segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando enfim as trombetas soaram

Anita Ekberg em cena de La Dolce Vita, Federico Fellini, 1960

 A Cor e a Forma
-ou A Caloura


α – Prólogo sobre "tempo real" nos diascorrentes


Estar presente em “tempo real” na vida virtual te faz sentir ligado ao umbigo do mundo. Te faz sentir mais rente à vida real. E, ao mesmo tempo, mais distante dela, porque ameaça te transformar num ícone. Tipo aqueles que você clica no papel parede de tua área de trabalho. As pessoas gostam de dizer: “vejam: eu estive/vou estar ao vivo na TV”. Parece que elas tornam-se de repente mais “pessoas”. Mais reais. Algo nelas realmente importa. Chispa. E elas crescem uns poucos centímetros. Outros, de ego mais inflado, acrescem-se metros e veem o mundo da altura do Colosso de Rodes. Os navios a passar, miniaturizados, ao largo da baía. E tudo, enfim, ao gosto de a fala e os gestos dessas pessoas -- altamente adestradas para se portarem com uma segunda "naturalidade" diante de uma geringonça com um olho mecânico tão estúpido quanto um olho de boi -- invadirem centenas de milhares de recintos ao mesmo tempo. Um poder formidável. Quem não quer para si esse condão? E é fato: esse condão não se dá a todos. Só aos espertos. Falam de carisma. Mas nisso de carisma entra toda a metafísica que estamos tentando fintar se nosso objeto recai sobre Laura Herzog.
Analogamente – e o melhor não seria evitar este advérbio, já que estamos tratando de algo digital? (Ou ao menos de uma jovem mulher tentando gozar na era digital): que tal começarmos de novo o parágrafo, com advérbio mais adequado?
Frisantemente, uma saída no fim de semana e um porre no Órbita Bar embriagam mais se devidamente comunicados em público. A ida à chácara da família ou ao piquenique dos amigos fica mais fibrosa, cheia de vida. Eu diria que fica mais sensual. Daí o sucesso das redes sociais. Até assistir partidas de Roland Garros comendo pipocas; ou blockbusters; ou o futebol das quartas e do fim de semana tomando cerveja pilsen; quando compartilhados no mundo virtual, nutrem essas ninharias de uma importância que antes elas não tinham. Ou melhor: antes, não tinham assim, tão multidimensionadas. Como fossem um advento. O advento de um admirável mundo de micros BBB's, assim se pode dar o pé enquanto a mão é tomada.
Os anunciantes gostam. Os anunciantes gastam. Os consumidores gastam muito mais. Mas muito mais. E derramam lágrimas para certos anúncios. (Se soubessem o grau de crocodilismo que está por trás desses anúncios, rejuntavam suas lágrimas como confetes equívocos, no bolso). E isso no fim é o que importa; que os nutrientes, as preciosas proteínas desse processo se chamem: publicidades. Assim, no plural.
Há quem apenas preze dizer ao mundo que consome um perfume, um copo de frozen yogurt, um romancista israelense, uma banda estadunidense com o nome da capital do Líbano, um cupcake, um filósofo pós-deleuziano, a escolha de um desses termos em moda que logo apodrecem. Como trolar. Ou bullying. E essa soma de "gostos" é meio como você "é": a totalidade que é você "micro-BBBêlizado". É a sua medida. E o mundo virtual é aquele em que você pode passear/ surfar/ navegar/ conectar-se sem sombra, como um vampiro. Porque aquilo que você é não se dá a conhecer apenas pelo que você rói, é certo; mas isso importa pouco para a virtuália. E, logo, nela, cada vez menos há o que se possa constituir em materialidade: uma sombra. 
Como antes, mesmo numa carta havia folhas amarrotadas, um vestígio líquido nas entrelinhas, um borrão. A própria letra de cada um. Daí essa desesperada tentativa de forjar uma assinatura virtual. Para que uns dos outros se distinguam. E a vida seja, em disfarce, um pouco menos essa confraria de zumbis.
Assim, sem mais. 


β – Da mulher em busca de orgasmo


Mesmo quando não queria, Laura Herzog, aos dezoito, era um animal devastador: permanentemente predado e predante. Sua presença sugeria, ao balançar dos cabelos loiros sobre a fartura das formas, certa insinuação Anita Ekberg de ser: um continuado coito, que a tudo punha em acessório, segundo plano, desfoque, fora de campo, coadjuvância. E não adiantava nadinha mudar de pato para ganso. Mudar de canal. Mudar o rumo da prosa. Ou seja, de sua estonteante fisicalidade para a negação dela a partir de uma falso pressuposto: apegar-se a outro assunto, mais esotérico, remoto. Apegar-se a um verso de Drummond ou o que a crítica dissera de Roberto Bolaño na New Yorker, semana passada.
Proceder desse modo era um pouco como ater-se à condição de que qualquer um podia resistir às tentações, como Simão no deserto. Ou apenas masturbar-se, de um ou de outro modo. Ou agir como um terrorista contra as aspirações da comunidade. Ou ainda estar mais defunto que blasé. Ou voltar-se para o balcão e fingir desconsiderá-la quando seu perfume afogava em urgências todo o ambiente.
E enquanto isso, ignorando as tentações, Simão, o deserto, Drummond, Bolaño, a New Yorker e o tédio; a noite e o bar da danceteria convergiam para ela. Naturalmente. Desciam a rampa. Rendiam-se sem meios-termos. Eis o ponto.
E ela menos que pseudo-desentendida, ainda não se pusera, de fato, a par de todo seu poder. Não tinha ciência dele. Era apenas uma menina. Vaidosa, verdade. E muito. Mas também tão paradoxal quanto qualquer adolescente em fim de carreira. Ao ponto de sua mãe certa vez lhe censurar:
--Mas filha, você é uma menina tão linda para andar só de preto!
Laura Herzog era assim. Um pouco sóbria demais no vestir. Mas nem por isso menos desalinhada e um bocado bêbada na balada. Gostava de frisar isso de álcool mais do que a vida real desarrolhava, como quase qualquer adolescente. E gastava seu latim com outras missas também. Como mangás e livros de ficção científica. E gostava de palavras: colecioná-las, classificá-las, embaralhá-las, pô-las de ponta à cabeça, recombiná-las. Mais ou menos como os agiotas fazem com cédulas, jogadores com cartas, fumantes com havanas, proxenetas com putas e baristas com grãos antes da moenda.
Mas então, sua beleza já moía muito juízo pela cidade. Mesmo que ela fosse café com leite a respeito.
Até vir a consagração. Até chegar aquela balada numa ponta de junho, próximo ao Dragão do Mar, começo de férias. E, por fim, à meia-noite em ponto, Josué Hercílio subir na banqueta alta, pedir silêncio e dominando por completo certa dormência no tronco da língua, dizer com uma tremenda limpidez, erguendo o copo de uísque onde cubos entrechocavam:
À mais bela garota a nos brindar com sua presença neste domingo de férias! Vê-la assim, de perto, de preto, tão singela, é como desfrutar de uma arte que se está apenas a inaugurar, como um dia foram a fotografia, o cinema – e tomando algum fôlego para percorrer e algum gole para espantar qualquer aspereza nas palavras – e hoje são todas as possibilidades que cada um de nós têm multimidiamente em cima de nossas mesas de trabalho! E, fora isso pouco, Senhoras, Senhores, a despeito de tão fantásticos meios nem um único traço dela poderia ser retocado, digamos, num Photoshop. Salud!
As palmas e os vivas um tanto grogues, plenos de blasonaria, confetearam aquela demonstração ostensiva, quase farsesca – e porém sincera – de que Josué Hercílio estava, de fato, bastante impressionado por Laura Herzog.
E Laura Herzog ouvira tudo. E com ouvido fino apesar dos muitos hi-fis, com o menear louro das mechas, a ponderar, com a fartura de formas, cada trecho por um comenos. E o desfecho por um trecho mais longo, em suspensão. Depois, veio a doçura aconchegante, com que abriu aquele sorriso de farol de milhas, a varar na noite a espessura de neblinas. Era como Anita encontrado o gatinho. Naturalmente, seu corpo inteiro sorria e concordava. Concordava e sorria. Como se Josué Hercílio houvesse ao mesmo tempo proferido a coisa mais simples e, sem embaraço, uma genialidade impossível de ser rivalizada por qualquer sábio. E só então lhe disse:
Que juízos não se ensaboem, Seu Josué Hercilio. It's nice to hear you. Mas a pista está quase vazia. A noite, uma criança. Deixemos de rasgação de seda. E vamos ao que interessa, não é mesmo?
Passaram para a dança. Uma dança frenética. Um rock doido do Foo Fighters. Seu corpo parecia vibrar enxuto à cada síncope. E, no meio das luzes, Josué pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis de teu braço”.
Duas horas depois, completamente bêbados, estavam, por fim à porta do carro dele:
If you want to come and search the car go ahead – ele disse, em inglês castiço, mas temendo alguma palavra fora de hora ou roteiro na esteira da frase. E disse para impressioná-la, porque sabia que ela havia recém-chegado de um ano na Irlanda.
Mas ela adorou, meteu-se no carro.
O resto foram abraços, obscuridade, álcool. Amassos acachapantes até o funcionário do estacionamento vir tangê-los. Naturalmente na direção de uma placa luminosa, de certo mal-gosto, há quase meia légua para além, seguindo no rumo da Beira-Mar.
De mal-gosto, talvez. Porém de grande utilidade àquelas alturas da vida e da quase alvacenta madrugada. O que até faz lembrar -- a este narrador que vos fala -- uns versos. De Guido Cavalcanti, é possível:

Fresca rosa novella,
piacente primavera,
per prata e per rivera
gaiamente cantando,
vostro fin presio mando – a la verdura.

Josué Hercílio, não sem antes deduzir nebulosamente o saldo do cartão de crédito, resolveu guaribar, e escolheu a suíte mais cara. Havia uma varanda contemplando a enseada e um balde com champanha. Nacional, é verdade. E os filmes projetados na TV de plasma não eram propriamente da National Geographic. Porém o girar das hélices na usina eólica, os transatlânticos a embandeirar de luzes a crista das ondas na baía, os barcos lagosteiros oscilando gentilmente à luz da antemanhã eram adoráveis.
E ela restava ainda mais adorável, metida no roupão. Com um ombro a sair das amarras, bronzeado e nu.
E de novo ele pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis, de teu braço”. E após algum circum-navegar, o astrolábio abriu o hemisfério. Na cama ela quase não gemia. Um terno de vezes transaram. Com aplicação. Certa fúria.
Mas na manhã seguinte, ela voltou para casa sentindo-se ainda mais virgem do que era. Difícil traduzir o que sentia. Laura Herzog não contava isso, esse estado de coisas, a ninguém. Ninguém. Nem mesmo à Tertuliana Maria, sua confidente um ano e, digamos, algumas posições mais experiente, etc. Mesmo que, não raro, descessem fundo nas confidências e mantivessem a mesma pedicure. E dividissem os mesmos palavrões. E mandassem os meninos tomar nos mesmos alhures, lá pelo Facebook. E avançassem na madrugada a assistir UFC, a entender que Anderson Silva era o rei da cocada preta. E fossem juntas ao Geek Day Pride, no 25 de maio. Com suas toalhas. Suas idolatrias por Douglas Adams. E suas fascinações por Darth Vader.
E foi assim pelo fio do ano, navalha afora. Por aquela comemoração sem fim de haver passado no vestibular: Arquitetura. De haver acertado em cheio a libido de todo uma turma mais veterana de garotos, segundos, terceiranistas; e que eram os amigos daquela sua mesma amiga, Tertuliana Maria, algumas posições e um ano mais velha, como já foi dito, e etc. e tal.
E assim muitos Josués Hercílios depois, ela ainda não havia se decidido. E embora muralhas de Jericó pulverizassem, a cada vez, nunca que soavam as trombetas. Os escolhia. Os enlouquecia. Os esquecia. Os punha para dançar mais do que podiam ou se permitiam. Fazia-os dizer algumas frases num inglês, por vezes, bastante trôpego. Fazia-os soar inteligente e beber pints da cremosa Guiness. E, sabendo-os no bolso, os descartava como ministros de segundo escalão que são excessivamente dignos e tecnocratas mas nada políticos. Ou se desfazia deles como bingas já a passar ao filtro.
Até que um dia foi fisgada mortalmente por um garoto da Engenharia Ambiental. Mais jovem que os outros. Mais jovem que ela, inclusive. Discreto, distante. Meio bicho-do-mato. Nada brilhante com as palavras. Longe de subir em bancos altos, longe de discursos, tocava bateria numa banda. Aquela mesma banda, que, volta e meia – para compensar-se da falta de imaginação na composição das próprias canções – fazia covers do Foo Fighters.
Foi quando sua virgindade definitivamente chegou ao gran-finale. E uma vida moderadamente adulta, moderadamente feliz, pôde então começar. Naturalmente sempre ao som do Foo Fighters, de quem acabou trazendo – por anos e quase de cor – todo o repertório.


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