quinta-feira, 9 de junho de 2011

¿O no le salen canas?

Jake Chapman e Dinos Chapman, Sem-título do Portfólio Exquisite Corpse, 2000


Um abraço para Bolaño

Toma-se um livro de Roberto Bolaño para ler. O livro é horrivelmente feio. Tem a capa de um vermelho berrante. E nela cerca de metade é aberta para uma foto. Na foto em preto e branco se vê um velho gaúcho de barbas brancas, o pampa sem fim estendendo-se por trás dele. E próximo a ele, um pouco como se o farejasse, vemos um coelho nitidamente aplicado – a exemplo do velho – sobre a infinita linha de horizonte do pampa, quebrada apenas por uma espécie de cânion. Acima disso há o título do livro, El Gaucho Insufrible, postado em tipos pequenos uns dois centímetros abaixo do nome do autor, que rende três vezes mais. Arrematando tudo, abaixo da foto vem o nome da editora e a série: Anagrama/ Colección Compactos. É isso, trata-se de um livro originalmente publicado em Barcelona, outubro de 2003. E houve quatro reimpressões depois disso. As duas últimas em 2010.
São contos.
O primeiro lê-se com certa desconfiança. Parece deliberadamente vago ou experimental ou inconclusivo. Ou de algum modo sugere certo sabor de que nada acontece. De alguma pasmaceira pós-moderna: no plano da forma e no que segue contado. Parece com o quê? Com um conto escrito por excelência por qualquer conhecido seu em qualquer ponto do planeta que se assumiu de fato como um escritor professional. E daí atira-se àquela patifaria sem volta de encontros, seminários, feiras-do-livro, etc. O que lhe chega geralmente numa revista, numa antologia, ou mesmo por e-mail. Por que Bolaño dá a precedência do livro a esse conto é difícil supor.
Talvez porque o segundo, que dá título ao livro, é uma granada estilhaçando cem mil lugares-comuns. É o inverso do hermetismo pseudo-sofisticado do primeiro. É um conto que não quer restar como nada “sofisticado”. Longe disso. Há um  oximoro aqui porque esse segundo, "El Gaucho Insufrible", compõe uma devastadora síntese da América Latina tomada a partir de um ponto de vista da Argentina no início dos 2000¹. E é tão impiedosamente sardônico, caricato, que o retrato esboçado tira risos pelo excesso de Apocalipse. Um advogado bem sucedido, ex-juiz, retrocede à figura do gaúcho. Os pampas seguem infestados por coelhos que aparentemente são a única fonte de alimento durante uma acachapante crise econômica que abate-se sobre a Argentina como uma praga. Depois de algumas peripécias, Pereda, o ex-juiz, muda-se para sua estância.  Para observar que àquele bando de gaúchos – completamente ineptos e de mãos cegas para qualquer ofício – incialmente, só dois assuntos interessam, e com igual desvelo: a crise econômica e o futebol.
Depois, passado a erupção da crise, fica apenas o futebol. Eles próprios foram (ou são filhos de) antigos barra bravas, que não hesitavam em abandonar a casa, a mulher, os filhos, para seguir com psicótica devoção o clube do coração pelos rincões mais remotos da Argentina.
E, no entanto, se há uma lista de livros em que você se pega a bolar de rir com o inusitado do humor, a indizível fome de contundência, El Gaucho Insufrible há de estar nela:

La mujer no hablaba mucho pero sin duda trabajaba más que los seis gauchos que para entonces Pereda tenía en nomina, lo cual es un decir, pues a menudo se pasaba meses sin pagarles. De hecho, algunos de los gauchos tenían una noción del tiempo, por llamarla así, distinta de la normal. El mes podía tener cuarenta días sin que eso los causase dolor de cabeza. Los años cuatrocientos cuarenta días. En realidad, ninguno de ellos, incluido Pereda, procuraba pensar en ese tema. Había gauchos que hablaban al calor de la lumbre de electroshocks y otros que hablaban como comentaristas deportivos expertos, sólo que los partidos de fútbol que mentaban habían sucedido mucho tiempo atrás, cuando ellos tenían veinte años o treinta y pertenencían a alguna barra brava. La puta que los parió, pensaba Peneda con ternura, una ternura varonil, eso sí.

E o dente na veia prossegue pelos contos seguintes. Especialmente “Dois Cuentos Católicos”, “Literatura + Enfermedad= Enfermedad” até chegar a uma espécie de inferno definitvo em “Los Mitos de Cthulhu” -- que é um dos dois ensaios breves que que fecham o livro com inusual contundência.
Neste último, num tom exaltadíssimo, Bolaño não poupa ninguém nem abre grande margem para compromissos. Traça um diagrama boschiano da literatura em língua espanhola. E um diagrama interessante, apocalíptico. Perfeitamente maldito. Que não se iria escutar nunca na voz de escritores que são verdadeiros establishments ambulantes, como Octavio Paz, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. E por outro lado, como aponta Bolaño nesses ensaios delirantes, escritores dessa envergadura institucional, gastam tanto tempo construindo a própria respeitabilidade que, no fundo, perdem qualquer possibilidade de contundência. Eis porque, entre outras e ao lado deles, Bolaño soa como nitroglicerina pura. Uma máquina de moer carne literária que faz picadinho de gente como Sánchez Dragó, Ana Rosa Quintana, Isabel Allende. (Em uma de suas últimas entrevistas há um visível mal-estar quando ele lembra que Paulo Coelho está na Academia Brasileira).
As páginas pingam ressentimento, dor, revolta, uma compreensível fúria, aplacados um tanto pela voltagem de humor página após página:

Ana Rosa Quintana, una presentadora de televisión simpatiquísima, es quien escribe el mejor libro sobre la mujer maltratada de nuestros días. Sánchez Dragó es quien escribe los mejores libros de viajes. Me encanta Sánchez Dragó. No se le notan los años. ¿ Se teñirá el pelo con henna o con un tinte común y corriente de peluquería? ¿ O no le salen canas? ¿Y si no le salen canas, por qué no se queda calvo, que es lo que suele pasarles a aquellos que conservan su viejo color de pelo?

Ou então:

Latinoamérica fue el manicomio de Europa así como Estados Unidos fue su fábrica. La fábrica está ahora en poder de los capatazes e locos huidos son su mano de obra. El manicómio, desde hace mas de sesenta años, se está quemando en su propio aceite, en su propia grasa.

É claro que o que mais ressalta nesse diagrama é a aspereza de Bolaño diante da inércia do establishment literário ou acadêmico. Nesse sentido ele é bem-vindo em qualquer tempo. Mesmo numa circunstância em que os Estados Unidos encontram-se em relativa decadência assim como a situação europeia bem menos confortável que a euforia unificacionista de só alguns anos atrás. E em parte por que? Porque o futuro – quando houver, se houver – parece haver revoado para a China e, em menor escala, para outras economias emergentes – e isso inclui países da própria América Latina (este conceito lábil, em que os brasileiros volta e meia se incluem, volta e meia não; volta e meia são incluídos; volta e meia, não). E, no entanto o excesso de carnaval, de barroco, de deformação, e de uma violenta alegria é tão contagiante neste país, que há uma unanimidade que, dentro em breve, seremos uma superpotência real, por méritos próprios, ainda que uns poucos venham questionando mais e mais os métodos de “inclusão” social do governo e, em especial, a habilidade para manipular a máquina de propaganda – sobretudo a partir do segundo mandato Lula. Parece haver no Brasil uma total incapacidade de articulação ou uma progressiva perda de espaço de articulação para uma oposição efetiva e respeitável. Isso é já perigoso – ainda que as regras do jogo político pareçam mais consolidadas que em alguns outros países do subcontinente: Venezuela, Equador, Bolívia, Peru e até mesmo Argentina e Colômbia. Ainda assim, há como que uma reserva de mercado na burocracia estatal, nos quadros acadêmicos que assoma como prerrogativa ou monopólio do PT. E isso tende a crescer.
Mudando de alhos para bugalhos, o diagnóstico de Bolaño – como entre nós há talvez no passado recente somente o da figura solitária e igualmente auto-disruptiva de Paulo Leminski – compele ao menos a refletir um pouco para fora da assepsia dos padrões. Inclusive televisivos. Ele tem um laivo dessa sacrossanta ira que é também a do norte-americano David Foster Wallace, por ilustração. Um pouco desses cachorros doidos cujo latido é, volta e meia, pleno de premonições ou sugestões que passam muito ao largo de soluções excessivamente instituídas, sedadas, necrosadas, entorpecentes. Como Foster Wallace e Paulo Leminski, há na prosa de Bolaño a verve de uma experiência alternante, que sinaliza para o desvio de práticas constituídas: a bolsa de estudos, a cátedra acadêmica, o ensaios soporíferos e inócuos produzidos em série nos departamentos universitários, a academia de letras, a supervalorização das novas mídias e do ambiente televisivo e digital. De suas observações pingam uma sorte de sinceridade da qual é perto de impossível abster-se. A literatura, na prosa de Bolaño, não é algo que fala de fora para dentro da vida. Ou tem aquela horrenda encheção de linguiça, tão à francesa, do intelectual hierático que assina manifestos e pronuncia-se sobre quase qualquer assunto. Bolaño não deixaria pedra sobre pedra, por exemplo, de gente como Bernard-Hénri Lévy. Ou qualquer desses intelectuais arroz-de-festa. A gozação que faz de conceitos como “pensamento débil” ou o sarro que tira em cima de nomes constituídos e apoiando diagnoses infames, é de se tirar o chapéu. Para no fim, ele dizer, parodiando o próprio Borges que:

Si pudiéramos crucificar a Borges, lo crucificaríamos. Somos los asesinos tímidos, los asesinos prudentes. Creemos que nuestro cerebro es un mausoleo de mármol, cuando en realidad es una casa hecha con cartones, una chabola perdida entre un descampado y un crepúsculo interminable. (Quien dice, por otra parte, que no hayamos crucificado a Borges. Lo dice Borges, que murió en Ginebra.) Sigamos pues, los dictados de Gracia Márquez y leamos Alejandro Dumas. Hagámosle caso a Pérez Dragó o a Gracia Conte y leamos Pérez-Reverte. En el folletón está la salvación del lector (y de paso de la industria editorial). Quien nos lo iba decir. Mucho presumir de Proust, mucho estudiar las páginas de Joyce que cuelgan de un alambre, y la respuesta estaba en el folletón. Pero somos malos para la cama y probablemente volveremos a meter la pata. Todo lleva a pensar que esto no tiene salida.

Roberto Bolaño morreu em Barcelona oito anos atrás. O volume de contos El Gaucho Insufrible é seu primeiro livro póstumo publicado. Outros se seguiram desde então. Inclusive o romance 2666.

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¹E vai nisso o agravante de Bolaño ser chileno.


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