sexta-feira, 10 de junho de 2011

And While Lennon Read a Book of Marx

[s/i/c]


Com alguma pressa e espuma no vidro da caneca: a mais longa letra de rock'n'roll do planeta 


Em “American Pie”, canção que nomeia o álbum homônimo de Don Mclean, lançado em 1971, encontra-se a mais longa letra de rock'n'roll do planeta. Ou pelo menos a mais longa letra que “funcionou”: o tema ficou quatro semanas em primeiro lugar nas charts americanas. A canção, girando em torno da morte de Buddy Holly e outros dois músicos, que se deu num desastre de avião, em 1959  o episódio ficou conhecido como "The Day the Music Died"  estende-se por longos oito minutos e trinta e três segundos. Tem 112 versos. Faz referência a mais de trinta artistas, canções de rock ou ícones dos anos 60. Ortodoxamente, seria uma canção folk. Começa e termina em andamento lento, apenas com acordes ao piano, salpicados aqui e lá. E depois o violão puxa o andamento. E então há um bocado de suingue no miolo – mais do que suficiente para se dançar. E há também a colaboração de ases, como o guitarrista David Spinozza, que tocou em discos solos de Lennon e McCartney, não menos. Linhas de baixo no ponto, fazendo as vezes da mão esquerda no piano – um pouquinho opacas, sem eco, o que as torna muito charmosas – e um piano que pulsa como um coração cheio de contentamento selvagem e generosa adolescência. Segue sob o feitiço de Paul Griffin, um experiente músico de estúdio, o mesmo a mover teclas do arranjo para piano de "Rain Drops Keep Falling on My Head". Em nenhum outra época a sonoridade dos pianos era tão agradável, redonda, recheada ao gosto do freguês e dos microfones de estúdio como então. E o fato de "American Pie" provir dessa metade inicial da década de 70, bate bem rente com o tempo em que eu estava começando a afinar o ouvido para esse gênero de música. Eu ainda não tinha dez anos. Há algo de mágico na sonoridade dessa época. Algo que, inclusive, foi perdido nos primeiros CD's, ainda não devidamente remasterizados, no início dos 90. Algo presente em álbuns como os dois primeiros de George Harrison: All Things Must Pass e Living in the Material World – este último possivelmente o melhor álbum solo lançado por um ex-Beatle, cabeça a cabeça com o Plastic Ono Band, de Lennon – é de cinco e meia para seis horas da tarde: azul de melancolia. Mas a sonoridade desses pianos encorpados se ouve em muitos outros ícones de então: Derek and the Dominos; Pink Floyd; Led Zeppelin; Duane Allman; The Band; Joni Mitchell; Emerson, Lake and Palmer; Genesis; Crosby, Stills & Nash; Carpenters; Traffic e tantos outros. De resto, Don Mclean jamais comporia outro tema tão longo. Nem tão interessante. “American Pie” pode ser ouvida aqui: 


E apure sobretudo os ouvidos para os opulentos sons do baixo [Bob Rothstein] e do piano [Paul Griffin]. É um dos timbres de piano mais bonitos registrado em disco. A sonoridade lembra gotas de chuva caindo numa pequena cisterna ou num barril. Ou um trago de cerveja sendo posto com alguma pressa e espuma no vidro da caneca.


* * * 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

¿O no le salen canas?

Jake Chapman e Dinos Chapman, Sem-título do Portfólio Exquisite Corpse, 2000


Um abraço para Bolaño

Toma-se um livro de Roberto Bolaño para ler. O livro é horrivelmente feio. Tem a capa de um vermelho berrante. E nela cerca de metade é aberta para uma foto. Na foto em preto e branco se vê um velho gaúcho de barbas brancas, o pampa sem fim estendendo-se por trás dele. E próximo a ele, um pouco como se o farejasse, vemos um coelho nitidamente aplicado – a exemplo do velho – sobre a infinita linha de horizonte do pampa, quebrada apenas por uma espécie de cânion. Acima disso há o título do livro, El Gaucho Insufrible, postado em tipos pequenos uns dois centímetros abaixo do nome do autor, que rende três vezes mais. Arrematando tudo, abaixo da foto vem o nome da editora e a série: Anagrama/ Colección Compactos. É isso, trata-se de um livro originalmente publicado em Barcelona, outubro de 2003. E houve quatro reimpressões depois disso. As duas últimas em 2010.
São contos.
O primeiro lê-se com certa desconfiança. Parece deliberadamente vago ou experimental ou inconclusivo. Ou de algum modo sugere certo sabor de que nada acontece. De alguma pasmaceira pós-moderna: no plano da forma e no que segue contado. Parece com o quê? Com um conto escrito por excelência por qualquer conhecido seu em qualquer ponto do planeta que se assumiu de fato como um escritor professional. E daí atira-se àquela patifaria sem volta de encontros, seminários, feiras-do-livro, etc. O que lhe chega geralmente numa revista, numa antologia, ou mesmo por e-mail. Por que Bolaño dá a precedência do livro a esse conto é difícil supor.
Talvez porque o segundo, que dá título ao livro, é uma granada estilhaçando cem mil lugares-comuns. É o inverso do hermetismo pseudo-sofisticado do primeiro. É um conto que não quer restar como nada “sofisticado”. Longe disso. Há um  oximoro aqui porque esse segundo, "El Gaucho Insufrible", compõe uma devastadora síntese da América Latina tomada a partir de um ponto de vista da Argentina no início dos 2000¹. E é tão impiedosamente sardônico, caricato, que o retrato esboçado tira risos pelo excesso de Apocalipse. Um advogado bem sucedido, ex-juiz, retrocede à figura do gaúcho. Os pampas seguem infestados por coelhos que aparentemente são a única fonte de alimento durante uma acachapante crise econômica que abate-se sobre a Argentina como uma praga. Depois de algumas peripécias, Pereda, o ex-juiz, muda-se para sua estância.  Para observar que àquele bando de gaúchos – completamente ineptos e de mãos cegas para qualquer ofício – incialmente, só dois assuntos interessam, e com igual desvelo: a crise econômica e o futebol.
Depois, passado a erupção da crise, fica apenas o futebol. Eles próprios foram (ou são filhos de) antigos barra bravas, que não hesitavam em abandonar a casa, a mulher, os filhos, para seguir com psicótica devoção o clube do coração pelos rincões mais remotos da Argentina.
E, no entanto, se há uma lista de livros em que você se pega a bolar de rir com o inusitado do humor, a indizível fome de contundência, El Gaucho Insufrible há de estar nela:

La mujer no hablaba mucho pero sin duda trabajaba más que los seis gauchos que para entonces Pereda tenía en nomina, lo cual es un decir, pues a menudo se pasaba meses sin pagarles. De hecho, algunos de los gauchos tenían una noción del tiempo, por llamarla así, distinta de la normal. El mes podía tener cuarenta días sin que eso los causase dolor de cabeza. Los años cuatrocientos cuarenta días. En realidad, ninguno de ellos, incluido Pereda, procuraba pensar en ese tema. Había gauchos que hablaban al calor de la lumbre de electroshocks y otros que hablaban como comentaristas deportivos expertos, sólo que los partidos de fútbol que mentaban habían sucedido mucho tiempo atrás, cuando ellos tenían veinte años o treinta y pertenencían a alguna barra brava. La puta que los parió, pensaba Peneda con ternura, una ternura varonil, eso sí.

E o dente na veia prossegue pelos contos seguintes. Especialmente “Dois Cuentos Católicos”, “Literatura + Enfermedad= Enfermedad” até chegar a uma espécie de inferno definitvo em “Los Mitos de Cthulhu” -- que é um dos dois ensaios breves que que fecham o livro com inusual contundência.
Neste último, num tom exaltadíssimo, Bolaño não poupa ninguém nem abre grande margem para compromissos. Traça um diagrama boschiano da literatura em língua espanhola. E um diagrama interessante, apocalíptico. Perfeitamente maldito. Que não se iria escutar nunca na voz de escritores que são verdadeiros establishments ambulantes, como Octavio Paz, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. E por outro lado, como aponta Bolaño nesses ensaios delirantes, escritores dessa envergadura institucional, gastam tanto tempo construindo a própria respeitabilidade que, no fundo, perdem qualquer possibilidade de contundência. Eis porque, entre outras e ao lado deles, Bolaño soa como nitroglicerina pura. Uma máquina de moer carne literária que faz picadinho de gente como Sánchez Dragó, Ana Rosa Quintana, Isabel Allende. (Em uma de suas últimas entrevistas há um visível mal-estar quando ele lembra que Paulo Coelho está na Academia Brasileira).
As páginas pingam ressentimento, dor, revolta, uma compreensível fúria, aplacados um tanto pela voltagem de humor página após página:

Ana Rosa Quintana, una presentadora de televisión simpatiquísima, es quien escribe el mejor libro sobre la mujer maltratada de nuestros días. Sánchez Dragó es quien escribe los mejores libros de viajes. Me encanta Sánchez Dragó. No se le notan los años. ¿ Se teñirá el pelo con henna o con un tinte común y corriente de peluquería? ¿ O no le salen canas? ¿Y si no le salen canas, por qué no se queda calvo, que es lo que suele pasarles a aquellos que conservan su viejo color de pelo?

Ou então:

Latinoamérica fue el manicomio de Europa así como Estados Unidos fue su fábrica. La fábrica está ahora en poder de los capatazes e locos huidos son su mano de obra. El manicómio, desde hace mas de sesenta años, se está quemando en su propio aceite, en su propia grasa.

É claro que o que mais ressalta nesse diagrama é a aspereza de Bolaño diante da inércia do establishment literário ou acadêmico. Nesse sentido ele é bem-vindo em qualquer tempo. Mesmo numa circunstância em que os Estados Unidos encontram-se em relativa decadência assim como a situação europeia bem menos confortável que a euforia unificacionista de só alguns anos atrás. E em parte por que? Porque o futuro – quando houver, se houver – parece haver revoado para a China e, em menor escala, para outras economias emergentes – e isso inclui países da própria América Latina (este conceito lábil, em que os brasileiros volta e meia se incluem, volta e meia não; volta e meia são incluídos; volta e meia, não). E, no entanto o excesso de carnaval, de barroco, de deformação, e de uma violenta alegria é tão contagiante neste país, que há uma unanimidade que, dentro em breve, seremos uma superpotência real, por méritos próprios, ainda que uns poucos venham questionando mais e mais os métodos de “inclusão” social do governo e, em especial, a habilidade para manipular a máquina de propaganda – sobretudo a partir do segundo mandato Lula. Parece haver no Brasil uma total incapacidade de articulação ou uma progressiva perda de espaço de articulação para uma oposição efetiva e respeitável. Isso é já perigoso – ainda que as regras do jogo político pareçam mais consolidadas que em alguns outros países do subcontinente: Venezuela, Equador, Bolívia, Peru e até mesmo Argentina e Colômbia. Ainda assim, há como que uma reserva de mercado na burocracia estatal, nos quadros acadêmicos que assoma como prerrogativa ou monopólio do PT. E isso tende a crescer.
Mudando de alhos para bugalhos, o diagnóstico de Bolaño – como entre nós há talvez no passado recente somente o da figura solitária e igualmente auto-disruptiva de Paulo Leminski – compele ao menos a refletir um pouco para fora da assepsia dos padrões. Inclusive televisivos. Ele tem um laivo dessa sacrossanta ira que é também a do norte-americano David Foster Wallace, por ilustração. Um pouco desses cachorros doidos cujo latido é, volta e meia, pleno de premonições ou sugestões que passam muito ao largo de soluções excessivamente instituídas, sedadas, necrosadas, entorpecentes. Como Foster Wallace e Paulo Leminski, há na prosa de Bolaño a verve de uma experiência alternante, que sinaliza para o desvio de práticas constituídas: a bolsa de estudos, a cátedra acadêmica, o ensaios soporíferos e inócuos produzidos em série nos departamentos universitários, a academia de letras, a supervalorização das novas mídias e do ambiente televisivo e digital. De suas observações pingam uma sorte de sinceridade da qual é perto de impossível abster-se. A literatura, na prosa de Bolaño, não é algo que fala de fora para dentro da vida. Ou tem aquela horrenda encheção de linguiça, tão à francesa, do intelectual hierático que assina manifestos e pronuncia-se sobre quase qualquer assunto. Bolaño não deixaria pedra sobre pedra, por exemplo, de gente como Bernard-Hénri Lévy. Ou qualquer desses intelectuais arroz-de-festa. A gozação que faz de conceitos como “pensamento débil” ou o sarro que tira em cima de nomes constituídos e apoiando diagnoses infames, é de se tirar o chapéu. Para no fim, ele dizer, parodiando o próprio Borges que:

Si pudiéramos crucificar a Borges, lo crucificaríamos. Somos los asesinos tímidos, los asesinos prudentes. Creemos que nuestro cerebro es un mausoleo de mármol, cuando en realidad es una casa hecha con cartones, una chabola perdida entre un descampado y un crepúsculo interminable. (Quien dice, por otra parte, que no hayamos crucificado a Borges. Lo dice Borges, que murió en Ginebra.) Sigamos pues, los dictados de Gracia Márquez y leamos Alejandro Dumas. Hagámosle caso a Pérez Dragó o a Gracia Conte y leamos Pérez-Reverte. En el folletón está la salvación del lector (y de paso de la industria editorial). Quien nos lo iba decir. Mucho presumir de Proust, mucho estudiar las páginas de Joyce que cuelgan de un alambre, y la respuesta estaba en el folletón. Pero somos malos para la cama y probablemente volveremos a meter la pata. Todo lleva a pensar que esto no tiene salida.

Roberto Bolaño morreu em Barcelona oito anos atrás. O volume de contos El Gaucho Insufrible é seu primeiro livro póstumo publicado. Outros se seguiram desde então. Inclusive o romance 2666.

________
¹E vai nisso o agravante de Bolaño ser chileno.


*   *   *

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brotar, e logo ser apagado

Louise Bourgeois, Two hands with wishbone in circle, 2000



Às vezes, quando por uma fresta no tempo¹

Às vezes, quando por uma fresta no tempo mirava as anotações dela, percebia o impulso de ir contra a corrente brotar, e logo ser apagado. Como se apaga fogo ou lembrança. Como se apaga fio de água que quer virar rio. E então tudo voltava à fiança, ao banho-maria dos dias em que ela parecia dizer que não dar tanta importância a um ponto-de-vista dependia do acúmulo de aprovação ou não que esse ponto-de-vista angariasse.



'Este tipo de letra, recentemente adotado, chama-se Myriad Web Pro Condensed, estranhamente não registra os acentos para certas letras em caixa-alta. Então considere que há uma crase no A inicial.


* * *

Não comporta perfuração

Eran Riklis, Lemon Tree [Limoeiro], 2008

Para dizer de um filme

Faz sentido quando dizem que um escritor não pode ter mais de um assunto. Em geral, quando falam de Oz, dizem que esse assunto é a traição. Talvez seja mais proveitoso pensar que, do contrário, se trata da lealdade o que está em jogo.
Pelo processo histórico que resultou na formação do Estado de Israel faz todo sentido que seja assim. Há aliás um filme israelense que lembra um tanto a ambiência dos livros de Oz. Porém expressa ainda mais abertura em direção ao mundo dos árabes. Chama-se, em hebraico, [עץ לימון ] - Etz Limon (em inglês,  Lemon Tree, 2008). Dirigido por Eran Riklis, conta no papel principal com uma atriz palestina de meia-idade e uma beleza a toda prova: Hiam Abass. O que essa mulher não cortar com o olhar é porque não comporta perfuração.
O filme trata do embate judicial de uma viúva palestina para manter uma plantação de limões junto a uma zona que ganha prioridade de segurança devido à nomeação de uma alto funcionário que mora na vizinhança para ministro da defesa. Nesse ínterim, a vida da palestina é posta em um estranho paralelo com a da mulher do ministro. 
O filme é de uma extraordinária humanidade.


* * *

terça-feira, 7 de junho de 2011

Que o tempo (não) lhe seja breve


Praia de Não Vou Dizer, 2009

#Partiu

tss, ah, o olho:
o olho só pode cravar
os dentes sem dó nem pena

naquilo que já
saiu de cena



* * *

Tão vasta no mapa que se confunde com ele

[s/i/c]

Serra das Confusões¹: duas opções de olho e uma mesma perda


Mesmo que pareça (note!) um desastre
Elizabeth Bishop

O olho. Há duas opções pare ele no caso. Ou estar a sair da luz que faz em Fortaleza, onze da manhã; e a entrar na treva de um dessas vilas pesqueiras, tipo Praia Nova, perto de Barra dos Remédios, à meia-noite de uma lua nova. (Uma treva furada apenas pelos latidos dos cachorros na esteira da madrugada). Ou o contrário disso.


Não deixa de ser uma imagem para como a gente enxerga em geral. No atacado, no saldão mesmo. Mesmo porque nunca que a gente enxerga no varejo. 


E então há os que alguma vez experimentaram uma grande perda. Vasta como o Jalapão. Tão plena de luz e dunas, espelhos d'água e serras de quartzo, que tudo cega à volta. Serra das Confusões. Tão vasta no mapa que se funde com ele. Converte-se no mapa mesmo. E a rotina da felicidade – a verdadeira, a selvagem, a que mora como um jaguar na menina dos olhos – parece tão amortecida. E não passa mesmo de um pequeno istmo sem nome ou latitude. Onde ninguém vai. Ou para lá há pacotes turísticos nas férias da consciência. Não conta na geografia das semanas. Assim que nem a menor sombra dessa perda nos assombra. Feito sofrêssemos de uma variedade de Alzheimer. E ao passarmos pelos aposentos mais recônditos da alma - os porões, os sótãos - ainda que tropeçássemos nessa perda, dela não daríamos conta. O preço de preservar-se de sofrer fala mais alto. E há a necessidade de manter a qualidade de vida e ansiolíticos para graus diversos. Os usuais paliativos possíveis ao alcance da mão. Sempre dispostos a entregar um pouco de módico prazer. Do tipo necessário à garantia da invisibilidade de qualquer vestígio. Feito aqueles contratos de telefonia móvel, onde há em anexo cláusulas vitais em letras formigais. Impossível ver sinais dessa perda ao redor: no fone de ouvidos sobre a mesa, na casca de banana, na marca d'água dos selos, nas teclas que se pressiona quase em piloto automático, na página do livro deixada para trás com uma anotação de próprio punho onde foi escrito em código, de trás para diante, as fórmulas da lembrança, da superação, da felicidade.

E uma vida vai. O olho inda não clica.

¹Fica no Piauí. Fui até lá em abril passado. Na primeira viagem que fiz de motocicleta. E, como sempre, nos últimos tempos não levei uma câmera comigo. Para não manchar a imagem que formaria dela. Depois.

* * *

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando enfim as trombetas soaram

Anita Ekberg em cena de La Dolce Vita, Federico Fellini, 1960

 A Cor e a Forma
-ou A Caloura


α – Prólogo sobre "tempo real" nos diascorrentes


Estar presente em “tempo real” na vida virtual te faz sentir ligado ao umbigo do mundo. Te faz sentir mais rente à vida real. E, ao mesmo tempo, mais distante dela, porque ameaça te transformar num ícone. Tipo aqueles que você clica no papel parede de tua área de trabalho. As pessoas gostam de dizer: “vejam: eu estive/vou estar ao vivo na TV”. Parece que elas tornam-se de repente mais “pessoas”. Mais reais. Algo nelas realmente importa. Chispa. E elas crescem uns poucos centímetros. Outros, de ego mais inflado, acrescem-se metros e veem o mundo da altura do Colosso de Rodes. Os navios a passar, miniaturizados, ao largo da baía. E tudo, enfim, ao gosto de a fala e os gestos dessas pessoas -- altamente adestradas para se portarem com uma segunda "naturalidade" diante de uma geringonça com um olho mecânico tão estúpido quanto um olho de boi -- invadirem centenas de milhares de recintos ao mesmo tempo. Um poder formidável. Quem não quer para si esse condão? E é fato: esse condão não se dá a todos. Só aos espertos. Falam de carisma. Mas nisso de carisma entra toda a metafísica que estamos tentando fintar se nosso objeto recai sobre Laura Herzog.
Analogamente – e o melhor não seria evitar este advérbio, já que estamos tratando de algo digital? (Ou ao menos de uma jovem mulher tentando gozar na era digital): que tal começarmos de novo o parágrafo, com advérbio mais adequado?
Frisantemente, uma saída no fim de semana e um porre no Órbita Bar embriagam mais se devidamente comunicados em público. A ida à chácara da família ou ao piquenique dos amigos fica mais fibrosa, cheia de vida. Eu diria que fica mais sensual. Daí o sucesso das redes sociais. Até assistir partidas de Roland Garros comendo pipocas; ou blockbusters; ou o futebol das quartas e do fim de semana tomando cerveja pilsen; quando compartilhados no mundo virtual, nutrem essas ninharias de uma importância que antes elas não tinham. Ou melhor: antes, não tinham assim, tão multidimensionadas. Como fossem um advento. O advento de um admirável mundo de micros BBB's, assim se pode dar o pé enquanto a mão é tomada.
Os anunciantes gostam. Os anunciantes gastam. Os consumidores gastam muito mais. Mas muito mais. E derramam lágrimas para certos anúncios. (Se soubessem o grau de crocodilismo que está por trás desses anúncios, rejuntavam suas lágrimas como confetes equívocos, no bolso). E isso no fim é o que importa; que os nutrientes, as preciosas proteínas desse processo se chamem: publicidades. Assim, no plural.
Há quem apenas preze dizer ao mundo que consome um perfume, um copo de frozen yogurt, um romancista israelense, uma banda estadunidense com o nome da capital do Líbano, um cupcake, um filósofo pós-deleuziano, a escolha de um desses termos em moda que logo apodrecem. Como trolar. Ou bullying. E essa soma de "gostos" é meio como você "é": a totalidade que é você "micro-BBBêlizado". É a sua medida. E o mundo virtual é aquele em que você pode passear/ surfar/ navegar/ conectar-se sem sombra, como um vampiro. Porque aquilo que você é não se dá a conhecer apenas pelo que você rói, é certo; mas isso importa pouco para a virtuália. E, logo, nela, cada vez menos há o que se possa constituir em materialidade: uma sombra. 
Como antes, mesmo numa carta havia folhas amarrotadas, um vestígio líquido nas entrelinhas, um borrão. A própria letra de cada um. Daí essa desesperada tentativa de forjar uma assinatura virtual. Para que uns dos outros se distinguam. E a vida seja, em disfarce, um pouco menos essa confraria de zumbis.
Assim, sem mais. 


β – Da mulher em busca de orgasmo


Mesmo quando não queria, Laura Herzog, aos dezoito, era um animal devastador: permanentemente predado e predante. Sua presença sugeria, ao balançar dos cabelos loiros sobre a fartura das formas, certa insinuação Anita Ekberg de ser: um continuado coito, que a tudo punha em acessório, segundo plano, desfoque, fora de campo, coadjuvância. E não adiantava nadinha mudar de pato para ganso. Mudar de canal. Mudar o rumo da prosa. Ou seja, de sua estonteante fisicalidade para a negação dela a partir de uma falso pressuposto: apegar-se a outro assunto, mais esotérico, remoto. Apegar-se a um verso de Drummond ou o que a crítica dissera de Roberto Bolaño na New Yorker, semana passada.
Proceder desse modo era um pouco como ater-se à condição de que qualquer um podia resistir às tentações, como Simão no deserto. Ou apenas masturbar-se, de um ou de outro modo. Ou agir como um terrorista contra as aspirações da comunidade. Ou ainda estar mais defunto que blasé. Ou voltar-se para o balcão e fingir desconsiderá-la quando seu perfume afogava em urgências todo o ambiente.
E enquanto isso, ignorando as tentações, Simão, o deserto, Drummond, Bolaño, a New Yorker e o tédio; a noite e o bar da danceteria convergiam para ela. Naturalmente. Desciam a rampa. Rendiam-se sem meios-termos. Eis o ponto.
E ela menos que pseudo-desentendida, ainda não se pusera, de fato, a par de todo seu poder. Não tinha ciência dele. Era apenas uma menina. Vaidosa, verdade. E muito. Mas também tão paradoxal quanto qualquer adolescente em fim de carreira. Ao ponto de sua mãe certa vez lhe censurar:
--Mas filha, você é uma menina tão linda para andar só de preto!
Laura Herzog era assim. Um pouco sóbria demais no vestir. Mas nem por isso menos desalinhada e um bocado bêbada na balada. Gostava de frisar isso de álcool mais do que a vida real desarrolhava, como quase qualquer adolescente. E gastava seu latim com outras missas também. Como mangás e livros de ficção científica. E gostava de palavras: colecioná-las, classificá-las, embaralhá-las, pô-las de ponta à cabeça, recombiná-las. Mais ou menos como os agiotas fazem com cédulas, jogadores com cartas, fumantes com havanas, proxenetas com putas e baristas com grãos antes da moenda.
Mas então, sua beleza já moía muito juízo pela cidade. Mesmo que ela fosse café com leite a respeito.
Até vir a consagração. Até chegar aquela balada numa ponta de junho, próximo ao Dragão do Mar, começo de férias. E, por fim, à meia-noite em ponto, Josué Hercílio subir na banqueta alta, pedir silêncio e dominando por completo certa dormência no tronco da língua, dizer com uma tremenda limpidez, erguendo o copo de uísque onde cubos entrechocavam:
À mais bela garota a nos brindar com sua presença neste domingo de férias! Vê-la assim, de perto, de preto, tão singela, é como desfrutar de uma arte que se está apenas a inaugurar, como um dia foram a fotografia, o cinema – e tomando algum fôlego para percorrer e algum gole para espantar qualquer aspereza nas palavras – e hoje são todas as possibilidades que cada um de nós têm multimidiamente em cima de nossas mesas de trabalho! E, fora isso pouco, Senhoras, Senhores, a despeito de tão fantásticos meios nem um único traço dela poderia ser retocado, digamos, num Photoshop. Salud!
As palmas e os vivas um tanto grogues, plenos de blasonaria, confetearam aquela demonstração ostensiva, quase farsesca – e porém sincera – de que Josué Hercílio estava, de fato, bastante impressionado por Laura Herzog.
E Laura Herzog ouvira tudo. E com ouvido fino apesar dos muitos hi-fis, com o menear louro das mechas, a ponderar, com a fartura de formas, cada trecho por um comenos. E o desfecho por um trecho mais longo, em suspensão. Depois, veio a doçura aconchegante, com que abriu aquele sorriso de farol de milhas, a varar na noite a espessura de neblinas. Era como Anita encontrado o gatinho. Naturalmente, seu corpo inteiro sorria e concordava. Concordava e sorria. Como se Josué Hercílio houvesse ao mesmo tempo proferido a coisa mais simples e, sem embaraço, uma genialidade impossível de ser rivalizada por qualquer sábio. E só então lhe disse:
Que juízos não se ensaboem, Seu Josué Hercilio. It's nice to hear you. Mas a pista está quase vazia. A noite, uma criança. Deixemos de rasgação de seda. E vamos ao que interessa, não é mesmo?
Passaram para a dança. Uma dança frenética. Um rock doido do Foo Fighters. Seu corpo parecia vibrar enxuto à cada síncope. E, no meio das luzes, Josué pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis de teu braço”.
Duas horas depois, completamente bêbados, estavam, por fim à porta do carro dele:
If you want to come and search the car go ahead – ele disse, em inglês castiço, mas temendo alguma palavra fora de hora ou roteiro na esteira da frase. E disse para impressioná-la, porque sabia que ela havia recém-chegado de um ano na Irlanda.
Mas ela adorou, meteu-se no carro.
O resto foram abraços, obscuridade, álcool. Amassos acachapantes até o funcionário do estacionamento vir tangê-los. Naturalmente na direção de uma placa luminosa, de certo mal-gosto, há quase meia légua para além, seguindo no rumo da Beira-Mar.
De mal-gosto, talvez. Porém de grande utilidade àquelas alturas da vida e da quase alvacenta madrugada. O que até faz lembrar -- a este narrador que vos fala -- uns versos. De Guido Cavalcanti, é possível:

Fresca rosa novella,
piacente primavera,
per prata e per rivera
gaiamente cantando,
vostro fin presio mando – a la verdura.

Josué Hercílio, não sem antes deduzir nebulosamente o saldo do cartão de crédito, resolveu guaribar, e escolheu a suíte mais cara. Havia uma varanda contemplando a enseada e um balde com champanha. Nacional, é verdade. E os filmes projetados na TV de plasma não eram propriamente da National Geographic. Porém o girar das hélices na usina eólica, os transatlânticos a embandeirar de luzes a crista das ondas na baía, os barcos lagosteiros oscilando gentilmente à luz da antemanhã eram adoráveis.
E ela restava ainda mais adorável, metida no roupão. Com um ombro a sair das amarras, bronzeado e nu.
E de novo ele pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis, de teu braço”. E após algum circum-navegar, o astrolábio abriu o hemisfério. Na cama ela quase não gemia. Um terno de vezes transaram. Com aplicação. Certa fúria.
Mas na manhã seguinte, ela voltou para casa sentindo-se ainda mais virgem do que era. Difícil traduzir o que sentia. Laura Herzog não contava isso, esse estado de coisas, a ninguém. Ninguém. Nem mesmo à Tertuliana Maria, sua confidente um ano e, digamos, algumas posições mais experiente, etc. Mesmo que, não raro, descessem fundo nas confidências e mantivessem a mesma pedicure. E dividissem os mesmos palavrões. E mandassem os meninos tomar nos mesmos alhures, lá pelo Facebook. E avançassem na madrugada a assistir UFC, a entender que Anderson Silva era o rei da cocada preta. E fossem juntas ao Geek Day Pride, no 25 de maio. Com suas toalhas. Suas idolatrias por Douglas Adams. E suas fascinações por Darth Vader.
E foi assim pelo fio do ano, navalha afora. Por aquela comemoração sem fim de haver passado no vestibular: Arquitetura. De haver acertado em cheio a libido de todo uma turma mais veterana de garotos, segundos, terceiranistas; e que eram os amigos daquela sua mesma amiga, Tertuliana Maria, algumas posições e um ano mais velha, como já foi dito, e etc. e tal.
E assim muitos Josués Hercílios depois, ela ainda não havia se decidido. E embora muralhas de Jericó pulverizassem, a cada vez, nunca que soavam as trombetas. Os escolhia. Os enlouquecia. Os esquecia. Os punha para dançar mais do que podiam ou se permitiam. Fazia-os dizer algumas frases num inglês, por vezes, bastante trôpego. Fazia-os soar inteligente e beber pints da cremosa Guiness. E, sabendo-os no bolso, os descartava como ministros de segundo escalão que são excessivamente dignos e tecnocratas mas nada políticos. Ou se desfazia deles como bingas já a passar ao filtro.
Até que um dia foi fisgada mortalmente por um garoto da Engenharia Ambiental. Mais jovem que os outros. Mais jovem que ela, inclusive. Discreto, distante. Meio bicho-do-mato. Nada brilhante com as palavras. Longe de subir em bancos altos, longe de discursos, tocava bateria numa banda. Aquela mesma banda, que, volta e meia – para compensar-se da falta de imaginação na composição das próprias canções – fazia covers do Foo Fighters.
Foi quando sua virgindade definitivamente chegou ao gran-finale. E uma vida moderadamente adulta, moderadamente feliz, pôde então começar. Naturalmente sempre ao som do Foo Fighters, de quem acabou trazendo – por anos e quase de cor – todo o repertório.


* * *

domingo, 5 de junho de 2011

Seize the day

[s/i/c]


As du(r)as mortes - 

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
(Manuel Bandeira)


a gente morre duas vezes.

primeiro suor, sangue – frio ou quente – membrana, tendão cartilagem, músculo, junta, nervo, miolo, tripa, tubo, merda, verme, urina, porra, poro, pomo, derme, lóbulo, comissura, fibra, pus, fel, bile, nódulo, linfa, gânglio, dreno, alvéolo, veia, válvula, lágrima, prega, pálpebra, ruga, vinca, sinal, dobra, brônquio, fossa, pelo, gengiva, cuspe, lábio, língua. tudo isso começa a apodrecer no minuto seguinte. 

e há o nome. que apodrece um pouco mais devagar.

até que extintos o que seremos? seres libertos de dois pesos: um corpo, um nome. como nem pedra ou pássaro consegue ser.


* * *

sábado, 4 de junho de 2011

Sem mato, sem cachorro e um tanto sem gato para caçar pelo cachorro: o Dia dos Nerds

[s/i/c]

Funny but it seems that it's the only thing to do

–Mesmo uns dez dias depois

É engraçado que haja um encontro de nerds. Este ano deu-se em uma das livrarias mega-stores da cidade bem no dia mundial dos geeks [Geek Pride Day, ou Towel Day, 25 de maio]. E lá estavam eles com suas toalhas, que são uma homenagem a Douglas Adams, o autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias [The Hitchhiker's Guide to the Galaxy] -- esse romance que começou como peça radiofônica para a BBC e traz em seu próprio princípio a seguinte frase:

This planet has — or rather had — a problem, which was this: most of the people living on it were unhappy for pretty much all of the time.

[Este planeta tem – ou melhor, tinha – um problema, que era o seguinte: a maioria das pessoas que nele vivem era infeliz quase o tempo todo].

Soa como algo esparso, perto de bonito. Expressamente adolescente, no melhor senso, no senso mais positivo do termo, o Dia dos Nerds. E a homenagem a Adams. E tinha muita gente bonita por lá. Por mera coincidência -- para quem acredita em acasos -- estava tomando um café, depois de passar uma vista nos livros e fui dar uma espiada. Nada contra. Mas nerd, por definição, é uma figura entediada, deslocada, avulsa, descolada, meio bicho-do-mato sem mato, sem cachorro e um bocado sem gato pra caçar pelo cachorro: um tanto alheio a bandos – que não virtuais. E, assim, marcar uma convenção de nerds soa um tanto como marcar uma convenção anual de lobos da estepe... Que iriam à convenção para reafirmar: "Olha, vir eu vim , mas o que gosto mesmo é de sossego, solidão, total descompromisso em relação a essas convenções sociais e mais meu notebook, tablet, iphone, livros, quadrinhos e filmes de ficção científica (com certa obsessão por Guerra nas Estrelas) por perto. E, claro, gosto de uma porção de coisas de que outros – especialmente adultos torpes – riem". Esse torto, esse ser meio 'gauche' na vida, como no poema-programa de Drummond, é o que redime os nerds.
Tudo isso, de alguma forma, parece apontar para a deliciosa (e preciosamente kitsch) balada dos Carpenters, da qual se quebrou o verso que dá título à postagem:


Será que há melhor tradução entre breguice, adolescência e uma música extremamente bem arranjada quanto The Carpenters -- e na década que viu vir à luz Guerra nas Estrelas? Feliz Dia dos Nerds! (Com dez dias de atraso).

E, ainda assim, nerds do mundo inteiro: uni-vos!


* * *

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Não é como no cinema

John Ford, Three Bad Men, 1926


Angeologia Geral


α – Morrer não é como no cinema

Tá vendo aquele?”, diz Fran e faz mira. A borracha da baladeira distende. No tronco do tamarineiro, o calango imóvel. Depois tirando rápidos, recorrentes meneios de cabeça, que só calangos. E logo imóvel outra vez, e para sempre:
Esse vai também?”, diz Carlinhos.
Vai”, resume Fran, e desprega os dedos.
Em prumo, a pedra varre o ar e acerta o réptil de perfil no tronco lenhoso – vertendo aqui, lá aquela resina castanho escuro dos tamarineiros. O calango cai. Aproximam-se. 
O golpe fora um pouco abaixo do pescoço. O papo branco, escamoso, de onde o sangue deflui, tingindo as escaras. As patas a tatear no vazio, rápido, depois lento. O corpo sacudido por espasmos. As longas unhas – feito grifos – a dobrar como se à revelia. Contraem-se. O calango parece um pequeno dragão calcado por São Jorge e posto em efígie na moeda da lua cheia, como nas gravuras do Tesouro da Juventude. E, então, tudo parece um brusco movimento para dentro. Na direção do coração. Que vai cessando aos poucos. E o corpo rende-se no chão limoso. Distende-se, imprestável; sem o sopro da vida. Fran acende um cigarro:
Em cheio”.
É, morreu”, diz Carlinhos. E pensa que morrer assim não é como no cinema. No cinema, não. No cinema, morrer parece bom. Os tiros ressoam bonito. Os disparos ricocheteiam, ecoam. O corpo sai bolando pelos telhados, resvala em beirais e calhas, e cai em ruas poeirentas. Pôr-do-sol. Os cavalos não se assustam mais. Estão acostumados.
E, logo após, é outro filme: morre-se de novo; há outros saloons, telhados novinhos em folha, recém estradas poeirentas, os colts luzindo nos coldres, antes de serem sacados. A fleuma dos cavalos, que ou não se assustam ou, no máximo, dão um passo ao lado, para que o cadáver, após a queda acrobática, possa pousar com mais senso de proveito cênico, dentro de um cocho ou barril cheio d'água. Há muito mover-se no cinema, mesmo para moribundos.
Eles próprios, em suas brincadeiras e esportes, cansam de matar, morrer. Estar vivo ou morto é apenas uma circunstância. Plena, aliás, de semovências em ambos os casos. E muitas ressurreições depois.
Ele pensou perto disso durante anos. Um pouco além, é verdade. Mas não muito. É claro que tinha a noção: “morrer não é bem assim. Não é bem assim como no cinema”. Mas faltava-lhe certa dimensão da coisa.
Até o dia de já ter a idade que Fran tinha quando fumava aqueles cigarros escondidos; comandava com dedos e olhos, uma tremenda mira; driblava todo um time para fazer o gol; nadava melhor que todos; usava as palavras certas, tenras; e nem tudo isso protegeu-o de morrer aos 21 anos. E Fran não voltou para mais uma partida de futebol. De xadrez. Para fumar cigarros escondidos e alvejar calangos. Construir grandes caminhões de madeira com amortecedores de lata de óleo de cozinha. Abrir estradas no meio das urzes crescidas sob as fruteiras após as chuvas do inverno. Seu corpo ficou preso ao chão, cheio de lodo e sonhos. Sonhos não cumpridos.
Não houve retorno. Duelos ou estradas poeirentas. Heroísmo algum.
E sua avó apenas ficou alguns anos mais velha em alguns dias, com a morte do filho caçula.
Porém tanta coisa sobreveio antes disso. Pois houve um tempo em que Fran, adolescente, seguiu para estudar em Fortaleza. E Carlinhos, embora fosse cinco anos mais jovem, fez as vezes, no cotidiano-coração da avó, do papel que seu filho mais novo desempenhara até seguir para outra cidade em busca de melhores escolas e um futuro.


β – Angeocídio

Carlinhos, você reza toda noite antes de dormir?”
O sol ainda é brando. Os cajueiros circundam o alpendre. Filtrando-se pelas telhas sem forro, um jogo de luz e sombras atrai a atenção do menino. Pequeno cinema. Teatro chinês. Tarzan está murcho a um canto, orelhas caídas, as patas ladeando o focinho. O vento sacode a varanda das redes, levemente. Vitória cantarola, piano, muito piano:
Romântico é sonhar...”, e a palha da vassoura raspa os ladrilhos.
Então o avô surge à frente da casinha amarela, com uma navalha às mãos e uma toalha em volta dos ombros. Detêm-se calmo, investigando os carretéis da cacimba. Depois atravessa o terreiro. O avô inclina sob a carnaúba do alpendre; pigarreia e entra, muito alto. Vitória cessa de varrer.
Carlinhos, o que você faz toda noite antes de dormir?”
Faço xixi, vó.”
No quarto o avô tosse. A asma acompanhou-lhe a vida inteira, como uma segunda mulher. Impediu-lhe a sonhada carreira na marinha mercante. Insatisfeito em não ter percorrido o mundo, ele colecionou-o em selos: Montenegro, Panamá, Abissínia. Vitória varre com força. Tarzan eriça as orelhas, soergue a meio o pescoço. E então, seu Erasmo termina de desaferrolhar o portão.
A avó sorri. Os olhos miúdos contraídos sobre as maçãs salientes do rosto. Apruma os meio-óculos, enquanto não tira um olho do croché:
Mas antes meu filho reza, não é?”
Alheio, o menino brinca com as pedras do xadrez. São de madeira. Umas pretas, outras de um verniz açafrão – mas que insistem chamar de brancas. Dois exércitos. Um está estacionado quase debaixo da rede da avó. O outro rente à porta que do alpendre abre-se para a sala. O menino mira com um só olho, e atira o limão. O limão gira pelos ladrilhos irregulares e choca-se contra o peão. O peão cai. Hora de mudar de lado.
A comadre pediu tempero verde?”
Tempero verde, Seu Erasmo.”
Hoje, tomate não achei.”
O menino recorda o pai lhe dizer atrás da escrivaninha:
Erasmo é o nome de um sábio holandês.”
Cigarras. O vento percorre as mangueiras. No jardim, espirradeiras oscilam ao sol, e a groselheira verte sombra sobre o velho carrinho-de-mão. A pitangueira está carregada. Foi sua primeira árvore. A de pendurar-se no galho, que, então, parecia demasiado alto. E colher as pitangas maduras. Seu Erasmo sai bocejando para a cozinha no que a avó confere o troco.

Um, dois, três
Galinha pedrês
Sábio holandês”

Meu filho sabe que todo mundo tem um anjo-da-guarda?”, diz a avó.
O menino agora joga do lado das pretas. São suas favoritas. O limão segue rumo ao bispo. Os ladrilhos irregulares desviam o curso. O limão raspa o flanco do cavalo. O menino inclina o corpo. Mas o cavalo não cai.
As músicas que eu...”, cantarola Vitória.
Carlinhos quer um pedaço de bolo antes de tomar banho?”
Na angeologia da avó – contada com alternada recorrência – os anjos são seres alados, que se vestem de branco. E após o batismo ficam em permanente vigília – como hoje fossem telemóveis. Talvez às nossas costas, prestes a nos socorrer. Mas naturalmente são invisíveis (“Incomparáveis anjos do senhor! Estêvão foi um deles: 'e fixando neles os olhos, todos os que estavam sentados no conselho, viram seu rosto como o rosto de um anjo'”).
Quer? A vovó vai pegar lá na cristaleira.”
Então os dobrados irrompem. São a febre do avô. E tomam de assalto a casa inteira. O avô está em transe de algum contentamento. Puxa a caixinha de rapé. Vem para o alpendre. Senta-se de frente para a rodagem, os longos dedos tamborilando no braço da cadeira. Uma camioneta passa. O avô não vê.
Agora não”, diz o menino.
Agora sim, e muito sim”, rebate a avó, “olhe, olhe, Seu Carlos!”
Metade da corte do rei branco jaz fulminada sobre os ladrilhos. Os dobrados evolvem a todo volume. O avô toma rapé abstraído.
Mas as pretas estão ganhando, Vó”
Sem mas nem meio mas. Já passa da hora do seu banho”.
Agora soa o “Hino do Exército”. É uma dos preferidos do avô e também a vinheta do serviço de alto-falantes de Camocim: abre a programação ao fim-da-tarde, e a encerra à nove da noite.
Que marmota é essa, menino?”, pergunta surpresa a avó.
O menino, encarando-a, esfrega-se com energia contra a parede.
Eu mato ele, Vó.”
Matar? Matar o quê, quem, menino?”
O anjo, o meu anjo-da-guarda.”
Carlos Bernardo Ximenes Parente, passe já para o banheiro.”
Àquela hora, Fran ao invés de estar fumando em algum lugar mais encoberto da chácara, devia se preocupar com outras coisas: o cinema, o vai-e-vem do tráfego. Tomar um ônibus elétrico e piscar para a normalista de cabelos sob o laquê.
De volta à chácara, ao longe, os sinos batem o sinal da missa. E o dia ganha aquela oblíqua emulsão de luz que envelopava tudo de uma cor espectral. E viabiliza que as crianças tomem de assalto o parquinho que fica à direita da Matriz, defronte o Grupo Escolar, que, ao contrário da escola deles, acolhe um corpo discente mais desabonado.
A camioneta que desce pela rodagem traz gente dos distritos. Amanhã tem festa em Camocim. É dia santo. A procissão do Bom Jesus. O avô bate o lacre da caixinha de rapé. E os dobrados seguem em seu andamento incisivo.


* * *