sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Canção do fim e do mundo

Mel Lisboa em Presença de Anitar, 2001

este ano inventaram um tal de fim de mundo Maia. Uma nova modalidade de acabar com tudo que se acabou no dia 21 de dezembro último. Foi o fim. E a picada. Foi o fim de mais este fim de mundo. E, arre, a picada já não nos deixa tão tontos. Ai que marasmo. Mas parece que os maias já não eram mais os maiorais quando os espanhóis chegaram cheios de marra, elmos, empáfia, sífilis, canhões e missais. Já não eram assim esses balacobacos todos. Não eram mais os bam bam bans do pedaço lá por Yucatán. E até já tinham perdido alguma capacidade de calendário e cálculos. Digo, já não eram mais tão maias assim. Assim como o quê, cara pálida? Como o Zé Mayer em presença de Anita. (Lembram de Anita? Onde andará Anita? Que inveja do Zé). Então, talvez os maias à altura dos conquistadores já fossem de algum modo mais próximos daqueles outros Maias, os de Eça. Quem sabe. Difícil prognosticar como lidavam com incestos. Ou certa inescapável decadência. E, no entanto, dizem os doutos que os maias não tinham algo parecido com arrebatamentos ou  fins de mundo.¹ Não importa. Todo mundo precisa acreditar em alguma coisa por alguns segundos. Nem que seja de mentirinha. Acreditar no que quiser. Em Papai Noel, em Negrinho do Pastoreio, no Supremo, na inexistência, na heterodoxia, em Anita, na ideia de Europa - esta muito cara aos alemães, se vista de determinada janela da Chancelaria Federal - na agnose, nos dezesseis cilindros, e até na imortalidade de Senor Abravanel. Tá valendo. Acreditar que o placar do jogo é o prenúncio de alguma coisa, no próximo ano, em Papua-Nova Guiné. Faz parte. E com todo respeito (essa frase infame de desrespeitosa): faz parte acreditar. Até para se descrer. Ou debitar na crença dos outros certa descrença. Acreditar num guilhotinado de boné, batendo uma falta no ângulo. Num monsenhor que escrevia poesia concreta depois de ter servido no serviço secreto de Sua Majestade numa Segunda Guerra já tão distante. Ou, quem sabe, na tua calcinha rendada, pendurada na torneira, pigando sobre os ladrilhos deste mundo. Deste imenso mundo. E a gente flutuando mais alto que o Himalaia. Nesse ínterim, alguma coisa acontece cada vez mais longe, que tem cada vez mais impacto aqui por perto. Tudo se interliga atrás da fachada do mundo. Ou como diz o poeta: "cuidado! Há sempre um sorriso. De irrefletida maldade: As coisas se estão reunindo. Por detrás da realidade". É, não está fácil comover-se de verdade neste fim de ano de 2012. E os patos voam para o sul nos documentários. E as pessoas dizem que se amam, que se odeiam nas telenovelas. E os perigos do meio-termo. E as alcateias da meia-idade. Tudo como sempre foi, na casa de Abrantes, etc. Mas só um cego não vê que o fim do mundo se dá a cada fim de ano. E o sul, na verdade, é aqui. E os patos acabaram de passar. Vi a sombra deles no asfalto. Nas dunas. As asas retesadas como folhas secas. Ou camisas engomadas. E, então, vamos dançar. Todos. Digo, sem compromisso. E depois é só somar

e depois, nem isso.

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¹E eu fico pensando, em registro profundamente político e incorreto, se os desgraçados desses maias eram tão desprovidos de imaginação a ponto de não imaginar um fim de mundinho básico, desses qualquer. Ou se essa falta de imaginação e escatologia é, em verdade, do antropólogo francês que traduz para nós - leigos e sem capacetes no meio de uma partida de hóquei sobre patins quanto aos aspectos numinosos da civilização maia - como era o tal do imaginário desses evoluídos selvagens. E depois a gente fica sabendo que o antropólogo francês era da Aquitânia. E até meados século XIX os seus antepassados falavam e pensavam primeiramente em occitano. (Por exemplo, quando martelavam o próprio dedo e exclamavam). Até que a turma de Paris e de Nanterre extinguisse de roldão, por decreto, ferro e fogo todas as delicadas culturas e línguas alternantes no Midi. Faz parte da civilização. À la vôtre.

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