sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uma conversa entre três para inglês não ver


Paul Gauguin, 1888


A verdade é também sua busca


Por conta de riqueza dos comentários de Victor da Rosa e Odorico Leal, tentarei glosá-los abaixo. Os argumentos de ambos encontram-se como comentários à postagem Tratado Assimétrico de Poesia Pós-Cabralina, um pouco mais abaixo. Victor da Rosa é ensaísta e poeta, mora em Florianópolis. Odorico Leal, poeta e músico piauiense, vive em BH. Ambos são mestrandos em literatura:

Da percepção dos poetas jovens [ou então Catar Batatas na Pomerânia]
Por "poetas jovens" entenda-se simplesmente a expressão em sua aplicação mais prosaica e corriqueira: pouca idade. Digamos, gente entre seus quinze e trinta e cinco. São importantíssimos, porque herdarão a Terra quando não estivermos mais por aqui. A expressão deve também ser entendida no contexto da postagem do Odorico Leal: como é possível valorar os poemas desse grupo quando se está simultaneamente empenhado em detectar valores duráveis? E até que ponto a leitura deles deve ser tomada como um vetor realmente importante ou determinante sobre a escritura de um poeta mais velho ou consolidado? Então, o ponto é esse. Passa longe, digamos, de fermentar uma espécie de contraposição ou cizânia geral entre jovens, velhos ou de meia-idade. Não devemos esquecer também que, com o correr dos anos, a poesia é seletiva. Há poetas que se afastam dela por razões diversas: ou para traficar escravos como Rimbaud, ou para pular da janela de um apartamento no Leblon como Ana Cristina Cesar ou para assumir o cargo de procurador-geral do estado, como alguns de nossos contemporâneos. Ou então, sejamos sinceros, por pura falta de talento ou obstinação. Só uma fração bastante reduzida dos atuais "poetas jovens" ainda será poeta (ou mesmo será lida) dentro de só uns poucos anos. A tarefa do crítico, entre outras, então, seria a de tentar triar, divisar quem tem mais potencialidade, talento, obsessão. Quem fareja melhor graça e eternidade. Em especial, essa capacidade de flagrar o eterno no momento, como queria o velho Baudelaire, lembrado pelo Odorico. E isso é já um critério. No instante em que há muita resenha e nenhum critério. É um critério modesto. Nada sofisticado - se visto com os óculos e os conceitos das pós-graduações. Mas critério nos tempos de hoje já é algo. Nos tempos em que um poeta não tão novo, já com considerável obra publicada - e com seus méritos - nos diz que não lhe interessa "discutir se um texto é bom ou ruim, porque isso é da pobreza do pensamento". Só posso concordar com esse poeta em ironia. Em quase sarcasmo. De fato, é preciso certa pobreza de meios - dispositivos teóricos, procedimentos agregados, formulação mínima de um sistema de pensamento (ainda que poroso, atonal) - para ler um texto de modo efetivo, crítico, sincero. E digo mais, pouca gente nutre-se dessa prerrogativa hoje. E no momento em que a gente julgar incapaz de nutrir-se dela (a partir da inteligência mas sobretudo da intuição [Bergson]), prefirível, quiçá, assumir-se como "o vencedor", e ir catar batatas na Pomerânia.

Algo de bacharel nos concretistas [ou Há coisas que não se pode escamar sem tirar fora a própria pele]
"Acho realmente que há um parnasianismo meio frouxo e asséptico que se tornou marca. Talvez uma leitura bacharelesca dos concretistas" [Victor da Rosa]. O problema aqui é que há uma possibilidade - ampla inclusive - para essa "leitura bacharelesca" referida. Ou seja, ela não se dá em vão. Não devemos esquecer que a trinca concretista é composta... por bacharéis. Bacharéis algo distintos dos outros [quem dera houvesse mais bacharéis assim!]. Mas ainda assim, bacharéis. Todos os três - Haroldo, Décio e Augusto - saíram graduados pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. É impossível que não tenham agregado "algo" dessa cultura de bacharéis - tão ironizada por um autor que lhes é caro: Oswald. Tão ironizada por eles próprios. Por uma previsível dialética, no entanto, esse bacharelismo é menos rançoso em quem menos se esforça por escondê-lo: Augusto. De outro modo ele é mais evidente em quem mais se empenha em pô-lo tapete abaixo: Haroldo. Ao não romper com tambores e estardalhaço com o passado concretista, Augusto é quem mais "rompe" com ele, em paradoxo. O contrário disto é o "Pós-Tudo" de Haroldo. Ou as Galáxias.

Sobre Barthes & Cia. [ou Dos perigos das renomeações vazias]
Aqui, sou inflexível. A sub-cultura instaurada pelas pós-graduações não é erva-daninha, é a própria mandrágora. O que vejo sair em linha reta dela não é poesia, é uma pretensão por conceitos. Mas por conceitos revomitados sobre nós sem criatividade alguma. Não há sectarismo aqui. Não há desejo de negar o brilhantismo de certas obras [como a própria Câmara Clara de Barthes]. Do contrário, há a óbvia e urgente necessidade de apontar justamente a prolixidade e o ranço bacharelesco dessa francesada toda. Existem boas sugestões por exemplo nas observações de Derrida sobre tradução. Ou nas de Deleuze sobre cinema. Mas são episódicas. É preciso garimpá-las. Travar um corpo-a-corpo com elas, sem meiação de intermediários. Ao menos num determinado instante. Separar trigo e joio. Depuração, filtragem, necessidade de escamar essas teorias do supérfluo. E diante de nossas latitudes, sensibilidades, história, modos de fazer e sentir consolidados ao longo do tempo. Isso é que saiu de quadro. Isso é que não anda em foco. Hoje há muito mais fascínio gratuito por e/ou deslumbramento (ingênuo, reativo) diante desses conceitos ocos, incapazes de enganchar em nossa realidade. Diante deles se pode interpor o comentário de Walter Benjamin - que de algum modo anteviu esse estado de coisas:
Essas terminologias mal-sucedidas de nomeação, em que a intenção tem maior peso que a linguagem não tem a objetividade que a história conferiu às principais correntes da reflexão filosófica.
Ora, este comentário cai como luva e larva sobre essa sub-cultura do politicamente correto em que vivemos imersos e que tanto estrago tem causado - alimentada pela leitura vulgar dos pós-estruturalistas - em nossas universidades e em nossas vidas.
Deleuze funda todo seu pensamento na afirmação: "pensar é criar conceitos". Mas isso, de fato, soa como sofisma. E no caso desses conceitos não buscarem a verdade? Constituirão tão-só discursos pretensamente sofisiticados? E, nas mais das vezes, sem nenhum real enganche nas realidades e suores de nossos meridianos e trópicos. Não se pode abandonar certas coordenadas apenas porque não são a moda da vez. E, antes de Barthes, Deleuze & Cia., vivemos as especificidades de um lugar, de um passado, de um idioma, de uma história.
Sobre realismo [ou Quando o mundo vem antes]
Creio no mundo. O mundo antes da arte. Antecedência já apontada por Santo Tomás: "veritas sequitur esse rerum" ["a verdade segue a existência das coisas"]. Se a partir disso se pode dizer que meu senso de realismo é "puro", então que seja. [Lembro, aqui, do SIM escandido pelo Odorico em seu comentário].
Mourão, Tolentino e a tirania de esquerda na academia e no circuito editorial
É mais fácil condenar Tolentino que lê-lo. Eu mesmo já fiz isso. O ponto é que há uma grosseira tutela do espaço de debate na academia para garantir uma espécie de reserva exclusiva para autores de esquerda. Ora, a inteligência passa longe de ser um monopólio da esquerda. O próprio Pound é o exemplo. Para não falar de Céline e tantos outros. Homens extremamente lúcidos - embora salpicados por erros políticos e graves preconceitos. Não penso que muitos de esquerda, no entanto, estiveram menos errados que esses, ao, por exemplo, defenderem o stalinismo - caso de muitos escritores "canônicos" aqui do Brasil. O problema é que isso gera gravíssimas distorções. Franceses de esquerda são astutos o suficiente para aprender com escritores como Céline ou Bernanos, que são de direita. Enquanto isso temos autores como Gustavo Barroso ou Gerardo Mello Mourão sobre os quais paira um total silêncio na academia (e fora dela) por conta de suas malsinadas idéias políticas. No caso de Barroso, isso chega a ser caricato. Ele publicou mais de cento e vinte livros, fundou o Museu Nacional e teve sua tradução do Fausto de Goethe elogiada por Sérgio Buarque, mas permanece um tabu dentro de nossa cultura literária esquerdóide. Não há sequer um verbete para ele no dicionário de escritores organizado por Alfredo Bosi, por exemplo. A omissão é tão grave quanto reveladora. Os franceses, que sabem o quanto a obra de um autor transcende suas inclinações políticas, vivem debruçados, por exemplo, sobre os escritos de Louis Ferdinand Céline, que fugiu para a Alemanha junto com Pétain e os párias de Vichy. Hemingway, que lutou ao lado dos republicanos espanhóis e era amigo de Fidel Castro, nunca deixou de defender Ezra Pound, apesar de lamentar seus equívocos políticos. Enquanto isso, Gustavo Barroso, que morreu em 1959 -- e, curiosamente, foi militante socialista na juventude -- amarga um ostracismo de mais de 50 anos. Acreditem. No Brasil é assim.

Generalidades

Resumindo, me parece torpe que se gaste tanto tempo com essa francesada, por exemplo, e, ironicamente, quase nada se saiba de escritores brasileiros que foram votados a amnésia. Era um pouco a minha insistência com alguns jovens poetas aqui de Fortaleza ao final da década de 80. Os incitava a ler Joaquim Cardozo, Rui Ribeiro Couto, Dante Milano, entre outros poetas. Excelentes como escritores. Não propriamente ostracizados por suas posições políticas. Mas ofuscados pelo tremendo espaço concedido a outros poetas na conformação de um cânon didático, escolar. Era, portanto, uma tarefa de recanonização. Não que pense que cânones estejam aí para serem "desconstruídos". Sem eles, não teríamos qualquer sedimento. Sem cânones não teríamos sequer de onde partir ou onde pisar. Desconstrução me parece algo como reação. E hoje em dia se tem mais pressa em reagir (impulso, sentimentalidade) do que em refletir (avaliação, arte fria). Quem diz isso sobre reação/reflexão, aliás, é Paul Valéry, um autor francês bem menos lido que os pós-estruturalistas em moda. Se alguém sugerisse a leitura de Gustavo Corção - que se exprime com grande elegância em português - num departamento de literatura, seria escorraçado. Ora há muito o que discordar em Corção, mas deixar de lê-lo é também deixar de entender todo um esquema mental que vai ser decisivo para a montagem do pensamento da direita udenista implicada no Golpe de 1964.

Em relação aos mortos, acho que você tem toda razão, Odorico. Isso, aliás, me faz lembrar a conhecida frase de Walter Benjamin: "os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer". Ou se pode também recordar Simone Weil:
O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; somos nós que para o construir devemos dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso possuir, e não possuímos outra vida, outra seiva, senão os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana, não há nenhuma mais vital que o passado.”
De resto, em sensibilidade, me encontro muito próximo desse seu ponto de vista um tanto solipsista em relação à obra (idiossincratíssima) de cada autor, Mr. Leal. Acho seu comentário ainda mais importante que a postagem sobre o embaraço de T.S. Eliot diante da leitura de jovens poetas. Aliás, desde o início, o que me chamou a atenção, além da clareza e da (boa) ironia com que você organiza sua escritura foram suas escolhas - bem pouco ortodoxas, muito pessoais. Acho isso um ganho, atestado de autonomia e caráter num momento em que tudo tende a uma norma de padronização um tanto perversa, niveladora. Entendo, por saudável paradoxo: hoje em dia, quem minimamente suspeita de conceitos como "desconstrução" ou "corpo-sem-órgão" é, de fato, quem se encontra mais próximo de exercer um abalo sísmico sobre cânones, teorias da tradução ou sistemas de semiose.

A meu ver, a primera tarefa é histórica (e, por tabela, também geográfica, etnológica). Um reconhecimento do terreiro. De seu passado. Só depois, quando ela foi minimamente executada é que se pode partir para outras, menos prospectivas.

É isto.


Ano admirável: Larkin e o verso como notação de momento


Bill Brandt, 1953


Annus Mirabilis


Sexual intercourse began

In nineteen sixty-three

(which was rather late for me) -

Between the end of the Chatterley ban

And the Beatles' first LP.


Up to then there'd only been

A sort of bargaining,

A wrangle for the ring,

A shame that started at sixteen

And spread to everything.


Then all at once the quarrel sank:

Everyone felt the same,

And every life became

A brilliant breaking of the bank,

A quite unlosable game.


So life was never better than

In nineteen sixty-three

(though just too late for me) -

Between the end of the Chatterley ban

And the Beatles' first LP.


Philip Larkin



Annus Mirabilis


O começo da transa foi enfim

Mil novecentos e sessenta e três

(um tanto em atraso para mim) -

Entre o Chatterlay sair da censura

E os Beatles lançarem a loucura.


Á altura só entrara na dança

Uma espécie de barganha

Uma disputa pela aliança,

Aos dezesseis, uma falta de sanha

Que se estendia à toda a artimanha.


Súbito a briga acabou

E todos sentiam-se iguais

E toda a vida virou

Uma brilhante quebra da banca,

Um jogo de entrada franca.


Não houve vida mais bela

Que nos idos de sessenta e três

(para mim, tardia chancela) -

Entre o Chatterlay sair da censura

E os Beatles lançarem a loucura.





Nota - Ah, quanta falta na tradição de poesia brasileira recente de registros assim. Algo que ponha poesia - em toda sua graça - a serviço da crônica ou do momento. Não há regras. Tem horas que é preciso esquecer que há eternidade e perenidades. E simplesmente render-se ao momento, à gandaia. Afinal, quem diria que este Larkin é o mesmo que escreveu versos da solenidade de: "Onde viver, senão em dias"? O Chatterlay referido trata-se do romance de D. H. Lawrence O Amante de Lady Chatterlay [Lady Chatterlay's Lover], que durante anos foi proibido na Inglaterra. Realmente, poucos poetas conseguem ser tão ingleses quanto Larkin. Reparem no refinado auto-humor com que ele lamenta já estar um pouco além do ponto, maduro em excesso, em 1963 ("Though just too late for me"). Em 1963, Phllip Larkin tinha 51 anos. É estranha a empatia que nutrimos por determinadas épocas que sequer nos foram dadas viver. De minha parte, tenho saudade de tempos felizes em qualquer época. Eles parecem um advento, uma 'parousia'. Permanente possibilidade. É assim com 1963. E olha que nos dois primeiros meses desse ano eu sequer havia nascido.


Passionalidades e Putas


William Wegman, 1976


Giorggio & Francislene


Em verdade, não vejo problema algum com putas e gringos, desde que abusos, violências sejam exemplarmente punidos. Sabemos que não são. Ou então, que haja um mínimo de possibilidade de monitoramento sobre menores de idade ou das condições sanitárias. O que também não existe. É certo que o aspecto daqueles italianos de meia-idade e cabelos ralos, tingidos, ventres proeminentes sob camisetas coladas, passeando com jovens que poderiam ser netas deles causa algum asco. Mas também é um pouco estúpido que certos políticos, assumindo um tom de moralismo piegas, tentem capitalizar dividendos sobre a situação-açougue de Fortaleza. Ou de onde mais no Brasil, no planeta. Enquanto isso a menina desfila à beira-mar, braços dados a seu sugar-daddy. Houve delas que escreveram livros bem elaborados. Na França do sec. XVIII, por exemplo. Não vai se extinguir fácil, desde que a população - michês incluídos - não tenha o que comer ou onde se pós-graduar. Isso é certo como dois e dois. A profissão é ancestral. E, dependendo da profissional, parece ser bastante respeitável. Cá em Fortaleza até na pós-graduação há putas e michês. Gente que paga a sua formação com o aluguel do corpo. Converse com dez mulheres em Fortaleza. E pelo menos umas três (vá lá, umas quatro) dirão que casaram para escapar de algo: da tirania dos pais, da pobreza, da classe-média baixa (esse conceito que recende a má emenda de soneto), etc. O problema é bem outro. E, no entanto, há classe-média baixa com impecável capacidade de compostura. Há gente que pega no pesado. Comuta de ônibus nos terminais, mas não deixa um dedo arrastar sobre a epiderme em troca de um punhado de euros. Como pode ser? Talvez concretamente, numa determinada dimensão da vida, pensem, não há classes. Classe altas, baixas, médias, médias-baixas. Castas. Há a consciência absoluta, verdadeiramente moral, não relativa ou graduável de cada um. O arbítrio da escolha. Algo que se aparta do coletivo. Apenas, no caso, a consciência da maioria que escreve sobre a questão da prostituição em Fortaleza, inexcedivelmente egoísta e auto-centrada como costuma ser, profundamente mimada e paroquial, lamenta apenas que a prostituição haja abiscoitado o espaço, por excelência, da boêmia juvenil: a Praia de Iracema. Se fosse não na Praia de Iracema mas no Pirambu, na Barra do Ceará, na Praia do Futuro - epa, aqui durante à noite, não durante o dia - para os que escrevem sobre a questão, seria indiferente. Es ist egal.

E só.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Tratado assimétrico de poesia pós-cabralina


sem indicação de crédito


15 espasmos - poesia contemporada (um breve gráfico)


Outro dia li um comentário do Odorico Leal sobre o assunto. Explico: ele se referia ao desconforto do T. S. Eliot editor diante da leitura de poetas jovens. [Para mais detalhes, aqui]. Ressalvo que Eliot não está entre meus autores mais prezados, embora (e vai redundância) sua produção tanto poética quanto ensaística seja uma opulência. Isso posto para dizer que fico muito desconcertado hoje diante dos poemas de gente jovem. E acho que faz todo o sentido. De repente, não sei mais se são "bons". Se não são. Mas ao contrário de muita gente ainda não desisti de achar gradientes e mesuras para o que se faz. Sempre os há, se devidamente buscados. Desistir de valorar textos é desistir de escrevê-los. Jogar o bebê junto com a água do banho. O que percebo apenas é que a esmagadora maioria desses "poemas jovens" não me interessa. Ou porque sequer são poesia ou porque há que se ler os clássicos. Se reler do lido. Pelo menos em maior intensidade do que, em geral, se faz nos 'diascorrentes'. Enfim, me desculpe a galera. Não se pode perder muito tempo. E meu tempo de ler poesia de vanguarda já passou da conta sem chegar à monta. E contribuí com minha cota. A não ser que surja o quê? Um momento de conspícua poesia de vanguarda. O que não é o caso no presente.

Aliás, não é de hoje: a poesia no Brasil anda um marasmo. Pântano numa charneca. A literatura de um modo geral. A gente fala isso sem pessimismos ou ranços. Mas por dever de realidade. E até por desejo de que algo de bom salte ao picadeiro. Como o cinema tem saltado ao picadeiro. Tanto para grande público quanto para iniciados. [Falo em cinema para não usar a palavra horrenda: audiovisual].


O último livro de poesia que desperta algum fervor, de começo a fim, é O Homem e Sua Hora, de Faustino. Foi lançado em 1955. Faz tempo. Depois ainda houve algum Cabral aqui, algum Augusto ali. [Os últimos livros de poesia que podem ser lidos sem maiores ravinas e montanhas rochosas, para ficar na topografia dos westerns].

O panorama da poesia mais vanguardeira, a que vem justo pela herança dos concretos - que acompanhei por décadas - anda tão pobre de mavé quanto numeroso. Começo a desconfiar que há vida de verso fora disso. Deve haver. Não é possível que seja só isso. Ou seja, só essa imitação rala e acriativa. Sobretudo da cena norte-americana, mas não só. E, em especial, de um fluxo minimalista com certo pendor visual (Williams) associado a uma tola desorientação sintática à Creeley, Olson, L=A=N=G=U=A=G=E poets ou a verve conversada de um Antin. Isso, numa das lâminas da moeda. Na outra, temos neo-barrocos que saem a associar palavras numa espécie de surrealismo datado, temperado por referências que flertam com o kitsch, os excessos, a sensualidade, certo suor de cabaret cubano filtrado por paetês, lantejoulas, uma deliberada escatologia e fascínio por termos raros. Para não falar dos que reivindicam uma estética feminina, queer, afro-brasileira ou - pasmem - nordestina à reboque do que fazem (de novo) os americanos. [Entenda-se, nada contra poetas gays, mulheres, negros ou ocupados com temáticas mais ortodoxamente regionais. Muito pelo contrário. Tudo contra, no entanto, quem defende a especificidade de uma literatura castiçamente queer, feminina, afro-brasileira ou regionalista. Isso, sim, a reivindicação dessas especificidades, assoma com problemas. A poesia é algo suficientemente humano para abrigar a todos]. E, assim, pode-se lamentar que todo o rigor concreto - vazado da retórica de faca sem cabo de Cabral - tenha parido justamente essa matéria amorfa que pomos diante dos olhos nos dias de hoje. Não pode ser só isso.

Então, o meu projeto é despir-me de preconceitos e ler autores como Gerardo Mello Mourão, Bruno Tolentino, Felipe Fortuna. Ao menos eles parecem tratar melhor a língua. É desagradável constatar tanta indigência à volta. E não aquela indigência do tipo bom, da escassez de meio que sabe moldar formas. Soldar sucatas. Como no sertão latas de óleo de cozinha até um dia desses viravam lamparinas de um apurado design. E décadas antes de se falar em reciclagem. Pois isso é poesia. Um gesto antecipado. As formas não só são imaginadas mas ganham presença, volume, dimensões. Assomam como formas da história. Sua raiz está no pão e na fala. Experiência endentada no coletivo. É a partir de coisas assim que devemos tirar a medida, os noves foras de nossas formas. As extensões de nossas linhas. Um escritor pode até voltar-se para abstrações. Ou para esse sentimento de um mundo que está em todo lugar a todo tempo e, ao mesmo tempo, algures e em tempo algum. Para esse sentimento que está na 'virtua' [favor não confundir com a Virna, que é a Teixeira, boa poeta e excelente tradutora]. Quer dizer, está mais do que nunca por aí, no mundo virtual. Mas querer negar a realidade contingente e brasileira - ou sua história é suicídio cultural.

Não penso que isso seja culpa da turma mais nova. Os cursos de pós-graduação e a internet causaram um espantoso mal à maioria dessa geração que começou a chupar pirulito com a mão esquerda, porque a direita já zigue-zagueva sobre o mousepad.

Hoje nas pós se lê quase que exclusivamente teoria. Não se lê mais poemas, prosa de ficção. Quem vai por aí, vai por conta, abnegação e risco próprios. E é claro, ninguém aprenderá a escrever poesia lendo Barthes, Blanchot ou Derrida em tradução. Há um verdadeiro fetiche por novos conceitos. E por quotações. Por metaescrever. Os alunos morrem por isso. Por essa grosseria inflacionada. Pela grosseria e a pura falta de conexão entre esses conceitos e nossa realidade. E é assim que as pós reduzem os caras a pó. Os domesticam. Os tiram de letra. Os nivelam em grosseria. Matam os poetas que há neles nos campos de concentração pós-estruturalistas dos conceitos. Nas gaiolas dos "metas". Nos grandes saldos, nas vendas de gato por lebre, como nesses discursos transdisciplinares repassados como se isso fosse "novidade" e já não viesse sendo gestado em arte, desde que arte é arte. Nas arapucas das referências bibliográficas de teorias não filtradas ou lidas com verdadeiro espírito crítico. Ou, no mínimo, malascostumam os alunos, com suas prolixidades: o poder, a linguagem, o signo, a dobra. Discursos dobrados sobre si. Roendo avidamente a própria cauda que já se encontra em estado ósseo. Cada conceito, da forma como vem sendo lido, é uma barra a mais de gaiola. E poesia não rima com gaiola.

Na internet, a informação está mais disponível. Mas também rasa à potência. E o que era doce - o esforço quase individual (de todo modo mais idiossincrático e intuitivo) que se tinha de fazer para selecionar umas poucas linhas de informação e nelas recortar em profundidade - se acabou. Na contramão, o que era disperso ficou (in-co-men-su-ra-vel-men-te) mais. Uma epistemologia do superficial. É claro que é bom poder se informar sobre o que acontece em outros países. É mesmo imprescindível. Seria ingênuo e xenófobo não fazê-lo. Mas, volta e meia, é preciso fazê-lo com um pé no terreiro. E também cuidar para não querer saber "tudo". Os perigos do número.

Não sou propriamente pessimista. Sou realista. Mas tenho esperança e fé: um dia o vento há de virar. Soprar para outro cardeal ponto. E jovens poetas talvez se interessem mais por história, pelo passado. Pelo país, de modo particular. Não se pode escrever coisas verdadeiramente novas sem esse estribo. Por exemplo, gente que imita Creeley mal dimensiona o quanto sua obra deve à cultura de New England, que é sua região de origem.

Então, é sempre um alento, por exemplo, saber de gente como Nícollas Ranieri. Um cara mal saído dos cueiros, que vive em Uberaba, Triângulo Mineiro. Ao que parece, com legítima fome de forma e história. Ou então, um pouco mais crescidinha, a carioca Izabela Leal - afinal não é todo dia que a gente se pode dar ao luxo de ouvir uma poeta interessada por um autor como Camilo Pessanha. A maioria não sabe nem quem é. Ou se ocupa com essas contigüidades. A maioria anda atrás de ler L=A=N=G=U=A=G=E poet em tradução. Ressalvo, tradução é melhor como exercício para quem faz do que para quem lê. Tradução é melhor como exercício, notação. Estudo. Tradução só existe em instância modal. É muito mais útil para quem é do ramo - e, portanto, também pode estudar em comparado com o original. Fora disso, tradução é propedêutica para um público leigo. Mas se você se quer do ramo, quer ser poeta e decalcar de Henry Deluy ou Jacques Roubaud, aprenda francês. Se quer derivar de Creeley, mande ver no inglês. Espanhol, nem precisa estudar. Basta ler com um bom dicionário do lado. Italiano é um pouquinho mais intrincado, mas nada que um bom dicionário também não resolva. E para os mais dispostos há o latim e o alemão. Ou a especialização em línguas distantes: russo, hebraico, coreano, japonês...

Há algo de equívoco nos concretos. Nem tanto como tradutores, agitadores culturais e - até certo ponto - teóricos. Décio nunca foi propriamente um poeta. Embora haja composto alguns bons poemas avulsos. Não há um grande livro de poesia de Décio. Seu interesse, nos últimos tempos, aliás, segue por uma semiótica da prosa. De poemas isolados também vive Haroldo. Em poesia, nenhum dos dois escreveu algo à altura dos livros de Augusto. O épico de Haroldo, Galáxias, é constrangedor:

Esta mulher-livro este quimono-borboleta que envelopa de vermelho um gesto de escritura e doura suas páginas dela a mulher-livro em papel-japão cada página que se compagina num fólio-casulo

Umm!

Por que o processo de justaposição, amálgama e colagem em Haroldo soa tão forçado? É que não há lastro de experiência. Haroldo passou a vida em seu estúdio. Foi um leão civilizador. Traduziu, ensaiou, polemizou. Envolveu-se em legitimidade e (algumas boas polêmicas) com a tradição e com a recanonização. Resgate e redimensão de Gregório de Matos foram tarefas de Haroldo. O arejamento da tradução de gente intraduzida, até então, de línguas e circuitos culturais diversos. E também dos clássicos.

Porém, todavia, contudo. Não quimono-borboleta, não folha-casulo, não papel-japão. E definitivamente não mulher-livro. Há algo de forçosamente ralo e artificial nessas justaposições. É possível desconfiar que Haroldo sabe de livros e gatos. Mas não passeou de alpercatas pelo solo de Monte Santo.

Rosa andou com tropas pelos sertões. O conhecimento de Rosa nunca era só gabinete. Rosa destila vanguardas a partir da fala, das brenhas, do mundo lá fora. Sem fala corrente não há língua. Mas também não há obra. E mesmo no Euclides de A Terra há fala recorrendo e pó de estrada. Para fazer isso é preciso conviver com fala. Combiná-la com outras palavras que não fala. Ouvir a voz das ruas. Errar por elas. Eis porque a justaposição de Haroldo não engrena. Não há flanagem por ruas e no meio delas um redemunho. Em Haroldo há um divórcio entre cotidianos, experiências de um lado; cultura formal do outro. E nessa gangorra, os primeiros fatores são de pluma diante do plúmbeo dos compêndios, tratados, léxicos e alfarrábios. Fração entre fala e erudição. Haroldo é erudito. Mas nele não se consegue escutar uma escuta da fala.

Não é de se entender que os neo-barrocos, por exemplo, elejam Haroldo e não Rosa. Assim como chega a ser incrível que não saquem nada de Vieira ou Gracián.



Duas versões para um impossível


Egon Schiele, 1915




Sonnet CXXX


My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress when she walks treads on the ground.
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

William Shakespeare

Soneto CXXX


Não tem olhos solares, meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.

Barbara Heliodora



Soneto CXXX


Olhos de minha amada de sol não tem nada;
Bem mais rubro que seus lábios é o coral;
Se a neve é alva, seu peito em flor fechada;
E o fio de cabelo quase de arame é feito tal.
Conheço rosas brancas, rubras e amarelas,
Porém nenhuma delas lhe adorna as faces;
E haveria mais aroma em certas macelas
Do que no hálito que de meu bem exalasse.
Adoro sua voz, embora reconheça
Que música se faz com melhor dicção.
Garanto, jamais vi uma alada deusa,
Os passos de meu bem rebatem sobre o chão.
Porém, por Deus, percebo-a tão rara
Ante a qualquer outra que a ela se compara.

Ruy Vasconcelos


Nota - Não gosto de teatro. Não fui acostumado desde cedo com teatro. Nunca foi algo que me divertiu muito. Porém me lembro, em 1992, de uma encenação de Ricardo III, pela Royal Shakespeare Company, no Arts Center da Universidade de Warwick, que, depois do espetáculo, ficamos -- um grupo de amigos -- tomando cidra no pub anexo, um tanto tontos de pensar: não era possível que aqueles caras de carne e osso, que tomavam seus drinques e fumavam seus Marlboros a só uns poucos passos de nós eram os mesmos que estavam no palco, só uns minutos atrás, falando naquela linguagem sublime. Junto com certa versão da Paixão de Cristo por pescadores da Taíba - e por razões muito diversas (à certa altura o Centurião, após algum contratempo de cena em pregar o Cristo na cruz bradava, batendo com o chicote no chão: "Açoita esse cabra, direito!") - foi uma das raras vezes que o teatro virou absoluto cinema. Daquele tipo de se sair da sala, olhar para a rua escura e dizer: "ué, mas já anoiteceu?" Há ganhos de parte a parte nas versões. E também perdas. A de Barbara Heliodora é mais concisa e coloquial. Mais elegante. Inclusive pela precisão e riqueza das rimas. Talvez haja mais unidade, coerência, afinal, ela é a maior autoridade no bardo de Stratford por aqui. Mas quem pensa que só de coerência e unidade vive um poema? E, assim, creio que há uma certa carência de música em sua versão. E a música desempenha um papel importante nessas linhas. Este poema é uma espécie de "Amor é fogo que arde sem se ver" ou "Alma minha gentil, que te partiste" da língua inglesa. E vou dizer, parece ser tão bom quanto.

Pois então, pós-moderno


Andreas Gursky, 1997



Pós-delírios de um pós-febril possesso
Cansei de ser moderno. Mas também não quero usar luvas no inverno. Meu blogue agora será pós-moderno. Mesmo que Giddens não queira. E, então, daqui pra frente, como tudo será (o mesmo) diferente, só postarei metapostagens. E, como se sabe, na pós-modernidade o escritor não escreve mais. É o leitor quem escreve, como dizia Blanchot. O escritor é passivo como um poste com um urubu em cima. Meus posts agora serão assim e acima, com um tremendo urbuzão por lá. Afinal, essa cousa de cânon não está com nada e o negócio é que a poesia é coisa, talvez, para lugar nenhum. Como?

Mas, ao menos, analisemos a leitura-escrita que o leitor faria, pós-talvez, do post com a piadinha do SUS:


Ah, que preconceito, colocar uma pobre foto com a imagem de Drummond.

Ah, que preconceito, misturar Drummond a uma piada sem graça.

Ah, que preconceito, colocar um cara com a estrela do PT na foto.

Ah, que preconceito, fazer pouco da psicanálise.

Ah, que preconceito, o nome de Lacan pronunciado em vão.

Ah, que preconceito, será que você não tem vergonha? Cadê a sua culpa católica? Você não tem opinião?
Não, não tenho vergonha, mesmo. Afora que agora sou pós-moderno. Reconheço que vergonha é um conceito prévio. Um negócio de modernos. Um termo cavilosamente mencionado pelo escrivão da frota de Cabral ao aportar em Pindorama. Um preconceito. E nós fomos amestrados a não ter preconceitos.

Aviso aos pós-navegantes: recentemente, a associação de cegos dos Estados Unidos [IBEU] boicotou o filme de Meirelles baseado em Saramago, Blindness. Eles estão certos: o título do filme é extremamente preconceituoso. O título do filme atenta contra a moral e os bons pós-costumes. Um atentado contra os direitos da pessoa humana cega. Da pessoa humana surda. Da pessoa humana muda. Da pessoa humana obtusa. Da pessoa humana com cirurgias plásticas. Da pessoa humana que vive no primeiro mundo e consome por ano o que uma família africana com dez filhos consome em cinquenta anos. Da pessoa humana que ainda assim se dá ao desplante de ser ativista da causa ambiental. Da pessoa humana que fê-la por que quê-la. Da pessoa humana que só vai ao supermercado com a mesma sacola reciclável e se acha moralmente superior por isso. Da pessoa humana que crê que há semiótica. Da pessoa humana que assume próteses identitárias ao invés de odontológicas. E de uma trinca de macacos chineses.

Arre, cansei de ser escrito. Vou voltar a ser moderno. A partir do próximo post, voltarei a ser moderno e escreverei de novo. Será minha vingança. Minha palinódia. Vou mostrar a que vim. Serei moderno. Modernizar-me-ei. Aliás, desposmodernizar-me-ei. Estou mudado. Minha vida se modificou. Mesmo sem ter você. Inté. Celeró.

Pós-serenou na madrugada, não deixou bem dormir.

Quando o espírito é inverso à dose


Gerhard Richter, 1984


Anedota da Vacina


E um dia destilaram a vacina contra a velhice. De nada adiantou. Os insensatos que se predispuseram a vacinar-se – e as filas nos postos eram longuíssimas -- foram justo aqueles sobre os quais a vacina não tinha qualquer efeito.

Novo benefício do SUS: psicanálise para todos


sem indicação de crédito


Sessões sem limite de tempo. (aviso: a linha é lacaniana)

Agora, se você preferir:



Consolo na Praia


Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 25 de outubro de 2008

Lagos, distâncias, visitas em três linhas


Com Virna Teixeira e Eduardo Jorge, São Paulo [16.10.08]
[Foto: André Dick]


Espaçarias e funambulagens de uma vida entre garranchos

Virna e Edu. Duas conversas - nunca tão-só virtuais - reencontradas pessoalmente. Ela escreve livros de versos como Visita e Distância [7Letras]. Sóbrios, reticentes, reprocessando boas sugestões recentes de poesia em língua inglesa. Temperando-as com uma aguçada sensibilidade visual. Para além, tem traduzido poetas predominantemente do inglês. Em especial, os escoceses [Na Estação Central (Edwin Morgan) e Ovelha Negra (antologia de poetas contemporâneos)]. Verter, essa tarefa cívica. No melhor sentido: elastecimento da língua, postavanção de limites. Mr. Jorge lançou Cadernos do Estudante de Luz e Espaçaria [Lumme], além de ocupar-se com outras mil vadiagens e uma, como videopoesia - cuja discussão gerou, talvez, o mais aceso debate no recente Simpoesia. A partir dos conceitos de Virna, sugeridos pelos títulos de seus livros, assim como da coleção disjuntiva de epaços do Edu, é que penso em ambos. Ou seja, nos termos de uma proximidade espacial que é tão óbvia, a ponto de nos reunir em torno de alguns copos de chope e boa prosa em São Paulo. Virna morou na Monsenhor Bruno - rua de Fortaleza em que moro - à altura em que eu morava no Reino Unido, onde ela depois morou. Edu, alguns anos depois de mim - posto que ambos são uns fedelhos - habitou o mesmo apartamento que ocupei aí pelos idos de 1995-96 no mítico Edifício São Pedro, Praia de Iracema. ("Os que habitaram o quinto andar do São Pedro estiveram mais perto do Céu, e herdarão o Reino"). Aliás, Edu escreveu um poema e gravou um vídeo tomando como mote o velho edifício. [O vídeo, alcunhado San Pedro: Interferência, com a colaboração de Alexandre Veras.] Coincidências? Nããã. Foi tudo planejado. As interseções espaciais, em distintos tempos e ritmos, dizem também de certa confluência e articulação na singularidade.


1. Funâmbulo como se Elástico



2.

          fina linha era

          sobre a cidade: cabelo-fio

          equilíbrio (a partir

          do ponto zero do esforço:

          móbile aéreo fluirá

        a cor – algo entre

        bolchevique e bodisatva

        daltonismo milênio este

        phoros – luz ou buzina

        algo entre som e sentido:

        o espaço na lona, silente

        elástico:

        o fio deixado, do cabelo

        a diante passava fino e cego,

        como o branco, o opaco

destes olhos.

[Eduaro Jorge]



Detox

Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.

Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.

Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.

A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.

No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.

[Virna Teixeira]





manhã


quando chega
a manhã,

o lago
também reflete

estantes

(a palavra clara
dentro do seu nome),

como se vidros

sentissem saudade
depois que passa

a paisagem
[André Dick]


p.s. -- Tentem conhecer algo mais sobre André Dick. Esse poeta e ensaísta gaúcho tem muito mais o que fazer na vida do que clicar três cearenses bebendo chope e jogando conversa. Notem a abertura dos nomes neste terceiro poema ("manhã", "lago", "palavra", "nome", "vidro", "paisagem") contraposta ao opaco dessa "saudade" (tendo a ler "estantes" como adjetivo por alguma desrazão, dessas que só a poesia). Tudo aqui é engenho e quase vítrea transparência. Encontra-se também uma vidraça que segue perfeitamente elíptica. Como usam ser. Ao menos tanto quanto essa sensibilidade à brasileira. E, melhor, escrita desde Novo Hamburgo. Como se não bastasse, o poema é uma remodelação de uma das formas mais notáveis da lírica medieval: a alba.//De resto, no plano pessoal, reconheço que a única virtude da pose, nesta foto, é de estar levemente parecido com Otto Maria Carpeaux. Mas infelizmente erudição não passa por semelhança.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Passionalidades e pautas


Pablo Picasso, 1913


Algo de podre nas páginas e planos

Algo de podre nessas coberturas intensas da grande imprensa sobre densas tragédias pessoais. O caso do pai e da madrasta que mataram a filha, o caso da adolescente morta pelo namorado. Tragédias assim certamente ocorrem em muito maior número. Então, por que só uma ou outra é pinçada para ser o assunto da vez no país?
Recentemente, em São Paulo, num congresso, uma escritora me revelou seu “choque” diante da notícia da morte da garota de Santo André. O quanto a notícia a abalou, etc. Mas não acho que ela se chocou pela moça. Ela se chocou ao se imaginar a moça – condição perfeitamente diversa. E eu sei que deveria ter me contido. Mas não pude evitar de lhe perguntar no ato, de modo seco:
--Você a conhecia?
Entre outras, a imprensa trata desses casos quase sempre imputando aos assassinos uma condição de perversidade sobrehumana. E será que é assim? Ou será que os assassinos também assassinam em nome de uma maioria que os quer ver praticando esses crimes hediondos para se auto-felicitar como não tão pervertida? E, logo, se pode concluir que é justamente por ser tão “imponderável” à maioria se imaginar não só como vítima, mas também como assassina, que casos assim fazem tanto “sucesso” na mídia.
No dia em que as pessoas pressentirem que são tão potencialmente assassinas quanto os “monstros” apresentados nos telejornais, os telejornais terão de trocar de pauta. Ou, no mínimo, de abordá-las com maturidade. Num ritmo distinto dos telemelodramas, que ainda tanto sucesso fazem na TV, não é de hoje, agregando cansados clichês tomados de empréstimo ao politicamente correto e sua pueril imbecilidade.
Sem dúvida, um dos maiores problemas da TV brasileira, é essa pulsão para tornar o telespectador um parente próximo – amigo, mãe, pai – das vítimas desses crimes. Como se isso fosse possível. Ao invés de concidadãos que com elas repartem o mesmo país, e por elas são também responsáveis. Mas de outra forma.
A maioria, no entanto, compra o engodo emocional da imprensa. E embarca no vale de lágrimas maniqueísta. Afinal, até tragédias assim devem servir de antídoto contra uma rotina que, a mais das vezes, não nos propõe qualquer contato com uma realidade espiritual mais sincera ou cultivada.
O que a imprensa propõe é que esses dramas – em sua impactante sinergia – sirvam de situações postiças, que nos façam chorar as lágrimas que não choramos. Sentir os choques que, no dia-a-dia, já não conseguimos sentir.
Mas tão mais uma boa cobertura do tipo é bem elaborada quanto menos ela desperta de lacrimoso. Quanto mais ela se dirige, isto sim, à razão e a sobriedade. Certamente à compaixão pelas vítimas. Mas também ao reconhecimento de que assassinar, infelizmente, é uma prática humana ancestralíssima. Está entre as primeiras histórias narradas na Bíblia. Um fratricídio. Tragédia passional. Drama familiar. E só se tomarmos casos assim, isentando-nos de uma revolta de pais e familiares – que talvez sintam, em algum momento, a pulsão de linchar o criminoso, não menos – é possível de fato fazer justiça sem farsa.
Sem transformar tragédias reais em espetáculos de Big Brother. Elas já são medonhas. Não há nenhuma necessidade de torná-las ainda mais grotescas.


sábado, 11 de outubro de 2008

Está nas palavras ou mora na filosofia?


Antônio Bandeira, s/d

A poesia: está nas palavras?

Em um de seus belos textos sobre poética, Manuel Bandeira nos diz que “a poesia está nas palavras”. Os textos de Bandeira são belos, acima de tudo, porque nada pretensiosos. Ele, que era um espírito sofisticadíssimo, sabia emprestar ao leitor parte desse espírito sem a necessidade de rechear seus artigos de citações ou divagações tolas e ordinárias. Ou revirar a sintaxe de suas frases para parecer mais perspicaz. Lembrem-se daquela passagem notável em que Bandeira refere-se a um certo Hotel Península Fernandes e tudo está dito.

Mas, de outro modo, não sei se concordo com Bandeira. Ou ao menos se concordo plenamente. Se mais concretista fosse, concordaria. Mas, convenhamos, os próprios poemas concretos cometidos por Bandeira estão longe de constar entre os melhores de sua obra invejável. E, então, será que a poesia está mesmo nas palavras?

Isso soa um pouco redutor, porque Bach é poesia pura. Ou Bresson. Mesmo um documentário feito pela sensibilidade de um Joris Ivens, de um Jean Vigo, de um Bert Haanstra podem gotejar poesia. Mas nem sempre lançam mão de palavras. Uma tela de Veermer não tem palavras.

E até mesmo quando a graça vem da palavra, parece provir antes de algo que a transcende. Quer dizer, não propriamente das palavras, mas do modo como as palavras são ditas. Do timing de dizê-las. Da entonação. Certo timbre. Como numa boa anedota. Há circunstâncias que remetem ao imponderável, não só à palavra.

Aqui, me lembro de um episódio que talvez ilustre o ponto.

A cena é o velho Estoril. A década é de oitenta ao seu final. Estamos sentados eu e um amigo. E, já um tanto encervejados, jogamos a melhor conversa possível de ser jogada. Jogamos conversa fora. Bem fora. Desinteressadamente, conversamos sobre algo que não é, sobretudo, a chatice da política institucional que tanto convocava nossa geração em anos precedentes por conta de brutalidades e mordaças.

Esse amigo, à época, fazia mestrado em física, embora também fosse um músico refinado. No exato momento em que a câmera enquadra nossa mesa, ele digrede sobre música, ruídos, sons. Os relaciona a partir da física. Fala da extensão e da propagação de ondas. A tarde morre. A cor do mar transmuda-se de um verde intenso para um verde-gris encorpado sob o azul do céu acobaltando-se. Numa mesa próxima, três belas garotas ruminam em voz alta sobre a praia do dia seguinte. Elas entreouvindo nossa conversa. Nós, a delas. O velho diálogo de Adão e Eva, como dizia Machado. E elas a prosseguir sobre de como encerrarão a luz do sábado no velho molhe, em meio a uma roda de violão. E dizem do quanto acham que “Dia Branco” é uma canção perfeita. E como o último disco do Pink Floyd "é massa".

Um pedinte aproxima-se de nossa mesa. Escuta a longa digressão sobre os aspectos físicos da acústica. Dele emana um forte ranço de cachaça.

Por fim, tão-só quando a digressão é fechada, se manifesta:

--O Senhor me dá mil, pelo amor de Deus! -- ainda vivíamos em tempos de inflação e moedas voláteis.

Um tanto automaticamente, meu amigo saca a carteira e lhe passa um trocado.

Sem ainda pôr a nota no bolso, sem olhar para ela, ele amarfanha-a na mão, balança a cabeça, e, após certo prólogo silencioso, diz num tom perfeitamente solene:

--Que a sua sabedoria cresça como as águas do mar assobem, de vez em quando.

E afasta-se lento, um tanto trôpego, acercando-se da mesa das garotas. O silêncio se faz. Se faz, se fez e foi prezado. Aqui, posso interpor um fade.

Certamente a poesia dessa circunstância se fez com palavras. Mas não exatamente só com palavras.



sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Poesia, sim


Mrs. Pare Lorentz, The Plow That Broke the Plains, 1936


Poetas com encontro marcado


Estarei em São Paulo, entre os dias 14 e 18 deste mês, para um evento chamado Simpoesia à convite dos organizadores. O encontro reunirá 50 poetas de vários estados brasileiros e diferentes dicções e propostas. Participarei de leituras na Casa das Rosas e no Museu da Língua Portuguesa. Será a oportunidade também de rever alguns amigos, tais como Eduardo Jorge Oliveira, Virna Teixeira, Marcelo Chagas, além de encontrar com outros tantos que só conheço por correspondência, como Claudio Willer, Horácio Costa, Claudio Daniel e Frederico Barbosa.

Abaixo, o sumário oficial do evento:

SIMPOESIA 2008

(I simpósio de poesia contemporânea)

Organizado pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura), o I Simpósio de Poesia Contemporânea (Simpoesia 2008) acontecerá entre os dias 14 e 18 de outubro de 2008.

O evento contará com a presença de 50 poetas brasileiros, de diferentes regiões do país, incluindo autores já reconhecidos, como Claudia Roquette-Pinto, Roberto Piva, Glauco Mattoso e Frederico Barbosa, e também poetas jovens. Recitais poéticos, performances, palestras e debates acontecerão na USP, na Casa das Rosas, no Museu da Língua Portuguesa e na Academia Internacional de Cinema, dentro da programação do evento. Haverá também shows musicais, apresentações de videopoesia e de poesia visual. Todas as atividades serão gratuitas para o público.

A divulgação será feita pela assessoria de imprensa da Casa das Rosas, e a coordenação geral do evento está aos cuidados dos poetas Virna Teixeira e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte

Virna Teixeira , poeta e tradutora, publicou os livros de poesia Visita (2000) e Distância (2005) pela editora 7 Letras e os livros de tradução Na Estação Central (UnB) e Ovelha Negra (Lumme) de poesia escocesa. Foi curadora, junto com Claudio Daniel, do festival internacional de poesia Tordesilhas, em 2007.

Antônio Vicente Seraphim Pietroforte é poeta, romancista e doutor em Semiótica e Lingüística pela Universidade de São Paulo (USP), onde leciona. Publicou, entre outros livros, o romance Amsterdã SM (2007), o de poesia O retrato do artista quando foge (2007) e o de semiótica Análise do texto visual / A construção da imagem (2007).


Homem que é homem não fala em suavidades e agostos


Velhas casas geminadas à rua Pero Coelho, Fortaleza, [s/i/c]


Diálogo urbano entre fortalezenses

para Aldir Brasil Jr.

Oprimido pelo calor da tarde de outubro, o professor deixou o centro cultural. Cumprimentou o taxista e entrou no carro. Percebeu que havia uma pequena prancheta no assento do banco e repassou-a ao motorista que guardou-a numa aba à lateral da porta. Indicou o destino. O táxi rodava suavemente pelos meridianos da tarde. Seguiu afastando-se do Seminário da Prainha com o ar condicionado em nível máximo:
--Que calor tem feito esta semana.
--É. Mas se o senhor reparar ainda sopra uma brisa à noitinha. É o que escapa.
--Verdade. A brisa vem de agosto, que é o mês mais agradável em Fortaleza.
--Pode ser. E é esse ventinho que ainda ajunta as chuvas do caju. Hoje se mede até a velocidade do vento. Como é que pode, rapaz? É muito estudo. O sujeito medir a velocidade do vento.
--Venta muito em agosto. Tudo fica mais ameno. Tem gente que diz que até o luar é mais bonito. Isso rende mais beleza, derrama um clima gentil sobre a cidade.
O taxista pigarreia:
--Rapaz, num é que já pegaram o Ronaldinho dando o cu outra vez. Dessa vez diz que foi com o cunhado dele. Como é que pode, rapaz? Um cara que já teve até a Cicarelli ali, lambendo os pés dele...


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Seguir por aí, manhã


Vista da Aldeota nos anos 40, sem indicação de crédito [s/i/c]


Todo bairro tem mais detalhes que nos mapas, fotos panorâmicas e percursos de automóvel

A sequência de ruas esguias. As árvores plantadas – em equívoco – nos canteiros centrais das avenidas. Certa sujidade e algum lodo. Um passo e depois outro. As calçadas maltratadas e irregulares. O capim crescendo em tufos entre fendas no cimento. Madrugada. Latir avulso de um cão. O pulsar dos anos foi traduzindo o bairro em matéria amorfa. Mas sempre há uma via onde as formas são história. Antes do sol nascer, a luz já está. Uma luz que encanta. Que envelopa as casas e prédios da Aldeota como num filme de Bresson.



terça-feira, 7 de outubro de 2008

Nome


Paul Klee, 1921


Mariana, Mariana

O nome de minha filha esteve comigo muito antes de ela nascer. Era declinado poema após outro em um poeta que é um olho agudo na paisagem do Nordeste litorâneo, pintor de marinhas: Joaquim Cardozo. Mas antes disso, o nome de minha filha era um nome de negra, porque muitas escravas tiveram esse nome. Mais, o adotaram. Foi uma escolha. E só uma mulher verdadeiramente livre pode levar adiante o nome e a lágrima dessas que rezavam nas Igrejas do Rosário dos Pretos. Lágrima sim, mas também ciranda e tambor, que são vetores de alegria, confiança. E, então, o nome de minha filha só pode ser livre porque um dia foi reivindicado por essas africanas elegantes, altivas, espigadas, que se contrastavam às brancaranas azedas, pálidas, miúdas, raquíticas de que nos conta Freyre, que era amigo de Cardozo. O nome de minha filha é o nome de uma poeta branca e anglo-saxã, dos Estados Unidos. Uma que escrevia sobre bichos - às vezes exóticos - com uma humanidade transcendente. O nome de minha filha veio muito antes dela. Esteve na letra de uma canção escrita por meu xará, Ruy Guerra. Certa noite, tomando uma cerveja com Ruy, na Academia de Tênis em Brasília, lhe disse do nome de minha filha - que em parte veio da letra e etc. Mas ele não fez muito caso, não se impressionou. Pareceu quase menosprezar um tanto suas contribuições à música popular. Não sei se por pudor ao sentimental, se por sinceridade. Mesmo que o tema musical da canção seja, no caso, de ninguém menos que Edu Lobo - e, portanto, esteja a meio caminho do erudito. Eu, no entanto, achei importante lhe haver dito isso. Afinal, ainda que branco, olhos azuis, permanente Havana aceso entre os dedos, Ruy veio de Moçambique. Quer dizer, da mesma terra de onde muitas Marianas, que precederam minha filha, vieram. "Mariana, Mariana, cadê tua saia branca..." O nome de minha filha passou por cirandas e tambores. Há algo mítico nele. E só nele. É cheio de vogais abertas, como uma pilha de roupas brancas, lavadas, passadas e engomadas por mãos pretas. Passadas por aqueles ferros em brasa. É muito forte nos flancos. E, algo, frágil no centro. É lindo, único. Distinto. É Mariana mas é diferente das outras Marianas, porque há nesse nome, nessa Mariana, tantas anterioridades, tantos veios. Precedências que vieram compondo-a sílaba a sílaba em mim, em conta-gotas de sereno. Escutem-no como quiserem. Mas se escutarem como chuva sobre o mar e prece, tanto melhor.


Havia um homem na terra de Uz


Bruce Nauman, 1969



Em duas letras e um agudo: Jó

Quer uma indicação de leitura absolutamente acima de qualquer suspeita: . É um dos livros bíblicos mais enigmáticos. Provém de algo que transcende a cultura hebraica - e, no entanto nela se inscreve. Os consoladores de Jó: nada há de mais parecido com esses que querem fazer justiça social não por integridade pessoal, mas por uma espécie de incapacidade de realizá-la no dia-a-dia. São os consoladores. Aqueles para quem o discurso é maior que o ato em acúmulo. Os chatos da vez. Os que prescrevem justiça sem nenhuma noção mais sólida do que isso, de fato, é. Hipocrisia pura. Não se renda aos consoladores. Seja impertinente. Mesmo com a carne lacerada, podre, os dentes cheios de cáries e as idéias fora do lugar, confusas de tanta dor, opte por Jó. E, mais, evite a tradução ensimesmada e apostrófica de Haroldo de Campos. Não se pode crer num sujeito que passou a vida inteira trancado em sua casa, em Perdizes, São Paulo, julgando conhecer o mundo através dos livros e cuidando de felinos, enquanto traduzia Octavio Paz. A tarefa civilizadora de Haroldo é imensa - inclusive como tradutor. Ou então, em seu esforço de renovar os estudos de semiótica na PUC. Mas em matéria de coerência, Augusto dá de dez a zero. O Haroldo da mea-culpa, do pós-tudo, é um dos consoladores de Jó.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A melhor diversão


Danilo, eu e Ivo durante as filmagens de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006,
gravando um take no oco de uma caieira desativada, oco do mundo.
[Foto: Gabriel Andrade]


Luz, Luz, Luz: Assunção, Assunción

Não vejo a hora de estar gravando de novo. De estar com a equipe, resolvendo os impasses e comprando os desafios de nosso próximo filme. Fazer cinema é a melhor diversão. Se tudo der certo, será meu primeiro documentário rodado em e sobre Fortaleza. Desejem-me sorte. O tema não poderia me ser mais caro: o apagamento dos vestígios arquitetônicos mais antigos de Nossa Senhora da Assunção -- essa cidade com o mesmo nome da capital do Paraguai.


sábado, 4 de outubro de 2008

Nisso em que


sem indicação de crédito


A Filosofia do Perplexo

Esse negócio de arte tem até alguma graça. Tem tempos que essa graça se sublinha. Tempos de passarinho verde e violão azul. Mas é muito mais vital ouvir seu nome gritado com força e urgência naqueles gritos que saem meio estrídulos e se vê o próprio ponto de exclamação no som. E numa situação que só você pode resolver. E você resolve em puro automatismo. Sem pensar nas benesses e estresses que esse ato pode acarretar. Ou no que acharia o psicanalista, o padre ou o padeiro. Você resolve e depois esquece. A gente segue meio morto nos intervalos desses gritos. Só a perplexidade nos mantém vivos. E certa bem medida distância dos substantivos abstratos.


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Que o mar carregou


sem indicação de crédito


A Triste Sina da Praia dos Amores nas Páginas de um Jornal Irlandês

Hoje, no Irish Times, o diário mais lido na Irlanda, saiu uma reportagem bastante viva e bem ponderada sobre a situação caótica da nossa Praia de Iracema. A informação me foi repassada pelo jornalista e biógrafo Lira Neto. Aos interessados, o linque:

http://www.irishtimes.com/newspaper/world/2008/1003/1222959305627.html

O sol é um exemplo: Stevens


Vincent van Gogh, 1885


Descrição sem lugar



É, não estou para poesia. Mas um amigo me enviou este trecho de Wallace Stevens. Trata-se do fragmento inicial de um poema longo chamado 'Description Without Place' ('Descrição Sem Lugar'). Não há como não se render a ele. E como não querer rendê-lo e reparti-lo com todo mundo? Com quem quiser? pois sopra o vento onde bem entende:


It is possible that to seem - it is to be
As the sun is something seeming and it is

The sun is an example. What it seems
It is and in such seeming all things are.


É possível que parecer - seja ser
Como o sol é algo que parece e é.

O sol é um exemplo. O que parece
é e nessa aparência todas as coisas são.


Depois de se escrever versos assim não há como se achar que o sujeito é poeta apenas nas horas vagas. Há mais poemas de Stevens postados por aqui. Em algum lugar deste blogue. Pelos atalhos do virtual mundo. Tente uma busca (acima à esquerda da página).


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