sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Meu Forte





viajar, essa nova maneira de evitar o desespero. nem sempre funciona:

-ei, dona maria, sabe qu'eu queria transar – disse ele, entornando o copo.

-é nada. como? - ela disse, refestelada na espreguiçadeira vizinha.

-por trás dessa vez.

-ah, meu Deus, dá-me paciência.

ela deitou-se de bruços, a carne farta, levemente estriada, saltando em abundância das metades do biquíni.

ele retirou o biquíni, desamarrando devagar, dobrou com pachorra, cheirou em piloto automático, e pôs à mesa, sob o guarda-sol, num esticar de braço. A mão serviu o gole e, depois, às cegas, desceu até a bolsa, à base da espreguiçadeira articulada, e tirou um saco plástico, apenas tateando.

no saco havia os preservativos e os bonecos. Eram de Forte Apache, miniaturas. 

ele pôs alguns em cima de uma das metades, que tremulavam, exuberantes, um tanto matizadas por sol, e a palidez. Era quase acabamento sunburst no chassi de uma Gibson 335, pensou. Um atirador de elite ficou numa posição estratégica, dominando o desfiladeiro. E, então, um segundo grupo à base da colina. Além de uma bateria com canhão e alguns sacos de areia na jarreteira. E, avante, um pouco acima da articulação do joelho, bem junto daquela verruguinha, um tocador de tambor, alguém portando a bandeira e um grupo de mulas. Quando pôs o corneteiro, ela sentiu cócegas:

-é que às vezes eu fico um pouco impaciente – disse – e, pra falar a verdade, rezando pr'essa arrumação não chegar nos ouvidos das minhas amigas.

ele ajustava metade dos guerreiros comanches nas costas dela, na ravina, atrás das montanhas:

-besteira - disse - brincar sempre foi meu forte. 




Baixo para cima



no futebol cearense, a revolução vem literalmente de baixo. Os títulos nacionais parecem estar à altura somente de times bastante modestos. O Guarany de Sobral conquistou o título da 4ª divisão: é o único título nacional de um clube cearense até agora. E de momento o Icasa ameaça vencer o da 3ª divisão. Será muito difícil: decidir no interior de São Paulo após um empate sem gols em Juazeiro do Norte. Enquanto isso, Fortaleza e Ceará: babau. Não têm um único título brasileiro, de qualquer divisão. Apesar de o Ceará ser o clube que mais vezes disputou a Segundona. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Editor




tinha que reprocessar o primeiro conceito visto às pressas num livro de Deleuze para o original ser minimamente levado em conta. Caso contrário, não seria publicado. Sabia. 
o editor era um sujeito alto, calvo, nem magro nem gordo, alvo, veias azuis, meio anêmico, que aparentemente namorava sua própria capacidade de pensar como era delicioso ler algo em que o ensaísta americano da vez meditava sobre a masturbação das vírgulas em Henry James. E pediu a ele para fazer uma cópia xerográfica de um dos livros que portava consigo: um poema épico modernista americano, numa edição barata da Penguin:
-a gente não topa com essas coisas por aqui todo dia – disse, resignado.
era ainda a fase heroica da net:
-cê acha que pode me dar uma resposta até o final do mês? - disse Arthur, quando de fato importou dizer algo. Embora tenha demorado chegar a esse algo.
e olha que antes já tinham passado pelas usuais bílis e perrengas entre escritores. Quem trepou com quem. A gafe cometida pelo Beltrano no lançamento do livro da Sicrana. A Mulher do F., que o trocou por uma aluna. O cômico prefácio do J.M. Como era desastrada a tradução daquele clássico da historiografia dos Annales feita pelo Fulano de Tal dos Anzóis. Ou aquele tipo político, que sempre se eximia de dar nomes aos bois. Ou, do contrário, o que o Túlio Bonsano aprontara dessa vez - e contra quem - em seu mais recente artigo na Folha, etc.
A pequena coleção de rixas que a alguns alimenta mais que frases ou sintaxe. Parece inevitável que se tenha de descer assim nos assuntos para publicar algo. O quê mesmo? Algo que ao menos Arthur julgava pronto e com algumas boas ideias. Algo em que ele acreditava, na bucha, haver posto um bocado de nervos, tendões. Só para parar ali, naquela sala de editora em São Paulo, e ficar contemplando os ladrilhos vermelhos na parede sem muita previsão do que a vida reservava. 
Uma coisa, no entanto, não reservava: a capacidade do editor perceber nos seus gestos, o tempo danado gasto para dispor as frases, daquele jeito, até formar, no todo, aquele algo, que estava ali em laudas encadernadas entre o plástico. 
E, não obstante, no navegar ainda não virtual da conversa, aquele algo tenha assim chegado quase como alga, boiando sobre as ondas, ao acaso. E, de repente, num manhã inesperada, algo está no seco da praia. E alguém pisa em cima de algo, como se limpa o dockside enlameado no capacho sobre o batente num dia de chuva. Ou então se retira o tênis depois de pisar na gosma - merda ou vômito - com um esgar no rosto:
-olha, cê sabe que a gente quase não tem editado poesia.
lá fora, uma moto passava avulsa. E o grande tráfego da 23 de maio, alguns blocos adiante, troava seu ruído branco na desgraceira sem fim de São Paulo.

Pedaço de Carne




quando eu morrer, vou ser um pedaço de carne

e nenhum anjo posto na sombra vai

me dizer para ser isso ou aquilo. ou

quem sabe, as moscas varejeiras digam:

será que vale a pena tirar sangue desse aí?

não. o sangue dele é ruim, viu? Tinha ruim até

no nome. leu demais, ficou mofino: o

sangue, fino; ralo como os cabelos sobre

a  testa. e a gente, a gente sabe que o 

sangue de um tipo assim não presta

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“pra todo mundo mas não pra qualquer um”




o mesmo coronel, que prendia e espancava os amigos, mandava-lhe flores. Recadinhos. Fiu-fius. 

mesmo que nada. 

um dia conseguiu abordá-la, no camarim:

como é que é isso, Leila: você dá pra todo mundo, menos pra mim?”

ah, obrigada. um buquê lindo, incomum”- retrucou a atriz – "pois é. eu dou pra todo mundo, mesmo. mas não dou pra qualquer um”.

Dentes Brancos: Zadie Smith



Zadie Smith em foto promocional (mais acima), e numa cerimônia de entrega de prêmios, em 2010 

Zadie Smith, David Foster Wallace, Jeffrey Eugenides e Jonathan Franzen contam entre os mais decantados escritores em língua inglesa surgidos nas duas últimas décadas. Recentemente Zadie Smith lançou mais um romance: NW - que é a abreviação para North West London, o código postal (postcode) da área. O livro, frequentemente comparado em desvantagem com o propalado romance de estreia da autora, o catatau White Teeth (2000), tem recebido uma apreciação mista. E um tanto morna. Com um, outro entusiasmo avulso.¹ Essa escritora, filha de inglês com jamaicana, nascida e criada na multiculturalidade pulsante (e um tanto desencantada) do Norte de Londres, hoje vive entre esta cidade e Nova York, onde é professora num programa de Redação Criativa (Creative Writing), além de escrever regularmente para prestigiosos suplementos literários. Fica a sugestão da leitura de White Teeth, a exemplo do Infinite Jest (1996), de Wallace, um daqueles livros que nos perspectivam diante de nosso tempo. E, de algum modo, fornece chaves para entendê-lo melhor. E, em geral, vindas de onde menos se espera. E abrindo portas para onde se quis estar, um dia. E de um modo mais gracioso que na filosofia francesa. Ou no rap nova-iorquino. O livro foi lançado aqui pela Companhia das Letras há quase dez anos, em tradução de José Antônio Arantes (Dentes Brancos, 2003).


_________________________________
¹Críticos dizem de uma narrativa menos ambiciosa que em Dentes Brancos ou Da Beleza [On Beauty, 2005], livros onde há mais panorama e instantâneos desse mundo mutante e instável dos imigrantes do norte de Londres. (Ou, no caso de Uma Questão de Beleza - assim nomeado, na tradução brasileira, o 3º romance da autora - de uma família mestiça britânica morando na região de Boston). Alguns apontam para certo travo modernista, consubstanciado num fluxo de consciência que deriva de Joyce, segundo uns; de Virginia Woolf, segundo outros, pairando sobre NW. Um tanto como em Uma Questão de Beleza o modelo explícito é E.M. Forster. A história de NW, no entanto, se passa no cotidiano de duas mulheres criadas em North London. Uma atinge certo grau de sucesso e prosperidade, ao contrário da outra; embora ambas tenham chegado à universidade. Uma relação de ressentimento se interpõe. Como amigas íntimas elas se admiram, mas também conhecem os pontos fracos e o lado menos luminoso uma da outra. E há o fato de uma delas assomar mais bem delineada, como personagem. Para além, esse microcosmo londrino é igualmente habitado - e assombrado, como não podia deixar de ser - por quem elas desejam: dois sujeitos que também tiveram sortes muito distintas ao longo da vida. James Wood, o eminente crítico - que criou o conceito de "realismo histérico" justo numa apreciação de Dentes Brancos -  investiu com força contra o segundo romance de Smith, The Autograph Man (2002). E há um misto de fascínio e repulsa nas análises de Wood. Entre outras coisas, ele acusa a autora de converter situações sociais em personagens, esvaziando-os da possibilidade de um indivíduo. Mas mesmo Wood, um crítico feroz da equívoca hiperdisposição narrativa;  dos excessos meta: da profusão de citações, referências teoréticas, linhas paralelas de narração curtocircuitando-se ou conduzindo a detalhes mesquinhos; dos autores usurpando personagens e pondo palavras improváveis (ou no mínimo demasiadas) em suas bocas; e dos demais pastiches nessa prosa pós-industrial; não se furta a louvar a veia cômica de Dentes Brancos. Embora, no caso específico de O Caçador de Autógrafos (assim nomeado na tradução brasileira), ele proteste contra uma escrita que "é a mais próxima que uma escritora britânica chegou de soar como um(a) americano(a); o resultado é perturbadoramente mutante". Ou ainda: "o romance, que se passa num Norte de Londres e numa Nova York imaginários, porta o selo de escritores americanos, tais como David Eggers e David Foster Wallace, exibicionistas natos e astutos, QI's com I-Books, sujeitos que, no dizer de Smith, 'sabem das coisas', escritores com um dom para uma vertiginosa análise cultural e cuja prosa é vincada de interrupções" e de referências a metateorias e quejandos. Mas, mesmo aqui, não deixa de ser interessante que esses escritores virtualizados, já escrevendo na ambiência do hipertexto, mudando de continente como quem troca de roupa, perfeitamente desenraizados, elejam um lugar específico da memória como lastro de suas vidas. Caso da decadente Detroit que assombra a prosa de Jeffrey Eugenides; da Saint Louis das lembranças familiares de Jonathan Franzen; ou do Norte de Londres, mutante, revolvido e pós-industrial dos romances de Zadie Smith. O que James Wood lamenta é algo que situa-se a meio caminho da motivação, da pulsão comunicacional desses jovens escritores e o modo como empreendem esse registro: eles constroem sua linguagem a partir da estilização de uma fala que, bem entendido, está impregnada de absurdas referências pop (advindas, num primeiro momento da televisão, dos discos e filmes, e, posteriormente, da internet); mas, de outro modo, parecem não guardar suficiente distância disso. E, logo, assomam mais como resultantes desse estado caótico de coisas, que propriamente no papel de críticos mais abalizados desse panorama desolador. Os reclamos de Wood fazem sentido, desque a gente os entenda como algo que deplora não o retrato, em si, desse estado de coisas, mas uma espécie de vazamento da cultura pop para a prosa de vanguarda formatando, assim, um híbrido que desagrada ao crítico formativo, conservador, excessivamente apegado à ideia da narrativa e de um conceito mais ortodoxo de realismo, como é James Wood. Ele percebe bem: enquanto aparentemente apenas tecem uma espécie de sátira deste nosso mundo espetacularizado e coisificado, os romances também sucubem, eles próprios, à espetacularização, à coisificação e à banalização do  lixo midiático e pop no Ocidente: "a identificação de um problema não é necessariamente algo que se contrapõe a ele, e pode ser tão só uma simples cumplicidade: foi precisamente essa estrutura do romance trívio-tatuado de Rushdie, Fúria, que posava como um desafio, quando era em realidade uma carta de amor à sociedade do espetáculo". Ao se contrapor a esses jovens escritores, alguns, dentre os quais, mais ou menos da idade dele próprio, Wood, ironicamente, também ajuda-os a se definir e se enxergar melhor no panorama de mutações pelas quais tem passado a prosa em todo mundo - e no mundo de língua inglesa, em particular - nas duas últimas décadas, as do surgimento da internet e do livre compartilhamento de arquivos. E não deixa de ser um bocado abalizado - e mesmo um bocado divertido - o modo como Wood transpõe à tela do processador de texto suas inquietações sobre os admiráveis (e aterradores) novos rumos, as mutações e as reconfigurações do romance:


Incidentally, novels in which the leading characters are human Cray computers of arcane trivial facts, in which people quote Casablanca to each other, or start conversations with challenges like ‘name three vintage Hollywood decapitations’, or go on about Kitty Alexander and Lauren Bacall, are now coming to seem dismally familiar. We have had High Fidelity, and White Noise, and Quentin Tarantino, and The Sopranos, and Fury, and by now we get the idea that we are poor sops in the society of spectacle, and that everyone under fifty speaks in consumer clichés and TV tags. It may be time to retire this little observation.
[London Review of Books, 2002]


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Mano Menezes: sobre o inoportuno da demissão e a sonoridade do nome Guardiola




primeiro, a demissão de Mano Menezes é um alívio. Segundo, a imprensa especializada revela-se um bocado boboca, sem ideias, quando se constata o modo como analisa a demissão – em geral, taxando-a de inoportuna. Ou então, aferindo-a pela afabilidade do ex-técnico ou as conveniências das fontes já sedimentadas, próximas a ele. E que, em boa parte, eles irão perder. E terão de reconstituir, etc. Terceiro: seria ótimo se o boato sobre a vinda de Guardiola tivesse um fundo de verdade

sobre os pontos 2. e 3. - já que 1. é o óbvio: 

a imprensa devia regozijar-se, porque num período sem muito assunto de futebol, dezembro e janeiro, terá um verdadeiro boi-de-piranha: especular sobre quem será o novo técnico da Seleção. Logo, não foi nada inoportuna, mas até mesmo estratégica, a data escolhida pela CBF. Findaram os amistosos do ano, demite-se o técnico. O óbvio teria sido demiti-lo logo na mudança de comando, já com o outro nome na bucha¹

por seu turno, argumentar que o futuro treinador só irá beneficiar-se do trabalho de Mano é um truísmo e uma inverdade. Como se por conta de algum mínimo padrão de jogo ou uma ou outra vitória recente, sempre contra adversários de segunda linha, fossem então esquecidas as deficiências, as derrotas em competições importantes - sobretudo a Copa América - e as péssimas estatísticas da era Menezes²

querer, aliás, que um técnico não se beneficie do trabalho do anterior, é exigir que ele comece rigorosamente do zero. O que não existe. Em nenhum ramo de atividade. Aqui, aparentemente, boa parte da crônica esportiva mais contestadora - nomes como PVC, Juca Kfouri ou André Rizek - misturam política com eficiência. Pode ser que Menezes represente algum avanço político - que, de resto, não vislumbramos bem onde está. Porém, concretamente, nenhum avanço desportivo

agora, o que existem são técnicos capazes de armar um time. Dotar-lhe de um padrão de jogo e de um instinto competitivo. Ou então, capazes de ler uma partida. Ou, no intervalo, fazer o time voltar melhor, mais organizado e aguerrido para o segundo tempo. Apto a voar em campo. Coisas que Mano não conseguiu em dois anos. Assim como não conseguiu bater nenhum adversário mais respeitável. Bem ao contrário de Dunga. E os progressos foram pífios. Também ao contrário de Dunga. E se a tendência de copiar a longevidade europeia fosse para ser seguida á risca, melhor mesmo era que Dunga tivesse prosseguido. Mas Dunga era demasiado brusco e impaciente com a imprensa no sem-razão das coletivas

não se entra no mérito de quem compõe a CBF. Ninguém cheira bem por ali. Muito menos Andrés Sánchez. E vê-lo longe, sem chances de assumir a entidade, é também um quadro a desejar. Porque entre maus necessários e uma faxina geral, não custa nada sonhar com a última. Sonhar ainda é livre. Além disso, qualquer coisa que apequene o excessivo poder de barganha do Corinthians é bem-vindo. O time é a menina dos olhos da Rede Globo e do PT. Não é pouca coisa. Mas o Brasil necessita é de um maior espírito federativo, inclusive no futebol. E logo, o modelo devia preocupar-se em desconcentrar, justo o que não tem sido feito. Ou seja, nos contratos televisivos o que se vê é uma desmedida (e predatória) valorização das cotas de times do Sudeste/Sul, o que debilita ainda mais os do restante do país

como se não bastasse, houve um rebaixamento geral de importância do próprio Campeonato Brasileiro. Ele é visto, hoje, muito mais como trampolim para a Libertadores e, logo, para o Mundial de Clubes. Não devia ser assim: os méritos de ser campeão brasileiro merecem, de algum modo, serem dissociados da Libertadores e ganharem vida própria, pois são coisas distintas

por fim, seria bom se Guardiola viesse ensinar um pouco de futebol brasileiro para a gente. Genial mesmo. Deixaria no prejuízo todos esses retranqueiros de plantão: Muricy, Abel, Tite, Felipão, Luxemburgo... Técnicos resultadistas, pragmáticos, ultrapassados. O confronto mais constrangedor em favor de europeus contra brasileiros que já assisti na vida: os 4x0 e a atitude geral do Barcelona diante do Santos há um ano. Pareciam profissionais jogando contra a várzea: o que foi aquilo? Uma ocasião em que o futebol brasileiro foi humilhado, batido com brilhantismo e de muito. Isso não se vê todo dia, aliás

a vinda de Guardiola iria de encontro a procedimentos desagradáveis mas mais estabelecidos que mão de vaca na gastronomia popular. Ou mesmo transformados em rotina. Como a convocação de jogadores apenas para valorizar-lhes a venda ao exterior. Assim como outros vícios e más posturas ligados ao jogo em si: excessiva "malandragem"; preocupação com cavar faltas, cartões, com pressionar o juiz; obsessão por volantes brucutus ou os tais jogadores "táticos" (como nos últimos tempos Thiago Neves); uma certa incapacidade para lançar talentos da base; o monopólio de jogar sempre em contrataques, não ter saída de bola de pé em pé, não operar por trocas de passe; acomodar-se inevitavelmente após magra vantagem no placar, e legar ao adversário o protagonismo do ataque; dispensar demasiada importância a detalhes secundários, tais como comemorações coreografadas, ou a vida privada dos atletas extra-campo, ou o corte de cabelo, as tatuagens e cores das chuteiras, etc. Enfim, é preciso recobrar foco: e reconcentrar-se na essência: jogar bola. Fazíamos isso bem, faz um tempo

e, nesse rumo, dos males o menor: Guardiola tem esse nome meio Coca-cola que parece radiola, vitrola, esmola, padiola, carambola. Um nome que está prestes a incorporar a própria bola. A circunscrevê-la. Um nome, de alguma forma, esférico, long-play, perto da gente

Guardiola parece talhado para desafios épicos. E ele - que já foi treinado no final de sua carreira de jogador, quando esteve no Qatar, por Pepe (José Macia, ex-Santos) - aprecia isso. E nem por sombras, em clubes ingleses - azeitados a petrodólares, xeiques, magnatas russos ou escroques do gênero - acharia um desafio maior do que levar o Brasil ao sexto título jogando em casa

um tanto improvável. Deve ficar entre Tite e Felipão. Mas a conferir. Embora qualquer rebotalho, e mesmo a pior hipótese - um Felipão, retornado sem melhores ideias, depois de despedido de um time que caiu para a segunda divisão - parecem melhores que Mano. Embora, quanto à filosofia geral da coisa - resultados e estatísticas a parte - seja apenas trocar seis pela metade dos apóstolos 

ou prosseguir com a escola gaúcha à frente do Scratch



_____________________________
¹A CBF, que originalmente havia programado a divulgação dos nomes da nova comissão técnica para janeiro, antecipou-a para 30 de novembro de 2012 - três dias depois da redação deste artigo.
²E, aqui, é mais fácil, então, desvalorizar competições, como se existisse apenas a Copa do Mundo. E a Copa América - que é o campeonato continental entre seleções mais antigo do planeta - devesse ser visto como um torneiozinho de várzea. Ou algo espúrio se comparado à Eurocopa. E porque Mano Menezes, o técnico que supostamente era um índice de modernidade - uma vez que havia sido posto ali por alguém de esquerda, Andrés Sánchez, numa carcomida federação guiada por direitistas com conexões com a ex-ditadura - entendeu que a Copa América era para ser disputada sem nenhum afã de ganhar, etc. Ora ao Brasil, tenha sua federação dominada por direitistas ou esquerdistas, mais ou menos corruptos, exige-se uma ética: entrar para competir forte e ganhar. E não sair batido de campo depois do desastre, sem contorno, de haver perdido quatro pênaltis numa quarta de final

O blogue enquanto forma

Zoe Williams, 2011

em Afetivagem, tentou-se o blogue enquanto forma. Entenda-se isso quase no sentido secundarista que temos de gênero literário. E então pense o blogue enquanto gênero: mais ou menos como se pensa em romance, conto, novela, crônica, crítica, poesia lírica, ensaio, memória, letra de música, tradução, pastiche, reportagem, travelogue, etc. Pense, análogo a esses, um gênero chamado blogue. Até porque por aqui há todos os gêneros, em todos os sentidos - com a possível exceção do romance. Ou do poema épico, desnecessário dizer

é por aí. E também por aqui

havia predisposto que este ano escreveria ao menos um post por dia. Foi mais. Embora haja considerável quantidade de bobagem. Ossos inevitáveis do ofício? Não. Mas é preciso ser magistral para escrever coisas boas todo dia. E se não é o caso, também não se deite à escarradeira o que deve ir para o álbum
mas em dado momento, escrever todo dia impede textos mais longos, encorpados, devidamente revisados. Ou algum poeminha ou tradução a mais. Ou mais bem faturados. Embora algo do momento deva restar, como na prescrição de Carlos Williams: “if anything of moment results-so much the better", etc.
queria provar a mim mesmo que posso escrever diariamente. E pude. E posso. E que os posts, em geral, divertem. E, do contrário, há também textos mais densos ou mais longos. E houve até o momento em que textos curtos ameaçaram nos conduzir para algo mais amplo como o romance. Uma ameaça de romance. Ô coisa tentadora.  E porém ficou só na ameaça, na tentação

como deve ser, quando ainda não deve ser, etc.



NOTA POSTERIOR
se é preciso ressaltar alguém: você, leitor. Você que esteve mais por aqui neste último ano que nos 5 anos anteriores somados. MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Emily




Eu não sou ninguém. E você: é quem?
Será que você é ninguém também?
Isso dá dois de nós, você vê.
Mas não diga. É segredo.
Senão eles nos põem na TV.

sábado, 24 de novembro de 2012

Necrológio ao modo de Aldir Brasil Jr.


I Dream of Jeannie, c. 1969

Todos tínhamos uma queda por Jeannie. Por isso queríamos ser o Major Nelson. Havia uma cervejaria: Astra. A Guilherme Rocha ainda era uma rua perfumada. E um outro Major, o Asthon Guilherme, comandava a litania do dia por mensagens de alto falante. Que perfuravam o alto falante. Que eram quase auto-falantes. Embora nos azulejos alguém ainda ia escrever com imprudente inocência: “o Major comeu a Dona D'Alva”. E embora as ruas de cinema fossem a Major Facundo e a Floriano Peixoto, as meninas saíam da Vox, deixando um doce rastro de Rastro, que pisava sobre chinelinhos de tira. A Catedral tinha uma só torre. Apostava-se: ela ou o Castelão ia acabar primeiro? Mas só um bronco não via: o Megatério era o Prédio da Receita. E sua construção acabou antes das outras duas. Rápido como um golpe de kung-fu. Lento como a espera, e vê-la no recreio, dia seguinte. E o mestre dizia no recôndito templo Shaolin das quintas-feiras: "Gafanhoto, não vás ao Center Um sem cem mi-réis no bolso. O Tasso, que tudo vê, pode não gostar". Entrementes o Rosa da Fonseca atracava no Mucuripe. E carregava mais uma leva de passageiros até Manaus. O Padre Jessé dava graças ao Senhor por Ele ser bom. A modernidade era subir a escada rolante da Lobrás, e tomar um milk shake. Tomai e comei, todos vós. And Aubrey was her name. Diziam que iam inaugurar uma TV Educativa. O Major? Nossa primeira encarnação de Big Brother. Embora mais propriamente seu nome fosse Edson. Talvez. E ele distribuísse gás. Minhas asas são como uma couraça de aço. Nenhum animal deve dormir em cama, com lençóis. Mas isso, ressalve-se, é já um terceiro Major, noutra ficção. Uma já menos mágica edição da coisa. Tudo em vão? Nem sempre. É. Nem sempre a gente consegue ser piloto do que deseja. Ser aquilo que deseja. Major, vá desculpando. Vá desculpando aí. No duro, no entanto, até o que não víamos de tango, Paris, cabia no piscar de Jeannie. O império, os sentidos. Principalmente quando se passava pelos corredores do Ibeu, desejando aquelas professoras já levemente sazonadas. Curtidas por mãos, línguas, membros, como pós-raparigas em flor. E as sombras. Nossos olhos como que adivinhando: como era a carnadura da realidade oculta sob e moldada por mescla, volta-ao-mundo, linho, poliéster, algodão? Dias imensos resplandeciam. Em que o céu mal comportava fiapo de nuvem. E havia quintais com mamoeiros, caixas d'água. E, enfim, varais onde a roupa estendida dava testemunho de silhuetas e noites. No silêncio tique-taque da sala, as fogo-pagou propagavam um lamento miúdo e terno, na calma das manhãs. E, então, no pátio, havia o pé de sapoti, junto à cantina, tarde a meio. Os olhos claros da menina. E as meninas. Utopia suprema. Bem-aventurança. Tão fugaz advento, como quando se tem catorze. Os nomes delas: Cynthia, Denise, Jacqueline, Celina, Márcia, Giselle, Ana Paula. Um lago ainda límpido, com botes de pedal, no Parque das Crianças. E um vestido ao vento. E os segundos navegando no lago em botes de papel. E o tempo, então, passou numa fricção de piscar: carnavais, shows, festivais. Longos dias na praia. O desejo de ter uma banda. Pós-graduações de morango, para sempre nos aguardariam no futuro da praia. Campos do América no caminho do Líbano. Damascos ao gosto de cada um. Capitães da Areia. Praias do futuro. Returnos. Torneios de ping-pong. Grafa aí: Grapettes. Major, não precisa pedir desculpa. O colorido ainda chegando a prazo na imagem da Telefunken. E logo se voltava de Manaus. Ou da Colônia de Férias. Em Iparana. Na Cofeco. E o gosto do milk shake tinha algo dos lábios de Jeannie. Tingia algo nos lábios de Jeannie. O Romcy. O Jumbo. O Jairo. O Vegas. Quem bebe. Empadas de carne moída e azeitona. Grapettes.

O Major Nelson morreu hoje.

Não há quem possa


Sobre a grama do Rasunda, o timaço de 58: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar (em pé); Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e o massagista Mário Américo (agachados). 

Ontem, fechou as portas, em Estocolmo, o Rasunda, estádio em que o Brasil ganhou sua primeira final de Copa do Mundo, em 1958. O estádio foi inaugurado em 1937 pelo Rei Gustavo V, com as célebres palavras: “declaro aberto este novo estádio de tênis” (sic). 

O Rasunda será demolido para a construção de prédios residenciais.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ladainha

Jeff Larson, 2000



oh, mulher de olhos fechados à beira da piscina, pensa em mim e em como eu perdi a minha rima.

oh, mulher com uma melancia na cabeça, pode ser que não gostes de mim, mas por favor não me esqueças.

oh, mulher com um periquito no ombro, a primeira vez que assuntei nos teus lábios foi um verdadeiro assombro.

oh, mulher preparando cup cakes, a simples lembrança dos vincos no teu rosto makes me ache.

oh, mulher sonhando um passeio de rio em tocantins, bem sei: mais aprecias o boi de parintins.

oh, mulher envergando pés de pato, será que para ti não fui mais que um carrapato?

oh, mulher com iPhone na mão direita, porque com a esquerda rebates minha desfeita.

oh, garota calibrando o material rodante, qualquer dia desses vamos bater numa aldeia xavante.

oh, mulher disputando os cem metros rasos, desculpa-me as precocidades. e os atrasos.

oh, mulher cantando marisa monte, a cada vez que te vejo, desapareces no horizonte.

oh, mulher batendo um bolo de cenoura, não sei qual a mais torta, se és tu ou se é a moura.

oh, moça que gerencia o estafe do centroavante, volta e meia dou meia-volta no carro, para te ver mais adiante.

oh, mulher passando de skate lá fora, se já me deste antes, porque não me dás agora?

oh, fulana jogando capoeira, tens algo de iemanjá, de joana d'arc, da beltraneja.

oh, menina remando contra a corrente, diz-me ao ouvido uma oferta para lá de indecente.

oh, princesa brandindo uma caçarola, será que um dia ainda vou te dizer: corra, lola, corra?

oh, ofélia esparramada em praia sob castanholeiras, não me deixes aqui assoviando “el dia que me queiras”.

oh, julieta armando instalações pelo país, me encontro tão mal amado, que já nem sei: tenho raiz?

ah, tesouro com lábios de monica vitti, por que não compareceste ao meu convite?

oh, marília escrevendo dissertação de mestrado, e fazias tão bem pato no tucupi, maniçoba, pirarucu grelhado.

oh, mulher nadando os duzentos metros borboleta, e ainda lembro a primeira vez em que beijei-te a silhueta.

oh, mulher assistindo sci-fi em cinema poeira; se for do teu agrado, amanhã mesmo plantamos um pau pereira.

oh, mulher, mulher, quando chegar meu outono, empurra direitinho minha cadeira até a fono.

oh, amor, quando eu descer ao último endereço: darás para o cafetão? para o gângster? mas não a qualquer preço.

oh, mulher com o cartão de crédito na mão, podes comprar o conversível, mas deixa para outro o caminhão.

oh, gata assistindo ao grande prêmio da malásia, que no futuro sejas contra esse negócio de eutanásia.

As Melhores Virtudes: the Grateful Dead

John Huston, The Misfits, 1961


Please forget you know my name


Se há um grupo que sintetiza as melhores virtudes americanas da compositividade, de algo um pouquinho mais mestiço, californiano, que aponta e aposta à fronteira e ao futuro bebendo nas fontes, esse grupo deve flutuar entre Crosby, Stills & Nash e o incrível Greateful Dead. Naturalmente menos careta que aquele patriciado puritano e auto-suficiente da Nova Inglaterra, do Leste em geral, esses grupos guardam uma pulsão tão forte, inexcedível de terra e gente combinadas em lugares e momentos do agora, que sua dinâmica musical revela - por despojamento e simplicidade - algo muito mais sofisticado que a aparente sofisticação um tanto mercadeada e afetada dos grupos britânicos em geral. Há uma proximidade, uma familiaridade com o assunto tratado, que, quem as despreza, não faz mais que entregar um punhado de pérolas aos porcos. Fico pensando como devia ser para esses caras que entendiam por dentro o ritmo, a dinâmica harmônica, lírica e melódica de seu povo, verem a sua música assumida – e mesmo conduzida – por outros que dela faziam, às vezes, uma qualquer outra coisa. Como uma espécie de “forró universitário” diante do “pé-de-serra”, se me entendem. 

Para todos os efeitos, toda vez que o Dead tocava, o “pé-de-serra” deles ganhava desdobramento e modernidades:



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Comprar Bravatas, Fabricar Porcarias



Voracidade e Cinema


Há o caso clássico do cigarro. O produto só começou a ser estigmatizado pelo Estado quando se constatou que os gastos da previdência com as doenças provocadas pelo tabaco eram dramaticamente maiores que os impostos ou a verba, via caixa dois, que comprava a bravata de legisladores, congressistas.¹

Mas também até a década de 1970, o grosso da população brasileira não limpava os ouvidos, a não ser externamente. E à essa altura a Johnson & Johnson e outras transnacionais da assepsia entenderam que era necessário faturar ainda mais. Fabricaram, anunciaram, venderam milhões de pequenas hastes flexíveis com chumaços de algodão nas pontas. Milhares de tímpanos estourados. As filas aumentaram na porta dos otorrinos. Até que, muitos anos depois, se constatou: aquilo de ouvidos totalmente livres da secreção não era lá muito saudável. Além disso, há o que se gastou com um produto nem sempre biodegradável: as hastes e os frascos que as acondicionavam, em plástico não reciclável; o algodão; os rótulos de papel, etc. Centenas de milhões. Um desperdício sem volta. 
Tudo isso foi alçado à condição de uma necessidade asséptica somente em nome da expansão do consumo, do lucro. Pura ganância. Quantos desses produtos que nos minam a saúde não consumimos hoje em dia? E morreremos sem saber do malefício que causam. 

Nós, as galinhas dos ovos. Nós, produtos privilegiados: porque devoramos outros produtos.

Com voracidade e cinema.




--------------------------------
¹E, digamos, se eles descobrirem que abortar sai mais barato e dá menos ônus ao Estado: por que não financiariam campanhas pró-aborto? É o que o PT e o governo brasileiro fazem subrepticiamente a todo instante. E os incautos vão na onda. Inclusive muita gente de boa vontade. Porém já acostumada a ir com as Marias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Todo Inútil Esforço - (fragmento sobre "identidades" e "preconceitos")




Todo inútil esforço de um suposto auto-conhecimento a partir da determinação de identidades tem um custo altíssimo: propor determinada imagem de reparação social como instrumento de purgação.¹ Isso implica que determinada minoria é melhor do que os demais humanos porque pertence a uma identidade que historicamente sofreu mais abusos e violências – e por isso deve ser compensada de “alguma forma”. 

Isso é perigosíssimo porque esse “alguma forma”, do modo como está a ser proposto, não pode surgir a não ser pelo desencadeamento de uma nova sucessão de “bodes expiatórios”. Da fabricação de novos Judas, que precisam ser malhados: os que na política não são de esquerda; os brancos; os que moram em países pós-industriais mas não se engajam em "causas sociais"; os que moram em países periféricos mas não são pobres nem interessantes de serem apropriados como "matéria de análise" - porque não são exóticos o suficiente; os que professam uma religião; os ricos; os heterossexuais; os não ambientalistas; os incluídos digitais; os que não militam em ONGs; os que não necessariamente leem poesia de vanguarda às seis e meia da tarde; os que não são muito ou nenhum pouco discriminados [estes supostamente contariam entre os piores: não ser discriminado hoje é praticamente crime, porque um dos condões do politicamente correto passa não só pela glamurização dos discriminados, mas também por certo aviltamento deliberado de todos que não o são]; os que se espantam quando os calangos soltam o rabo para fugir do predador; os que não gostam do design dos cílios dos lêmures; etc.

Ora, é possível (e até mais razoável), fazer justiça social sem cair na ratoeira da geração desses novos “bodes expiatórios”. Ou seja, constatar que houve crimes históricos, sim, mas sem necessariamente penalizar os vivos, se eles não  mancharam mãos no caso em crivo.

Sem bodexpiatorá-los. Ou criar cidadãos de segunda classe.²

(E é perfeitamente possível inclusive sintetizar essa perspectiva sem necessariamente passar por René Girard. Embora haja algumas boas sugestões em Girard.)³

Espanta igualmente que as pessoas não pensem a fundo determinadas questões. Essas questões chegam pela imprensa numa postura "pegar e levar": "é preciso tirar o véu das mulheres árabes, como forma de liberá-las"; "a legalização do aborto é condição sine qua non para salvaguardar a vida de mulheres pobres"; "islâmicos são toscos, atrasados, radicais e pouco propensos ao diálogo"; "o laboratório mais avançado de convivência social são sociedades multiculturalistas, como o Canadá ou países predominantemente pós-industriais", "a construção da represa de Belo Monte implica numa inarredável tragédia ambiental", "dizer que determinada zona pobre é violenta é também descriminá-la"; etc. 

Essas questões são postas sob uma disposição naturalista: o melhor "é isso". São postas de um jeito tal, que para levar: as pessoas compram o jeito tal, meio por inércia. E levam essas meias-verdades para casa como se fossem verdades e meias. E, então, as questões são assumidas como uma espécie de consenso ético. Com uma pressa ética. Quando, na verdade, não há nenhuma análise. E esquece-se: quase sempre, cada caso (concreto e histórico) é um caso: "tirar o véu" das mulheres no Irã certamente não é o mesmo que tirá-lo na Arábia Saudita, por exemplo. Ou possuir sua matriz energética toda assentada em energia atômica, e ainda ter o desplante de vir até aqui e financiar campanhas ambientalistas contra a construção de hidrelétricas (inclusive com boicotes e retaliações na OEA) é um pouco demais da conta. Para qualquer um com o mínimo de independência e critério, é impossível não perceber a carga de parcialidade e propaganda sub-reptícia no modo "default" de "debater" - ou mesmo propor - determinadas questões na mídia hoje em dia. E por quê?

Porque esse modo "default" de propor as questões nunca é obviamente neutro, apesar de apresentar-se - e mesmo fazer um esforço danado - para apresentar-se como tal. E espanta o tanto que as esquerdas, em geral - e todo esse discurso de "identidades" e "preconceitos", em particular - surgem uniformizadas de um autoritarismo sufocante, plano e bastante semelhante às práticas e violências fascistas que se estavam constituindo lentamente há um século atrás.[4] E só para germinar, mais adiante, na catástrofe da II Guerra. Mas, agora, é como se as próprias esquerdas - que um século atrás (sobretudo por meio dos anarquistas e dos independentes) combateram o totalitarismo - bancassem a redistribuição revigorada desse totalitarismo como tarefa sua. E desde dentro de suas próprias plataformas. E vendendo essas mentiras a peso de liberdade. E em embalagens bastante atraentes aos mais jovens e rebeldes.

Se há algo próximo do fascismo hoje em dia - com sua intolerância e franca hegemonia de discurso - é o politicamente correto, núcleo duro da última cartada inadvertidamente neo-colonial. Mais do que isso, trata-se de uma teoria gestada no mundo dito pós-industrial exatamente para tentar se ver livre da alteridade e dos influxos culturais levados para lá pelos imigrantes recentes. Justo aqueles que as elites e os teóricos pós-industriais dizem defender com mais zelo: latinos, asiáticos, índios e negros na América do Norte; caribenhos, africanos, árabes, turcos e indo-paquistaneses na Europa. 

Em verdade, esses teóricos e essa elite pós-industriais encontram-se loucos para aplacar esses imigrantes, e assimilá-los culturalmente sem o suposto ônus de uma assimilação étnica, na carne. E porque sabem que praticam injustiças frontais contra esses imigrantes. E que podem fazer isso, porque são sociedades afluentes, que no passado também agiram como acumuladoras de capital a partir da exploração de recursos de outrem. E esses outros nunca foram ressarcidos pela pilhagem. Ou pior, continuam a ser pilhados - como no particular caso dos países africanos. E por uma intrincado jogo financeiro em que europeus e norte-americanos levam a parte do leão, embora em produtos feitos a partir das matérias-primas e do suor alheios. Algo que se perpetua até hoje. Como se não bastasse, eles podem reservar em seu quintal, os trabalhos mais pesados e degradantes aos imigrantes. E pagá-los a preço de banana, embora ainda melhor que nos países de origem desses imigrantes, etc. 

Ora, em nosso caso específico: a cultura brasileira é muito mais dinâmica nesse sentido: ela absorve e integra - inclusive etnicamente - essas diferenças, coisa que durante séculos e até hoje em dia os que habitam boa parte da Europa, da América do Norte, da Oceania e do Japão receiam, hesitam, ou encontram grandes dificuldades diante dessas questões (e práticas). E, logo, tem de achar um discurso teórico que legitime essas práticas descriminatórias, de segregação e gueto. Partem para as assunções multiculturalistas.

O projeto multiculturalista canadense: o que tem gerado? Uma sociedade frágil, repleta de segregações e guetos para todos os lados. Onde todos aparentemente apenas se toleram desde que cada um em seu devido lugar. Ou seja, em seu gueto. E ficam vedadas as transposições em contrário. Quase o mesmo se dá nos Estados Unidos, com a possível exceção da Costa Oeste, onde, na Califórnia, algo mais efetivo, no sentido da mestiçagem se tem processado. Mas também cerca de metade da população californiana é de latinos que, mesmo quando brancos, são muito mais inclinados à ideia de mestiçagem que os anglo-saxões. Embora sejam justamente os anglo-saxões quem têm produzido a maior parte do discurso adotado pelas universidades brasileiras e pela orientação do governo brasileiro quanto ao modo como lidar com a questão étnica. A França recentemente emitiu um documento de Estado reconhecendo a falência do modelo multiculturalista. Os britânicos não parecem muito mais entusiasmados com a perspectiva.

Virando a página, nesse aspecto, nós somos os que devíamos gestar teorias sobre diversidade e convivência com muito mais propriedade. Porque, no fundo, questões como etnicidade e multiculturalidade têm sido historicamente muito melhor resolvidas por aqui. E há muito mais tempo. O que também não quer dizer que haja sido algo desprovido de conflito ou drama. Ou enormes distorções e violências. Algo que não comporta distorções a contornar. Ou mesmo uma grande revisão histórica.

E, no entanto, essas distorções são tão historicamente distintas das que existem em qualquer outra parte - à exceção de em alguns países latino-americanos, de realidades históricas bastante rentes às brasileiras - que é uma verdadeira insídia, além de perda de tempo e energia, transpor as (supostas) soluções ipsis-litteris para nossos contextos e latitudes. E sem escamá-las. Como o que está sendo feito no caso das cotas em universidades. Nosso sistema de salvaguardas sociais deveriam existir, é claro. Mas ser outros, mais condizentes com nossa realidade. E não esses tais - como cotas étnicas em universidades - importados de um modelo norte-americano que se compraz em fomentar a rivalidade entre brancos e negros: e por quê? se em predominância não somos nem brancos nem negros, mas uma outra coisa que eles sequer sabem o que é, ou ainda vão demorar um tempo para aprender? (Embora o que deva ser analisado, aqui, é a pressa com que o Estado brasileiro quer que muitos se declarem negros, para as estatísticas. E porque, em verdade, não o são.  Muitos deles, são mulatos, morenos, cafusos, etc. Ou seja, são mestiços. Não são totalmente negros. O que está sendo negado, no fundo, é a possibilidade do mestiço ou da mestiçagem - um de nossos trunfos. Como se a mestiçagem, um de nossos trunfos, fosse algo expressamente mau. 

Logo, há uma inabilidade cega, entre nossos intelectuais, para empreender essa tarefa. E assumir essa autonomia de pensamento. (Não é sempre mais cômodo em vez de pensar, receber ideias prontas - ainda que fora do lugar?). E há também uma vigilância cerrada e atenta de governos, agências culturais e universidades estrangeiras extremamente comprometidas e empenhadas em vedar qualquer possibilidade de sugestão que surja numa contramão demasiado distinta desse modo "default" de propor as questões mesmas. O que espanta é que essa seja também a visão do governo brasileiro: algo que, ao invés de congregar e irmanar, divide e secciona. Certa tutela condescendente - mas sobretudo ressentida, agressiva, vindicativa, vigilante - sendo gestada desde lá fora, e a qual compramos, de olhos fechados: sem perceber o gato por lebre da coisa. 




________________________
¹De resto uma noção de sacrifício que nada tem de cristã, por exemplo. (Não especificamente da religião cristã, mas de sua ética, de sua filosofia, que moldou a ideia de Ocidente). Pois a matriz cristã não é, de forma alguma, vindicativa. Quando não só se esquece do perdão como possibilidade, mas incentiva-se uma ética da vingança, da retaliação, também mina-se a possibilidade de uma suplementação social mais harmônica, menos vindicativa, a partir de uma ruptura ou de um evidente crime social historicamente perpetrado. Querer penalizar a atual população da Alemanha, que nasceu depois da Segunda Guerra, pelos crimes de Hitler e de sua geração, é um absurdo tão grande quanto imputar à atual população da América os crimes praticados contra etnias indígenas em séculos passados. Isso, evidente, não retira a reparação da injustiça histórica praticada contra ciganos, armênios, judeus ou indígenas. Muito ao contrário. Mas é patético que se meça o grau de integridade de um indivíduo pelo tanto que ele próprio ou seu grupo foi ou não discriminado. Ou pelo acúmulo de violência social que sofreu ("vítima social").ª E, no entanto, essas teorias étnicas são formuladas por europeus ou descendentes de europeus (norte-americanos, australianos), eles próprios sem qualquer mistura étnica há muito tempo. E visam defender os indígenas que eles próprios exterminaram nas suas latitudes : Europa, Estados Unidos, Oceania. Vá atrás dos celtas ou dos etruscos. Vá atrás dos hunos e vândalos. Muito mais recente que isso, pense nas línguas - como o provençal, o occitânico, o bretão, o basco, etc. que o Estado francês suprimiu até o sec. XIX, para efetivar a unificação política da França. Proibiu, arrasou com essas culturas. E no entanto, não é uma insídia que venham antropólogos franceses nos ensinar como lidar com culturas e alteridades? Ou, a ironia suprema: querem agora ensinar àqueles que, em larga medida são eles próprios descendentes de indígenas - os latino-americanos - como cuidar da questão indígena. Chegar a ser uma grande piada. Não fosse de mau gosto.

ªSer vítima demanda reparação e tratamento. E essa reparação deve ser feita e os cuidados tomados. Porém ser vítima também não faz de ninguém moralmente superior àquele que não foi vítima (e nem por isso oprimiu). 

²Isto é, uma classe após as vítimas. Pois as vítimas também são escolhidas segundo as necessidades dos países pós-industriais. Quem vale mais no papel de vítima? Nesse sentido, um branco (ainda que pobre), ou um índio - e, em certos casos até mesmo um negro, veja você - urbanos valem menos do que um índio na selva, paramentado, envergando ornamentos, cocares e pinturas, (que na maioria dos casos nada têm a ver com a cultura de onde procedem esses índios, aculturadíssimos). Na riquíssima selva. Nem antropólogos são assim bobos.

³Embora, em muitos aspectos, a visão de Girard surja, à primeira vista, bem mais coerente que o discurso do politicamente correto em geral. Especialmente quanto detecta a necessidade de vingança na sociedade pós-contemporânea, como uma sorte de atributo essencial. (Ele não diz isso, mas é possível deduzi-lo). E, logo, uma ânsia por vingança que detém características muito próximas à expiação da culpa em sociedades arcaicas. Ou seja, ao rito que sacrifica a vítima inocente para aplacar nossa sede de violência e assegurar certo consenso interno por algum tempo.ª

ªHá que ressaltar: no caso em questão, as vítimas inocentes não são as vítimas aparentes [negros, mulheres, índios, gays, pobres, judeus, etc.]. Ou seja, quem é sacrificado, é quem já compete com o europeu e o norte-americano mais ou menos de igual para igual: a classe-média urbana onde quer que seja no dito "Terceiro Mundo". Além dos imigrantes, que acabam disputando espaços de trabalho e poder no próprio território das sociedade pós-industriais.

Excertos de uma entrevista de René Girard [à revista Cult,  nº134, 2010]:

A necessidade de expiar a violência mediante o sacrifício de uma vítima arbitrária
Acredito que nossa natureza mimética é responsável pela tendência das multidões de focalizar sua violência em um único indivíduo que se transforme, arbitrariamente, no bode expiatório de alguma comunidade. A matança unânime de uma vítima inocente, no passado, pacificava multidões perigosamente perturbadas e tornou possível sua estabilização.
*
O Bode Expiatório: evacuar a violência interna mediante vítimas substitutas
Acredito que o bode expiatório tem um papel essencial na criação e na perpetuação de religiões arcaicas. As culturas arcaicas foram essencialmente a repetição de sacrifícios religiosos, evacuando a violência interna através destas vítimas substitutas. [...] Uma vez que o ciclo do sacrifício é compreendido, também perde sua eficácia enquanto salvaguarda contra a violência interna.
_______________________
UMA NOTA NOSSA
ª Esta é precisamente a forma de agir do politicamente correto em geral: a sede de achar um culpado expresso para a vítima, ainda quando não haja nenhum (porque os culpados estão mortos há gerações). E, então, esse culpado expresso é exposto para ser odiado. E, na verdade, inconscientemente, convertido em vítima sacrificial, bode expiatório: como alguém pode ser tão “retrógrado”, “reativo”, “opressor”. etc.?
**
O Mecanismo de Mímese, Competição e Desejo
Criamos rivalidade na mimesis, competindo pelo mesmo objeto, desejando os desejos do nosso modelo, o outro. Esta admiração velada do prestígio do outro, do que o outro possui, é a constatação clara de ser insuficiente. Constatação esta muito angustiante e incômoda. Já o modelo, o intermediário, não é passivo dentro deste mecanismo. Pelo contrário, faz de tudo para provocar o desejo do outro sobre seu objeto. Pois, que valor tem o objeto, senão pelo desejo de outrem? Este é o ciclo infernal do desejo. E também dos conflitos.
O Cristianismo Rompendo com a (I)Lógica do “Bode Expiatório”
Devemos tentar ver todos os conflitos e guerras que temos hoje sob a ótica do mecanismo mimético. Mimesis tanto do desejo, quanto do uso da violência. No cristianismo, quebra-se o ciclo. Cristo oferece a outra face e redime seus algozes. Não busca vingança, não derrama mais sangue. É pela cruz, pelo amor, que se dá a interrupção do ciclo de violência. O cristianismo mostrou que a sociedade humana produzia vítimas únicas. A crucificação desobstruiu o caminho para o entendimento do processo da vítima expiatória.
***
Nem Todo Desejo é Sexual, como na Visão de Freud a partir de um Núcleo Familiar que Já se Encontra no Passado
Muitos diriam que tanto na repressão da libido em Freud, quanto no uso do mecanismo de vítimas arbitrárias para aplacar explosões, reside uma ideia similar. Mas não concordo com Freud e com sua teoria de que tudo está relacionado ao desejo sexual. Freud justifica todo comportamento humano baseando-se nesta ideia. Ele foi o primeiro a ver a profunda influência que uma pessoa tem sobre a outra. Mas discordo de sua visão de que a influência dos pais delinearia a personalidade. A visão de Freud ficou muito restrita ao período em que viveu, no qual predominava um certo tipo de estrutura familiar.
****
Kierkegaard, Vazio Existencial e o Desejo do Outro
Para mim, o desejo do impossível e o não-desejo ainda estariam de acordo com mecanismos miméticos. […] Kierkegaard constatou, em sua análise dos três estágios do ser, a presença de um homem que se escora no outro. Possuindo um vazio existencial aterrador, ele procura na observação do outro, do que o outro possui, do que o outro aparenta, uma forma de saber quem é e como sentir-se pleno. Portanto, para ser ele mesmo, este homem necessita tomar conhecimento do outro, como no mecanismo do desejo mimético, onde este desejo somente se faz possível pela intermediação do que é e deseja um outro.


[4]E foram investigadas, entre outros, por Benjamin, Adorno e Kracauer.

domingo, 18 de novembro de 2012

Alguma Música para o Final de Ano e Natal (Edição 2012 – Ano 2)


Carl Theodor Dreyer, Ordet (A Palavra), 1955 


Jean-Baptiste Lully (1632-1687) - o florentino pobre e auto-didata cujo talento levou-o a ser superintendente da música de câmara da corte de França. Libertino, teve casos com mulheres e homens. Segundo alguns, com o próprio Luís XIV - o que é disputado. Era também bailarino. Morreu da gangrena que sobreveio após ter acertado os dedos do pé com o bastão com que se regia à época (marcando com pancadas no chão). Sua música é caracterizado pela prevalência do baixo contínuo. Como nest'As Folias de Espanha:
Há um filme sobre sua vida: Le Roi Danse (2000)

Dietrich Buxtehude (1639-1707) - é o dileto precussor de Bach e expressamente dedicado à temática sacra. Esse compositor teuto-dinamarquês, que também era organista e um fervoroso luterano, chegou a acolher Bach em sua casa. Dele ouviremos um Magnificat (ou seja, um canto de louvor à Virgem por carregar em seu ventre o Salvador. Concretamente, o Magnificat designa o encontro de Maria com sua prima Isabel, então grávida de João Baptista): 

Monsieur de Sainte Colombe (1640–1700) – há um belo filme sobre este compositor chamado Touts le matins du monde. Provavelmente quase todo o filme é ficcional, pois perto de nada se sabe deste compositor da Aquitânia que aparentemente viveu nas cercanias de Pau e era protestante. No filme, Sainte Colombe é retratado como um jansenista recluso. Sainte Colombe foi um dos expoentes da viola da gamba, instrumento que precedeu o violoncelo. E é a peça Le Pleurs (O Pranto) para viola da gamba solo que ouviremos agora. A peça faz parte de um conjunto de temas chamados de Tombeau Les regrets (Tumba dos Lamentos):

Johann Pachelbel (1653-1706) – compositor alemão que viveu ao tempo de Bach. É mais conhecido pelo Cannon in G, que apresentamos ano passado. Este ano, dele ouviremos, uma peça que é uma das favoritas, a Partita "Christus, der ist mein Leben". O tema retorna e é glosado várias vezes em fuga. Esta peça macia, exulta alegriaª, serenidade, fé e tem, especialmente em seu início, a estrutura de um hino devocional:
http://www.youtube.com/watch?v=zNFt0jPAd58&feature=my_liked_videos&list=LL3cA86tI6hSRDhagTdcap6A

___________________________
ªÉ provável que o conceito de alegria em música para o brasileiro seja algo tão vinculado a ritmos fortes em andamentos acelerados, que deve soar estranho dizer que este tema é alegre. Mas a alegria é algo que pode ser conduzido também pela melodia, e até comportar um marcante senso de serenidade. Como nesta peça. 

Marin Marais (1656-1728) –  compositor francês especialista em viola da gamba. Foi aluno de Lully e do Sieur de Sainte Colombe. Dele, optamos por esta Chaconne para Viola da Gamba Solo - o violoncelo com seu timbre tendendo ao grave e a grande extensão é um dos naipes mais encorpados, e era também o instrumento de Villa-Lobos. Às vezes, é possível ouvir essas peças solo como uma conversa, com suas pontuações inflexivas, perorações, redundâncias, interjeições, apelos, perguntas, ênfases, exultações, súplicas, etc.:

Phillip Heinrich Erlerbach (1657-1714) – compositor alemão ligeiramente anterior a Bach. Uma Cantata de Natal em estilo algo pomposo, que lembra o de Händel:

Antonio Vivaldi (1678–1741) - o padre ruivo florentino dispensa apresentações. Seguem seu Concerto de Natal para Dois Trumpetes e Baixo Contínuo e, num segundo momento, o magnífico Concerto Grosso em Sol Menor RV578, com sua abertura estacada e a característica vivacidade, os dramáticos contrastes, a paixão, certa atmosfera de inexorabilidade tão característicos da música vivaldiana. Há de geométrico e frio na música de Vivaldi. Algo de cálculo. E, no entanto, um dramaticidade que não se encontra em lugar algum. Possivelmente o mais importante compositor do barroco, depois de Bach:

Francesco Manfredini (1684-1762) – discípulo do anterior, compôs extensivamente. Este músico nascido em Pistoia passou uma fase de sua carreira na corte de Mônaco. Dele ouviremos um Concerto de Natal em estilo vivaldiano:

Georg Phillip Telemann (1681-1767) – músico germânico contemporâneo de Bach. Dele escolhemos a Ária de seu Oratório de Natal: "Hirten aus den goldnen Zeiten":

Georg Friedrich Händel (1685–1759) - outro que dispensa apresentação. Selecionamos a Suite I da Water Music. Esplêndida e solene como só Händel, que foi também um mestre do gênero Oratório. E em especial a introdução dessa belíssima peça. Händel, Lully e os violistas franceses constituem os momentos de música leiga. Mas no barroco ainda não há suficiente descolamento entre medieval e moderno, e, portanto, toda a música barroca, mesmo a mais profana, é percorrida por um sopro de fé e celebração. Há nela uma pulsão para a comensalidade - e, logo, para a comunhão - porque o ser, súdito de um Senhor tão desmedidamente superior, nivela até mesmo as rígidas hierarquias sociais de então:

Pietro Locatelli (1695 –1764) – compositor e virtuose precoce do violino. Dele, para nossa coletânea predominantemente de música para o Natal, um movimento (V. Andante) de seu Concerto de Natal, onde a semelhança vai por Acangelo Corelli. Seu estilo mescla Corelli e Vivaldi. Ou seja, provem dos Concerti Grossi e vai até às Árias e Concertos de estilo vivaldiano:
E, num segundo momento, dois movimentos [IV. Allegro e V. Capriccio] do Concerto para Violino em Ré Maior. Onde no Capriccio há já algo maneirista:
http://www.youtube.com/watch?v=uo1pctDLQu0&feature=relmfu[Violin

Emerico Lobo de Mesquita (1746 –1805) – do barroco mineiro, este belo Te Deum seguido de um Salve Rainha: 


* * *


Johann Sebastian Bach (1685-1750) – felizmente falamos bastante dele este ano. Então, melhor calar-se, ouvir sua música numa escolha expressamente sacra:

http://www.youtube.com/watch?v=a6MMW-NJmt8 [Abertura do Oratório de Natal, BWV 248 -  "Jauchzet, frohlocket, auf, preiset die Tage"]
http://www.youtube.com/watch?v=Y1bfAmz05Do&feature=related [A Sinfonia - ou Pastorale - do Oratório de Natal, BWV 248 - Abertura da Segunda Parte: descreve a chegada dos Pastores para a adoração do Menino].
Para uma versão completa do Oratório: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=VVeluHdzcBY&feature=endscreen
*
http://www.youtube.com/watch?v=dKMRNuCKHlM  [Cantata BWV 8 "Liebster Gott, wenn werd ich sterben?]
*
Sôbolos Rios de Babilônia
Am Wassernflüssen Babylon, BWV 653:
*
Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 Chorus: "Wir setzen uns mit Tränen nider"

Há no Youtube, entre outras, esta versão completa da Paixão: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?v=YUNdQ_GW9Tw&feature=related