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quarta-feira, 16 de maio de 2012

No Centro de um Império Equivocado: a Centralidade do Inglês, Tradução e Astúcia



Deslocamento e dessincronia. A tradução é o campo em que a linguagem é mais provisória nos domínios da literatura. Na tradução, tudo reflecte desconforto, inadaptação, estranhamento, insatisfação, nostalgia, foras de hora e lugar. Ela é um gênero literário de extrema importância, mas quase nunca é olhada assim.
Na verdade, ela sequer é investigada como gênero. Ou tomada como relevante em estudos especializados, salvo raras excepções. E a tradução pode ser tão transparente que vemos através dela sem nos darmos conta desse através. Ou sem lembrarmos que estamos lendo não apenas Dostoiévski, mas também Paulo Bezerra. Ou não só e.e. cummings, mas Augusto de Campos. Não Homero, mas Odorico Mendes. Algo análogo ocorre com a montagem invisível em filmes clássicos. Assim ela é tomada como um naturalismo que não corresponde ao/ ou estranha o/ grau de artificialidade e convenção necessário à tarefa de produzi-la.
Boa parte da importância da tradução reside em prosseguir a ser um corpo a corpo com a linguagem ainda não exaurido pela diarreia das teorias literárias contemporâneas ou pelo exercício oco da criação, por si, de conceitos, apenas para retroalimentação acadêmica. 
A tradução, enquanto gênero, foi uma dos poucos aposentos na vivenda da literatura a não ser ocupado inteiramente, a escapar de ser colonizado ou parasitado pela teoria acadêmica e, assim, posto a serviço de uma ideia. Ideologizada de algum modo. E ideologizada, a mais das vezes, desviando-se do texto. Ou propondo-o a serviço de algo supostamente “mais estratégico”: seja político, seja ambiental ou comportamental. E, assim, mais urgente, em hipótese. Porém, na verdade, atirando o texto a uma servidão sectária, de algum modo. Pois vivemos num tempo em que os estudos literários são precedentes à literatura. A primazia recai sobre eles, não sobre a letra dos textos. E, no caso, por suas especificidades, a tradução permaneceu uma das poucas formas de literatura imunes a essa hiper-ideologização. [1] E, portanto, apontando para o texto em sua letra mais letra.
É preciso entender que tais causas ou temas - feminismo, opções sexuais, imigrantes, populações em meio pré-industrial, desenvolvimento sustentável, potencialidade dos hipertextos, máquinas de traduzir, acessibilidade ao virtual - são sumamente importantes. E não se deve perdê-los de vista. Mas que nem sempre os melhores textos literários são os que necessariamente os reflectem ou passam por eles. Já que eles são conjunturais. E não há nada que nos assegure que serão prioritários daqui a cinquenta anos. Ou que não se prestem a profundas manipulações e inverdades. Isto é, manipulações e inverdades a serviço de "causas políticas" pontuais e um tanto facciosas ou intransigentes, tal como é possível encontrá-las em algumas aparas dos ditos Estudos Culturais.
A tradução, do contrário, é um derradeiro corpo a corpo com a linguagem, onde se refugiaram aqueles para quem o trato com ela ainda está envolto em certo pudor. Em certas reservas e interditos de se estar tratando com algo às raias do sagrado. Um bom combate. Um embate ao modo de Jacob. E não há forma de humor verdadeira que exclua a dimensão do sagrado. Huizinga, em seu Homo Ludens aponta bastante bem para tal: o atrofiamento da dimensão lúdica na modernidade.
De outro modo, em meio a isso tudo, quando se volta para a arquitetura, a ideia de poder sempre esteve nitidamente vinculada a edifícios grandiosos. Que ameaçam arranhar o céu ou desfazer a linha do horizonte. Daí a tradução - mediante o esfacelamento da língua única em várias línguas - ser apresentada como uma espécie de segunda queda ou segunda expulsão do Éden. Ser proposta como resultado do soerguimento de uma torre, que ameaçava o monopólio das alturas e da sabedoria celestial. É a imagem bíblica e recorrente dessa ambição insatisfeita: a torre. Mas o verdadeiro tradutor também pensa por peças de Lego. Ou muito mais por meio delas que pela opressora totalidade da torre.
O que há de fálico, fáustico e arranha-céu em Babel, há também de saudades da terra, do chão, do ctônico, da água, dos canteiros de flores. Do pisar o chão e ser de manhã. Do mergulhar em fluxo e rio. Do encontrar-se exilado das possibilidade de estrada. E das encruzilhadas e outras ciladas da linguagem. Em particular, daquelas que qualquer imigrante experimenta no exílio. Estar no alto da torre é solitário e insosso.
Mas também tudo mais torna-se provisório ou des-urgente diante dessa instância do exílio. A precariedade vaza por todo lado. Traduzir, então, é esse estar o tempo inteiro consciente dos limites - de nenhum modo apenas metafóricos - dos idiomas. Ou seja, é estar o tempo inteiro indo e vindo através das fronteiras deles. Percebendo não só a suplementaridade dos diversos idiomas, mas, sobretudo, o tanto que essa suplementaridade aponta para uma espécie de idioma ideal, que de nenhum modo pode ser expresso. A não ser imperfeitamente, através dos cacos, dos pedaços de Lego, imperfeitos - e nem sempre amoldáveis entre si - dos idiomas concretos. 
Pelas labilidades, virtudes e falências desses idiomas, quando contrapostos a essa língua total, ideal e perfeita - que só pode ser mobilizada nas junções e articulações das línguas particulares - segue o tradutor. É preciso importar e exportar bastante de um para outro idioma, no plano do sentido e no da forma, para consolidar uma tradução estimável.
O contrabando não é pequeno. Pela astúcia, faz lembrar o de uma contrabandista idosa, em certa crônica de Stanislaw Ponte Preta. A obstinada velhinha cruza diariamente, ida e volta, várias vezes, a fronteira do Rio Grande com o Uruguai, montada numa lambreta com um saco à garupa. Não há nada no saco, a não ser areia, que o guarda aduaneiro já mandou para análise mais de uma vez. É terra mesmo, com esterco, minhocas e tudo de direito. Mas então, pergunta ele: o que contrabandeia?
Fácil, numa segunda leitura, perceber que ela contrabandeia lambretas. E o fato de a velhinha importar e exportar o próprio veículo em que se movimenta nos remete para esses veículos supremos, sem fim, que são os idiomas. 
Mas também para outras questões à beira do tráfego do traduzir. Ou seja, à beira da auto-insuficiência. Ou ainda seja, para o malogro e aparente modéstia exemplar dessa tarefa, se ela não consistisse também numa das mais ambiciosas: levar e trazer, re-levar e re-trazer, os grandes textos de um para outro idioma, e não especificamente apenas em função daqueles que não podem lê-los em fluência no idioma em que foram escritos inicialmente. Mas, sobretudo, pela importância intrínseca desses textos. Daí que o número de versões traduzidas seja proporcional à relevância do texto. Ao modo como o texto, por si, clama para ser posto em outras línguas, porque está prenhe de sentidos e belezas. 
Por que uma canção como "Águas de Março" ainda precisaria ser gravada após a versão de Elis e Jobim? Não está tudo lá? E, contudo, a canção é tão misteriosamente plena, que necessário ressoar sua beleza sob outros prismas e concepções de arranjo, atmosfera, timbre, instrumentação. E pois então, qual a necessidade de se traduzir de novo um texto que já se encontra traduzido, a não ser pela sensação de que a tradução deixou algo de fora, ou não ressonou determinados aspectos da forma ou do fundo? Ou segue muito veloz? Ou por demais lenta? Ou não refrata as mudanças de andamento, apresentando-se em insossa uniformidade? E isso se dá porque o resultado final, flagrante da tradução é visivelmente, em sua imediatez, o retrato do provisório e da incompletude. Ou ainda, deve-se recordar da insatisfação gerada pelos resultados imediatos dessa tarefa: quando todos dirigem sua atenção para um detalhe mais lustroso, e a proeza do tradutor propôs outro, muito mais árduo e sutil – mas, diacho, esse outro passa despercebido.
*
Entre muitas outras coisas, Susan Sontag, a ensaísta norte-americana, também foi tradutora. Mais que isso, ela leu bastante, vorazmente em traduções. (E o que é o tradutor, senão um leitor elevado à máxima potência?) E leu abrindo-se a novos autores, que se encontravam bem ao largo de um cânone sedimentado, onde, aliás, Sontag tinha tudo para ter ficado, numa zona de conforto. Pois o aconchego não era dos menores, e o ar refrigerado amenizava os rigores do verão, assim como a calefação central, os do inverno. Em torno todos falavam inglês: a vida já nascera mais ganha que outras, digamos assim. E, no entanto, ela resolveu seguir para outras latitudes. E até demorou-se, com inusual vagar, nos trópicos. Ela, que nasceu e esteve bem ao centro mesmo desse cânone, e, astuciosamente, percebeu o logro dessa centralidade.
Essas leituras de Sontag pela “periferia” do Ocidente, esses seus passeios pelo “lixo Ocidental” - na expressão pop e precisa que Fernando Brant cunhou em anterioridade e na outra face mesma da moeda - a fizeram amar autores que só muito superficialmente são conhecidos no todo-poderoso universo de língua inglesa. Sontag deleitou-se com a leitura de ensaístas, ficcionistas e poetas do Leste Europeu, ainda pouco conhecidos ou divulgados à época em que escreveu sobre eles. E eles parecem conformar a sua última paixão - ela morreu em 2004.
Mora aqui um paradoxo. Nos seus últimos anos, Sontag propunha um estranho diagrama da Europa enquanto ideia. A de que os países “periféricos” no Velho Continente – os mais pobres, os recém-saídos de ferrenhas ditaduras stalinizantes, alargadas por décadas de estúpida satelização em torno da União Soviética - pareciam, contraditoriamente, mais vivos, decentes, únicos e mesmo diversos, culturalmente falando, que os da propalada União Europeia. 
Estes tinham um quê de novos-ricos, de América má re-transplantada ou regurgitada à Europa. Deleitavam-se em consumir, entregar-se à bandeja dos novos triques e brinquedinhos tecnológicos. Ao mar de consumo: régias consultorias, preguiçosos bem-estares, e aposentadorias que ainda não eram quando Buñuel filmou Las Urdes, na Extremadura espanhola, com europeus morrendo como piolhos de fome e malária, e sequer com um tostão furado para migrar para Luxemburgo, França, Alemanha, Brasil, Canadá ou Austrália. Nesses mesmos tempos, adolescentes transmontanos eram fotografados no estuário do Tejo, sob roupas rotas e semblantes descarnados - embora cheios de esperança - a aguardar a saída do vapor para o Rio ou Durban.
Sontag também manteve um vivo caso de amor com a língua portuguesa, sobretudo via Machado de Assis, a quem ela dedicou um texto, ao final do anos de 1980, e a quem fez questão de nomear em um ensaio tardio e um tanto subestimado: “O Mundo Enquanto Índia – A Conferência São Jerônimo Sobre Tradução Literária” [presente na coletânea publicada três anos após sua morte (Ao Mesmo Tempo: Ensaios e Discursos, p. 167, 2007 - na edição brasileira, Companhia das Letras)].
Nesse sumário de posições sobre a tradução, ou mais especificamente sobre a tradução literária – o que chamamos de “os importados que importam” - Sontag alerta para o que há de nefasto na excessiva centralidade do inglês enquanto idioma da modernidade. Quer dizer, aponta para o que há de injusto no peso desigual das línguas, ainda esteado em pesados preconceitos (aqui, sim, justificáveis serem mencionados como preconceitos, ao contrário de muita coisa no político e no escorreito), que reduzem o cânone e impedem novos alargamentos de fronteiras. E, por que não, da própria inclusão dessas culturas um tanto estigmatizadas, superficializadas, aclichezadas, puerilizadas na categoria de humanidade. Na humanidade densa, para lá de Ocidental.
As preocupações de Sontag são relevantes. O diagrama que traça da modernidade segue esteado em autores imprescindíveis, como Nietzsche, Benjamin, Bazin, Barthes, Ciorán... Mas, como já ressalvado, passando também por escritores do Leste Europeu, obscuros ou relativamente pouco conhecidos. Ou mesmo por ocidentais que não chegaram a um público mais amplo, caso do alemão W. G. Sebald. E, no entanto, tão essenciais quanto os mais famosos. Ou por Machado de Assis, que – para o azar mais deles que nosso - poucos conhecem em Paris.
Ela parece divisar com nitidez um ponto de vista: onde o Ocidente enxergar possibilidades de poder - mínimas que sejam - essa possibilidade será captada e potencializada, de modo a extrair da situação em crivo uma espécie de “vantagem ética”. Coringa a ser mantido na manga e em estratégia. Argumento em proveito próprio. Falácia. E, nítido, é a partir dessa espécie de mais-valia, desse excedente de “ética”, que relatos como os de V. S. Naipaul ou Marjane Satrapi - que não são mencionados por Sontag, mas bem poderiam - prestam-se tanto a serem laureados - sagrados que foram como prepostos da herança do Ocidente em terras outras - pois também calam, miseravelmente, sobre a outra metade da empresa: o grau de barbárie exercido pelo Ocidente para operacionalizar essas outra formas de civilização. 
Quer dizer, autores como Naipaul ou Satrapi são muito eficientes quanto a denunciar a pasmaceira terceiro-mundista - corrupta, ineficiente, retrógrada, autoritária - que grassa nos países ditos “periféricos”. Ou os maus tratos desses países aos recursos naturais, um tanto como se a história nos países ditos “centrais” fosse de todo diferente. Ou ainda o aparente barbarismo que reveste certos hábitos e costumes, mais próximos de uma visada menos laica, ocidentalizante. 
E, no entanto, pontos de vista consagrados como os de Naipaul ou Satrapi, conveniente e rapidamente absorvidos e premiados, são simultaneamente incapazes de vislumbrar que é exatamente esse estado de coisas - esse status quo que os premia - o que sustenta e, em larga medida, legitima o consumismo cínico, deslavado, refrigerado, aquecido e aparentemente auto-suficiente e colarinho-branco dos países ditos pós-industriais. Lá, onde, não é de hoje, o outsoursing empurra aos imigrantes o trabalho de facto. E o trabalho sujo, o de suar e deformar-se, é, por seu turno, cada vez mais transferido para a periferia do mundo, junto com as fábricas e as fazendas. 
Tarefas de se encher de hérnias e acidentes de trabalho na execução das mesmas. A de executar repetições aviltantes à beira da linha de produção, do fone de telemarketing, ou da apuração da informação na internet. O trabalho, enfim, que embrutece. Que lembra o instrumento de tortura que está na raiz latina da palavra. 
Enquanto isso um adolescente em Nova York consome mais os recursos não renováveis do planeta durante um ano que uma família de sete pessoas em Bangladesh durante cinco. E, no entanto, é o adolescente novaiorquino quem está vinculado a uma organização contra o desmatamento da floresta tropical na Indonésia. Ou se indigna e protesta contra isso. 
Será que algo está errado?
A análise de Sontag a respeito de como jovens indianos são educados em call-centers para agirem, portarem-se e até possuírem tiques, emitirem gracejos e dados biográficos de norte-americanos, é impagável. Uma análise muito pouco condescendente, complacente, concessiva, como usam ser investigações do gênero. Ou ainda, muito longe da unilateralidade confortável das soluções de Naipaul ou Satrapi. Nestas, todos os valores “legítimos” e estimáveis são ocidentais. E os “maus” encontram guarida fora deles.
Outrossim, é aqui que Sontag clama para um aspecto pouco evidente: a vontade que todos temos de sermos – o quanto mais possível – de língua inglesa. De uma ou de outra forma. Ou da forma mais disponível. Como no caso desses jovens indianos desdobrando-se em horas extraordinárias nos call-centers e fazendo-se passar por norte-americanos. E não apenas por contexto de trabalho. 
No íntimo, desejando ardentemente um visto de residência e uma vida sob as benesses do idioma inglês, longe de seus cotidianos na Índia. Ou uma biografia menos ficcionada do que as que lhes foram repassadas pelas firmas contratantes, para amenizar, maquiar a terceirização desse trabalho sub-pago desde matrizes no dito Primeiro Mundo. E, então, fazer de conta que os consumidores norte-americanos são, ao fim de tudo, atendidos ao telefone por norte-americanos e não por jovens indianos sub-pagos e treinados às pressas em Mumbai ou Calcutá. E, ainda aqui, o que aguça nos indianos é o real desejo de se converterem em...americanos. Quer dizer, a possibilidade de passar, via língua inglesa, de Bollywood a Hollywood.
De fato, muito pouco restou enquanto pro-jecto a um europeu num país qualquer da União Europeia [à excepção talvez da Alemanha, onde o pro-jecto nitidamente rima com dominação], além de dizer: “pelo menos eu não nasci na Índia”. Atualmente, ser europeu e receber essa chancela, esse prêmio de consolação, já parece ser alguma coisa, junto com haver passado pouco mais de meio-século sem deflagrar guerras de escala continental ou mundial. Por enquanto esse tem sido, aliás, o grande feito da União Europeia enquanto projecto. Vamos até onde vai dar a atual crise com seus componentes crônicos, e é tratar do imponderável.
E há o futuro, sem o qual ninguém vive. E todo ser humano precisa de algum senso de grandeza. E de sentir-se parte da construção dessa grandeza. Uma das poucas casas que um homem tem é a sua geração: o sentir-se um pouco mais ao abrigo entre aqueles que passaram por experiências e eventos mais ou menos comuns. E, se o mundo tem globalizado esses eventos, é de se supor que certo senso de experiências comuns também se tenha internacionalizado. E uma referência a elas pode suscitar empatias e impulsos de companhia.
Ora, o paradoxo, aqui, é que cada vez mais indianos adentram nas classes-médias e perigam, no correr dos anos, levar padrões de vida similares aos europeus em termos de conforto material. E com isso, junto com os chineses e outros emergentes, levar a um paroxismo a exploração dos recursos naturais do planeta. E, convenhamos, eles têm todo o direito de aspirarem um padrão de vida confortável. Quem não o tem?
Muitos – mas ainda uma flagrante minoria -  já vão além: vivem igual ou melhor que a média dos europeus. Mas estes são uma elite de empreendedores, líderes do processo: políticos, empresários de grupos transnacionais, funcionários comissionados, especuladores da bolsa, profissionais liberais bem sucedidos, et alli. Em geral, não são nem mais, nem menos corruptos que seus pares ocidentais. Mas são fortemente taxados como tais. E assim postos na mídia. O homem mais rico do Reino Unido nos diascorrentes é, por sinal, um bilionário indiano. Talvez se comparado à lisura de um Berlusconi ambos não saiam exatamente limpos da revista. E, no entanto, o Ocidente no momento de criticar os desmandos políticos e a corrupção no dito terceiro-mundo, bem que esquece de seus Berlusconis ou de seus banqueiros de Wall Street.
Então, a partir de Sontag, pode-se propor algumas outras questões. E quem sabe a violenta alteridade cultural presente nas instigantes narrativas de V. S. Naipaul deva ser observada como apenas uma das faces da moeda. E que ao calar sobre a hedionda outra face, sobre a coroa dos imperialismos, que trouxe até Trinidad, nas costas da América do Sul, um punhado de indianos para operar melhor, sob gerência britânica, as plantações de cana-de-açúcar, movidas por braços africanos, talvez Naipaul nos indique à imaginação o suplementar as lacunas desses horrores.
Aliás, o trecho em que Sontag menciona Machado de Assis, em “O Mundo Enquanto Índia”, bastante esclarecedor, nos dá mostras da perspicácia, da astúcia de alguém que reconhece-se no especioso centro de um império equivocado:

But, as many have observed, globalization is a process that brings quite uneven benefits to the various peoples that make up the human population, and the globalization of English has not altered the history of prejudices about national identities, one result of which is that some languages – and the literature produced in them – have always been considered more important than others. An example. Surely Machado de Assis’s The Posthumous Memories of Brás Cubas and Dom Casmurro and Aluísio Azevedo’s The Slum, three of the best novels written anywhere in the last part of the nineteenth century, would be as famous as a late-nineteenth-century literary masterpiece can be now had they been written not in Portuguese by Brazilians but in German or French or Russian. Or English. (It is not a question of big versus small languages. Brazil hardly lacks for inhabitants, and Portuguese is the sixth most widely spoken language in the world.) I hasten to add that these wonderful books are translated, excellently, into English. The problem is that they don’t get mentioned. It has not – at least not yet – been deemed necessary for someone cultivated, someone looking for the ecstasy that only fiction can bring, to read them.

[Porém, como muitos observaram, a globalização é um processo que traz resultados um tanto desiguais para os vários povos que compõem a população humana, e a globalização do inglês não alterou a história dos preconceitos sobre identidades nacionais, cujo corolário é o de que algumas línguas – e a literatura produzida nelas – têm sempre sido consideradas mais importantes que outras. Um exemplo. Está claro que Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis, assim como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três dos melhores romances escritos ao final do sec. XIX, deveriam ser tão famosos quanto qualquer obra-prima desse tempo, não houvessem sido escritos em português por brasileiros, mas em alemão, francês ou russo. Ou inglês. (Aqui, não é uma questão de línguas grandes contra pequenas. O Brasil não tem poucos habitantes, e o português é o sexto idioma mais falado no mundo). Apresso-me a acrescentar que essas obras estão traduzidas, esplendidamente, em inglês. O problema é que elas não são mencionadas. Que elas não foram propostas – pelo menos até o momento – como necessárias para alguém cultivado, alguém em busca do êxtase que só a boa ficção pode ofertar.]

Susan Sontag teve a lucidez e a coragem de nos indicar que quem não domina o inglês em nosso tempo é não só uma sorte de analfabeto, mas também de excluído do mundo digital. E, por outro lado, quem só o domina (ou apenas se obceca por esse domínio) é, possivelmente, um analfabeto ainda mais rematado.

__________________
[1] Entenda-se, aqui, a tradução enquanto tarefa, enquanto prática. O resultado do ato de traduzir. O que lemos, quando tomamos o texto de uma autor escrito inicialmente em outro idioma. Pois é até inferível que o tremendo grau de ideologização movido por uma necessidade de teleologizar tudo em volta como justificação de um sistema de pensamento que não se mantém de pé por mais de uma década, teria que deixar suas marcas também na teoria da tradução como a boca do bebê nos mamilos da mãe.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

é provável que goste do arrepio: cummmings

 Harry Holland, Lovers, 1982




'i like my body when it is with your'

i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh… And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you so quite new


e.e. cummings



'gosto de meu corpo quando está junto'

gosto de meu corpo quando está junto
do seu. É mesmo uma tal novidade.
Muscula melhor, há mais nervos.
gosto do seu corpo. do que ele faz,
dos seus modos. gosto de sentir a coluna
de seu corpo e os ossos, e a trêmula
firme-maciez a qual beijarei
de novo, de novo e de
novo. gosto de beijar isso, aquilo em você
gosto, pulsando lento, de sentir o batimento
da sua pele elétrica, o que quer que venha
da carne bifurcada... E olhos, grandes farelos de amor,


é provável que goste do arrepio

de que sob mim você siga tão cio


* * *

segunda-feira, 8 de março de 2010

Macios mais sejam que suaves sonos: cummings











Juan Miró, The Hunter, 1923




'All in green went my love riding'

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the merry deer ran before.

Fleeter be they than dappled dreams
the swift sweet deer
the red rare deer.

Four red roebuck at a white water
the cruel bugle sang before.

Horn at hip went my love riding
riding the echo down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the level meadows ran before.

Softer be they than slippered sleep
the lean lithe deer
the fleet flown deer.

Four fleet does at a gold valley
the famished arrow sang before.

Bow at belt went my love riding
riding the mountain down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the sheer peaks ran before.

Paler be they than daunting death
the sleek slim deer
the tall tense deer.

Four tall stags at a green mountain
the lucky hunter sang before.

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
my heart fell dead before.


e.e. cummings


'Toda de verde meu amor seguia'

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os altos picos adiante seguiam.

Céleres sejam mais que nesgas de sonhos
o liso suave cervo
o rubro raro cervo.

Quatro cabritos baios na alva água
a cruenta corneta soava adiante.

Trompas em riste meu amor seguia
galopava ao fundo do eco
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam.

Macios mais sejam que suaves sonos
o esguio esperto cervo
o célere soberbo cervo

Quatro corriam ao longo de um vale dourado
as esfaimadas flechas adiante silvavam.

Arcos retesos se meu amor galopava
descendo a vertente
no veio da manhã

quatro esguios galgos rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam

Mais lívidos sejam que a pavorosa morte
o leve lustroso cervo
o alto ansioso cervo

Para quatro gamos numa colina verde
a rápida caçadora silvava adiante

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
antes meu coração caiu fulminado 


*   *   *


                               

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nem mesmo a chuva: cummings


Lyonel Feininger, Rain, 1952



'somewhere i have never traveled'


somewhere i have never traveled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near


your slightest look easily will unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose


or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully, suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;


nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the colour of its countries,

rendering death and forever with each breathing


(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands


e.e.cummings




'num espaço onde nunca estive'


num espaço onde nunca estive, vivamente além

de qualquer experiência, teus olhos retêm silêncio:

em teu mais frágil gesto há coisas que me cercam,

ou que não posso tocar de tão rentes


teu mais leve olhar logo irá romper-me

mesmo que eu me tenha fechado feito dedos,

sempre me abres pétala a pétala, como a primavera

abre (tocando destra, misteriosamente) a primeira rosa


ou se teu desejo é fechar-me, eu e

minha vida vedaremos muito bela, bruscamente,

como quando o coração dessa flor pressente

a neve descendo, cautelosa, por toda parte


nada que se possa revelar neste mundo vale

a força de tua intensa fragilidade: cuja textura

compele-me com a cor de seus campos,

vertendo morte e para sempre a cada sopro


(como nada, coisa alguma sei de ti quando dosas

fechar e abrir; apenas algo em mim engrena

a voz de teu olhar é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


* * *


domingo, 16 de agosto de 2009

veio me dizer assim: cummings


Herbert Bayer, Birthday Picture I, 1970



'your birthday comes to tell me this'



your birthday comes to tell me this


—each luckiest of lucky days
i’ve loved,shall love,do love you,was


and will be and my birthday is



e.e. cummings




'seu aniversário veio me dizer assim'



seu aniversário veio me dizer assim


—a cada novo dia de sorte em que
tenho amado,devo amar,te amo,foi


é e será meu aniversário,sim




* * *

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A velha conversa anti-cartesiana entre rosa e cravo: cummings


Alberto Giacometti, O Casal, 1929


may i touch

may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
it is love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh nn said he
go slow said she

(cccome? said he
ummm said she
you're divine!said he
(you are Mine said she

e.e. cummings


vou pegar

vou pegar, disse ele
em que lugar, disse ela
num milhão, disse ele)
por que não, disse ela

vamos lá, disse ele
devagar, disse ela
o que é devagar, disse ele
onde você está, disse ela)

estou a fim, disse ele
(como assim, disse ela
vai encarar, disse ele
se beijar, disse ela

dá pra pôr, disse ele
então é amor, disse ela)
se ‘cê acata, disse ele
(mas ‘cê me mata, disse ela

a vida quer , disse ele
mas, e sua mulher, disse ela
ah, vai, disse ele)
ai, ai disse ela

(tão, tão, disse ele
pára não, disse ela
ai, ui, disse ele)
diminui, disse ela

gozou, disse ele
ou, oooou, disse ela
você é o céu, disse ele
(você é meu, disse ela)

domingo, 8 de abril de 2007

gritos e sussurros do homem que grafava o próprio nome em caixas baixas:CUMMINGS


Pablo Picasso, 1912




[Picasso]

Picasso
you give us Things
which
bulge:grunting lungs pumped full of sharp thick mind

you make us shrill
presents always
shut in the sumptuous screech of
simplicity

(out of the
black unbunged
Something gushes vaguely a squeak of planes
or

between squeals of
Nothing grabbed with circular shrieking tightness
solid screams whisper.)
Lumberman of The Distinct

your brain's
axe only chops hugest inherent
Trees of Ego,from
whose living and biggest

bodies lopped
of every
prettiness

you hew form truly

e.e. cummings


[Picasso]

Picasso
tu nos deste Coisas
que
avultam:arfantes pulmões plenos de tiples mentes espessas

nos fizeste agudos
presentes sempre
presos nos suntuosos guinchos da
simplicidade

(do
preto dessarolhado
Algo jorra vagamente um ranger de aviões
ou

entre uivos de
Nada agarrados com circulares pressões estrídulas
sólidos estrépitos sussurram.]
Lenhador do Distinto

o machado
de tua mente só decepa vastas inerentes
Árvores de Ego,de cujos

corpos podados
de toda
formosura

desbastas a forma mesma

domingo, 1 de abril de 2007

Ezra uma vez -- um folhetim de poesia


Se a poesia tiver um rosto, há de ter alguns traços deste:
Ezra e seu notável olhar de águia. Em trinta anos, uma solu-
ção de síntese para o Ocidente, e a redescoberta do Oriente.

Foto: © http://www.lit.kobe-u.ac.jp/~hishika/pound.htm


Bem, a insistência mais recorrente dos leitores de Afetivagem tem sido por uma maior contextualização dos poetas aqui traduzidos. Isto me tem sido cobrado em alguns e-mails. Pois muito bem, vamos a ela. Mas em doses homeopáticas:




Poesia Norte-Americana no Séc. XX, um folhetim:

Cap. I

De Era Preciso Educar-se na Europa à Ditadura Eliot -- ou Make It Knew In Rapallo




Era uma vez e Ezra Pound foi para a Europa, porque achava que não havia espaço – e tradição – para escrever poesia nas Américas. Ele ainda não havia feito as pazes com Walt Whitman. No íntimo, sentia certo ciúme do fato de Whitman e não ele, Pound, ter de fato sido o "inaugurador" da poesia nos Estados Unidos. Ou o "inventor", para usar um termo mais caro ao vocabulário do autor de The Cantos. Além disso, ele também entendia que Whtiman era um tanto descuidado quanto à forma. E tinha tomado umas liberdades com o verso que iriam causar mais mal do que bem às gerações subseqüentes. Ou seja, Pound não gostava mesmo da poesia de Whitman, apesar de, num belo poema, ter feito "as pazes" com ele [I make a pact with you, Walt Whitman/ I have detest you long enough/ I come to you as a grown child" – rosnava]. Ponham qualquer destes versos no Google e leiam o resto. O poema é lindo, garanto. Mesmo que seja só retórica, em boa parte. O título é "A Pact" ["Um Pacto"]. Bom, T. S. Eliot seguiu depois de Pound para a Europa, pois também achava os Estados Unidos um país ainda “meio selvagem”. Ambos – Eliot em menor grau, porque foi logo para Londres – encontraram em Paris com um grupo de americanos que já lá estava. Tinham chegado antes deles. Era barato, para um norte-americano, viver em Paris (ou na Europa) no entre-guerras. O grupo se reunia na casa de Gertrud Stein, na livraria Shakespeare and Co. – da também norte-americana Sylvia Beach – e, sobretudo, nos cafés. Uma boa crônica desse período pode ser lida em Paris é uma festa móvel [Paris is a moveable feast], de Ernest Hemingway. Que é, na verdade uma espécie de refração, de duplo, do romance mais notável de Hemingway: O sol também se levanta [The sun also rises], de 1926. Bem esse grupo de americanos expatriados fez contato com praticamente tudo de interessante que Paris tinha a oferecer à época. Isso incluía um cerrado diálogo com quem andava experimentando com artes plásticas, cinema, e, naturalmente todas as vanguardas literárias européias – dadaístas incluídos no pacote. Também com escritores de seu idioma, como o irlandês James Joyce e o inglês Ford Madox Ford, entre outros. Enquanto isso, William Carlos Williams e Wallace Stevens ficaram nos Estados Unidos. E Pound e Williams começaram a, epistolarmente, definir uma zona de convergência e afinidades comuns. Ainda voltaremos a esse aspecto. Por ora, é apenas parcialmente verdadeiro dizer que Williams "ficou" nos Estados Unidos, porque morou meio ano na Alemanha, cumprindo sua residência médica. Então, ao menos, estamos falando dos quatro grandes poetas modernistas norte-americanos: Pound, Eliot, Williams e Stevens. E também de uma tremenda e irrequieta escritora experimental: Gertrud Stein. Dos cinco, de imediato, quem foi mais bem aceito – por público e crítica – foi Eliot. E ele – que vinha de uma família muito tradicional – sentiu-se tão em casa em Londres que até se naturalizou inglês. Mas, antes disso, publicou, em 1922, "The Waste Land" ("A Terra Devastada"). 1922 foi um ano pródigo, pois também viu surgir Ulysses, de James Joyce. E, aqui no Brasil, houve a Semana. E para os de língua hispânica, o peruano César Vallejo e seu Trilce. É, a década de vinte foi mesmo uma espécie de anos 60 da primeira metade do século, né? No caso de Eliot, "Terra Devastada" trata-se de uma elegia sobre os descaminhos da I Guerra Mundial e outras ruínas Ocidentais. Quer dizer, européias. Há muita controvérsia cercando o poema. Mas a versão mais aceita é a de que ele foi "cortado" e "editado" por Pound, que o reduziu à metade do que Eliot originalmente havia escrito e lhe enviado. Ora isso depois causou até um grande mal entendido à poesia. Sobretudo quando baixava num poeta qualquer o espírito de Pound e este danava-se a revisar -- sempre cortando -- os versos de seus pares. Tornou-se, assim uma sorte de esporte ou passatempo. Um tanto sádico, é verdade. Mas o fato é que Eliot saiu muito bem na foto após os cortes de Pound e da publicação desse poema de tons trágicos e grandiosos. E, logo, durante um bom tempo, o que entendemos por poesia norte-americana consistia em ser Eliot ou imitá-lo. Seu parecer era dogma. É dele que vem a corrente mais "hegemônica" da poesia norte-americana, pelo menos até as décadas de 50 e 60. Mas com discípulos até hoje, como os poetas Mark Strand e Jorie Graham, ou o crítico Harold Bloom. Isso, apesar de os outros três – Pound, Williams e Stevens – continuarem produzindo e muito bem obrigado, poesia de altíssma voltagem. A moeda corrente da poesia eliotiana era o iâmbico (ou jâmbico) pentâmetro, um verso de cinco pés, cultivado já na Grécia antiga, e que converteu-se na medida mais nobre e recorrente da poesia em língua inglesa muito antes de Eliot sequer sonhar em, digamos, reciclá-la. Eliot adorava os poetas metafísicos ingleses do sec. XVII, como Andrew Marvell e George Herbert. E censurava em Shakespeare, entre outras, a criação de um "personagem sem saída", imponderável. Eliot falava de ninguém mais, ninguém menos, que... Hamlet. Ora, criticar assim Shakespeare tão desabusadamente em sua própria terra era preciso uma moral danada. E Eliot, de fato, estava com a corda toda. Seus ensaios obtiveram ampla ressonância. Em "Tradition and the individual talent", ele, por exemplo lima qualquer possibilidade de poesia que não se coadune com um rigoroso conhecimento da tradição em que ela é feita. E, entre outras, ele decretou que "não existe verso livre". O ganha-pão de Eliot também ajudou-o de lambuja, pois, ao ver seu prestígio consolidado, tornou-se figura de proa da importante casa editoral londrina Faber & Faber -- ainda hoje uma editora de projeção mundial. Mas nem tudo foi rosas para Eliot. Ele, logo que chegou a Londres sofreu uma estafa, de tanto trabalhar em um banco e tentar cavar espaço para suas leituras e escritas. E, mais uma vez, encontramos, aqui, o dedo ubíquo de quem? De Pound, naturalmente, meu caro Watson. Este conseguiu, com algumas respeitáveis matronas vitorianas, que Eliot fosse posto em trabalho mais ameno, em certa editora de grande prestígio. Nesse ínterim, Pound havia se mudado para a Itália. Notem que o temperamento de Pound flertava mais com o romance. O quê? Isto quer dizer, com as línguas românicas. Pound, é, por afinidade, muito menos "nórdico", do norte da Europa, do que Eliot. Daí o interesse de Pound pelos trovadores [troubadours] provençais [ou seja, do sul da França, da Occitânia ou Provença, berço da primeira língua culta composta pelas ruínas do latim amalgamadas a falares regionais europeus], por Guido Cavalcanti, Dante, Petrarca e até por Camões – a quem dedicou um belo e precioso ensaio. E, então, nada como a Itália, berço da segunda língua moderna a produzir literatura (depois dos amados provençais de Pound)[clique aqui para ler 'Provincia Deserta', um poema-homenagem de Pound aos Provençais], bem como epicentro da Renascença, para se morar. E lá se foi Pound, o homem do “make-it-knew”, morar em um velho castelo na comuna medieval de Rapallo, perto de Gênova, e fundada no sec. VIII, a. C. "Make it new in Rapallo", deveria ser o lema de Pound. Ao menos o lema completo. Não devemos esquecer que o autor de Hugh Selwyn Mauberley (1920) foi também um fino tradutor. E, até um pouco mais que isto. Pound praticamente reinvontou a tradição de poesia Chinesa e Japonesa para o Ocidente. Seu livro Chatay, 1915, com essas traduções do Oriente Extremo é uma obra prima. E, neste processo, Pound foi bastante auxiliado por uma nova forma de encarar a estrutura dos ideogramas orientais desenvolvida pelo sinólogo [especialista em China] norte-americano Ernest Fenollosa. Mas Pound também traduziu muitos poetas medievais europeus, tais como o toscano Guido Cavalcanti; os provençais Arnaut Daniel, Bertrand de Born, Bernard de Ventadorn, e até São Francisco de Assis. Entre os modernos, privilegiou mais os franceses simbolistas, como Rimbaud e Laforgue, além de poetas italianos, como Leopardi, entre tantos outros. Seu conhecimento de causa era mais do que enciclopédico. Ele literalmente respirava poesia. E foi, por igual, um grande incentivador de novos talentos. E um homem generoso, a seu modo, com os demais. Já velho, entrevistado, por Augusto de Campos, fez questão de indicar e. e. cummings --- um poeta que tinha muito pouco a ver com ele mesmo, e, de resto, seguia um itinerário um tanto à margem de qualquer grupo, por seu temperamento anarquista --- como uma sorte de sucessor na condição de decano [poeta mais velho, mais venerável] da poesia norte-americana, depois que ele, Pound, se fosse. Outro mencionado por ele, Robert Lowell, talvez devesse bem mais a Eliot. Mas, bem, bem, viajamos um pouco. Então, retornando algumas décadas, lembremos, que Pound caiu em desgraça – inclusive política – por ter apoiado Mussolini durante a II Guerra. E pagou por isto como poucos: passou vários anos preso num sanatório nos próprios Estados Unidos. Quando se pensa que Leni Riefenstahl, a talentosa cineasta a serviço da propaganda nazista, escapou incólume... O manicômio-judiciário foi, aliás, a fórmula que os amigos encontraram para que o poeta não fosse posto em uma prisão comum. Muitos protestaram. Entre eles, o que é comovente, o próprio Hemingway, que esposava idéias políticas diametralmente opostas às do venerável bardo. Disse o autor de O Velho e o Mar: "Ezra é um grande poeta e o digo com orgulho. Deixemos de perseguir os nossos poetas. Mudemos a visão americana segundo a qual um homem deve ser punido sempre que se recuse a se amoldar às massas. Pound errou. Se aplicássemos os mesmos critérios para a Idade Média, Dante havia de ter passado toda a sua vida num hospício por seus erros de julgamento e orgulho". Carlos Williams, o mais rejeitado dos três (Pound, Stevens, ele próprio), sequer conseguiu que a maioria dos críticos da época entendessem que o que ele estava fazendo era, de fato, poesia. Possivelmente, Williams foi também quem mais expressou certo desassossego em relação a desproporcionada notoriedade concentrada na figura de Eliot. Afinal, um de seus livros seminais -- o belo Spring and All [Primavera e Tudo] -- fora lançado no opulento ano de 1922 e, àquela altura, completamente ofuscado pelo sucesso estrepitoso de "The Waste Land". O mundo dá voltas. Hoje, seguramente, Williams é ao menso tão lido quanto Eliot. E a tendência é a de que o será mais, no futuro. E, no entanto, à época, esse desconforto de Williams em relação a Eliot não deve, naturalmente, ser entendido apenas como rixa pessoal, mas, guardadas as proporções, num sentido, algo, análogo à desconfiança de Pound em relação a Whitman. No caso, o que Williams entendia, a seu modo, era que a sombra de Eliot, tão europeizada, retardaria o desenvolvimento do que ele próprio chamou de "a expressão americana". Além disso, Dr. Williams era médico, em Paterson, New Jersey, e um obstetra bem requisitado. Há um livro de contos de Williams a respeito de suas experiências como médico: The Doctor Stories [Os contos do Doutor]. E, enfim, há Stevens que, por temperamento, preferiu desvincular-se da "vida literária". Passou a levar uma vida dupla ainda mais radical que a de Williams: executivo de uma grande empresa de seguros durante o dia e poeta à noite e nos feriados. É claro, não lhe sobrava muito tempo para travar contatos, ir a lançamentos, leituras ou elastecer correspondência. Mas não se tome isso ao grau zero. Marianne Moore conta, encantada, de haver presenciado leituras de Williams e Stevens. E gaba muito a civilidade e, em especial, o charme e o senso de humor do último - o que vem de encontro ao perfil mais sisudo traçado pela maioria dos biógrafos e críticos. E é também óbvio que não havia só eles. À época, os poetas mais lidos, nos Estados Unidos eram, além de Eliot, figuras que estavam bem à margem de tudo isso: Robert Frost e Carl Sandburg, por exemplo. Estes, no entanto, não foram grandes inovadores no que diz respeito à forma, embora fossem extremamente populares. Sandburg abraçou a causa do operariado do Meio-Oeste, cujo epicentro era Chicago – a meca da indústria norte-americana de então. Tratava-se de arte engajada. E Frost estava muito ligado aos valores ianques da Nova Inglaterra: o "self-made-man", o “do it yourself”, a vigorosa auto-confiança, independência e federalismo de um Henry David Thoreau. Ou à filosofia de Ralph Waldo Emerson. Ou como diz o slogan da Nike: "Just do it" -- e cuja continuação poderia ser "doa em quem doer". A Nova Inglaterra é composta pelos estados a nordeste do país: os mais antigos, mais tradicionais, mais europeizados, mais afluentes, e onde se concentravam as renomadas universidades, como Harvard e Yale. A Nova Inglaterra[Connecticut, Maine, Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e Vermont] foi, de resto, a grande vencedora da Guerra Civil e o berço da mentalidade ianque. E de um certo puritanismo quaker legado a empresários de sucesso -- como bem diagnosticou Max Weber, ao correlacionar espírito religioso protestante e ética capitalista. O epicentro da Nova Inglaterra é Boston. Note-se que alguns americanos se sentiriam, de fato, insultados se chamados de ianques, mas não um New Englander. [Eu confesso que não me sinto particularmente insultado, mas mal conhecido, quando -- prática muito comum -- os jornais espanhóis, especialmente os esportivos, estendem o "carioca" a todos que nascem no Brasil]. Um cronista da Nova Inglaterra em prosa foi romancista Henry James. Nascer na Nova Inglaterra era já ter meio caminho andado se seu talento fosse para literatura. Robert Frost foi muito popular até a década de 70. Era uma sorte de poeta identificado com os ideais dessa tradicional região dos Estados Unidos. Basta lembrar que era o poeta favorito de John Kennedy. Hoje, Frost já não é tão lido assim... Poetas como Marianne Moore e H. D. (Hilda Doolittle) ao contrário de Sandburg e Frost estavam em contato, em maior ou menor grau, com os quatro grandes – que ainda não eram tão grandes assim, claro, à exceção de Eliot, ao menos para o grande público. Mas o grande público é quase sempre um mau juiz de poesia. Pois bem, após a II Guerra Mundial, havia duas vigorosas tendências: os seguidores de Eliot e os outros. Os seguidores de Eliot, canonizados por uma nova teoria crítica chamada new criticism – que punha muita ênfase no texto em si, desprezando aspectos biográficos e, em certa medida, atenuando os histórico-sociológicos, algo que esteve em voga dos anos 20 aos 60 -- exerceram quase uma ditadura editorial. Impuseram-se como as figuras do momento. Nessa vertente há poetas como Robert Lowell, Elisabeth Bishop Theodore Roethke, W. D. Snodgrass, John Berryman e, posteriormente, Anne Sexton e Sylvia Plath. Eram aristocratas e extremamente bem educados. Uma elite, de fato, refletindo modos e afetações de elite. Além de, em alguns casos – como os dos nomes citados – uma poesia exuberante. Contudo, um tanto narcísica, auto-centrada. No sentido de os poetas exporem-se quase como casos clínicos se auto-analisando em público. Excesso de nudez, tanto espiritual quanto carnal. Na vertente de Eliot, prezavam ritmos mais tradicionais, bem como, em certos casos, o apego à rima. Por esse excesso de auto-exposição foram rotulados, paradoxalmente, de "confessional poets" ("poetas confessionais"), por girarem sua poesia em torno de seus próprios dramas pessoais – e, portanto, de um presumida vontade de escrever uma autobiografia poética. Digo, paradoxalmente, porque, se pararmos para pensar trata-se de um projeto justamente contrário ao da crítica (new criticism) que sobre eles jogara os holofotes da vez, como os "herdeiros" de Eliot. Mas, ao contrário deste, que não era propriamente um poeta confessional, houve uma altíssima taxa de suicídio e não poucos enlouqueceram. A ponto de Allen Ginsberg dizer de sua geração, que vem ligeiramente a seguir: "Esta é a hora da profecia sem morte como conseqüência". Ok. Mas isto são cenas do próximo capítulo. O telefone tocou, e preciso conversar com uma amiga que está com alguns problemas existenciais quase tão pungentes quanto os dos poetas confessionais. Câmbio desligo. Mas antes, advirto que esta é a parte da história mais conhecida. Até a próxima.