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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Erotomania

Malgorzata Buczek

-ou Devaneios Eróticos na Era do Virtual

vá pensando. o virtual como luva nas mãos daqueles que fantasiam. 
porque ela ou ele ouviu tal música, assinalou a leitura de tal livro, viu tal filme. 
ou seja, por causa dessa cláusula secreta, que mesmo os dois que presumidamente a compartem nunca a declararam, love is in the air. 
(is it really?)
*
é como não olhar para além do espelho diante do qual se faz caras e bocas aos dezessete. e há ainda os que vão adiante, e não cabendo em si ao descobrir que ela ouviu “r.i.p” com rita ora ou anda lendo d. h. lawrence, postam textinhos para informe do mundo: olha, gente, estão apaixonados! não é original? e são certamente correspondidos. nem que seja só no fundo de suas cacholas. ou no fundo sem fundo dos devaneios erotômanos.
lambisgoias e lambisgoios gastam tempo e energias nisso. sirigaitas e sirigaitos fazem a glória da indústria de cosméticos e da indústria esotérica e das fábricas de reflexos e dos centros de fisicultura. para não falar dos terapeutas e nutricionistas. reais e virtuais. abra uma janela chamada espelho. e a chame de 'mon amour'. não importa o navegador. Espelho era uma das poucas janelas virtuais que você podia chamar de sua antes da chegada do digital e seus brinquedinhos amorosos
muitos amores imagináveis depois (e, claro, muita punheta e siririca escorrendo, digamos, um tanto pelo ladrão - pois está na regra, arnaldo), os caras imaginam até o piercing no umbigo, o tema musical, a decoração da capela, o garbo dos padrinhos, o gosto dos salgadinhos e aquela respiração entrecortada, no suposto futuro cônjuge (ou amante de 'ersatz').
então, no estalar dos dedos enchem blogs e mais blogs de flores, versinhos & presumidas bondades, como se tivessem dezessete ou o mundo fosse nutrir-se dessa extrabundância de salgadinhos imaginários e virtudes não menos. esquecem que esses salgadinhos não se exportam à china. que essa generosidade virtual não muda a vida de ninguém em calcutá. e será que existe alguém, em si e de fato, com uma vida interessante o bastante para ser acompanhada em tempo real? todomundo é suficientemente artista para ser seu próprio personagem e ter seus dias publicados assim nas revistas como personalidades em roupas de baixo?
motivos e valores positivos, adiante de seu tempo. e todos maneiros, heróis de si. nas suas próprias postagens ao menos. e, assim, derramar-se em posts e mais posts ao modo de diário. ah, querido diário. mesmo que não tenham mais como volver a los diciesete. como se ao menos na escrita o sensabor dos dias pudesse ser convertido em algo menos acachapante. caramelizado para algo menos doentio. como se valesse tudo y más alguna cosa. en la virtualidad, muy bien, se puede carajo. a por la virtualidad.
alguns, feito certa atriz – tinha que ser atriz ou ator, faz parte - tentam tirar uma lasquinha, otários que não são e acabam por ser mais. pois a emenda termina pior que o soneto. o soneto, no caso, supostamente surrupiado. quem terá a pachorra de parar e olhar as fotos de uma sirigaita nua, quando há bilhões de sirigaitas nuas, mais ou menos jovens e muito mais curvilíneas, insinuantes, estimulantes e, melhor, até interativas ao redor do planeta? e essa moda não foi antes lançada por scarlett johansson - que convenhamos até possui, digamos assim, mais argumentos - antes de chegar nestes trópicos quase sempre por demais tristes e reincidentes? e agora, para fechar o ciclo da mimese vertiginosa só falta uma personalidade "local", "da terra" ter suas fotos íntimas afanadas... e aí o ciclo fecha seu logro: de nova york para o rio, do rio para fortaleza. é sair de johansson para a atriz carioca, e desta para quem? para uma das tigresas de joão inácio jr.?
tá certo, ninguém vive sem migalhas de fantasia. o diacho é quando não se consegue mais nadar de volta, na ressaca braba de fevereiro, e tomar pé da realidade. maré para casco nenhum botar defeito: o braço dos nadadores fraquejando o crawl. e não mais se obtém viver com uma migalha de realidade. ainda que virtual.

 será que ontem ela ouviu sixpence none the richer?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O que mais temos: Lawrence


Robert Talbot, Wheat, c.1854




On the Balcony

In front of the somber mountains, a faint, lost ribbon of rainbow]
And between us and it, the thunder;
And down below, in the green wheat, the labourers
Stand like dark stumps, still in the green wheat.

You are near to me, and your naked feet in their sandals,
And through the scent of the balcony’s naked timber
I distinguish the scent of your hair; so now the limber
Lighting falls from heaven.

Adown the pale-green, glacier-river floats
A dark boat through the gloom – and whither?
The thunder roars. But still we have each other.
The naked lightnings in the heaven dither
And disappear. What have we but each other?
The boat has gone.


D.H. Lawrence



Na Varanda

Diante das serras sombrias, uma débil, escassa faixa de arco-íris
E entre nós e ele, o trovão;
E lá abaixo, no trigal verde, os lavradores
Firmam-se como cepos negros, quietos no trigal verde.

Você está rente a mim, seus pés nus nas sandálias,
E apesar do aroma de madeira crua da varanda
Distingo o aroma de seus cabelos; e então a ágil
Faísca cai do céu.

Abaixo no rio-enregelado em verde pálido flutua
Um barco escuro em meio à treva – e até onde?
O trovão ruge. Mas ainda temos um ao outro.
As faíscas nuas no céu sacodem
E somem. O que mais temos senão um ao outro?
O barco se foi.



* * *

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Demandar diretamente ao estado-maior: Lawrence


Olivier, c. 1900


Intimates



Don't you care for my love? she said bitterly.


I handed her the mirror, and said:

Please address these questions to the proper person!

Please make all requests to head-quarters!

In all matters of emotional importance

Please approach the supreme authority direct! ---

So I handed her the mirror.



And she would have broken it over my head,

but she caught sight of her own reflection

and that held her spell bound for two seconds

while I fled.



D.H. Lawrence




Íntimos


Você não liga pro meu amor? disse ela ressentida.


Levei o espelho até ela, e lhe disse:

Favor fazer a pergunta à pessoa certa!

Favor demandar diretamente ao estado-maior!

Em todas as questões de importância emocional,

favor dirigir-se diretamente à autoridade máxima! ---

E então lhe passei o espelho.



E ela o teria partido em minha cabeça,

mas colheu seu próprio reflexo

e isso a conteve um par de segundos

no que chispei.





* * *


quinta-feira, 2 de julho de 2009

De novo e de novo e de novo: Creeley


James Ensor, Masks Confronting Death, 1888


Waiting


Were you counting the days

from now till then


to what end,

what to discover,


which wasn’t known

over and over?


Robert Creeley



À Espera


Contavas os dias

da noite ao jornal


até o final,

para esclarecer


o quê? aquilo que já se está

careca de saber?



Esperando


Contavas então os dias

de lá para cá


até o final

para descobrir o que o povo


faz que não sabe

de novo e de novo?


Aguardando


Contavas então os dias

daqui até lá


até o final,

o não descoberto,


o não sabido

de perto e de perto?




Nota – este poema, no seu trio malogrado de versões em português, dá uma noção de porque Creeley é Creeley: engenhoso, lançando mão de palavras simples, banais, prosaísmos que ganham uma dimensão filosófica. De como é difícil traduzi-lo. De como, a seu modo ele intui sintaxes que põem em xeque esquemas de pensamento. E revitaliza rimas que remetem a Thomas Hardy e Robert Frost – um autor que, de resto, abominava. Ou de como sendo de vanguarda, ele “não era de vanguarda”. Ou seja, estava lixando-se para o rótulo. Seu herói era D.H. Lawrence. Há poucos autores tão da "fala americana", na linhagem de Williams, quanto Creeley. Pode-se resumi-lo, em seu anti-intelectualismo sofisticado, como um herói da cultura americana. Como neste pequeno poema, por exemplo.



* * *



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O vigário, o conto


Robert Colquhoun, The Fortune Teller, 1946



Máxima


Não creia no contador, creia no conto.

[D. H. Lawrence]




* * *

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ano admirável: Larkin e o verso como notação de momento


Bill Brandt, 1953


Annus Mirabilis


Sexual intercourse began

In nineteen sixty-three

(which was rather late for me) -

Between the end of the Chatterley ban

And the Beatles' first LP.


Up to then there'd only been

A sort of bargaining,

A wrangle for the ring,

A shame that started at sixteen

And spread to everything.


Then all at once the quarrel sank:

Everyone felt the same,

And every life became

A brilliant breaking of the bank,

A quite unlosable game.


So life was never better than

In nineteen sixty-three

(though just too late for me) -

Between the end of the Chatterley ban

And the Beatles' first LP.


Philip Larkin



Annus Mirabilis


O começo da transa foi enfim

Mil novecentos e sessenta e três

(um tanto em atraso para mim) -

Entre o Chatterlay sair da censura

E os Beatles lançarem a loucura.


Á altura só entrara na dança

Uma espécie de barganha

Uma disputa pela aliança,

Aos dezesseis, uma falta de sanha

Que se estendia à toda a artimanha.


Súbito a briga acabou

E todos sentiam-se iguais

E toda a vida virou

Uma brilhante quebra da banca,

Um jogo de entrada franca.


Não houve vida mais bela

Que nos idos de sessenta e três

(para mim, tardia chancela) -

Entre o Chatterlay sair da censura

E os Beatles lançarem a loucura.





Nota - Ah, quanta falta na tradição de poesia brasileira recente de registros assim. Algo que ponha poesia - em toda sua graça - a serviço da crônica ou do momento. Não há regras. Tem horas que é preciso esquecer que há eternidade e perenidades. E simplesmente render-se ao momento, à gandaia. Afinal, quem diria que este Larkin é o mesmo que escreveu versos da solenidade de: "Onde viver, senão em dias"? O Chatterlay referido trata-se do romance de D. H. Lawrence O Amante de Lady Chatterlay [Lady Chatterlay's Lover], que durante anos foi proibido na Inglaterra. Realmente, poucos poetas conseguem ser tão ingleses quanto Larkin. Reparem no refinado auto-humor com que ele lamenta já estar um pouco além do ponto, maduro em excesso, em 1963 ("Though just too late for me"). Em 1963, Phllip Larkin tinha 51 anos. É estranha a empatia que nutrimos por determinadas épocas que sequer nos foram dadas viver. De minha parte, tenho saudade de tempos felizes em qualquer época. Eles parecem um advento, uma 'parousia'. Permanente possibilidade. É assim com 1963. E olha que nos dois primeiros meses desse ano eu sequer havia nascido.


terça-feira, 29 de julho de 2008

Da discrição dos Elefantes: D. H. Lawrence


Alexander Calder, Elephant Chair With
Lamp, 1928





The Elephant is Slow to Mate

The elephant, the huge old beast,
is slow to mate;
he finds a female, they show no haste
they wait

for the sympathy in their vast shy hearts
slowly, slowly to rouse
as they loiter along the river-beds
and drink and browse

and dash in panic through the brake
of forest with the herd,
and sleep in massive silence, and wake
together, without a word.

So slowly the great hot elephant hearts
grow full of desire,
and the great beasts mate in secret at last,
hiding their fire.

Oldest they are and the wisest of beasts
so they know at last
how to wait for the loneliest of feasts
for the full repast.

They do not snatch, they do not tear;
their massive blood
moves as the moon-tides, near, more near
till they touch in flood.

D.H. Lawrence


O Elefante Acasala Devagar

O elefante, aquela besta enorme,
acasala devagar;
dá com a fêmea, e os dois quase dormem
ao aguardar

um quê de cortesia em seus grandes corações
tão lentos de inflamar
enquanto chafurdam nos aluviões
a beber, petiscar,

trombando em pânico pelas brenhas
da floresta com a manada,
ferram no sono por pausas ferrenhas,
acordam sem dizer nada.

Daí lentamente o enorme coração sem medo
enche-se de desejo
até a grande besta trepar, por fim, em segredo,
cobrindo-se de pejo.

Como esses paquidermes nada tem de tontos
já que, a sós, esperam até o fim
o momento em que a ceia está no ponto
de virar festim.

Eles não arranham ou acuam;
seu sangue abundante
move-se, mais e mais, como maré de lua
até se tocarem transbordantes.