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domingo, 7 de dezembro de 2008

Grafa nomes de flores nas minhas costas: Strand


[s/i/c]


The last bus


It is dark.

A slight rain

dampens the streets.

Nothing moves


in Lota's park.

The palms hang

over the matted grass,

and the voluminous bushes,


bundled in sheets,

bellow beside the walks.

The world is out of reach.

The ghosts of bathers rise


slowly out of the surf and turn

high in the spray.

They walk on the beach

and their eyes burn


like stars.

And Rio sleeps:

the sea is a dream

in which it dies and is reborn.


The bus speeds.

A violet cloud

unravels in its wake.

My legs begin to shake.


My lungs fill up with steam.

Sweat covers my face

and falls to my chest.

My neck and shoulders ache.


Not even sure

that I am awake,

I grip the hot

edge of the seat.


The driver smiles.

His pants are rolled above his knees

and his bare calves

gleam in the heat.


A woman tries to comfort me.

She puts her hand under my shirt

and writes the names of flowers

on my back.


Her skirt is black.

She has a tiny skull

and crossbones on each knee.

There is a garden in her eyes


where rows of dull,

white tombstones crowd the air

and people stand,

waving goodbye.


I have the feeling I am there.

She whispers through her teeth

and puts her lips

against my cheek.


The driver turns.

His eyes are closed

and he is combing back his hair.

He tells me to be brave.


I feel my heartbeat

growing fainter as he speaks.

The woman kisses me again.

Her jaw creaks


and her breath clings

to my neck like mist.

I turn to the window's

cracked pane


streaked with rain.

Where have I been?

I look toward Rio –

nothing is the same.


The Christ who stood

in a pool of electric light

high on his hill

is out of sight.


And the bay is black.

And the black city

sinks into its grave.

And I shall never come back.


Mark Strand



O Último Ônibus


Está escuro.

Uma chuva rala

lava a rua.

Tudo parou.


No Parque de Lota,

palmeiras movem

sobre a grama opaca

e densas moitas


dobradas em tiras

rasteiras, ladeando os muros.

O mundo fora do alcance.

O vulto de banhistas surge


lento da rebentação

e eleva-se da espuma.

Caminham pela praia

e seus olhos ardem


como estrelas.

E o Rio dorme:

o mar é um sonho

em que morre e ressuscita.


O ônibus acelera.

Uma nuvem púrpura

esgarça-se na partida.

Então, minhas pernas tremem.


Meus pulmões cheios de fuligem.

O suor cobre meu rosto

e escorre para o peito.

Sinto o pescoço, os ombros.


Sem a certeza

de estar desperto

agarro na extremidade

morna do assento.


O motorista sorri.

Suas calças dobradas

acima dos joelhos

as panturrilhas que rebrilham no calor.


Uma mulher tenta me consolar.

Põe a mão sob minha camisa

e grafa nomes de flores

nas minhas costas.


Sua saia preta

porta uma miúda caveira

e ossos cruzados em cada joelho.

Há um jardim nos olhos dela


onde renques das mesmas

lajes brancas povoam o ar.

E as pessoas, de pé, acenam

em despedida.


Tenho a impressão

de que não estou mais aqui.

Ela sussurra entre dentes

e cola os lábios no meu lado.


O motorista faz a curva.

Aperta os olhos,

penteia os cabelos para trás.

E me diz para ser forte.


Sinto um aperto no peito

quando ele fala comigo.

A moça me beija de novo

seu maxilar lateja


e o hálito cola no pescoço

como vapor.

Viro-me para o vidro

trincado da janela


com veios de chuva.

Por onde estive?

Observo o Rio --

nada é igual.


O Cristo que se ergue

no meio de um jorro de luz

alto, em seu nicho,

está fora de vista.


E a baía no escuro.

E a cidade escura

desce para seu sepulcro.

E nunca mais voltarei.




domingo, 11 de março de 2007

Sereia e garçonete: Gluck



Siren

I became a criminal when I fell in love.
Before that I was a waitress.

I didn't want to go to Chicago with you.
I wanted to marry you, I wanted
Your wife to suffer.

I wanted her life to be like a play
In which all the parts are sad parts.

Does a good person
Think this way? I deserve

Credit for my courage--

I sat in the dark on your front porch.
Everything was clear to me:
If your wife wouldn't let you go
That proved she didn't love you.
If she loved you
Wouldn't she want you to be happy?

I think now
If I felt less I would be
A better person. I was
A good waitress.
I could carry eight drinks.

I used to tell you my dreams.
Last night I saw a woman sitting in a dark bus--
In the dream, she's weeping, the bus she's on
Is moving away. With one hand
She's waving; the other strokes
An egg carton full of babies.

The dream doesn't rescue the maiden.


Louise Gluck



Sereia


Tornei-me uma delinqüente quando me apaixonei.
Antes disso eu era garçonete.

Não queria ir com você para Chicago.
Queria me casar. Queria
Fazer tua mulher sofrer.

Queria que a vida dela se tornasse uma peça
Em que todos os atos fossem tristes.

Uma pessoa do bem
Pensa assim? Mereço

Crédito pela coragem--

Sentei-me no escuro diante de tua porta.
Tudo era claro para mim:
Se tua mulher não te deixasse ir
Era a prova de que não te amava.
Se te amava
Não desejaria te ver feliz?

Agora creio
Que se sentisse menos
Seria melhor pessoa. Eu era
Boa garçonete.
Podia com oito drinques.

Costumava a te contar meus sonhos.
Ontem à noite vi uma mulher sentada num ônibus escuro --
No sonho, ela chorava, e o ônibus
Afastava-se. Com uma das mãos,
Ela acenava; a outra golpeava
Um ovo de papelão repleto de bebês.

O sonho não resgatou a donzela.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Sereia e garçonete, a mulher mal-amada de Louise Gluck

Siren

I became a criminal when I fell in love.

Before that I was a waitress.

I didn't want to go to Chicago with you.
I wanted to marry you, I wanted
Your wife to suffer.

I wanted her life to be like a play
In which all the parts are sad parts.
Does a good person
Think this way? I deserve

Credit for my courage--
I sat in the dark on your front porch.
Everything was clear to me:
If your wife wouldn't let you go
That proved she didn't love you.
If she loved youWouldn't she want you to be happy?

I think now
If I felt less I would be
A better person. I was
A good waitress.
I could carry eight drinks.

I used to tell you my dreams.
Last night I saw a woman sitting in a dark bus--
In the dream, she's weeping, the bus she's on
Is moving away. With one hand
She's waving; the other strokes
An egg carton full of babies.

The dream doesn't rescue the maiden.


Louise Gluck




Sereia


Tornei-me uma criminosa quando me apaixonei.
Antes disso eu era garçonete.

Não queria ir com você para Chicago.
Queria me casar. Queria
Fazer tua mulher sofrer.

Queria que a vida dela se tornasse uma peça
Em que todos os atos fossem tristes.

Uma pessoa do bem
Pensa assim? Mereço

Crédito pela coragem –

Sentei-me no escuro diante de tua porta.
Tudo era claro para mim:
Se tua mulher não te deixasse ir
Era a prova de que ela não te amava.
Se te amava, não desejaria te ver feliz?

Agora creio
Que se sentisse menos
Seria melhor gente. Eu era
Boa garçonete.
Podia com oito drinques.

Costumava a te contar meus sonhos.
Ontem à noite vi uma mulher sentada num ônibus escuro --
No sonho, ela chorava, e o ônibus
Afastava-se. Com uma das mãos,
Ela acenava; a outra golpeava
Um ovo de papelão repleto de bebês.

O sonho não resgatou a donzela.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

De Glórias e Aterros


A área verde à esquerda dos prédios constitui o Aterro do Flamengo



A Pós-Moderna Geografia do Crítico de Poesia


Certo “crítico” de poesia brasileira – daquele tipo que encara a idéia de história com alguma vaga derrisão – deveria, no entanto, através da história, conhecer mais por onde pisa. O risco é acabar se molhando inteiro. Em artigo recente ele pontifica, aspas:

Certa leitura da poesia produzida no Brasil tende a uma espécie de padronização crítica “carioca” (sim, assim mesmo, entre aspas, claro), o que tende a uma repetição da geografia dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro, não tão mais longe que isso.

Fecha aspas. Uma repetição da geografia e dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro. Ok. O problema, aqui, é que Machado de Assis morreu em 1908, e o Aterro (diante da Praia do Flamengo – daí o nome de Aterro do Flamengo), foi construído ao longo da década de 50 e inaugurado em 1965: meio século e sete anos após a morte de Machado! Mas, talvez em espírito – quando, quem sabe haja escrito as Memórias Póstumas não de Brás Cubas, mas de si próprio – o Bruxo do Cosme Velho tenha vagado bastante entre a Glória e o Aterro. Já que, ao seu tempo, o Aterro era tão-só parte do imenso e bravio mar azul. E, ao que se sabe, entre os de carne e osso só Cristo conseguiu caminhar sobre as águas. Sem embargo, até onde nos chegam os registros, Machado era um espírito cético e um homem fino demais para arriscar molhar suas polainas nas ondas da Baía de Guanabara durante seus passeios da cidade para a orla.

Sobre o Aterro, aliás, uma de suas grandes entusiastas foi a companheira de Elisabeth Bishop, Lota de Macedo Soares. Há uma referência ao Aterro, ainda em construção, como "o Aterro de Lota" neste poema de Mark Strand, chamado "The Last Bus".