segunda-feira, 16 de julho de 2012

Casas tortas para dentro, sem possibilidades de relento




algumas casas, nota-se que o arquitecto as entortou para dentro. Como se devessem pagar eterno tributo, curvar-se em permanente reverência à perícia com que o espaço interior foi modulado, seccionado, esculpido
não me fio delas. Parecem cavernas 
uma casa também tem de se voltar para fora. Manter um olho na rua. E, mesmo, ensaiar ser parcialmente esse fora, essa rua. Aos poucos. E desde as varandas e alpendres, acostumar as crianças com o mundo: a chuva, o sol, as árvores, a grama, os calangos, o escuro. Estrelas. O cricri dos grilos. Desconfiar de quem não gosta de varandas, alpendres, terraços, num clima como o nosso. Um clima que convida à convivialidade nesses espaços em que dentro e fora diluem-se em terceiro rumo


uma espécie de pré-relento, onde é bom armar a rede

domingo, 15 de julho de 2012

térmitas e último dia para contrato



o entomologista investiga uma nova espécie de cupim descoberta na amazônia. a espécie tem apenas fêmeas. 
ainda assim, reproduz.
*
-não tenha pena de mim. lembre-se: eu fui tão ou mais sacana que você - o que não é pouco. e isso de fragilidades femininas é só charme. por dentro você mal ia adivinhar o torquemada de saias que me habita o espírito. nem o politicamente correto faria melhor por mim. (muito menos por você, sinto). e, segundo dizem, nessa nova espécie de cupins a casa está cosida em barro por dentro da casca. eu queria ser assim, meu caro. ter uma casa costurada por baixo da pele. mas não tenho. e ter onde morar não cai do céu. daí, se não sentir o cheiro do dinheiro na pele dos que levo para cama, melhor esquecer. pelo menos vou direto ao ponto, você sabe. e então, se me quiser de novo, faça o favor de sair dessa pindaíba. e muito. ser pobre é bonito, em biografias e enciclopédias. mulheres querem homens com charutos que se acendem em cédulas de cem dólares, e não garotos que fumam baganas atrás das portas. homens de verdade, que estribuchem sobre nós na mesma medida em que fodem com a vida dos outros. quanto mais subalternos tiverem, mais chances de darem certo no meu cetim, você sabe. não nasci no time desses cupins. e estou é ficando velha, não louca. tenho de quitar o financiamento da casa, assegurar uma aposentadoria, e um seguro educação pro waltinho.  

ninguém sabe o dia de amanhã.

sábado, 14 de julho de 2012

Conta outra, meu

Sara Ramo

difícil encontrar blog na primeira pessoa – eu, me, meu – com algo bacana de ler. A maioria fica naquela: dizer que é assim, assado. Que não gosta de jiló. Que está gripado. Que lê tais livros e vê tais filmes e ouve tais sons. Que se parece com probos, lêmures ou maçons. Que gosta de cabrito ao forno. Que encravou a unha. Que sofre com aquela dor de corno em La Corunha. Que tinha uma língua, mas o gato comeu.

tcherto. Mas e daí?

conta outra, meu.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Num Acesso de Ousadia

O'Connor

eu tinha uma paciente muito contida. o marido havia batido nela. tinha sido humilhada pelos filhos. abusada pelo pai, ainda em criança. aguentava tudo num altruísmo a toda prova. a imaginar que recobrava dignidades. a sua, as da família: 

-e se eu perder a cabeça, doutora? - me perguntou uma vez, num acesso de ousadia.

-infelizmente quem faz essa pergunta nunca perde a cabeça.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A maior parte




lembre: a maior parte do tempo a gente só existe para os outros na forma de lembrança. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O sonho resgatando a humanidade numa cartolina cheia de d's


A. Quincy Jones e Frederick E. Emmons, X-100, The Experimental Research House, 1956

na sétima série, chorou ao perceber que a professora de Educação Artística – apodada Maria Machadão – não achara seu trabalho de casa  - uma cartolina cheia de palavras edificantes começadas em d, mais algumas fotos - exatamente a salvação da lavoura. Mas acho que falhei ao tentar consolá-la no recreio

desculpe-me. Eu não tinha voltado ao assunto esses anos todos

Veja o que uma guitarra explora


Lucio Ranucci

uma guitarra tira sons de dentro de você, que você nunca ia suspeitar que estavam lá, dentro da caixa de ressonância de você. O seu medo de dizer para ela, o choro que era necessário mas não veio, sua incapacidade de encorajar. O fato de haver dito tão só a metade. (As lágrimas que, no fundo, eram de crocodilo. O consolador de Jó em você, sempre a postos). Afora todas as horas em que, depois de pensar duas vezes, você também deixou de agir duas vezes. 

e para melhor. E em meio a palavrões mais cabeludos que Toni Ramos

tudo isso uma guitarra repara.

Perdidos na selva dos signos



Ontem no Twitter, a etiqueta Leonardo rendia vastas doses de lost in translation por este mundo afora. Enquanto os europeus e de mentalidade mais clássica discutiam da Vinci, os norte-americanos assuntavam DiCaprio. Mas os brasileiros é que estavam certos. Eram maioria e falavam de quem estava na origem de tudo: o cantor sertanejo.

Eles ainda vão se ver com a gente.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Onde o tempo diz a emergente palavra: Celan




'Auch wir wollen sein'

Auch wir wollen sein,
wo die Zeit das Schwellenwort spricht,
das Tausendjahr jung aus dem Schnee steigt,
das wandernde Aug
ausruht im eignen Erstaunen
und Hütte und
Stern
nachbarlich stehen in der Bläue,
als wäre der Weg schon durchmessen.

Paul Celan


'Nós também queremos ser'

Nós também queremos ser
onde o tempo diz a emergente palavra,
o milênio remoçado sobressai da neve,
o prófugo olho
repousa no seu próprio espanto
e cabana e
estrela
sublinham-se avizinhadas no azul,
como se o caminho já estivesse feito.

Ser como o rio que deflui



Depois do tempo aprende-se a divisar o que há de obsceno, cômico também no sucesso. O excesso de cristal, de brilho. O excesso de vontade que a vida ressoe vazia como um dedo roçando a borda da taça produz uma nota que não pode ser flexionada. 
Ou então, que tudo, toda a psique pisque em matiz mais refulgente. No céu da pátria e nesse instante. A grandiosidade a cercar uma ou um só. Uns poucos, vá lá. E os demais reduzidos a pó, usurpados: músicos na orquestra. No fosso da orquestra. Há micos amestrados dentro de fraques e longos. Enquanto a prima-dona espreme espinhas na voz. E a plateia balança os balangandãs que ainda pôde juntar.

Eis porque cerimônias de casamento provocam tanta hilaridade.


Para sempre, me lembrar de você numa beira de estrada. Camisa de flanela ao vento como uma bandeira. Lua e morcego tatuados.

domingo, 8 de julho de 2012

Samu


Ivan Serpa

Passei um bom tempo fora de circulação. E tomei um táxi para voltar ao convívio humano. À altura da Washington Soares, naquele trânsito de enervar mártir, o taxista diz:
-Rapaz, ontem não é que o cara bateu no Samu.
E eu:
-Como?
-O cara acabou batendo no carro do Samu.
-O que é Samu?
Apreensivo, sem decidir se estou brincando ou sou sincero, o taxista olha para mim com um cara de quem quer desistir de me tomar por humano:
-Esse pessoal do socorro médico.
-Ah!

sábado, 7 de julho de 2012

O começo do fim das grades nas janelas e varandas




O malandro estava na esquina. Encostado num poste na esquina. Com o rosto inchado por passadas cachaças. Maquinava algo um pouco torpe, que pudesse ser adiado de última hora. Algo nada edificante. E levava baseado e meio na cachola. Ainda estava escuro. Nenhum carro na avenida.

Nisso os caminhantes passaram. Um já velho. Outro de meia-idade. O primeiro tirou para os lados do Centro. O outro foi para a banda do mar e da Aldeota. E eram só o começo. E o malandro na esquina, visto por mais olhos que os da polícia, odiou aquelas pessoas que, assim tão cedo da manhã, passam caminhando por cima de seu direito de delinquir. 

[04.07.12]

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A indesejada das gentes: W.S. Merwin



For the Anniversary of My Death

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

W.S. Merwin


Para o Aniversário de Minha Morte

A cada ano sem me dar conta venho a passar pelo dia
Em que os últimos fogos vão acenar para mim
E o silêncio assomará
Viajante incansável
Feito o brilho de uma estrela cega

Então não vou mais
Achar-me na vida como numa estranha roupa
Atordoado na terra
E pelo amor de uma mulher
E a desfaçatez dos homens
Como na escrita de hoje após três dias de chuva
A ouvir o canto da corruíra e o temporal cessar
E curvando-me não sei diante do quê



NOTA - a corruíra, v.7 2ªE, é um pássaro mais conhecido na Europa como carriça, ou carriço. É conhecido como corruíra apenas no Brasil. Adivinhe por que corruíra parece ir melhor com o contexto geral do poema?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Segunda-feira, 5 de julho de 1982: há trinta anos e um eclipse



No começo de julho de 1982, a Guerra das Malvinas havia recém-acabado. Os Estados Unidos eram governados por Ronald Reagan. Ainda havia Appartheid na África do Sul. Sambódromo ainda não havia. Jogo da Vida era a novela das sete. Blade Runner fora lançado meio mês para trás, mas ainda não chegara ao Brasil. Elis Regina morrera cinco meses antes. "Ebony and Ivory", com Paul MacCartney e Stevie Wonder; ou "Morena Tropicana", com Alceu Valença; ou "Banho de Espuma", com Rita Lee; ou "I Believe in Love", com Nikka Costa tocava no rádio. As gírias da hora eram "joia", "de repente", "tem vaga", "broto", "falou", "massa" e "só". E era impossível conversar com algum mediano sucesso sem pelo menos um desses termos na frase, embora isso hoje pareça realmente inacreditável. O inverno fora fraco. Um ano e meio depois, Jericoacoara seria descoberta, e o mundo viraria de cabeça para baixo. Eu cursava o segundo ano de Informática - que à época se chamava Processamento de Dados - na Universidade Federal. Mas então eram férias. E depois do segundo semestre, em janeiro do ano seguinte, nos atacaríamos para Camocim num Xavante sem capota. A Abertura era lenta mas graduava-se. Quando não tinha dinheiro para comprar livros, lia entre as prateleiras da Ao Livro Técnico, ali no térreo do Edifício Sul América. Em casa recebíamos a Newsweek, e eu tinha penfriends numa porção de países: Holanda, Estados Unidos, Argentina, Japão, Costa do Marfim... Houve um grande eclipse lunar no dia 6. E, no dia anterior, o minguar de um outro corpo celeste:


Eu não vivo por ti, Corinthians & o atual estágio do ludopédio tupiniquim



TT's Fortaleza 

#VaiBoca
#ForrodeSaltoemBuritiBravoMA
#processada
Corinthias
Higgs
FollowMelFronckowiak RumoAos800MilSeguidores
Tá Lucy
Amy Winehouse
Happy 4th of July
Nike

Ontem, quinze minutos após a vitória do Corinthians eram estes os TT's em Fortaleza, e com direito exclusivo sobre este notável "Corinthias", que não poucos parabenizavam com entusiasmo, circunstância e sono.
Bela vitória. E todos os méritos a quem de direito. Uma equipe disciplinada, aguerrida. E não é fácil ganhar uma Libertadores. Ainda mais com um Boca pela proa, na final. A vitória do Corinthians não deve ser depreciada. Mesmo por quem não simpatiza com o time de Parque São Jorge. 

Isto é uma coisa.

A outra é essa impressão de que taticamente o futebol brasileiro está pelos menos uns dez anos ou duas copas atrás de equipes como Alemanha, Espanha e Itália. Como a recém-concluída Eurocopa - de resto, com jogos bem agradáveis de ver - sugere. E também por ambas, Euro e Libertadores, não há um sabor de sobejo na final da Copa do Brasil, hoje à noite? Os calendareiros da CBF bem que precisam rever seus conceitos. Para não nos inflacionar de finais. E que a menos importante delas venha na mesma semana de duas pesos-pesados. E imediatamente depois delas.

Os termos essenciais da oração


veja você a sintaxe. Ela olha para você, de cima abaixo, na portaria do Clube do Predicado, e pede suas credenciais. E, então, você já está no Predicado. Mas agora está no Sujeito. Não é uma contradição dizer: “você está no predicado”, quando na verdade "você" está mesmo é no sujeito? Ah, moça, isso não tem jeito de sincronizar. E não vale botar a culpa na colonização portuguesa, porque em inglês o logro é o mesmo. Derrida deve ter contemplado isso quando lhe ocorreu o conceito de indecibilidade. Essas coisas sem jeito de ajuntar em lógica. De amarrar por lógica. Essas coisas "inamarráveis", e que a gente só entende por intuição. Mas já que você provou dos dois, veja como o Predicado é sonso. E sonso, no entanto, é predicativo do sujeito. O Predicado não é cachorro, senão um gato bigodudo e finório - embora lembre Otto von Bismarck. O Sujeito, de outro modo, parece meio bobão

esqueça os termos essenciais quando for orar. Mesmo o boboca do sujeito é meio velhaco. E você já notou, não é? A turma do terreiro é pissuída. Os sem-terra lutam e continuam. (Quer dizer, alguns continuam transferindo termos de posse com um ágio desgraçado em cima). Os latifundiários ainda mandam matar radialistas. Os pentecostais oram

os católicos apenas rezam

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Solidão das Salas




Passava a caminho do supermercado quando viu as salas. Estavam expostas à tarde num primeiro andar. Contíguas. Ambas escancaradas e especulares. Na coincidência de estarem a ser faxinadas até tardia hora? Voltadas uma para outra. Mas cegas uma para outra. Como se um tapa-olho de pirata vogasse apenas para o lado em que ambas se tocavam.
Ela, no entanto, rebocando uma tristeza milenar, a quem volta-meia emprestava um sopro de vida personal e trainee, para não desaprender o ato da conversa, via o que havia de mais belo ou não em cada uma. E o fio da tarde escorria naquele instante sem persiana.
Até cada qual com seu cada qual ficar para trás, reduzidas a fora de campo. A um vice-versa intransitivo à moralidade. As duas salas, ela, a tarde. As duas primeiras comprimindo entre paredes milhares de dias, risos, flores, fotos. Coalhos de sangue no tapete. Terço de grossas gotas na parede. Beijos. Diferentes intensidades de luz. Um gemido, noite a meio. 
Uma sem ver a outra. Até que um inexorável cataclismo vindo do mar extinga a cidade e centenas de salas e cenas assim. Limiadas por uma parede. Cegas uma para outra. Onde as pessoas encerram seus dias.

Quanto a ela, que viu a ambas – como quando se vê um rasgo de nudez no corpo de quem se quer - prosseguiu, pedindo para a própria pervesa solidão dar um tempo. Para não fazê-la esquecer que precisa comprar sabão líquido e amaciante. Não lhe desviar até inúteis alumbramentos.

E ver se está lá na esquina.

terça-feira, 3 de julho de 2012

As receitas revisitadas: quem prova?


Ad Reinhardt

miolo de pote, caldo de galinha, muito pão e pouco vinho, abobrinha, feijão com arroz, farinha do mesmo saco, angu de caroço, zona do agrião, caranguejo em mês que não tem r, feijão de chegou mais um, bolo de enganar tolo, o que cair na rede, favas contadas

escolha sua receita de hoje. consciente. afirmativo. não como devoção a uma dessas estúpidas baladas pop, que passam o recibo de nosso capricho extremo.

e certa debilidade mental.


(mas, que mal lhe pergunte: quem vive sem elas?)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pregão & pesar




Quando o vendedor de cuscuz paulista passa, os cachorros da rua uivam.

Por que só a eles pasma o grau de pesar que vai no pregão?

domingo, 1 de julho de 2012

Com os bofes no boteco



Mark my words, when a society has to resort to the lavatory for its humour, the writing is on the wall. 
[Alan Bennett]

-Bateu, cara, tenho certeza. Na cabeça do zagueiro antes de entrar.
-Foi direto, macho. Onde já se viu. Cegou? 
000
No intervalo, ninguém dá nada pelos melhores momentos. E o time segue penso para a esquerda.
Mais ou menos como reclinam na direção da mais bela, e lhe entregam as palmas das mãos. Quem achou que havia mais que um brilho no olho? Mas ainda faz cedo. E é de noite que o bicho pega. E o brilho do olho dela prega no olho do gato. Segura o facho. E o farol de milha dos quereres relanceia sobre duna. 
Não há lua.
000
Enquanto fala de outras coisas, sorri. Lê contratos nas palmas das mãos. Leques escancarados por dois lados de mesa. Palmos e palmas. Linhas de vida. Pulsos tatuados. Anel menos falso, lá. Falanges. Cerco. Desvenda até entrelinhas. Confere ressalvas. Revisa alíquotas. E deplora fitinhas do Bonfim. 
Às vezes, enquanto retoca o batom, sublinha algumas cláusulas. E repassa as grifes. Se as há. Mas sábado e mesa não vão dos melhores nesse quesito. 
O áudio da transmissão, mais baixo no intervalo, funde-se agora com o paredão do carro cuspindo forrós ambiente. E mesmo a falar alto há uma clareza ineludível na voz dela - como se sussurrasse assoletrado ao ouvido. A voz, feita a compleição que a emite: espécie de engenho ovíparo, que choca os ovos da atração. E guina-se para sedução com tal naturalidade como a maioria dos répteis botam ovos. Haveria algo de verdadeiramente obsceno ali, haveria?
Sorriem de volta, perfeitamente basbaques. Estufando o peito, contraem bíceps. Soltam usuais gabolices em hálitos de chope, alho, uísque. Daquele tipo que se solta em intervalos de jogos realmente importantes. Além do jogo, falam de carros, receitas, smartphones, rugby, forró, aplicativos e dos viados. E depois de carros de novo. E de novo de futebol - Séries B e C. E de novo dos viados.
Fazem caras fatais e batem as pontas dos muitos cigarros na mesa. Depois acendem. Imitam viados. E se chamam de bicha entre si, com direito a gritinhos, trejeitos e fotos. Depois deslizam os óculos escuros para a testa. E coçam a barba mal feita. E recompõem a voz com um cenho franzido. Um pouco compungidos.
Pode-se ler na testa: os projetos incluem ser dirigente de clube. Depois, vereador. Que é quando se tem mais chance de chegar, quando não se vem de uma família que já chegou. E pensar que a vida da vida gira em torno desse chegar lá. E desse jeito. Como Tétis em torno de Saturno. Algo tem de girar em torno de algo. O alfa e o ômega. Mas agora a questão hormonal deslimita-se das carreiras, do uísque: ah, mulher.
Tudo ou nada. Vão nessa fase. Que o comutador não esqueça. 
-Esse mundo está perdido - diz a garota sentada perto da janela, na mesa do lado. Também isso é o que se espera de uma garota sem sal sentada na mesa do lado, perto da janela, quando abre a matraca. Nada de novo. Não que seja feia. É só insossa. No insosso, a previsibilidade conta em gotas diluviais.
Ela? Desliza ágil com qualquer palavra. Não carece de crase para preposicionar artigos. Sorri. Às vezes fica séria. Quase sempre quando menos se espera. Irresistível nas duas condições. A tarde gira em torno dela.
Agora, se há um parágrafo obscuro, dúbio; pede licença. E já segue no rumo do toalete, deslizando os dedos no visor do iPhone. Um polígrafo em tempos de inocentes tuitagens e fotos com amostras de lanche. 
Os olhos deles balançam juntamente. Como se houvesse amortecedores nas curvas. E as outras, arre, armam muxoxos meio involuntários. Bocas enchem. Mas só há uma para os naipes de tanto desejo. Pedaços seriam arrancados se na ponta do olhar houvesse dentes. Mas ela, seu iPhone logram chegar intactos ao lavabo.
Do outro lado, o consultor jurídico - que recebe parte dos honorários daquela forma inequívoca, em doces prestações – analisa me-ti-cu-lo-sa-men-te onde há melhor liquidez, herança, seguro, debêntures entre os bíceps do boteco:
-Ai, ai – geme, geme ela, a erguer a tampa do sanitário - o mais fofinho não tem onde cair morto. É sempre assim.
E, vivo, o líquido cai no líquido:

-Dá-me paciência, Senhor.