sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Meu Forte





viajar, essa nova maneira de evitar o desespero. nem sempre funciona:

-ei, dona maria, sabe qu'eu queria transar – disse ele, entornando o copo.

-é nada. como? - ela disse, refestelada na espreguiçadeira vizinha.

-por trás dessa vez.

-ah, meu Deus, dá-me paciência.

ela deitou-se de bruços, a carne farta, levemente estriada, saltando em abundância das metades do biquíni.

ele retirou o biquíni, desamarrando devagar, dobrou com pachorra, cheirou em piloto automático, e pôs à mesa, sob o guarda-sol, num esticar de braço. A mão serviu o gole e, depois, às cegas, desceu até a bolsa, à base da espreguiçadeira articulada, e tirou um saco plástico, apenas tateando.

no saco havia os preservativos e os bonecos. Eram de Forte Apache, miniaturas. 

ele pôs alguns em cima de uma das metades, que tremulavam, exuberantes, um tanto matizadas por sol, e a palidez. Era quase acabamento sunburst no chassi de uma Gibson 335, pensou. Um atirador de elite ficou numa posição estratégica, dominando o desfiladeiro. E, então, um segundo grupo à base da colina. Além de uma bateria com canhão e alguns sacos de areia na jarreteira. E, avante, um pouco acima da articulação do joelho, bem junto daquela verruguinha, um tocador de tambor, alguém portando a bandeira e um grupo de mulas. Quando pôs o corneteiro, ela sentiu cócegas:

-é que às vezes eu fico um pouco impaciente – disse – e, pra falar a verdade, rezando pr'essa arrumação não chegar nos ouvidos das minhas amigas.

ele ajustava metade dos guerreiros comanches nas costas dela, na ravina, atrás das montanhas:

-besteira - disse - brincar sempre foi meu forte. 




Baixo para cima



no futebol cearense, a revolução vem literalmente de baixo. Os títulos nacionais parecem estar à altura somente de times bastante modestos. O Guarany de Sobral conquistou o título da 4ª divisão: é o único título nacional de um clube cearense até agora. E de momento o Icasa ameaça vencer o da 3ª divisão. Será muito difícil: decidir no interior de São Paulo após um empate sem gols em Juazeiro do Norte. Enquanto isso, Fortaleza e Ceará: babau. Não têm um único título brasileiro, de qualquer divisão. Apesar de o Ceará ser o clube que mais vezes disputou a Segundona. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Editor




tinha que reprocessar o primeiro conceito visto às pressas num livro de Deleuze para o original ser minimamente levado em conta. Caso contrário, não seria publicado. Sabia. 
o editor era um sujeito alto, calvo, nem magro nem gordo, alvo, veias azuis, meio anêmico, que aparentemente namorava sua própria capacidade de pensar como era delicioso ler algo em que o ensaísta americano da vez meditava sobre a masturbação das vírgulas em Henry James. E pediu a ele para fazer uma cópia xerográfica de um dos livros que portava consigo: um poema épico modernista americano, numa edição barata da Penguin:
-a gente não topa com essas coisas por aqui todo dia – disse, resignado.
era ainda a fase heroica da net:
-cê acha que pode me dar uma resposta até o final do mês? - disse Arthur, quando de fato importou dizer algo. Embora tenha demorado chegar a esse algo.
e olha que antes já tinham passado pelas usuais bílis e perrengas entre escritores. Quem trepou com quem. A gafe cometida pelo Beltrano no lançamento do livro da Sicrana. A Mulher do F., que o trocou por uma aluna. O cômico prefácio do J.M. Como era desastrada a tradução daquele clássico da historiografia dos Annales feita pelo Fulano de Tal dos Anzóis. Ou aquele tipo político, que sempre se eximia de dar nomes aos bois. Ou, do contrário, o que o Túlio Bonsano aprontara dessa vez - e contra quem - em seu mais recente artigo na Folha, etc.
A pequena coleção de rixas que a alguns alimenta mais que frases ou sintaxe. Parece inevitável que se tenha de descer assim nos assuntos para publicar algo. O quê mesmo? Algo que ao menos Arthur julgava pronto e com algumas boas ideias. Algo em que ele acreditava, na bucha, haver posto um bocado de nervos, tendões. Só para parar ali, naquela sala de editora em São Paulo, e ficar contemplando os ladrilhos vermelhos na parede sem muita previsão do que a vida reservava. 
Uma coisa, no entanto, não reservava: a capacidade do editor perceber nos seus gestos, o tempo danado gasto para dispor as frases, daquele jeito, até formar, no todo, aquele algo, que estava ali em laudas encadernadas entre o plástico. 
E, não obstante, no navegar ainda não virtual da conversa, aquele algo tenha assim chegado quase como alga, boiando sobre as ondas, ao acaso. E, de repente, num manhã inesperada, algo está no seco da praia. E alguém pisa em cima de algo, como se limpa o dockside enlameado no capacho sobre o batente num dia de chuva. Ou então se retira o tênis depois de pisar na gosma - merda ou vômito - com um esgar no rosto:
-olha, cê sabe que a gente quase não tem editado poesia.
lá fora, uma moto passava avulsa. E o grande tráfego da 23 de maio, alguns blocos adiante, troava seu ruído branco na desgraceira sem fim de São Paulo.

Pedaço de Carne




quando eu morrer, vou ser um pedaço de carne

e nenhum anjo posto na sombra vai

me dizer para ser isso ou aquilo. ou

quem sabe, as moscas varejeiras digam:

será que vale a pena tirar sangue desse aí?

não. o sangue dele é ruim, viu? Tinha ruim até

no nome. leu demais, ficou mofino: o

sangue, fino; ralo como os cabelos sobre

a  testa. e a gente, a gente sabe que o 

sangue de um tipo assim não presta

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“pra todo mundo mas não pra qualquer um”




o mesmo coronel, que prendia e espancava os amigos, mandava-lhe flores. Recadinhos. Fiu-fius. 

mesmo que nada. 

um dia conseguiu abordá-la, no camarim:

como é que é isso, Leila: você dá pra todo mundo, menos pra mim?”

ah, obrigada. um buquê lindo, incomum”- retrucou a atriz – "pois é. eu dou pra todo mundo, mesmo. mas não dou pra qualquer um”.

Dentes Brancos: Zadie Smith



Zadie Smith em foto promocional (mais acima), e numa cerimônia de entrega de prêmios, em 2010 

Zadie Smith, David Foster Wallace, Jeffrey Eugenides e Jonathan Franzen contam entre os mais decantados escritores em língua inglesa surgidos nas duas últimas décadas. Recentemente Zadie Smith lançou mais um romance: NW - que é a abreviação para North West London, o código postal (postcode) da área. O livro, frequentemente comparado em desvantagem com o propalado romance de estreia da autora, o catatau White Teeth (2000), tem recebido uma apreciação mista. E um tanto morna. Com um, outro entusiasmo avulso.¹ Essa escritora, filha de inglês com jamaicana, nascida e criada na multiculturalidade pulsante (e um tanto desencantada) do Norte de Londres, hoje vive entre esta cidade e Nova York, onde é professora num programa de Redação Criativa (Creative Writing), além de escrever regularmente para prestigiosos suplementos literários. Fica a sugestão da leitura de White Teeth, a exemplo do Infinite Jest (1996), de Wallace, um daqueles livros que nos perspectivam diante de nosso tempo. E, de algum modo, fornece chaves para entendê-lo melhor. E, em geral, vindas de onde menos se espera. E abrindo portas para onde se quis estar, um dia. E de um modo mais gracioso que na filosofia francesa. Ou no rap nova-iorquino. O livro foi lançado aqui pela Companhia das Letras há quase dez anos, em tradução de José Antônio Arantes (Dentes Brancos, 2003).


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¹Críticos dizem de uma narrativa menos ambiciosa que em Dentes Brancos ou Da Beleza [On Beauty, 2005], livros onde há mais panorama e instantâneos desse mundo mutante e instável dos imigrantes do norte de Londres. (Ou, no caso de Uma Questão de Beleza - assim nomeado, na tradução brasileira, o 3º romance da autora - de uma família mestiça britânica morando na região de Boston). Alguns apontam para certo travo modernista, consubstanciado num fluxo de consciência que deriva de Joyce, segundo uns; de Virginia Woolf, segundo outros, pairando sobre NW. Um tanto como em Uma Questão de Beleza o modelo explícito é E.M. Forster. A história de NW, no entanto, se passa no cotidiano de duas mulheres criadas em North London. Uma atinge certo grau de sucesso e prosperidade, ao contrário da outra; embora ambas tenham chegado à universidade. Uma relação de ressentimento se interpõe. Como amigas íntimas elas se admiram, mas também conhecem os pontos fracos e o lado menos luminoso uma da outra. E há o fato de uma delas assomar mais bem delineada, como personagem. Para além, esse microcosmo londrino é igualmente habitado - e assombrado, como não podia deixar de ser - por quem elas desejam: dois sujeitos que também tiveram sortes muito distintas ao longo da vida. James Wood, o eminente crítico - que criou o conceito de "realismo histérico" justo numa apreciação de Dentes Brancos -  investiu com força contra o segundo romance de Smith, The Autograph Man (2002). E há um misto de fascínio e repulsa nas análises de Wood. Entre outras coisas, ele acusa a autora de converter situações sociais em personagens, esvaziando-os da possibilidade de um indivíduo. Mas mesmo Wood, um crítico feroz da equívoca hiperdisposição narrativa;  dos excessos meta: da profusão de citações, referências teoréticas, linhas paralelas de narração curtocircuitando-se ou conduzindo a detalhes mesquinhos; dos autores usurpando personagens e pondo palavras improváveis (ou no mínimo demasiadas) em suas bocas; e dos demais pastiches nessa prosa pós-industrial; não se furta a louvar a veia cômica de Dentes Brancos. Embora, no caso específico de O Caçador de Autógrafos (assim nomeado na tradução brasileira), ele proteste contra uma escrita que "é a mais próxima que uma escritora britânica chegou de soar como um(a) americano(a); o resultado é perturbadoramente mutante". Ou ainda: "o romance, que se passa num Norte de Londres e numa Nova York imaginários, porta o selo de escritores americanos, tais como David Eggers e David Foster Wallace, exibicionistas natos e astutos, QI's com I-Books, sujeitos que, no dizer de Smith, 'sabem das coisas', escritores com um dom para uma vertiginosa análise cultural e cuja prosa é vincada de interrupções" e de referências a metateorias e quejandos. Mas, mesmo aqui, não deixa de ser interessante que esses escritores virtualizados, já escrevendo na ambiência do hipertexto, mudando de continente como quem troca de roupa, perfeitamente desenraizados, elejam um lugar específico da memória como lastro de suas vidas. Caso da decadente Detroit que assombra a prosa de Jeffrey Eugenides; da Saint Louis das lembranças familiares de Jonathan Franzen; ou do Norte de Londres, mutante, revolvido e pós-industrial dos romances de Zadie Smith. O que James Wood lamenta é algo que situa-se a meio caminho da motivação, da pulsão comunicacional desses jovens escritores e o modo como empreendem esse registro: eles constroem sua linguagem a partir da estilização de uma fala que, bem entendido, está impregnada de absurdas referências pop (advindas, num primeiro momento da televisão, dos discos e filmes, e, posteriormente, da internet); mas, de outro modo, parecem não guardar suficiente distância disso. E, logo, assomam mais como resultantes desse estado caótico de coisas, que propriamente no papel de críticos mais abalizados desse panorama desolador. Os reclamos de Wood fazem sentido, desque a gente os entenda como algo que deplora não o retrato, em si, desse estado de coisas, mas uma espécie de vazamento da cultura pop para a prosa de vanguarda formatando, assim, um híbrido que desagrada ao crítico formativo, conservador, excessivamente apegado à ideia da narrativa e de um conceito mais ortodoxo de realismo, como é James Wood. Ele percebe bem: enquanto aparentemente apenas tecem uma espécie de sátira deste nosso mundo espetacularizado e coisificado, os romances também sucubem, eles próprios, à espetacularização, à coisificação e à banalização do  lixo midiático e pop no Ocidente: "a identificação de um problema não é necessariamente algo que se contrapõe a ele, e pode ser tão só uma simples cumplicidade: foi precisamente essa estrutura do romance trívio-tatuado de Rushdie, Fúria, que posava como um desafio, quando era em realidade uma carta de amor à sociedade do espetáculo". Ao se contrapor a esses jovens escritores, alguns, dentre os quais, mais ou menos da idade dele próprio, Wood, ironicamente, também ajuda-os a se definir e se enxergar melhor no panorama de mutações pelas quais tem passado a prosa em todo mundo - e no mundo de língua inglesa, em particular - nas duas últimas décadas, as do surgimento da internet e do livre compartilhamento de arquivos. E não deixa de ser um bocado abalizado - e mesmo um bocado divertido - o modo como Wood transpõe à tela do processador de texto suas inquietações sobre os admiráveis (e aterradores) novos rumos, as mutações e as reconfigurações do romance:


Incidentally, novels in which the leading characters are human Cray computers of arcane trivial facts, in which people quote Casablanca to each other, or start conversations with challenges like ‘name three vintage Hollywood decapitations’, or go on about Kitty Alexander and Lauren Bacall, are now coming to seem dismally familiar. We have had High Fidelity, and White Noise, and Quentin Tarantino, and The Sopranos, and Fury, and by now we get the idea that we are poor sops in the society of spectacle, and that everyone under fifty speaks in consumer clichés and TV tags. It may be time to retire this little observation.
[London Review of Books, 2002]


terça-feira, 27 de novembro de 2012

O blogue enquanto forma

Zoe Williams, 2011

em Afetivagem, tentou-se o blogue enquanto forma. Entenda-se isso quase no sentido secundarista que temos de gênero literário. E então pense o blogue enquanto gênero: mais ou menos como se pensa em romance, conto, novela, crônica, crítica, poesia lírica, ensaio, memória, letra de música, tradução, pastiche, reportagem, travelogue, etc. Pense, análogo a esses, um gênero chamado blogue. Até porque por aqui há todos os gêneros, em todos os sentidos - com a possível exceção do romance. Ou do poema épico, desnecessário dizer

é por aí. E também por aqui

havia predisposto que este ano escreveria ao menos um post por dia. Foi mais. Embora haja considerável quantidade de bobagem. Ossos inevitáveis do ofício? Não. Mas é preciso ser magistral para escrever coisas boas todo dia. E se não é o caso, também não se deite à escarradeira o que deve ir para o álbum
mas em dado momento, escrever todo dia impede textos mais longos, encorpados, devidamente revisados. Ou algum poeminha ou tradução a mais. Ou mais bem faturados. Embora algo do momento deva restar, como na prescrição de Carlos Williams: “if anything of moment results-so much the better", etc.
queria provar a mim mesmo que posso escrever diariamente. E pude. E posso. E que os posts, em geral, divertem. E, do contrário, há também textos mais densos ou mais longos. E houve até o momento em que textos curtos ameaçaram nos conduzir para algo mais amplo como o romance. Uma ameaça de romance. Ô coisa tentadora.  E porém ficou só na ameaça, na tentação

como deve ser, quando ainda não deve ser, etc.



NOTA POSTERIOR
se é preciso ressaltar alguém: você, leitor. Você que esteve mais por aqui neste último ano que nos 5 anos anteriores somados. MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Emily




Eu não sou ninguém. E você: é quem?
Será que você é ninguém também?
Isso dá dois de nós, você vê.
Mas não diga. É segredo.
Senão eles nos põem na TV.

sábado, 24 de novembro de 2012

Necrológio ao modo de Aldir Brasil Jr.


I Dream of Jeannie, c. 1969

Todos tínhamos uma queda por Jeannie. Por isso queríamos ser o Major Nelson. Havia uma cervejaria: Astra. A Guilherme Rocha ainda era uma rua perfumada. E um outro Major, o Asthon Guilherme, comandava a litania do dia por mensagens de alto falante. Que perfuravam o alto falante. Que eram quase auto-falantes. Embora nos azulejos alguém ainda ia escrever com imprudente inocência: “o Major comeu a Dona D'Alva”. E embora as ruas de cinema fossem a Major Facundo e a Floriano Peixoto, as meninas saíam da Vox, deixando um doce rastro de Rastro, que pisava sobre chinelinhos de tira. A Catedral tinha uma só torre. Apostava-se: ela ou o Castelão ia acabar primeiro? Mas só um bronco não via: o Megatério era o Prédio da Receita. E sua construção acabou antes das outras duas. Rápido como um golpe de kung-fu. Lento como a espera, e vê-la no recreio, dia seguinte. E o mestre dizia no recôndito templo Shaolin das quintas-feiras: "Gafanhoto, não vás ao Center Um sem cem mi-réis no bolso. O Tasso, que tudo vê, pode não gostar". Entrementes o Rosa da Fonseca atracava no Mucuripe. E carregava mais uma leva de passageiros até Manaus. O Padre Jessé dava graças ao Senhor por Ele ser bom. A modernidade era subir a escada rolante da Lobrás, e tomar um milk shake. Tomai e comei, todos vós. And Aubrey was her name. Diziam que iam inaugurar uma TV Educativa. O Major? Nossa primeira encarnação de Big Brother. Embora mais propriamente seu nome fosse Edson. Talvez. E ele distribuísse gás. Minhas asas são como uma couraça de aço. Nenhum animal deve dormir em cama, com lençóis. Mas isso, ressalve-se, é já um terceiro Major, noutra ficção. Uma já menos mágica edição da coisa. Tudo em vão? Nem sempre. É. Nem sempre a gente consegue ser piloto do que deseja. Ser aquilo que deseja. Major, vá desculpando. Vá desculpando aí. No duro, no entanto, até o que não víamos de tango, Paris, cabia no piscar de Jeannie. O império, os sentidos. Principalmente quando se passava pelos corredores do Ibeu, desejando aquelas professoras já levemente sazonadas. Curtidas por mãos, línguas, membros, como pós-raparigas em flor. E as sombras. Nossos olhos como que adivinhando: como era a carnadura da realidade oculta sob e moldada por mescla, volta-ao-mundo, linho, poliéster, algodão? Dias imensos resplandeciam. Em que o céu mal comportava fiapo de nuvem. E havia quintais com mamoeiros, caixas d'água. E, enfim, varais onde a roupa estendida dava testemunho de silhuetas e noites. No silêncio tique-taque da sala, as fogo-pagou propagavam um lamento miúdo e terno, na calma das manhãs. E, então, no pátio, havia o pé de sapoti, junto à cantina, tarde a meio. Os olhos claros da menina. E as meninas. Utopia suprema. Bem-aventurança. Tão fugaz advento, como quando se tem catorze. Os nomes delas: Cynthia, Denise, Jacqueline, Celina, Márcia, Giselle, Ana Paula. Um lago ainda límpido, com botes de pedal, no Parque das Crianças. E um vestido ao vento. E os segundos navegando no lago em botes de papel. E o tempo, então, passou numa fricção de piscar: carnavais, shows, festivais. Longos dias na praia. O desejo de ter uma banda. Pós-graduações de morango, para sempre nos aguardariam no futuro da praia. Campos do América no caminho do Líbano. Damascos ao gosto de cada um. Capitães da Areia. Praias do futuro. Returnos. Torneios de ping-pong. Grafa aí: Grapettes. Major, não precisa pedir desculpa. O colorido ainda chegando a prazo na imagem da Telefunken. E logo se voltava de Manaus. Ou da Colônia de Férias. Em Iparana. Na Cofeco. E o gosto do milk shake tinha algo dos lábios de Jeannie. Tingia algo nos lábios de Jeannie. O Romcy. O Jumbo. O Jairo. O Vegas. Quem bebe. Empadas de carne moída e azeitona. Grapettes.

O Major Nelson morreu hoje.

Não há quem possa


Sobre a grama do Rasunda, o timaço de 58: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar (em pé); Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e o massagista Mário Américo (agachados). 

Ontem, fechou as portas, em Estocolmo, o Rasunda, estádio em que o Brasil ganhou sua primeira final de Copa do Mundo, em 1958. O estádio foi inaugurado em 1937 pelo Rei Gustavo V, com as célebres palavras: “declaro aberto este novo estádio de tênis” (sic). 

O Rasunda será demolido para a construção de prédios residenciais.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ladainha

Jeff Larson, 2000



oh, mulher de olhos fechados à beira da piscina, pensa em mim e em como eu perdi a minha rima.

oh, mulher com uma melancia na cabeça, pode ser que não gostes de mim, mas por favor não me esqueças.

oh, mulher com um periquito no ombro, a primeira vez que assuntei nos teus lábios foi um verdadeiro assombro.

oh, mulher preparando cup cakes, a simples lembrança dos vincos no teu rosto makes me ache.

oh, mulher sonhando um passeio de rio em tocantins, bem sei: mais aprecias o boi de parintins.

oh, mulher envergando pés de pato, será que para ti não fui mais que um carrapato?

oh, mulher com iPhone na mão direita, porque com a esquerda rebates minha desfeita.

oh, garota calibrando o material rodante, qualquer dia desses vamos bater numa aldeia xavante.

oh, mulher disputando os cem metros rasos, desculpa-me as precocidades. e os atrasos.

oh, mulher cantando marisa monte, a cada vez que te vejo, desapareces no horizonte.

oh, mulher batendo um bolo de cenoura, não sei qual a mais torta, se és tu ou se é a moura.

oh, moça que gerencia o estafe do centroavante, volta e meia dou meia-volta no carro, para te ver mais adiante.

oh, mulher passando de skate lá fora, se já me deste antes, porque não me dás agora?

oh, fulana jogando capoeira, tens algo de iemanjá, de joana d'arc, da beltraneja.

oh, menina remando contra a corrente, diz-me ao ouvido uma oferta para lá de indecente.

oh, princesa brandindo uma caçarola, será que um dia ainda vou te dizer: corra, lola, corra?

oh, ofélia esparramada em praia sob castanholeiras, não me deixes aqui assoviando “el dia que me queiras”.

oh, julieta armando instalações pelo país, me encontro tão mal amado, que já nem sei: tenho raiz?

ah, tesouro com lábios de monica vitti, por que não compareceste ao meu convite?

oh, marília escrevendo dissertação de mestrado, e fazias tão bem pato no tucupi, maniçoba, pirarucu grelhado.

oh, mulher nadando os duzentos metros borboleta, e ainda lembro a primeira vez em que beijei-te a silhueta.

oh, mulher assistindo sci-fi em cinema poeira; se for do teu agrado, amanhã mesmo plantamos um pau pereira.

oh, mulher, mulher, quando chegar meu outono, empurra direitinho minha cadeira até a fono.

oh, amor, quando eu descer ao último endereço: darás para o cafetão? para o gângster? mas não a qualquer preço.

oh, mulher com o cartão de crédito na mão, podes comprar o conversível, mas deixa para outro o caminhão.

oh, gata assistindo ao grande prêmio da malásia, que no futuro sejas contra esse negócio de eutanásia.

As Melhores Virtudes: the Grateful Dead

John Huston, The Misfits, 1961


Please forget you know my name


Se há um grupo que sintetiza as melhores virtudes americanas da compositividade, de algo um pouquinho mais mestiço, californiano, que aponta e aposta à fronteira e ao futuro bebendo nas fontes, esse grupo deve flutuar entre Crosby, Stills & Nash e o incrível Greateful Dead. Naturalmente menos careta que aquele patriciado puritano e auto-suficiente da Nova Inglaterra, do Leste em geral, esses grupos guardam uma pulsão tão forte, inexcedível de terra e gente combinadas em lugares e momentos do agora, que sua dinâmica musical revela - por despojamento e simplicidade - algo muito mais sofisticado que a aparente sofisticação um tanto mercadeada e afetada dos grupos britânicos em geral. Há uma proximidade, uma familiaridade com o assunto tratado, que, quem as despreza, não faz mais que entregar um punhado de pérolas aos porcos. Fico pensando como devia ser para esses caras que entendiam por dentro o ritmo, a dinâmica harmônica, lírica e melódica de seu povo, verem a sua música assumida – e mesmo conduzida – por outros que dela faziam, às vezes, uma qualquer outra coisa. Como uma espécie de “forró universitário” diante do “pé-de-serra”, se me entendem. 

Para todos os efeitos, toda vez que o Dead tocava, o “pé-de-serra” deles ganhava desdobramento e modernidades:



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Comprar Bravatas, Fabricar Porcarias



Voracidade e Cinema


Há o caso clássico do cigarro. O produto só começou a ser estigmatizado pelo Estado quando se constatou que os gastos da previdência com as doenças provocadas pelo tabaco eram dramaticamente maiores que os impostos ou a verba, via caixa dois, que comprava a bravata de legisladores, congressistas.¹

Mas também até a década de 1970, o grosso da população brasileira não limpava os ouvidos, a não ser externamente. E à essa altura a Johnson & Johnson e outras transnacionais da assepsia entenderam que era necessário faturar ainda mais. Fabricaram, anunciaram, venderam milhões de pequenas hastes flexíveis com chumaços de algodão nas pontas. Milhares de tímpanos estourados. As filas aumentaram na porta dos otorrinos. Até que, muitos anos depois, se constatou: aquilo de ouvidos totalmente livres da secreção não era lá muito saudável. Além disso, há o que se gastou com um produto nem sempre biodegradável: as hastes e os frascos que as acondicionavam, em plástico não reciclável; o algodão; os rótulos de papel, etc. Centenas de milhões. Um desperdício sem volta. 
Tudo isso foi alçado à condição de uma necessidade asséptica somente em nome da expansão do consumo, do lucro. Pura ganância. Quantos desses produtos que nos minam a saúde não consumimos hoje em dia? E morreremos sem saber do malefício que causam. 

Nós, as galinhas dos ovos. Nós, produtos privilegiados: porque devoramos outros produtos.

Com voracidade e cinema.




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¹E, digamos, se eles descobrirem que abortar sai mais barato e dá menos ônus ao Estado: por que não financiariam campanhas pró-aborto? É o que o PT e o governo brasileiro fazem subrepticiamente a todo instante. E os incautos vão na onda. Inclusive muita gente de boa vontade. Porém já acostumada a ir com as Marias.

domingo, 18 de novembro de 2012

Alguma Música para o Final de Ano e Natal (Edição 2012 – Ano 2)


Carl Theodor Dreyer, Ordet (A Palavra), 1955 


Jean-Baptiste Lully (1632-1687) - o florentino pobre e auto-didata cujo talento levou-o a ser superintendente da música de câmara da corte de França. Libertino, teve casos com mulheres e homens. Segundo alguns, com o próprio Luís XIV - o que é disputado. Era também bailarino. Morreu da gangrena que sobreveio após ter acertado os dedos do pé com o bastão com que se regia à época (marcando com pancadas no chão). Sua música é caracterizado pela prevalência do baixo contínuo. Como nest'As Folias de Espanha:
Há um filme sobre sua vida: Le Roi Danse (2000)

Dietrich Buxtehude (1639-1707) - é o dileto precussor de Bach e expressamente dedicado à temática sacra. Esse compositor teuto-dinamarquês, que também era organista e um fervoroso luterano, chegou a acolher Bach em sua casa. Dele ouviremos um Magnificat (ou seja, um canto de louvor à Virgem por carregar em seu ventre o Salvador. Concretamente, o Magnificat designa o encontro de Maria com sua prima Isabel, então grávida de João Baptista): 

Monsieur de Sainte Colombe (1640–1700) – há um belo filme sobre este compositor chamado Touts le matins du monde. Provavelmente quase todo o filme é ficcional, pois perto de nada se sabe deste compositor da Aquitânia que aparentemente viveu nas cercanias de Pau e era protestante. No filme, Sainte Colombe é retratado como um jansenista recluso. Sainte Colombe foi um dos expoentes da viola da gamba, instrumento que precedeu o violoncelo. E é a peça Le Pleurs (O Pranto) para viola da gamba solo que ouviremos agora. A peça faz parte de um conjunto de temas chamados de Tombeau Les regrets (Tumba dos Lamentos):

Johann Pachelbel (1653-1706) – compositor alemão que viveu ao tempo de Bach. É mais conhecido pelo Cannon in G, que apresentamos ano passado. Este ano, dele ouviremos, uma peça que é uma das favoritas, a Partita "Christus, der ist mein Leben". O tema retorna e é glosado várias vezes em fuga. Esta peça macia, exulta alegriaª, serenidade, fé e tem, especialmente em seu início, a estrutura de um hino devocional:
http://www.youtube.com/watch?v=zNFt0jPAd58&feature=my_liked_videos&list=LL3cA86tI6hSRDhagTdcap6A

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ªÉ provável que o conceito de alegria em música para o brasileiro seja algo tão vinculado a ritmos fortes em andamentos acelerados, que deve soar estranho dizer que este tema é alegre. Mas a alegria é algo que pode ser conduzido também pela melodia, e até comportar um marcante senso de serenidade. Como nesta peça. 

Marin Marais (1656-1728) –  compositor francês especialista em viola da gamba. Foi aluno de Lully e do Sieur de Sainte Colombe. Dele, optamos por esta Chaconne para Viola da Gamba Solo - o violoncelo com seu timbre tendendo ao grave e a grande extensão é um dos naipes mais encorpados, e era também o instrumento de Villa-Lobos. Às vezes, é possível ouvir essas peças solo como uma conversa, com suas pontuações inflexivas, perorações, redundâncias, interjeições, apelos, perguntas, ênfases, exultações, súplicas, etc.:

Phillip Heinrich Erlerbach (1657-1714) – compositor alemão ligeiramente anterior a Bach. Uma Cantata de Natal em estilo algo pomposo, que lembra o de Händel:

Antonio Vivaldi (1678–1741) - o padre ruivo florentino dispensa apresentações. Seguem seu Concerto de Natal para Dois Trumpetes e Baixo Contínuo e, num segundo momento, o magnífico Concerto Grosso em Sol Menor RV578, com sua abertura estacada e a característica vivacidade, os dramáticos contrastes, a paixão, certa atmosfera de inexorabilidade tão característicos da música vivaldiana. Há de geométrico e frio na música de Vivaldi. Algo de cálculo. E, no entanto, um dramaticidade que não se encontra em lugar algum. Possivelmente o mais importante compositor do barroco, depois de Bach:

Francesco Manfredini (1684-1762) – discípulo do anterior, compôs extensivamente. Este músico nascido em Pistoia passou uma fase de sua carreira na corte de Mônaco. Dele ouviremos um Concerto de Natal em estilo vivaldiano:

Georg Phillip Telemann (1681-1767) – músico germânico contemporâneo de Bach. Dele escolhemos a Ária de seu Oratório de Natal: "Hirten aus den goldnen Zeiten":

Georg Friedrich Händel (1685–1759) - outro que dispensa apresentação. Selecionamos a Suite I da Water Music. Esplêndida e solene como só Händel, que foi também um mestre do gênero Oratório. E em especial a introdução dessa belíssima peça. Händel, Lully e os violistas franceses constituem os momentos de música leiga. Mas no barroco ainda não há suficiente descolamento entre medieval e moderno, e, portanto, toda a música barroca, mesmo a mais profana, é percorrida por um sopro de fé e celebração. Há nela uma pulsão para a comensalidade - e, logo, para a comunhão - porque o ser, súdito de um Senhor tão desmedidamente superior, nivela até mesmo as rígidas hierarquias sociais de então:

Pietro Locatelli (1695 –1764) – compositor e virtuose precoce do violino. Dele, para nossa coletânea predominantemente de música para o Natal, um movimento (V. Andante) de seu Concerto de Natal, onde a semelhança vai por Acangelo Corelli. Seu estilo mescla Corelli e Vivaldi. Ou seja, provem dos Concerti Grossi e vai até às Árias e Concertos de estilo vivaldiano:
E, num segundo momento, dois movimentos [IV. Allegro e V. Capriccio] do Concerto para Violino em Ré Maior. Onde no Capriccio há já algo maneirista:
http://www.youtube.com/watch?v=uo1pctDLQu0&feature=relmfu[Violin

Emerico Lobo de Mesquita (1746 –1805) – do barroco mineiro, este belo Te Deum seguido de um Salve Rainha: 


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Johann Sebastian Bach (1685-1750) – felizmente falamos bastante dele este ano. Então, melhor calar-se, ouvir sua música numa escolha expressamente sacra:

http://www.youtube.com/watch?v=a6MMW-NJmt8 [Abertura do Oratório de Natal, BWV 248 -  "Jauchzet, frohlocket, auf, preiset die Tage"]
http://www.youtube.com/watch?v=Y1bfAmz05Do&feature=related [A Sinfonia - ou Pastorale - do Oratório de Natal, BWV 248 - Abertura da Segunda Parte: descreve a chegada dos Pastores para a adoração do Menino].
Para uma versão completa do Oratório: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=VVeluHdzcBY&feature=endscreen
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http://www.youtube.com/watch?v=dKMRNuCKHlM  [Cantata BWV 8 "Liebster Gott, wenn werd ich sterben?]
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Sôbolos Rios de Babilônia
Am Wassernflüssen Babylon, BWV 653:
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Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 Chorus: "Wir setzen uns mit Tränen nider"

Há no Youtube, entre outras, esta versão completa da Paixão: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?v=YUNdQ_GW9Tw&feature=related

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – ou Esse cabra era bom (e já punha os imigrantes ao centro da trama)


Um dos raros retratos de Adolfo Caminha (1867-1897)

Há um entremear melhor da trama em A Normalista que no Bom-Crioulo. E por uma questão de proporções e situação, se entendermos por situação a paisagem do entorno. E não só a paisagem física como também a humana. E há, por igual, uma contradição interessante: o fato de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada unidimensional, como costumam ser algumas obras dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, e meio insuportável. Ou previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo.
A Normalista (1893) surge, então, mais arrematado, e mesmo mais romance que Bom-Crioulo (1895). Este, apesar de ser posterior, deve seus méritos, sobretudo, ao fato de tocar num tema completamente estigmatizado e tabu, à época. E, ainda assim, como estrutura literária oscila entre a concepção da novela e a do romance. Embora seja uma oscilação que vale a pena seguir.
No entanto, há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, que tematizar incesto ou homoerotismo. E é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará - e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra - Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com seus personagens imigrantes e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador e desestabilizador que só os imigrantes portam.
Há alusões à imigração por toda parte em suas páginas. E um de seus dois romances  - ou esboços em prosa - inacabados leva o sugestivo título de O Emigrado. Então, já há em sua obra uma compreensão intuitiva desse fenômeno da imigração e do desenraizamento como vital para a confecção da época em que vivemos. No Cap. II de Bom-Crioulo, por exemplo, em que Amaro, marujo passado na casca do alho, tenta aliciar o jovem grumete Aleixo, para que more consigo, tão logo retornem ao Rio, há a presença, não muito longe, desse senso de migração e moto perpétuo. Ou mesmo, se quiserem, peregrinação sobre a terra; pois no exato instante da proposição, em alto-mar, imigrantes passam, no convés de um transatlântico inglês, como testemunhas distantes, involuntárias dos acontecimentos. Eles não testemunham propriamente, mas demarcam o tempo. Acercam-se dele com sua presença insuspeitada:

Um mundo de gente movia-se na proa do [transatlântico] inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
[Bom-Crioulo, Cap. II]

Praticamente todos os protagonistas de Adolfo Caminha são imigrantes. Maria do Carmo, a normalista, é filha de criadores de gado, da região do Jaguaribe. Estes, tendo perdido tudo na Grande Seca de 1877, buscam inicialmente Fortaleza e, depois, a Amazônia. A exceção, em termos de rumo, é a do irmão mais velho, ido previamente em sentido contrário, por mero acaso de temperamento: recrutado compulsoriamente pelo exército, e a serviço no Sul – mas, de algum modo, próximo à carreira militar que o próprio Caminha acabou empreendendo até ser afastado por uma escandalosa união com uma mulher casada. E casada com um oficial.
O Capítulo II de A Normalista que trata da viagem da família de Maria do Carmo dos currais de Campo Alegre para Fortaleza é, por sinal, dos mais vívidos e conta com uma qualidade de simpatia que destoa nesse autor usualmente mais seco ou misantropo:

Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha.

Que Mendonça não conhecesse a sífilis, não se entregasse ao tédio, à masturbação, assim como a menção aos casamentos endógenos - tão comuns em famílias sertanejas dos ranchos e currais do Jaguaribe, do Cariri, dos Inhamuns - revela algumas crenças em comum com os naturalistas em qualquer parte do mundo. Coisa dos pré-condicionantes físicos e sociais ditando os espirituais. E, no entanto, é notável essa exaltação do sangue português associado – mais ou menos como entre os de língua espanhola aos galegos - com a disposição para a faina incessante e pesada. Esta última observação, no entanto, é mais cultural que “científica”. Ou seja, que naturalista. E há muitas delas em Caminha. E exatamente por isso ele escapa de ser o naturalista padrão. O mesmo de quem Machado de Assis ainda vai detectar traços no Eça de Queiroz do Primo Basílio em uma brilhante página de crítica. 
De outro modo, é notável que seja justamente O Primo Basílio o romance que Maria do Carmo lia às escondidas, no banheiro de casa. E comentava com uma colega da Escola Normal, que a havia emprestado. E o contrapunha à literatura xarope reservada para as moçoilas da época numa Fortaleza ainda de um provincianismo exemplar. Como se fosse uma espécie de modelo de leitura a se sugerir.
Adolfo Caminho, ainda mais em A Normalista mas também em Bom-Crioulo, é um escritor que dá o que pensar. E se não houvesse morrido com apenas 29 anos, é possível que a gente ouvisse falar mais dele. E melhor. E é uma pena que só seja lembrado para provas de Literatura no secundário ou exames vestibulares.
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No presente, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos colegiais brasileiros forçados a ler seus dois romances, que sobreviveram - A Normalista e Bom-Crioulo. Ele é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida própria para serem lidos ao largo de se pensar em escolas ou movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano. Um esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam dele por ofuscamento. Ou que, ao menos, ele não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.
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Há uma etnografia de um Brasil urbano em que o peso do rural ainda era demasiado. Em A Normalista, Maria do Carmo, embora morasse em Fortaleza, era filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, fugindo da estiagem. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido. E que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, e sem nenhuma saudade.¹ Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovitava o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-ia amante de um deles, era uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado que morrera de febre amarela. Ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, ainda uma vez, amor e morte. Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, parece a exceção. Era amigo do presidente da província e bacharel. Mas seu pai, no entanto, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste - e, portanto, tinha um pé no interior. E o próprio Zuza estudara Direito no Recife. E ao comparar Fortaleza com o Recife, deixava entrever uma situação que, por si, não prognosticava que essas cidades no futuro teriam mais ou menos o mesmo peso nacional, tal a dessimetria em favor do Recife, de meio para fim do séc. XIX:

Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha – era como ela o tratava com toda ternura, cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de peignoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho – um deboche!

É, a vida em Recife parecia mais viva. Mas o próprio modo abrupto com que Zuza propõe a comparação com a acanhada Fortaleza de então aponta um pouco às suas origens:

Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

De bugres?!

...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes...

Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

É interessante essa ressalva final do autor: um pouco condescendente com a personagem, mas absolutamente realista em relação ao assunto. E, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E de outra modo, ele só fala daquilo que conhece por dentro, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, entre outras, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.
Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894). Não era geografia pequena para um escritor àquela época.
Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados. Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontados obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade - e não o naturalismo - presente em Bom-Crioulo²: 

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Há cenas da intimidade, e mesmo das carícias entre Amaro e Aleixo. Algo ousado mesmo para os padrões de hoje. Mas é custoso a críticos do Sul - ou a esses papagaios de pirata pós-modernos, que por toda parte propagam pós-estruturalismos - reconhecer que tamanha coragem, independência de espírito e ousadia tenham vindo de um escritor da suposta "periferia", do Nordeste, e bastante afetado por ideais positivistas. Quando no futuro se reler a enormidade de bobagens escritas sob os eflúvios de Barthes, Blanchot, Baudrillard, Deleuze, Derrida & Cia. talvez, então, se tenha a dimensão do ridículo que constitui no presente a absorção acrítica, em pororoca, dessas teorias. 
É mais ou menos como tornar ao passado e vislumbrar aquele entusiasmo meio doentio mas contagiante que os escritores e intelectuais nutriam pelo positivismo. E lembrar que Fortaleza, através de um grpo de rapazes formados na Faculdade de Direito do Recife e capitaneados por Rocha Lima - só alguns poucos anos antes de Caminha - foi um dos centros pioneiros na absorção do ideário positivista em língua portuguesa. Aportes teóricos que tanto tem a ver com o naturalismo em literatura. E, no entanto, ao contrário dessa festividade insípida e pouco consistente de hoje, eles realmente sabiam da matéria que tinham em mãos e do solo em que estavam pisando.³ Mais importante que isso: sabiam tecer uma solução de continuidade e chegar a uma síntese entre esse pensamento importado e os cotidianos e realidades locais. Uma tarefa de tradução diante da qual as pós-graduações de hoje deviam voltar-se para esmiuçar e aprender com, com pés no chão e um mínimo senso de humildade intelectual.
Também conta a favor de Caminha haver participado da Padaria Espiritual, sob o pseudônimo de Félix Guanabarino. E como alguém que escolhe para pseudônimo Félix ou luta por um amor comprometido, quase impossível à época, poderia ser esse misantropo caricatural que nossos velhos professores de literatura nos impingiam? Entre outras coisas, Caminha editou praticamente sozinho um jornal em seus anos de Fortaleza. Na verdade, ia dizer: em seus anos de maturidade em Fortaleza. Mas como falar em maturidade para um homem que morreu aos vinte e nove anos?
E, então, é bem mais real colher impressões da atmosfera dos arrabaldes pobres e cortiços em Fortaleza ou no Rio de Janeiro nos capítulos de Caminha que em alguma página de Manuel Antônio de Almeida ou Joaquim Manoel de Macedo, cronistas anteriores, românticos, e de uma Corte mais alegre, bonachona ou dos salões. Mas também, mesmo nas tavernas, becos e vielas de Almeida - onde há tanta graça e povo - há menos escória que em Caminha. Quer dizer, em Caminha os personagens são ainda mais pobres e relegados ao esquecimento e à desesperança: uma filha de retirantes da seca violada pelo padrinho; um filho de humildes pescadores da costa de Santa Catarina que vê na Marinha a possibilidade de fugir da miséria; uma imigrante portuguesa fazendo a vida no Rio de Janeiro; e, por fim, o pária dos párias, Amaro: homossexual, negro, pobre, ex-escravo e militar subordinado numa Marinha onde ainda imperavam pesados castigos físicos. 
Os personagens de Caminha, no entanto, tem uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média baixa urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida e no amor.
E mesmo em Caminha há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. O momento em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo é hilário: extremamente visual e deslavadamente cômico. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. Ou antes disso quando ela - que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda - praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
[…]
E com fingida ternura, ameigando a voz:
-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Mas há também o instante na Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo - a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido  - por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho a arenga, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor...
Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada pelo tamanho e a miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.


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¹Aliás, essa imprecisão geográfica da localização, uma falta de nitidez do cotidiano na fazenda da qual fugira Amaro é uma das evidentes debilidades de Bom-Crioulo.  É sobre isso que falamos ao nos referir a "proporções e situação" no início mesmo do texto. Pois ao contrário de Aleixo, do qual se tem esse contexto na descrição da vida de pescadores na costa catarinense; ou do que se pode presumir do Portugal de Dona Carolina; ou ainda da sina de imigrantes de Maria do Carmo e sua família, em A Normalista; o que se sabe do contexto rural de Amaro é um bocado vago, lacunar. E por outra, não é tão árduo perceber que em alguns personagens se processam verdadeiras inversões de mitos ou clichês mais ou menos naturalistas. Ou mesmo senso-comuns. Como o fato de Amaro, apesar de negro e bem constituído fisicamente - era um jovem forte, bem apessoado - não se haver revelado amante dos mais solicitados pelas mulheres, quando o clichê ainda hoje é o de que negros são mais desenvoltos na cama do que brancos - isso também se estendendo a uma suposta volúpia e maior licenciosidade da mulher negra. E, logo, Caminha opera por meio de Amaro uma verdadeira inversão de valores. Ou quebra de clichês. Ora, os africanos é que eram tidos como mais lascivos e próximos de certa fixidez sexual. (Em palavras diretas: como melhores na cama pelas mulheres, como, aliás, registra Gilberto Freyre em certo passo de Sobrados e Mocambos, numa observação sobre o Rio Grande do Sul, que bem pode ser estendida ao senso comum do Brasil inteiro àquela altura e depois. A observação, aliás, é cristalizada numa citação de Saint-Hillaire, o naturalista  - e, entenda-se, porta-voz por excelência do positivismo científico: "as índias dizem que se entregam aos de sua raça por dever;  aos brancos por interesse; e aos negros por prazer" (Cap.  VIII, p. 489). Ora Amaro, negro, mas posto na condição de mau amante de mulheres, não é precisamente algo que fere certo senso-comum da desenvoltura sexual do africano? Isso, ao invés de aproximar o ponto de vista de Caminha dos determinismos naturalistas, ou mesmo de uma dedução um tanto senso-comum,  o afasta deles. Abre a Amaro uma perspectiva que segue para além de qualquer determinismo racial ou atávico, pondo ao plano praticamente da opção a condição homossexual. Ou mesmo facultando ao arbítrio pessoal a escolha dessa orientação. E não é isso justamente o oposto dos determinismos naturalistas? Quer dizer, a visão de Caminha é excepcionalmente moderna. E há miopia em quem não assim a reconhece apenas para tentar encostá-lo aos traços gerais que caracterizam uma "escola literária".
²De outro modo, à baixa auto-estima dos escritores e críticos brasileiros e fortalezenses não ocorre supor que, de dentro da modorra provinciana de Fortaleza, aparentemente estanque, sem nenhum dinamismo mais à tona, surja  um escritor que trata de temas tão deslavadamente modernos, temas que não recebiam tratamento em nenhum outro lugar do país, ou mesmo da ex-metrópole (Portugal) e de quase qualquer outro lugar do mundo. Ou seja, algo não está nos gonzos: como surgir um escritor assim - ou um movimento como a Padaria Espiritual - se não houvesse um mínimo de dinamismo, transitividade intelectual e algum cosmopolitismo ambiente? E quem ainda virá um dia, quem sabe num futuro mais distante, perceber que devia haver algum mérito na composição social da cidade de Fortaleza, a ponto de permitir a efervescência cultural de figuras literárias desse grau de modernidade e impacto?
³Rotulados de Geração de 77 ou referidos por certa Academia Francesa do Ceará, com toda a carga cômica que isso repassa. Contavam entre seus adeptos mais destacados: Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, Felino Barroso, Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico Farias, além de Rocha Lima.