sábado, 25 de agosto de 2012

O Vigário



Camocim. Sexta-feira à tarde. O parquinho junto à Igreja do Bom Jesus. Mas ou menos 1972

meninas. Haviam chegado primeiro. O parque era ao lado da igreja. Meia-quadra repleta de brinquedos, cercada por um murinho baixo caiado, abrindo-se à calçada por um portãozinho que quase ninguém usava. Com elas, o parque ficava mais branco ainda, cheio de babados, saias, fitas, meias, sapatos de fivela discorrendo sobre o capim. Ficava imediatamente mais elegante, contrastado. E bem mais estridente. E, contudo, com tantas saias, era de espantar que não houvesse mais acidentes

meninas nem sempre estavam lá. E brincavam separadas da gente. Eram elegantes. Um pouco esnobes. Aquele horário o monopólio de certos brinquedos – os escorregas, pentes, gangorras, treliças, pergolados, o carrossel, o balanço longo – era delas. Ainda que houvesse a nítida inadequação entre a elegância, os penteados e fitas, os vestidos com crochés e plissados, e a dose de contorção e suor que alguns brinquedos demandavam

às vezes, o Monsenhor Inácio, que ensinava geografia no colégio delas - embora para as que já eram um pouco mais crescidas - saía para tomar a fresca, ao cair da tarde, no lado da sombra. E do alto do calçadão da casa paroquial, que era logo atrás da sacristia, aos fundos da igreja, deitava olho sobre os pequenos sucessos do parque, enquanto mordia o cigarro entre os dentes

como podia aquele homem severo, dado a certa neurastenia, que nem tinha mulher, nem filhas, que podia ser irascível ao sermão – de ficar rubro de raiva, e soltar diatribes contra a jogatina, o álcool e a concupiscência - ser assim brando e cuidadoso com aquelas meninas no parque?

os meninos só não implicavam mais com elas, só não aplicavam mais, porque elas cedo aprenderam que o Monsenhor podia lhes resgatar os apuros. E até evitavam ir ao parque se fosse dia de aula, e ele não estivesse em casa, com seus livros de latim, de álgebra, geografia. Mapas. O cigarro no amarelado dos dedos, a espantar mosquito à época das azeitonas pretas. Às vezes uma boina à cabeça, afora a indefectível gola clerical, se saía em seguida. Mas se alguém as pertubava:

-Monsenhor, o Nonato buliu comigo
-Monsenhor, o Sérgio está intimando comigo
-Monsenhor, o Chico está se danando

quando a maioria dos pais bem sabia que menina se entendia com mulher, e que menos dor de cabeça dava ter filhos homens, parecia pouco ao Monsenhor ter de ouvir todos os malfeitos da cidade. Ele nutria genuíno interesse pelas meninas. Falava a língua delas, e de um jeito que desdenhávamos

nutria um interesse. Mas não desse tipo que você está pensando. De um outro tipo. Daquele, tipo fosse pai, entender-se-ia com elas, à base de conversa, boa palavra, mimo. Historinha antes de dormir, contada do mesmo jeito. Presentes nas devidas datas. E algo mais que paciência. E isso, dentro do estreito repertório de falas e gestos reservados a pais, filhas naqueles longos tempos onde os fins de tarde echiam-se de ouro e reflexo. Ou daquelas florzinhas, brancas, perfumadas, excessivamente elegantes, movendo-se entre os brinquedos no parque. E a tuba da banda de música a reluzir ao sol entre as túnicas das irmandades nos dias de solenidade e procissão

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