Zadie Smith em foto promocional (mais acima), e numa cerimônia de entrega de prêmios, em 2010
Zadie
Smith, David Foster Wallace, Jeffrey Eugenides e Jonathan Franzen
contam entre os mais decantados escritores em língua inglesa
surgidos nas duas últimas décadas. Recentemente Zadie Smith lançou mais
um romance: NW - que é a abreviação para North West London, o código postal (postcode) da área. O livro, frequentemente comparado em desvantagem com o
propalado romance de estreia da autora, o catatau White Teeth (2000), tem
recebido uma apreciação mista. E um tanto morna. Com um, outro entusiasmo avulso.¹ Essa escritora,
filha de inglês com jamaicana, nascida e criada na
multiculturalidade pulsante (e um tanto desencantada) do Norte de
Londres, hoje vive entre esta cidade e Nova York, onde é professora num programa de Redação Criativa (Creative Writing),
além de escrever regularmente para prestigiosos suplementos
literários. Fica a sugestão da leitura de White Teeth, a exemplo do
Infinite Jest (1996), de Wallace, um daqueles livros que nos perspectivam
diante de nosso tempo. E, de algum modo, fornece chaves para
entendê-lo melhor. E, em geral, vindas de onde menos se espera. E abrindo portas para onde se quis estar, um dia. E de um modo mais gracioso que na filosofia francesa. Ou no rap nova-iorquino. O
livro foi lançado aqui pela Companhia das Letras há quase dez anos,
em tradução de José Antônio Arantes (Dentes Brancos, 2003).
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¹Críticos dizem de uma narrativa menos ambiciosa que em Dentes Brancos ou Da Beleza [On Beauty, 2005], livros onde há mais panorama e instantâneos desse mundo mutante e instável dos imigrantes do norte de Londres. (Ou, no caso de Uma Questão de Beleza - assim nomeado, na tradução brasileira, o 3º romance da autora - de uma família mestiça britânica morando na região de Boston). Alguns apontam para certo travo modernista, consubstanciado num fluxo de consciência que deriva de Joyce, segundo uns; de Virginia Woolf, segundo outros, pairando sobre NW. Um tanto como em Uma Questão de Beleza o modelo explícito é E.M. Forster. A história de NW, no entanto, se passa no cotidiano de duas mulheres criadas em North London. Uma atinge certo grau de sucesso e prosperidade, ao contrário da outra; embora ambas tenham chegado à universidade. Uma relação de ressentimento se interpõe. Como amigas íntimas elas se admiram, mas também conhecem os pontos fracos e o lado menos luminoso uma da outra. E há o fato de uma delas assomar mais bem delineada, como personagem. Para além, esse microcosmo londrino é igualmente habitado - e assombrado, como não podia deixar de ser - por quem elas desejam: dois sujeitos que também tiveram sortes muito distintas ao longo da vida. James Wood, o eminente crítico - que criou o conceito de "realismo histérico" justo numa apreciação de Dentes Brancos - investiu com força contra o segundo romance de Smith, The Autograph Man (2002). E há um misto de fascínio e repulsa nas análises de Wood. Entre outras coisas, ele acusa a autora de converter situações sociais em personagens, esvaziando-os da possibilidade de um indivíduo. Mas mesmo Wood, um crítico feroz da equívoca hiperdisposição narrativa; dos excessos meta: da profusão de citações, referências teoréticas, linhas paralelas de narração curtocircuitando-se ou conduzindo a detalhes mesquinhos; dos autores usurpando personagens e pondo palavras improváveis (ou no mínimo demasiadas) em suas bocas; e dos demais pastiches nessa prosa pós-industrial; não se furta a louvar a veia cômica de Dentes Brancos. Embora, no caso específico de O Caçador de Autógrafos (assim nomeado na tradução brasileira), ele proteste contra uma escrita que "é a mais próxima que uma escritora britânica chegou de soar como um(a) americano(a); o resultado é perturbadoramente mutante". Ou ainda: "o romance, que se passa num Norte de Londres e numa Nova York imaginários, porta o selo de escritores americanos, tais como David Eggers e David Foster Wallace, exibicionistas natos e astutos, QI's com I-Books, sujeitos que, no dizer de Smith, 'sabem das coisas', escritores com um dom para uma vertiginosa análise cultural e cuja prosa é vincada de interrupções" e de referências a metateorias e quejandos. Mas, mesmo aqui, não deixa de ser interessante que esses escritores virtualizados, já escrevendo na ambiência do hipertexto, mudando de continente como quem troca de roupa, perfeitamente desenraizados, elejam um lugar específico da memória como lastro de suas vidas. Caso da decadente Detroit que assombra a prosa de Jeffrey Eugenides; da Saint Louis das lembranças familiares de Jonathan Franzen; ou do Norte de Londres, mutante, revolvido e pós-industrial dos romances de Zadie Smith. O que James Wood lamenta é algo que situa-se a meio caminho da motivação, da pulsão comunicacional desses jovens escritores e o modo como empreendem esse registro: eles constroem sua linguagem a partir da estilização de uma fala que, bem entendido, está impregnada de absurdas referências pop (advindas, num primeiro momento da televisão, dos discos e filmes, e, posteriormente, da internet); mas, de outro modo, parecem não guardar suficiente distância disso. E, logo, assomam mais como resultantes desse estado caótico de coisas, que propriamente no papel de críticos mais abalizados desse panorama desolador. Os reclamos de Wood fazem sentido, desque a gente os entenda como algo que deplora não o retrato, em si, desse estado de coisas, mas uma espécie de vazamento da cultura pop para a prosa de vanguarda formatando, assim, um híbrido que desagrada ao crítico formativo, conservador, excessivamente apegado à ideia da narrativa e de um conceito mais ortodoxo de realismo, como é James Wood. Ele percebe bem: enquanto aparentemente apenas tecem uma espécie de sátira deste nosso mundo espetacularizado e coisificado, os romances também sucubem, eles próprios, à espetacularização, à coisificação e à banalização do lixo midiático e pop no Ocidente: "a identificação de um problema não é necessariamente algo que se contrapõe a ele, e pode ser tão só uma simples cumplicidade: foi precisamente essa estrutura do romance trívio-tatuado de Rushdie, Fúria, que posava como um desafio, quando era em realidade uma carta de amor à sociedade do espetáculo". Ao se contrapor a esses jovens escritores, alguns, dentre os quais, mais ou menos da idade dele próprio, Wood, ironicamente, também ajuda-os a se definir e se enxergar melhor no panorama de mutações pelas quais tem passado a prosa em todo mundo - e no mundo de língua inglesa, em particular - nas duas últimas décadas, as do surgimento da internet e do livre compartilhamento de arquivos. E não deixa de ser um bocado abalizado - e mesmo um bocado divertido - o modo como Wood transpõe à tela do processador de texto suas inquietações sobre os admiráveis (e aterradores) novos rumos, as mutações e as reconfigurações do romance:
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¹Críticos dizem de uma narrativa menos ambiciosa que em Dentes Brancos ou Da Beleza [On Beauty, 2005], livros onde há mais panorama e instantâneos desse mundo mutante e instável dos imigrantes do norte de Londres. (Ou, no caso de Uma Questão de Beleza - assim nomeado, na tradução brasileira, o 3º romance da autora - de uma família mestiça britânica morando na região de Boston). Alguns apontam para certo travo modernista, consubstanciado num fluxo de consciência que deriva de Joyce, segundo uns; de Virginia Woolf, segundo outros, pairando sobre NW. Um tanto como em Uma Questão de Beleza o modelo explícito é E.M. Forster. A história de NW, no entanto, se passa no cotidiano de duas mulheres criadas em North London. Uma atinge certo grau de sucesso e prosperidade, ao contrário da outra; embora ambas tenham chegado à universidade. Uma relação de ressentimento se interpõe. Como amigas íntimas elas se admiram, mas também conhecem os pontos fracos e o lado menos luminoso uma da outra. E há o fato de uma delas assomar mais bem delineada, como personagem. Para além, esse microcosmo londrino é igualmente habitado - e assombrado, como não podia deixar de ser - por quem elas desejam: dois sujeitos que também tiveram sortes muito distintas ao longo da vida. James Wood, o eminente crítico - que criou o conceito de "realismo histérico" justo numa apreciação de Dentes Brancos - investiu com força contra o segundo romance de Smith, The Autograph Man (2002). E há um misto de fascínio e repulsa nas análises de Wood. Entre outras coisas, ele acusa a autora de converter situações sociais em personagens, esvaziando-os da possibilidade de um indivíduo. Mas mesmo Wood, um crítico feroz da equívoca hiperdisposição narrativa; dos excessos meta: da profusão de citações, referências teoréticas, linhas paralelas de narração curtocircuitando-se ou conduzindo a detalhes mesquinhos; dos autores usurpando personagens e pondo palavras improváveis (ou no mínimo demasiadas) em suas bocas; e dos demais pastiches nessa prosa pós-industrial; não se furta a louvar a veia cômica de Dentes Brancos. Embora, no caso específico de O Caçador de Autógrafos (assim nomeado na tradução brasileira), ele proteste contra uma escrita que "é a mais próxima que uma escritora britânica chegou de soar como um(a) americano(a); o resultado é perturbadoramente mutante". Ou ainda: "o romance, que se passa num Norte de Londres e numa Nova York imaginários, porta o selo de escritores americanos, tais como David Eggers e David Foster Wallace, exibicionistas natos e astutos, QI's com I-Books, sujeitos que, no dizer de Smith, 'sabem das coisas', escritores com um dom para uma vertiginosa análise cultural e cuja prosa é vincada de interrupções" e de referências a metateorias e quejandos. Mas, mesmo aqui, não deixa de ser interessante que esses escritores virtualizados, já escrevendo na ambiência do hipertexto, mudando de continente como quem troca de roupa, perfeitamente desenraizados, elejam um lugar específico da memória como lastro de suas vidas. Caso da decadente Detroit que assombra a prosa de Jeffrey Eugenides; da Saint Louis das lembranças familiares de Jonathan Franzen; ou do Norte de Londres, mutante, revolvido e pós-industrial dos romances de Zadie Smith. O que James Wood lamenta é algo que situa-se a meio caminho da motivação, da pulsão comunicacional desses jovens escritores e o modo como empreendem esse registro: eles constroem sua linguagem a partir da estilização de uma fala que, bem entendido, está impregnada de absurdas referências pop (advindas, num primeiro momento da televisão, dos discos e filmes, e, posteriormente, da internet); mas, de outro modo, parecem não guardar suficiente distância disso. E, logo, assomam mais como resultantes desse estado caótico de coisas, que propriamente no papel de críticos mais abalizados desse panorama desolador. Os reclamos de Wood fazem sentido, desque a gente os entenda como algo que deplora não o retrato, em si, desse estado de coisas, mas uma espécie de vazamento da cultura pop para a prosa de vanguarda formatando, assim, um híbrido que desagrada ao crítico formativo, conservador, excessivamente apegado à ideia da narrativa e de um conceito mais ortodoxo de realismo, como é James Wood. Ele percebe bem: enquanto aparentemente apenas tecem uma espécie de sátira deste nosso mundo espetacularizado e coisificado, os romances também sucubem, eles próprios, à espetacularização, à coisificação e à banalização do lixo midiático e pop no Ocidente: "a identificação de um problema não é necessariamente algo que se contrapõe a ele, e pode ser tão só uma simples cumplicidade: foi precisamente essa estrutura do romance trívio-tatuado de Rushdie, Fúria, que posava como um desafio, quando era em realidade uma carta de amor à sociedade do espetáculo". Ao se contrapor a esses jovens escritores, alguns, dentre os quais, mais ou menos da idade dele próprio, Wood, ironicamente, também ajuda-os a se definir e se enxergar melhor no panorama de mutações pelas quais tem passado a prosa em todo mundo - e no mundo de língua inglesa, em particular - nas duas últimas décadas, as do surgimento da internet e do livre compartilhamento de arquivos. E não deixa de ser um bocado abalizado - e mesmo um bocado divertido - o modo como Wood transpõe à tela do processador de texto suas inquietações sobre os admiráveis (e aterradores) novos rumos, as mutações e as reconfigurações do romance:
Incidentally,
novels in which the leading characters are human Cray computers of
arcane trivial facts, in which people quote Casablanca to each other,
or start conversations with challenges like ‘name three vintage
Hollywood decapitations’, or go on about Kitty Alexander and Lauren
Bacall, are now coming to seem dismally familiar. We have had High
Fidelity, and White Noise, and Quentin Tarantino, and The Sopranos,
and Fury, and by now we get the idea that we are poor sops in the
society of spectacle, and that everyone under fifty speaks in
consumer clichés and TV tags. It may be time to retire this little
observation.
[London Review of Books, 2002]

