sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De três pra mais (síntese)


Escultura feita com jornais dobrados

na imprensa do Sul, os times do Nordeste nunca vencem. Os do Sul é que são vencidos. E estes jamais são objeto. São sempre sujeito

mesmo que tomem de três pra mais

De três para mais (glosa)



Distorção e Ponto de Vista

Na imprensa do Sudeste e do Sul, o Ceará Sporting, a exemplo de qualquer outro clube do Nordeste, nunca vence. Os times do Sul é que são vencidos. Mesmo um time relativamente modesto, como é o América-MG. E ainda que por 3x1. E em Belo Horizonte. Como terça passada.

É improvável, é excepção, que apareça na imprensa do Sul algo como: “O Ceará derrotou a domicílio o América-MG”. Na equação da manchete, um time do Nordeste jamais é sujeito. Não pode ser sujeito. É sempre objeto. 

É passivo na equação. E isso não reflete uma predisposição, um estado mental?

Não foge à regra a manchete do Uol Esporte sobre o jogo em questão: “América-MG inicia returno com derrota, em casa, para Ceará e continua má fase na Série B”. Ora, a torcida do Ceará é um bocado maior que a do América-MG. Consome mais. Tem mais projeção. E, inclusive, deve ler mais o próprio Uol. O mesmo se pode dizer de qualquer dos clubes mais populares do Nordeste: Sport, Bahia, Vitória, Santa Cruz, Fortaleza, Náutico, etc. Mas eles são tratados, em manchetes e textos, sempre do ponto de vista do objeto. Será que essa imprensa, que referenda acriticamente e até a medula o politicamente correto – que não foi criado num tête-à-tête com as realidades locais – não percebe a comicidade investida nesse modo centralista de noticiar? A ironia mesma?

Pode-se contrargumentar que o Ceará é visitante contra o América. E que Belo Horizonte está no Sudeste. E os grandes conglomerados de mídia do Eixão também. E, logo, estão mais próximos dos mineiros. E, portanto, noticiam do ponto de vista de Minas. [A despeito de haver muitas Minas. De Minas ser o estado da transição entre Sul Maravilha e Norte. E haver mesmo uma parte de Minas que esteja no Nordeste].

Porém a perspectiva é que é bem outra: a mídia de alcance nacional está toda, ultra-concentrada no Sudeste. Especialmente no Eixo. E é algo descompensado, imponderado, unidirecional. É algo que preda possibilidades em outros espaços. Que atenta contra a federação, pois seria necessário, no mínimo alguns poucos veículos de massa produzidos no Nordeste – e não só a TV Diário e sua vocação tão popularesca quanto legítima  que também tivessem alcance nacional. Que fossem nacionalizados. E, como não há essa emissão, o monopólio sudestino é feito uma grande mandíbula, de jacaré ou carro de coleta, que mastiga e tritura as possibilidades de uma diferença real, complexa, não esteada em estereótipos.

Essa mídia feita no Sudeste mas "nacionalizada" é também um predador que impõe a perseguição, de lá para cá. Pois não opera um fluxo inverso. Além disso, alguém no Acre ou no Espírito Santo vai sendo acostumado, desde sempre, a encarar o Nordeste na perspectiva do "eles", do "outros", do objeto – como fôssemos estrangeiros dentro do Brasil. Ou todo nordestino reduzido ao estereótipo, do tipo retirante, que dele se faz não é de hoje. Ou portássemos um selo ISO9000 do subdesenvolvimento por excelência, e em exclusividade. Ou fôssemos, grosso modo, os retardados mentais do país.

Ainda que  o conceito de subdesenvolvimento esteja em crise. Como se no Rio ou em São Paulo não existissem fundas desigualdades sociais. Como se o fenômeno dos coronéis não existisse lá, sob outras máscaras, disfarces, mutações. Como se as favelas não roessem os morros cariocas, e posseiros não fossem mortos a cada ano no Pontal de Paranapanema. Como se o Sudeste à época do Império não tivesse, drenando as possibilidades de crescimento econômico para si, esgotado as chances de desenvolvimento do Nordeste, transformando-o numa sub-colônia dentro do país. Uma zona exclusivamente agrícola, que consumisse os produtos manufaturados  nem sempre de forma competitiva, mas sempre de modo monopolista  em São Paulo. Como se as cifras da corrupção não fossem ainda mais avultadas no Sudeste e no Sul, embora menos noticiadas, menos apuradas na imprensa, uma vez que quem controla a mídia "nacionalizada" também anda de passo junto com a corrupção da elite política do Sudeste, a mais poderosa do país.

Como se Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, João Gilberto, Clarice Lispector, Celso Furtado, Marco Nanini ou Caetano Veloso não fossem do Nordeste. Porque ao Nordeste é bom que se associe somente o atraso. E dele se separe qualquer possibilidade de cosmopolitismo. Como se a Universidade Federal de Sergipe não tivesse deixado Usp, Unicamp e UFRJ no chinelo, no exame da OAB do ano passado, e isso não tenha despertado maiores reportagens. Ou mesmo menores. Repercussão nenhuma. O Sul Maravilha não quer ver-se ultrapassado nunca, em nenhum campo. Está mal acostumado ao monopólio de vencer sempre. Qual não vence, prefere calar. Como se qualquer índice de modernidade devesse ser extirpado do Nordeste, e a cara da região, exclusivamente reduzida à complacência de esquerda diante do retirante subnutrido e desgraçado pela intempérie, que lava a privada da classe-média no Sudeste.

Esse tom de notícia, naturalmente, despercebe, por completo, que vivemos numa federação. E, volta e meia – até por razões de auto-estima – seja necessário conceder o protagonismo aos estados "mais ao largo", e não só no Nordeste. Tornando-os o centro mesmo do assunto. E variando perspectiva e protagonismo, por turnos. Como deve ser, em equilíbrio.

E, claro, o futebol é apenas uma metáfora. Tudo é noticiado dessa forma. Absolutamente tudo. Ou quando não, revestido de complacências, paternalismos, menosprezo, alguma indulgência, e, logo, envolvido, embalado para pronta entrega, para viagem, no primeiro clichê mais grosseiro e à mão. Por exemplo, quando Sarah Menezes ganhou a medalha de ouro, vários trollers já aguardavam de plantão nas caixas de comentário dos grandes portais pela justificada euforia dos piauenses e nordestinos. Para logo tratar de relativizá-la. "Precisa ver onde essa menina evoluiu e pegou experiência", era o arrazoado da vez, esperando, praticamente supondo, que a judoca, como quase via de regra em casos assim, houvesse completado seu ciclo de treinamento no Rio, em São Paulo. Era o argumento com que esperavam ansiosamente contar, para sancionar, um pouco simploriamente, a suposta superioridade do Sudeste/Sul sobre o Nordeste/Norte. Quebraram a cara. Sarah vive e treina em Teresina. E saiu de Teresina para vencer em Londres. Sem escalas.

Em outros, em todos os ramos da atividade humana é necessário que itinerários como o de Sarah se multipliquem. E não só no Nordeste, como no Norte, no Centro-Oeste. E no próprio Sudeste, onde há muita gente e muitas áreas excluídas por esse câncer histórico que é nossa incapacidade para distribuir renda e descomprimir informação na grande mídia. E evitando intermediações, paternalismos. E isso só se vai conseguir se o Nordeste prosseguir a crescer, economicamente, acima da média nacional pelas próximas décadas. Assim como essas outras regiões menos achegadas ao Eixo.


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NOTA POSTERIOR (Uma Ultra-Glosa)
Há, no entanto e entre outras, duas exceções notáveis de paulistas em relação a essa mão única da notícia "nacionalizada". A essa rotina da perpetuação de falácias e sovados estereótipos. Dois autores, dois seres humanos que realmente compreenderam, antes do tempo, a tragédia e a complexidade do Nordeste e de onde mais no Brasil, em toda sua amplitude. Um deles é Euclydes da Cunha. Em Os Sertões, comove o modo como quase a despeito de toda a tradição em que foi educado  ou seja, das suas arraigadas convicções positivistas  – Euclydes termine por empatizar, meio que intuitiva e profundamente, com os sertanejos de Canudos. E denunciar um crime de Estado. Na outra ponta, o espírito moleque de Mário de Andrade propõe em Macunaíma, o herói sair de um estado como o Amazonas, atravessar a fronteira e já se achar, como que por mágica, no Rio Grande do Norte. E a intenção, a metáfora, aqui, vai por implicar que somos o mesmo país na e pela diversidade. Mas também que o que nos une, nessas diferenças, é uma vasta cultura e história comuns. Passadas sob o mesmo teto austral. Uma espécie de regime alimentar, no qual a língua – e por meio dela os mitos, a história  é o prato principal. O que nos torna, a todos, vizinhos e contíguos, a despeito ou não de os estados serem fronteiriços entre si. Os cearenses colonizaram o Acre, quando ele ainda era território boliviano. Mas também portaram as técnicas de charquear a carne para o Rio Grande do Sul. Pinheiro Machado, o famoso caudilho gaúcho da República Velha, era neto de um cearense: Ambrósio Pinheiro Machado, do Quixeramobim. (Aliás, padre.) E dados assim são só a ponta do imenso iceberg de nossos estreitíssimos parentescos...E responderia muito melhor do que qualquer clichê mais torpe, ensinar uma história que desse conta desses intercâmbios e suplementaridades interregionais. Uma que fizesse o jovem, desde cedo, perceber a razão de sentirmo-nos, em última instância, brasileiros. Mas também que o nordestino, que se e encontra no Sudeste e no Sul, em trabalho braçal, se encontra forçado, contra a vontade. E que seu desejo passou longe de ser empregado doméstico, explorado, ocupado com trabalhos árduos e mal remunerados, morador de favela, assalariado mínimo, mal ganhando o suficiente para se manter e sendo transportado por uma rede pública ineficiente, exígua, desconfortável. E, pior de tudo: longe de casa. E não menos também, que esse migrante, em sua humanidade, não é assim tão diferente do próprio ancestral de alguém da classe-média paulistana, e que chegou por lá roído de fome, uma mão na frente, outra atrás, da Europa, num passado só um pouco mais remoto. E que os próprios italianos sofreram duríssimos estigmas até serem aceitos pelos quatrocentões. E que a grandeza de São Paulo é obra desses imigrantes nordestinos tanto quanto dos imigrantes europeus do final do sec. XIX. E que há aí uma suplementaridade. O que implica também dizer que um dos méritos do Nordeste está em ter preservado, apesar de tudo, um largo contingente de descendentes de índios, negros e cristãos-novos, justamente as etnias mais estigmatizadas. Justamente as mais perseguidas por quem escreveu e escreve a história de um ponto de vista eminentemente ocidental e europeu. Basta lembrar que nos Estados Unidos, os indígenas foram praticamente extintos, dizimados por descendentes de europeus. Ou, a exemplo dos negros, viveram séculos confinados, segregados em reservas e guetos. E essa segregação, essa barbárie, só recentemente suavizadas pelo discurso politicamente correto e pelas teorias multiculturalistas – os mesmos que importamos acriticamente, sem separar trigo e joio  se dá até hoje. Ora, como esperar que alguém que emigra por necessidade, feito o nordestino pobre, chegue ao Sul do país em igualdade de competição com os que já se encontravam lá há séculos? Ou mesmo, depois deles, como os descendentes de imigrantes europeus mais recentes, que sobrevieram para substituir a mão de obra escrava? Ora, mesmo estes já chegaram imbuídos, "equipados" de valores (alfabetização,  ou semi-alfabetização, alguma educação formal ou treino profissional básicos), que portam consigo o selo da lógica, da disciplina, da acumulação de capital e da ilustração. E por vezes há gerações. É também evidente que os que mais ranço guardam contra os imigrantes nordestinos em São Paulo são, em geral, pessoas de baixa escolaridade formal ou falta de visão. Mas nem sempre. Estes também não percebem, por exemplo, que hoje em dia, com o boom econômico no Nordeste – que tem mais potencialidade de crescer, porque ficou estagnado por mais tempo que o resto do país – o fluxo migratório está até se invertendo. Sob outras variáveis e perspectivas. Ou seja, hoje, mais e mais, são sudestinos e sulistas que estão imigrando para o Norte. Ou nordestinos, ainda não suficientemente assentados no Sul, que seguem retornando para casa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Um Casarão em Granja




por vinte seis olhos, disponho vinte e seis e mais olhares, mais uma tórrida tarde, três mulheres na rua, uma vassoura nas mãos de uma; o silêncio das calçadas, o conjugamento das outras casas, e as vizinhanças do rio. O tempo a ver se estou lá na esquina. Uma imensa nuvem, nuclear-cogumelada, pairando acima de uma cidade para sempre perdida

À medida que se aproxima do agora

31 x 0



não é mentira. Deu no Guardian. Ontem, um time da 2ª Divisão da Romênia perdeu para um time da 3ª. Placar: 31x0. Achando que o adversário seria café pequeno, os perdedores escalaram sub-19's. O plano era empatar, cozinhar o jogo ou perder de pouco. Passaram longe. Só o primeiro tempo terminou 12x0. E o presidente do time vencedor, visivelmente constrangido, declarou: “estou vexado em lhes dizer o placar, mas não é da nossa conta se eles subestimaram a competição” 

e, convenhamos, não foi uma subestimação qualquer, cara de chulé

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Urbanismo e Convivialidade: o exemplo de Lima

A Catedral de Lima, na Plaza Mayor, ao cair da noite

O exemplo de revitalização mais exitoso de zona central urbana na América do Sul vem de Lima. E parece ocioso que o Brasil não haja mandado especialistas em urbanismo e políticas públicas para averiguar as razões do êxito dessa intervenção. E aprender com ela.
Até os anos 80, o centro de Lima assemelhava-se ao de qualquer grande cidade brasileira: violento, sujo, confuso, poluído visualmente, pobre, entregue à própria sorte: todo emporcalhado por pichações e equipamentos públicos arrebentados. Seus residentes eram ambulantes, trapeiros, gente de pouca qualificação profissional, já que os mais abastados - e mesmo a classe-média - haviam buscado no subúrbio distante o modelo dos condomínios, do carro, dos shoppings. Fluxo que a especulação imobiliária tem incentivado mediante publicidade ostensiva, sub-reptícia e, eventualmente, o molhar as mãos de vereadores e altos funcionários públicos inescrupulosos. 
O centro de Lima recebera em 1992 o título de Patrimônio da Humanidade. O receio da Unesco, então, era o de que todo um catálogo de estilos e funcionalidades da arquitetura colonial se perdesse definitivamente em meio a decadência do bairro. E o título veio justo para tentar contornar esse estado de coisas. 
O centro encontrava-se às traças. Prédios históricos, em péssimo estado. Trapeiros e ambulantes, que lá moravam, também ocupavam as ruas durante o dia. O clima era tenso: ruas violentas, assaltos, tráfico de drogas e outras formas de contravenção e gangues. Brigas entre facções. Escolas de péssimo nível, periodicamente depredadas. A auto-estima não andava em alta.
Desde então, sucessivas administrações municipais priorizaram o centro. Alberto Andrade, prefeito eleito para dois mandatos consecutivos, vestiu a camisa. Teve inicialmente de ganhar uma batalha pouco gloriosa, mas absolutamente necessária contra esses vendedores ambulantes que dominavam as ruas há anos, convertendo-as em propriedade privada, divididas por setores de prostituição, assaltos, repasse de drogas...Andrade logrou êxito em realocá-los. O que abriu o bairro para a visitação e a circulação, e desalojou focos de violência e tráfico. O próprio prefeito mudou-se para o centro com a família. Para dar o exemplo.
Nas administrações seguintes, o centro de Lima prosseguiu sendo prioridade, como deve ser. Foram recuperadas com dinheiro público as residências do entorno do Palácio do Governo. Gastou-se US$ 26 milhões na restauração do principal teatro. E seguem em implementação uma série de programas para incentivar a circulação de pedestres. A maioria deles conjugando ofertas de espetáculos nos prédios históricos recém-reformados. A iluminação desses prédios, aliás, merece destaque.
Os investimentos deram resultado no longo prazo. Há hoje um ciclo anual de eventos em curso, e negócios como lojas de grife, supermercados, escolas e restaurantes pululam no bairro. E tão ou mais importante que isso: a região voltou a ser atrativa para se morar, reaquecendo o mercado imobiliário e o desejo de zelo, conservação, reforma dos prédios mais antigos, reconvertidos em residências, pousadas, restaurantes, escolas, etc. E assim o Centro de Lima é já visto como um trampolim de imagem por grandes marcas e potenciais investidores – especialmente os do setor de entretenimento.
Os administradores limenhos gabam-se de ter um ponto de referência. Um eixo por onde pensar a reformulação da cidade para os próximos anos. A história de revitalização do Centro de Lima é uma história de êxitos. Mas também de políticas persistentes, continuadas. Por que eles conseguiram e nós ainda prosseguimos marcando passo?
Entre outras coisas porque um projeto dessa magnitude não tem como contentar a todos. A gregos e troianos. Ao menos de imediato. É mais ou menos óbvio que o morador indigente ou semi-indigente terá de ser realocado – como aconteceu recentemente em São Paulo com o desmanche da Cracolândia. O benefício que esse desmanche, desde que tivesse sido minuciosamente planificado, traria a São Paulo, seria sempre mais extensivo que os transtornos causados pela remoção dos habitantes desse corredor de drogas e gueto de violência. 
Agora, há modos e modos de realizar a quebra de domínios territoriais paralelos, buscando alguma forma de compensação social para as populações realocadas. Essas mesmas populações que, em geral, não passam de massa de manobra para os graúdos do tráfico ou de alguma sorte de contravenção, grassando na anomia. Alguma sorte de contravenção que acaba beneficiada pela complacência ingênua e tenaz de certas ONG's que julgam estar defendendo os interesses, não da contravenção ou do tráfico, mas da comunidade. Quando se dá o contrário. 
É óbvio que, nessas práticas clandestinas ou informais, à margem da lei e dos impostos, o lucro concentra-se nas mãos de poucos. Em geral, os mesmos, e morrendo cada vez mais jovens, em disputas entre si ou em choques com um aparelho policial mais localizado e mais ou menos lábil à corrupção. Mora-se mal. Estuda-se mal. Desloca-se mal. Ou quase não se sai do canto. Também não se deixa muita gente passar incólume. O índice de criminalidade é altíssimo. O de mobilidade social, praticamente zero. Ainda assim, pensar em realocar populações cheira a violência contra elas, ponto. E por quê?
Essa perspectiva, de coincidir violência com remoção é simplista. Mas abraçada por não poucas ONG's ou jornalistas. Ou mesmo nosso senso comum, ainda que o resultado da remoção seja um benefício sem medida para os próprios realocados (ou seus descendentes no futuro). Para não falar dos outros milhões que habitam a cidade e irão poder desfrutar novamente, amplamente, da revitalização de determinada zona como espaço de convivência, diversidade, lazer, segurança, circulação e...moradia.
De momento, em Fortaleza é preciso aferir, por exemplo, entre o que há de razoável ou ínfimo e o que há de exorbitante nas propostas e contrapropostas tanto da prefeitura quanto dos moradores da Comunidade do Trilho, por exemplo. Ao contrário do Campo do América, o que se passa com a Comunidade do Trilho começa a despertar alguma suspeita. E sobre as demandas da população a ser realocada. Se são de fato justas essas demandas. Se extrapolam ou exorbitam injustamente o que está sendo pago e oferecido a elas para que um bem-estar seja revertido em prol de uma comunidade incontavelmente maior: o restante da cidade. É justo o preço de mercado pago por essas desapropriações? É razoável o espaço projetado para receber essas populações?
Esses aspectos não podem sair do campo de visão. Às vezes, é necessário o deslocamento de 2 mil pessoas para que três milhões vivam melhor, e com desenvolvimento sustentado. Ou melhor e mais ampla malha de transporte público.
Enquanto em Lima, uma atenção coordenada das autoridades e da sociedade civil, certo pulso forte e uma visão dinâmica de urbanismo, além de políticas continudas e corrigidas deram algum resultado, no Maranhão, feudo dos Sarney, belos casarões coloniais desabam com a chegada das chuvas, a cada ano. Pura inaptidão, negligência e falta de planejamento. Mas também em São Luís comenta-se que o metrô local – que arrasta-se inconcluso há anos, a exemplo do Metrofor – quando pronto, irá ligar um shopping da família Sarney a outro shopping da propriedade de quem mesmo? Adivinhe!
E houve um slogan publicitário de São Luís que, involuntariamente, passa recibo dessa situação de penúria que é apanágio de quase qualquer capital neste país. Num anúncio da web para o carnaval na capital maranhense, em 2012, lia-se: “São Luís, Patrimônio Mundial da Humanidade, onde se esbanja cultura e história”. Parece que, dando sopa ao azar, com a permanente ameaça de desabamento desses velhos casarões, não se está esbanjando um tanto além da conta?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

No Tempo dos Road Movies


Road Movie, 2010

demétrius era percussionista. Era o rival do Demóstenes na conquista da Belisa. Belisa era quase um país. Uma terra prometida entre judia, cearense, marroquina. Uma Torre de Babel, que nem sempre falava a mesma língua da moçada. Embora desse para todos. Equanimemente. Aqueles olhos letais de azeitona preta, permanentemente banhados por uma semítica fatalidade que ia pelo olhar de Omar Shariff e família. Só que suplementado por curvas odaliscais. Gostava de cinema de arte. Quem não gostava? 

um dia fomos tocar num festival em Natal. Belisa e T. faziam os backing vocals. Ficamos num hotel sui generis. Que já havia hospedado Getúlio Vargas. Mas que também não era reformado desde pelo menos a época de Juscelino. Havia art déco até no ar do elevador. Fotos no lobby atestando melhores dias, e adiante delas uma espécie de faz-tudo de meia-idade que recepcionava e ascensorava e servia no café da manhã e fazia a faxina à tarde. Suspeito que, por igual, regava o jardim, aviava compras, cuidava da lavanderia, se não estávamos olhando. Era também o fiel secretário do proprietário, que quase não saía do quarto. Talvez não passasse de um esboço: Walser ou Kafka? E foi bem quando conhecemos Ed Papapá, que iria tocar na segunda noite. Depois do jantar, Ed nos levou a seu quarto, e nos mostrou, ao violão, os carros-chefes de sua gig. E Domingos logo deduziu que Papapá fazia um emprego bastante sui generis dos acordes naturais. E Domingos propôs alguma percussão, mais de clima e efeitos, acompanhando Ed. E Domingos e eu tecemos algumas estupendas teorias sobre a origem do sobrenome de Ed, tendo a cautela de não nos entrolhar. Mas Ed, composto, nos respondeu com uma elaborada etimologia africana. E uma linhagem que remetia a príncipes iorubás. Compostura. As meninas gostaram:
O bichinho! – disseram depois, enternecidas, beicinhos no mundo
E no mundo também, aquele fumo agridoce. E uma ala da galera apreciou pacas a prodigalidade da paranga de Papapá. Nada como um hóspede e um hotel simultaneamente suigenerados. E cheios de suingue. E, afinal, generosos. E, no caso do hóspede, chegado trás-anteontem de Georgetown, com boa muamaba. O que, em ponto morto, desaguou naquele verdadeiro congraçamento entre a nossa cota de entusiastas e Ed

e assim, mais ligados que irmãos siameses, tocamos duas noites no Forte dos Reis Magos. E caímos nas graças de Jota Medeiros, o crítico musical, por excelência e plantão, da cidade. Salvo engano, a gíria da vez era brown – que, tempos depois, Carlinhos adotaria como sobrenome, lá por Salvador. Choveu numa das noites. E a senha era namorar na penumbra das velhas guaritas suspensas sobre o mar, se não se estava tocando. Foi nossa primeira vez em Natal. Certa manhã fui passear com T., e Belisa chegou junto. E comprei um exemplar de A Insustentável Leveza do Ser numa pequena livraria. E flores para as meninas nas Lojas Americanas. Depois fomos todos à praia: Ponta Negra. Nos sentíamos em casa, refestelados em espreguiçadeiras rústicas, como na Praia do Futuro: era Fortaleza. Só que menor. Só que vinte anos antes. Com uma praia mais do futuro que a nossa. Se demorássemos mais uma semana, sairíamos dando autógrafos. Ou ao menos mais apegados ao passado. Ou restaríamos para sempre em Natal, bordados na orla das dunas, num ocaso de sonho

agora, na volta, os que eram dados à coisa, já iam lá pela ponta do estoque. Pura saturação, pré-rebordosa. Seguíamos alternando nos dois carros da Rita, a irmã do Mimi, e uma espécie de empresária informal: um Opala verde oliva e um buggy azul de metileno metálico, já mais rodado. O Opala tinha ar condicionado, e Cat Stevens e Pat Metheny girando toca-fitas afora, sem cessar, e dando mais melodia que cajueiro anão dá frutos, em setembro: lados A e B. Era um tanto acolchoado e para quem queria sossego. Mas o buggy era mais perto da paisagem. Ás vezes conversava mesmo com ela, como sói ser em casos assim em que aqueles cigarros sobem à cabeça. Lados A e B. Como na letra de "Trem Azul", salvo engano

umas oito léguas depois de Angicos, paramos para nos aliviar. A noite caía em pressa com aquela limpidez indizível do deserto:

dez, minutos, galera, dez – disse Moacir, o Manim, que gostava (e tinha a manha) de comandar. E por isso também o chamavam de Chefe. E, então, se predispôs uma doce alternância entre fazer a cabeça e aliviar-se:

pô, Chefinho, que trem azul esses dias em Natal, héin? Foram para trocar o óleo – disse Belisa

o Manim sorriu. E piscou. Mas o Manim podia ser reimoso. Especialmente com aquela complacência maternal entre cannabis e entusiasmo. E depois, percebendo que o cigarro seguia por longe, muito ao largo do Demétrius, justo um dos que não podiam passar sem ele, mas por outro lado andava em maior precisão:

levantar acampamento, galera. Vamo' nessa – havia sempre uma ala mais cética, que desconfiava daquela relação meio de mãe substituta que os mais devotos nutriam diante daquelas substâncias que nos faziam, por vezes, passar mal, vomitar, ter taquicardias, estranhas vertigens. ainda assim havia os que insistiam, renitentes como na propaganda da loteria estadual

os outros logo perceberam o logro, e foram saindo do mato, e acomodando-se nos carros, e os rostos amassados sob as incipientes estrelas, e o plano sequência sem fim do sertão:

pô, pera aí, m'ermão. Eu ainda não terminei, não, Manim – disse o Demétrius, agachado por trás da moita, sonhando, who knows, habitar a arte da capa do Who's Next:

ou caga ou fuma! – sentenciou o Manim. E fez de conta que fervia o brown entre os lábios

coisas que a gente não esquece. é. foi naquela época. quando olhávamos a terra ardentes. qual fogueira. e perguntávamos mais intensamente: de onde vínhamos. quem éramos. para onde íamos. quem seríamos os últimos a sair. e desligar a luz

como só quem tem menos de trinta pode perguntar (ou crer, ou desligar) nesta vida. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Você e ele no olho do ciclope




naquela época, eu era ele. Você já era você. E a cidade crescia apesar de já ser grande. Vê-la da enorme roda gigante parecia pouco passatempo, meio ratoeira de turismo. Que fazer? Eu havia lhe prometido. Lembra? Daí, ao olho da cidade foram: você e ele. E como era grande aquela roda:

ah, como era grande aquela roda! – ele lhe disse exatamente isso uma vez. Lembra? Foda. Foi no Cais Bar. Alguns tempos depois, conferindo fotos. Ele riu. Você riu. Aquele risinho gutural, nervoso, absolutamente encantador, que você ainda quase ri. Assim meio social. Para recompor coisas. E logo olhou relanceado, um pouquinho rubra, para a amiga advogada, que não riu de jeito nenhum, pois também tinha lá suas apostas e investimentos. Mas, então, eles não podiam mais nada. O destino já se ocupara deles.

lembrar era uma espécie de esporte, e lhe irritava. Você queria por que queria que a minha vida reestreasse numa espécie de a.A. e d.A. E ali seria só a pré-estreia. Mas ele tinha certo receio. E Camocim como ficava? E as viagens para o mundo vasto? E ele não entendia seu esforço por parecer menos complexa, e mais, digamos, extrovertida. E, todavia, você gastava muita energia nisso. E não havia quem lhe demovesse disso. E isso parecia um selo grudado à sua testa. Uma espécie de IS0 9000 da prudência com alguma anfetamina. E umas poucas de prescrições do terapeuta. Sei não. Como afloram essas coisas que a gente quer esconder, mas transbordam pela comporta com a torrência do Amazonas. E que viria depois de emocionante na vida deles, além dos filhos?

você ganhou um carro num sorteio. 

domingo, 26 de agosto de 2012

A Treinadora



A Morte. Ela treina times de handebol. Senta no banco, observa: olhos semi-cerrados, impenetráveis. Toma notas, bloquinho pautado virtual. Ponta de lápis na língua: quem deve sair. E com afabilidade, comenta com Miséria e Moléstia, as assistentes técnicas, sobre os pupilos. 

sábado, 25 de agosto de 2012

O Vigário



Camocim. Sexta-feira à tarde. O parquinho junto à Igreja do Bom Jesus. Mas ou menos 1972

meninas. Haviam chegado primeiro. O parque era ao lado da igreja. Meia-quadra repleta de brinquedos, cercada por um murinho baixo caiado, abrindo-se à calçada por um portãozinho que quase ninguém usava. Com elas, o parque ficava mais branco ainda, cheio de babados, saias, fitas, meias, sapatos de fivela discorrendo sobre o capim. Ficava imediatamente mais elegante, contrastado. E bem mais estridente. E, contudo, com tantas saias, era de espantar que não houvesse mais acidentes

meninas nem sempre estavam lá. E brincavam separadas da gente. Eram elegantes. Um pouco esnobes. Aquele horário o monopólio de certos brinquedos – os escorregas, pentes, gangorras, treliças, pergolados, o carrossel, o balanço longo – era delas. Ainda que houvesse a nítida inadequação entre a elegância, os penteados e fitas, os vestidos com crochés e plissados, e a dose de contorção e suor que alguns brinquedos demandavam

às vezes, o Monsenhor Inácio, que ensinava geografia no colégio delas - embora para as que já eram um pouco mais crescidas - saía para tomar a fresca, ao cair da tarde, no lado da sombra. E do alto do calçadão da casa paroquial, que era logo atrás da sacristia, aos fundos da igreja, deitava olho sobre os pequenos sucessos do parque, enquanto mordia o cigarro entre os dentes

como podia aquele homem severo, dado a certa neurastenia, que nem tinha mulher, nem filhas, que podia ser irascível ao sermão – de ficar rubro de raiva, e soltar diatribes contra a jogatina, o álcool e a concupiscência - ser assim brando e cuidadoso com aquelas meninas no parque?

os meninos só não implicavam mais com elas, só não aplicavam mais, porque elas cedo aprenderam que o Monsenhor podia lhes resgatar os apuros. E até evitavam ir ao parque se fosse dia de aula, e ele não estivesse em casa, com seus livros de latim, de álgebra, geografia. Mapas. O cigarro no amarelado dos dedos, a espantar mosquito à época das azeitonas pretas. Às vezes uma boina à cabeça, afora a indefectível gola clerical, se saía em seguida. Mas se alguém as pertubava:

-Monsenhor, o Nonato buliu comigo
-Monsenhor, o Sérgio está intimando comigo
-Monsenhor, o Chico está se danando

quando a maioria dos pais bem sabia que menina se entendia com mulher, e que menos dor de cabeça dava ter filhos homens, parecia pouco ao Monsenhor ter de ouvir todos os malfeitos da cidade. Ele nutria genuíno interesse pelas meninas. Falava a língua delas, e de um jeito que desdenhávamos

nutria um interesse. Mas não desse tipo que você está pensando. De um outro tipo. Daquele, tipo fosse pai, entender-se-ia com elas, à base de conversa, boa palavra, mimo. Historinha antes de dormir, contada do mesmo jeito. Presentes nas devidas datas. E algo mais que paciência. E isso, dentro do estreito repertório de falas e gestos reservados a pais, filhas naqueles longos tempos onde os fins de tarde echiam-se de ouro e reflexo. Ou daquelas florzinhas, brancas, perfumadas, excessivamente elegantes, movendo-se entre os brinquedos no parque. E a tuba da banda de música a reluzir ao sol entre as túnicas das irmandades nos dias de solenidade e procissão

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Quanto menor



Taí o que você queria. Acendem-se os refletores. Abrem-se as cortinas. Quanto menor a província, mais o futebol é pasto de tolos, dirigido por políticos (ou futuros políticos) com cabrestos do tamanho da linha lateral. 

E visão mais estreita que pequena área.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Feito bumerangue e reflexos: gente com noção




Gente com noção ia até o blog dela. Diariamente. Tomava ideias de lá. Levava para outros cantos, assumindo a autoria. Sem créditos. Faz parte. 
Gente com noção. 
Isso de copiar ficou mais acessível com a Tia Nete. E quase todos pensam com pés de barro. E há sempre uma tênue margem de assimilar, que não era o caso. Ou de não tomar a benção.
Mas ela, que nunca teve noção de nada, apenas era condenada. E por supostamente basear aqui, lá, algumas personagens em vagas noções, gestos e sestros de amigos, conhecidos, casos, ex-afetos, desafetos, colegas do trabalho: ela era gente sem noção. Uma indiscreta, é o que era. É.
À sua vez, Fulana, as pessoas com noção querem sempre aparecer imaculadas, odoríficas, olímpicas, limpas, naqueles comentários que acabam chegando de volta, feito bumerangue ou reflexos. De oitivas. Feito ioiôs trazendo de volta as sílabas lambuzadas de desafeição, fígado, pequenas inofensivas maldades. E é aquele negócio de ninguém ter levado porrada. E também nas fotos, nos textos, e até nos mexericos eletrônicos. Imaculadas de diversos modos. Como Nossa Senhora da Assunção. Ou Alessandra Ambrósio. Ou o Negrinho do Pastoreio. Ou mesmo Karl Marx, Justin Bieber, Jean Dujardin – se são um pouco mais novas, creio. Ou mais canastronas, no terceiro caso. Talvez. Ainda que nas entrelinhas. Ou, no mínimo, bem depois. Depois que suas atitudes, tiques, taques hajam sido devidamente photoshopados. Porque se tem uma trilha que todos seguem, é por onde quebrar castanhas para parecer bom, belo e mais ou menos justo. Uma photoshopagem moral. Não é assim que funciona? 

Afinal, para todos os mortais que não dormiram com a gente, a gente não é mais que a propaganda da gente. Risco. E um riso opaco. Oco. Às vezes amarelo.

Quando muito.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um cigarro depois



para chegar à conversa a qualquer hora.

Nada como ter menos de trinta. As possibilidades de conversa imantam alguns botecos a partir do balcão. As conversas é que estão lá, esperando pelos donos. Penando em noites sem dança para os lados do Meireles

o balcão, aliás, é o último recurso antes da meia-idade. O balcão é o desenlace definitivo antes da vida respeitável. Sinopse daquelas grandes mesas, onde todos se reconhecem, já tomaram alguns porres. Ou dormiram juntos. Ou vão tomar. Ou dormir. Ou deram alguns vexames. Ou vão dar

algumas mulheres estonteantes, seus perfumes. Pródiga capacidade de se apaixonar a cada espirro, cada lufada do terral. O vertiginoso senso de gregariedade de quando se é jovem. Da gente quando jovem. Escrevendo versinhos. E aqueles lugares para onde se ia sabendo que se podia falar sobre uma mulher, uma nova receita de pesto.  Um time, uma enrascada. Ou mesmo encontrar essa mulher, de uma outra forma. E daí se ouvir a buscada impressão. Os ingredientes, tempo de fervura. A sugestão intencionada. O consolo, às vezes, na carne. E de quem nem se conhecia antes. E menos se esperava

e já se era chapa só um cigarro depois

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Última das Moedoras de Canas



não por ser a última das mói canas, deixou de tirar seu diploma na Unifor. A mãe já gastara a vida ali nas Tapioqueiras, passando manteiga em tapioca, ralando coco, moendo cana. Também vendiam pasteis, cocadas. E aguentavam carradas de desaforo. Tanto de caminhoneiros quanto de filhinhos de papai
mas ela queria ser professora. E deixar de moer cana 

mal sabe ela que as duas profissões muito se assemelham. (Especialmente quando estão na vida. E não no Globo Repórter)

domingo, 19 de agosto de 2012

Daquelas, não destas: ainda os relativos




só desgraça nesse mundo”, escreve a jornalista, aumentando-as

é, não é fácil, eu sei. Para ninguém, como diz MacCartney em bela canção. Mas neste mundo, bastante poluído, espoliado, é um tanto mais acessível empregar o pronome relativo. Feito fôssemos deputados, desembargadores, secretários de estado. Feito tivéssemos aquela pança enorme. E um salário equivalente àquela pança de aquarela. E os relativos, como em inglês, fossem nossos parentes, ao contrário de Sancho. E puséssemos muita fé no ordenador. E o tribunal, ou a assembleia, ou a secretaria fosse uma frase, em que devêssemos empregá-los. A todos. E, como todos sabem, como não são etéreos  ou  virtuais  tribunais ficam no mundo

neste mundo, debaixo dos pés. Porque ainda não alcançamos esses outros, na proa das espaçonaves

daquelas. Não destas

sábado, 18 de agosto de 2012

Mesmo Safados




-você sabia que calango em moçambique é desejo sexual?

-não. mas eu, olha, eu sei: aqueles bichos são mesmo safados

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Saiba Como


Roy Lichtenstein, 1995

hoje, em qualquer lugar, há dicas e sugestões sobre os excessos que os noivos devem evitar. ou sobre carícias que os casais podem lançar mão no dia dos namorados, num quarto de hotel reservado, todinho para eles, à beira-mar, a contemplar um navio adernado. e saber se rende mais, dependendo do calado, do porto ou do porte, pôr primeiro esta ou aquela perna, acima ou abaixo da perna da consorte. e todo um catálogo de posturas para se kamasutrar até de manhã. ou que parte descer (ou subir) primeiro no tobogã. hoje, ainda que você não seja ansioso por informação, a ponto de pedir licença - pelo sim, pelo não - para ir ao toalete conferir no iphone se a ocasião fez o ladrão, ou se o verão, enfim, foi feito pela andorinha; você, insano, já nem sabe mais qual dica lhe dá mais tesão, e qual é mais erva-daninha: há um incomensurável acervo de dicas e sugestões em linha. em linha, e com um anzol. e elas ensinam a carícia mais criativa a qualquer otário, a melhor forma de vedar-se sob o lençol, além de, claro, o padre nosso ao vigário. e a todos como se vestir, sem precisar entrar no armário. e, no dia a dia dos namorados, a se despir dançando um samba, mais maneiro, amaciado que uma chinchila em cochabamba. e, depois, que bela trama, como transar, rezar e marcar um gol de placa – detalhe: sem fazer pipi na cama.  

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

So far




até aqui ela só fazia charme no sofá, bolando de um lado para outro. só fama em torno dela. notoriedade da pequena. parece que na hora de mudar do sofá para a cama, algum sofisma pairava sobre a cena.

Ainda é tempo que cresce: Drake




'Still it's time that grows in my brain'

Still it’s time that grows in my brain.
Still it’s time that calls me again.
Still I scream when time ticks.
Still I cringe from time’s tricks.
Still I groan for time’s lapse.
But still I’ll try for time perhaps.

Nick Drake


'Ainda é tempo que cresce em minha mente'

Ainda é tempo que cresce em minha mente.
Ainda tempo, que me chama novamente.
Eu ainda imploro quando o tempo pulsa.
E inda refugo, se me cerca e abusa.
Eu ainda gemo se o tempo emperra.
Mas inda vou tentar um tempo nesta terra.


Nota -
Este pequeno poema - creditado posteriormente como "Time Piece" - é dito por Nick Drake em uma gravação caseira. Ouve-se um metrônomo marcando ao fundo. A voz de Drake soa imprecisa, demasiado baixa. Em alguns fins de frase há uma indistinção que leva a diferentes soluções copiadas pelos fãs e diferentes da que vem impressa no booklet do CD. Especialmente o penúltimo verso. Nesta versão em português, que pode ser caracterizada como "um poema depois de", é muito importante a presença ou a ausência de certas partículas para compor a medida da frase. Exemplos? A elisão do verbo ser no segundo verso e do "a" de ainda no quarto. Ou presença do pronome "eu" no terceiro verso. E assim por diante. E, claro, o último verso é uma tentativa mais ou menos concentrada de o poema fazer algum sentido em português, abandonando a literalidade por um nada, mas cedendo não propriamente à significação, senão a um sentido mais abstrato e total. Leminski trabalhava um pouco assim quando traduzia. Ele cometia algumas molecagens intuitivas. Há também essa noção de ser molestado - ou seja, atrapalhado, fodido - pelo tempo. E apesar disso, buscar pôr-se sobre os pés. E tentar. 

Como deve ser?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

5 Trívias Que Logo Serão Passado – Ou Nem Tanto


Mark Rothko, 1957

42 vezes, 8 e muitos milhões de vezes & as vezes em que foi executado

Um goiano de 16 anos, masturbou-se 42 vezes seguidas, e depois morreu. Um pouco mais aflito, talvez, que a camélia que caiu do galho.
Masturbação faz mal? Isso é com cientistas. E com a desconfiança que o senso comum tem deles. Às vezes, amplamente justificada. 
Agora, tudo que é demais...
*
Se compulsoriamente os países devessem mudar de nome para sobrenome, os Estados Unidos e o Reino Unido seriam Smithland 1 e 2. A Suécia iria por Johanssonland. Müllerland, a Alemanha. Paese dei Rossi, a Itália. Garciatierra, a Espanha. Na Armênia, República dos Hovhannisyan. Na Croácia, República dos Horvat. A Coreia do Sul seria Kim, com a série concorrência dos Park, naturalmente. As Províncias Unidas dos Fernández (que, por sinal inclui a presidente), responderia pela Argentina. E o Brasil e Portugal seriam domínios dos Silva.
O sobrenome da selva - presente em 8% das RG's no Brasil - faz parte do nome de 8 dos 18 atletas convocados para a seleção olímpica de futebol, versão 2012. São eles, da defesa para o ataque: Danilo, Rafael, Thiago, Alex Sandro, Lucas, Neymar, Pato e Leandro Damião. Um verdadeiro silvabol. E como 'silver' em inglês é 'prata', não tardou a sair uma piada infame na Tia Nete. Detalhe: em inglês.
*
O Hino Nacional Brasileiro, executado anteontem na cerimônia de encerramento da Olimpíada de Londres, causou furor, a favor e contra, no Twitter. É que foi executado para uma audiência olímpica, que não estava tão acostumada a ele, como no futebol ou na Fórmula-1 de alguns anos atrás. Os americanos ridicularizaram-no massiva e grosseiramente. Os ingleses, por seu turno, adoraram. E muitos outros se pronunciaram. O hino logo virou TT mundo afora. Mas quase, em qualquer caso, havia ressalvas irônicas. O mais comum desses comentários apontava para o hino como trilha sonora de Tom & Jerry. Ou no máximo de um sitcom de antes da era digital. Um inglês disse que morria de sono na cerimônia, mas à execução do hino sentiu vontade de pegar a primeira mulher à mão e sair dançando pelas tribunas do estádio afora. Bom sinal? E, faz alguns anos, o Guardian publicou este artigo, “The Beautiful Anthem”, rasgando elogios ao hino:
Ou seja, como o próprio país, o nosso “Ouviram do Ipiranga” desperta paixões a favor e contra. Só não passa despercebido. E não é isto uma virtude?

Mais de uma voz conversavam nos bastidores: só o apoio de costas (muito) largas mantém Mano Menezes à frente da seleção. Caso de Lula, que ligou para Mano, parabenizando-o pela prata. 
Esse pessoal não calcula o desserviço que está prestando à nação, ao meter o bedelho onde não sabe bulhufas. E Mano Menezes já devia ter sido defenestrado sumariamente após fiasco da Copa América. O lobby que o mantém no cargo deve passar pelos interesses de cartolas combinados aos dos agentes de jogadores, que usam a seleção como vitrine para vendas ao exterior. E mais jornalistas que levam sua comissão nessas transações.
*
Aos poucos, com menor lucro dos bancos e das multinacionais no Brasil, o perfil do país segue corroendo na mídia lá de fora. Esta semana, a The Economist noticiou que a economia mexicana ultrapassará a brasileira em dez anos. A China anda gripada, e o big business do México é com seu vizinho do norte. E de alguma forma, isso lembra o velho chavão: "pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos". O ponto é que, atualmente, a economia do Brasil é o dobro da Mexicana. E como se dará essa ultrapassagem, se a própria Economist prevê que o Brasil crescerá mais que o México em 2013? 
Se aí tem coisa?
Tem. Sobretudo a necessidade dos Estados Unidos de propor o México, por contraposição ao Brasil, como modelo de êxito para uma América Latina cada vez mais Ámerica LaChina.
*
Uma reportagem na Forbes dá conta de que o Jeep Grand Cherokee, da Chrysler que é tido como símbolo de status no Brasil, custa em Miami, US$ 28.000,00. No Brasil, o mesmo veículo - mais desprovido de acessórios de fábrica, inclusive - não sai por menos de US$ 89.500,00 (R$ 179.000,00). Porra, tudo bem que há corrupção por toda parte neste mundo. E alíquotas de importação de peças, impostos, legislação trabalhista caduca, estrutura deficiente do sistema portuário, estradas engargaladas, etc. Mas esse preço é abusivo! E as montadoras mandam e desmandam nos nossos políticos, para quem os interesses do país sempre  têm andado muito atrás de uma conta privada nas Ilhas Caymman. Nesse ínterim, os carros nacionais continuam inferiores aos importados e vendidos a preço de roubo. 

"London, London" (como reatualização da “Canção do Exílio”)

Sharon Core, Cakes, 2004

sem dúvida, o verso mais belo diz: “I came around to say yes, and I say”. Há uma assertividade nessa tristeza caetana que é como saber que se provém de algo muito forte, que não é qualquer cultura, mesmo com séculos nas costas e um império onde o sol não morre, que nos vai privar dela. A letra então paira entre a urbanidade, o compromisso e a organização britânicos, numa das margens, e a angústia do transeunte exilado do turbilhão brasileiro de ritmos e mutações, na outra, para criar uma terceira. Mas essa terceira só pode ser percebida, em todo seu itinerário e repercusso, por um falante do português como primeira língua, que também domina o inglês, nem que de passagem. E o resultado, então, é a melancolia serena, à primeira vista resignada da canção transformando-se no manifesto de resistência que ela, de seu avesso, propõe. O mesmo que é, mais e mais, encorpado em ondas a cada vez que repete, à mantra, a aparente banalidade do refrão, que transmuta a solidão do transeunte em algo capaz de ser apropriado por um coro, uma multidão de vozes. (E não deixa de ser irônico que, antes de Jean Charles de Menezes ser morto por um policial, um dos grandes nomes da música pop do país de Menezes haja descrito esse outro policial, que se compraz em ajudar os outros com civilidade, presteza, enquanto o solitário exilado flana como alienígena pelas ruas de Kensington e Chelsea)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Num determinante momento


Yane Marques durante uma prova de esgrima do pentatlo moderno

Num determinado momento da Olimpíada, um pai e sua filha de nove anos assistiam a uma partida de vôlei feminino em um restaurante de Fortaleza. E o pai, visivelmente entediado - ou quem sabe querendo assistir o Brasileirão - tinha de ficar, porque a menina estava tão envolvida com a transmissão que seria um pecado interromper-lhe a torcida.
*
Nesta Olimpíada, mais importante do que o resultado geral, foi o fato de um considerável número de medalhas ter sido obtido não só por atletas do Nordeste, mas que fizeram sua preparação sem sair do Nordeste. E, para completar o pacote da boa nova, de serem mulheres: Sarah Menezes, Yane Marques, Adriana Araújo, Juliana Silva¹. E a elas se juntam as garotas do vôlei: Dani Lins e Jaqueline Carvalho.
A auto-estima da região agradece.
E basta revisar o biotipo dessas mulheres de fibra para perceber o fato de o Nordeste ser uma sociedade multiracial e multicultural, em essência. E talvez a mais antiga delas, e não só no Brasil. Onde há espaço e tempo para todas as etnias. E, desde sempre, para a composição entre elas.
Mas tudo isso é só um primeiro indício de como será o país quando superar a barreira das desigualdades econômicas e interregionais: será mais seguro, acessível, viajável, justo, ainda mais composto e verdadeiramente federado.
E, evidente, muito menos presa de estereótipos.


¹Juliana Silva, nascida em Santos, de família cearense, retornou com meses de idade para Fortaleza, onde vive e treina.

domingo, 12 de agosto de 2012

5 breves notas para a próxima copa




ei, publicitários, essa é pra lembrar: quero essas meninas me vendendo carro, desodorante, plano de celular, refrigerante. chega de neymar!
*
se é pra insistir, numa equação esférica, errar é o mano, isso eu já sabia, desde a copa américa.
**
os meninos da seleção que levaram a prata são dezoito, mais a comissão, o cabeleireiro e o mordomo, fora os presidentes de federação. agora, o que ganharam: não é a mesma prata do esquiva falcão?
***
não falo palavrão em vão. mas, olha, seu baitinga, esse vice do brasil com o méxico, puta que pariu. caralho. fela duma gringa. pronto, já saiu. quer mais? vai catar piolho lá em tabatinga.
****
neymar cai tanto que fechou com a tim. cai a tarde, janto sopa de aipim. cai a chuva enquanto converso com ela. cai a linha, o rei, o preço do amianto. e o sereno vem caindo. 

só não cai o pranto.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Entre a Coincidência do Romance com a Mítica Telenovela: o Remake de Gabriela (2012)




E esse “sabe não” na nova versão de Gabriela, hein? Soa bem. Como de resto soa a manutenção, praticamente na íntegra, da bela trilha sonora da versão de 1975. E no atacado, até que o registro geral da fala das personagens não está tão desastrado como na maioria das adaptações da Globo. Mas há coisas hilárias.

Pense!”, como exclamação imperativa, que vaza para uma frase mais longa – "pense num texto desalinhado!" – é atualmente algo bastante cearense. Vinda do interior, como o rapaz da canção de Belchior. Mas a  exclamação foi também reconvertida quase numa expressão idiomática da periferia de Fortaleza. Ressignificada. Difundida que foi, justo pelos programas popularescos, de bonecos, da TV Diário. E caiu na graça graças à predisposição anterior do Fortalezense para o rural, o que testemunha bem de onde ele veio e há pouco.  É uma expressão que todo mundo usa, independente de classe social ou grau de escolaridade. Uma espécie de senha gostosa, que só os Fortalezenses dimensionam o quanto vai de humor em pronunciá-la. É também um dos poucos momentos em que todos se encontram, porque não há classes ou etiquetas. E é engraçado ouvi-la na Ilhéus da década de 20 do século passado.
*
O remake de Gabriela em 2012 conta com algumas boas surpresas. A direção de arte com externas de Ilhéus à altura da belle-époque não é a menor delas. Às vezes, contudo, a mão carrega um pouco e parece um tanto coisa de um Brasil novo-rico. Onde certa falta de talento há de ser compensada de alguma forma. E é o caso desse Bataclã art-noveau, importado de Hollywood – talvez via o bordel de Nova Orleans ao tempo de E. J. Bellocq tal como remontado em certo filme de Louis Malle (Pretty Baby, 1978); e, assim, surge tão desmedidamente suntuoso, que lembra o Theatro José de Alencar. 
No mesmo rumo vão os interiores das casas dos coronéis, que talvez ficassem melhor num meio termo entre o despojamento da versão de 1975 e o fausto, estilo império, da versão atual.¹ Nem o mais rico e envernizado coronel de Ilhéus teve casas assim profusamente decoradas, nem semelhantes civilidades à mesa, como quando a família Bastos se reúne à refeição. Eles eram homens toscos e sanguinários. Sem qualquer refinamento. Novos-ricos, pesados e grosseirões, muito mais aptos a portar uma Winchester que uma Parker. E, no entanto, extremamente leais e devotados entre si e a uma certa ética da vassalagem. O que os humaniza também contrasta com essa truculência-ambiente de potentados medievais ou donos da lei, emprestando-lhes factibilidade e voz corrente. Na atual versão, o carinhoso desvelo dedicado pelo Coronel Ramiro à neta parece ilustrar bem essa complexidade. Mas é uma gota d'água de contradição num oceano de unilateralidades.
Já no elenco, uma das melhores surpresas é Giovanna Lancellotti como Lindinalva, a filha dos donos do armarinho que acaba no Bataclã após ficar órfã. Há uma força interior nessa atriz, um salutar minimalismo de expressão, que contrasta com o mise-en-scène mais carregado dos atores brasileiros em tendência. Ou com o exagero na caracterização das personagens. E, então, ela se transfigura com inusual facilidade. O que aponta para um talento dramático como não se encontra todo dia. Vanessa Giácomo, à sua vez, propõe uma Malvina suficientemente corajosa, digna: no meio-termo entre a personagem do livro e a neurótica Elisabeth Savalla da versão '75. E há nela uma alegria que transcende a unilateralidade programática da menina rebelde. Mas se ambas, ao lado de Marco Pigossi (Juvenal), Rodrigo Andrade (Berto) e Luiza Valdetaro (Gerusa) compõem bons perfis de nordestinos da orgulhosa elite cacaueira – vividos muito curiosamente por esses jovens atores sudestinos, descendentes de imigrantes recentes – alguns veteranos não estão tão bem assim na foto eletrônica.
É o caso de Wilker como o Coronel Jesuíno. O ator cearense, que foi um excelente Mundinho, na primeira versão, insistiu, na contramão desses jovens, numa pesada caricatura. E deu com os burros n'água. Não é o único. Quase todos os veteranos, incluída a Dona Sinhazinha de Maitê Proença, seguem nesse rumo que indica um excesso de estereótipo. Uma condescendência geral em relação à ruralidade e rudeza – de costumes, mundividências – dessas personagens, e que acaba reduzindo-as à franca indulgência ou ao paternalismo de um julgamento posterior. Wilker chegou a declarar que ri bastante interiormente toda vez que diz a Dona Sinhazinha: "eu vou usar a senhora". Pois é exatamente como o seu Coronel Jesuíno, de fato, surge: um pouco ridicularizado pelo ator. Certa sutileza básica, aqui, anda em demanda, pois o importante é ressaltar sem intermitência, a qualquer custo, o máximo possível, o lado machista, patriarcal, irascível de Jesuíno. Ainda que isso custe também a sua condição humana. E o que resulta desse pré-julgamento sumário, sempre com uma careta no rosto, não passa de um vilão plano, que parece já haver matado a mulher antes de haver matado. Não uma personagem, uma personalidade complexa ainda não julgada e condenada por quem o interpreta.  E o interpreta a partir dos parâmetros e de uma ética de quase cem anos depois. Uma distância assim parece facilitar bastante as escolhas. Não há muitos remorsos e hesitações.
Esse estado de coisas impregna quase toda a malta dos coronéis. Toda ela encarnada por atores de grande fôlego, aliás, como Nélson Xavier (Coronel Altino) ou Chico Diaz (Coronel Melk). E, no entanto, mesmo a um ator acima de qualquer suspeita como Ary Fontoura (Coronel Coriolano) falta certa rudeza sem empréstimo, certa ruralidade ainda presente em Rafael de Carvalho, o Coriolano da versão de 1975. Fontoura é demasiado urbano para um coronel. E o esforço de sê-lo atira à caricatura a personagem. E, então, os outros todos coronéis assomam um tanto como gente da cidade tentando, por força, soar rural. E o ponto alto disso é a empostação de voz do Coronel Amâncio (Genézio de Barros), que é pura charge, estereotipia, modelo, tipo – e onde não se acha de fato, o homem, o humano, tal como ainda está lá no Amâncio vivido por Castro Gonzaga, trinta e oito anos antes. 
À cabeça de todos, o Coronel Ramiro Bastos, numa caracterização excessivamente alusiva ao falecido Antônio Carlos Magalhães², ficou a cargo de Antônio Fagundes. E Fagundes não se sai mal – como aliás não se saem inteiramente os demais coronéis. Mas no caso de Fagundes há um prejuízo, sem contorno: o de ser comparado a Paulo Gracindo. 
Jorge Cherques fazia o Padre Cecílio com mais postura, em 1975. Talvez sem as neurastenias um pouco efeminadas do atual (Frank Meneses), que, outrossim, não estariam mal, não fossem tão ressaltadas. Maria Fernanda punha mais da sensualidade revisitada das meias-idades na sua Dona Sinhazinha. Mas também um pouco de sutileza, fantasia, algum mais amplo devaneio, vida interior. Paulo César Pereio era um príncipe Sandra malandro sem fazer esforço. E precisava? E só a voz do velho Dr. Ezequiel (Jayme Barcellos) iria fazer qualquer novo Dr. Ezequiel preocupar-se bastante com factibilidade e performance. E havia ainda uma Zarolha a cargo de Dina Sfat, uma deliciosa Glorinha  ingênua, solícita  nas mãos de Ana Maria Magalhães, e um professor Josué a cargo de ninguém menos que Marco Nanini. Todos de uma sutileza inoxidável. Mas também de uma inocência transgressora, que queria rachar com aquele tempo de mordaças.
E, aqui, chegamos ao ponto xis de nossa tese: o sucesso da versão de 1975, se deve a uma estranha coincidência entre personagens e elenco. É como se as personagens do romance tivessem encontrado nos atores dessa primeira versão da Globo seus tipos ideais. Suas carnes e ossos. Tivessem saltado das páginas do romance e achado uma vida nesses atores, pois há algo tão expressamente da ordem da coincidência instalado na adaptação dessa história da vida privada – passada na província, polifônica, panorâmica tanto quanto o Amarcord de Fellini – que quase qualquer ulterior adaptação estaria votada ao fracasso por comparação. Depois dela, impossível não identificar personagens e atores. Eles se fundem. E fundam a grandeza desse folhetim televisivo que conheceu também em Portugal uma popularidade avassaladora:


A “Gabrielomania” espalhou-se pelo país e poucos escaparam. A Assembleia da República encerrou mais cedo para que os deputados pudessem acompanhar os últimos capítulos. Álvaro Cunhal atrasou-se para um programa de televisão por ter ficado a assistir a um episódio. O então primeiro-ministro, Mário Soares, confessou ao Sunday Times que gostava de ver Gabriela. E o fenómeno do Brasil tornou-se notícia em Portugal.
[do Blog O Jornaleiro]


E, então, o mérito dos atores, na atual versão, segue por saber aplicar-se convenientemente à proposição de tipos que, quase por um dever de ofício, devem manter-se num tênue equilíbrio entre os personagens do livro e pelo menos uma menção honrosa à encarnação deles na telenovela de 1975. Não é fácil. Mas alguns conseguem. E chega a ser surpreendente que, em geral, sejam os mais novos.
O Tônico Bastos de Marcelo Serrado, por exemplo, não tem os mesmos maneirismos, dengues, tibieza, sobrancelhas, caprichos e covardia daquele impagável Tonico de 1975. E, ainda assim, funciona a contento. E justo por propor-se a meio-caminho entre o Tonico da letra do romance de Amado e o da encarnação de Fúlvio Stefanini. O mesmo se pode dizer da Dona Marialva atual. Bel Kutner sabe explorar o estreito espaço que há para representar a esposa do truculento Coronel Melk: assustadiça, submissa, empenhada em conciliar marido e filha; mas ainda assim com algumas veleidades, aspirações, memória. Como a de ela própria, em solteira, haver lido O Crime do Padre Amaro. Afinal, só quem provou um pouco de liberdade pode, de fato, sentir sua perda.
Mas há no remake problemas sérios. Especialmente com Gabriela e Nacib, os personagens mais centrais da trama. Eles saem excessivamente maltratados dessa relação de analogia. E em algum ponto fica evidente que a camaradagem entre a Gabriela e o Turco na versão atual – apesar da maior intensidade das cenas eróticas – não consegue repor algo do fascinante frescor, da jovialidade e da cumplicidade forjados por Sônia Braga e Armando Bógus na versão de 75.
E a ausência dessa aurática sensualidade se dá por duas razões. E vendo de perto ambas tem a ver com carisma.
Primeiro, porque o Nacib de Humberto Martins é excessivamente apalermado, hesitante, sem muita iniciativa. Ora, só o que não faltava era inciativa a esses astutos sírio-libaneses do Nordeste, comerciantes espertíssimos. A lábia deles, aliás, assim como a proverbial avareza, está documentada em páginas saborosas de escritores tão diversos entre si quanto Gustavo Barroso (crônicas, memórias), Gilberto Freyre (ensaio sociológico) e o próprio Jorge Amado (romance). Além de se dar, por sinal, justo por contraste entre certa aparente falta de jeito ou bisonhice de estrangeiro, mas que, na realidade, traveste uma astúcia como não há na praça. A velocidade com que esses libaneses e sírios fizeram fortuna é antológica. E responde pelo poder que amealharam em poucas décadas, ao longo do séc. XX. E em estados como o Ceará, caso expresso da família Jereissati (Grupo Iguatemi). Mas também de toda uma numerosa comunidade que situa-se, hoje, no centro nevrálgico da elite comercial, industrial e entre os profissionais liberais. Eles estão por todas as regiões do país, destacando-se sobretudo na Amazônia, no Maranhão, na Bahia, além de, claro, em São Paulo e no Ceará. Nacib é o bisavô desse pessoal todo. E o próprio Jorge Amado vai voltar ao tema dos libaneses e sírios num romance dedicado mais estreitamente a eles: A Descoberta da América pelos Turcos (1994). Afinal, por "turcos" entenda-se esse vasto contingente de imigrantes do Oriente Médio, muito mais composto por libaneses, sírios e até mesmo armênios, do que propriamente turcos.
A presença deles, de outro modo, faz-se sentir de forma marcante também em nossa literatura, com autores da importância de Raduan Nassar (Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera) ou Milton Hatoum (Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos).
E, então, chegamos à Gabriela de Juliana Paes. E nela esse equilíbrio é ainda menos acatado. E não por uma questão de tipo físico, pois vinda do interior, a morena de Amado muito possivelmente tendia mais à mameluca ou cafuza do que à mulata do litoral. E o tipo físico mais pendendo ao indígena de Juliana Paes, não está mal. E porém a idade demanda decididamente uma atriz mais jovem. Afinal, a morena, no livro, não é mais que uma pixota, como se diz: tem 16 anos! É pouco mais que uma Lolita – embora não para os padrões daquela época, em que uma menina de 16 anos já andava atrás de casar, se já não estivesse com filho pela mão, e mais um na encomenda. Juliana Paes faz Gabriela aos 33 anos. Sônia Braga, aos 24. Como esperar que quase dez anos não pesem?
E, assim, bem se pode supor a que se deveu, em larga medida, todo o fervor da versão de 1975: o de haver recrutado para protagonista uma jovem atriz, praticamente desconhecida do público, e que era "diferente" por ser mais familiar.³ E que, por conta disso, se constituiu também no primeiro caso de protagonista na televisão brasileira, cuja beleza não era um mero decalque do tipo de beleza à europeia. Especialmente da mediterrânea, da germânica, da portuguesa. Mas, do contrário, um documento vivo de nossa miscigenação. Ou mesmo uma celebração triunfal dela. Assim foi essa primeira Gabriela. Ela era não só a mulher que, com sua beleza e sensualidade mais desabusada (embora espontânea), desafiava uma época de pesadas censuras (aqui como em Portugal, que recém-saía de décadas de salazarismo), mas era também - e sobretudo - a que encontrou em Sônia Braga sua coincidência.


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¹ Na verdade, a versão de 1975 segue-se a uma pioneira adaptação para televisão produzida em 1961 para a TV Tupi e dirigida por Maurício Sherman. Mas, ironicamente, para canonizar ainda mais a versão de 1975, as cópias dessa pioneira adaptação foram perdidas num incêndio que destruiu parte do acervo da antiga Tupi. Trazia Paulo Autran no papel de Tonico Bastos. E, aqui, não deixa ainda uma vez de ser interessante essa disposição: uma quantidade considerável de atores ítalo-paulistanos ou descendentes de imigrantes europeus mais recentes, representando nordestinos nas três versões realizadas (Autran, Stefanini, Savala, Sfat, Giácomo, Valdetaro, Pigossi, Orciolli, Linzmeyer, Marmo, Lancellotti, Rizzi, Richter, Kutner, Cavalli, Castelli, etc.)
² Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), ex-senador da república e governador da Bahia, vulgo Toim Malvadeza. Deu as cartas na política baiana por décadas. Não era, diga-se de passagem, da região de Ilhéus, mas de Salvador. Tampouco era do tempo de Gabriela. Magalhães foi uma espécie de vice-rei de um Norte já um tanto mais amodernizado, como antes dele o foram, a seu tempo, Juarez Távora e, de modo já mais restrito à Bahia, Juracy Magalhães (não o ex-prefeito de Fortaleza, mas o integrante do movimento tenentista. Ambos udenistas e, de resto, mais ou menos contemporâneo dos sucessos de Gabriela, o romance, só que em outras latitudes). Essas caracterizações, decalcando de políticos regionais, contudo, não deixam de ser perigosas. Por reforçar, por exemplo, o estereótipo de que "o coronel", truculento e corrupto, só existe em seus desdobramentos históricos no jogo político do Nordeste, quando na realidade ele encontra herdeiros por toda parte. Impregna o país como uma praga. Por todas as regiões e estados. Da Fiesp à aldeia indígena, passando pelos departamentos universitários (não menos os de esquerda - que produzem o discurso que "analisa" e "'interpreta" o fenômeno do coronelismo), bem como pelas ONG's, ambientalistas ou não...E não se desconhece que alguns dos políticos mais suspeitos da história recente do país são do Sudeste e do Sul, como os paulistas Paulo Maluf (aliás, descendente de libaneses), Orestes Quércia, José Dirceu, ou alguns dos que passaram recentemente pela prefeitura de Campinas; os cariocas Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, entre muitos outros, ou a crônica ligação da Assembleia Legislativa do Rio com a contravenção e o tráfico. Além de escândalos de corrupção envolvendo diversos caciques políticos do Sul; a exemplo do caso do PRTB e do Banestado, no Paraná. Se fossem devidamente apurados e noticiados, provavelmente se constataria que os maiores escândalos políticos e esquemas de corrupção estão, de fato, onde está mais concentrado o poder e a riqueza: o Sudeste e o Sul do Brasil. Não são predominantemente do Sudeste os envolvidos no escândalo do mensalão, ora em julgamento? Porém, como esses estados também detêm o controle da mídia nacional, não custa nada transferir ao Nordeste, "subdesenvolvido", também esse ônus...Ou uma espécie de "exclusividade" ou "quintessência" dele.
³Desconhecida do público adulto, mas não da meninada, pois trabalhava no emblemático Vila Sésamo, junto com Aracy Balabanian e o próprio Armando Bógus, que, depois, faria o turco Nacib. Em Vila Sésamo, no entanto, a personagem de Sônia Braga plasmava ainda algo mais da ordem da menina, ou da irmã mais velha. Apesar de carismática, não irradiava ainda toda sensualidade de Gabriela. 

NOTA POSTERIOR
Ainda na versão de 1975 há também um dado curioso: Wilker, nordestino, faz um carioca (Mundinho); enquanto os sudestinos fazem os nordestinos, e uma sulista faz Gabriela. Essa circunstância dialética, de um nordestino fazer um sudestino e os sudestinos nordestinarem-se, também tem algo a ver com o fato dessa telenovela de 1975 ser tão sintética. Quer dizer, poder ser vista como uma síntese alegórica da sociedade brasileira. Especialmente em dois aspectos, os quais essa sociedade só vai dar atenção algum tempo depois: as relações interregionais e a questão da mulher. É certo que Sônia Braga é paranaense. Mas há em Sônia Braga uma encruzilhada de mulheres. Ela parece com muita gente ao mesmo tempo. E em muitas partes: a Norte, a Nordeste, a Centro e a Sul. (E parece com o que essas gentes têm de melhor: a beleza, a espontaneidade, a sensualidade, a astúcia, a alegria. E naturalmente, ao parecer com tanta gente, ela também é única).