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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Política? Eleições?


Frank Freed, 1954

prever o futuro da cidade é fácil. Mais difícil é ordená-lo um bocadinho mais, trabalhar no rumo de melhorá-lo, desde já e um pouco. um pouquinho. e às vezes sem tanta visibilidade imediata 

nesse rumo nenhum dos candidatos tem proposto algo mais do que vagas promessas de campanha e excessos de populismo. Chega a ser cômico que Marina apoie Férrer. Elmano Freitas foi uma escolha para pôr à prova a popularidade da atual prefeita, de Lula, do PT: o fortalezense não tolera um tipo assim, com essa barba supostamente de “guerrilheiro”. Barba de cearense, diria Daniel Filho em implacabilidade. Um tipo que nem abriu a boca e já se adivinha a palavra de ordem, o "companheiro" apostrofado. Será para comprovar, de fato, a bravata de Luizianne Lins: a de que pode eleger quem ela quiser? Talvez. Elmano Freitas, no entanto, tem subido nas pesquisas. E parece seguir no rumo de polarizar com Roberto Cláudio ou com Moroni. E porém três administrações seguidas é algo que atenta contra alternância de poder e aponta para certa acomodação inevitável. Roberto Cláudio, à sua vez, alinharia de vez a prefeitura ao Cambeba, o que não costuma ser boa fórmula. Moroni e Marcos Cals representam tudo que há de mais retrógrado na política cearense. E não menos a ressurreição política de Tasso, no caso de Cals. O que seria um passo atrás do tamanho de uma jamanta. Esse retorno ostensivo de Tasso não ocorrerá, no entanto, apesar de não se saber do real status das relações entre Cid e Tasso. E em que ponto do mapa dessas relações está Roberto Cláudio.

ando por longe de política há tempo demais para declarar voto. Mas o momento não pede renovação? E, no entanto, entre a renovação e Moroni ou Cals, a saída menos comprometedora é a continuidade

NOTA POSTERIOR
A rigor, o nome novo seria Roseno - que, convenhamos, já não é tão novo assim. Mas Roseno além de não ter chances, está de alguma forma ligado à grife política de João Alfredo, líder de uma carcomida coligação de esquerda que se arrasta ineficientemente pela política cearense não é de hoje.  (Quais os projetos de destaque propostos por Alfredo quando de seus mandatos na Assembleia e na Câmera Federal? Não se vai achar no palheiro a agulha. E ainda assim, em certo momento, ele teve veleidades de se candidatar a governador e, como não achou espaço, bandeou-se ao PSOL). Outro fenômeno foi a queda abrupta de Inácio Arruda. Abrupta mas perfeitamente merecida: Arruda não tramou nada de bom para o Ceará em seus anos como Senador. Do contrário, sua ineficácia só empatava com o despreparo de quem o elegeu. Durante esses anos, o estado viu uma série de obras infra-estruturais e de instalação de indústrias de grande porte serem abiscoitadas por Pernambuco, por exemplo. Raras vezes o terno de senadores do Ceará foi tão inexpressivo e submisso a interesses outros e particulares, alheios aos do estado, quanto nos últimos oito anos - pois Eunício Oliveira e José Pimentel, nomes para descartar numa eleição, foram os eleitos na renovação de 2/3, em 2010. E o mandato é de oito anos. Ou seja, o Ceará vai ficar a ver navios no senado pelos próximos seis anos. 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mais dois tipos de arrasar quarteirão






[Aos que se prendem nesses detalhes imprescindíveis,] Após a revisão gráfica do site, em janeiro, quando sua aparência foi modificada pela terceira vez, desde 2007, foram adotados dois tipos de letras. Ambos não serifados e devidamente garimpados em famílias Open Source. A maioria dos textos está composta em Molengo. E, de julho para cá, se tem lançado mão também da Leelawadee.

Para uma noção dos tipos mais empregados em Afetivagem ao longo dos anos: Um pouco mais longilínea, como se fosse uma bela (e farta) mulher. No rol, dizem presente a Times New Roman, em sua versão mais longilínea; a clássica Palatino; a esguia Arial Narrow; e a surpreendente mas efêmera Undotum.

Avie. Indique Afetivagem a seu melhor amigo. E a seu pior inimigo. Eles se merecem e precisam saber da piscina. 

Só para ver se eu conhecia a letra dela

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Quanto menor



Taí o que você queria. Acendem-se os refletores. Abrem-se as cortinas. Quanto menor a província, mais o futebol é pasto de tolos, dirigido por políticos (ou futuros políticos) com cabrestos do tamanho da linha lateral. 

E visão mais estreita que pequena área.

domingo, 12 de agosto de 2012

5 breves notas para a próxima copa




ei, publicitários, essa é pra lembrar: quero essas meninas me vendendo carro, desodorante, plano de celular, refrigerante. chega de neymar!
*
se é pra insistir, numa equação esférica, errar é o mano, isso eu já sabia, desde a copa américa.
**
os meninos da seleção que levaram a prata são dezoito, mais a comissão, o cabeleireiro e o mordomo, fora os presidentes de federação. agora, o que ganharam: não é a mesma prata do esquiva falcão?
***
não falo palavrão em vão. mas, olha, seu baitinga, esse vice do brasil com o méxico, puta que pariu. caralho. fela duma gringa. pronto, já saiu. quer mais? vai catar piolho lá em tabatinga.
****
neymar cai tanto que fechou com a tim. cai a tarde, janto sopa de aipim. cai a chuva enquanto converso com ela. cai a linha, o rei, o preço do amianto. e o sereno vem caindo. 

só não cai o pranto.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Veja o que uma guitarra explora


Lucio Ranucci

uma guitarra tira sons de dentro de você, que você nunca ia suspeitar que estavam lá, dentro da caixa de ressonância de você. O seu medo de dizer para ela, o choro que era necessário mas não veio, sua incapacidade de encorajar. O fato de haver dito tão só a metade. (As lágrimas que, no fundo, eram de crocodilo. O consolador de Jó em você, sempre a postos). Afora todas as horas em que, depois de pensar duas vezes, você também deixou de agir duas vezes. 

e para melhor. E em meio a palavrões mais cabeludos que Toni Ramos

tudo isso uma guitarra repara.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pregão & pesar




Quando o vendedor de cuscuz paulista passa, os cachorros da rua uivam.

Por que só a eles pasma o grau de pesar que vai no pregão?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Em sociedade tudo se soube"



Olho vivo¹ quando uma mulher deixar de rir a seu lado!

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¹Quando se diz a expressão “olho vivo” não há como não lembrar de dois ícones geracionais. Um é José Rangel (que, no caso, reverberava Ibrahim Sued. Que fim terá levado José Rangel?). O outro é Faro Fino. E especialmente Faro Fino ao se dirigir a Olho Vivo num dos melhores cartoons (Snooper and Blabber) de Hannah-Barbera, devidamente filtrado por uma dublagem de sonho, que fez escola na televisão brasileira.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Não escrevo para ser lido: Cinema e Escrita I




Escrita, escrita em blog & um pouco de cinema

A CONSTRUÇÃO DA IDEIA POR INTERMEIO DA BLOG-ESCRITURA: LABILIDADE. PROVISORIEDADE. ENSAIO².
Bem entendido, eu não escrevo para ser lido.
Sou mais ambicioso. Escrevo para ser relido. Pretendo um texto que, como uma foto, não guarde ponto final. Mas prossiga aberto pela fecundidade da ideia. Se há um mínimo sentido para o que Eco denomina 'obra aberta', deve ser esse. E contra vários outros motivos, menores, ignóbeis, desprezíveis que o próprio Eco propõe. E isso muito obviamente não quer dizer que queira escrever textos sem uma conclusão. Não. Quero escrever textos conclusivos. O mais possível. E exatamente por isso extramente revisáveis até determinado ponto.
Se alguém leu, por exemplo, o texto sobre Peckinpah (postagem abaixo) anteontem - quando ainda era esboço - vai perceber que se encontra um bocado diferente – e inclusive mais extenso. 
Isso ocorre a três por quatro, por aqui. E deve ser visto como método. Como método facultado pelo meio blog. (E especialmente nos textos mais extensos, mas não só.) E porém poucos que passam por aqui, como a Fernanda ou a Mariana, notam isso. E, quando dispõem de pouco tempo, a astúcia delas as leva a optar por ler o texto uns cinco dias ou uma semana depois de publicados. Elas já perceberam que os textos postados aqui “mutam” um bocado, "flutuam" um bocado. Quer dizer, erram por algum tempo antes de chegar a  certo grau de estabilidade. A publicação em blog permite essa “mutância” e essa "flutuação". E isso pode gerar experimentos sintáticos e muitos jogos, além de supressões ou acréscimos.
E, não obstante, há um momento de arrefecer, estabilizar a espiral; e, mesmo num texto escancarado às mutações e às flutuações, é também o tempo de cessar  de modificar-se, de girar-se, de caleidoscopar-se, de (a)girassolar-se. Assim como uma foto não comporta ser limitada, em sua unicidade, por mais de um enquadramento. [E, aqui, o problema vem a ser quando(?) ou ser quadro(?) - uma vez que as possibilidades de revisão e edição são avassaladoramente mais acessíveis que no meio impresso]. É por isso que escrever um ensaio num contexto de blogue é sempre fazê-lo elevado à segunda potência. E, ainda assim, há um momento em que aparentemente essa gana revisionista esgota. E, quando menos se espera, o texto está PRONTO. 
Quer dizer, um critério de limiar parece impor-se, a despeito da gente ou das facilidades facultadas. Uma fluidez que surge da repetição, e percorre o texto inteiro. E é só aí que o texto ganha uma nota pedal, uma forma, um ritmo, que o aproxima de uma vieira ou de uma concha – de um objeto firme (ainda quando cartilaginoso) que, enfim, escuta. E escuta ao mesmo tempo que diz,¹ e gira o assunto, de tal forma, que ele pode ser visto de diversas perspectivas. 
Quando há uma forma por apêndice, pouco importa se há ou não um corpo colado a essa forma (ao modo de uma orelha, mas não de um búzio); o importante é pensar algo assim, enregelhado, com propensões côncavas, auditivas, receptoras no sentido radiofônico da coisa. Um sentido radiofônico que, quando transposto para o impresso, remete a alguém que é primeiramente um leitor, ainda quando escreve.
No búzio, o rumor do mar, o marulho, está lá dentro, mesmo sem uma cabeça para ouvi-lo, para complementar a audição. O búzio é como se fosse uma orelha avulsa, um fragmento de corpo, um aparato. E é aí, nesses gelhos, dobras e informidades provisórias - que se encontram, de passagem e na verdade, as mais sedimentares das formas - que o texto encontra sua solução. Seus motivos de permanência. Como se tivesse sido esculpido - sedimentar e pacientemente - seguindo os mesmos moldes da misteriosa simetria que se encontra num búzio. Nas suas dobras, estrias.
E, bem entendido, não se acha apenas citando teorias, que, no fim de tudo, são intransponíveis para nossas latitudes, climas, realidades sem os devidos anamorfoses, deformações, adaptações, mutâncias, descontos, etc. Pois é preciso antes que celebrar essas teorias por sua universalidade, perceber o que nelas há de parcial e violenta pre-potência. E, então, é preciso antes escamá-las das camadas de clichês, comuns lugares, estereotipias e chavões, por meio dos quais um suposto centro visa uma suposta periferia. A recusa da periferia em ser periferia é que pode ser mais astuciosa. Porque pelo excesso de história a ser conhecida, coletada, atravessada, quem está na suposta periferia acaba conhecendo mais do mundo total e, logo do mundo de que quem se encontra apenas no suposto centro. O itinerário percorrido é, em sua largada mesma, mais extenso, desafiador. E é como que duplicado.
A questão não é pouca. Alguns produzem textos, filmes, poemas, canções. Mas não mantém em paralelo uma escrita sobre esses textos, filmes, canções, etc. Uma escrita que chegue à flor d'água com boa flutuabilidade ou potencial de mutância, absorbilidade. Há um usual e flagrante desnível entre a obra em si e o comentário sobre ela. Atualmente não há um só realizador brasileiro que trame em paralelo uma escrita sobre seus filmes (ou sobre o cinema em geral) que seja instigante. Ou reveladora. Ou ímpar. Ou indispensável.²
Suplementar em riqueza e soluções.
E, de outro modo, todos abrem a boca para citar a rodo.
Mas mesmo quando se é Benjamin, nem só de citações vive o homem. Imagine quando não se é.
*
MOVIMENTO E IMPREVISIBILIDADE
É necessário forjar oásis antes que o deserto chegue. Como um bom líbero ou zagueiro é capaz de antecipar. Até mesmo os movimentos de Neymar. A imagem compraz: a projeção, o ponto-futuro. O que se produz depois ou antes daquilo que se cria por intuição só é fértil como oásis, se o movimento, o acto de criação escapar - ainda que nas últimas, na bacia das almas - à possibilidade de previsão. 
Por mais empenho que se bote nessa previsão. 

_____________________
¹E, aqui, escutar ao mesmo tempo que dizer não significa uma reivindicação de interação entre autor/leitor. Nos moldes em que está proposta, essa interação é uma perfídia. Um atentado ao bom-senso e a certa gentileza de modos. Ao menos do modo como se dá essa interação nas pavorosas caixas de comentário rede afora. Essas caixas constituem uma nova modalidade de folhetim. Quer dizer, uma boa parcela de leitores, ao modo de voyeurs, ocupam-se mais com essa relação um pouco estúpida e análoga à de um Big Brother literário entre autor/leitor do que com o texto em si, como algo autônomo, visado como independente até de uma autoria. Um autor, por mais "seguidores" ou comentários que detenha em suas caixas, há de notar que esses comentários são rasos ou pueris. Já nascem obsoletos, superficiais. Ou assomam marcados por certa gabolice, prosápia. Ou seguem alinhavados por jactância, vanglória. Não raro, semelham interjeições. São interjecionais - como os palavrões que soltamos desde as tribunas, nos estádios (virtuais ou não). E, logo, o autor deve treinar-se, adestrar-se, deve estar no ponto para divisar as excepções a esse estado de coisas. Até porque essas excepções costumam ser cortantes, brilhantes demais para passarem sem a sua profunda atenção. Mas também costumam ser mais discretas, e desviar-se para canais menos públicos.
²Verdade, os melhores não precisam disso. Ou melhor posto: prescindem disso.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Pianista


Piano de cauda redesenhado e fabricado pela Audi

- ou Nem Toda Ternura Para Quem Inventou a Vigília

Com uma apruma-se o chapéu. Com a outra - de outra pessoa, aliás - recolhe-se a moeda caída sob o jasmineiro em flor. Simultaneamente. Para ser tocado, o piano demanda uma estranha independência entre as duas metades do cérebro; e, de uma para outra mão, um esquecer do que se faz. O piano é o instrumento mais completo. Seu universalismo pouco gera cepticismo e, assim, aproxima-se do sonho. E logo, sonhar tocando piano, como ela certa vez sonhou, é sonhar à segunda potência. 
*
E se o piano segue no sonho, é por onde ela podia ouvir e refazer não só a toada da orquestra inteira, mas também os cantores. Ou os dedos da mão esquerda assoviando no braço das guitarras. E se duvidar, até os passos do solista para os bastidores. Os aplausos. Ou o eco desses passos no assoalho do corredor, de volta, refeito no pé cravando o pedal. E espichando sons. Ou glissandos executados com mais desenvoltura do que se escorre o dedo no visor do iPhone. Tudo isso no sonho ela dominava com rematada perícia. Na certa havia anos de estudo do instrumento por trás. Mas no sonho ela ficava só com o bem-bom: tocar maravilhosamente bem.
Pelos ouvidos dela os sons penetravam como uma quente e dilatada glande nas suas fendas. E o que vinha depois. Depois da cabeça. E aquele seu sonho estava completo: tocava piano como quem conversa no salão de beleza. E expressar o que não se pode com as limitadas palavras. Exprimia algumas notas na suavidade de sedas. E grunhia como uma porquinha em desenho de Disney. Lipatti e Gould, rá, eram fichinha. Nada de excepcional. Pressionava as teclas certas no tempo certo, e o instrumento tocava-se.
Ressuscitava amigos. Amava todos, todos de direito no filme de sua vida. De direito e de torto. Alternadamente e de uma vez só. Uma suruba violenta e piedosa. Não foram poucos. Ia ter com eles. Com todos. Com um. Com os que a tinham desprezado, guardava um sopro de fôlego para, mais adiante, gastar com aqueles que a tinham refeito de novo e para a vida; mas, diacho, sem menos - como usa ser, como ousa ser - por aquela soma de acasos, erraram-se; e nenhuma pista em Facebooks, nenhuma busca nos Googles da esquina iriam remediar, repor, reparar certas coisas ditas, não ditas. Ineditismos. Fantasia. Falências. E umas poucas de arapucas virtuais.
Em sonhos, é tão bom ter tudo de volta à volta. Até o irrevoltável. Aquele dia em que subiram na caixa d'água e, bem ao amanhecer, atiraram a garrafa de chianti vazia lá de cima. 
Ou a natural plástica de quando se tem dezenove. E é reacomodar as coisas na sua primitiva forma de grandeza. Cheia de devaneios e fibras. Arranhados pelo cimento craquento da caixa d'água. Ou no aconchego do quarto de solteira. E com uma direção de arte tão precisa que é feito seguir por noites de dezenove de novo. E reencontrar aquela briba, branquinha, que ficava ali na parede, atônita, olhando para eles, através dos únicos pontos pretos do corpo, enquanto eles brincavam. Era a Antônia. 
Só que agora, Antônia ficara para trás. E ela já sabia brincar com uma agilidade a mais acumulada no corpo, feito um dínamo. Já podia lançar-se ao impromptu, como no jazz. E com certa, não se diga sabedoria, mas passagens por cascas e alhos dentro da cabeça (em si já mais próxima de uma cabeça de alho, embora não menos oca. Mas isso só por dentro ou alegoricamente). Por fora do papel celofane do sonho, claro, tudo selvageria e dezonove aninhos. Grisalho algum. E aqueles dedos tirando sons lindos como linhas da vida inscritas na mão suada de quem muito se quer.
À certa altura, ela puxava C. pelo braço, e ambos caíam no sofá refestelado e macio do sonho, cheio de penumbras e sons. Como nos anúncios. E sentia os volumes do corpo dele e de novo, atrás do jeans. Arestas e ângulos. Mas logo o jeans, junto com a camisa de manga longa e os All-Stars, estavam largados pelo chão. E uma barba malfeita arranhava de leve no rosto dela. E, ao mesmo tempo o piano incessante, a desfolhar estranhas regras de tempo e pingares de líquido na escala. E ele tinha quantos braços? Só dois? Mentira. E, de repente, que coleção de elásticos faziam sua cintura ter mais ginga que a da professora de pilates? 
Agora estava claro. E ficou claro. Ainda mais. Bem claro, Carol. Cristalino. Como numa cantata de Bach. E os contornos do bairro começaram a surgir, de novo, para além da janela. Como o dedo dela obturando fotos em branco e preto na contra-luz de um dia chuvoso. Ou o dedo dele apertando a campainha. E ela a ferver éfes nos lábios. Ou ele de novo enfiando-se, por detrás, nas algas dela. E mais poses. E fotos em que, depois, devidamente photoshopados – e nem precisava - ela assomava radiante, sentada à mesa do café, manhã seguinte. Sorriso de um lado ao outro do hemisfério. Nos sonhos coisas reluzem com brilhos de anúncio de margarina ou sedã.
Mas nada ou ninguém lhe devolvia prazer maior que tocar piano com aquela fluência de virtuose e contornos de gala. E seguir descascando tampos na laranja e tempo nas teclas. Ou comendo-as com a ponta dos dedos. Ou sentindo-se perfurar por mais de uma entrada. E aquele arrepio subindo-lhe ao olho. Ou então, os dedos devidamente esquecidos, permanentemente aquecidos. Fluidos. Como cavalos passando obstáculos. Ou pequenos ginastas de buriti saltando por cima de barras, a transcreverem-se por notas dissonadas, sem prévia adivinhação. Pois finalmente, finalmente, ela tocava piano como quem joga conversa fora no salão de beleza ou a fia no boteco. Ou ainda possui aquele descascar laranjas no piloto automático. Por que demorara tanto para chegar àquele estágio? E até onde a torpe necessidade de fingir não ia vogar mais, se isso não era bom?
E aí, sem perder compasso, desembaraçadamente, o metrônomo marcando nos camarins do cérebro, acocorava, para catar com a mão esquerda a ponta do cigarro que, antes, acomodada na borda do instrumento, caíra no chão. E, então acordava: poçinha de cuspe junto aos lábios, dedilhando teclas invisíveis sobre a colcha de índigo. E num compassar que ainda provinha do último fiapo imaginado antes do plano geral sobre o qual se aplicara o The End do sonho: o indicador a pressionar sucessivamente a dominante, em pedal e ralentamento. Lá fora uma betoneira troava, e bulldozers terraplanavam a rua.
*
Miseravelmente só e ainda um pouco tonta.

E pior, era domingo. Birrenta, uma mosca insistia em voltar ao mesmo ponto na maçã de seu rosto. A dor de cabeça no mundo e súbita lembrança: o disk-água do bairro estava fechado. Será que ainda tinha absorventes no armário? Um cheiro de pizza, cigarro e cerveja ambiente. E maldizendo quem inventou a vigília. O cachorro, um pouco desconsolado, cheirava as pontas de seu sutiã no assoalho gasto.

E para a puta que o pariu essa necessidade cruel de se mudar a programação da TV no domingo. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nesses Leblons do Coração

Juan Miró

Nada mais repelente à amante que o outro se mostrar “sofrendo” por causa dela ou do status clandestino do affair. É uma das situações em que se desce mais baixo nesses Leblons do coração. 

sábado, 31 de março de 2012

Desfaçatologia


Há dias que a gente se sente como aquele extra que é pago pela Globo para estar na plateia, em geral de pé, mesmo que haja assentos, num programa de auditório. A câmera o colhe de perfil, supostamente encantado com a cantora que está no palco. Mas o desejo, a gente sabe, a gente vê, naquele olhar de soslaio, é mesmo o de olhar câmera no olho e mandar um beijo para a namorada, a família, o papagaio.

segunda-feira, 26 de março de 2012

as pessoas não são o que gostam



as pessoas não são o que elas gostam. O que elas gostam é algo mais raso. Já aquilo que elas são é o que retira areia do leito do Nilo. Para fazer pirâmides. Acercar-se dos deuses. Matar operários. Depois a gente decide se gosta ou não do estilo das pirâmides

domingo, 25 de março de 2012

eu e a palavra urubu no pormenor de um sábado da quaresma


gosto da palavra urubu. ela tem algo de tupi que eu não renego. e talvez eu tenha algo de nômade que ela quer. de forma que os pronomes relativos nos reúnem. a última vez que fui ao supermercado, comprava frutas. e quando me virei, ela me olhava densa, sossegada com aqueles olhos gostosos, um pouco sonsos de te quiero. mas desde que a pronuncio numa língua europeia, ela também soa assim engraçada. meio primitiva, distante, com essa vogal reiterando. e soa engraçada mesmo a mim, que nunca vou ser inteiramente europeu. que às vezes pressinto numa fração de segundo a cor negra de seus us nas penas da ave. soar engraçado. e, pior, a palavra urubu - bater de asas, flecha, chispa posta em equação - sabe bem a quem soa. e então revoa sobre fortaleza como el condor pasa, personagem de cartoon. um vôo impossível, aliás: o dia é chuvoso. e, ainda assim, nessa grande fantasia que é linguagem, ela e eu seguimos juntos tomando banho de chuva e debochando da semiótica em banho-maria e do departamento de letras vernáculas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No momento em que o acesso ao conhecimento é ameaçado pelo dinheiro

/sic/

Estava Escrito

o congresso americano ameaça a Wikipedia e muito da melhor fronteira livre e grátis da rede. Esteja contra. Posicione-se. Faça-se ouvir. Passe adiante. 


era só uma questão de tempo. Estava escrito que estes dias viriam. Para um artigo sobre a disciplinarização da internet em Afetivagem, favor clicar aqui.

* * *

As Fatias Sobre o Prato


Marc Chagall, La pluie, 1911

Rendição

Se houver cidade mais bonita que Fortaleza sob chuva, me rendo. Mudo agora. Mas mesmo assim não posso. Essa falsa loura de Paula Ney me pegou pela raiz dos cabelos. Há uma qualidade no ar e nos sons que são pura chuva. E faz a gente sonhar com geografias grandes. Com poemas épicos e feitos na Índia e em Cipango. E são muito mais saborosas e tenras as fatias de manga rosa que se vai fazendo sobre o prato da manhã. 

* * *