domingo, 3 de junho de 2012

A Palavra Rapariga



No dia em que se reconciliar a palavra rapariga com sua extensão mais original, novo favor será feito à língua. Pois a palavra é linda. E é uma pena que não possamos lançar mão dela para referir-nos às nossas filhas, irmãs e amigas. Assim como, do mesmo modo, nos referimos àquelas que suprem beijo de namorada, cafuné de irmã e colinho de mãe.

sábado, 2 de junho de 2012

Taras e um bom vinho à mesa


Mark Rothko

-Eu não sou normal. Acho que não sou nada normal. Ao contrário do que meus pais me disseram. Acho que tenho umas taras meio estranhas. Adoro mulheres brancas, de olheiras, dentes pouquinho proeminentes, alguma leve celulite - apenas insinuada - e uma sombra de culote. E se tiverem os olhos um pouco juntos, ligeiramente vesgos e nos gestos algo desengonçado, então é a perfeição em Terra. Mas não a perfeição das passarelas de moda, das revistas. Esta parece aqueles pratos que os gastrônomos rasgam elogios e gastam verbo, energia e dólares para confeccioná-los – para não falar de horas em fotoshops. Mas quando se põe na boca, têm algo de papel sem sal. 

E é preciso ter um bom vinho à mesa, para tirar o gosto da noite.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mais do (mesmo) que isto impossível

Lucien Freud

Uma vez, em Viena, o regente dirigia um ensaio de ópera. Todo superlativo. Tudo superlativo. Era Wagner. Os naipes seguiam afiadíssimos, quando de repente, num destaque da trompa, o maestro deu sinal de parada. Podia-se ouvir um trincar de dentes.
Virou-se para o trompista: 
-Desejo que o Senhor execute esta passagem em forte, como Wagner propôs.
Retomaram. 
O trompista executou com mais acento. O maestro parou de novo: 
-Desejo esta passagem em forte, senhor, como está escrita na partitura. 
O músico tocou ainda mais forte. O regente parou de novo: 
-Pelo Amor de Deus, forte, forte, como está escrito!
Já com os bofes para fora, o spalla disse: 
-Mais forte do que isto impossível!
E o maestro: 
-O Senhor insiste em tocar fortissimo, quando está escrito apenas forte.


Pronto. Eis o diagrama da arte no Brasil, no atacado, em relação à intensidade com que ela busca representar ou compartilhar um ponto de vista. O exagero é já tão nosso, que qualquer ínfima modalidade de sutileza, sobriedade, comedimento ou sugestão é percebida como uma opulenta forma de tecer um novo comentário ou partilhamento. De empreender uma descoberta. Ou compor uma nova estética.


E há esse nome de uma banda californiana: Red Hot Chili Pepper. E é uma boa banda. Mas o nome. (Talvez funcione, por inversão no inglês, para a ética protestante). Vermelho, ardente, pimenta são características do chili. Por que ressaltar tanto? 

Quando se exagera, quando se acentua sempre - sem alternativa, sempre e de novo - perde-se o exagero como recurso, o acento como demarcador de ritmo. 

O deserto é bonito? Sem dúvida, porque é um despautério de nada. Nele, qualquer placa enferrujada, saindo da areia ou lagartixa movendo-se sobre as dunas, ganha uma ênfase, uma urgência, uma vitalidade extraordinárias. Agora, quando há toneladas de placas enferrujadas, todo uma sucata ou uma centúria de lagartixas rastejando à volta, o deserto é suprimido. Bem como as placas e as lagartixas. 

Trate bem o seu argumento. Ele é o único que você possui.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Antes de passar para o próximo

Emily Granader, 2009


De Sermos Numerosos

a crueldade das pessoas está em serem muitas. Se todos fôssemos só um e o mesmo, não teríamos o menor problema. Nem guerras. Nem terrorismos. Nem politicamentes corretos, ditadores torpes, sectarismos degradantes. Ou minorias. Tampouco preconceitos. 
Por outro lado, também não teria a menor graça. Seríamos miseravelmente sós. Sem conversa debaixo do sol. Enquanto umas partes do corpo fenecessem, outras na flor da idade. Mas que idade? Haveria necessidade de tempo?
Arthur pensava assim. Mas também pensava:
Mas como seria a questão ambiental, se fôssemos só um? Digamos, um imenso paquiderme pensante? Devastaríamos porções inteiras de continentes só para nos alimentar? Áreas do tamanho de Andorra e do Liechtenstein combinados, a cada dia? Um Arquipélago das Malvinas mais meio Sergipe por mês? É, seria impossível desenvolver-nos com sustento. A gente como paquiderme literalmente arrasaria uma porção de planetas antes de passar para o próximo.

Mas, de um outro modo, não é exatamente o que a gente faz sendo muitos?

O Mar


Praia das Barreiras, Camocim



θάλασσα
o buliçoso lençol oscilante, ebuliente.

Quantas criaturas marinhas, que em ilustração primeiro habitaram livros, não estariam guardadas sob as vincas daquela inesgotável tecido? E descer até elas, pescá-las, seria como estudar gramática na terceira série: permanente, prazerosa descoberta que tinha a ver com deduções, arrazoadas cismas. Que era mais semelhante à matemática do que se supunha, só que por outro atalho. E seguia até mesmo adiante do pouco entusiasmo de uma professora que, de resto, não era jovem ou bonita quanto a da segunda série. Esta, sim, neta de italianos, seguia para aula de belos vestidos, um sorriso emprestado à Cardinale. E fora ela quem apresentara a gramática como uma sorte de lógica entusiasmada. Um pouco intuitiva, de vez em quando. E o menino sorria como a ilustração de um menino sorrindo, escanchado em um píer com uma vara de pescar. E, abaixo na água muitos peixes e letras e números esperando a vez. Certamente pescaria de sob aquele mar alguma letra ou peixe, de quando em vez.
Aquele mar que devia ser para além da Praia das Barreiras, onde quase ninguém ninguém vivia, além de matutos nas planícies engraminhadas do seco e criaturas do mar nas buliçosas águas depois das dunas. E tudo num tempo em que, do lado da cidade, as mulheres, deixavam de usar anágua. Quando desenhou e coloriu aquele cromo, o ilustrador devia estar com saudade daquelas bandas, onde nada podia ser comparado, para lá da Praia das Barreiras. Não tinha muita coisa nelas. 


A não ser, talvez, debaixo d'água.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Estolquear, Stalkear


Andrei Tarkovsky, Stalker, 1979

Você já stalkeou alguém? 
De acordo com o Dicionário Informal stalkear - neologismo que ainda não achou registro nos dicionários mais sistemáticos -  é o ato de:

"perseguir virtualmente uma pessoa, lendo recados e mensagens, analisando cada detalhe de cada rede social de que a vítima faz parte, buscando os ambientes que ela integra na rede, etc".
[adaptação do verbete original]

"Na verdade, ela vive stalkeando-o; todos os que o mencionam no Twitter, ela procura saber quem é”.


O sentido geral de um stalker em inglês - enquanto substantivo e aplicado a humanos - é o de um caçador que espreita a caça enquanto a cerca e persegue. Também pode ser, em outras acepções, uma haste, talo ou caule de planta. Um esôfago ou parte delgada de um órgão, que o sustenta, nutre ou dá amparo. Ou ainda como verbo: mover-se de maneira ameaçadora; percorrer uma área em busca da presa. Perseguir alguém por obsessão. Observar atenta e furtivamente. Agir como uma espécie de cadela alfa.

É memória no fio da fumaça

Tatiana Blass

̇ No Minho, 1992 .
         
Crava o aguaceiro à janela
dedos d'água, e estria fios
de vento de invernos passados
e breves jardins surgem e
depois somem feito argumentos,
o fio de fumaça, o café. 
Velhas garagens, telhados,
varandas de sonho, o milhafre 
rasa freixos descarnados.
E fica nesta sala agora
recém entrada, seu gosto
de arejamento nada usual:
lápis livros auto-retrato
em água-forte, cegueira 
a enregelar nos dedos.
E no rádio a meio fio
contorce-se a cantiga
- e miraremo-las ondas -
de Martim Codax de Vigo. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Não escrevo para ser lido: Cinema e Escrita I




Escrita, escrita em blog & um pouco de cinema

A CONSTRUÇÃO DA IDEIA POR INTERMEIO DA BLOG-ESCRITURA: LABILIDADE. PROVISORIEDADE. ENSAIO².
Bem entendido, eu não escrevo para ser lido.
Sou mais ambicioso. Escrevo para ser relido. Pretendo um texto que, como uma foto, não guarde ponto final. Mas prossiga aberto pela fecundidade da ideia. Se há um mínimo sentido para o que Eco denomina 'obra aberta', deve ser esse. E contra vários outros motivos, menores, ignóbeis, desprezíveis que o próprio Eco propõe. E isso muito obviamente não quer dizer que queira escrever textos sem uma conclusão. Não. Quero escrever textos conclusivos. O mais possível. E exatamente por isso extramente revisáveis até determinado ponto.
Se alguém leu, por exemplo, o texto sobre Peckinpah (postagem abaixo) anteontem - quando ainda era esboço - vai perceber que se encontra um bocado diferente – e inclusive mais extenso. 
Isso ocorre a três por quatro, por aqui. E deve ser visto como método. Como método facultado pelo meio blog. (E especialmente nos textos mais extensos, mas não só.) E porém poucos que passam por aqui, como a Fernanda ou a Mariana, notam isso. E, quando dispõem de pouco tempo, a astúcia delas as leva a optar por ler o texto uns cinco dias ou uma semana depois de publicados. Elas já perceberam que os textos postados aqui “mutam” um bocado, "flutuam" um bocado. Quer dizer, erram por algum tempo antes de chegar a  certo grau de estabilidade. A publicação em blog permite essa “mutância” e essa "flutuação". E isso pode gerar experimentos sintáticos e muitos jogos, além de supressões ou acréscimos.
E, não obstante, há um momento de arrefecer, estabilizar a espiral; e, mesmo num texto escancarado às mutações e às flutuações, é também o tempo de cessar  de modificar-se, de girar-se, de caleidoscopar-se, de (a)girassolar-se. Assim como uma foto não comporta ser limitada, em sua unicidade, por mais de um enquadramento. [E, aqui, o problema vem a ser quando(?) ou ser quadro(?) - uma vez que as possibilidades de revisão e edição são avassaladoramente mais acessíveis que no meio impresso]. É por isso que escrever um ensaio num contexto de blogue é sempre fazê-lo elevado à segunda potência. E, ainda assim, há um momento em que aparentemente essa gana revisionista esgota. E, quando menos se espera, o texto está PRONTO. 
Quer dizer, um critério de limiar parece impor-se, a despeito da gente ou das facilidades facultadas. Uma fluidez que surge da repetição, e percorre o texto inteiro. E é só aí que o texto ganha uma nota pedal, uma forma, um ritmo, que o aproxima de uma vieira ou de uma concha – de um objeto firme (ainda quando cartilaginoso) que, enfim, escuta. E escuta ao mesmo tempo que diz,¹ e gira o assunto, de tal forma, que ele pode ser visto de diversas perspectivas. 
Quando há uma forma por apêndice, pouco importa se há ou não um corpo colado a essa forma (ao modo de uma orelha, mas não de um búzio); o importante é pensar algo assim, enregelhado, com propensões côncavas, auditivas, receptoras no sentido radiofônico da coisa. Um sentido radiofônico que, quando transposto para o impresso, remete a alguém que é primeiramente um leitor, ainda quando escreve.
No búzio, o rumor do mar, o marulho, está lá dentro, mesmo sem uma cabeça para ouvi-lo, para complementar a audição. O búzio é como se fosse uma orelha avulsa, um fragmento de corpo, um aparato. E é aí, nesses gelhos, dobras e informidades provisórias - que se encontram, de passagem e na verdade, as mais sedimentares das formas - que o texto encontra sua solução. Seus motivos de permanência. Como se tivesse sido esculpido - sedimentar e pacientemente - seguindo os mesmos moldes da misteriosa simetria que se encontra num búzio. Nas suas dobras, estrias.
E, bem entendido, não se acha apenas citando teorias, que, no fim de tudo, são intransponíveis para nossas latitudes, climas, realidades sem os devidos anamorfoses, deformações, adaptações, mutâncias, descontos, etc. Pois é preciso antes que celebrar essas teorias por sua universalidade, perceber o que nelas há de parcial e violenta pre-potência. E, então, é preciso antes escamá-las das camadas de clichês, comuns lugares, estereotipias e chavões, por meio dos quais um suposto centro visa uma suposta periferia. A recusa da periferia em ser periferia é que pode ser mais astuciosa. Porque pelo excesso de história a ser conhecida, coletada, atravessada, quem está na suposta periferia acaba conhecendo mais do mundo total e, logo do mundo de que quem se encontra apenas no suposto centro. O itinerário percorrido é, em sua largada mesma, mais extenso, desafiador. E é como que duplicado.
A questão não é pouca. Alguns produzem textos, filmes, poemas, canções. Mas não mantém em paralelo uma escrita sobre esses textos, filmes, canções, etc. Uma escrita que chegue à flor d'água com boa flutuabilidade ou potencial de mutância, absorbilidade. Há um usual e flagrante desnível entre a obra em si e o comentário sobre ela. Atualmente não há um só realizador brasileiro que trame em paralelo uma escrita sobre seus filmes (ou sobre o cinema em geral) que seja instigante. Ou reveladora. Ou ímpar. Ou indispensável.²
Suplementar em riqueza e soluções.
E, de outro modo, todos abrem a boca para citar a rodo.
Mas mesmo quando se é Benjamin, nem só de citações vive o homem. Imagine quando não se é.
*
MOVIMENTO E IMPREVISIBILIDADE
É necessário forjar oásis antes que o deserto chegue. Como um bom líbero ou zagueiro é capaz de antecipar. Até mesmo os movimentos de Neymar. A imagem compraz: a projeção, o ponto-futuro. O que se produz depois ou antes daquilo que se cria por intuição só é fértil como oásis, se o movimento, o acto de criação escapar - ainda que nas últimas, na bacia das almas - à possibilidade de previsão. 
Por mais empenho que se bote nessa previsão. 

_____________________
¹E, aqui, escutar ao mesmo tempo que dizer não significa uma reivindicação de interação entre autor/leitor. Nos moldes em que está proposta, essa interação é uma perfídia. Um atentado ao bom-senso e a certa gentileza de modos. Ao menos do modo como se dá essa interação nas pavorosas caixas de comentário rede afora. Essas caixas constituem uma nova modalidade de folhetim. Quer dizer, uma boa parcela de leitores, ao modo de voyeurs, ocupam-se mais com essa relação um pouco estúpida e análoga à de um Big Brother literário entre autor/leitor do que com o texto em si, como algo autônomo, visado como independente até de uma autoria. Um autor, por mais "seguidores" ou comentários que detenha em suas caixas, há de notar que esses comentários são rasos ou pueris. Já nascem obsoletos, superficiais. Ou assomam marcados por certa gabolice, prosápia. Ou seguem alinhavados por jactância, vanglória. Não raro, semelham interjeições. São interjecionais - como os palavrões que soltamos desde as tribunas, nos estádios (virtuais ou não). E, logo, o autor deve treinar-se, adestrar-se, deve estar no ponto para divisar as excepções a esse estado de coisas. Até porque essas excepções costumam ser cortantes, brilhantes demais para passarem sem a sua profunda atenção. Mas também costumam ser mais discretas, e desviar-se para canais menos públicos.
²Verdade, os melhores não precisam disso. Ou melhor posto: prescindem disso.

Reductio ad Absurdum


Michael Anderson, Logan's Run, 1976

-Claro que existe vida fora da Terra – disse Arthur.
-Sei não. Se houvesse, tenho impressão que eles já teriam entrado em contato – ponderou o Terceiro Excluído. 
-Mas não é aí que mora a filosofia, a astúcia, a prova da inteligência deles: por que entrar em contato com um planeta cheio de problemas como o nosso? 

domingo, 27 de maio de 2012

Estamos aí, Dona Qualquer Coisa



As licitações? Isso foi muito depois. Rapaz, eu era liso. Tudo começou quando vendi os extintores do meu prédio e com parte do dinheiro ganhei uma bicicleta na rifa. É preciso ter sorte na vida. E Deus ajuda a quem cedo madruga. Precisar de qualquer coisa, estamos aí, Dona Qualquer Coisa!

sábado, 26 de maio de 2012

Peckinpah: poeta de um idílio sem saídas


Sam Peckinpah, Straw Dogs, 1971

Ternura e Brutalidade

"I can see him so plainly," she said, after a moment. "Such eyes as he had: big, dark eyes! And such an expression in them – an expression!"
"O, then, you are in love with him?" said Gabriel.
[James Joyce]

Dentro de um certo sentido, não seria propriamente uma heresia dizer que Peckinpah complementa Bergman. Ou melhor dito: é um Bergman mais próximo da sensibilidade americana - tal como a caracterizavam, entre outros, autores como Lezama Lima e Carlos Williams, que muito provavelmente jamais assistiram Peckinpah. E, assim, é como se todos os cristais e a metafísica de Bergman fossem lançados no ambiente poeirento da fronteira onde chafurdam as personagens de Peckinpah. Ou então, alcançassem uma vida no limiar da sobrevivência e do deserto, condenados a sair do circuito das ideias para viver no mundo das coisas.
Há armas e coiotes na espreita.
*
Peckinpah é uma senha.
Gosta-se ou detesta-se. E ele é um poeta. Um poeta, aliás, próximo de certa tradição de se entrever a relação entre mulher e homem – algo, portanto, um bocado fora dos guizos nos diascorrentes - de certo modo cru, sem muitos atavios. E através de lentes onde se mesclam lirismo e violência extremos. Erra quem pensa que ele representa apenas a chegada mais definitiva ou radical da literatura beat e da contracultura ao cinema. Ou que limitou-se a sublinhar a poesia de certa marginalidade. Um banditismo que medrou à margem dos monopólios capitalistas que conformaram a base das grandes fortunas, dos happy few que lucraram e acumularam de fato com a expansão para o Oeste: banqueiros, donos de ferrovias, especuladores de terras, grileiros contumazes, os primeiros magnatas do petróleo. 
No atacado, os personagens de Peckinpah querem roubá-los, mas acabam sempre roubados, aleijados ou mortos por eles, mais uma vez e irremissivelmente. De certo modo, os párias de Peckinpah são mais desgraçados que os índios. E só por isso é praticamente impossível não simpatizar com esses tratantes, e suas convulsões natimortas. Porque eles já nasceram para rodar à margem. Para serem os perdedores exemplares e da vez. Consumados losers ou motherfuckers. 
Em The Wild Bunch a palavra dos velhos pistoleiros vale mais que emissões de moeda. E talvez haja mais dignidade na ética estropiada desses assaltantes e pequenos patifes (que de resto também lembra a dos cangaceiros e a de outros bandidos sociais), que na respeitabilidade especiosa dos recém-financistas e seus exércitos particulares, equipados com modernas metralhadoras giratórias.
Peckinpah segue na mesma ala de cineastas-párias que tem em suas fileiras gente como Von Stroheim, Buñuel, Orson Welles, John Huston, Nicholas Ray, Robert Aldrich, Pasolini, Sergio Leone, Herzog, Fassbinder, Samuel Fuller e algum - mas não todo - Billy Wilder. O cinismo e a ambiguidade moral do baixo cinema noir preparam a chegada da violência lírica em Peckinpah. Filmes como The Asphalt Jungle (John Huston, 1950) já surgem bastante rentes a ele. E nas feições desse mestre da violência também se pode pressentir os primeiros traços dos Coen, de Tarantino, de Jarmusch e de Bela Tarr. Ou de romancistas como Roberto Bolaño ou David Foster Wallace.
Joyce, Hemingway e o primeiro Creeley, no campo da literatura, estão mais próximos de Peckinpah do que se imagina. Ou do que o último Creeley, mais polido e politicamente correto, gostaria. Hemingway e Joyce provavelmente se escusariam menos da semelhança.
Mas também os motivos nestes dois últimos são expressamente absorvíveis pelo cinema. Em Hemingway há a frustração permanente de haver sido magoado - ou como que "violentado" em sua ética de amante - na juventude. Isso gera insegurança e a necessidade de erguer códigos de fraternidade a partir de riscos comuns, não importa o sexo ou grau de envolvimento, assim como personagens femininos realmente fortes, encorpadas (como observou, entre outros, Simone de Beauvoir). E em Joyce, há essa necessidade de reafirmar a carnalidade do amor (que ronda assustadoramente o protagonista - aliás, alter ego do autor - em um conto como "The Dead"); assim como as dificuldades de repartir o cotidiano com uma mulher.
Joyce, sem dúvida, leva este último tema ao paroxismo. E é de uma simplicidade tão comovedora quanto grosseira, quando diz, por exemplo, sobre a figura de Jesus: ““He was a bachelor and he never lived with a woman. Surely living with a woman is one of the most difficult things a man has to do, and he never did it.” [Ele era um solteirão e jamais viveu com uma mulher. Decerto viver com uma mulher é uma das coisas mais difíceis que um homem tem por diante, e ele nunca teve”]. Um pouco por essa frase, pela ideia que ela concentra em constelação, surgiram filmes um tanto pueris a respeito. Como  The Last Temptation of Christ, de Scorsese.
Pode-se imaginar que Peckinpah gostava dessa frase de Joyce. Muito provavelmente sem a conhecer. E ele, no entanto, a ilustra (involuntariamente?) em alguns de seus filmes. Notadamente em Straw Dogs (1971), que ganhou uma digna refilmagem ano passado (Rod Lurie, 2011). Digna, sim, mas ao contrário do que sugere Roger Ebert, nem por sombras melhor que o original - onde tudo é mais sugerido e sutil. E os movimentos e motivos brotam menos expressos ou pirotécnicos que na refilmagem. O modo como seguem insinuadas a ambiguidade moral de Amy (Susan George), bem como a complacência, bisonha, um pouco tola, de David (Dustin Hoffman) é obra de mestre. Além do que, na versão de 2011, a locação é transmigrada do sul da Inglaterra para o sul dos Estados Unidos - algo que reforça gastos estereótipos e agrada ao politicamente correto. Algo que possivelmente entraria em rota de colisão com os propósitos de Peckinpah, que seguiam longe de estigmatizar ou caracterizar como retrógrada a vida no Sul, ao contrário do clichê mais moeda corrente. 
Como se não bastasse, Peckinpah desmonta qualquer ideia do feminino como heróico ou redentor. Como algo minimamente sábio ou mais salutar que a esfera do masculino. Para ele, a mulher não é mais do que a outra metade de uma humanidade degradada, torpe, sem remissão. E assim, ela é apenas obcecada por encantar. E só para logo em seguida deplorar os resultados nefastos desse exercício de sedução, que é também um exercício de poder. Mas de uma sedução e de um poder que automaticamente se voltam contra ela própria, mulher. Ou podem custar literalmente a cabeça do amante, como em Bring me the Head of Alfredo Garcia - assim como, ao seu tempo, já havia custado a de João Baptista. 
Bem entendido, o poder da mulher é poder. Corrompe da mesma forma. É em tudo análogo ao poder do homem. E é ao menos tão podre quanto, pois resulta apenas no aniquilamento do mundo em torno do poderoso e na sujeição e coisificação de quem se encontra abaixo desse poder e desse mando. E logo, depois de lançar as habituais bombas de Hiroshima e Nagasaki do encanto e da sensualidade, uma carnificina correspondente dissemina-se ao redor. Como uma hemorragia. E muito embora, nesse meio termo, os apaixonados nos filmes de Peckinpah, sigam tão livres, impetuosos e jovens quanto nas peças de Shakespeare; como nas peças de Shakespeare, a felicidade no amor - o breve idílio do encontro - ao invés de driblar a tragédia, é apenas um condimento essencial da própria tragédia. E então as mulheres - mais neuróticas e parecidas com as da vida real que nos filmes de Ford - à medida que instrumentalizam o poder à semelhança dos homens, incorrem nos mesmos erros do mundo machista. E, evidente, não se importam nem um pouco se sua conduta implica na destruição de tudo à volta delas, desde que elas se tornem o centro mesmo do mundo. 
Mas uma capital do mundo em nada original, porém como antes, os homens, a esfera do masculino, já a tinham erguido. Pois esse processo de sair da subalternidade estúpida e injusta a que as mulheres foram sujeitas por séculos não se tem caracterizado pela criação de um espaço novo, inventivo, díspar, transgressor, sugerente, descomprimido, arejado, não ressentido e especificamente feminino. Mas, do contrário e via de regra, apenas reproduzido os mesmíssimos vícios de procedimento e manipulação de poder característicos do mundo machista e capitalista. E pode-se entender que, se há um avanço em termos de igualdade de oportunidades, por outra via, o que a mulher perde em seu processo de liberação é justamente um de seus trunfos: a sutileza, a astúcia, a sabedoria de enxergar o mundo de outra maneira. Quer dizer, da maneira da(o) que esteve à margem. E por ser alguém que passou séculos na condição de 'outro' em relação às manipulações e corrupções inescapáveis ao poder e seu entorno, propostas pelas ratoeiras machistas. Desde que a mulher sai desse aperto, também perde a perspectiva dos apertados e injustiçados, para conformar-se ao conforto refrigerado dos vencedores e da norma constituída.
Algumas feministas mais sectárias acusaram Peckinpah de misoginia. Ou de glamurizar a violência na cena do estupro, em Straw Dogs - uma cena um tanto forte, controversa (para o tempo e o contexto em que foi proposta, acrescente-se). E, no entanto e sem se dar conta, o que elas hostilizam é menos a cena em si do que a desconcertante ambiguidade moral da vítima,  sobre a qual, bem entendido, o próprio Peckinpah cala-se, ao fim de tudo.
Um bom intinerário para se chegar a Peckinpah passa por começar ou com Straw Dogs (Sob o Domínio do Medo) ou com The Wild Bunch (Meu Ódio Será sua Herança) e seguir até Bring me the head of Alfredo Garcia. Neste último, ele pratica um cinema, aliás, muito próximo em tema e forma de alguns realizadores brasileiros da época em que o Cinema Novo deságua na Boca do Lixo. No mínimo, Bring me the head... é um dos mais estranhos road movies já concebidos. E onde ressalta ainda uma vez o antiheroísmo de um ator como Warren Oates. 
Oates está para Peckinpah como Liv Ullmann para Bergman, Mastroianni para Fellini ou Monica Vitti para Antonioni. E, de resto, pode-se reconhecer que há poucos filmes onde a ternura e a brutalidade são separadas por uma membrana tão tênue como nas películas de Peckinpah. Nelas a realidade debocha da fantasia em tal grau que se converte em fantástico pesadelo. E nelas, feito em certos contos de Kafka, algo na vida assoma amaldiçoado de um modo estranhamente espontâneo e irreversível. Embora essa maldição não torne o sol menos esplêndido. O sol que cai sobre as poeirentas trilhas de um Oeste já em franca modernização, e nem por isso mais justo. Muito ao contrário. E a maldição apenas está lá, como um atributo da vida. Ou como quando as crianças brincam com formigas e escorpiões ao início mesmo de The Wild Bunch.  E os malvados não são propriamente as formigas e os escorpiões.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Matemática e semiótica


John Chamberlain, 1961

será que se as múmias fossem craques em solucionar teoremas, os números seriam múmeros?

Que não sabem o que é redundância



Nos lugares certos

uma vez sentiu que ela queria pular no seu colo à primeira margem aberta. Mas não seria boa ideia. Ela que era tão distinta. Só que não podia ser assim, é claro, naqueles casos. A carne de sol e a macaxeira, não estavam nada más. O pequeno restaurante era limpo, deserto, na Zona Oeste. Parecia um sonho? Ou uma transparência naquele verão com friagens? Chegava-se e saia-se dele por táxi e com aquela sensação de nunca mais, insuperabilidade. Mas o fato de ela estar toda trincada não era nada bom para a caixinha de música. E melhor não misturar consolo com prêmio de consolação. E ainda havia amiga, inabilidades, uma longa língua. Ter de lidar com isso quando voltassem à província 

as distintas não perguntam certas coisas. Coisas com coisas. O fio da elegância não lhes dá criar vogais entre consoantes. Ou pãos, pãos, queijos, queijos. Jamais dizem perempitório. Dizem peremptório, e olham em volta apenas duas vezes para não descentrar conversa ou parecer aquelas atrizes que dizem assim “é aquela coisa do”, ou “sabe” ou “gente, eu amo”. E é de particular delícia quando descem à vulgaridade, e se conhece a mulher. Nem profissionais fazem tão bem. E quando os anos passam - ah, por quê? por quê? - por mais arredondas e matronas que se tornem, não perdem nunca essa destreza invulgar de haverem sido as mulheres bonitas nos lugares certos nos lugares certos

as que não sabem o que é redundar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Erotomania

Malgorzata Buczek

-ou Devaneios Eróticos na Era do Virtual

vá pensando. o virtual como luva nas mãos daqueles que fantasiam. 
porque ela ou ele ouviu tal música, assinalou a leitura de tal livro, viu tal filme. 
ou seja, por causa dessa cláusula secreta, que mesmo os dois que presumidamente a compartem nunca a declararam, love is in the air. 
(is it really?)
*
é como não olhar para além do espelho diante do qual se faz caras e bocas aos dezessete. e há ainda os que vão adiante, e não cabendo em si ao descobrir que ela ouviu “r.i.p” com rita ora ou anda lendo d. h. lawrence, postam textinhos para informe do mundo: olha, gente, estão apaixonados! não é original? e são certamente correspondidos. nem que seja só no fundo de suas cacholas. ou no fundo sem fundo dos devaneios erotômanos.
lambisgoias e lambisgoios gastam tempo e energias nisso. sirigaitas e sirigaitos fazem a glória da indústria de cosméticos e da indústria esotérica e das fábricas de reflexos e dos centros de fisicultura. para não falar dos terapeutas e nutricionistas. reais e virtuais. abra uma janela chamada espelho. e a chame de 'mon amour'. não importa o navegador. Espelho era uma das poucas janelas virtuais que você podia chamar de sua antes da chegada do digital e seus brinquedinhos amorosos
muitos amores imagináveis depois (e, claro, muita punheta e siririca escorrendo, digamos, um tanto pelo ladrão - pois está na regra, arnaldo), os caras imaginam até o piercing no umbigo, o tema musical, a decoração da capela, o garbo dos padrinhos, o gosto dos salgadinhos e aquela respiração entrecortada, no suposto futuro cônjuge (ou amante de 'ersatz').
então, no estalar dos dedos enchem blogs e mais blogs de flores, versinhos & presumidas bondades, como se tivessem dezessete ou o mundo fosse nutrir-se dessa extrabundância de salgadinhos imaginários e virtudes não menos. esquecem que esses salgadinhos não se exportam à china. que essa generosidade virtual não muda a vida de ninguém em calcutá. e será que existe alguém, em si e de fato, com uma vida interessante o bastante para ser acompanhada em tempo real? todomundo é suficientemente artista para ser seu próprio personagem e ter seus dias publicados assim nas revistas como personalidades em roupas de baixo?
motivos e valores positivos, adiante de seu tempo. e todos maneiros, heróis de si. nas suas próprias postagens ao menos. e, assim, derramar-se em posts e mais posts ao modo de diário. ah, querido diário. mesmo que não tenham mais como volver a los diciesete. como se ao menos na escrita o sensabor dos dias pudesse ser convertido em algo menos acachapante. caramelizado para algo menos doentio. como se valesse tudo y más alguna cosa. en la virtualidad, muy bien, se puede carajo. a por la virtualidad.
alguns, feito certa atriz – tinha que ser atriz ou ator, faz parte - tentam tirar uma lasquinha, otários que não são e acabam por ser mais. pois a emenda termina pior que o soneto. o soneto, no caso, supostamente surrupiado. quem terá a pachorra de parar e olhar as fotos de uma sirigaita nua, quando há bilhões de sirigaitas nuas, mais ou menos jovens e muito mais curvilíneas, insinuantes, estimulantes e, melhor, até interativas ao redor do planeta? e essa moda não foi antes lançada por scarlett johansson - que convenhamos até possui, digamos assim, mais argumentos - antes de chegar nestes trópicos quase sempre por demais tristes e reincidentes? e agora, para fechar o ciclo da mimese vertiginosa só falta uma personalidade "local", "da terra" ter suas fotos íntimas afanadas... e aí o ciclo fecha seu logro: de nova york para o rio, do rio para fortaleza. é sair de johansson para a atriz carioca, e desta para quem? para uma das tigresas de joão inácio jr.?
tá certo, ninguém vive sem migalhas de fantasia. o diacho é quando não se consegue mais nadar de volta, na ressaca braba de fevereiro, e tomar pé da realidade. maré para casco nenhum botar defeito: o braço dos nadadores fraquejando o crawl. e não mais se obtém viver com uma migalha de realidade. ainda que virtual.

 será que ontem ela ouviu sixpence none the richer?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fragmento sobre Literatura e Fotografia




Ao contrário de um ponto, não existe uma foto final. Mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo.
*
[Alguns dias depois, e a proposição talvez devesse ser refeita]:
Ao contrário de um ponto final em um texto, não existe um ponto final em uma foto. mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo. 

[Há um tempo interior na foto que é como que reciclável. Ou seja, o tempo na foto não tem fim ao contrário do tempo no texto].

terça-feira, 22 de maio de 2012

Sigmállysson Nobody, o Seu Lunga urbano



era domingo àquela hora em que o sol escalda mais forte, e ∑llysson Nobody voltava do supermercado com as compras. ∑llysson seguia, volta e meia, trocando os sacos de uma para outra mão no intento de acomodar melhor o peso. ia catando com os olhos as ilhazinhas de sombra. sonhava chegar em casa a tempo de ver o começo do primeiro tempo. e com os lábios rogava pragas a quem inventou a matéria plástica, o sol, o fuso horário e a tv por assinatura:
-ei, moço, sabe onde fica a antônio augusto? - disse o sujeito grisalho da janela do carro, articulando pés de galinha e abrindo um pouco de olhos entre bolsas de gordura.
llysson depôs as compras na calçada, coçou a cabeça. A expressão incrédula oscilava entre a infinita doçura e um “é cilada, bino”:
-1242 da antônio augusto, moço. sab'onde é? - reincidiu o sujeito de vastas olheiras sem por favores ou obséquios, como de praxe em Fortaleza.
llysson pegou um pouco de ar ainda sem crer que acontecera com ele. o suor descendo pelas frontes, pelos lóbulos cheios de pelos, pelo pescoço tatuado:
-em primeiro lugar, ancião, moço eu não sou, como dá pra ver. em segundo, autarquia, você deve estar me achando com cara de gps. terceiramente, que nome de rua mais ridículo é esse, minha joia: antônio augusto? esse miserável não tem sobrenome, não?
o sujeito engatou logo foi uma segunda. e se foi na cantoria dos pneus joão cordeiro abaixo.

-obrigado, viu! – ainda ouviu, lá muito atrás, no engatar da terceira, o grito de ∑lisson a reenganchar a alça dos sacos nos dedos das mãos com a sacrossanta expressão de um resignado monge budista que acabara de declinar um mantra essencial para o bem-estar da humanidade.

Nos Circuitos da Naturalidade e dos Mascotes



Torço para quatro times: um na Inglaterra, um na Alemanha e dois no Brasil. Nenhum deles está ganhando. Mas eu tenho uma cachorra. E pelo fato de ela ser de raça inglesa, ter nascido no Rio, e o ex-dono ser alemão, finjo que a bichinha torce Chelsea, Fluminense e Borussia Dortmund. Faço ela ver todos os jogos. 
Minha pupuquinha está ganhando tudo. E não deve ser pecado torcer um pouquinho pelos times de quem nos faz feliz.

É? Ah, não sei. Assim de cabeça, não sei. Mas Mamãe diz que sou competitiva.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ao redor do mundo e pelo menos

Prédio atingido por terremoto este fim-de-semana no Norte da Itália

O Chelsea, com seu futebol de ferrolho, sagrou-se campeão da Champions League numa final que sabia à anti-clímax antes mesmo do apito inicial, na tarde do sábado; e novo fôlego foi dado ao futebol de resultados. A morte do ex-Bee Gee Robin Gibbs. François Hollande assume como novo presidente da França. Um terremoto na Emilia-Romagna, norte da Itália, causou danos intensos a prédios históricos. Morre no Reino Unido o último líbio acusado de terrorismo no caso Lockerbie. Eduardo Saverin, um dos sócios do Facebook, nascido no Brasil de pais judeus (e atualmente residindo na Indonésia), renunciou à cidadania americana para pagar menos impostos. Os primeiros dias do Festival de Cannes geram especulações sobre os filmes que podem alçar-se a algum prestígio de público e/ou crítica (o festival, que começou dia 16, termina dia 27 próximo). O futuro da democracia no Egito equilibra-se na corda bamba. O México parece haver herdado os sérios problemas com traficantes de drogas que já foi negro privilégio da Colômbia: um massacre tirou a vida de dezenas de pessoas. Especialistas indicam que a saída da Grécia da União Europeia está por um fio e alguns dias. Estudos apontam que os cavalos foram domesticados há seis mil anos entre a Ucrânia e o Cazaquistão.  Por aqui, foi necessária a intervenção do governo para que os preços de hospedagem durante a Rio+20 sofressem algum abatimento; e o Brasileirão larga tão pouco inspirado quanto oportuno. Estes foram alguns dos assuntos comentados ao redor do mundo, semana passada. E pelo menos não se falou de nenhuma atriz que teve as fotos íntimas afanadas de seu HD. 

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: I. Magia ou O Incorrespondível Desejo


Francis Bacon

As pessoas tem um desejo enorme que um punhado de letras traduza uma complexidade, barafunda de sentimentos, sensações, condições, estados de espírito que são elas próprias. Que essas letras, coitadas, sintetizem isso tudo. Como se fosse possível uma correspondência. Ou, mais adiante, uma coincidência. 

domingo, 20 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: II. O Que Coincide Não Tem Olhos Para Fora De Si


Francis Bacon

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho ou saguim. E o que coincide não tem olhos para fora de si. E jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, e de nascença. Pois coincidências e prisões cercam do mesmo jeito. Têm o mesmo termo em latim no nome científico. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las.