistem, aonde moram, para onde seguem ou passam férias; como dormem e com quem, etc. Tudo isso é exposto em fotos, filmes e arquivos de texto e som. Agora, o que afere o fascínio da vida comum é o grau de proximidade que essa existência - desimportante, ao fim de tudo, no meio do meganúmero - mantém ou não com um filme. Um grau de proximidade apenas alusivo, em determinadas ocasiões. Em outras, mais explícito. Até chegar a saturações dignas da citação. Ou da literalidade. A busca é coincidir. Quer dizer, quanto mais a vida comum estiver no limiar de impregnar-se dum roteiro mais ou menos padrão de feature, mais ela merece a consideração dos demais. Pois os filmes - ou mais precisamente os derivados da imagem e do som - converteram-se muito obviamente na iconografia religiosa de nosso tempo. Na normativade exemplar. Em nossa hagiografia e livro de horas. E, logo, ao se buscar vestígios de crença no homem pós-contemporâneo, que não se vá atrás de escrituras, livros sagrados ou sapienciais, de orações piedosas, mantras, cosmogonias, formulações teológicas, hermenêuticas, sitemas ou dos grandes poemas iniciais; mas dos filmes sagrados. Ou melhor, das imagens e sons sagrados. [Aqui, imagens e sons técnicos, bem entendido] Um filme clássico de Hollywood? Ou, no mínimo, um blockbuster contemporâneo? Um pré-cinema de Muybridge sonorizado? Ou clipe da Beyoncé? Um vt da Coca-Cola? Em todo caso, um combo som/imagem em que o protagonista, evidente, será sempre o portador de um respectivo IP. Ao menos na imagem mental de cada um. Na imaginação. Faz-se necessário pensar que a música que se ouve nos headphones, ao se caminhar pela manhã nas redondezas de casa, soa da mesma forma que para Bill Murray na trilha sonora de Lost in Translation. Numa espécie de 'in tandem' com a imagem do mundo cotidiano. E a praça que se descortina adiante, com os pombos, e os idosos fazendo tai-chi, foi posta ali como locação matinal, não mais. E existe em função de quem a vê e é conjugada à música que troa nos headphones de quem a vê. A perda de ironia, de separação, de cesura entre ficção e "vida real" - tema já de alguns filmes emblemáticos, a exemplo de Barton Fink, dos Coen; ou do Blowup de Antonioni - é o selo de qualidade, que atesta não só o quanto há de virtuoso e modelar, mas de virtualidade em todo um percurso, uma vida. Ou o quanto nos vemos lançados a uma série de mise-en-abîmes ao longo desse percurso demarcado por fluxos de sons e imagens. E, assim, estar desconectado é morrer, de algum modo.  Se há algo hoje em dia que se aproxima da paixão, do "morrer de amor", ou ainda da renuncia à literatura por uma Abissínia exemplar - como em Rimbaud - é desconectar-se. Rematado exílio. E desconectar-se depois de já haver provado da fruta do virtual. Daí a sensação de agonia e alienação que se prova no exato instante em que se conectar é uma impossibilidade. Aqui, a carga de erotismo que reveste o ato - de " se conectar" / " se desconectar" a esses novos e efêmeros brinquedos - não deve ser minimizada. A adolescente expõem-se no, e expõem seu primeiro MacBook ou iPhone como fosse o príncipe encantado ou a varinha de condão. E esses brinquedinhos devem ser os que portam a imagem da adolescente e seu sonho de conquista do mundo. O garoto faz seu primeiro filminho com a câmera do smartphone dentro do ônibus, e preserva ao alcance de um toque de dedo a mulher madura, de curvas amplas, que ele deseja ardentemente em solitárias sublimações. (E como ele teria de haver-se com isso ao longo da vida, não fosse o fato de em dez anos ser impossível acessar essa imagem na sucata que será um iPhone atual!)  E à essa altura da novidade, somos todos readolescentes. As novas tecnologias que, a cada segundo, são cada vez mais novas, nos legam um estado de perene puerilidade diante delas. Seguimos permanentemente com água na boca. E sensação de querer mais. De omnivaridade. De devorar qual seja a imagem junto com o som da vez e lambuja. Uma compulsão. Indigestos, vivemos de arrotar imagens e sons técnicos. Logo, o que não suportamos é a experiência de, por qualquer falha técnica ou desconexão não programada, nos encontrarmos, súbito, exilados da virtualidade. Ou seja, do grau de banalidade limítrofe com que ela nos lega um mundo através de uma miríade de imagens e sons que são excessivos se postos em analogia com o mundo anterior à rede, o mundo não virtual, no cotidiano de cada um - e, em especial daqueles que ainda viveram, por algum tempo, uma vida "desconectada". Pois a virtualidade virou não só nossa casa ou pátria, mas também nosso código, devir, utopia, País de Cocagne. Se possível, já nos vestiríamos de virtualidade e utilizaríamos embalagens virtuais. Nossos alimentos seriam virtuais. Cultivados e colhidos na rede. Mas, vai chegar o dia. Vai chegar o dia inclusive em que vamos nos apaixonar por imagens. Ou não discernir muito bem o que é da imagem e o que é do mundo real. Situação já prevista em La Invención de Morel. Ainda que, quando Bioy-Casares escreveu essa fábula, na década de 1940, as imagens técnicas de ponta eram as do cinema, e sequer se sonhava com imagens digitais, tridimensionadas ou interativas. E o espaço das imagens sonorizadas ainda era um tanto restrito dentro do mundo. E, no entanto, seu prognóstico quanto a uma possível indivisibilidade entre o mundo real e o virtual cai como uma luva para a era da virtualidade a qualquer preço, em que nos encontramos mergulhados, e de olhos bem abertos. E então, há essa existência nossa, suplementar, em que a virtualidade mais e mais ganha estatuto e verdade sobre tudo que não é ela. Não é mais ou menos como a gente entende pôr um pouco de sensibilidade – e, mais que isso, da nossa sensibilidade - nas redes sociais, nos blogues, nos podcasts, para provar não só que somos sensíveis e bons, mas que existimos?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Minho




O Minho é verde e gastronômico. Tem os vinhos verdes e certos e mulheres com estranhos tons de água nos olhos. Parece ser a terra de todas as minhas palavras. É um diminutivo. E mais adiante abriga o universo da língua, em miniatura. Se é a minha terra preferida na Europa? É mais que isso, é a minha terra também.

domingo, 22 de abril de 2012

A Retórica de Leonard Cohen e os Tribunais



Da intoxicação letal da vingança para as sábias práticas da auto-reforma

Gostaria de agradecer à corte, na pessoa de Vossa Excelência, pelo modo cordial, ponderado e elegante com que os procedimentos se desdobraram. Foi um privilégio e um aprendizado testemunhar diante deste tribunal”. Assim se expressou Leonard Cohen, 77, após a sentença que lhe deu, esta semana em Los Angeles, ganho de causa no processo que moveu contra sua ex-empresária, Kelley Linch, 55, por assédio. O bardo canadense, cujas letras já chamavam atenção antes mesmo de serem musicadas - na verdade, mais ditas, num tom de barítono profundo, que cantadas  - alegara que vinha sendo sistematicamente perseguido por Miss Linch. 

A ex-empresária foi condenada a um ano e meio de prisão – com condicional nos cinco anos subsequentes - depois que se verificou o teor de milhares de mensagens de voz e centenas de imeios em que ela o ameaçava. E só não o chamava de santo: “pervertido”, "safado", “ladrão”, "velhaco" e insinuava que ele devia ser “sequestrado e eliminado”. Isso para não falar das impublicáveis. Embora essas, para não toar fora do figurino, façam referência à anatomia e à virilidade de Cohen.

'O Cohen tem de ser enforcado' não é algo lá muito agradável de ouvir”, ponderou o cantor canadense diante dos jurados.

O caso ganhou certo tempero e momento quando Cohen admitiu que havia tido um affair com a ex-empresária: “uma breve ligação íntima”, em suas sempre medidas palavras. Isso, antes de demiti-la e processá-la, em 2005, sob a acusação de ela lhe haver surrupiado a bagatela de 5 milhões de dólares. À época, a justiça americana deu ganho de causa a Cohen. Mas o processo esteve sujeito a revisões e apelos em outras instâncias.

Alguns jornais, entre eles o Guardian, sugerem, no entanto, que os fãs de Cohen devem agradecer de pés juntos à Senhorita Linch. Aparentemente o alegado furto dessa importância foi o estopim da volta de Cohen aos palcos. Há anos o músico vivia recluso em um mosteiro budista na Califórnia: meditando. Para todos os efeitos, sem a menor intenção de brindar o mundo exterior com sua graça. Porém, aos poucos, Cohen deu-se conta de que seria necessário organizar uma turnê capaz ressarci-lo dos alegados prejuízos, se desejasse viver sem perturbações. Sua digressão de 2008-09 foi reputada como um sucesso estrondoso, o que lhe rendeu cerca de nove e meio milhões de dólares. Além disso, um tanto por conta, ele ganhou o prêmio Príncipe das Astúrias, ano passado, e pôde, assim, voltar à sonhada reclusão. 

Cohen, à sua vez e sem perder o tom, saiu-se com as seguintes palavras conclusivas sobre o processo: “Eu gostaria de agradecer à arguida, Senhorita Kelley Linch, por haver insistido em um julgamento, facultando assim à corte a observação de suas profundas, deletérias, implacáveis estratégias de escapar aos seus malfeitos. Está nas minhas preces que a Senhorita Linch encontre refúgio nos ensinamentos de sua religião, e que um espírito de concórdia mude seu coração do ódio para a contrição, da intoxicação letal da vingança para as sábias práticas da auto-reforma”.

Pelo visto, a eloquência do autor de “Hallelujah” - aqui combinada a uma evidente polidez - não se limita só às letra de música. Ou de nenhum modo desadestrou-se no isolamento de suas práticas budistas. Resta saber com que disposição de ânimo a ré terá recebido essas sábias recomendações. 

sábado, 21 de abril de 2012

Mais Bodes


Agora, tire um bode
[Anedota Popular]

Talvez tenham-se amado em algum alvoroço. Por catorze minutos, se tanto. Mas isso fora há muito tempo. E, uma vez os filhos criados, compraram um sítio no limiar da cidade. O plano era levar dias tranquilos entre mangueiras e sombra. Mas esqueceram de combinar um com o outro.
Certa tarde, tiveram discussão a propósito da compra de uma caixa d'água. Era grande demais, segundo ela. Que nada e na medida, segundo ele. E já estava comprada. E bem ali na frente deles. E babau. 
Prioridades tinham sido deixadas ao largo, como o novo armário do closet, no entender dela. 
Ainda segundo ele, a caixa d'água era de polietileno e não soltava pigmentos. E, bem.
Ela exaltava-se. Ele calava. E as rolinhas não deixavam de fogapagar lá fora.
Então ele pegou a camioneta e foi à cidade. Voltou meia-hora depois, com outra caixa d'água. Idêntica à primeira. Também de polietileno e anti-pigmentos. Só que um pouquinho maior. Com o auxílio do Seu Silas, pôs ao lado da outra, bufando:
-O que é isso? - ela disse.
-Uma caixa d'água.
-Sim, mas posso saber o que a porra dessa caixa d'água tá fazendo aqui? - foi o preâmbulo.
Ele acendeu o cigarro, contemplou os brotos amarelos na copa da mangueira. E começou a desenredar o fio no caniço da vara de pescar:
-Esse molinete era tão bom. 
Na rodagem, matutos voltavam da feira de bicicleta, comentando o jogo do Real Madrid. E calavam ao ouvir os gritos dela, observando-os com um silêncio pleno de falas futuras. 
Seguiram-se quase meia hora de invectivas, rompantes. Nenhum incentivo fiscal. Ou política de inclusão conjugal. E ela xingando os parentes dele até a terceira geração. Depois os filhos. E, então, as partes dele.
Por fim, quando tudo amainou, ele ergueu-se, pegou a chave da camioneta e saiu.
Quarenta minutos depois, ela ouviu o barulho do motor e os guizos da porteira. E, ao postar-se à janela do alpendre, percebeu, ao longe, a avultada forma em azul na carroceria da camioneta. 


De madrugada, estavam tomando banho nus de uma para outra caixa d'água. Parece que ainda há alguma vantagem em se construir casas em chácaras.

Charada à base de toantes


você estava nua e a rebentação por trás. você tinha três piercings, ninguém mais. seu nome era joana, mas também clara. você ouvia em inglês, e não falava.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Se o Ferroviário for, uma era vai junto



Para todos os efeitos, o Ferroviário está acabando. Ou dá indícios disso. Foi a terceira força do estado por oito décadas e nove títulos. O primeiro clube de Fortaleza a possuir um estádio próprio moderno, de alguma envergadura: o Elzir Cabral. O único time da capital amplamente identificado com uma classe trabalhadora, uma categoria profissional: os ferroviários – que, a rigor, não existe mais. Ao menos nos moldes em que existia. O 85º maior clube do Brasil seguindo o ranking da CBF (mas quem liga para rankings?) Bicampeão cearense 1994-95. (Em 94, ano em que o Ceará foi vice-campeão da Copa do Brasil). Orgulho da Barra do Ceará, extremo oeste do litoral de Fortaleza, região de grande impacto histórico e paisagístico, margeando o Rio Ceará.
Até a década de 1950 um significativo contingente de operários trabalhava nas Oficinais das centrais ferroviárias de, em especial, duas cidades cearenses: Fortaleza e Camocim (esta, sede da Estrada de Ferro de Sobral). 
Só em Camocim eram mais de trezentos operários. Vitais para a economia desse porto, à época o mais importante do estado. Num determinado momento, por ocasião da legalidade do PCB, dizia-se que o Nordeste possuía dois grandes pólos comunistas: o Recife e Camocim. Mas essa efervescência não perduraria muito. Ao final da década seguinte, o governo de Juscelino deporia toda ênfase no transporte rodoviário. Algo que veio a reboque do interesses das montadoras transnacionais que instalaram-se no ABC paulista. As ferrovias foram deixadas de lado. Começaram a ser sucateadas. Seus serviços decaíram. A maior parte do pessoal foi deslocado para as capitais. Ao final dos anos 50, a central de Camocim foi desmobilizada, e vários ferroviários vieram morar em Fortaleza. Mesmo que o ramal só tenha sido extinto de fato em 1975, o golpe de misericórdia fora dado já à época do governo Juscelino.
Historicamente, esses ferroviários provindos de Camocim, Sobral, Crateús e outras cidades do interior fixaram-se no Bairro da Floresta, oeste da capital, não muito longe da sede do Ferroviário. Muitos foram transferidos para as Oficinas do Urubu, nos arrabaldes a oeste, onde havia uma pequena estação que antecedia Caucaia. No entanto, esses empedernidos operários não descuidaram de seu amor pelo time, de suas raízes interioranas. Tampouco da lida na estrada de ferro. A tudo isso acresça-se certa nostalgia pelos antigos ramais, interioranos, com suas estações cada vez mais espectrando-se nos desvãos do tempo: Sobral, Massapê, Senador Sá, Uruoca, Martinópole, Granja, Camocim. E, a partir de Sobral adentrando-se no Sertão para oeste, afastando-se do curso do Coeraú, e raspando o sopé da Ibiapaba em Ipu, descendo a sul  até Crateús. 
Em décadas mais recentes, quando trens de passageiros eram já realidades limitadas apenas à Fortaleza e municípios metropolitanos, sucessivas más administrações levaram o Ferrim a bancarrota. Logo ele que tinha como diferencial o minimalismo de ser tão bem gerido que, com uma torcida consideravelmente menor que as de Ceará e Fortaleza, era capaz de batê-los regularmente. E até eventualmente ser campeão. 
Porém, ao contrário de seus dois rivais diretos, o Ferroviário Atlético Clube nunca pôde se dar ao luxo de ser mal administrado por um tempo muito longo, como é praxe em ambos os rivais. Em especial, após um ou outro brilhareco sem continuidade, pois jamais conquistaram nada digno de nota em nível nacional. Nestes, a agremiação, além de servir como trampolim - tubo de ensaios para futuros negócios escusos na política (e até nos negócios) - é, no atacado, vampirizada pelas medonhas torcidas organizadas, cujas sedes sociais são mais resplandecentes que as dos próprios clubes. E que contam, evidente, com a leniência criminosa de boa parte da imprensa. E o aval dos clubes mesmos. 
Estranha promiscuidade: os clubes auxiliam aos que lhes retiram renda: as organizadas. Essas torcidas - Cearamor, TUF e congêneres - conformam a própria encarnação da ideia de máfia, poder paralelo. Não que o Ferrim não possua torcidas organizadas, e, no entanto, as suas têm sido desimportantes dentro do próprio universo de torcedores corais, que em si é já reduzido. Então, é necessário tomar dimensão da gravidade do momento. Dessa draga toda, se o Ferroviário quiser escapar. E buscar uma fórmula de mobilização para reverter as recentes derrotas.
O Tubarão da Barra está, de fato, no fundo do poço, em coma, na UTI. Mas não acabou. E, de outro modo, não é apenas por haver caído para a segunda divisão de um campeonato estadual sem lá muito fluxo ou apelo – a rigor só possui dois concorrentes de peso - que se vai deixar de torcer pelo Ferrim. E, sublinhe-se, o Ferrim esteve em 29 finais de Campeonato Cearense. Em quase 30 campeonatos, ele terminou à frente de ou Ceará ou Fortaleza. Será que quem menospreza o Ferroviário desconhece-o?
Ora, sem bile, há algo de boêmio e arriscado, de anômalo em ser Ferroviário. É como viver no exílio. Ou torcer para o Saint Pauli em Hamburgo. Ou para o Wanderers em Montevidéu. Para o Juventus (ou mesmo a Portuguesa) em São Paulo. Para o Galácia em Salvador. Para a Tuna Luso em Belém. Há uma espécie de radicação portuguesa, que compõe com o contingente de migrantes açorianos fixados pela Zona Norte do Estado: principalmente Sobral, Granja, Camocim e as cidades da Ibiapaba. Mas há também um impulso anárquico. Torcer Ferroviário é, acima de tudo, reservar-se o direito de não ser maria, e ir com as outras. De optar pelo terceiro excluído. Nada contra, a não ser, "que tenho outros brios. E nado contra as correntes ao saber distinguir entre democracia e populismo".
Torcedores ilustres de times ditos pequenos são o que não falta. João Cabral de Melo Neto torcia para o América do Recife. E chegou mesmo a jogar lá em categorias de base. Ninguém mais fala nesse clube hoje em dia. Mas João Cabral não virou casaca. E até escreveu poema em que fala das vantagens que existem em nem sempre ganhar, o que torna as vitórias muito mais plenas de valor:

O Torcedor do América F.C. 

O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.

Clarice Lispector era Botafogo, apenas a quarta força do Rio, e um time relativamente modesto até começar a ganhar tudo a partir do final dos anos 1940.  E estabelecer a legenda da estrela solitária, que deve ter brilhado um bocado para o lado bruxo, cabalístico de Lispector. Lamartine Babo, que compôs os hinos de todos os grandes clubes do Rio, reservou o mais belo deles para o seu América.
Meu adversário não é meu inimigo. Mais que nunca é preciso entender, aqui, que, longe de mim, a glória e a derrota de meus principais adversários respingam sobre as minhas. Acabar com o Ceará seria matar o Fortaleza. Acabar com o Ferroviário, retirar muito da vida de ambos. Basta lembrar que dois clássicos morreriam abraçados com o Ferrim: o da paz e o das cores. Ou que o Ferroviário cansou de ganhar de Fortaleza e Ceará em circunstâncias diversas, no passado. Às vezes, de sonora goleada. Ou ainda que o tubarão aprontou poucas e boas para cima de Bahias e Vitórias, Sports e Santas, Payssandus e Náuticos. Estamos falando de um time que já bateu o Fluminense. Que em sua fase áurea, na década de 40, não escolhia adversário. Ou, para não ir longe, meteu sete no Bahia em 2006 (7x2).
A lealdade da torcida coral foi sempre maior e mais heróica, mais intangível e honesta que as das outras duas, porque devotada a um time que ganhava bem menos que os outros dois num mundo em que ganhar virou sinônimo de tudo - não importa o estilo. Pelo padrão do Império, o loser fica sem nada, porque como já reforçava o Abba, desde os 70, "the winner takes it all". Quem duvida que havia algo de Henrique V e da Batalha de Agincourt nas vitórias ferroviárias? Para não dizer do balanço da Estrada de Ferro de Sobral em curvas e pontes debruçando-se sobre lagoas e rios de sonho, desde Camocim? Isso era começar a ser Ferroviário. Na ginga monótona e sublime do trem.
Como se não bastasse, saíram do Ferroviário alguns dos jogadores de maior ressonância no futebol brasileiro formados a partir do Ceará: Mirandinha, Jacinto, Jardel, o interminável Mota. Jacinto e Mota, meias talentosos, distribuidores de jogo, foram titulares do Cruzeiro. E há o caso expresso de Jardel. Que jogador formado nas categorias de Ceará e Fortaleza foi tão bem sucedido quanto Jardel, que chegou a botar a malha da seleção? Nem mesmo Iarley. (E não se entra, aqui, no mérito do que se faz após a carreira).
O que vem asfixiando o Ferroviário além de más administrações – afinal, times com bem menos torcida e tradição que o Ferrim chegaram a títulos importantes, caso do São Caetano – foi a perda de seu sentido. 
De seu sentido histórico. A dignidade da sua importância e códigos. Exemplo? Havia um hino tradicional e antigo. Foi substituído por um novinho em folha, composto no Paraguay e onde se chama o time de Ferrão. Ora, para o verdadeiro coral, nunca houve problema em chamar o Ferrim de Ferrim. Do contrário, é carinhoso, brasileiro ao extremo, esse diminutivo. (Em Pernambuco o Santa Cruz é chamado de Santinha, soa bonito e local, sem nenhum complexo de inferioridade). Era como, inclusive, os mais antigos - que viveram até mais glórias, títulos e vitórias que nós - chamavam afetuosamente o time. É o como o time é chamado em seu hino original. Algo que escapa à estreiteza bitoladora, redutora de um marketing mais tacanho, ditado a partir do Sudeste. E imitado sem muito brilho - como ocorre ser, por aqui,  em outras esferas - por uma crônica esportiva que segue longe de ser a cocada preta - embora haja Sebastiões Belminos, Sérgios Redes na manga, e certa formação de folclore, mitologia, no melhor sentido. 
Além do que, se o Ferroviário acabar – e o clube vem se esforçando para tanto, progressivamente murchando desde 1995, quando foi campeão estadual pela última vez – haverá um rebaixamento geral. Rebaixamento de rivalidades no futebol da cidade de Fortaleza. De sua diversidade. E não me digam que o Horizonte ocupará esse vácuo. O Horizonte sequer é de Fortaleza, e essas coisas não funcionam assim. Haverá um bom assunto a menos. E tudo decairá para aquela bipolaridade estreita, insípida, maniqueísta. Como é em Porto Alegre.

Como usam ser maniqueísmos, bipolaridades.


O primeiro registro fotográfico preservado do time do Ferroviário data de 1938, cinco anos após a fundação do clube, em 9 de maio de 1933.


P.S.
Anteontem, na transmissão de Chelsea x Barcelona, pela Globo, o modo de pôr o hino do Chelsea em acompanhamento de marchinha após o gol foi hilário. Galvão et caterva, aliás, tomaram posse do Barcelona. E já se sentem em casa. É a mais nova aquisição, a mais nova franquia Galvão Bueno & Associados, junto com o MMA, já que a seleção brasileira tem caído significativamente de audiência, e é preciso empreender. Ou fazer de conta que se está ousando, empreendendo. Seja no que for. Entendam, Galvão como narrador é excelente. O que ninguém mais suporta ali é excesso de má patriotada - ou seja, certo excedente de ufanismo jeca - além de um jornalismo chapa branca, deliberadamente desprovido de sobretons críticos. Inclusive em relação à CBF. Ou à pasmaceira e falta de transparência geral que envolve o gerenciamento do futebol enquanto negócio, e que incide sobre a organização da Copa no Brasil. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Para Oeste e mais além



pingue de novidades, suor e líquidos de Bartholin. Completamente lubrificada, ela deu um daqueles saltos agudos e inesperados. Em geral, como no caso, acompanhados de igual tessitura sonora. E não menos de um repuxar perto de involuntário dos lábios e o comprimir dos olhos. Uma modalidade de espasmo e trampolim comum em mulheres que, independente da idade e do grau acadêmico, estão apenas começando a sentir até onde vai descobrir o corpo e seus subúrbios. 

E, logo, as carroças dos sentidos prosseguiram para Oeste e mais além.

Do clássico a um leve exotismo: Morena Baccarin



Outra dia, uma contumaz leitora de Afetivagem reclamou por imeio de eu estar transformando o bolgue em revista de mulher nua. Ora, em parte, estou mesmo.  Ela não só tem toda razão, como vai ter mais motivos para reclamar, porque decidi que abril será o mês mais lido até agora. E está sendo. E não há gênero de foto mais delicioso para os voyeurs e flâneurs que todos somos. De alguma forma. E então, depois de apelar para Michela Roth, a professora, vamos a ela. E ela é carioca, olha o jeitinho. 
Considerada entre as mais belas atrizes do momento nos Estados Unidos, Morena Baccarin, 32, tem dupla nacionalidade e dois pés no Brasil. Seu pai, Fernando Baccarin, foi jornalista da Globo. Sua mãe, Vera Setta, atriz. E ela viveu no Rio até os sete, antes dos pais aportarem no Greenwich Village, onde ela acabou de se criar.
Baccarin é ainda sobrinha do ator e dramaturgo Ivan Setta. Setta, à sua vez, foi um rosto conhecido da televisão brasileira. Ator de gênero, costumava fazer vilões e trabalhou em telenovelas clássicas entre os anos 60 e o fim do século. 
Recentemente, Morena Baccarin, que é mais conhecida nos Estados Unidos por seus papéis em séries de TV, posou nua. E a publicação do ensaio, esta semana,  para a revista Allure, causa alguma espécie.
Alguma espécie, aliás, inteiramente justificada. A brunette possui um senso de glamour à par de uma beleza que vaza do clássico a um leve exotismo. A longilineidade, maçãs do rosto, mandíbula marcada, longo colo - um pouco à Audrey Hepburn - respondem pelos atributos clássicos. A boca e a cor dos olhos e cabelos são mais exóticos, e a tornam absolutamente distinta. E luminosa. Como, abaixo, por ocasião da cerimônia do Golden Globe Awards deste ano, quando sua presença imantava as lentes no raio de vinte mil léguas sobremarinas. 
Tudo isso, enfim, faz lembrar certa letra de Zé Dantas para um tema de Gonzaga: "esse teu suor salgado/ é gostoso e tem sabor/ pois o teu corpo suado/ com esse cheiro de flor/ tem o gosto temperado/ dos temperos do amor". Minha leitora, apesar de não ser da União das Esposas Católicas do Rio de Janeiro, tem toda razão. Isto aqui, ainda bem, está virando pornografia.
A mulher nua, como se sabe, é também paisagem urbana, livro e exílio. Cabe a cada um definir sua prioridade. Ou seja, percorrer primeiro ruas. Ou abrir primeiro o livro, e em que capítulo. Ou antes, decidir para onde por-se em marcha e desterro. 




quarta-feira, 18 de abril de 2012

o tempo tirou um tampo




o tempo tirou
um tampo da laranja

e viver: é só
pagar inteira
ou tem canja?

Ícones dispostos em relógio tendo um z por ponteiro: Zunái



Esta semana caiu na rede a mais nova edição de Zunái. A revista, editada em São Paulo pelo poeta Claudio Daniel, tem prestado estimáveis serviços à poesia brasileira. Há ensaios, traduções, correspondência, poemas inéditos, entrevistas, e um atenção especial a jovens poetas como não se vê todo dia. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pra onde me viro há um Império Russo

Pieter Brueghel, o Velho

Pra onde me viro há um Império Russo. O Tzar coleciona viúvas gordas e bailarinas. São suas peças prediletas ao vivo ou em taxidermia. Escritores são anciãos ainda jovens, que se põem à porta de casa envergando túnicas, gorros e olhos tristes. Há muita santidade e loucura em suas barbas. Taras Bulba e os cossacos adentram a aldeota em mais um pogrom. Um arrastão dos diabos, em que nem sempre um cristão-novo sai incólume feito deputado. E nós, os idiotas da aldeia, ainda cremos em excelência acadêmica. 

E dançamos nas ruas feito figuras de Brueghel.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

C'est si bon: Paula Tesser



Paula Tesser apresenta-se próxima quinta-feira, dia 19, a partir das 21hs no L'Ô Restaurante, Av. Pessoa Anta, 217. O espetáculo da cantora franco-brasileira se chama “Démons et Merveilles” e segue por um repertório que arrasta a audiência para a ambiência dos guinguettes. Ou seja, os cabarets presentes nos subúrbios parisienses, que conformam uma tradição popular. Paula canta acompanhada por um quarteto e inclui no repertório Edith Piaf, Charles Trenet, Serge Gainsbourg, Les Triplettes de Belleville e Henri Salvador, entre outros. 
Paulinha, uma de nossas vozes mais refinadas - ao lado de nomes como Kátia Freitas, Idilva Germano ou Karine Alexandrino - tem uma razão um tanto especial para cantar música francesa: haver nascido lá, e morado vários anos em Paris em duas ocasiões. (Naturalmente ressalvo que nasceu apenas em uma delas, na primeira). Ela apresentou-se sucessivamente em anos recentes – passados, aliás, em boa parte por lá e em colaboração com a banda Boa Companhia - como Paula & Boa - trocadilho um pouco redundante, mas absolutamente verdadeiro. Além de música francesa, formou repertório a partir de compositores cearenses contemporâneos, sem deixar de lado bastante Jobim/Vinícius, Edu Lobo e algum jazz. 
De resto, o espetáculo, gravado ao vivo e que resultou em seu CD Retrato do Vento - no Café Pagliucca, aí por 2004 - foi também uma charmosa festa de reencontro de amigos que fizeram, fazem e farão música em Fortaleza e pelo mundo, com acento mais urbano, menos tolhidos por clichês regionalistas.
Bons tempos. Aqueles. Estes. E uma ótima cantora.


Serviço
Evento: Paula Tesser - Show Démons et Merveilles
Data: 19 de abril de 2012, quinta-feira
Horário: 21 hs
Local: L’Ô Restaurante (Av. Pessoa Anta, 217, Praia de Iracema, Fortaleza -CE . 85 3265-2288) - www.lorestaurante.com.br
Couvert: R$ 15,00
Pequena Amostra: Canção do Amor Banal

domingo, 15 de abril de 2012

Do Oceano ao Golfo não escuto uma língua: Adunis



Do Oceano ao Golfo

Gamal Abdel Nasser: “Do Oceano Atlântico
ao Golfo Pérsico, somos árabes”.

A palavra? Você quer descobrir-lhe o fogo?
Escreva, então. Eu disse, escreva! Não gesticule,
não copie, escreva! Do Oceano ao
Golfo, não escuto uma única língua nem
leio palavra. Tudo que ouço é ruído.


Adunis
[Ali Ahmad Said Asbar]


A partir de uma versão em inglês de Roger Allen.

E rio é seu assunto


Um exemplar de manuelzinho-da-croa

Não há sinal de cais, mas tudo me acalma

e esses violeiros em que o jeito de tocar é uma perícia em si. Verdadeira gema. Não virtuoses no sentido estrito, embora o sejam num sentido muito mais amplo e duradouro. Não datilografando trezentas notas por segundo – e para quê? Mas a escolha do proceder e a intimidade de horas em cima do instrumento se fazem ouvir em cada mínima puxada de harpejo ou na mão esquerda assoviando sobre a escala do instrumento. Ouve-se mais notas do que são tocadas. O que é comércio por demais honroso para os ouvidos.
exemplo? Tavinho Moura.
e depois, Tavinho se nutre daquela mesma região de Rosa. Uma das regiões mais ancestrais e misteriosas do Brasil, a do Alto São Francisco, na transição, no botar-se de Minas para Bahia.
e rio é o seu assunto. E é de pensar se quem não é de interior pode perceber o refinamento, a musicalidade desses caras em sua plenitude. Ou se é isso só privilégio de moleques de interior e rio.

as três cantigas gravadas ao vivo para a televisão em meio a conversas. Qual melhor outra? Cada uma delas:


* * *

sábado, 14 de abril de 2012

Ah, what a sign it is of evil life




Saiu no Times. O comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Londres enviou uma proposta ao empresário do The Who. Um convite para que o baterista da banda, Keith Moon, se apresentasse na cerimônia de encerramento. 

O único problema é que há 34 anos, Mr. Moon, mago das baquetas, reside no Cemitério de Golders Green, norte de Londres. E não parece muito inclinado a voltar da melhor para esta.

O universo apressando-se: Adunis


بين عينيك وبيني
 
حينما أُغرقُ في عينيكِ عيني،
ألمح الفجر العميقا 
وأرى الأمس العتيقا 
وأرى ما لست أدري،
وأحسّ الكون يجري 
بين عينيكِ وبيني.ـ


Adunis [Ali Ahmad Said Asbar]



Entre mim e teus olhos

quando de fato vejo nos teus olhos
observo a profunda aurora
e vejo o remoto outrora
e vejo o que desconheço
e sinto universo apressando-se
entre mim e teus olhos


De uma versão para o inglês feita por Aviva Butt.

Em resposta a uma jovem poeta



Em Torno da Efeméride
-A propósito do "Aniversário de Fortaleza".

[…]
É evidente a importância de se estudar a especificidade da cultura indígena. Até porque boa parte da cultura do Nordeste - tanto Talássico quanto Sertanejo - deriva dela, para não falar de nossa composição étnica. Onde a porca torce o rabo, no entanto, é quando se tenta forjar uma cultura indígena onde ela não existe. Ou ao menos não existe daquela forma, por meio de certos ritos, objetos, gestos e posturas que certos antropólogos nos querem impingir como tradicionais quando são constrangedoramente repaginados um tanto às pressas. Eis porque não é nada comovente presenciar os rituais tapebas. Eles parecem portar um selo: Made in China. Ou ainda: Hecho en Paraguay. Para dizer o de menos, e com todas as letras. [...] Mas também não se quer com isso desencorajar ninguém a estudar a questão. Apenas ser sincero. Reafirmar o que se acredita ser como é. O que é diferente de se tentar legitimar uma cultura através de uma espécie de ficção acadêmica. E, claro, isso não se sustenta. [...] E havia então esses dois aldeamentos indígenas ao largo, na franja meridional de Fortaleza: Messejana e Parangaba, que são bem antigos, e vêm do sec. XVII. [...] 
Poder, podia. Mas, lembre-se, o poder é algo vulgar. Mas, e quem acha que poder é tudo? Mas, e essa alergia a datas, eventos e efemérides com selos e ofícios? A coisa fica recendendo a produto e série. E aí a gente prefere o natureba. O feijão com arroz. O pirão. O alho e o tempero verde. A afetivagem nossa de cada dia. 

P.S. - Ainda bem que este ano tiveram bom gosto. E trouxeram Paulinho da Viola. Todos, no entanto, sabem o zero à esquerda que são […]. Ou o quanto secretarias como a da cultura são - salvo as exceções de praxe - cabides de emprego para militantes do PT, da coligação e pontas de estoque do gênero. O próprio aniversário da cidade mudou de dia nos últimos dez anos. Mudará de novo na próxima década? E a data anterior parecia até mais razoável, porque apontava para uma casualidade, um acidente. De qualquer forma, as pessoas têm em mente que uma cidade é algo como seu presente. Ou a semana em que vivem a dorzinha de corno de cada dia. Não lhes passa pela cabeça que ninguém teve intenção de fundar porra nenhuma. Nem mesmo quando Fortaleza ascendeu ao status de vila - ao que parece o motivo da data atual. Ora, Fortaleza era um acampamento português do outro lado do Atlântico. Uma feitoria. Não muito mais que isso. Por outro lado, cem anos antes, Soares Moreno quis explorar os índios, ganhar algum dinheiro - com âmbar, madeiras de tingir, e  algodão bravo - divertir-se com as índias e voltar a Portugal para pôr o boi na sombra. Se lhe dissessem depois, no mas allá, que a região selvagem em que viveu iria se transformar numa grande cidade, ele acharia isso surpreendente. Uma ideia um tanto exótica, extravagante: “caralho, Cidade?” - diria. Podia até espantar-se com a dimensão que as coisas ganharam. Mas, no fim de tudo, estaria mais interessado em Portugal, como continuação; nos sucessos da Restauração, em D. João IV e nas profecias do Quinto Império do que naquela terra remota, de praias desertas e bugres. Agora, naturalmente, como sucede no caso dos pais, 'todomundo' precisa de uma origem. Desesperadamente. E no caso, a mais nobre e bela que se possa forjar. Longe o máximo possível de violência e sexo. A cidade, aliás, não tem nenhuma ligação mais viva com Soares Moreno, cujos mocambos e paliçadas eram na foz do Rio Ceará, na Barra do Ceará. E tudo em taipa. E isso não deu em nada. Era muito precário. E foi completamente arrasado pelos índios em poucos anos, depois que Moreno retornou à Europa. Voltou a ser areia. A mais pura areia de duna. E teria sido apagado da história, não fossem Frei Vicente do Salvador e os jesuítas. E, depois deles, José de Alencar e Capistrano. Porque há esse milagre de a letra sustentar um passado que estava fadado a obliterar-se bem na origem da cidade. Ou seja, não fossem sobretudo os jesuítas, e a própria Relação de Soares Moreno talvez nem houvesse sido copiada e sobrevivido. E, então, logo a seguir de Soares Moreno e dos padres, umas duas ou três décadas, algo foi iniciado, de fato, no local da atual Fortaleza. Só que pelos holandeses. Mas não pegaria bem situar a origem numa feitoria holandesa, com um nome que dá um nó na língua: Schoonenborch. E que alguns até julgam ser o mero sobrenome de um oficial subalterno. Enquanto outros tomam a justaposição da palavra: algo como “Belo Castelo”, ou "Belo Castro", em flamengo. E, estendendo um argumento cheio de risco [e desses riscos também vive a poesia], como todo castelo implicitamente rebocava a ideia de uma elevação, um outeiro, talvez: "Belo Monte". E a ninguém ocorre a presença de espírito, a licença poética de vincular essa Belo Monte, à beira-mar, com outra, em pleno Sertão da Bahia, também decisiva para a consolidação do Nordeste enquanto cultura federada, que transcende a franja dos estados. A data abandonada refere-se a esse primeiro forte, ainda de madeira. E os batavos também montaram aqui apenas uma feitoria avançada, de onde pudessem alcançar o Maranhão. Nada mais. Não havia nenhuma intenção, digamos assim, de cidade. Como de resto houve - e muito - no caso do Recife. Então, é viver a cidade com seu passado e seu futuro no presente, sabendo que ela provavelmente originou-se de uma desatenção, de uma falta de intenção, de uma des-intencionalidade, quanto a isso de "se tornar cidade". De uma espécie de acaso geográfico. Quando se está numa fazenda ou numa feira, se está numa fazenda, numa feira - não se tem noção de que essa fazenda ou feira se converterá em cidade, no futuro. Muito menos numa metrópole. Agora, suspeitando também que espaços, lugares são frágeis. Montam-se e desmontam-se relativamente da noite para o dia. Perdem inteiramente suas significações e intenções no curso de uns poucos anos. Décadas. Seus aspectos. Seus eixos. Suas eiras. Suas beiras. Sua funcionalidade. Há uma mutância que é inexorável. Faz parte. E que infelizmente arrasta consigo alguma coisa boa  - além de muita coisa ruim, em boa hora. Em nome dessa coisa boa, dessa promessa, também se estuda o passado. Pois as coisas ruins, as ligadas ao poder, ao dinheiro, são as que têm a sua memória e sobrevida asseguradas. Automaticamente. Como diz Benjamin: “a civilização é uma barbárie”. ["A civilização é também um documento de barbárie"] Uma barbárie cheia de firulas, maneirismos, mas, no fim de tudo, tão ávida de sangue e destruição, quanto Aquiles e os aqueus no cerco de Tróia ou os bandeirantes - dos quais descendem, aliás, um considerável contingente de nordestinos, embora poucos saibam disso¹ - ou guerreiros tupinambás em pé de guerra. Até o final da década de 1970, havia um imenso descampado entre as imediações do que é hoje o Center Um e a Praia do Futuro. A Praia do Futuro, então, ainda fazia jus ao nome. Ainda se atingia ao longe. Era uma probabilidade. Algo semi-rural. E, mais consistente, é pensar que aquelas campinas, sobre dunas e pequenas lagoas e pântanos, eram de uma beleza maior que os bairros que depois se abateram sobre elas. Que no lugar de delicados aguapés, riachos e lagoas, há esgotos e ruas. Um poeta de verdade pode, em certo sentido, viver nos dois momentos. Ver as garças, os gaviões, as lavandeiras, os bem-te-vis voando pelos manguezais e os descampados da praia ao mesmo tempo em que passa de carro entre condomínios, guaritas, semáforos, buzinas e letreiros em neon. Um poeta de verdade olha com os olhos dessas aves. E vê o tempo dessas aves. O canto. E o mangue em torno. E, ao mesmo tempo, vê ruas e cidade. Ouve buzinas e a tensão da energia passando na fiação. O trânsito congestionado e as pessoas aguardando nos pontos de ônibus. O homem inevitavelmente destrói. Há uma marca de Caim. Sombra de sangue, violência, sevícia, ganância, vaidade. Isso vai deixando uma nódoa após outra. Uma crosta de destruição. Pode ser de outra forma? E só há um futuro para a cidade - assim como para o planeta: menos consumo e mais sustentabilidade. Não é preciso ser nenhum Malthus para chegar à conclusão tão óbvia. E você está certa, porque vai mais além. E se me permito passear um pouco, foi só porque a sua questão chegou posta dessa forma, assim, perspicaz, bonita, que a gente pega boa carona nela. Não para respondê-la. Mas para derivá-la. Recontá-la. Buscar um outro modo de dizê-la. Em sequência. Esse ato mais axerazadeado. Mais feminino?
[…]

[Texto retirado de um imeio endereçado a I.B. de C. em 13.04.12]

¹Na verdade, é bastante provável que haja mais descendentes de bandeirantes nos sertões do Nordeste que em São Paulo. Mas o Monumento às Bandeiras está no Parque do Ibirapuera, e não em Petrolina. E é, digamos assim, uma espécie de símbolo e monopólio dos paulistas. O que pouca gente se dá conta é de que existe uma enorme suplementaridade entre as populações do Sertão do Nordeste e de São Paulo. Quer dizer, de São Paulo anterior à chegada dos imigrantes europeus, no final do sec. XIX e primeiros anos do sec. XX. E isso muito antes de o primeiro migrante nordestino sequer sonhar em pôr os pés em São Paulo. A rigor, a origem é a mesma: de matriz mameluca. E a parte europeia nessa mescla, também a mesma: bandeirantes (descendentes de portugueses) já ligeiramente caldeados com indígenas. E, assim, uma considerável parte dos sertanejos nordestinos descende em linha reta de bandeirantes tanto quanto ou mais que os paulistas - que depois se misturaram com imigrantes europeus bem mais recentes. Pois foram os bandeirantes paulistas que, migrando para os sertões do Nordeste, os ocuparam e colonizaram, via Rio São Francisco e outras trilhas. [Um estado como o Piauí é uma "invenção" histórica quase exclusiva dos bandeirantes paulistas, que o ocuparam do interior para o litoral. Ao contrário do Ceará, onde os pernambucanos vieram pelo litoral; e os baianos e paulistas pelo interior.] Isso tudo - de haver mais descendentes de bandeirantes no Nordeste que em São Paulo - chega ser uma ironia. Mas isso iria ferir de morte uma série de clichês culturais. E outras cositas de que os paulistas se orgulham e batem no peito cheios de preconceito e ignorância. E não interessa a ninguém [em São Paulo] tocar em questões assim, enquanto a política oficial for a de seguirmos copiando teorias e procedimentos norte-americanos e europeus que são perfeitamente inadequados e estranhos aos nossos processos históricos de interação étnica. De resto, bastante diversos dos deles, e muito mais inclusivos, apesar de tudo. Além do que, quando se toca em questões assim deve-se ter um certo senso de humor. Pois só o humor - um humor cultivado, inteligente, astuto - nos compensa do imenso desconhecimento de causa da vasta maioria da população (com seus velhos preconceitos, arraigados) e dos rumos nada auspiciosos com que essas questões são tratadas no âmbito estritamente oficial ou acadêmico.