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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pedaço de Carne




quando eu morrer, vou ser um pedaço de carne

e nenhum anjo posto na sombra vai

me dizer para ser isso ou aquilo. ou

quem sabe, as moscas varejeiras digam:

será que vale a pena tirar sangue desse aí?

não. o sangue dele é ruim, viu? Tinha ruim até

no nome. leu demais, ficou mofino: o

sangue, fino; ralo como os cabelos sobre

a  testa. e a gente, a gente sabe que o 

sangue de um tipo assim não presta

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Emily




Eu não sou ninguém. E você: é quem?
Será que você é ninguém também?
Isso dá dois de nós, você vê.
Mas não diga. É segredo.
Senão eles nos põem na TV.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ladainha

Jeff Larson, 2000



oh, mulher de olhos fechados à beira da piscina, pensa em mim e em como eu perdi a minha rima.

oh, mulher com uma melancia na cabeça, pode ser que não gostes de mim, mas por favor não me esqueças.

oh, mulher com um periquito no ombro, a primeira vez que assuntei nos teus lábios foi um verdadeiro assombro.

oh, mulher preparando cup cakes, a simples lembrança dos vincos no teu rosto makes me ache.

oh, mulher sonhando um passeio de rio em tocantins, bem sei: mais aprecias o boi de parintins.

oh, mulher envergando pés de pato, será que para ti não fui mais que um carrapato?

oh, mulher com iPhone na mão direita, porque com a esquerda rebates minha desfeita.

oh, garota calibrando o material rodante, qualquer dia desses vamos bater numa aldeia xavante.

oh, mulher disputando os cem metros rasos, desculpa-me as precocidades. e os atrasos.

oh, mulher cantando marisa monte, a cada vez que te vejo, desapareces no horizonte.

oh, mulher batendo um bolo de cenoura, não sei qual a mais torta, se és tu ou se é a moura.

oh, moça que gerencia o estafe do centroavante, volta e meia dou meia-volta no carro, para te ver mais adiante.

oh, mulher passando de skate lá fora, se já me deste antes, porque não me dás agora?

oh, fulana jogando capoeira, tens algo de iemanjá, de joana d'arc, da beltraneja.

oh, menina remando contra a corrente, diz-me ao ouvido uma oferta para lá de indecente.

oh, princesa brandindo uma caçarola, será que um dia ainda vou te dizer: corra, lola, corra?

oh, ofélia esparramada em praia sob castanholeiras, não me deixes aqui assoviando “el dia que me queiras”.

oh, julieta armando instalações pelo país, me encontro tão mal amado, que já nem sei: tenho raiz?

ah, tesouro com lábios de monica vitti, por que não compareceste ao meu convite?

oh, marília escrevendo dissertação de mestrado, e fazias tão bem pato no tucupi, maniçoba, pirarucu grelhado.

oh, mulher nadando os duzentos metros borboleta, e ainda lembro a primeira vez em que beijei-te a silhueta.

oh, mulher assistindo sci-fi em cinema poeira; se for do teu agrado, amanhã mesmo plantamos um pau pereira.

oh, mulher, mulher, quando chegar meu outono, empurra direitinho minha cadeira até a fono.

oh, amor, quando eu descer ao último endereço: darás para o cafetão? para o gângster? mas não a qualquer preço.

oh, mulher com o cartão de crédito na mão, podes comprar o conversível, mas deixa para outro o caminhão.

oh, gata assistindo ao grande prêmio da malásia, que no futuro sejas contra esse negócio de eutanásia.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

'So tart is art'



Ilustração afanada do blog da Eugénia de Vasconcellos, o Cabeça de Cão

so tart is art

life a spare part

mean is my heart

Fastio




Quando a luz cega
e não há muito critério de o que pôr
antes ou depois
no carrinho de compras dos afetos
assim meio puídos como meias de colegial
um casal, que estava destinado
a desencontrar, encontra-se
para só então

Você viu como a manchete
avizinhou em tom certo
verso de Dante?

Esse horror de estar desconectado

Espeta a azeitona preta
e contempla a tarde como se
o visor do smartphone, continuado
mesmo sem linha, pudesse
dar a resposta

E então, as molas, o sobressalto
antecipam o feriado e o nada rói
até o que se faz o tempo todo
para nada fazer

Erva daninha essa que você fuma
e sua, a pressão baixa, e vai ver se está
lá na esquina

Você bem sabe porque suas alegrias
viram alergias

Ou por outra, por onde
andaram meus sapatos e ideias
por aqueles dias

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Falhado Nóstos



desci à mansão dos
mortos, e implorei a
Hades por ti e ele
disse que não, e de jeito
nenhum, amizade. pluguei
a Telecaster, e cantei refrão
té de manhã. de saco
cheio, mas também
olhos de lágrima, pois
até pedras choravam, ele
disse: “tá, ok, meu chapa,
você venceu, pode levar:
o que é seu, o bicho não
come. mas olha lá, não
tem devolução nem
recall, passado o portal e
o prazo: é como se
ela tivesse outro nome.
e fica esperto, num
olha pra trás no mei' do
caminho, senão a rosa
vira espinho, some, volta
por onde veio para o
mesmo cantinho. e aí,
brô, como no poema de
poe: nevermore. e lembra
da mulher de lot, que
virou estátua de sal. não cai
na esparrela de olhar pra trás,
senão já era, babau, nunca
mais. não esquece: esse 
é teu laço, pedágio, até
sair do pedaço”. 
                          
                          senti teus
passos na escada, tua sombra, teu
vulto, halo, pingentes, perfume,
tua sola nos batentes acercando
-se de mim, o articular dos
teus artelhos, baita
fluência de ciranda, mesmo 
naquele vale de lágrimas
- uma agonia, um xafarraz -
teu ninho de água-marinha,
senti teu cheiro de flor,
e até senti algo mais:
teu dente mordendo dente
teu hálito, rumor de seda nos
braços, teus panos quentes, teus 
passos sem repercusso ao
longo do corredor. teu
pigarro, alfazema, o jeito de 
mascar cravo, assim de mor
charme - feito lá pela
Praia de Iracema - a ponta 
dos teus saltos batendo no 
trottoir. mas a certa altura, numa
dessas horas - xis gê dê ou agá -
(ou seriam dias, praias, chips,
rios ou raios, décadas a fio)
o tropeço. teu grito. me
fez olhar de soslaio,
desprevenido ponto com,
cambaleei, quase caio.

e de tua sombra, ah, minha
Eurídice, não ficou nem som

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pra não assanhar o cabelo


Gabriel Figueroa

eu ando sempre
com o vidro fechado
pra não assanhar o cabelo
nem apagar o baseado 


escrito num vidro de cabine de caminhão estacionado para desembarque de mercadorias junto ao depósito de um movimentado supermercado de Fortaleza

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E não é também para isso?



fiquei pensando em
você até não poder
mais, e então não
pude mais

no jeito que
você se vestia
para eu melhor
lhe despir
e despia

jeito que você
imaginava como
seria o dia
depois do dia
e assim ia

em discreta
sequência
até que você
o vestido, a nudez
o poder e o dia
precipitavam-se de vez
para nunca mais

ou vertiam-se como
argumento sobre 
a sombrinha
gotejante ou 
você a dizer que 
não se importava
nadinha com a 
efemeridade 
do mundo

nadinha depois
você pôs como
nome de sua gata
e ela, esperta 
salta por cima 
de sua vontade
de procriar
nadinha

mulheres e homens 
dizem: não querem 
filhos. depois crescem 
olheiras. e aquela
vontade de criar e 
conversar com 
plantas, bichos 
-e não só assistir
aos bergmans da vida

e tratá-los com um
carinho opressor
requintes ditatoriais
como os demais
pais tratam os 
filhos neste
mundo com matos 
e cachorros

e não é também
para isso que 
servem cães
e gatos? para 
ajudar-nos a nos
suportar sem 
a algazarra das
crianças?

domingo, 7 de outubro de 2012

Pássaro Judeu

Um exemplar de blackbird (melro)

eu também canto
tenho asa, voo 
e também vou
até onde o santo
diz ao pássaro
seu igual, seu irmão
eu sem alçapão
além do claro
vou cantar no breu
pássaro judeu
entre o escombro
também quero
pousar feito melro
no teu ombro

sábado, 6 de outubro de 2012

Taken at All


O blogueiro tocando em uma gig , 1997


repare bem, 
veja bem, este sou
eu, eu que mal consigo
lhe ver, eu que passei
tanto tempo cego
olhando para um livro
incapaz de lhe escrever
incapaz de comprar o
bilhete e botar no
rumo um pé depois
do outro com um
pouquinho mais de 
prumo, um pouquinho
mais de abrigo e 
sentir o vento a
soprar nos cabelos 
que agora arrumo

será que ainda
é possível tomar
esse rumo até onde 
o texto, o vento
os cabelos e o depois 
fazem a curva
viram resumo?




Sincronia




agora falamos a mesma
língua, se vou por cima
você adivinha o porão
se alibabado em quarentena
a ocasião, o fazer, o ladrão
se você geme baixinho
o gozo do samba suinga-se
pelas paredes do ninho

aí, ponho o megafone
no labirinto
e tudo que você sonhar
(you know)
eu já sinto

Uma pergunta simples




há melhor coisa
que no meio
afunda
que a tua?

(mas agora entendo
quando doutos
dizem que o homem
é um produto do)

Geometria Plena



depois daquela
côncava brecha
a vida ficou
mais convexa


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Registro




teu nome era
um nome aberto
e cheio de ás

frágil no centro
firme nas pontas
bom de falar

meada uma de 
rio já se botando
no mar

a cruviana, o estio
nome depois
do lugar

nele havia
lua e mangue
imburana, preamar

dunas, casa
seis janelas
no copiar estavas

passamos juntos
eu e teu nome
pelo canal do panamá

tiramos fotos
em paris, deu
vontade de ficar

depois, gravei teu
nome, e o fiz no
tronco mesmo do araçá

teu nome disse:
tenho fome, e
então fomos lanchar

por anos, assinamos
planos, as
versões a cotejar

disse teu nome:
tinha uma alma no
corredor, bem acolá

pelos arredores
de teu nome havia
um transe liminar

algo que vem e
depois some e mais
não cansa de voltar

passamos férias
em minas, para quê:
minas já não há

lemos juntos
bazin e borges
e até jacques derrida

bolamos juntos no capim:
feliz quem tem
nome a zelar

-pensei, enquanto
desabotoava teu nome
bem devagar

o que teu nome 
sabotava: minha
tristeza secular

essa vontade de
partir, sem perder
o de ficar

e então quando
a última casa abriu
e fui tocar

teu tenro nome
flor de lis, teu nome
não estava lá

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Para bom entendedor



para bom entendedor
a resposta segue
no banco de trás 
do carro  da pergunta:
por que a gente perde 
aquilo que mais junta?


domingo, 30 de setembro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

3 opções a opções




teria de mudar de ramo
ou no mínimo de rumo
teria de cair da cama
ou seria o cúmulo
teria de levar ferro
ou no mínimo fumo 

Nem sempre fui assim




nem sempre fui assim
enrascado de nascença
trancado dentro de mim
no escuro dessa despensa


O argueiro, a trave




então andou um bocado
auto-complacente
olhando o mal-feito do lado
sem olhar o seu de frente