I Dream of Jeannie, c. 1969
Todos
tínhamos uma queda por Jeannie. Por isso queríamos ser o Major
Nelson. Havia uma cervejaria: Astra. A Guilherme Rocha ainda era uma
rua perfumada. E um outro Major, o Asthon Guilherme, comandava a
litania do dia por mensagens de alto falante. Que perfuravam o alto falante. Que eram quase auto-falantes. Embora nos azulejos
alguém ainda ia escrever com imprudente inocência: “o Major comeu
a Dona D'Alva”. E embora as ruas de cinema fossem a Major Facundo e a Floriano Peixoto, as meninas saíam da Vox, deixando um doce rastro
de Rastro, que pisava sobre chinelinhos de tira. A Catedral tinha uma só torre. Apostava-se: ela ou o Castelão ia acabar primeiro? Mas só um bronco não
via: o Megatério era o Prédio da Receita. E sua construção acabou antes das outras duas. Rápido como um golpe de kung-fu. Lento como a espera, e vê-la no recreio, dia seguinte. E o mestre dizia no recôndito templo Shaolin das quintas-feiras: "Gafanhoto, não vás ao Center Um sem cem mi-réis no bolso. O Tasso, que tudo vê, pode não gostar". Entrementes o Rosa da Fonseca
atracava no Mucuripe. E carregava mais uma leva de passageiros até
Manaus. O Padre Jessé dava graças ao Senhor por Ele ser bom. A
modernidade era subir a escada rolante da Lobrás, e tomar um
milk shake. Tomai e comei, todos vós. And Aubrey was her name. Diziam que iam inaugurar
uma TV Educativa. O Major? Nossa primeira encarnação de Big Brother. Embora mais propriamente seu nome fosse Edson. Talvez. E ele distribuísse gás. Minhas asas são como uma couraça de aço. Nenhum animal deve dormir em cama, com lençóis. Mas isso, ressalve-se, é já um terceiro Major, noutra ficção. Uma já menos mágica edição da coisa. Tudo em vão? Nem sempre. É. Nem sempre a gente
consegue ser piloto do que deseja. Ser aquilo que deseja. Major, vá desculpando. Vá desculpando aí. No duro, no
entanto, até o que não víamos de tango, Paris, cabia no piscar
de Jeannie. O império, os sentidos. Principalmente quando se passava pelos corredores do
Ibeu, desejando aquelas professoras já levemente sazonadas. Curtidas por mãos, línguas, membros, como pós-raparigas em flor. E as sombras. Nossos olhos como que adivinhando: como era a carnadura da realidade oculta sob e moldada por mescla, volta-ao-mundo, linho, poliéster, algodão? Dias imensos resplandeciam. Em que o céu mal comportava fiapo de nuvem. E havia quintais com mamoeiros, caixas d'água. E, enfim, varais onde a roupa estendida dava testemunho de silhuetas e noites. No silêncio tique-taque da sala, as fogo-pagou propagavam um lamento miúdo e terno, na calma das manhãs. E, então, no pátio, havia o pé de sapoti, junto à cantina, tarde a meio. Os olhos claros da menina. E as meninas. Utopia suprema. Bem-aventurança. Tão fugaz advento, como quando se tem catorze. Os nomes delas: Cynthia, Denise, Jacqueline, Celina, Márcia, Giselle, Ana Paula. Um lago ainda límpido, com botes de pedal, no Parque das Crianças. E um vestido ao vento. E os segundos navegando no lago em botes de papel. E o
tempo, então, passou numa fricção de piscar: carnavais, shows, festivais. Longos dias na praia. O desejo de ter uma banda. Pós-graduações de
morango, para sempre nos aguardariam no futuro da praia. Campos do América no caminho do Líbano. Damascos ao gosto de cada um. Capitães da Areia. Praias do futuro. Returnos. Torneios de ping-pong. Grafa aí: Grapettes. Major, não precisa pedir desculpa. O colorido ainda chegando a prazo na imagem da Telefunken. E logo se voltava de Manaus. Ou da Colônia de Férias. Em Iparana. Na Cofeco. E o gosto do
milk shake tinha algo dos lábios de Jeannie. Tingia algo nos lábios de Jeannie. O Romcy. O Jumbo. O Jairo. O Vegas. Quem bebe? Empadas de carne moída e azeitona. Grapettes.
O Major
Nelson morreu hoje.
