sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quando não se orgulhar assinala para um afeto mais completo


[s/i/c]



Auto-estima não é cria de decretos, campanhas


Vou comentar o artigo de Plínio Bortolloti, hoje, em O Povo ["Por que não me orgulharia?"]. Senão, porque ele parece reforçar o eco do que chamamos de “consciência importada”. Ou, como diz Roberto Schwarz: “idéias fora do lugar”. Ou seja, um modo de pensar que toma categorias gestadas em outras latitudes e, sem a menor preocupação em filtrá-las, empenha-se no seu emprego para realidades que são radicalmente diversas.

Também porque Bortolotti é um jornalista sério: já foi ombudsman de O Povo, e a sua lista de serviços prestados à terra que tomou como de adoção não é pequena.

O mote do artigo de Bortolotti provem de um comentário, em geral desaprovador, de um texto previamente publicado por Rosemberg Cariry sobre o tema da “auto-estima cearense” ["Porque não me orgulho"].

E, no entanto, é possível entender bem o que o cineasta Rosemberg Cariry, veterano de [boa] guerra do audiovisual no Ceará—concorde-se ou não com suas premissas estéticas—pretende ao dizer que “não se orgulha de ser cearense”.

O que poucos pressentem é que o que Rosemberg quer dizer talvez implique em um afeto ainda mais complexo, mais verdadeiro e pungente pelo Ceará do que esse discurso ingênuo de auto-estimas faz supor.

E por quê? Porque, de fato, sabe dissociar a verdadeira auto-estima coletiva de ridículas campanhas que visam elevar a “auto-estima" [seja cearense, marciana ou pigméia]—a exemplo da promovida recentemente pelo grupo O Povo de comunicação, do qual, aliás, faz parte Bortolotti. Como se esse alavancamento de auto-estima fosse possível, assim, por decreto, de orelhada, instantânea e gratuitamente: “elevar a auto-estima de um povo”. Isso não se dá com slogans, marcas, campanhas ou algo do gênero. O imenso esforço de elevar a auto-estima do povo alemão, após um revés militar e um tratado de paz humilhante, deu no que sabemos bem. E foi, de resto, calcado em novos símbolos, slogans, campanhas, documentários. Toda uma nova semiose que se propunha a sacralização do rito político laico.

O ponto, aqui, é que auto-estimas não se promovem com campanhas desse gênero. Não é, aliás, “Brasil ame-o ou deixe-o”, um retorno às nefastas campanhas de “auto-estima” da época da ditadura o que, de fato, elevará o apreço e o apego que quem habita uma terra tem para com ela. Mas, do contrário, a verdadeira auto-estima requer muito ódio também [que é o amor que se revolta diante da imperfeição mal-tamanha] e, acima de tudo, todo um conjunto de transformações sociais aplicadas, e de modo mais coerente: educação pública e gratuita de qualidade (em especial no nível básico); previdência social que garanta um mínimo de perspectiva de vida, estabilidade e segurança no trabalho e justa aposentadoria; infra-estrutura pública que propicie certo conforto à mobilidade, a ida ao trabalho, ao desfrute do lazer; abertura de novas ruas, avenidas, vias-expressas; zelo pelos locais públicos: praças, parques, museus, bibliotecas; judiciário bem estruturado e ágil; níveis de segurança coletiva que nos permita estar em casa, despreocupados quanto a assaltos, sequestros, furtos; desincentivo ao uso do automóvel mediante melhor transporte público, metrô, construção de ciclovias; perspectivas de uma sociedade mais justa quanto à partição das riquezas e ao senso de interesse pelo patrimônio público; incentivo a um maior convívio com a história local; acesso à cultura e às novas mídias não por políticas que macaqueiam as americanas e européias, mas que sejam inventivas o suficiente para serem aplicadas às nossas distintas realidades e nossa diversa construção histórica. Políticas culturais, enfim, que estejam à altura de nossos processos históricos, das boas promessas neles contidos—contemplando e, inclusive, exaltando aspectos em que avançamos mais do que a América do Norte e a Europa. Pois eles existem.

Ora, é precisamente esse último item o que essas campanhas de auto-estima sequer são capazes de divisar. Ou ajudar a propagar. Por que se decalcam de categorias importadas, insuficientes, inadequadas [em parte ou nas próprias premissas].

Cariry está certo ao investir contra essas campanhas de “orgulho negro”, por exemplo. E nada há de racista em seu ponto-de-vista. Há, isso sim, um desejo de que a questão étnica seja tratada neste país de modo mais coerente e cuidadoso. Mais consequente. Ou seja, sem mimetizar acriticamente a forma como essas questões são tratadas nos países do dito Primeiro Mundo. E por quê? Porque não somos e—com um pouco de sorte—jamais seremos uma sociedade de Primeiro Mundo. Temos de trabalhar, sempre, para sermos melhores do que isso. Se há miopia, aqui, é para perceber que, em alguns tantos aspectos já o somos. Temos algo a ensinar a eles. A eles com quem só aparentemente aprendemos há cinco séculos.

Não parece razoável pensar, por exemplo, que a discriminação contra os negros se dê simplesmente por uma questão de “cor da pele” ou de uma alteridade de traços físicos. Isso soa de um simplismo sem peias. A discriminação contra os negros—e ela existe—se dá porque se associa historicamente a cor negra à pobreza, à escravidão, aos baixos níveis de escolaridade, etc. Todos esses processos também foram vivenciados—verdade que em escala menor ou menos estigmatizadora por brancos pobres, índios, mamelucos, cafusos [ou seja, por uma série de “não negros”]. E, no entanto, não é lançando mão de cotas para afro-brasileiros, na esteira da experiência norte-americana, que se vai solver ou minorar problemas por aqui.

Por que será que hoje os orgulhosos europeus—esses, sim, orgulhosos de sua cultura [e, sem dúvida, com algumas boas razões para isso, outras nem tanto]—hoje olham com outros olhos os chineses, por exemplo? Será que porque os chineses ficaram menos amarelos e mais branquelos? Antigamente, nos clubes britânicos na China havia a inscrição à soleira: “Proibida a entrada de cachorros e chineses”. Isso quando a China era uma espécie de chiqueiro da Inglaterra e os chineses morriam como piolhos na miséria das endemias e no escapismo avassalador do ópio. Não, os europeus, hoje olham com reverência a China por outras razões. Em especial, por seu imenso poderio econômico já consolidado e pela potencialidade de sua expansão tecnológica e, claro, bélica.

Desde que houve contatos entre distintas civilizações, a mais instrumentalizada tecnologicamente—como a China está esboçando sê-la num futuro não tão distante— sempre se impôs sobre a(s) outra(s).

Se, numa hipótese, no passado, os negros africanos houvessem desenvolvido uma civilização que conseguisse vencer o poderio europeu ou asiático, hoje apenas estaríamos discutindo “discriminação” sob ângulo inverso. E, aliás, eles quase empreenderam isso, com a pujança cultural e bélica dos califados islâmicos ao sul da Espanha e de Portugal, de onde os mouros ameaçaram penetrar para uma conquista de todo o Ocidente. Numa determinada época, chegaram a dominar o centro-sul da Península Ibérica, a Provença a Sicília, a Calábria. Por pouca palha isso não se espalha, barrados que foram pelos reis francos á altura dos Pirineus.

Não devemos esquecer também outros fatores. Na África Negra, a escravidão já era uma instituição consolidada e aceita séculos antes da chegada dos europeus. Negros escravizavam negros—assim como no passado brancos escravizaram brancos. Isso era prática corrente, quando os europeus lá chegaram. Foi justamente porque a civilização ameríndia não tinha a instituição da escravidão tão entranhada como um valor, que seguiu sendo tão difícil instrumentalizar os índios para o trabalho escravo. Então, por que ter orgulho de ser negro, ou branco, ou índio, ou amarelo ou azul ou cearense? Se a história, num determinado sentido é o da exploração do azul sobre o amarelo, se o azul se encontra em vantagem. Ou do amarelo sobre azul, em caso contrário?

A compositividade, sim, essa é uma riqueza. A mistura entre o azul e o amarelo, por exemplo dá no verde – que é um pouco de amarelo, um pouco de azul, mas como sensação ótica é algo distinto, próprio. E a compositividade é uma das características do Brasil.

É curioso que, pensando duas vezes, talvez sejamos um país mais justo do que os Estados Unidos no campo étnico, para ficar importando lições de tolerância e justiça étnicas de lá, vomitadas por Fundações Ford, algumas tendenciosas ONG's pseudo-ambientalistas ou pseudo-pró-cidadãs ou órgãos do gênero, ou a nossa academia tão devotada à cópia— ou ainda como faz gente como Plínio Bortolotti e tantos outros formadores de opinião neste país.

Alguns, diga-se de passagem, com razoável boa intenção, mas lamentável desconhecimento histórico de causa e cândida ingenuidade. É curioso também que nunca se propaguem campanhas do tipo: “orgulho de ser mestiço”, “orgulho de ser compósito”. Orgulho de viver num país, que, apesar de suas quase incontornáveis injustiças históricas—que devem ser apontadas e estudadas, e reparadas—permitiu, especialmente no Norte e no Nordeste que, ao contrário dos Estados Unidos, a população indígena sobrevivesse, justamente ao mesclar-se a brancos e negros, deixando traços culturais muito mais duradouros, distintos e inovadores. Um processo histórico que, ao contrário da radical chacina dos índios nos Estados Unidos,--e os poucos sobreviventes foram logo segregados nos guetos das reservas-- o índio, como o negro brasileiro, esteja culturalmente muito mais ao centro da cultura brasileira. No caso dos índios, que eles tenham sobrevivido pelo simples fato de uma boa parte dos brasileiros ter algo de índio. Descender deles. E o índio compor então um largo contingente entre os cidadãos brasileiros. E não uma minoria que mereça proteção especial, como uma criança que não sabe cuidar de si ou o mito do bom-selvagem de Rousseau.

Textos, como os de Bortolotti, que defendem essa “consciência importada”, sem qualquer ocupação crítica com suas linhas, parecem exemplificar o que discutimos AQUI.




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