domingo, 30 de novembro de 2008

O assoar da hora molhada: Roubaud


Paul Klee, 1909


Douleur


C'est n'etait pas une douleur aux branches bien dessinées

avec les cris torrides gouttes insoutenables trilles

d'élancements une douleur acerée comme une grille

avènement electrique ou fourmillement incliné


vers le tertre de vôtre être vous commenciez des journées

de petites heures roulaient comme une chute de billes

labeur de plante on s'ebroue après-midi à la godille

le soir alors limace au ciel faïance pâle cornée


c'est n'etait pas l'alchool lyrique le bond de la douleur

non les mêmmes creux poussiéreux quois le même chiffons de suie

sur le visage de vos jours les temps trempé qui s'essuie


et le plaisir ponctuel mûrrissant aussi sa couleur

ellipse du monde oassis ? enfin les arbres fermaient

venait la nuit votre nuit moite innommable et désarmé


Jacques Roubaud



Dor


Não é uma dor de galhos bem desenhados

com os gritos tórridos gotas trilos sem parelha

de ferroadas uma dor acerada como grelha

aparição elétrica ou formigamentos inclinados


até o outeiro do teu ser tu inicias o bordado

de breves horas desdobradas como um lance de bila

labor de planta em que se debate de tarde se vacila

e a noite então engole o céu de faiança pálida cunhado


não se trata de álcool lírico o salto da dor

nem o mesmo pó nas cavas qual mesma fazenda usada

sobre o rosto de teu dia o assoar da hora molhada


e também o prazer pontual murchando sua cor

elipse do mundo oásis ? enfim as árvores fecham

vem a noite tua noite suada inominável e desarmada



sábado, 29 de novembro de 2008

Dos que confundem ouro e barro: Kaváfis


[s/i/c]


Απολλώνιος ο Tυανεύς εν Pόδω

Για την αρμόζουσα παίδευσι κι αγωγή
ο Aπολλώνιος ομιλούσε μ’ έναν
νέον που έκτιζε πολυτελή
οικίαν εν Pόδω. «Εγώ δε ες ιερόν»
είπεν ο Τυανεύς στο τέλος «παρελθών
πολλώ αν ήδιον εν αυτώ μικρώ
όντι άγαλμα ελέφαντός τε και χρυσού
ίδοιμι ή εν μεγάλω κεραμεούν τε και φαύλον.» —


Το «κεραμεούν» και «φαύλον»· το σιχαμερό:
που κιόλας μερικούς (χωρίς προπόνησι αρκετή)
αγυρτικώς εξαπατά. Το κεραμεούν και φαύλον.

Κωνσταντίνος Καβάφης


Apollonios of Tyana in Rhodes

Apollonios was speaking about
proper education and upbringing
with a young man building a luxury house in Rhodes.
“When I enter a temple,”
said the Tyanian in conclusion, “even if it is a small one,
I would much rather see
a gold and ivory statue there
than find in a large temple a statue of common clay.”


“Of common clay”: how disgusting—
yet some (who haven’t been adequately trained)
are taken in by what’s bogus. Those of common clay.

Edmund Keeley/Philip Sherrard


Apolônio de Tiana em Rodes

Sobre educação e criação adequadas
conversava Apolônio com um jovem
que erguia uma casa de luxo em Rodes.
“Quando entro num templo”,
disse o tianense por fecho, “mesmo
dos menores, prefiro econtrar
uma estátua de ouro e marfim
que uma de barro num templo maior”.

"De barro comum!", imaginem—mas alguns
(que não foram devidamente formados)
caem no logro. Os de barro comum.

Konstantinos Kaváfis



Nota - O sentido geral da versão é naturalmente feita do inglês. Afinal estudei apenas um ano de grego, como ouvinte, na Universidade de Warwick. Há muito tempo atrás. E obviamente não consigo ler. Mas posso ouvir o som das palavras do original de Kaváfis. Por exemplo, em português, o título soaria algo como 'Apolonios ó tianéïs en Róde' ou o 6º verso da 1ª estrofe: 'polo an édion en aïto micro'. O fenômeno que se dá com a tradução de línguas distantes, ou dos clássicos, é simples. O sentido é traduzido. Mas não a forma. E por quê? Porque em geral os tradutores de línguas clássicas são scholars ou lingüistas, mas não poetas. Daí o justificado elogio que Haroldo de Campos tece às traduções de Homero e Virgílio feitas nos sec. XIX pelo maranhense Odorico Mendes. Ele conseguiu traduzi-las diretamente do grego e do latim arcaicos - línguas em que, aliás, era bem mais versado que o próprio Haroldo - e dando-lhes uma forma em espelho. Essa forma especular ("O pão leva consigo e o roxo vinho") é tomada de empréstimo ao decassílabo camoniano.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Longe de qualquer verso


[s/i/c]


Farewell


Cercando a península com nossos passos. Ainda conseguíamos ser os palhaços da vez por um nadinha de tempo. Era a felicidade do Brasil que ainda nos salpicava. Aquele sol imorredouro. Já de tão longe. Como luz de estrela extinta. Dunas cada vez menos. Mangues esquecidos. E seus canais meandrosos. Mas agora à tarde, o frio abrandou. Apesar de ainda, a cada sílaba dita, uma golfada de ar branco esticar-se ao outro rosto, feito uma sorte de beijo em croquis.

Como as raras casas brancas destoam das de tijolo vermelho, cinza. Tudo é um pouco cinza por essas bandas. Cinza vermelho e assepsia. E ainda assim, bonito. É mundo.

Impossível bordejar toda a península. As trilhas acabam. E, então, o que há é lamas e charco. E já que não se pode mais caminhar sobre águas, o melhor mesmo é cada um voltar pelo por-onde-veio antes de vir junto.

Algo trincou. O inverno faz exício e sombra. Sombra enorme que veste palavra desde as três da tarde. E, à sobremesa, é também uma enorme farsa. Um estar sozinho a dois recíproco. Uma suíte pop em tom menor, com diminutas recorrentes, rascantes timbres de guitarra, dissonâncias. Densas harmonias vocais. Alternados solos. Ou este sol que nunca acende direito. Que ameaça pegar, mas não pega. Um desagasalhamento de tudo. É de fechar os olhos. Para tentar enxergar mais longe. Fazer o pulmão recobrar fôlego. A língua provar o sabor da lentilha no sal. Mas não adianta fechar os olhos. O insípido está dentro. Não há benção sobre as coisas. Tudo foi trocado. Torcido como o cordão umbilical torce na hora de nascer. Ou o pescoço espasma já sem vida quando se morre.

Seguimos à margem do rio jogando de futuro. Brincando com fogo. Esgotando tudo que havia de mais puro no coração. Porque algo nos impelia como a dois títeres. Uma mão nos barrava. De simplesmente dizer a verdade. Algo que nos dizia para pisar com botas Wellington sobre os cristais dos minutos. Venham, vocês dois. São meus convidados, pisem ali. Ali é em falso. Vocês vão cair, mas antes há a sobremesa e a maçã. Uma mão invisível, fechada. Uma mancheia de mofo e instintos sacanas. Que nos conspurcava de torpeza e juventude naquela porcaria de inverno. Havia lugar mais belo para ser infeliz?

Estávamos sempre à sombra da fortaleza, da catedral. Mas o abrigo delas não nos bastava. Passeávamos por bosques ordenados pela mão humana há mais de mil anos. Aquela paisagem ordenadinha para ser bonita. Um grande jardim, do qual saímos pela porta de trás. Como bobos de abril – se em abril houvesse inverno e corte:

Piss out of my tree – entredizíamos, dentes trincados – por trás de protocolos, cortesias insípidas. Riso arrancado ao perplexo. E, no fundo, os bolsos cheios de mágoa. Pranto. Elegias. Mas ríamos. Alto até. Como se aquelas férias não fossem riso de mentira. Mas eram. De sarcasmo. Assim mais rolling-stone que beatle.

Então, de novo estávamos na península. Entrar na livraria. Colher o Later de Creeley. Datá-lo à caneta tinteiro, como se assina uma certidão. Comprar a tradução do Macunaíma e lhe dar de presente. A dedicatória escrita no verso da capa, como era senha nossa. E nossa só.

É tão mais fácil. E tão mais difícil. Quando se tem vinte anos.

Há uma gratuidade. Tipo um caminho asfaltado para as Parcas. Porque parece que se quer ainda menos ser dono de si ao se querer foder com a outra. Com o próprio destino. E a vida tivesse uma miríade de dimensões. E você dissesse: “é, agora vou por ali. Mas depois eu volto por aqui, se quiser. Sou dono do meu nariz. Esperto, moro longe. Ainda assinarei dedicatórias em versos de capas todas as vezes que quiser nesta vida. E quando quiser. E se quiser. Não nasci na véspera. Porque isso tudo é paralelo. E se pode pular de um destino para outro. Afinal, essa merda toda está só no começo. E é preciso pular de galho em galho. É o que se diz. É o que se faz. Todo mundo faz. É o que eu faço. Eu”.

As Parcas revolvem água. Revolvem a fonte. E nela há muitos desejos. E logo se ouve uma gargalhada daquelas.

Mas, então, por que se sente tanta dor? Parece que, nas manhãs, o rosto é que molha a água. Enxuga a toalha. O rosto é que talha a lâmina do barbeador. Parece que o tapa é que se dá à cara. Que as cinzas é que fumam o cigarro. E faz tanto frio. Você pigarreia. Fala sozinho. Gesticula à frente do espelho. Se acha bonito. Mas bonito o suficiente? E aí percebe, por uma espécie de déjà-vu, que não é bem assim. Essa coisa de poder. Essa coisa de poder pular de uma dimensão paralela de mundo para a outra logo ali do lado. Como se pula num lago. Ou para dentro do olhar dela, que, ora, ressentido, lhe devolve à margem.

Porém você insiste na insensatez do jogo como se inquirisse um infiel. Ou buscasse uma pele de lobo onde só havia cordeiro. Como se um tabique, uma divisória muito esguia, de um compensado fuleiragem, separasse os teus possíveis destinos. A vida jogada num par ou ímpar. Num cara ou coroa. Mas, logo você percebe que esse negócio de destino só tem naqueles filmes bobos de sessão da tarde. E as Parcas sorriem de novo. Elas só te dão um centésimo de segundo para constatar isso. Uma migalha de consciência. E, bum, você esquece. E tá ferrado outra vez. E elas cumprem a missão delas: não te deixar cumprir a missão. Porque nada está escrito. Mas tudo está. A gente que não sabe ler. E se soubesse – não saberia que sabia. Porque tudo está e não está escrito. É difícil ler coisas assim. Seres humanos, afinal, só lêem livros. Livros mais ou menos como este. Que fala de inverno, de cisão, juventude, confusão e burrice. Porque estes são assuntos dele. E nele estão escritos.

Mas acho que ainda não estavam naquela tarde. O problema é que as tardes acabam cedo no inverno.

E na manhã seguinte, veio o trem. O fumegar do café no copo de isopor liso. Certo kitsch no padrão da estampa do assento. Um vagão quase vazio. E você mais vazio que o vagão. Os poemas compressos de Creeley, impossíveis de ler. Tão estúpidos quanto quase qualquer poesia que se tenta ler sob um sei-lá-que-merda-é-essa que é muito maior do que ler poemas. Do que qualquer poesia. Essas coisas menos vestíveis, condicionadas, comestíveis – mesmo aos olhos. Coisas que não se domam por palavras. Não se dobram a elas. São aquelas que olham para as metáforas e zombam delas. E dizem do quanto as metáforas são névoa para verter um tera avos de como se está no mundo, dentro de um trem, cortando a planície do nada, a mais de mil.

Sob seus olhos, à mesa, como natureza morta, ao lado do copo descartável, o bloco onde está notado o telefone da terceira. Da emissária das Parcas. Da que veio para rematar o triângulo. E dizer que a vida é escalena, porque quase sempre a gente é mais vivido do que vivo. A velocidade da paisagem passando à vidraça. Donas-de-casa estendendo roupas. Cercas de madeira e varais. O carteiro, de quépi à cabeça, revolvendo a grande bolsa à tiracolo. Ciclistas apontando para algo lá, no rio. Pedestres a se saudar em ruas estreitas e pacíficas nos cafundós do mundo. Muros e muros de tijolos vermelhos. Casas quase idênticas. Suas chaminés. Daqui a pouco, baldear em Piccadilly. Crianças jogando futebol. Há gramados para os lados todos. Um senhor gordo de passos muito lentos segue por um desses gramados. Um imenso, confinado por um renque de ciprestes a perder de vista. Tudo são parques. Que mundo vertiginoso e lindo. Lindo de ser visto de uma janela de trem. E os grifos de copas de árvores mais próximas zunindo, desgalhadas. Tudo passa.

Para além, o coração pulsa. E a caneta escreve sobre a mesinha de entre os assentos: “desculpe desapontá-la...etc.. etc...Adeus”. Escreve em prosa.

E longe de qualquer verso o pescoço espasma.



Quem não se sente em casa entre mãos que sabem?: Oppen


[s/i/c]


The Men Of Sheepshead


Eric -- we used to call him Eric --

And Charlie Weber: I knew them well,

Men of another century. And still at Sheepshead

If a man carries pliers

Or maul down these rambling piers he is a man who fetches

Power into the afternoon

Speaking of things


End-for-end, butted to each other,

Dove-tailed, tenoned, doweled – Who is not at home

Among these men? who make a home

Of half truth, rules of thumb

Of cam and lever and whose docks and piers

Extend into the sea so self-contained.


George Oppen



Os Homens de Sheepshead


Eric—costumávamos chamá-lo de Eric—

E Charlie Weber: conheci-os bem,

Homens de outro século. E ainda em Sheepshead

Se um homem porta alicates

Ou malho por esses molhes desconexos ele é o que traz

Força ao entardecer

Falando de coisas


Ponta com ponta, pregada uma à outra,

Encaixadas, respingadas, cavilhadas—Quem não se sente em casa

Entre homens assim? que fazem uma casa

De orelhada, de pura prática

De came e plaina e cujas docas e molhes

Espaçam-se para o mar tão auto-contidos.




quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Limite ou limiar?: Tomlinson


[s/i/c], 1914


Portuguese Pieces

2.
Ponte de Lima

Lima was limes, limit—
beyond the river, only the mountains.
On its bank, the alameda of tall plane trees, now,
and ghostly washing
that catches the final light, the flow
of still-warm air. The blade
of the river is broken
by the housetops and the trunks
that rise between the eye and it
on the brink of the unimaginable,
Its sinuosity unclear.
Was it limes or limen, limit or threshold?
They called Lethe, the Romans, and bridged it.
Their bridge is still here.

Charles Tomlinson


Peças Portuguesas

2. Ponte de Lima

Lima era limes, limite ---
Além do rio, só os montes.
Às suas margens, a alameda de planas árvores altas, agora,
e espectralmente lavando
e colhendo a luz última, o fluxo
de ar morno-calmo. A lâmina
do rio é rompida
pela cumeeira das casas e os troncos
que sobem entre o olho e ela
beirando o inimaginável,
sua sinuosidade indistinta.
Seria limes ou limen, limite ou limiar?
Eles chamavam-no Lethe, os Romanos, e o pontearam.
Sua ponte ainda está aqui.



Nota - lembrei-me deste poema após receber uma mensagem que informava do título do encontro sobre Walter Benjamin realizado recentemente em Belo Horizonte: O Limiar na Obra de Benjamin.

A carícia está a um passo da sevícia: Huidobro


Christian Holstad, In the Shadow of Your Smile, 2003


La obsesión de los dientes


Tenía los dientes tan finos y delgados

Como las hojas de una margarita,

Y al reir con los labios despegados,

Al abrir su boquita,

Me venía el deseo importuno,

Sentía la obsesión malvada,

De arrancárselos uno a uno,

Jugando al "me quiero, mucho, poquito, nada".


Vicente Huidobro


A Obsessão dos Dentes


Tinha os dentes tão finos e delgados

Como as pétalas de uma margarida,

E ao sorrir com os lábios despegados,

Ao abrir a mordida,

Me vinha o desejo incomum,

Sentia a obsessão malvada,

De arrancá-los um a um,

Bricando de “bem-me-quer, muito, pouco, nada”.




Saindo do sagrado dos corpos para o profano das palavras


[s/i/c] A Catedral de Duhram


Dois Relatos do Inverno Inglês

1.A Chave

Oclusão de um porão em Durham, no que ela saíra com a mãe: visitar uma entrevada. O sentido paroquial da vida no Norte da Inglaterra. Rotinas de família. Profissionalismo social. O aquecedor portátil ardia junto à parede. E quando eu vergava os pés rente ao aparelho, os dedos formigavam.
Lá fora era ladeira e manhã. Pessoas passavam ao longo do quarteirão de casas eduardianas, onde árvores de natal piscavam nos parlours debruçados sobre as calçadas estreitas.
Eu me sentindo aliviado, por um comenos. O quarto branco. O dia cinza. A jornada ferroviária do dia anterior, desde Manchester Piccadilly. Os ombros doíam. E a mochila forrada de livros repontava, escorada no armário como um emblema.
Fiz a barba e o sangue brotou no rosto. Era sempre assim com lâminas novas. Mesmo se com maior cautela. Com o corpo querendo ficar eternamente sob a ducha quente, sobreveio o banho. E, por um estreito corredor, jamais praticável no Brasil, voltei ao quarto que me fora reservado, no porão.
Quarto branco, asséptico, vazio.
Reacendi o aquecedor. Liguei o toca-fitas, e deu num Schumann dos mais tristes. A toalha floral derramava-se, da mesa de mogno para o carpete creme. Tinha um serviço de chá sobre o balcão. E uma servidão de anos pairando no fino ar de inverno.
As notas percutiam na brancura daquela quase sala. Vez por outra, as pernas dos transeuntes assomavam à janela, por baixo dos sobretudos: jeans, brins, veludos.
Tomei uma caneca de chá e fingi que estava tudo bem. Vesti uma camiseta limpa, um pulôver, o sobretudo de botões de madeira, e saí. Ela tinha me dado a chave da casa. Faltava fecharmos uma porta.
A porta verde fechou atrás de mim piano, árvore de Natal, cortinas, cabides, livros, tacos de hóquei, deploráveis quadros expressionistas. E o dia de inverno sombrio e úmido desceu pela ladeira até bater nos velhos arcos ferroviários do Centro.
E, em cima, a catedral estava. E ao mesmo tempo, e em todos os lugares. Uma vertigem. Como negar que Durham seja sua catedral? No fim de tudo ela não é apenas um ponto de referência, uma perspectiva, uma aquarela, marco. Aquela milenar catedral fortificada, guardava a Inglaterra no limiar da Inglaterra, próxima da fronteira escocesa. Aquela milenar catedral de Durham, reproduzida em mil telas de mil diferentes paisagistas, e que para mim não vogava.
O dia era de um branco leitoso. A idéia dos objetos se dissipava ao frio. Com a mão enluvada, apertei a chave no bolso do sobretudo.


2. A Catedral

Diante de meu rosto crispado, ela apontou para o baluarte. Acima na colina, resplandecia a magnífica catedral. Mal cabia na tarde, com sua normanidade excedida. O castro dos bispos-príncipes.
Abaixo da ponte, o Wear corria manso e poluído. O dedo indicador dela nomeando paisagem em ambas as margens. A friagem do dia sob aquela luz oblíqua. As dobras do pescoço dela, que meus dedos agora tocavam, sob o cachecol. E porque ela usava um inusual jeans parecia mais alta. Um bando de gaivotas entre as pontes, e era o Boxing Day.
“Este é um lugar perfeito para um suicídio em grande estilo”, ela disse, a meio, na ponte.
“Não existem suicídios em grande estilo”, retruquei.
A ponte só era aberta aos pedestres. Na outra, os habitantes de Durham passavam de carro do centro comercial para a península.
Na margem de lá, sopé da colina, tinha um conjunto de esculturas em madeira. A cavidade de uma delas, ao centro, sugeria um assento. Ela sentou:
“Aqui dá pra ver os discípulos como se fosse na ceia o lugar do Cristo.”
As gaivotas planavam sobre o Wear. De câmera em punho, enquadrei-a. E ela rapidamente enrijeceu. Mudou para uma outra, afetada, tranqüilidade. Não era aquela que eu queria. Não era a que eu costumava fotografar. Fazia algum tempo que não éramos aqueles que queríamos, que fotografávamos.
Desisti da foto. Atravessei o conjunto de esculturas, transpus a picada, e, pisando sobre urtigas, olhei o rio: árvores que não sabia chamar pelo nome, lá na outra margem. Desconhecer tanto! Então ela me tocou no ombro. Fez como que fosse dizer outra, mas voltou atrás:
“Você é um homem estranho!".
Subimos de mãos dadas a encosta, derrapando nas pedras do pavimento antigo que conduzia às imediações da universidade. O frio sitiou-nos ainda mais e calçamos luvas. As dela só livravam os polegares.
Então, iniciei uma revisão. Uma ladainha de cenas picantes e elogios das partes íntimas dela.
Ela fez silêncio. Ouviu tudo em silêncio. Quando muito um pequeno riso nasal. E enfim, quando já não havia o que escutar, disse:
“Por favor”, disse baixinho, “estamos entrando num templo, num sítio sagrado.” Disse por protocolo e tradição, porque eu sabia que não era religiosa. Muito ao contrário.
Mas meu ponto de vista, era o inverso: saíamos do sítio sagrado dos corpos para o profano das palavras. Embora nada houvesse a ser salvo. Nenhum vestígio.
Atravessamos o claustro sombrio.
Depois entramos na catedral. E foi tudo muito solene. Um sedimento de séculos e séculos. Muito, muito neutro, bonito e solene.
[1994]


Nota - "Dois Relatos do Inverno Inglês" faz parte do livro O Bumerangue -- de crônicas-conto, escrito em 1994.

O que é minuto, fácil dissipar


Benjamin Degen, 2004



Três grifos sobre imagens


“O que é terno, facilmente trincável.

O que é minuto, fácil dissipar.”

(Tao Te Quing)


“Aquilo que se sabe estar prestes a não se ter

mais diante de si torna-se imagem.”

(Walter Benjamin)


“Estar apaixonado por uma dessas imagens era pior do que estar apaixonado por um fantasma (talvez tenhamos desejado sempre que a pessoa amada tenha a feição de um fantasma)”.

(Adolfo Bioy Casares)




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Escatologias pra que te quero: Kerouac


Jenson Hennings, 1947



Long Island Chinese Poem Rain


The years are hurrying

Autumn rains fall on my awning

My accomplishments mean nothing to me

My girl no longer visits me


Maybe because I got warts on my cock

Or she found a younger man with a smooth cock

I can look up anything in my wine bottle


Whitman was happy about something around here

Followed by millions sick

What, Whitman, say?


The headlines of ten days ago no longer interest me

Rugs woven lovingly end on garage crates


The white dove desecrated in desuetude

And who wants wisdom?


The world is an eraser for these words


Oh sad Bodhidharma you were right

Everything we loved disappeared


Nobody in the chair

Nobody in the books

Nobody in the rain


Jack Kerouac



Chuva de Poema Chinês em Long Island


Os anos correm como todo

Chuvas de outono caem em meu toldo

Minhas conquistas nada me ditam

Minha menina não mais me visita


Talvez porque criei verrugas no pau

Ou porque ela achou um cara mais novo com o pau sedoso

Posso antever tudo na garrafa de vinho


Whitman estava contente com algo por cá

Seguido por milhões de aflitos

Uau, Whitman, diga?


As manchetes de dez dias atrás já não me fascinam

Capachos trançados belamente em guinchos de oficina


A pomba branca profanada em dessuetude

E quem quer sabedoria?


O mundo é uma borracha ante tais palavras


Ah, triste Bodhidharma, você estava certo

Tudo que amamos desapareceu


Ninguém na cadeira

Ninguém nos livros

Ninguém na chuva





Fábula Variante


[s/i/c]


Loiritude, o filme

Com um pouco de imaginação, um roteirista pode fantasiar algo próximo ao Blindness de Meirelles, baseado em Saramago. Chamar-se-ia Blondness. E, em vez de acordarem cegas, as pessoas acordariam loiras. E, logo, um tantinho mais obtusas.

Mas não, não daria certo. O filme, como manda o figurino, teria de ser meta. E no caso, não sobraria ninguém na cidade para escrever a crítica.



segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Impulsos coletivos de sinceridade & anarquia


[s/i/c]


Diz-me com quem andas


Um grupo de amigos se forma por sensibilidades comuns. Quando se é mais jovem, isso é notável e importante. Muito sincero. Porque há uma maior tendência a se fazer tudo em bando. Talvez um último eco de infância. A turma.

A característica geral que cimentou minha turma era uma desbragada irreverência diante de tudo que sentíamos como conduzido por certo sectarismo. Daqueles quase religiosos. Mas que, no fundo, pressentíamos – e aqui é onde morava o perigo – , estavam longe de constituir uma religião, porque de uma evidente debilidade moral. Constituíam apenas sucedâneos mal-ajambrados. Espécies de idolatrias por compartimento.

Exemplo? Militantes do movimento estudantil. Outro exemplo? Ambientalistas. Um terceiro exemplo? A turma do desbunde: aqueles velhos maconheiros que não podiam passar um dia sem seus cigarrinhos de cannabis – mesmo que alguns, volta e meia, passassem mal. Sofressem daquelas viagens tortas. Os tais “brancões”. E havia ainda os esotéricos, que viviam de fazer mapas astrais, sondar personalidades completamente distintas (apesar de serem leoninas) ou entrever flying saucers in the sky.

Em relação aos ambientalistas, há um episódio marcante.

Num desses carnavais da vida, nos atacamos em bando para Jericoacoara. Foi esplêndido. Como não poderia deixar de ser, estávamos acampados. Fazia parte do figurino da época. E até que era divertido. Mas, uma de nossas vizinhas entre lonas, fios, lâmpadas à querosene, colchonetes violões e aquele permanente cheiro de maconha, era uma professora da Universidade Federal. Uma antropóloga, febril militante da causa ambiental. Todo dia, pela manhã, nos passava uma sabatina sobre a necessidade de recolher o lixo do acampamento – coisa que nem todos faziam. E, principalmente de separar o lixo orgânico do inorgânico. E enterrar o orgânico.

Tanta ênfase punha nisso nossa ambientalista, que começamos a ficar meio aporrinhados com toda aquela lenga-lenga nos ouvidos logo ao acordar. Afinal, tínhamos vinte anos: meninas, futebol, música e poemas de Paulo Leminski e Nicolas Behr eram prioridades bastante mais consideráveis em um meio-ambiente que até curtíamos muito, pois Jericoacoara era inculta e bela àquela altura.

Mas mal a pequena comunidade, ainda de cara amassada da farra da noite anterior, se reunia para o café da manhã, lá vinha a tal professora nos falar de o quanto um saco plástico só deixará de degradar o meio-ambiente depois de cinco séculos e dezessete dias.

Lá pela terça-feira de Carnaval ninguém agüentava mais o zelo ambientalista da fulana.

Então, na madrugada do dia seguinte, já levantando acampamento, surgiu um daqueles impulsos coletivos. Que não tem autor, porque faz parte do subentendido de toda turma que se preza. Resultado, antes de zarpar de volta à Fortaleza, e às escondidas dela, juntamos todo o lixo – o orgânico, o inorgânico e o transorgânico do improvisado camping – e depositamos solenemente, em uma pilha enorme, bastante sortida (e mal-cheirosa) diante da barraca, azul e imaculada, de nossa ilustre conscientizadora.



sábado, 22 de novembro de 2008

Sobre o voluntarismo e as mercurialidades do FAZER


John Ford, The Searchers, 1956


Breve Digressão sobre o FAZER


Há algo expresso por Silas de Paula, em texto seu, bastante despretensioso, para O Povo, no ano de 2007, que está posto de modo lapidar. E que não consigo mesmo esquecer:

“Paulo Autran disse numa entrevista que tem gente que faz e gente que critica. Ele gosta mais de quem faz. Eu, nem sempre”.

Como ainda não abdiquei de separar o bem feito da gambiarra, me incluo nas fileiras de Silas. Ou também se pode, com a rapidez de sacar do coldre, relembrar o primeiro verso de uma canção feita nos já longínquos 80: "No Oeste, eu sei". Especialmente quando tudo me leva a cinema.

De resto, acho uma tremenda sacada quem reconhece: uma das grandes artimanhas é a do poeta sem livro. E é mesmo. Quer dizer o poeta que FAZ seu poema já desconfiando que o livro, ao menos da forma como proposto - entre capa, contracapa e costuras - é algo que já vazou, faz tempo, para outras vincas. E, então, sem dúvida, há vários poetas, digamos, 'abibliografos', mas nem por isso sem produção, ou sem FAZER. E os poemas deles estão aí, nessas extensões indefinidas de tempo e espaço, que chamamos de mundo virtual, de 'virtua', de extensões digitais, de novas mídias, etc.

Agora, claro, há gente que está na de Paulo Autran. E desanda a FAZER à torto e direito. Por vezes, sem muita medida, critério ou consequência. Como dizia Blanchot, mas também Emerson, Lake & Palmer: "C'est la vie".

E pt saudações.



Bastidor editorial: as vicissitudes do tradutor


[s/i/c]


O marketing e a função do sovaco esquerdo


Certa feita, tendo retraduzido do inglês uma grande quantidade de textos clássicos da China e do Japão, reuni-os em uma coletânea, com um prefácio introdutório. Eram treze textos que vinham desde o Medievo até o sec. XX. Pensei em dois títulos. Em Louvor das Sombras, que é como se chama um belíssimo ensaio do romancista japonês Junichiro Tanizaki. Ou então, Dez Mil Pingos Feios, que é o presumível título atribuído a certa tela de um pintor chinês do sec. XVII. A mesma que muitos críticos julgam antecipar o abstracionismo. Resolvi, então, sondar a possibilidade de publicar a antologia por certa editora paulista. Analisando o material, o editor encarregado me disse com ar de perito:

--O título precisa ser trocado.
--Você não gosta de Em Louvor das Sombras?
--Não, muito sombrio, muito pra baixo.
--E que tal Dez Mil Pingos Feios?
--Piorou. Uma coisa que afugenta o leitor. Se tem que pensar no marketing da coisa. Isso aqui não é brincadeira.

Botei meus originais no sovaco esquerdo e fui-me embora.


Nota - cinco anos depois do sucedido, a Companhia das Letras - que não era a editora em questão - publicou um livro com o ensaio de Tanizaki sob a rubrica Em Louvor da Sombra, com tradução de Leiko Gotoda. O livro, para a raridade e especificidade do assunto, foi bastante bem recebido pela crítica. Tradutores são assim. Sentem-se vingados por outros tradutores. Ao contrário do arranca-rabo de praxe entre poetas, ensaístas e ficcionistas. De resto, nada como a boa serventia do sovaco esquerdo diante das astúcias do marketing.


Histórias do Barão


[s/i/c], 1937


Entre, não precisa bater

No idos de 30, o Barão de Itararé escreveu um pequeno comentário satírico que despertou a ira dos integralistas. Os camisas verdes não pensaram duas vezes antes de emboscá-lo numa esquina. O Barão foi sovado com tudo de direito – e de direita. Bateram a valer. Espirituoso como sempre, Aparício Torelli fez afixar um aviso na porta da redação de seu pequeno jornal: ENTRE, NÃO PRECISA BATER.

Há, entre essa vasta camada de livros que exploram certas linhagens de escritores, uma lacuna. Uma obra que esboce um paralelo entre esses dois satiristas absolutamente únicos: Quintinho Cunha e o próprio Barão.



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

As lições de uma bienal bisonha


[s/i/c]



Por que muitas vezes as festas do livro não são dele?



Feiras e Bienais do livro. Qual o sentido delas?

1. Trazer novidades do mercado editorial.

2. Contribuir para atrair novos leitores e cristalizar hábitos de leitura ainda incipientes.

3. Promover o intercâmbio entre escritores, editores, livreiros, etc.

O primeiro, o da novidade, está um tanto esvaziado. Hoje se pode conseguir quase qualquer título sem sair de casa. Há a internet.

O segundo, o propedêutico, ainda é o mais importante. Mesmo que hoje em dia se possa pôr em xeque a presença de espetáculos de música, cinema ou "oficinas de arte" como estratégia. Num evento, assim, as estrelas deveriam ser os livros. A estratégia, aqui, seria indicar aos mais novos que o centro da feira é o livro, esse objeto nobre que não deve ser banalizado pela música, a oficina, o filme. Ao menos quando a festa é dele.

O livro deveria ser a estrela. Mas também tudo que o acompanha. Livros rimam com silêncio. Com uma atmosfera mais plácida, de aconchego, longe de música e algazarra. Faz parte. No caso cearense, essa parte é ainda maior, desde que não conseguimos sequer andar de ônibus sem música. E a bienal poderia ser um bom espaço para indicar uma alternativa a esse comportamento. Uma aula de recato e zonas de silêncio. Bibliotecas, para onde irão os eventuais leitores seduzidos, são ambientes assim. E uma bienal ou feira do livro, por mais que seja algo diferente, deveria ter um germe de biblioteca.

O terceiro sentido, o do intercâmbio, costuma a ser ainda mais polêmico, porque passa também pelo estabelecimento de critérios que são decisivos à distinção da bienal. Seu caráter próprio, intransferível. O que a torna diferente das outras. E, claro, isso tem a ver com quem se convida. E como se convida. A Festa Literária Internacional de Parati, por exemplo, optou por um formato em que alguns poucos nomes são convidados. Porém são nomes de grande ressonância. Atraem junto consigo a cobertura da imprensa. Inclusive a de seus próprios países ou estados. E também uma larga faixa de público.

Na 8ª Bienal do Livro do Ceará, que encerra hoje, houve o contrário de Parati. Mais de cem escritores de vários estados brasileiros, da Europa Ibérica e da América Latina foram convidados. Mas a vasta maioria é de desconhecidos. E, claro, esses convites são subsidiados sob a forma de passagem, hospedagem, estadia, etc. Resta saber que critérios foram adotados para que tantos escritores - alguns dos quais sem real renome em seus respectivos países ou estados - fossem convidados. Afinal, o Ceará não é um estado propriamente rico. E, logo, não se pode dar ao luxo de testemunhar cenas como a desta edição da bienal, em que escritores ficaram palestrando ou debatendo para auditórios às moscas.

Num deles, uma crítica literária uruguaia, recusou-se a falar para si mesma. E fez bem. Pois teve uma coragem que faltou à maioria: a de atestar que estava no lugar errado, na hora errada por um convite equívoco. Enquanto ela se retirava da sala vazia, dezenas de jovens fervilhavam em torno de terminais de computadores com jogos eletrônicos numa outra. E outros tantos se algutinavam diante de grandes telas onde se projetavam filmes. E mais alguns conversavam às gargalhadas pelos sofás de uma espécie de lanchonete montada sob uma rampa em espiral. O elemento central da lanchonete era uma grande TV de tela plana, em torno da qual, com a mesma fixidez que um bom leitor devotaria à página do autor favorito, meia dúzia de adolescentes, ainda em fardas de colégio, assistiam os gols da rodada - o som quase em volume máximo. Mas a bienal não era do livro?

Por que cercar uma bienal, que é do livro, de terminais com jogos eletrônicos, telas de projeções de filmes, aparelhos de TV e oficinas de encardenação? E, de outro modo: por que chamar tantos convidados que são perfeitos desconhecidos e não despertam nenhum interesse sequer do público acadêmico, especializado, a ponto de, irritados, se retirarem sem darem sua contribuição?

A impressão que fica é a de que um único convidado da Festa Literária de Parati pode devolver mais páginas de informação na internet, numa busca pelo Google, do que mais de 3/4 dos convidados da bienal do Ceará juntos. Ou atrair mais público. E, sublinhamos, como esses eventos são financiados pelo erário público, precisam também curvarem-se a uma sanção mais coletiva da sociedade.

E é essa sanção que praticamente inexiste. Então duas sugestões se pode tirar: repor o livro como centro das atenções e reavaliar os critérios de escolha dos convidados e orientação geral da bienal (Europa Ibérica, América Latina).

Um último aspecto - mas que que soa quase patético - é o de se comparar a bienal cearense com a paulista. Um desserviço à cearense. A verdade é que a de São Paulo é muito maior, concentra as grandes editoras – que, de resto, já lá estão –, possui um mercado consumidor muito mais vasto, diversificado, de maior poder aquisitivo e altos índices de escolaridade. Portanto, atrai autores e editores de maior calibre e um número imenso de novos lançamentos. O volume de negócios é incomensuravelmente mais elevado. Portanto a comparação, inabilmente feita pelo próprio secretário de cultura do Ceará, entre as bienais do Ceará e de São Paulo, sai como tiro à culatra.

De resto, o que não deixa de ser bizarro é que o Ceará, tanto em seu festival de cinema como na sua bienal do livro, demarque o perfil desses eventos por um diálogo com a América Hispânica. Justo o Ceará, um dos estados mais cercados de Brasil por todos os lados, exceto pelo do mar. O estado mais à distância de qualquer posto de fronteira ou aduana. Um local que, até onde se sabe, a população não devota nenhum interesse mais específico, tanto quanto leitora quanto como espectadora, pela literatura e pelo cinema latino-americanos. E, então, isso indica apenas que há um fosso tremendo entre a expectativa do leitor e do espectador e o que lhe é dado em troca na Bienal e no Festival de Cinema. Com isso não quero desmerecer em nada a produção cultural desses países. Ou os eforços dos respectivos curadores. Mas apenas indicar que o atual caminho pouco ajuda em termos de propedêutica: atração e formação de público. O que talvez explique os auditórios vazios e essa atmosfera geral de pasmaceira que pairou sobre a edição deste ano.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Higrômetros singulares


Tom Jobim, Tema-Sertão, s/d


Canudos na Geórgia


Guram Dochanashvili, um escritor da Geórgia, nascido em 1939, é bastante renomado em seu país. Sua formação de origem é história. Ao iniciar a carreira, no início dos 60, rejeitou os dogmas do realismo socialista em favor de uma prosa que retêm a leveza e inventividade de contos-de-fada. Segue traduzido em português. O que poucos sabem é que a principal obra de Dochanashvili, o romance A Primeira Veste (1975), é baseado na Guerra de Canudos. Ou seja, decalca em via direta de Os Sertões, a obra monumental de Euclydes da Cunha.

Quando se sabe que o episódio de Canudos também foi o assunto de A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa, uma provocação: alguém lembra de São Paulo haver sido o centro de um único grande romance escrito por um importante prosador contemporâneo estrangeiro?

Outro que escreveu a partir de Os Sertões foi o húngaro Sándor Márai (Veredicto em Canudos, 1960). Livros sobre o sertão, supostamente ultra-regionais e específicos, como os de Euclydes da Cunha e, de pois dele e num plano ficcional e experimental, Guimarães Rosa, consistem em nossos livros de apelo mais universal em língua portuguesa no séc. XX. Mais estáveis, complexos, bem escritos que Lobo Antunes ou Saramago. E quando se sabe que autores como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade ou João Guimarães Rosa não ganharam o Nobel, o problema é do Nobel. E não pequeno problema.

Ou seja, a ironia: Canudos, no tórrido Sertão do Nordeste, um povoado de presumíveis 20.000 habitantes, varrido do mapa há mais de cem anos pela artilharia de uma república recém-proclamada, fascina mais a imaginação de ficcionistas estrangeiros que a grandiosidade épica, cinza e pós-moderna de São Paulo, com suas vinte milhões de almas agora, já, ou desde há uns trinta anos. Fascina, aliás, muito mais que cus de Judas ou ensaios sobre cegueiras.

E o quanto disso tudo não se deve a dois livros.


Ando relendo 'Royal Briar': Brasil Jr.


Ralph Thomas, Rendez-vous a Rio, 1955


(Tessalonicenses 3 ; 2 )


andei viajando às custas do contribuinte para São Luís

em breve devo zarpar para Salvador e Sampa

emprego público federal é uma ótima sinecura

terminei as cartas da Bishop durante o carnaval

depois de seis meses

ando relendo o Royal Briar do Marciano Lopes

e andando na contra-mão da Santos Dumont até o Centro

como diz o Ruy em seu discreto pedantismo:

" eu borro o branco com negrume

besunto os vidros com estrume

a lassidão é meu perfume"

o Ceará Sporting deve golear hoje o Quatro de Julho

fiquei intrigado com o assassinato da Irmã Dorothy no Pará

faz um bom tempo que não tenho motivação alguma para escrever

quando sairá a revista dos irmãos siameses Pieiro-Salgueiro?

as pequenas rasga-mortalhas andam rondando a João Cordeiro

o filho mais velho do Jairo morreu e um professor amigo da UFC

partiu desta para melhor no Domingo de Carnaval

podemos enterrar os mortos e alimentar os vivos no Jairo's no sábado



Aldir Brasil Jr.


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A gente não esquece


Petra, 2007

Um ônibus no mínimo estranho

Hoje, depois de muito tempo, tomei um ônibus. E não qualquer ônibus, o famigerado Circular. E não em qualquer horário, seis e vinte da tarde.

Mas que sorte de loteria. À exceção de uns dois, todos seguíamos sentados. O trocador desculpou-se por ter de me repassar parte do troco em moedas de cinco centavos. Vi alguém ceder lugar para uma jovem gestante. E outro passageiro discorrer quase dois minutos sobre o melhor itinerário para seu interlocutor que seguia para uma zona desconhecida da cidade.

Estarei sonhando? Se todos os ônibus em Fortaleza fossem assim - e ainda por cima sem aquele atroz forró troando nos tímpanos - asseguro que só andaria de ônibus. Além de não se estressar dirigindo, quando sentado à janela - meu caso, agora ao sol-posto - você cata ângulos da cidade impossíveis de reter diante do pára-brisa do carro.

O problema é que ainda me lembro - e bem - de meus tempos de graduação. Quantas vezes, nesse mesmo Circular que une a Aldeota ao Benfica, passando pelo Bairro de Fátima, andei com os All-Stars suspensos, nas biqueiras, por absoluta falta de área para assentar as solas no assoalho grudento e instável.

E essas coisas, como o primeiro amor, a gente não esquece.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Pergunta ao espelho em meio-novembro


Waltércio Caldas, 1974



Auto-reflexão

espelho mágico, meu espelho
existe assim no mundo

alguém mais pentelho?


Conto sobre as relações entre arte e realidade


[s/i/c]


Véspera da Mostra, Museu de Arte


Artista Multimídia 1

Cê tá trabalhando com que suportes?


Artista Multimídia 2

Vídeo, vidro, areia, serragem, acrílico e isopor.


Artista Multimídia 1

É? Que tipo de vidro?


Artista Multimídia 2

Uns frasquinhos, que compro a granel numa revenda lá da Vila União. Tipo esses aqui.


Artista Multimídia 1

Bonitos. Bacana mesmo. 'Tava precisando de uns assim para minha próxima instalação. Eram embalagem de quê?


Artista Multimídia 2

Sabe qu'eu não sei.


Zeladora do Museu

De esmalte. Marca Impala.




Poemas não saltam do dicionário


Franz Post, sec. XVI


Das palavras sem mundo: seis grifos


Desconfiar dos poemas que saem do dicionário. Se ocupam com palavras raras. E, no entanto, se esquecem de criar um espaço para elas.

Essa tendência para poemas do dicionário, tão comum entre os cultores do neo-barroco. Tão presente em um autor como Haroldo de Campos.

Se o poema não guarda do mundo sequer o papel termosselante que envolve o chocolate: como poder degustá-lo a contento?

Uma coisa é achar coisas já possuídas e que podemos pressentir que se reúnem por detrás da realidade. Pois esse nexo há até numa concepção mais, digamos, surrealista - cuja tradição foi em geral melhor cultivada no espanhol e em Portugal do que por aqui. Outra, muito diferente, é pôr uma série de termos raros - muitas vezes sem nenhuma elaboração sintática - e dizer: "eis um poema"!

Em geral, o excesso de epígrafes e referências depõe contra qualquer escritor que não seja Jorge Luis Borges. Pois até em Borges há uma precedência de mundo. De viagens ao interior do "remoto" Uruguai, de um passeio à tarde por uma calle portenha. E seus livros que derivam de livros, como a História Universal da Infâmia, são abertamente cômicos. Ou mesmo quase farsescos. E, notem, não se rendem apenas a circunvoluções críticas, uma vez que há verve e narração neles.

É necessário também não esquecer que devemos nuançar declarações assim. Como? Outro dia, li um poema de uma autora vinculada à essa tendência do neo-barroco, a paranaense Josely Vianna Baptista. Mas era um belo poema ("António de Gouveia, Clérigo em Pernambuco"). Nada moldado pelo especioso empréstimo do termo raro tomado ao léxico. Do contrário, calcado em história. Parecendo provir da leitura de um um um diário empoeirado, guardado em uma arca de mogno encerrada por pesados fechos de latão, e ignorado anos a fio. Pode-se crer em poemas assim.

(Ainda) contra a interpretação


[s/i/c]



Falas não esticam textos

Um escritor pensa primeiramente com o que escreve. Isso de entrevistas, declarações polêmicas, manifestos inflamados ou pontos-de-vista sobre atualidades é secundário. Jogos de cena e marketing, as mais das vezes.

Sem dúvida tudo que um escritor escreve é mais importante do que a sua fala. E é por isso que escreve. Caso contrário ele poderia apenas gravar sua fala em podcasts ou veiculá-la por rádios, TV's, cd's ou arquivos de áudio em formatos diversos. O que um escritor escreve é também maior que sua presença. Sua figura pública, as poses em que assoma nas fotos são ninharias diante das palavras que grafou. O mesmo se pode dizer dos documentários que sobre eles se fazem para a televisão.

Escritores estão perto de ser, mas ainda não são, pop stars, atores de Hollywood ou jogadores de futebol. Quando chegarem a ser tão "personalidades" ou "celebridades" quanto estes, o risco é o de esquecermos - nós mas também eles - que são apenas... escritores. E que a maior razão para lembrarmo-nos deles são... textos.

Aliás, alguns escritores são cultuados muito mais pela "imagem" construída pela imprensa, por uma ou outra boutade largada numa entrevista, do que por seus versos ou suas prosas.

Isso chega a ser perverso em certos casos. Porque o risco é o de pensarmos mais na personalidade que foi, digamos, uma Ana Cristina Cesar, do que nos belos poemas que escreveu. Durante muito tempo, essa moça sofreu - e ainda sofre - esse tipo de redução. A importância que a ela se dá passa mais pela figura pública torturada da menina bonita da Zona Sul, do que pela poeta e escritora de diários que compôs poemas como "Samba-Canção".

Escritores não estão acima de seus leitores ao emitirem juízos de valor sobre o meio-ambiente, a relação entre os sexos, as experiências com estados alterados de consciência, questões étnicas ou escolhas políticas. Eles são distintos, isso sim, por juntarem palavras escritas que têm bem mais graça e parecem portar bem mais perenidade, ressonância, beleza e verdade do que a média . É só. Essa capacidade de distinção expressa é que os difere.

E, no entanto, a visão à francesa do escritor como o intelectual que pontifica sobre os dilemas da sociedade, por meio de entrevistas e ao assinar manifestos, cai como uma luva para as necessidades do operoso mercado editorial dos 'diascorrentes'. Especialmente num tempo em que o livro clássico - de papel, papelão, lombada e costuras - segue migrando para a virtualidade do digital. E as próprias editoras ainda não se acostumaram com a idéia. Não deram um jeito de tirar proveito dela com mais ênfase. Ou seja, a exemplo das grandes gravadoras, ainda se debatem para arranjar uma fórmula que lhes devolva o lucro parcialmente retirado pela força incipiente das novas mídias. Do mundo digital.

Mas o mercado já vem farejando "soluções" para isso. Uma delas passa por uma ainda maior exposição do escritor. A tendência é que ele faça turnês, comos os astros pop, ou vá ao maior número possível de encontros literários e feiras do livro.

Além disso, a internet já segue muito mais regulada e regulável que só uns poucos anos atrás. E o que pode surgir mediado por restrições de preços a serviços, de nuanças por geografia, ainda é uma icógnita. Mas começa a mostrar as fuças. Embora os avanços no mundo digital sejam tão vertiginosos, que a icógnita permanece.

Porém, não nos enganemos, o mercado não a deixará tardar por muito tempo. Enquanto isso o melhor que podemos fazer é baixar livros que ainda não foram editados em papel, por escassez de traduções. Ou que o orçamento nos impossibilita de adquirir.

Mas tendo em mente: a prioridade é do texto. Não da personalidade.

Relendo num blogue português a resenha de um livro de Herberto Helder, deparei-me com o argumento de que Helder era um escritor à antiga. Isso, porque não vinha a público falar sobre seus livros. Como que "justificá-los". Hoje em dia criou-se uma atmosfera de espera compulsiva por essas "justificativas" que o escritor - ou o artista em geral - tem de fazer de sua obra. É como se ele tivesse de esticá-la com palavra falada. Mas escritores como Helder, à antiga ou não, estão conscientes, ao modo do Eclesiastes, do quanto esses discursos - que às vezes eclipsam o próprio texto - são palhas ao fogo.

Enfim, é um tanto típico de nosso tempo que se cobre do escritor que, além de escrever livros, ele seja uma espécie de 'clown' ou animador de auditórios. Nem todos tem saúde psíquica para conjugar duas atividades tão radicalmente diversas: escrever livros e ajudar a vendê-los. Ser escritor e mascate ao mesmo tempo.

Talvez essa clivagem entre a honestidade que se deve ter para escrever um bom livro e a desfaçatez que se deve vestir para vendê-lo seja muito pesada para alguns. Crivado de depressão, o romancista David Foster Wallace, autor de Infinite Jest (Pilhéria Infinita, 1996), um dos mais ressonantes romances da década de 90 nos Estados Unidos, matou-se dia 12 de setembro passado.



O Borges dos quadrinhos


Carl Barks, 1972

Um Encômio a Barks no Dia do Aniversário do Mickey

Hoje Mickey Mouse faz oitenta anos. Quando nasci, ele tinha trinta e cinco e já era lido nos quatro cantos do planeta. Uma das primeiras coisas que li foi uma revista Mickey, editada pela Abril.

A Editora Abril foi fundada em 1950. Sou treze anos mais novo. A primeira revista lançada pela Abril não foi, no entanto, a Mickey mas O Pato Donald.

O pato, que nem sempre vem cantando alegremente, é um personagem menos unilateral que o rato. Ao menos nas revistas em quadrinho. Mickey é um personagem certinho, um bom-moço. O pato é humano demasiado. Quando desenhado pela imaginação fértil de Carl Barks, o pato e seus coadjuvantes - os sobrinhos e o tio muquirana - dão de lavada no Mickey.

Barks não criou propriamente o Pato Donald, mas lhe emprestou alma ao cercá-lo de uma de suas criações mais fantásticas: o Tio Patinhas. Mickey é um persongem para se ter entre os seis e os doze anos. O pato revela, quando se tem mais de doze, doses muito mais aparentes de neurose, humor, ironia, ressentimento, irritação, tão típicas da condição humana.

Nas mãos de Barks há sobretudo a imensa distância entre as aspirações do pato e suas realizações. O pato é gauche. E tem até um rival que revela-se bem mais apolíneo e bafejado pela sorte. E o que é pior, às vezes o rival assoma como mais sedutor para sua namorada. Há grande diferença entre o pato das revistas - e, em especial, o de Barks - e o dos desenhos animados. Este aparece plano diante daquele. Aquele assoma pleno diante deste.

Escrevi um artigo sobre Barks em 1996, cinco anos antes de sua morte. Mas, como moro num país distante e exótico - parecido com aqueles que ele fabulou sem jamais ter saído da Califórnia e do Oregon - ele não deve ter lido esse artigo, porque sequer soube dele. Em 1996 a internet ainda engatinhava. De resto, calculo, deve-se ter escrito dezenas de dissertações de mestrado sobre Barks com sofisticados arsenais semióticos, etc.

Agora, mesmo que soubesse do artigo, ele não poderia tê-lo lido, porque certamente tinha outras prioridades na vida, aos 95 anos, do que aprender português. De certa forma, o artigo era só uma sorte de homenagem. Sobretudo ao apontar para a sagacidade de suas histórias e para as linhas clássicas de seus desenhos.

Fecharei esta postagem com um extrato daquele artigo:

As histórias de Barks fazem supor um autor viajado e cosmopolita. Ou, no mínimo, alguém com uma sólida formação acadêmica. Elas se passam em diferentes pontos do globo, em meio a tradições exóticas e certo comércio com mitologia e história.

Nem uma coisa ou outra. Barks nunca pôs o pé fora dos Estados Unidos, via poucos filmes ou peças de teatro. Era, no entanto, um leitor voraz. E um leitor que soube transmitir sua voracidade, de forma sedutora, para milhões de outros leitores no mundo inteiro. Uma espécie de Borges dos quadrinhos.

Em uma de suas história, faz mesmo uma pequena síntese da mecânica do capitalismo. Isso se dá, ao enviar o Tio Patinhas a um remoto vale tibetano. Nesse vale, todos os habitantes vivem de forma comunal e fraterna. Demonstram inclusive, para padrões ocidentais, um prudente desapego pela riqueza material; apesar de viverem sobre extensas jazidas de ouro. Ou por isso mesmo.

Por indicação de seu psiquiatra, o velho milionário, curando-se de uma estafa, segue para o vale. Naturalmente não há aeroportos. E, antes de saltar de pára-quedas, junto com Donald e os sobrinhos, o pato mais rico do mundo abre uma garrafa de refrigerante - aqui, subentenda-se uma Coca-Cola - e atira a tampa pela porta do avião.

Adotando os usos e costumes do utópico vale, Tio Patinhas não só se refaz fisicamente como também chega a curar parte de sua auri sacri fames. Isso, ao aparentemente deixar para trás a empedernida formação calvinista, típica de yankee self-made-man, na linha de um Benjamin Franklin (alguém ainda duvida que Tio Patinhas é a melhor ilustração do calvinista em Weber?). E, então, por algum tempo, ele abraça, com todo o entusiasmo do neófito, a conduta budista de frugalidade e partição dos bens. Uma espécie de proto-comunismo.

Contudo, nesse vale ermo, no teto do mundo, um material inusitado como uma tampinha de refrigerante - ao contrário do abundante ouro que eles utilizavam até para tijolos na construção civil - é de uma raridade. Algo único. Uma espécie de ouro às avessas. Descoberta por um lavrador local, o reles objeto suscita todo um processo de trocas e disputas. Essas disputas, que por vezes são acerbas, é que seguem, em cadeia, dando origem ao capitalismo no paradisíaco vale. Consciente do que estava se passando, o velho pato, embora hesitante de início, fará de tudo no sentido de capitalizar para si a melhor fatia do bolo. No que obviamente é muito bem sucedido, ao fretar um avião cargueiro abarrotado de tampinhas. Um negócio do Tibete. Ou da China.

A ironia final dessa história, seu inteligente realismo são uma constante em Barks. Eis porque mesmo lendo-o em adulto, ele nos remete para o que há de melhor na literatura picaresca em inglês: Defoe, Swift, Fielding, Stern. Naturalmente, entre nós, para Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto.

Carl Barks foi mais importante para mim do que Patativa do Assaré.



segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Triângulo de chegadinho nos ouvidos


[s/i/c]

Fortaleza é minha musa

A cada vez que me embrenho por intrincadas teorias que querem referendar a mundialização do planeta, mais me volto para meu quintal. Mais desconfio de concepções estéticas que, à pretexto de inovação, terminam por padronizar o que há de mais notável e criativo. De mais próprio, único, singular, digital (no sentido da impressão que a pressão dos dedos de uma mão larga sobre uma superfície - seja de papel de parede ou de rocha de caverna).


Próprio de um lugar. Do que faz esse lugar soar e ser distinto dos outros. E ainda não desisti de reverenciar a distinção como um valor. Gosto de gente distinta. No melhor senso da palavra. Nada a ver com gente importante, poderosa ou famosa.

O som que me apraz não é – nunca foi, aliás – o tecno. O som que me apraz vem do triângulo. Do triângulo de chegadinho.

Se pudesse, faria um documentário que consistiria apenas no seguinte dispositivo: uma câmera fixa, que, ao modo de lambe-lambe fixa no som e na imagem cada um dos vendedores de chegadinho da cidade. Cada qual com a sua batida e seu gesto. Seu suíngue próprio e intransferível.

Fortaleza é minha musa.



Rimas da quarta série


Jack Pierson, 1992



Vida e Voz

Quando era menino,
Tinha um ouvido fino.

Quando era rapaz,
Escutava ainda mais.

Chegou à meia-idade
Com certa frugalidade.

Agora na velhice,
Tudo é tagarelice.

Aporias da leitura


Manfred Klein, 2006


Há visões e as visões do invisível


Para mim o fascínio da leitura resulta em algo simples: a capacidade de nos fazer enxergar coisas.

Mas, convenhamos, essas coisas já foram mais difíceis de enxergar.

Exemplo? Uma rua em Nova York.

Uns tempos atrás, havia duas possibilidades de se enxergar essa rua: indo até ela ou lendo-a numa página de, digamos, Scott Fitzgerald.

Hoje, claro, basta ir à pesquisa de imagens do Google, ao Youtube ou a algum sítio menos convencional que você vai enxergar as ruas de Nova York que bem entender em tempos e ângulos diversos. No pretérito ou até mesmo em tempo real.

Mas, então, por que essa sensação de haver visto com mais nitidez na página de Fitzgerald?

Uma prosaíssima parábola da tradução


Liam Gillick


Se o grão não morre II


A que se assemelha a tarefa do tradutor? Ao contrário do escritor, o tradutor perde quase todas as partidas no jogo-da-velha. Mas quando ganha uma, fica radiante. Liga para todos os amigos. Diz do quanto aquela rima foi um achado. E passa a semana sentindo-se o homem mais feliz do mundo.

Mas - e isso ele não sabe - é das derrotas que vem a melhor parte de sua escrita. O grão e a mostarda.