quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Solidão das Salas




Passava a caminho do supermercado quando viu as salas. Estavam expostas à tarde num primeiro andar. Contíguas. Ambas escancaradas e especulares. Na coincidência de estarem a ser faxinadas até tardia hora? Voltadas uma para outra. Mas cegas uma para outra. Como se um tapa-olho de pirata vogasse apenas para o lado em que ambas se tocavam.
Ela, no entanto, rebocando uma tristeza milenar, a quem volta-meia emprestava um sopro de vida personal e trainee, para não desaprender o ato da conversa, via o que havia de mais belo ou não em cada uma. E o fio da tarde escorria naquele instante sem persiana.
Até cada qual com seu cada qual ficar para trás, reduzidas a fora de campo. A um vice-versa intransitivo à moralidade. As duas salas, ela, a tarde. As duas primeiras comprimindo entre paredes milhares de dias, risos, flores, fotos. Coalhos de sangue no tapete. Terço de grossas gotas na parede. Beijos. Diferentes intensidades de luz. Um gemido, noite a meio. 
Uma sem ver a outra. Até que um inexorável cataclismo vindo do mar extinga a cidade e centenas de salas e cenas assim. Limiadas por uma parede. Cegas uma para outra. Onde as pessoas encerram seus dias.

Quanto a ela, que viu a ambas – como quando se vê um rasgo de nudez no corpo de quem se quer - prosseguiu, pedindo para a própria pervesa solidão dar um tempo. Para não fazê-la esquecer que precisa comprar sabão líquido e amaciante. Não lhe desviar até inúteis alumbramentos.

E ver se está lá na esquina.

terça-feira, 3 de julho de 2012

As receitas revisitadas: quem prova?


Ad Reinhardt

miolo de pote, caldo de galinha, muito pão e pouco vinho, abobrinha, feijão com arroz, farinha do mesmo saco, angu de caroço, zona do agrião, caranguejo em mês que não tem r, feijão de chegou mais um, bolo de enganar tolo, o que cair na rede, favas contadas

escolha sua receita de hoje. consciente. afirmativo. não como devoção a uma dessas estúpidas baladas pop, que passam o recibo de nosso capricho extremo.

e certa debilidade mental.


(mas, que mal lhe pergunte: quem vive sem elas?)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pregão & pesar




Quando o vendedor de cuscuz paulista passa, os cachorros da rua uivam.

Por que só a eles pasma o grau de pesar que vai no pregão?

domingo, 1 de julho de 2012

Com os bofes no boteco



Mark my words, when a society has to resort to the lavatory for its humour, the writing is on the wall. 
[Alan Bennett]

-Bateu, cara, tenho certeza. Na cabeça do zagueiro antes de entrar.
-Foi direto, macho. Onde já se viu. Cegou? 
000
No intervalo, ninguém dá nada pelos melhores momentos. E o time segue penso para a esquerda.
Mais ou menos como reclinam na direção da mais bela, e lhe entregam as palmas das mãos. Quem achou que havia mais que um brilho no olho? Mas ainda faz cedo. E é de noite que o bicho pega. E o brilho do olho dela prega no olho do gato. Segura o facho. E o farol de milha dos quereres relanceia sobre duna. 
Não há lua.
000
Enquanto fala de outras coisas, sorri. Lê contratos nas palmas das mãos. Leques escancarados por dois lados de mesa. Palmos e palmas. Linhas de vida. Pulsos tatuados. Anel menos falso, lá. Falanges. Cerco. Desvenda até entrelinhas. Confere ressalvas. Revisa alíquotas. E deplora fitinhas do Bonfim. 
Às vezes, enquanto retoca o batom, sublinha algumas cláusulas. E repassa as grifes. Se as há. Mas sábado e mesa não vão dos melhores nesse quesito. 
O áudio da transmissão, mais baixo no intervalo, funde-se agora com o paredão do carro cuspindo forrós ambiente. E mesmo a falar alto há uma clareza ineludível na voz dela - como se sussurrasse assoletrado ao ouvido. A voz, feita a compleição que a emite: espécie de engenho ovíparo, que choca os ovos da atração. E guina-se para sedução com tal naturalidade como a maioria dos répteis botam ovos. Haveria algo de verdadeiramente obsceno ali, haveria?
Sorriem de volta, perfeitamente basbaques. Estufando o peito, contraem bíceps. Soltam usuais gabolices em hálitos de chope, alho, uísque. Daquele tipo que se solta em intervalos de jogos realmente importantes. Além do jogo, falam de carros, receitas, smartphones, rugby, forró, aplicativos e dos viados. E depois de carros de novo. E de novo de futebol - Séries B e C. E de novo dos viados.
Fazem caras fatais e batem as pontas dos muitos cigarros na mesa. Depois acendem. Imitam viados. E se chamam de bicha entre si, com direito a gritinhos, trejeitos e fotos. Depois deslizam os óculos escuros para a testa. E coçam a barba mal feita. E recompõem a voz com um cenho franzido. Um pouco compungidos.
Pode-se ler na testa: os projetos incluem ser dirigente de clube. Depois, vereador. Que é quando se tem mais chance de chegar, quando não se vem de uma família que já chegou. E pensar que a vida da vida gira em torno desse chegar lá. E desse jeito. Como Tétis em torno de Saturno. Algo tem de girar em torno de algo. O alfa e o ômega. Mas agora a questão hormonal deslimita-se das carreiras, do uísque: ah, mulher.
Tudo ou nada. Vão nessa fase. Que o comutador não esqueça. 
-Esse mundo está perdido - diz a garota sentada perto da janela, na mesa do lado. Também isso é o que se espera de uma garota sem sal sentada na mesa do lado, perto da janela, quando abre a matraca. Nada de novo. Não que seja feia. É só insossa. No insosso, a previsibilidade conta em gotas diluviais.
Ela? Desliza ágil com qualquer palavra. Não carece de crase para preposicionar artigos. Sorri. Às vezes fica séria. Quase sempre quando menos se espera. Irresistível nas duas condições. A tarde gira em torno dela.
Agora, se há um parágrafo obscuro, dúbio; pede licença. E já segue no rumo do toalete, deslizando os dedos no visor do iPhone. Um polígrafo em tempos de inocentes tuitagens e fotos com amostras de lanche. 
Os olhos deles balançam juntamente. Como se houvesse amortecedores nas curvas. E as outras, arre, armam muxoxos meio involuntários. Bocas enchem. Mas só há uma para os naipes de tanto desejo. Pedaços seriam arrancados se na ponta do olhar houvesse dentes. Mas ela, seu iPhone logram chegar intactos ao lavabo.
Do outro lado, o consultor jurídico - que recebe parte dos honorários daquela forma inequívoca, em doces prestações – analisa me-ti-cu-lo-sa-men-te onde há melhor liquidez, herança, seguro, debêntures entre os bíceps do boteco:
-Ai, ai – geme, geme ela, a erguer a tampa do sanitário - o mais fofinho não tem onde cair morto. É sempre assim.
E, vivo, o líquido cai no líquido:

-Dá-me paciência, Senhor.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Em sociedade tudo se soube"



Olho vivo¹ quando uma mulher deixar de rir a seu lado!

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¹Quando se diz a expressão “olho vivo” não há como não lembrar de dois ícones geracionais. Um é José Rangel (que, no caso, reverberava Ibrahim Sued. Que fim terá levado José Rangel?). O outro é Faro Fino. E especialmente Faro Fino ao se dirigir a Olho Vivo num dos melhores cartoons (Snooper and Blabber) de Hannah-Barbera, devidamente filtrado por uma dublagem de sonho, que fez escola na televisão brasileira.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mulheres Nunca



fora da área ou de hora, fixava um pouco o teto, um pouco as prateleiras mais altas, o cotovelo esquerdo a amparar a falta de lastro do banco alto, as torneadas pernas a escorrer abaixo, o vestido plissado. como fazer? as pás do ventilador a raspar pratas na penumbra. a prorrogação assomava, inevitável. a coisa toda é tão mais fácil quando não entra coração. mas quem falhar o primeiro pênalti vai ser crucificado pela torcida, quer apostar? e entra aquele travo de cajá, que amarga na boca das mulheres. daquelas, princesa, que julgávamos longe de melhores. as que a gente desprezou. e o juiz marcou fora da área.
homens ainda perdoam.

mulheres nunca.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

audiência e juízo



os analistas da bolsa ocupavam-se de certa oscilação maior do pregão. os evangélicos reuniam-se em torno de um festival gospel. os gays preparavam a parada de orgulho. e os héteros falavam mal dos gays. as modelos passavam fome ao nosso lado, mas já tinham alguma vaidade. os carnavalescos suavam em julho, a prever incêndios, pragas, contratempos até quando o carnaval. micaretas prosseguiam abadanando[1] noites. a criança em alguns comia pipocas na manteiga. os tuiteiros mediam fórmulas de ganhar mais seguidores. e os seguidores sorriam amarelo derretido, como barras de manteiga fora do freezer. mas então, eu vi: um anão ruivo - com gaita de foles, kilt e tudo de direito - entrou no boteco e contou, um a um, toda a gente que assistia aos pênaltis da final e ao juízo. agora já sabemos qual a metodologia da pesquisa: 

eles empregam anões escoceses.

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[1] Não é gralha, o verbo acabou de ser criado abadanar - vestir abadá, cobrir com abadar.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Das ideias de começo


 Juan Miró

quando penso no carinho com que guardava minha edição de Mais Provençais, cuidando para não amassar as pontas entre os outros livros. Era feito trazer de cor certos números na caderneta, e uma linha escrita de próprio punho. E, então, olhá-la à distância, naquele fio onde vão tesão e metafísica. O livro branco, a iluminura. Era raro ter versos assim em casa. E bem vertidos. Estar começando uma biblioteca era o mesmo que estar começando, sem mais. Era diferente de hoje, passado em alho e cascas. De ter a biblioteca de Alexandria aos pés, implorando, feito Anita na Fontana di Trevi, e não ter a mínima ideia de por onde começar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Melodia a régua e esquadro: as sanidades de São Paulo


Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Fau-Usp), São Paulo

Quando chegou a vez, achei o Rio de uma beleza fácil e carcomida. Pois, de outro modo, o Rio ainda é o mesmo mar do Nordeste. Só que menos atraente, apesar das montanhas e certo efeito pirotécnico o tempo inteiro, não só na Passagem de Ano. A sensação de o cartão-postal não dar descanso. E a fealdade das favelas roendo os morros. A mim sempre me impressionou mais São Paulo. Sua beleza áspera e arquitetura moderna, de um classicismo ressaltado, equilibrando-se sobre pilotis. Certa visão diáfana de um futuro do passado, como num condomínio de Vilanova Artigas, em Higienópolis. Ou o quanto o Conjunto Nacional, com sua praça interior, cita - de forma  adequada, inopinada - os mercados e feiras do Nordeste. A promessa de calor na fria impessoalidade dos espaços. E se está melhor num boteco debruçado sobre a Paulista ou na balada de Vila Madalena, no inverno, que em Copacabana. O Rio é chafurdo tão gostoso quanto raso. É-se amigo de todos logo, animadamente. Mas só por umas horas. Em São Paulo há mais prazos para antes e depois. O silêncio surge um pouco mais. E nele se esconde um naco de pouso e insuspeitado passado. A chuva fina borrifando esquinas. Possibilidades de estudo. Às vezes, quebradas pelos raios das grandes tempestades de verão abatendo-se sobre os vales, onde a metrópole e a quitanda se misturam. A fascinante franja entre o que é do bairro e do país. Circular anônimo pela Pompeia. E almoçar contemplando a Igeja de São João Vianey. A distância recente no traço das pessoas. E o tanto que elas se parecem nas suas diferenças. A migração segue por todos e tudo. Na pressa de tudo. Até no fato de se ir para o mar pela serra a toda, sem tempo de ver paisagem. E a serra mergulhar no mar depois daqueles elevados fantásticos, que parecem o desdobrar da cidade no rumo do oceano. E os ipês, os manacás, as quaresmeiras em flor no meio da mata. Ou imaginar os padres da Companhia escalando aqueles despenhadeiros e grotas, no muque, cinco séculos antes. Ou a gente estar sempre a dirigir um conversível, não obstante o teto, quando se vai a Ilhabela ou Cambury. E, assim, as tais curvas da Estrada de Santos, mais presentes em São Paulo que no Rio, onde elas de fato estão.

Esse negócio de escolher entre São Paulo e Rio é uma espécie de dialética. E há compensações à beira-mar ou na montanha. Mas parece meio inevitável que a gente se decida por uma das premissas.
*
Recentemente, meio por acaso - se há acasos e não constelações na Tia Nete - vi um curta, de minutos poucos, sobre São Paulo, cuja elegância, simplicidade, ritmo, escolhas, chamam a atenção: 
 [o filme dura 3min52s, é precedido por um comercial de 21s, e põe em quadro uma pequena amostra da melodia de régua e esquadro que destila algumas das (raras) sanidades de Sampa]

domingo, 24 de junho de 2012

A misteriosa beleza do corriqueiro: Hugo Williams


/sic/

Nothing in Particular


What do I miss?

I'll tell you what I miss -

the sun coming up,

colour starting,

a sort of yellow dust

or luminous moss

gathering round the edges

of table and chair,

some average morning

when an upstairs window

catches the sun

and a young woman

turns back into a room.

A telephone rings

and once again she clears her throat.

Nothing in particular,

words, desires,

the slightest intention

translated into action,

the chain of command

taking shape in the mind

according to logic and reason,

a tree coming into leaf,

our reward in heaven.


Hugo Williams



Nada em Particular


Do que sinto falta?

vou lhe dizer do quê-

do nascer do sol,

as cores a estrear,

uma pátina ouro

ou ágata-luminescente

juntando-se em torno das bordas

da mesa e da cadeira,

numa qualquer manhã,

em que a janela de um sótão

colhe o sol

e a jovem mulher

afasta-se para dentro.

O telefone toca

e ela de novo limpa a garganta.

Nada em particular,

palavras, quereres,

a intenção mais vaga

tornada ação,

a cadeia do conhecimento

ganhando forma na mente

segundo lógica e razão,

uma árvore recobrando as folhas,

nosso prêmio no paraíso.


Dois sinais na perna esquerda de um n caído para a esquerda


A Promenade, o calçadão à beira-mar em Split

A Placa (ou Stradun), emDubrovnik, pérola do Adriático

Duas cidades na Dalmácia concluídas numa frase 
Oliveira, vinha, montanha, mar: o litoral mais belo da Europa

A Croácia é um N em direção ao Noroeste. A perna esquerda desse N caído segue, por sinal, roída. Ou foi mal apagada: desfaz-se em farelos. Esses farelos estão na água: são ilhas. Elas são mais de mil. Perto de uma dessas ilhas está Split, na costa da Dalmácia. Perto de outra, Dubrovnik [os croatas pronunciam proparoxitando: Dúbrovnik].

Split, que é a maior cidade da Dalmácia, vem de um colônia grega, Spalatos. Mas seu núcleo central remete a um palácio mandado erguer pelo Imperador Diocleciano, no séc. IV d.C. Hoje em dia, dentro do que foi esse palácio erguem-se cafés, lojas e até a catedral da cidade. A baía é um mimo. E a avenida peonal à beira dela, a Promenade, um projeto exemplar. Essas cidades guardam algo de uma escala urbana que desconhecemos. Quer dizer, onde há muita urbanidade dentro de pouca área e ao longo de toda ela. É uma concentração de serviços uniforme, inversa ao de nossas metrópoles imensas, caóticas, desiguais.
Split não conta com mais de 800.000 habitantes. Mas isso na conurbação. A cidade em si é muito menor. E, contudo, há museus e boa arquitetura para o lado em que se teimar ir. E para qualquer lado onde se vá, montanhas suaves metidas em entradas de banho. A colina mais alta, junto ao porto, chama-se Marjane. E há essa canção, muito popular entre os partisans iugoslavos da Segunda Guerra, que é cantada até hoje: "Marjane, Marjane".
Num enclave, 230 km mais ao sul, vem o clímax: Dubrovinik, a Pérola do Adriático. É não menos conhecida pelos antigos como Ragusa, cidade-estado satelizada por Veneza, mas que chegou a competir com a metrópole à época em que a rota das especiarias fazia a glória do Mediterrâneo.
Pela força de sua astúcia, Ragusa sobreviveu séculos entre grandes potências - como a República de Veneza, o Império Otomano ou o Império Austro-Húngaro. Seu corpo diplomático fez história. Fortunas cumularam-se nos porões. Dubrovinik recebeu um considerável contingente de judeus portugueses no sec. XVI. A sinagoga – que é ainda referida por “sinagoga” (como em Amsterdã ainda há a “esnoga”) - guarda referências dessa migração sefardí. E Dubrovnik, apesar de haver sido destruída por um terremoto no sec. XVI e atingida por bombardeios na Guerra de Independência (1992), constitui um dos mais orgânicos e admiráveis exemplos de cidade medieval murada, na Europa.
Com não mais de 50.000 habitantes, a pequena cidade – que, não obstante, é servida por um aeroporto internacional - triplica de população no verão, quando é literalmente tomada de assalto por alemães, italianos e ingleses, sedentos pelo sol, pelas praias esplêndidas - de seixos ao fundo e água cristalina.
A Placa (ou Stradun), como é conhecida a rua principal da cidadela, em Dubrovinik, não tem mais de três quarteirões. Porém constantemente palmilhados por hordas e hordas de turistas, a ponto de haverem polido as pedras calcárias que revestem o leito da rua. Toda a parte antiga é vedada à circulação de veículos. De um lado das muralhas, barcos e iates oscilam suave na calma baía. No oposto - pois a cidadela ocupa uma pequena península - as ondas quebram violentamente contra as muralhas que escalam os arrecifes. Adiante há ilhas alflorando no mar. E montanhas do lado do continente, por onde também se espalha a zona mais moderna da cidade. Alguém bem-humorado, certamente visando a combinação entre montanha, mar e outras formas rotundas, rebatizou uma das praias circunvizinhas de Copacabana.
Mas, se falta algo da alegre solaridade tropical do Rio a essas praias recortadas e crespas - como decerto sobra algo ao risco comportado do biquíni das garotas locais - a paisagem ao longo do litoral de Split e Dubrovinik, estendendo-se até a Baía de Kotor, já em Montenegro, com suas ilhas, enseadas, istmos, golfos, canais, angras, estreitos e penínsulas, sitiados por montanhas e dominados por antigas cidadelas medievais - onde sobressaem e sobrepassam-se torres e campanários (ou ainda ruínas romanas e gregas) - é de descoser a tênue linha entre sonho e vigília, quando o sol é suave; seja ao fim da tarde, seja principalmente ao amanhecer, que acerca as praias desde a silhueta das colinas.


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Nota - havia lido muitos tuítos ao longo da tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que dava uma espiada no jogo da Eurocopa (Espanha 2x0 França). Aí, cansado do tanto de esforço - de resto inútil - que as pessoas fazem para soarem lapidares, epigramáticas no Twitter, veio essa necessidade de escrever um texto em que pudesse jogar o pensamento numa frase longa. Como a última do texto acima, que ocupa um parágrafo inteiro. Pois as pessoas parecem esquecer que mesmo o estilo conciso, quando jogado de qualquer jeito (ou seja, quando mal jogado), apenas aborrece. E que escritores como W. G. Sebald esticam-se por períodos que seguem por páginas e mais páginas. E é o que há de delicioso, por exemplo, quando se lê um desses cronistas do Quinhentos. As frases parecem não ter fim. E, logo, não fazer sentido. Mas, do contrário, fazem muito. Fazem todo. E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição. Sua relação com as outras frases e a totalidade do texto. Eis porque cansa ler textos jornalísticos hoje em dia. Eles estão tão vendidos à necessidade da inteligibilidade, da economia de tempo e espaço, da exatidão, à serviço da informação e da comunicação mais rasteiras e imediatas, que não há mais lugar algum para o calor de um pensamento menos entregue à venda. Mais misterioso, místico, intuitivo. Mais sinestésico. Perto do coração selvagem. 

sábado, 23 de junho de 2012

Um extrato de too much a sobreviver na memória dos outros


Ser um cabeça-de-vento 
-viver no mundo da lua, luftmenschar-(se), saber bem exilar-se de onde canta o sabiá

do admirável ensaio de Flusser sobre “Exílio e Criatividade”, a seguinte passagem, aspas: 

o expulso é gente desenraizada que busca desenraizar tudo em volta, para poder enraizar-se. E age assim espontaneamente, simplesmente porque foi expulso. É quase um processo vegetal. Quiçá seja possível observar isso quando se transplantam árvores; e que talvez a dignidade humana resida em não ter raízes – que um homem primeiro se torna um ser humano quando ele arranca as raízes que o prendem. Em alemão há um termo deplorável, Luftmensch, um homem descuidado “com sua cabeça no vento”. O expulso talvez descubra que vento e espírito são termos intimamente relacionados e que, portanto, Luftmensch signifa essencialmente ser humano

fecha aspas. Sim. Pedra que muito se muda. Mas o cabeça-de-vento (Luftmensch) -ou vulgo sem-chão (bodenlos) - de Flusser habita por excelência a utopia. De outro modo é notável como essa forma de pensar dialoga diretamente com a Simone Weil de O Enraizamento. Ou seja, que já na década de 40 essa autora, também judia como Flusser, também deslocada e assimilada culturalmente como ele - ou até mais, por haver se convertido ao cristianismo - já tenha divisado que a questão do enraizamento - que envolve a do migrante e a do exílio - é uma das questões sem qual, nós, na modernidade pós-industrial, não caminharemos se não pensarmos nela. 

e não pensaremos nela, se não caminharmos 

O inferno e os outros




Na Eco 92 havia 4,5 bilhões de humanos. Hoje há 6 bilhões. Se o inferno são os outros, então o mundo está mais infernal?

Não. O inferno os outros não são. Está mais é dentro de cada um.

Fora, há um mundo com soluções a mais. (O que não nos exime de pensar a questão demográfica, a finitude dos recursos).


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Toda generosidade

Ron Muek, 2009

Toda generosidade é profundamente interesseira e injusta, a não ser a que é dada sem nada de volta e, logo, nunca se propõe como generosa. Tampouco como dádiva. Ou seja, aquela que se fez mas até já sumiu de memória. E, logo, não se sabe feita; e sem registros, atingiu seu nível ideal. A que sabe de antemão que qualquer forma de retribuição passa mais por comércio. Por clientela. Interesse. Por tomar com uma mão o que se deu com outra. Pela cordialidade tão brasileira e à espera de retribuição quanto a cadela arfando, jogando saliva pela sala, aguarda os biscoitinhos. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Só em cores


Stuart Hills


Achei engenhoso o modo como você reproduziu certa postagem em seu blogue um tempo atrás, mas mantendo aquele padrão de títulos duplicados que vogou por aqui durante largo trecho - mas já não ocorria no texto em questão. Esclareço. Havia um desejo de exceder. E passar para uma série em que - sobretudo em posts pequenos, mais ou menos ficcionais - a última frase soasse forte. E funcionasse como o eco do título, que anteriormente era duplicado próximo ao corpo do texto, numa espécie de paráfrase. Porque se dirige à forma deles, percebi a extraordinária atenção que você dedica aos meus textos. E que essa atenção segue, de fato, alerta. Porque se dirige à forma deles. Outros só vêem em cores o que é preto e branco.
Só em cores.


Numa espécie de paráfrase.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Branca de Neve é bicho


"Não é bicho não, Arthur. É uma moça. Uma pixota. Uma mocinha. É como a Deusedite". 

"Nietzsche não ia gostar dela. Porque ela seria a impossibilidade do Super Homem"

Um dia Arthur entendeu que Branca de Neve era bicho.
-Não é bicho não, Arthur. É uma moça. Uma pixota. Uma mocinha. É como a Deusedite. Bicho, não é não – disse o Jogador de Damas.
-É bicho, sim. É coisa dos Grimm. Mas foi o Disney que deu um mundo pra ela. E lá, os ratos, cavalos e patos falam. Se vestem, ganham dinheiro, sentam à mesa. E é porque os humanos é que são bichos. Inclusive quem faz uma maldade dessas com eles: gente falar com esquilo. Ou cavalos tanger cavalos. E além disso, vivem prendendo os pobres dos Metralhas, que são as únicas criaturas decentes naquela curriola toda.
Isso fora um pouco além da conta para o Jogador de Damas, que não só não gostava, não entendia, como desconfiava de paradoxos. E, então, voltou ao estudo da próxima jogada, no tabuleiro junto aos rolos de fumo. Mas não sem antes largar um:
-Todomundo acha a Branca de Neve linda de morrer.
-Só pode – retrucou Arthur - ao redor dela só tinha bruxas e anões! Eu prefiro a Rainha Má. Mas onde eu quero chegar, Jô, é na prova de que além de ser uma anã moral, Branca de Neve era de fato bicho. Nietzsche não ia gostar dela. Nem um pouco. Porque ela seria paradoxalmente a impossibilidade do Superhomem.
-Agora, você misturou tudo. Disney, os clássicos Marvel...
-Você também acha que ela é uma ameaça à ideia da pós-história?
Mas a essa altura, o Jogador de Damas já quedava completamente entretido no estudo da próxima jogada. O Terceiro Excluído ainda não tinha chegado. O Álisson fora comprar cocaína. E, logo, Arthur viu-se ainda mais desesperado, porque não tinha com quem partilhar aquele utilíssimo insight. Nem mesmo com o Narrador, que fora passar uns dias de licença prêmio na Praia do Discurso Indireto Livre, ali perto de Morro Branco. 
Agora, sim, Arthur achava que tinha chegado a algo grande. Uma dedução que provavelmente seria um divisor de águas conceitual na vida da comunidade:

-Branca de Neve é bicho.

domingo, 17 de junho de 2012

Escrever Ensaios ou A Arte da Ressalva


James Whitney

escrever ensaios, destemer a descida aos detalhes

não se pode falar de detalhes sem abdicar de uma visão panorâmica, totalizante, diagrama

para chegar ao detalhe, é preciso divisá-lo, individuá-lo, de alguma forma, dentro de algo maior. Para chegar ao close, é necessário, antes, o close inserido no plano geral. (Meio por acaso?)

planos gerais parecem algo rude, grosseiro no mundo dos detalhes em que vivemos

escrever ensaios é, então, ressalvar que o detalhe é assim, mas nem sempre assim. Também, por vezes, é assado. 


E, logo, só parcialmente assim, etc.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Corresponder, coincidir



Pessoas têm o desejo que um punhado de letras traduza uma complexidade, uma barafunda de sentimentos, sensações, condições e estados de espírito que são elas próprias. Que resgate, de algum modo, o que já esteve lá, escrito nas estrelas. Como fosse possível alguma correspondência. Ou uma caligrafia estelar, constelacional, que se pudesse reproduzir na ponta do lápis. Ou, mais adiante, coincidir com vida. Assim, sem mais.

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho, celenterado, formiga. E o que coincide não tem olhos para fora de si. Jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, de nascença. Pois coincidências e prisões têm o mesmo termo em latim no nome científico. São primas e já se amaram. Armaram poucas e boas. Arapucas. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las, imigrante e solitário que é. 


Imigrantes e solitárias que são, não se deixam ver à auto-suficiência. Mas então há essa necessidade tão violenta de espelho, que letras despertam lágrimas. E não por serem parecidas com pessoas. Não há imagem para discussão. Mas por saciarem nelas o desejo de se acharem parecidas tout court. De se acharem parecidas com paus e pedras. Marés e rios. A corda si, o naipe de copas, o Pico da Bandeira. Abóbadas, funâmbulos, sextas-feiras e o alfabeto cirílico. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Poliedro de coisas


Gretche Kelly

Olhou para o rosto dela vinte anos depois, viu um poliedro de coisas. Havia algumas marcas de expressão, sinais a mais de sensatez, jeito de rir que não estava. E achacou-se ante tanta desnudez travestida de sorrisos. Antes via apenas o rosto de uma mulher jovem, um pouco contida, a lhe dizer a todo instante um sim do tamanho do Edifício Itália. 


E o dia dos pelos dela tinha a cor.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pressa ou virtude


/sic/

sigo dirigindo veloz para dentro do feriado. Devo ter algum ou muito álcool na alma, no sangue. Mais no sangue, é verdade. Não espero que pressa ou virtude me façam escapar do tribunal. E é-me indiferente se atropelo bicho ou homem. Ou se o bicho se posta à minha frente. E sou eu

a última coisa que a justiça dos homens está interessada em saber na verdade é a verdade.