segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tudo que vai na voz da conversa traduz algo muito mais súbtil do que pronomes relativos

Öyvind Fahlström, Sketch for World Map Part 1 (Americas, Pacific), 1972


Uma insuficiente reportagem

Há uma forma de errar que é a certa.¹ Vamos, é só uma questão de escolha. É só mais uma forma de errar. A ciência procede assim, munida de uma catedral de métodos: tenta errar o máximo possível perto da verdade – a que só os místicos, iluminados e visionários se aproximam? A maior parte das vezes, no entanto, sabemos, a ciência sequer chega perto dessa aproximação. Ou desvia-se, com maior frequência, aos barrancos e trancos, para uma distância que não se pode medir a gritos. Uma insuficiente reportagem.

Em certas situações de insuficiente reportagem, tudo está posto, menos o que está posto.² Tudo que vai na voz da conversa traduz algo muito mais subtil do que o que desvela:

Você viu e disse para ela. Ela viu com toda a fome de olhos que a terra há de comer. Aquilo tinha o valor de uma sarça ardente. Extinguiria a disputa. O endereço era como você disse. Aquela barbearia que o pai dela costumava cortar o cabelo ficava, como expresso no mapa virtual, na rua que você pensava mesmo que ficava:
–Viu? – disse você, com ar de vitória, o dedo cravado no mapa.
–Mas, menino, até parece – ela retrucou – já não se fazem mais mapas como antigamente.

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¹Aqui pense também 'errar' no sentido de 'divagar'. Justo como você acabou de fazer ao ler esta nota, desviando-se do fluxo do texto em curso.
²E pode-se pensar se Umberto Eco e o finado Deleuze seriam tão criativos conceitualmente para bolar uma expressão que surtisse melhor efeito do que "insuficiente reportagem" no quadro epistemológico arriba.


* * *

As barbas de molho em pratos limpos

Juan Gris, Compotier et nappe à carreaux, 1917

Botânica

a boca no trombone
o pé na lama
as barbas de molho
em pratos limpos

lenha na fogueira
fogo no circo
viola no saco
o maior boneco

as cartas na mesa
a conversa em dia
a casa abaixo
uma pedra em cima

o dedo na ferida
as mangas de fora
o pé na estrada
o preto no branco

o preto no branco


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sábado, 22 de outubro de 2011

Só para fazer convosco eterna liga

James Casebere, Subdivision With Spotlight, 1982


A Irrevogável Decisão das Parcas

Era preciso um pôr-de-sol. Um pôr-de-sol precioso. Janeiro. Todas as festas de inauguro haviam recém-amaecido, e o ano trilhava ainda ressaqueado a pasmaceira daquele nada acontecer até o Carnaval. Uma calmaria, análoga á que se abateu sobre as naus dos descobridores, arrasta-se por esse primeiro quadrante do ano como uma  praga bem rogada. Ou um filme passado nos trópicos, com um lento ventilar varrendo moscar sobre a mesa de bilhar. Dobrei o jornal decidido: era preciso um pôr-de-sol. Quando mais jovens e a cidade menos turística, íamos à Ponte Metálica, com violões. E ficávamos até que a primeira friagem da noite incomodasse, e a cidade, acesa às nossas costas, convidasse para casa, um banho quente, uma limonada suiça ou água de côco, antes de descer novamente para os bares da Praia de Iracema.
Arrumei a mesa. Pus planilhas em gavetas. Bati no tampo da ampulheta, e os grãos verdes desceram: quarenta e dois segundos. Tempo suficiente para quê? Joguei no cesto o excesso da correspondência: malas diretas; informes, grandes anúncios de imóveis. Dispensei o assistente mais cedo. E saí.
Já no Meireles, quando atingi a ladeira da Barão de Studart, o mar brotou, lá abaixo. Perspectiva extensa que se vai adelgaçando à medida que se desce, a marcha engatada, com a doce luz oblíqua das tardes fortalezenses roçando os telhados vermelhos. Eu sabia. A cidade acabava ali. Mar no limite.
Passei em frente à recepção do Esplanada e tomei à direita: mão-única da Beira-Mar.
Mulheres pareciam mais sensuais sob as malhas pretas do jogging. Mas nenhuma especialmente atraente. A idade faz exigências. E às vezes não oxigenas. Há uma seletividade. E tudo seguia passando, ainda sem a beleza do pôr-de-sol: o charme ordinário das meninas de programa; os semblantes rubros dos turistas alemães; o casal argentino, ambos de cabelos compridos como atacantes do River Plate; reproduções de quadros famosos a rodo; deploráveis talhas com motivos sacros: últimas ceias, madonas, sãos franciscos - e todo o tempo que se gasta em fazê-las; o vendedor com as redes estampadas ao ombro; a regularidade cheia de nuances dos triângulos de chegadinho; anúncios de coca-cola, de cigarros, loteamentos e parques aquáticos; pilhas de coco verde; o cigarreiro ambulante; pregões; garotas estendidas sobre toalhas nos muros dos clubes; hippies temporãos e mendigos.
De repente, do lado direito, ela surgiu. Pisava estranho o asfalto irregular – como se um dos pés falseasse a altura mediana. Era morena clara. Estava bronzeada. Os óculos de aros escuros sobre o nariz afilado. Dentes ligeiramente proeminentes. A brisa revoltando fios avulsos do cabelo preso, que escorriam sobre a face. Usava uma camiseta rosa de gola alta e um short azul-índigo, sumário, encorpado por pernas roliças (mas oblongas), que devolviam um andar terminado num par de dock-siders. Postura espigada, quase selada. E, com a segunda no engate do tráfego lento, e ela atravessando a avenida portando a vasta mochila, nossos olhares se cruzaram por segundo e fração. E logo ela se perdeu sem menção de retrovisor, no veraneio da tarde janeira.
Mas, um giro no quarteirão. Um estacionar o carro. E vinte minutos depois, estávamos sentados na mesma mesa, o mar por diante:
“Então é melhor vir no meio do ano?”, ela disse.
Estudava jornalismo na Cásper Líbero e havia, ano passado, feito uma excursão à Europa. Chamava-se C. F.
Conversamos sobre Londres: a promiscuidade dos vagões do metrô, o acervo da Tate, os museus, a infelicidade auto-suficiente das minorias, os caribenhos que organizavam o carnaval de agosto em Notting Hill, o desolamento mal iluminado das ruas quando a noite abate-se sobre a ex-capital do mundo. Os pubs que são a quintessência de uma sociabilidade, digamos, profissional.
Eu bebia chope. Ela saboreava um vasto sorvete com waffers. Suas malas estavam num hotel próximo. Matava tempo para tomar o ônibus. Canoa Quebrada.
Então falou de São Paulo: andar de bicicleta no Ibirapuera, tomar chope nos botecos de Vila Madalena, degustar um vinho nas cantinas do Bixiga, vadiar de carro na madrugada da Henrique Schaumann. Perder-se na noite, às vezes, um tanto lotérica, sublime, matemática, de Vila Olímpia. Shoppings. Teatros. Cinemas:
“Não se vive sem eles quando não se tem mar, não é mesmo?”
Teria contestado se logo meus olhos não houvessem dado com suas mãos.
Os anéis estavam bem distribuídos nos dedos. Pousava a mão sobre o tampo da mesa com gentileza. E comparando com o tempo que gostaria de entretê-la diante de mim, as horas que faltavam para seu embarque foram se tornando os quarenta e dois segundos da areia verde, na ampulheta, sobre minha mesa de trabalho, caindo em mão-única.
A horas tantas, não era eu quem lhe falava. Mas alguém que desandava a tagarelar muito além do comedimento usual. Cheguei a emendar uma sequência de piadas, um trem de empostadas alegrias. Fiz citações estapafúrdias. Entornei chope sobre a mesa. Histrião em pessoa.
Ela me olhava, por trás das lentes, míope, divertida. Um pouco curiosa. E ria solto. Depois, esforçava e continha-se. À vezes repuxava os lábios num meio sorriso desaprovador, irônico. Havia encanto?
Não logrei de imediato ganhar sua confiança. Teria sido equívoco, hoje sei. Mas a vida é tentar encontrar. É tentar. E o acaso ainda um excelente caminho. Talvez o melhor. O único? Ah, a decisão irrevogável tecida pelas parcas.
Depois passamos num ambulatório de uma farmácia vinte e quatro horas onde ela extraiu um espinho, porque caminhara descalça no Cumbuco. Seu rosto contraído.
Ganhar a confiança de alguém implica uma instância de verdade. Não é rua de mão única:
“Passo na sua casa quando voltar, próxima semana”, ela disse vagamente, aprumando a mochila.
E, do jipe, vagamente a vi perder-se na azáfama entre os guichês da estação rodoviária:
“Só para fazer convosco eterna liga”, pensei.
Tínhamos nós, perfeitos desconhecidos, passados um crepúsculo e sete horas conversando ininterruptamente. E calando. E deixando aos corpos a precedência. E voltando à conversa. Para uma nova supensão. Sim, um soneto de Baudelaire foi do que também me lembrei.
O tal heroísmo da vida moderna. O de o filme se passar à última vista.



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Optou mesmo pelo basilisco

Willem de Kooning, Villa Borghese, 1960


Bichos de Sete Vezes Sete Noves Foras duas Cabeças

Meses a fio hesitou. Ponderou. Flertou. Qual seria o bicho de sua eleição? Depois, ficou em dúvida entre a água-viva e o ouriço. Mas, num rompante, optou mesmo pelo basilisco.


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Nadando no divisor de águas

Roni Horn, Her, Her, Her, and Her, 2003

A Perseguição

E o site de calçados começou a correr atrás dele no meio da rua. E quanto mais ele corria, mas era acossado pelo site. Virava páginas no inconsciente, e o site ali, marcando colado. Fungando. Não adiantava fechar olhos: a coisa era real. Suores. Espalhava-se por vários suportes ao longo das vias de fato. Com ou sem curadoria de conteúdos ou promoção de GT's.
Daí, então, entrou no cinema. E assistiu, sem querer, àquele primeiro filme de Godard patrocinado por um site de calçados.
Diz ele que que a experiência foi um divisor de águas em sua vida. E houve mesmo quem o viu de flippers, nadando nas águas de baixo.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Play it, Sam. Play 'As Time Goes by'

Georges Braque, Piano et Mandore, 1910


Meia-Idade

É algo a que se chega quando se acha jovem Sam ao piano.


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Se pronuncio as três mais estranhas palavras: Szymborska

 Barbara Kruger, Untitled, 1980


Trzy słowa najdziwniejsze

Kiedy wymawiam słowo Przyszłość,
pierwsza sylaba odchodzi już do przeszłości.

Kiedy wymawiam słowo Cisza,
niszczę ją.

Kiedy wymawiam słowo Nic,
stwarzam co, co nie mieści się w żadnym niebycie

Wislawa Szymborska


Three Oddest Words

When I pronounce the word Future,
the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,
I destroy it.

When I pronounce the word Nothing,
I make something no nonbeing can hold.

[versão de Stanisław Arańczak e Clare Cavanagh]


Trois mots étranges

Quand je prononce le mot Avenir,
Sa première syllabe appartient déjà au passé.

Quand je prononce le mot Silence,
je le détruis.

Quand je prononce le mot Rien,
Je crée une chose qui ne tiendrait dans aucun néant.

[versão de Piotr Kaminski]


Três Palavras Estranhíssimas 

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
quebro-a.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio o que não se ajusta a qualquer inexistência.



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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A cidade demarca-se por onde nela se é

Juan Miró, Paysage, 1927

Madureza Ginasial

The delight that never fades, the bliss that is eternal, is only yours when what you most desire is just out of reach.
.                                                                                                                                                [C.S. Lewis]

Quando saiu para caminhar depois de algum tempo fora, redescobriu, ao cruzar o estacionamento do supermercado, o quanto a cidade se referencia por onde nela se é feliz. E assim os olhos descansam naquilo que nos acolhe feito casa. Nos dá ou deu abrigo. E até mais bons-dias recolhe no percurso, nas compras, até chegar àquele ponto. (E como ele pôde chegar àquele ponto; àquele nó, tão cedo; se mal havia aprendido, ainda em recentes anos, as coordenadas e Descartes?) E é quando se convoca saudações, porque se segue, protagonista de si. O que, no íntimo, tudo e todos os que conspiram a seu favor querem mesmo é que você seja, a despeito de inseguranças, da idade.

E, assim, ao sair do supermercado os olhos tocaram a pequena cobertura. Em ato reflexo. O terraço incipiente, o aparente passar batido em meio à paisagem, se vista daquele estacionamento onde se erguia, em tempos ainda mais idos, a moradia do interventor. Quem liga para isso. Porém a cobertura minúscula, improvisada, a que se entrou, quase sem querer e crer, quando muito jovem, ainda está lá, escondida como era seu uso, acima da copa dos velhos oitizeiros. A oscilar, minúscula ilha de sanidade, entre duas propostas que não há mais: a escola secundária de um lado e, do outro, a velha casa de cômodos (para moças de família?) – uma convertida em centro comercial; a outra, quem diria, em maternidade. Uma ilha não de todo deserta, mas daquele tipo para onde se levava os dez melhores discos. E eram lados A e B de rascantes quereres, girando na hesitante luz da manhã, como uma rede armada, suspensa, lá, acima, entre dois golpes de vista. Um pouco escondida pela folhagem dos oitis e acácias. Alpendre alçado em segredo sobre a cidade serenada.

Também a mente dava voltas. Ele abria-se à vida quando ela morou ali. Não havia demarcar tempo preciso: horas comuns ou extras, zelos sem razão, fundação de calendários. Tudo precário e bom. Um pouco clandestino como essas coisas de professora e aluno. Já tão próximos e, ainda assim, sem o inoportuno de celulares, notebooks, tablets ou i-alguma coisa. O estorvo megamétrico das redes sociais. O sem-fim de recidivas ao redor de uma máquina e seus monopólios. E, do contrário e em carne osso, pelo e encanto; ela era sua professora na graduação. Embora e sem descoser, não fosse nada professoral em atitude e vocação a maior parte do tempo. E, em seu apego ao fortuito, se entregasse de corpo presente, de corpo inteiro, mas sem esquecer que podiam faltar um ao outro a qualquer momento. Sem deixar de acenar para a planura de fatos contra os quais não se pode ir, para a evidente precariedade do ensejo:

–Veja se agora você descobre outras coisas.

Parecia dizer. Não dizia. Era quando muito o insinuado. (Talvez tenha dito uma única vez).

E, assim, todas as horas vividas no contínuo emaranhado de corpos que se movem. E prosseguem. Sem deixar margem para maiores inquisições. Ficções. Falsos consolos. Quinhões de elaborar. Sem abrir espaço para uma outra manhã metafísica. Posterior. (Solene?). Para outro amanhã, além da contingente bondade material, palpável, longe das palavras – com cheiro de cerveja, café, farelos de pão, sobejo de massas, pratos pingando no escorredor – de suas presenças ao longo de noites que não podem ser vendidas separadamente. Noites não definidas pela manhã. Mil delas e uma. Suores porejando. E ela: branca, nua. Farta em suas linhas. E quando pensa que ela era bem mais jovem do que ele é hoje, um riso calmo percorre lábio. E o passo sofrea-se como num transe.

É como dizer com atenção, prospectividade, do dia que se vai formando. Às primeiras horas. O bem-te-vi ensaiando frases no fio de luz. Os bandos de fogo-pagou temperando de tons – cinzas, castanhos-claros, zincos e águas-fortes – a tropicalidade ao redor. Aquele pio tão rural desabando sobre o asfalto. E logo ela nua, mapa, farta em suas linhas. Copiosa. Longilínea forma de ser vasta. Esquadrinhável por diversos compassos. Lavada em tons castanhos. Profundamente cavada sobre si (e para mais quem). Como o rumor de trovões distantes – amarrado ao cair da chuva encorpando – cerca a existência e o quarto, repleto de distinção, variedades, ritmo.

Como o bom-dia. Ou o bom-dia.


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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando lerdes num breve livro casos tão diversos

Sigmar Polke, Kathreiners Morgenlatte, 1979

Me fez que seus efeitos escrevesse

No íntimo, uma coisa se quer: que o teu texto possa oferecer companhia a quem dela precisa. Adocicar o amargo de certa quarta-feira. Buscar. Possa remendar uma injustiça, ao menos em espírito. Provocar um sorriso – mesmo de sarcasmo tá valendo. E pensar que alguém, numa cidade estrangeira, sozinho e de olhar quebrado, pode matar saudades de casa ao lê-lo. Contiguidades assim proponha. De algum modo, alguma forma. E de um modo que não passe exclusivamente pela publicidade. E de uma forma que não seja escrava de uma teoria pré-. Ou que proponha apenas o jogo narcísico do poder. Ou ainda se sectarize, imbecilizando-se de vez. Se não se pode tocar um piano de cauda, como os clássicos, que se possa tirar algum som da gaitinha de boca. Livres. Grátis. Compartidos. Ainda mais abertos a todos que em Creative Commons. Ao alcance de quem, que o teu e o meu possam ser textos em que tudo periga.


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Lapsus Linguae

Sharon Core, Candy Counter 1969, 2004

Dois Peitinhos na Lagoa

Deve haver uma forma de gostar que não passa por ela. Por eles. Os predicados dela. Ou, ainda melhor, que passa ao largo dela. E deles. E nessa toada, no rumo dessa digressão, é possível, então, largar-se pelo mundo com a sensação de que algo se está inaugurando tão-só pela presença da gente. Digamos, um ferryboat, um açude, uma lanchonete, um píer, um passeio público: misto de parque e praça cheio de árvores, de sombra. Toda uma estatuária clássica ao longo e, num belveder debruçado sobre o mar, duas enigmáticas esfinges entrefitando-se. Uma praça-parque. O conceito é este. E nela, há perto do bambuzal um banco. Desses bancos ingleses, de madeira fornida. E, com as pernas trançadas, sentada no banco, uma jovem mulher. Ao lado dela, uma bolsa entreaberta. Ao lado da bolsa, um livro interrompido. Ela enverga jeans, tênis, uma blusa laranja, traz o cabelo preso e, pelo safo modo como degusta o sorvete, quase a prescindir da colherinha, é igualmente destra em certa carícia. Ela tem olhos castanhos-claros. As escleróticas tão limpas que parecem dois rebatedores de fundo para fotos neutras sob spots com led, de altíssima anti-refração. Dois patinhos passam na lagoa. As linhas convexas no atlas de anatomia do olhar. Ela tem um magnífico sorriso. E não é difícil chegar à conclusão: ela e a que se devia evitar, Princesa, são uma só e a mesma até o sol raiar e segunda ordem e se calhar e se o caso for e se manhã cantar no colo do galo. Arre, há sempre um sonho traiçoeiro a nos lembrar do que aparentemente já se dava por esquecido.¹

E, logo, é necessário voltar ao começo – como o poeta volta no verso para poder ir mais longe – se o desejo é esquecer. E partir para outra. Mas, da próxima, melhor evitar bancos de praça; árvores; estatuária, esfinges; sombra; livro; sorvete. 

Sopas, assim, para o azar.


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¹Esquecido, aqui, não deve ser lido apenas como particípio passado do verbo esquecer, mas também como um pequeno bolinho – uma madeleine, um muffin – bastante apreciado no interior do Ceará.


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Casamento, essa interminável pingação de i's

Max Ernst, Le baiser, 1927

Em nome do vem, vai

– Você não acha? – ela disse.
–Se disser que acho, você vai dizer que só estou dizendo p'ra lhe agradar.
–Mas, menino.
–Se disser que não, você vai dizer que sou chato, que sempre digo não.
–O sem-pé-nem-cabeça disso me comove.
–Ah, e tem mais: se eu disser mais ou menos, aí você vai me pedir para descer do muro ao menos dessa vez.
De repente, ouvia-se o circulador de ar. O mundo fora posto no modo pausa.
E a circulação das ideias, por analogia, ameaçou trazer o casamento deles para uma zona de lucidez tão terrível que seria dispensável conversar.
E eis que isso não existe: todos precisam conversar. De algum modo.
Em nome da abobrinha; do fiado; do mole; da gente grande; do boi dormir; do homem para homem, da teoria da recepção; do bêbado; do vem, vai;  da comadre, dos bastidores; do Tutú Marambá.

Em nome dos is que, mais adiante, precisarão ser pingados e repingados. De novo e para sempre.


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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gratuidade da teoria

 Maurizio Cattelan, La Rivoluzione siamo noi, 2000



Se só falar sozinho fosse

Dia desses, alguém dizia o quanto o Twitter mudou – mudou? – e todos andam, como esquizofrênicos, a falar sozinho.

Se só falar sozinho fosse esquizofrenia, minha cara, o que seriam os escritores?


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A clássica declaração, a que se ouve em novelas

Mark Rothko, Untitled (Black and Gray), 1969

Tardia

–Deixe-me dizer que... – saiu a voz por um fio. E fez a declaração clássica, a que se ouve em novelas.
Em volta, camadas de cigarras, grilos, e um sapo a coaxar distante. Ela ajeitou as flores na coroa. Limpou um pouco a poeira na foto, no alvor vítreo do mármore.
E se foi.


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Na tradução para o ao vivo, algo se perde

Roy Liechtenstein, Interior with mirrored wall, 1991


Warenfetisch


Os tênis são lindos
nas fotos da internet,

a vendedora admite.
Na tradução para o ao vivo,

algo se perde. No ao vivo
há o ar condicionado

com defeito; a vendedora
até bonita – mas brigada

com o namorado – porta man-
cheias de má vontade no riso;

ângulos; texturas; luzes,
a interferência de outros

ruídos que não glamorizam
os pares. Faltam aos tênis

ao vivo, digamos, a gente,
entre outras, poder

percorrê-los com o mouse
em gentil travelling.


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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Por que não conversaram?

Ricci Albenda, Portal to Another Dimension, 2001


 Intimidade

A filha, depois de descobrir que está grávida, tem aquela infintável conversa com a mãe:
–Oh, minha filha, tem tantos métodos hoje. Hoje em dia engravida quem quer! Por que você e o rapaz não conversaram?
–Mas, Mãe, a gente não tinha intimidade p'ra conversar essas coisas!


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Poucos na rua sabem dele

Yaacov Agam, 1961


O Eremita

Perdeu os pais e a filha. A mulher, os sócios, a casa de praia. Uma das vistas para o mar. Uma das vistas. O hábito de sorrir.

Em desoras andava pela Rua Carlos Vasconcelos com o rosto envolto em molambos. Não tinha amigos.¹ Nem credores. Nem ninguém.

A casa, um sobrado à esquina, arruinou-se. Alguns mendigos tentaram se acomodar, infiltrando-se pelas janelas desguarnecidas. Ele os afugentou.

Poucos na rua sabem dele. E dizem que, quando mais jovem, fora professor. Não sabem mais que isso, para além de um lance ou outro de sua tragédia pessoal. 

A ninguém permite que se “intrometa” em sua vida. Não vendeu a casa. Ou buscou internar-se numa clínica. Quando a ferrugem roeu de vez a bicicleta, não comprou outra. O mesmo havia feito com o carro.

Uma noite, não tinha mais dinheiro. Sequer para cigarros. E a chuva não lhe permitia catar baganas na rua. Relâmpagos davam à casa a luz que há tempos fora cortada. 

Deitou no chão. O chão estava em poças. Goteiras soavam ao longo do velho sobrado, a percorrer sua ruína por corredores, vestíbulo, despensa. Ainda assim, conciliou o sono. E entrou a sonhar que fumava. E, verdade, nunca fumara melhores cigarros. Havia uma bela mulher que lhe entendia, lhe cobria de carinho. Havia vinho. E uma bancada de frios finos. A mulher nada exigia dele, que não fosse justo exigir. E em compensação: lhe dava tudo.

Na manhã seguinte, ao percorrer o quintal, a face oculta pelos molambos ao modo de um niqab, deparou-se com um pé de cigarros.

Colheu alguns.

Fumou.

E embora um estivesse verde, pôde confirmar que eram os cigarros do sonho.


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¹As mesmas garotas que choravam à assistência de Edward Mãos-de-Tesoura, achavam-no repelente. Podiam denunciar sua simples presença à polícia. Talvez seja essa a distância entre o mundo do faz de conta contado em filmes, óperas, livros; e o mundo do faz de conta real, que não é nunca tão glamuroso assim (descontado tudo que diz respeito à Duquesa de Alba e a uns poucos outros).


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domingo, 16 de outubro de 2011

De Sílvio vem aí às montanhas russas

Hans Arp, Constellation aux cinq formes blanches et deux noires, 1932


5 ociosidades para mandriões


Sílvio Santos na velhice e diversas variações de cirurgia plástica depois --- para retirar rugas, pregas, graxa e nódoas --- está começando a ficar parecido com Michael Jackson.¹ 

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Algumas notações de risada no Twitter dão medo. Capitão Gancho e toda a estirpe dos vilões perdem feio.

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Leander Paes, esse tenista indiano, especialista em duplas, que parece infinito. E não há essas figuras que assomam na mídia e você perde a noção do tempo em que elas lá estão?²

* * *

Não sei se isso procede, ou se é viagem. Mas e se for viagem, não tem de proceder?

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E, como se sabe: na Rússia todas as montanhas são russas.

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¹Que o neto de Sílvio Santos interprete Tim Maia numa peça, parece ironia. E lembra certo trecho hilário da biografia não autorizada de Roberto Carlos. O rei, à época morando em São Paulo e acompanhado por um séquito, ao atravessar em atropelo os estúdios de certa estação de TV, atira uma nota de dez mangos, recém-amarrotada, a um Tim exausto, faminto, que lhe acenava a um canto: "Pr'a voce, Tião". Tim havia se atacado (muito mais com a coragem do que com a cara) do Rio a São Paulo para implorar que o Rei gravasse suas músicas. A essas alturas, a vida do autor de "Azul da Cor do Mar" não andava nada azul.

² Para mim, Paes está no circuito da ATP desde os tempos de Michael Chang -- o que não corresponde, de forma alguma, à realidade (ele vem bem depois).ª Mas, por vezes, é bom não checar tudo via Google, Wikipédia ou quejandos. Coisas assim começam a padronizar em excesso o que se produz e/ou busca.

ªNão é bem assim. Chang começa a carreira em 1988. Paes, em 1991. Os dois têm praticamente a mesma idade. A diferença fica por conta da maior longevidade da carreira de Paes, que está jogando até hoje, enquanto Chang parou em 2003 e teve muitos, sérios problemas com contusão, encerrando --- a exemplo de Guga --- precocemente a carreira.


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Quando tão bens vão pro passado

Amedeo Modigliani, Nu, 1917



Relato com um título tão prolixo quanto ele próprio


Ela estava tão bem intencionada e casada até vê-lo.


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Aquele desejo de clichê azeitado pela mídia

El Lissitsky, Sportsmen, 1923


Conforme

O sujeito está na fila da lanchonete com uma camisa do Ceará Sporting:
–Tem vergonha de torcer p'r'um timinho desses não, minha joia?¹ – diz o outro.
–Mas eu não torço p'r'o Ceará – diz o sujeito.
E havia no ar aquele desejo deteriorado, de clichê, azeitado até as últimas sílaba e consequência pela mídia:
–E tá usando essa camisa no lombo pr'a quê, autarquia?
–Deus dá o frio conforme o cobertor.

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¹Quem dirige-se a alguém do sexo masculino como "minha joia" --- e ainda mais no Ceará --- só pode estar mal-intencionado. Ainda não ouvi a expressão fora do Ceará. "Autarquia", no entanto, já foi bastante popularizado em outros estados graças ao breve lapso em que a TV Diário (e seu programa mais popular: "Nas Garras da Patrulha") desceu até mesmo aos estados do Sudeste/Sul. E para, lá, ser tirada do ar por pressão da Globo, que ameaçou não renovar a concessão de retransmissão de sua programação pela TV Verdes Mares. Esta, por seu turno, forma com a TV Diário e o Diário do Nordeste o mesmo conglomerado de mídia.


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sábado, 15 de outubro de 2011

Uma Semente de Catedral

Memorial à entrada da zona urbana de Pacoti, Serra de Guaramiranga, CE


Memento Mori

.                       What will survive of us is love
.                                                                 [Larkin]


Na entrada de Pacoti,
à morte ergueu um mausoléu.

Foi ao amor, dizem outros.
Dá um arrepio na alma

ver aquele pré-túmulo branco
a querer ser gótico

entre os bambus da serra.
Para marcar o lugar

em que ela morreu de repente,
o marido lhe ergueu

uma semente de catedral.
Como possível fosse

eternizar o plano fato
de que a hora dela chegou

no esplendor do viço serrano.
Hoje não se morre mais

de repente ou se guarda o lugar
da morte na paisagem.

De repente é passo de tartaruga
nos expedientes de agora, e ir

do regime lamelar ao vorticoso,
voltar de novo ao lamelar.

Mas, de noite, outros peregrinos
assombram o semi-templo

com seus cigarros aromáticos,
gírias, juras, palavras dadas,

velhas senhas de namorados.
Fique a dor do viúvo à gaveta

no segundo plano da noite,
esse imperativo de ser feliz.


* * *

Qualquer coisa ou alguém diferente do que ou de quem

Alighiero e Boetti, The Thousand Longest Rivers of the World, 1976-82


O que um rio deixa de ser


O rio não é o mesmo.

É idêntico.

É mais um.

É semelhante.

É o suficiente sem ser bastante.

Junte-se aos pronomes nós e vós.

É distinto de outra pessoa ou coisa.

Opõe-se a uns ou um.



O rio é outrem.

É o último.

É o próximo.

É o inteiro.

É o segundo sem primeiro.

É outro que tal e tal.

O rio é fulano.

São anzóis.



O rio é a despregar bandeiras.

É não este.

É passageiro.

É permanente.

É o contrário do que a gente.

Difere do que ou de quem está próximo.

É um segundo.

É o seguinte.



* * *

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Moscas liam cartas microscópicas: Tranströmer

Maria Helena Vieira da Silva

Lissabon

I stadsdelen Alfama sjöng de gula spårvagnarna i uppförsbranterna.
Där fanns två fängelser. Ett var för tjuvarna.
De vinkade genom gallerfönstren.
De skrek att de ville bli fotograferade!

"Men här", sa konduktören och fnittrade som en kluven människa
"här sitter politiker". Jag såg fasaden, fasaden, fasaden
och högt uppe i ett fönster en man
som stod med en kikare för ögonen och såg ut över havet.

Tvättkläderna hängde i det blå. Murarna var heta.
Flugorna läste mikroskopiska brev.
Sex år senare frågade jag en dam från Lissabon:
"Är det riktigt, eller har jag drömt det?"

Tomas Tranströmer


Lissabon

Im Stadtteil Alfama sangen die Straßenbahnen in den Steigungen.
Zwei Gefängnisse gab es. Eins war für die Diebe.
Sie winkten durch die Gitterfenster.
Sie Schrien, sie wollten photographiert werden!

“ Aber hier “, sagte der Schaffner und kicherte wie ein Gespaltener,
„ Hier sitzen Politiker. „ Ich sah die Fassade, die Fassade, die Fassade
und hoch oben an einem Fenster einen Mann,
der mit einem Fernglas vor den Augen dastand und übers Meer Hinausblickte.

Die Wäsche hing im Blauen. Die Mauern waren heiß.
Die Fliegen lasen mikroskopische Briefe.
Sechs Jahre später fragte ich eine Dame aus Lissabon:
„ Ist das wahr, oder habe ich es geträumt?

[versão de Hans Grössel]


Lisbon

In the Alfama quarter the yellow tramcars sang on the steep slopes.
There were two prisions. One was for thieves.
They waved through the grilled windows.
They shouted to be photographed.

‘But here,’ said the conductor giggling like a split man,
‘here sit politicians.’ I saw the façade the façade the façade
and high up in a window a man
who stood with a telescope to his eye and looked out over the sea.

Laundry hung in blue air. The walls were hot.
The flies read microscopic letters.
Six years later I asked a woman from Lisbon:
‘Is it true, or have I dreamt it?’

[Versão de Robin Fulton]


Lisboa

No bairro da Alfama, os bondes amarelos cantavam nas ladeiras.
Havia duas prisões. Uma era para ladrões.
Eles acenavam por trás das grades.
Gritavam, queriam-se fotografados!

Mas aqui”, disse o condutor por dúbio meio-riso,
ficam os políticos”, e eu vi fachada, fachada, fachada,
e lá, acima, um homem à janela
que observava o mar por um binóculo.

A roupa lavada estendia-se no azul. As paredes mornas.
Moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, perguntei a uma lisboeta:
Isso é real? Ou sonhei?”

[Nossa Versão]


*   *   *