terça-feira, 28 de julho de 2009

De amor e cevada: Bashō


Willi Baumaister, Ideogram, 1947



Dez hai-kos de Bashō





diga-me de solidão
de ermas serras
velho cavando beterrabas

* * *

êxodo de primavera
pássaros clamam
a lágrima do peixe

* * *

pegadas de monos
no gelo escuro
drenando água fresca

* * *

redes para polvos
verão de sonhos lunares
logo findo

* * *

gata, tão
magra de amor
e cevada

* * *

velho lago
sombra-salto
um sapo

* * *

noite clara, som
de roupa batendo
na cisterna

* * *

limiar de outono
campo de arroz
verde oceano

* * *

primaverar
lua bordada
e odor de ameixa

* * *

corisco
pio de garça
estripa o breu



Nota – traduzidos a partir da comparação de diferentes versões para idiomas ocidentais e de uma notação fonética. No caso do inglês, sobretudo as versões de Lucyen Stryk, mas também as de Noboyuki Yuasa e Cid Corman. Todas as versões destes hai-kos foram feitas em 1999, num contexto mais amplo de estudo da literatura e da filosofia sino-japonesa.




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Revelar o invisível a partir da crença no visível


Jean Vigo, L'Atalante, 1934




Minimalismo-barroco: uma sinopse



"Se um autor se deixa comover pela paisagem escolhida, se esta lhe evoca recordações e sugere associações, ainda que subjetivas, isso, por sua vez, provocará no público uma emoção específica".

[Tarkovski]




Durante algum tempo, mantive com Alexandre Veras, ao longo da feição dos documentários que realizamos em parceria, uma conversa sobre cinema e revelação. Meu ponto de vista pode ser resumido a dois aspectos: i. um cinema apto a REVELAR; ii. um cinema que se contrapõe aos excessos barrocos da arte brasileira em geral. A este cinema [ou a este modo de encarar o desafio de ensaiar uma nova concepção estética de cinema] denominei, por contraste radical, de minimalismo-barroco. Ele se sustenta, basicamente, em duas assertivas. A primeira, está suficientemente bem expressa por André Bazin, da seguinte forma:

O realismo busca expressar simultaneamente o concreto [contingente, transitório] e o essencial do mundo. O falso realismo se contenta em nos fornecer uma ilusão das formas. A fotografia liberou a pintura barroca dessa obsessão pela semelhança.

A segunda pode ser expressa através desta frase de Benjamin:

O passado deve tornar-se citável em todos os seus momentos.

A primeira evita qualquer especulação mais rococó ou preciosista sobre a relação entre realidade exterior e imagem. Ou seja, ela insiste em que só porque existe uma realidade exterior existem imagens que a reflectem. [Aqui, sem vice-versa, a precedência é do mundo (concreto, exterior)]. A segunda aponta para o fato de que se o filme não possuir um esteio sócio-histórico calcado numa consciência do passado, das prévias condições históricas que cercam o assunto do filme, ele será uma mistificação. Eis a razão pela qual, para um cineasta como Rohmer, um cinema puramente visual é incapaz de dimensionar valores morais. Com isto Rohmer ataca aquele tipo de cinema que se fecha sobre si ao modo de uma vanguarda esotérica e supostamente atemporal.

A fórmula que melhor achei de traduzir tudo isso num modo compacto foi: “o cinema revela o invisível sem violar a visibilidade das coisas”.

Para um maior contexto sobre a produção de cinema documental contemporânea no Ceará, este artigo online na revista Cinética, de São Paulo, da autoria de Cleber Eduardo:


[http://www.revistacinetica.com.br/doctvesquinas.htm]


Para uma contextualização em livro, consultar Filmar o Real - Sobre o documentário brasileiro contemporâneo, de Consuelo Lins e Cláudia Mesquita, Ed. Zahar, 2008.




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segunda-feira, 27 de julho de 2009

O que não pode ser transposto: Weil


Jess, Narkissos, the last translation, c.1978




Entre as mais sábias palavras sobre tradução

“Os obstáculos materiais – falta de lazer, fadiga, falta de talento natural, doença, dor física – atrapalham na aquisição dos elementos inferiores ou médios da cultura, não na dos bens mais preciosos que ela encerra. O remédio para isso é um esforço de tradução. Não de vulgarização, mas de tradução, o que é bem diferente. [...] A arte de transpor as verdades é uma das mais essenciais e das menos conhecidas. O que a torna difícil, é que, para a praticar, é preciso ter-se colocado no centro de uma verdade, tê-la possuído em sua nudez, por trás da forma particular sob a qual ela se encontra por acaso exposta. [...] De resto a transposição é um critério para uma verdade. O que não pode ser transposto não é uma verdade; do mesmo modo o que não muda de aparência segundo o ponto de vista não é um objeto sólido, mas uma ilusão ótica. No pensamento há um espaço de três dimensões".

[Simone Weil, O Enraizamento [L'Enracinement, 1949], trad. de Maria da Paz Loureiro, Ed. Edusc, 2001, p. 64 --- grifos nossos]


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O silêncio e a escuridão em sua pureza: Huizinga


[s/i/c]



O Violento Teor da Vida

Aqui de novo todos os aspectos da vida eram de uma vaidosa ou cruel publicidade. Os leprosos soavam suas matracas e seguiam em procissão, os mendigos exibiam suas deformidades e desgraças nas igrejas. Cada ordem e casa senhorial, cada categoria e profissão distinguia-se por suas vestes. Os grandes senhores nunca se deslocavam sem um ostentoso aparato de armas e uniformes, a incitar medo e inveja. Execuções e outros atos de justiça públicos, a falcoaria, casamentos e funerais, eram invariavelmente anunciados por pregões e procissões, canções e música. O amante envergava as cores da amada; colegas, o emblema de sua irmandade; partidários e criados, as divisas e brasões de seus senhores. Entre a cidade e o campo, por igual, o contraste era agudo. Uma cidade medieval não perdia-se em extensos subúrbios fabris e residenciais; cingida por suas muralhas, erguia-se como um todo compacto, eriçando-se com inumeráveis torreões. Por mais altas e ameaçadoras que fossem as casas dos nobres ou mercadores, no panorama da cidade, o grandioso aglomerado de igrejas sempre dominava tudo. O contraste entre silêncio e som, escuridão e luz, como aquele entre verão e inverno, era bem mais demarcado que em nossas vidas. A cidade moderna escassamente vivencia o silêncio e a escuridão em sua pureza, nem o efeito de uma luz solitária ou uma avulsa lamúria distante. Todas as coisas apresentavam-se à mente por violentos contrastes e impressivas formas, emprestavam um tom de excitamento e paixão à vida cotidiana e tendiam a produzir aquela perpétua oscilação entre desespero e feroz contentamento, entre crueldade e pia ternura que caracterizavam a vida na Idade Média.
[Johan Huizinga, O Outono da Idade Média [Herfsttij der Middeleeuwen], Edição de 1954, p.9, trad. nossa]





Nota – este livro de Huizinga em francês foi editado sob o título de O Fenecimento da Idade Média.
E já este trecho da introdução parece sugerir que verdadeiros contrastes só existem entre elementos bem demarcados por tradições consolidadas no tempo não por decretos de politicamente correto.


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Arquetipias brasileiras


[s/i/c]


Uma ideia traduzida em dois estilos



[...]

Única fortuna, os seus dentes de ouro

não servirão de lastro financeiro

e cobertos de terra perderão o brilho

enquanto as amadas dançarão um samba

bravo, violento, sobre a tumba deles.

[Drummond, “Necrológio dos Desiludidos do Amor”]



Se existe alma,

Se há outra encarnação,

Eu queria que a mulata

Sapateasse em meu caixão.

[Noel Rosa, “Fita Amarela”]



Nota - será que essa analogia pode em parte ser uma ilustração do que segue declarado duas postagens acima sobre a transposição de uma verdade?


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O jornal como arquivo mais reluzente que o jornal como jornal


[s/i/c]


A Morte do Gráfico


Morre o gráfico Antônio de Sousa Louro

Faleceu um dos gráficos mais antigos do Ceará, Antônio de Sousa Louro, que ao lado de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate, assistiu o nascimento do O POVO. Desaparece o velho e querido companheiro com 75 anos, completados a 15 de junho passado, e depois de prestar os melhores serviços a este jornal, ao longo de 39 anos. Choramos a morte do velho companheiro que foi, também, um bom professor. Desejamos que se encontre com os bravos, ao lado dos quais lutou. [O Povo, 25.07.09]



Esta foi a notícia que me chamou mais atenção em edições recentes de O Povo. Foi publicada originalmente em 25 de julho de 1969. E republicada na seção Um dia como hoje - em que se reproduzem matérias publicadas há várias décadas, pois o jornal já é um dos mais antigos do Brasil. Por várias razões a matéria chama os olhos. Havia artes gráficas manuais, nos jornais de então. Pode-se imaginar a incessante faina. Os tipos. Um mundo mecânico de graxa e músculos. Um em que a mão humana moldava formas [muito mais do que clicava mouses]. Paciente composição. Intenso trabalho braçal. O produto final de todo esse trabalho, o jornal, se torcido , ao final de sua composição, pingava suor. Um suor cor nanquim. Suor e tinta. Trabalho daquele tipo que Simone Weil nos adverte: “é fácil perceber o lugar que o trabalho físico deve ocupar numa vida social ordenada. Ele deve ser seu centro espiritual.” De resto, o velho gráfico morreu em tempo adequado. O Povo, que ele viu ser fundado, em 1928, incorporou o primeiro parque gráfico em off-set do Ceará, dois anos depois de sua morte. Em que diário hoje ao redor do mundo encontrar-se-á a morte de um colega expressa em frases como: "desaparece o velho e querido companheiro" ou “choramos a morte do velho companheiro que foi, também, um bom professor”?



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domingo, 26 de julho de 2009

Movimento de fora para dentro


Robert Bresson, Lancelot du Lac, 1974



Sangrando no bosque

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Por várias razões, Lancelote do Lago [Lancelot du Lac, 1974] é um dos filmes mais idiossincráticos da já idiossincratíssma filmografia de Robert Bresson. E por diversas razões. Um projeto nutrido por Bresson desde o início dos anos 60, ele só pôde realizá-lo uma década depois.
Além disso, para o Lancelot, Bresson pensou em, pela primeira vez, lançar mão de atores profissionais depois de muitos anos, contrariando sua prática de só formar seus casts com o que ele chamava de 'modelos'. [Para os papéis de Guinevere e Lancelot ele havia cogitado, respectivamente, Natalie Wood e Burt Lancaster – ambos no auge de suas carreiras].
O projeto, no entanto, desandou. E, muitos anos após, ele acabou empregando 'modelos' e não atores na feição do filme. 'Modelos' é sua denominação para amadores, gente comum, que nunca esteve antes diante de uma câmera de filmagem sob um set de luzes. E o que Bresson almejava com esses modelos era justamente, através deles, captar uma dose a mais de espontaneidade e humanidade – complexa, hesitada, exilada dos clichês das performances dos atores escolados: os galãs ou primas-donas, que o star system de Holywood consagrou. [Ou, por aqui, o telemelodrama da Globo].
Uma espontaneidade que, a seu modo de ver, perde-se para sempre quando se estuda para/ou se torna um ator profissional. Os tiques e vícios que são incorporados nesse processo. Vícios que, de acordo com ele, deixam em corolário o fato de uma pessoa sequer erguer a sobrancelha com certa espontaneidade ou automatismo. Toda essa questão é, aliás, calcada na contraposição radical que Bresson propõe entre o teatro, de um lado, e o cinema de outro. Sendo o cinema, para ele, uma espécie de anti-teatro.
Aliás, não propriamente o cinema. O termo que Bresson lançava mão era 'cinematógrafo'. E era 'cinematógrafo' o que ele dizia realizar para contrapor sua arte à quase totalidade do que fora e vinha sendo feito para ser veiculado em salas de exibição ao seu tempo. 'Cinema', para ele, na radicalidade de seu parti-pris, era apenas teatro fotografado. Tudo isso segue exposto em suas raras entrevistas e no seu precioso e único livro, Notas sobre o cinematógrafo. O livro é, na verdade, um magro analecto de uma devastadora lucidez e organicidade. Um maximário como não se encontra igual entre qualquer outro grande cineasta que escreveu sobre o ofício. Há uma proverbialidade espontânea exalando-se ao longo de todo o livro. Vejamos algumas dessas pequenas notas. Em especial, as que tratam dessa relação teatro/cinema, mediada pela diferença entre atores/modelos – e que ele entendia como tão conflituosa e, mesmo, antitética. [Até certo ponto o grande número de citações visa contextualizar um melhor entendimento da questão]:

Um ator extrai de si o que não está verdadeiramente dentro dele.
[Notas sobre o cinematógrafo, trad. Evaldo Moscarzel, Iluminuras, 2005, p.56]
Modelos. Capazes de se abstrair da própria vigilância, capazes de ser divinamente 'eles mesmos'.
[p.63]
A seus modelos: “falem como se estivessem falando para vocês mesmos”. MONÓLOGO EM VEZ DE DIÁLOGO.
[69]
Modelos. Mecanizados exteriormente. Intactos, virgens interiormente.
[70]
O ator que estuda o seu papel supõe um “eu” conhecido antecipadamente (que não existe).
[74]
O real não é dramático. O drama nascerá de uma evolução de elementos não dramáticos.
[75]
À segurança dos atores contraponha o encanto dos modelos que não sabem o que são.
[77]
Modelos: movimento de fora para dentro [nota do blogueiro: isto é do visível, do mundo, para a personalidade; ou se quiserem, do mundo para o espírito, o temperamento, a psicologia individuada de cada um]
Atores: movimento de dentro para fora.
[18]
Não há relações possíveis entre um ator [de teatro] e uma árvore. Eles permanecem dois universos diferentes. [Afinal] uma árvore de teatro simula uma árvore verdadeira.
[21]
Opor ao relevo do teatro a superfície lisa do cinematógrafo.
[27]
No palco, um cavalo, um cachorro que não é de gesso causa um mal-estar. Ao contrário do cinematógafo, buscar uma verdade no real é funesto para o teatro.
[As seguintes citações foram retiradas de entrevistas com o cineasta, em diferentes revistas e até documentários, mas vão no mesmo rumo]:
O cinema é o teatro fotografado. O termo cinematógrafo é, para mim, sinônimo de arte cinematográfica.”
Dizer um texto, ler um texto, nunca recitá-lo.”
Uma dificuldade substancial em parte de meu trabalho é fazer meus não-atores falar normalmente. Não pretendo eliminar o diálogo (como no cinema mudo), mas meus diálogos têm de ser muito especiais – não como os discursos do teatro.”
Um ator adquiriu de tal modo o hábito de ser ator que, na própria vida, ele é ator. Não pode evitar sê-lo. Viver de outra maneira. Não pode existir de outro modo que não seja exteriorizando-se.
[Não buscar] catalogar uma emoção como fazem os virtuosos. É isso: os atores são virtuosos.
A propósito da originalidade, falaria dela em qualquer pessoa exceto em mim. Mas há, a este propósito, uma definição de originalidade que é magnífica e que talvez nos possa servir - quem sabe transformando-a, reescrevendo a coisa. É a seguinte: "a originalidade é querer fazer como os outros sem nunca conseguir". É uma definição maravilhosa e que é de uma verdade extraordinária.
[Robert Bresson]
Bem, aqui, o leitor – especialmente o leigo – já pode ao menos ter uma idéia de como Bresson concebia a diferença entre ator e modelo. Ou entre teatro e cinematógrafo. Para ele, o cinematógrafo, arte mais realista que o teatro, capta e revela – obviamente lançando mão de técnicas e meios próprios – o real de modo muito mais efetivo que o teatro. E aqui não se trata de mero ou ingênuo “naturalismo”. [E como soa saudável essa sua crença em um mundo real, exterior e vivo, a ser REVELADO].
É, de resto, uma opinião controversa, bastante discutível. Fôssemos entrar por essa senda e ela demandaria muito mais espaço. Por ora, dizer ao menos que, concordemos ou não com ela, em parte ou radicalmente, Bresson a desenvolveu com fôlego e, inclusive, a ilustrou com raro brilhantismo, através de seus treze filmes, que assomam, de fato, tão únicos diante de quase todos os demais filmes que se vê por aí. E, por vezes mesmo, um tanto desajeitados ou deslocados.
Essa falta de jeito, então – especialmente no que diz respeito à performance dos atores, mas não só – está presente de modo marcante no Lancelot. Assim como os enquadramentos estranhos, que decepam cabeças e mãos. O valor dado ao ato de atravessar portas. O modo como seus raros closes privilegiam as mãos e os pés de seus modelos, muito mais do que seus rostos. ou ainda observam de muito perto objetos banais: uma concheira de sopa, dois figos verdes à palma de uma mão. Assim como no Lancelot salta aos ouvidos outra das obsessões do autor de L'Argent: o emprego do som.
Lancelot du lac, começa com um tropel de cavaleiros andantes, metidos em suas armaduras, por um bosque. O filme trata da legenda do Santo Graal já em seus estertores. O centro das tramas em torno do Rei Arthur e dos cavaleiros da távola redonda vai por recobrar essa relíquia. Ou seja, o cálice que Cristo usou na Última Ceia. Acreditava-se que a descoberta desse cálice e sua veneração poderia atrair anos de paz e prosperidade para o reino. Instalar um espécie de milenarismo. O mais jovem e virtuoso dos cavaleiros da Távola, Perceval se lança, então, a essa tarefa. Reza a lenda que chegou a encontrá-lo. Mas Perceval jamais retornou de sua jornada. E sua figura restou envolta em brumas de mistério. Ele sequer aparece no filme, já que os sucessos postos em campo se dão muito após a passagem de Perceval pela intriga.
À sua vez, após o sumiço de Perceval, instala-se uma verdadeira competição entre os outros cavaleiros, incluindo Lancelot, para ver quem teria o privilégio de recobrar o Graal. E a própria busca a que se lançam é marcada por uma truculência extrema: povoados incendiados, igrejas profanadas, assassinatos, traições, conspirações, motins, acusações, desconfianças. Todo um mundo de maquinações e jogos de poder onde o que menos entra, de fato, em consideração é reaver a relíquia por mérito da virtude.
O certo é que, após muitos anos de busca, os cavaleiros retornam a Camelot, à corte de Arthur, de mãos vazias. E é neste ponto que o filme, de fato, começa. Lancelot, um dos últimos a retornar, logo reata seu idílio adúltero com a Rainha Guinevere, a mulher de Arthur. Nesse ínterim, Mordred, um antigo desafeto, acusa-o de traição e Lancelot, a despeito de receber o apoio de seu fiel amigo Gawain – que, após a partida de Perceval, parece assumir o posto do cavaleiro mais tocado pela graça e pela santidade – exila-se da corte e vaga pelos bosques. No entanto Mordred não contente em pôr o mais valoroso dos cavaleiros no exílio, tenta, à certa altura, usurpar o trono pondo-se em combate contra o próprio rei. Por fim, Lancelot retorna triunfalmente, para, ao lado de Gawain, defender Arthur contra a tentativa de usurpação de Mordred. [Note-se ao redor dessas lendas todo o movimento de exílio e retorno. Um retorno para a restauração da honra perdida. Mas também um retorno para casa. Para o auto-conhecer-se. É o mesmo que há na Odisseia, no Poema do Cid, etc. Cá, entre nós, no Grande Sertão, p. ex.]
Mas também a legenda arturiana, como tratada por Bresson, revela uma Idade Média sem nenhum glamour. Há intriga e violência vazando por todos os lados. Os interiores dos castelos são despojados, quase sem móveis ou adereços. Câmaras ocas, sórdidas, que ressoam o passo metálico de quem as atravessa. A távola redonda mais se assemelha a uma tosca mesa de madeira crua. Corpos prosseguem em combate e o sangue esguincha para fora de armaduras. Está por todo lado. Numa gesta, falta de qualquer charme, o destaque segue para a mecânica violência do combate e da dificuldade de se combater guarnecido de elmos, couraças e gibões de couro. Em suster e manejar as pesadas lanças. As montarias são cavalinhos pequenos e sem garbo. O 'modelo' que faz Lancelot, é já um homem de meia-idade, que pouco retém no rosto,- com marcas de expressão dignas de quem foi açoitado pela vida - a olímpica marca dos vencedores, característica dos galãs. O bosque, sombrio, é entrevisto tanto como metáfora de vida neste mundo quanto do próprio demônio. Ele está coalhado de marcas dessa violência. Esqueletos de cavaleiros a pender das árvores, ainda revestidos de suas armaduras. Altares de capelas profanados. Pilhas de reluzente metal recobrindo os corpos dos cavaleiros trucidados em combate acumulam-se pelas trilhas. É um mundo sombrio, aparentemente sem remissão. Mas, ainda assim, estranhamente mais atraente que o nosso. Ou mais obcecado pela busca da verdade.
Uma das cenas mais belas do filme é quando Lancelot, ferido após um combate, refugia-se no bosque. Sangrando. Ele e seu cavalo. A cena, aliás, é aludida em um poema de Robert Creeley, que pode ser visto aqui [com a respectiva tradução].
No filme, a mais severa crítica a todo esse estado de coisas – a insana violência desencadeada pela busca do Graal – provem de Guinevere. Ela dimensiona muito bem o tanto que essa relíquia sagrada, tornada objeto de disputa, está no centro de tamanhas violência, morte e desgraça. Guinevere assoma também como a única dama no centro de uma malta de guerreiros que nela entrevêem não só uma mulher, mas uma espécie de ideal.
O filme é também, entre todos os de Bresson, onde um elemento-chave mais é posto em evidência: o som. É um filme também para ser ouvido por músicos. Não que nele haja música ou sequer trilha sonora – a não ser um pequeno tema na abertura, executado por flautas e tambores. Mas, de outro modo, porque ressoa, ao longo de toda sua duração o clangor metálico das armaduras, o tropel dos cavalos, o reverberar oco das amplas salas vazias dos castelos, onde se trama a desgraça alheia. Ou seja, tudo que compõe o índice maior da violência de que ele trata é amplificado pelo som.
Como já foi dito, não há qualquer altivez galante – talvez à exceção do jovem Gawain [que é o semblante que aparece na foto de ilustração, acima, em primeiro plano, tendo Guinevere ao fundo] - entre os cavaleiros da Távola. Eles assomam tão sórdidos quanto jagunços. E, em certo sentido, a estes se assemelham. Na cena do duelo, as peças de metais e a dificuldade de se mover sob elas parecem ganhar destaque diante da agilidade ou da bravura dos contendores. E as armaduras reforçam ainda mais os movimentos mecânicos dos protagonistas – tão característico de outros filmes de Bresson. Elas parecem conformar uma espécie de máscara que se estende ao corpo inteiro e não só ao rosto.
O Lancelot de Bresson talvez não possa constar entre seus melhores filmes. Apesar de despojado, não revela o minimalismo de Um Condenado à Morte Escapou. Ou o balé de movimentos e mãos de Pickpocket. Ou certo idílio da província captado ainda que por contraposição á desgraça dos protagonistas em Diário de um Pároco ou Mouchette. Ou o charme de Au Hasard Balthazar, que tem como protagonista um burrico. Ou, por fim, as sofisticações do mundo nas grandes metrópoles e a ausência de graça como em L'Argent, seu canto de cisne.
E, ainda assim, é um grande filme. É Bresson em estado puro. Provem do menos barroco dos cineastas. Do que, por sua contenção e radical ênfase no emprego mínimo de recursos e de sua criatividade em desencavar sucedâneos extremamente criativos para velhas práticas narrativas e técnicas, mais possui lições a ensinar à estética e ao cinema de um país histórica e endemicamente tão barroco quanto o Brasil.

* * *

sábado, 25 de julho de 2009

Não somariam entender


Royal Society for the Prevention of Accidents, c.1944



Suplemento Ótico



eu queria ter mais olhos


um que olhasse para dentro


sem tanto dedo em riste para


tudo que fiz de falho


a dor que causei aos outros


ao longo das novas folhas no galho


eu queria ter mais olhos


que me dissessem: “ei, você não é o centro


do mundo”. me dessem a rima rara


de ser sereno, quando venço ou falho


menos avoado, menos em outro


planeta, cortando a fala dos amigos em talho


que se põe na ratoeira, em vez de comer


mas, ah – interjeição maldita – que fazer?


vestir-se de amor, compaixão, nexo?


olhos a mais não somariam entender


se, com dois , o mundo é tão complexo



[fortaleza, 25.07.09]



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quarta-feira, 22 de julho de 2009

E dizer ó ceu ó mar ó clã ó destino


George Stevens, Swing Time, 1936





Filósofos franceses & as Auto-Peças O Fialho


[com o pensar em David Foster Wallace, apesar da ausência de notas de rodapé]

"Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram".

[Eclesiastes, 2,12]


Parece que a diferença de perspectiva entre os 20 e os 40 hoje em dia não é assim tão grande. Vejamos, a distância entre essa perspectiva é, às vezes, menos de uma década. E as décadas encolheram, uma vez que a perspectiva de vida aumentou no mundo todo. E essa vida virtualizou-se. Verdade, que aos vinte, o mundo é mais novidade. Aquela luz que se vê no rosto da menina, também se reproduz, em ilusão, refletida nas dobras da cortina, quando você volta para o quarto, bêbado e feliz, cheio de sonhos e projetos, depois de gastar sua mesada comprando tratados de pensadores franceses ou exilados romenos, que posam para fotos com ares e bicos fatais, mas que você acha que são muito legais. A luz do sol – maior em dias de estio, menor nos de chuva – sempre guarda um matiz aprazível. Afinal, você não tem contas a pagar. Ex-mulheres para encher teu saco. Ainda não meteu o nariz para fora do casaco de papai. E conferiu um pouco do que este vasto mundo tem, de fato, a desoferecer ou oferecer, sem ser propriamente teu retrato. Não tem filhos para cuidar. Porque é você que ainda é cuidado. Não tem aquela menininha que quer porque quer ouvir pela décima primeira vez a mesma história. E se revolta, se você não contar a historinha do mesmo jeito, com o mesmo entusiasmo e ca-pri-cho-sa-men-te as mesmas pausas, entonações, onomatopeias. Até com aquele sopro bufado no meio, que ela tanto gosta. E aí você tem de ser leitor e sonoplasta. Senão ela chora. E, por uma misteriosa razão, você não quer que ela chore. Mas, indo adiante, você ainda não teve projetos profissionais, que você sabia bons ou ao menos normais, arrasados por imbecis que galgaram para a sub-chefia do teu departamento a custa de muito puxa-saquismo e falta de visão – mas entendem que você deve trabalhar dobrado para a glória da firma, dos cofres e, sobretudo, do patrão que está logo acima dele – e que é seu deus e senhor (que ele, anjo decaído e travesti de Silvério dos Reis nas horas vagas) está doido para depor na primeira ocasião. E para depois arrotar: eu sou o melhor. Tenho uma Hilux e namoro uma das dançarinas dos Aviões do Forró. Aos vinte, você tem a mamãe para passar a mão no cabelo quando você sente certas dores no cotovelo. E um cão sem pulgas a levar a passeio. Todos os teus amigos são solteiros, gastam suas mesadinhas, estágios e parcos salários de primeiros empregos, bolsinhas de pós-graduação, com cinema, cerveja, futebol, praia, putas e um brinquinho de aros para a eleita no Dia dos Namorados. Ou comem-se entre si feito loucos. Mas seu fetiche maior é simples. Não vai muito além de traçar aquela coroa recém-separada que nunca olha para você no elevador - enquanto outras coisas se elevam, involuntariamente. E você pondera: será tarde para ser surfista? Talvez ela goste de um tipo mais... esportista. Será preciso mudar de look? Mas outra coisa que você quer mesmo é ser amigo daquele escritor famoso, no Facebook. E quanta especiaria! Fumar uns baseados, cafungar umas carreiras e sentir-se um gênio deslocado, incompreendido e solitário, o ser humano mais desgraçado de todo Dionísio Torres. Aos vinte ainda se pode ser de garçom a alto-executivo. E com muito menos insônia do que se imagina. E muito menos castigo. Pode-se pôr uma mochila nas costas e pegar carona até a Patagônia. E achar que o mundo gira em torno do teu umbigo. Pode-se ser irônico. Ter seu ritmo. Deslizar. Fazer isso, dizer aquilo. Sorrir após a aprovação de tuas frases de efeito. Tentar cativar os mais velhos com suas piruetinhas para ganhar o pirulito do elogio. E sentir-se a revelação da vez. Você tem códigos próprios, gírias, gestos tribais e acha isso muito bacana. Ter convicções inarredáveis. Ídolos. Porta-vozes. Aquele guitarrista que exprime o que você sente. Aquela cantora que escande com tamanha veemência os versos que, com toda certeza, foram feitos sob medida para quando você está curtindo aquela deprê por causa da menina dos brinquinhos de aro, que ora lhe passou para trás e anda de namoro com um robusto ferrabrás, um personal trainer qualquer dessa vida mais saudável, a que todos aspiram. Ou, se do contrário, está contente, ao ouvir a cantora, dá pulos de alegria quase em estágio de epitalâmio como quando você foi na Disneylânia. Você pode sonhar com uma ampla geografia. E querer passar uns meses na Groenlândia. Mas resolve seus problemas sexuais mesmo é com aquela filha de um funcionário do fórum que mora na Gentilândia. Agora, numa noite de sorte, pode até deitar com uma hippie argentina e depois uma deusa de ébano soteropolitana. Por turnos ou simultaneamente. Pode assistir filmes de Bertolucci e achar que a vida não é assim tão diferente. Escolher uma menina para namorar que guarde nem que seja uma nesga de semelhança com Liv Tyler. E tentar roubar-lhe a beleza. Embora você seja tão purista que acaba por achar que a sua Liv, bem, tem algumas espinhas a mais no rosto e uns lábios não tão carnudos. Ainda que o rosto fosse da maciez da espuma-do-mar e os lábios duas polpas de pitanga antes de você gozar. E, fora da alcova, brigar muito com seus pais, com seus professores. Faz parte. Cavar polêmicas tão altissonantes quanto ocas. Contestar os “coroas”, os "caretas", as "patrulhas". E curtir a galera. Tudo isso para escapar da tua louca e vera vontade de comer a mamãe. Comprar uma guitarra e sequer aprender a tocar “Sunshine of Your Love”. Aos vinte você é uma promessa. É mercurial como o sol de abril desabando em finas aparas de luz sobre as ruas de Fortaleza às duas da tarde, quando, à sombra, sente-se a brisa roçar o rosto feito um afago. Há algo de semi-deus grego em você. E ainda não de Otelo e de Iago. Você está para terminar a faculdade com aquele vago sentimento de haver feito o curso errado. Mas para e pensa: ainda dá tempo. E, com as engrenagens a mil em tua cabeça, inventa logo três diferentes futuros: monge budista, proprietário das Auto Peças O Fialho – o sobrenome da família – ou comissário da ONU para assuntos estratégicos no Alto Volta. E isso não parece sanha, mas a coisa mais sã. De repente, você está comendo em Paris e cagando em Amsterdam. Mesmo sem sair da Aldeota. É um pouco o colateral de tanto pó. De tantos Ciórans e Benjamins da estante pra cachola. Do tanto que você deixa sua mesada com o traficante. Tudo semelha um feature. E, no filme, claro, você é sempre o mocinho, o centro do mundo, todos se curvam ante sua passagem mesmo sem saber. Ainda que você seja aquele anti-herói mal-barbeado com um cigarro ao canto do lábio, tipo Albert Camus ou Mickey Rourke, o jovem; aquele que todos desprezam e anda sempre olhando para o chão com cabisbaixos olhos fatais, chutando latas, o nada ou algo mais. VOCÊ tem elã, VOCÊ é demais. O cultivo dessa auto-adoração sob forma do solitário maldito é a sua tara. Os outros é que não notam. Mas VOCÊ sabe: VOCÊ é o cara! Agora, a câmera nota. Pois deixa os outros sempre em segundo plano e desfocados. Aos vinte, a câmera adora VOCÊ e VOCÊ se sente adorado por ela. Mesmo nos momentos mais violentos. Mesmo nos mais fatais.
O problema é que tudo isso esgota sem mais. O filme, súbito, acaba antes mesmo de ser editado. Sem aviso prévio. E quando se olha para trás, de volta para o espelho, já não se tem muito remédio. E então se solicita uma troca, um corte para a próxima cena, e - que acinte! - a câmera já não está mais lá, passou para a geração seguinte. De início, você se revolta, tenta voltar ao proscênio, volver a los vinte! Como pode, logo você, virando figurante!? Um extra que passa tão desapercebido quanto um asceta essênio. E era tudo do que você mais temia. Ser uma daquelas figuras deslustradas, desfocadas, em segundo plano, perto da coxia dos tempos em que VOCÊ era o galã. Então desanda a malhar feito louco, maromba pesado, corre quilômetros, toma suplementos alimentares e açaís, implanta reservas capilares sobre os pampas da calva, submete-se ao terrível exame de próstata, tinge o gris nas costeletas. Mas, nas Auto Peças O Fialho da vida, mesmo o botox que se enxerta no rosto não substitui a selvageria de ter vinte anos. Como o tempo pode ter passado assim tão sem você se sentir entrando pelos canos?
E agora, aos quarenta, é você quem vende canos de escape, bobinas e calotas, atrás do balcão. E o fato de voltar a ter mais cabelos na cabeça de novo parece não haver melhorado as ideias dentro dela. Mesmo passando rápido, os dias são quase o mesmo. A mesma esparrela. Ao fim de um deles, você coça o ventre, já proeminente, ou as partes menos eminentes. Fecha o caixa. E pede para o Anísio descer a porta corrediça, porque já são seis e meia da tarde e você tem que pegar a Emília na aula de francês e o Fialho Jr. na capoeira. E, então, ao chegar no condomínio, responder uns imeios desejando aos clientes, fornecedores e amigos: "Felicidades!", a época é de festas. E, por fim, sem erro, tomar seu uísque e falar da vida alheia no bar do Ideal Clube. Que ninguém é de ferro.



appendix: DOIS POEMAS DE LEMINSKI COMEÇANDO COM "UM DIA"


um dia quero ser
um grande poeta inglês
do século passado
dizer
ó céu ó mar ó clã ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino


* * *

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


* * *

terça-feira, 21 de julho de 2009

Se só a filigrana é meu trabalho


Marcel Broothaers, On the Art of Writing and on the Writing of Art, 1968




Diece Poesie Scritte in un Mese



Dieci poesie scritte in un mese

non è molto anche se questa

sarebbe l’undicesima.

Neanche i temi poi sono diversi

anzi c’è un solo tema

e ha per tema il tema, come adesso.

Questo per dire quanto

resta di qua della pagina

e bussa e non può entrare,

e non deve. La scrittura

non è specchio, piuttosto

il vetro zigrinato delle docce,

dove il corpo si sgretola

e solo la sua ombra traspare

incerta ma reale.

E non si riconosce chi si lava

ma soltanto il suo gesto.

Perciò che importa

vedere dietro la filigrana,

se io sono il falsario

e solo la filigrana è il mio lavoro.



Valerio Magrelli



Dez Poemas Escritos em um Mês



Dez poemas escritos em um mês

não é muito embora este

seria o décimo primeiro.

Tampouco os temas são distintos

ao contrário há um só tema

e tem por tema o tema, como agora.

Isto para dizer quanto

resta a este lado da página

e busca e não pode entrar

e não deve. A escritura

não é espelho, senão

o vidro esmerilado das duchas

onde o corpo se estraçalha

e só vislumbra sua sombra

incerta mas real.

E não se reconhece quem se lava

mas somente seu gesto.

Por isso é importante

ver atrás da filigrana,

se eu sou o falsário

e só a filigrana é meu trabalho.




Tradução: Priscila Manhães Lerner [do blogue Dias de Voragem]



* * *

E veja se agora pode ir mais além


Edward Hopper, Night Shadows, 1921




Chame-se


...só, sai alguém de ti
vai atrás de ser alguém que sonhe
um pouco só por si
um pouco só por ser alguém

ande só
e veja o quanto pode andar um homem só

chame alguém
e veja se agora pode ir mais além

chame alguém de ti
que queira ir também

entre tantos eus queira escolher
aquele eu em ti que queira ser você

quando sair para ir
atrás de ser só em si

espere por alguém que te chame-se
espere por alguém que te chame só...



Valdo Aderaldo






Nota - Valdo Aderaldo (1962) é músico e compositor. Integrou um das mais ressonantes bandas da cena musical de Fortaleza dos anos 80, o grupo Budega, ao lado de Rossé Sabadia, Cristiano Pinho e Edmundo Vitoriano. Morou bastante tempo na França, tendo retornado a Fortaleza em 2008. Nesse ínterim apresentou-se ao lado da cantora Paula Tesser, sua mulher, por vezes acompanhados por algumas bandas de apoio, como a Boa & Co. O casal lançou um CD chamado Retratos do Vento, gravado ao vivo, no Café Pagliuca, em 2005. "Chame-se" é a letra de uma canção sua. O fato de ela sustentar-se como poema autônomo dá a dimensão da excelência de sua produção.


* * *

Paisagem paradoxo: a terra perdida por decapagem


Um exemplar de asa branca [Columba picazuro] / [s/i/c]



Asa Branca



que eu te asseguro”

[Gonzaga/Teixeira]



De fole em fole um povo faz folia;

Da sua tristeza extrai crua alegria

De quartzo, litania de estios, lençol

Branco engomado após quarar ao sol.

Longe é sempre perto, essa imagem

Da terra perdida por decapagem.

Terra como nenhuma outra paisagem

paradoxo, do verde para zincagem.

Nos esguios quintais da cidade fria,

Sob ciranda há baldrame, aboio, elegia;

E a saudade, asa de dor do pensamento,

Faz-se branca quando é negra e o contrário,

Tomando à cruviana, à asa do vento,

Ao verbo assolado de memento seu salário.



[Fortaleza, 21.07.09]





Nota – nenhum povo do Brasil foi tão educado – quase sempre de modo duro, áspero, arbitrário – a reter a paisagem como instância moral. A trocar fichas com ela. A barganhar um senso de paisagem. A portá-la consigo onde quer que esteja. A remontá-la em ausência, como um quebra-cabeças, cuja edição convoca memória e nostalgia. Uma eloquência e uma retórica ao mesmo tempo. Forma/conteúdo. Alusão bíblica. Lamentação de Jeremias. Exílio. Babilônia. Convergência estética. Nomeação adâmica. Aquela frase de Benjamin: “só em nome dos que não têm esperança, a esperança nos é concedida”. E para ter esperança é preciso ter paisagem, descortinar um horizonte no qual há uma opção mais que um imperativo. Basta ver como da paisagem do Nordeste se fazem as símiles e metáforas em poetas como Cardozo ou Cabral. Em Cardozo, a mais litorânea [e mais metáfora]. Em Cabral, a mais agreste [e mais símile]. Basta lembrar de como Ricardo Ramos, do alto do Corcovado, descortinando toda as montanhas, o mar, a baía, ao louvar a compósita beleza do Rio, ouviu do pai: “É até bonito. Agora, bonito, bonito mesmo é o sertão das Alagoas”. Basta ver como o sertão está no título das obras maiores de Euclides e Rosa – os dois pilares base da prosa brasileira no sec. XX. [Será acaso que o primeiro jagunço nomeado, no Grande Sertão, por seu valor de lealdade e bravura, é 'Alaripe', um cearense, que, de resto, refere, em velada homenagem, Tristão de Araripe - um dos primeiros críticos mais sistemáticos da literatura no Brasil?]. Tudo isso para não falar em nomes como Odorico Mendes (que é um dos maiores tradutores da língua portuguesa), Kilquerry, José Albano, Augusto dos Anjos, Freyre, Cascudo, Bandeira, Jorge de Lima, Mário Faustino, Mello Mourão e até Clarice Lispector. Sem o Nordeste, a literatura brasileira do sec. XX seria um zero à esquerda. Não haveria, por exemplo concretismo – que deriva, como sabemos, em seu vetor mais lúcido [isto é, via Augusto Luís Browne de Campos], de Cabral. E toda essa aversão e pejorativismo em torno dos ditos regionalistas de 30 carece de ser revista, porque não passa de um mau clichê crítico que agarra-se ao pensamento do leitor mediano como cracas e ostras ao casco de um barco. [E ainda chega a ser nutrido por um espírito enfatuado, superficial, jogo-de-mídia, como Diogo Mainardi]. Talvez porque, para não falar de Graciliano, não se leia mais um romancista como Lins do Rego – que guarda sutilezas estilísticas à Faulkner ou à Flannery O'Connor. E, além, há os empréstimos do Nordeste á música erudita. Depois de chafurdar o país inteiro - o Sul, por exemplo, de onde quase nada recolheu - é do Nordeste que Villa-Lobos irá extratar temas diretos de canções folclóricas a explorar em suas experiências harmônicas, como "Sertão do Caicó" e tantas outras. Isso para não falar de onde emerge, de fato, o Cinema Novo. Hora de trazer tudo isso de volta para casa, sob novas lentes. E auferir dessas riquezas. Hora de um nóstos crítico-histórico. Hora de se contrapor ao mau-humor e fastio que esses pseudo-cosmopolitas sudestinos entediados, na academia e fora dela, tentam empanar com uma peneira contraposta ao sol [ou para usar uma palavra mais precisa, pinçada do soberbo Infância de Graciliano, uma urupema]. Num quadro para fotos e suvenires no alojamento que ocupei em Tocil Flats, na Universidade de Warwick, no início dos anos 90, os únicos versos afixados eram os desta estanza do Cardozo de “Imagens do Nordeste”:


A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.



Já esse aposto de saudade, “asa de dor do pensamento”, vem de um soneto do poeta simbolista piauiense [Antônio Francisco] da Costa e Silva, que, curiosamente, é também autor da letra do hino do Piauí.



* * *

sábado, 18 de julho de 2009

Chaveiro de gatinho e festival de culinária tapeba


[s/i/c]




Seis textos impossíveis de viver sem eles para o resto da vida n'O Povo e no DN de hoje tomados a partir de suas manchetes



1. Chaveiro de gatinho
“Hoje o Buchicho ensina você a fazer um chaveirinho de feltro em forma de gatinho”.
[Eu passo. Embora reconheça que haja coisas bem mais inúteis no jornal de hoje. E até aprecie essa linguagem malemolente, cheia de diminutivos. Mas reconheço que como artesão não conseguiria confeccionar um chaveiro de feltro no formato de um felino.]

2. Índios tapeba realizam Festival de Culinária
“Bolo de carimã, aluá, patchã, mocororó e outras comidas indígenas podem ser degustadas no Festival de Culinária que termina hoje em Caucaia, no Centro de Produção Cultural Tapeba”.
[Ué? Bolo de carimã? Aluá? Que eu saiba isso é preparado e degustado em todo o Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e numa fronteira cultural que vai bater no Norte de Minas. E por negros, brancos, pardos, albinos, mulatos, ruivos, morenos e cafusos. Até no Canadá, hoje, onde já há uma expressiva colônia cearense, se prepara aluá e pé-de-moleque [o tal bolo de carimã] durante as festas juninas. Se duvidar, de melhor qualidade e mais próximo dos processos de fabrico originais que no Centro de Produção Cultural Tapeba (sic).]

3. Aprovação de lei não inibe fumo na AL
“A lei antifumo, aprovada na última quarta-feira, ainda não é praticada por funcionários nem deputados na Casa”.
[Bem, com ou sem essa observação à lei anti-fumo, quem leva fumo - no Ceará e em outros estados da federação - nunca está nas Assembleias Legislativas. E quem descumpre leis e não é penalizado por isso tampouco.]

4. Formas de amor
“Versejar exige preparo interior. Forma de dizer dentro dos limites da harmonia. Elegância estilística. Rimas. Encanto no canto da simetria. Cadência rítmica em frases longas ou breves. […] Elegância. Nenhuma quebra de princípios. Ousadia. Imaginário no real equilíbrio dos desejos vivos”.
[Vejamos: que se resenhem livros não há nenhum problema – mesmo que a vasta maioria das resenhas não diga lá muita coisa, como o trecho desta, em destaque. Agora, que um livro de poesia com o título de Formas de Amor - Luxúria seja resenhado na seção de Opinião de um jornal que conta com um caderno de variedades [Caderno 3], soa até engraçado, um pouco surreal. Ao menos, confirmando a regra, a resenha, a exemplo de suas congêneres nos cadernos b's, não parece revelar ou elucidar muito acerca da obra em questão, como se pode perceber pelo festival de generalidades entre uma e outra aspa. Mas ao menos traz este oximoro: “nenhuma quebra de princípios. Ousadia...”].


5. Madonna presta tributo a mortos em acidente
“Durante o show que fez na Itália na última quinta-feira, a cantora Madonna prestou uma homenagem aos dois operários mortos durante a montagem do palco para um show que ela faria em Marselha, na França. No show que fez em Udine, Madonna chorou e disse que estava 'arrasada por estar, de alguma forma, associada com o sofrimento de alguém' ".
[Tss, tss. Madonna está associada ao sofrimento de muito mais gente do que ela imagina. Ao meu, por exemplo. Toda vez que tive e tenho de ouvir suas horrendas músicas, sem querer, em halls de hotéis, malls de shopping, barracas de praia, sons ambientes de lojas e até bienais do livro. Já aconteceu, certa feita, de ouvir Madonna na feira de Cascavel. Se vivêssemos num mundo minimamente justo eu poderia processá-la por poluição auditiva. A ela, aos Aviões do Forró e a uma pá de gente por aí].

6. Senado doa livros para as bibliotecas cearenses
[Que pena! O Senado doa livros às bibliotecas da UFC e da Associação dos Cegos do Estado do Ceará [Aece]. No dia em que as bibliotecas cearenses doarem livros à Biblioteca do Senado, a boa ordem das coisas estará restituída.]




* * *

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O que nos sobreviverá é amor: Larkin


[s/i/c]



An Arundel Tomb



Side by side, their faces blurred,

The earl and countess lie in stone,

Their proper habits vaguely shown

As jointed armour, stiffened pleat,

And that faint hint of the absurd —

The little dogs under their feet.



Such plainness of the pre-baroque

Hardly involves the eye, until

It meets his left-hand gauntlet, still

Clasped empty in the other; and

One sees, with a sharp tender shock,

His hand withdrawn, holding her hand.



They would not think to lie so long.

Such faithfulness in effigy

Was just a detail friends would see:

A sculptor’s sweet commissioned grace

Thrown off in helping to prolong

The Latin names around the base.



They would not guess how early in

Their supine stationary voyage

The air would change to soundless damage,

Turn the old tenantry away;

How soon succeeding eyes begin

To look, not read. Rigidly they



Persisted, linked, through lengths and breadths

Of time. Snow fell, undated. Light

Each summer thronged the glass. A bright

Litter of birdcalls strewed the same

Bone-riddled ground. And up the paths

The endless altered people came,



Washing at their identity.

Now, helpless in the hollow of

An unarmorial age, a trough

Of smoke in slow suspended skeins

Above their scrap of history,

Only an attitude remains:



Time has transfigured them into

Untruth. The stone fidelity

They hardly meant has come to be

Their final blazon, and to prove

Our almost-instinct almost true:

What will survive of us is love.



Philip Larkin





Uma Tumba em Arundel



Lado a lado, os rostos borrados,

Conde e condessa na pedra jazem,

Seus hábitos vagamente mantém-

Se presos à armadura, vinco em hiato,

E esse vestígio débil e disparatado–

Os pequenos cães sob os sapatos.



Tal austeridade do pré-barroco

Quase não envolve o olho, e finda

Por ir à magra mão esquerda dele, ainda

Pousada oca na outra; e a gente ao vê-la,

Com agudo choque de terno floco,

Essa mão afastada, segurando a dela.



Eles não cogitariam tanto tempo deitar.

Essa fidelidade em efigiem

É só um detalhe que amigos veriam na origem:

A graça gentil de um escultor sem estase

Lançado-se à tarefa de prolongar

Os nomes em latim em torno da base.



Ambos não adivinhariam quão cedo

Em sua supina viagem estacionária

O ar mudar-se-ia em muda avaria,

Afastando para bem longe a criadagem;

Quão cedo espertos olhos optariam em degredo

De ler, ver. E rijos nessa hospedagem



persistem, atados, ao longo de lapsos e vãos

De tempo. Nevascas, sem data. A luz

A cada verão enchendo a taça. Chus

Nem bus de cantos de aves acesos juncaram

Aquele mesmo coalho de ossos no chão

E, acima, nas trilhas, a incessável gente então



Veio, banhar-se na identidade deles.

Agora desamparada no oco de uma era

Não armorial, uma gamela

de fumo ascende, lenta trajetória

lassamente por duas meadas, sobre eles,

e só um ato permanece em sua migalha de história:



O tempo desfigurou-os em inverdade,

A fidelidade da pedra a dizer

O que mal suspeitavam e veio a ser

Seu brasão final, a contrapropor

Nossa quase-instintiva quase verdade:

O que nos sobreviverá é amor.





Nota- no rigoroso inverno de 1991, quando visitei a Catedral de Arundel, uma pequena cidade medieval, em West Sussex, no sul da Inglaterra, não pude deixar de lembrar deste memorável poema de Larkin, que é o fecho de seu livro The Whitsun Weddings [As Bodas de Pentecostes, 1964]. O poema parece vir preparando tudo até a grandeza insuspeitada do dístico final. Há tanta completude nele! Em especial, boa retórica na descrição e senso de história e pertença. Uma espécie de ut pictura poesis levada ao último grau. Há inclusive poesia. Essa arte que se nega por anti-poesias e teorias outras nas pós-graduações de hoje em dia. E, claro, deu um suadeira extra para traduzir. A imagem do túmulo dos condes de Arundel é, de fato, impressionante. Em especial o modo – aliás, destacado no poema – como a mão do conde distende-se, em largo, para segurar a da condessa, que parece pousar sobre a dele.



* * *


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Talhada para o conforto dos últimos a sair: Larkin


Damien Hirst, Home Sweet Home, 1996



Home is so Sad


Home is so sad. It stays as it was left,

Shaped to the comfort of the last to go

As if to win them back. Instead, bereft

Of anyone to please, it withers so,

Having no heart to put aside the theft


And turn again to what it started as,

A joyous shot at how things ought to be,

Long fallen wide. You can see how it was:

Look at the pictures and the cutlery.

The music in the piano stool. That vase.


Philip Larkin



A casa é tão triste


A casa é tão triste. Foi largada como existe,

Talhada para o conforto dos últimos a sair

Como se para reavê-los. Ao invés, um chiste

quanto a agradar a outros, segue a defluir,

sem coração a escantear além do que resiste


ao furto e então retorna a seu sarro,

cromo feliz do que coisas devem ser,

há muito espatifadas. Pode-se ver seu pigarro

de antes: na cutelaria, nas fotos a pender.

Na música ao banco do piano. Nesse jarro.



* * *


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Conversas, vexações: um conto


Eileen Gray, 1927


AMOR?



para J.C.M.,

que me ensinou o que há de mais essencial em outra língua: xingamentos, palavrões e gírias para as partes do corpo que recebem mais cifras que um dicionário de acordes.



E chegar à foz do rio que meandra a cidade. Na esplanada da areia, duas cadeiras, mesa de pau-a-pique. Chuva cessa. Sol rompe. Esplêndido. Mineral. Como só no Nordeste. Dunas a perder de vista e água entre elas. Relíquia de chuvas passadas. Lagoas tão translúcidas que quase se pode ignorar essa lente úmida até o fundo. Mar bate com força nos contrafortes negros. Pulsa nos corpos. Casas brancas, de telhados rubro-pálidos, lado de lá do rio. Paisagem absorvida por poros.

Ela não trouxera cigarros. Espalha protetor solar na pele de uma overdose dourada. Braços mais macios que fina pátina papel-de-arroz, confeitos de chegadinho. Olho mais belo que espelho d'água da Lagoa da Tiaia. Seu porte. Sexo mais talho que um meridiano dividindo globo. Entumescido sob o azul do biquíni. Tão indispensável. Belo arco, para se entrar por entre.

Fala muito de Salvador: Praia da Barra, Farol, planura da vida – selvageria de álcool, maconha, pó, e um apartamento – estadia de trezentos dólares incluindo usual suprimento de dope. Tudo se resume a cifras. Estatística. Valor. A necessidade de se tragar a vida em ritmos de hedonismo.

Fala um português quase correto, ora. Porém uma preposição ou outra ainda sai do lugar. Prosseguimos andando. Caminhar para o ermo, bom método de conversa quando se tem o que assuntar com uma mulher. Com uma que se quer doidamente.

Tomo sua mão de leve, velada porcelana. Mas não como posse. Se ela não fala, em silêncio seguimos, porque todas as palavras murcham diante do que realmente precisa ser dito. Melhor, revelado. E, então, ela não compõe apenas aquela fala que se diz para não ficar mudo. Porque há momentos em que palavras são palha. No percurso, um siri amarelo-cardo espalha um rastro sutilíssimo sobre a areia úmida. Move-se. Declara vida. A que seria de minha filha. De meu filho?

Vez por outra ela abaixa para coletar conchas. E, nesse afã, dá com carcaça ocre de um minúsculo lagostim, estrias semelhando acabamento sunburst. Como tudo nela é voluta e curva. Perfeição fusa, que aponta para espiral. Que pode atingir diferentes pontos cardeais em geologia longa, a partir de onde é, como na Rotunda do Museu Ferroviário de São João d'El-Rei. A começar pelas maçãs do rosto. A prosseguir para ombros, seios, ancas. Perfeição das jarreteiras, onde a marca de sol se aplaca.

No que ela curva-se para apanhar uma concha radiada e quebradiça, nossos rostos tão rentes. Agacho-me também, no mesmo esforço: involuntária recorrência. Ou voluntária. Sei lá. Ao alcance de um beijo, fixo seus olhos densamente. Não são os que conheço. E são. Mas não passarão à minha filha. A meu filho? Embora permaneçam duplamente para mim. Em parataxe. E ainda hoje. O universo de areia, palha, madeira, espuma e água cercando-nos. Meio-dia lacerando pele como navalha. O corpo sobre o corpo tece elásticos e espasmo. Enfiar-se dentro da outra. Um universo repleto de esferas, bolas, bulbos, rodelas, círculos, fusas. Os pelos do púbis. A solvente umidade. Volutas.

O que a fisicalidade ensina quando tudo a ela se resume? Quem sabe? Depois de tudo, aquela sensação suave. De torpor. De marulho amplificado. O tom de voz, de confidência, levemente ampliado. E sentir-sem como um galo triste. Ou um cortesão farto. Faz parte.

Lá seguem conversas, vexações: decepção; projetos de estudos; depressão; antidistônicos prescritos por estúpidos terapeutas. E sobretudo o tal aborto. É de rasar os olhos. Passar a vau a imundície dos anos. O tanto que seguimos enxovalhados e sórdidos mesmo que juventude e beleza nos torneie os corpos.

Às nossas costas, esqueleto de uma pequena jangada, piso arrebentado, recheio de isopor à mostra. A propor mínimas sombras.

Voltar em maior silêncio que ir. Voltar de onde juntos sobre areia áspera, vento açoitava pele. Tudo sabe a fim sobre a mesa rústica. A descontrole sobre fado. Ela a todo instante soerguendo o sutiã azul do biquíni. Penélope e Circe a coincidir. Mas não o suficiente. E meu rancor.

Sentamos de novo à mesa. Copos de cerveja. Caranguejos, pirão com tempero verde. Insipidez. Flor invertida. Quem pode sentir o gosto daquela comida?

Mais tarde, na baixa-mar, mais passos, orla de mangues. Passos na areia fina que extrai assovio sob palmas de pés. Assovios que não estarão sob os pés de minha filha. De meu filho? Há silêncio agora. Quase de claustro. Mas não há sabedoria. Somos só o que sabemos. Ouro. É muito pouco. Nada. Sem estrela guia, revelação, estrada, estação de água nos olhos. Incenso. Entanto nossa missão é perdê-los? A correnteza dribla o recife. E uma coleção de suspiros. Mirra.

E nesse meio dia turbilhão há profusa luz sem luz. Há denso azul sem azul. Não mais constelações, ideias. Silêncio. Duro hiato. De sílex. De uma menina que sentiria tudo isso. De um garoto que talvez acendesse um sorriso diante dessa lavandeira que entrecorre a passos miúdos de cá para lá à beira da gamboa.

Não se deve censurar o mar a meio caminho de um beijo. Mas ninguém virá depois. Seus cabelos modulam ao sopro da viração. A frialdade da cruviana assentou-se na pele dela. Amor. Existe?

O gavião do mangue volteia majestoso uma presa entre raízes.

Você já foi a Bahia?”, ela cantarola baixinho. Contínuo. Contínuo. E baralha os tons.




appendix: UMA ESTROFE DE SÃO JOÃO DA CRUZ



Ah, cristalina fonte,

se nesses teus semblantes prateados

formasses de repente

os olhos desejados

que trago nas entranhas esboçados.







Nota – uma variante deste conto, que é de 1993, saiu publicada originalmente na revista Afinidades Eletivas, editada por Alexandre Barbalho intermitentemente ao longo dos anos 90. Afinidades Eletivas era, de início, um panfleto quase artesanal, e que dava vazão à produção de escritores de Fortaleza no começo mesmo de suas carreiras: Carlos Augusto Lima, Lira Neto, Paulo Fraga, Alexandre Rocha, Manoel Ricardo de Lima, Willis Santiago Guerra, Alexandre Barbalho, Jorge Piero, Alexandre Veras, Valdo Aderaldo, entre outros. Além de contar, em sua composição gráfica, com amostras do trabalho de artistas plásticos como Aléxia Brasil, Barrinha, Eduardo Frota, Cardoso, Kazani, além de fotos de gente como Tiago Santana, Celso Oliveira e Solón Ribeiro. Curiosamente, Amor?, essa história de um amante ressentido por um aborto unilateral da parceira, saiu impresso em dois diferentes números da revista. O conto integra O Bumerangue e outras histórias, escrito entre 1993-96, um volume de relatos da juventude, apenas alusivamente auto-biográficos, que nunca parei para dar uma tratamento definitivo.



* * *