terça-feira, 11 de setembro de 2012

Olha, Airton

O time do Fortaleza Esporte Clube, campeão cearense de 1974


olha, Airton, eu me lembro de uma crônica tua e eu estar morando em São Paulo. Morrendo em São Paulo. E te digo, com desconcertante firmeza: nem sempre achava que as tuas crônicas fossem a última cocada preta, meu velho, ou o mais recente fax do Parnaso; e, porém, naquela me atingiste como numa pedrada. E então, golpeado nos brios – falso orgulhoso Golias, que não se suspeitava David – sangrando entre as Clínicas e o Paraíso, enxergando o rosto das pessoas como pétalas numa rama, exilado e morrendo de saudade da Praia do Futuro e da marcação dos triângulos pelas ruas chapadas à luz, e os oitizeiros; te escrevi. E sem qualquer esperança que me respondesses. Afinal, já iam uns bons três anos que eu não publicava nada nos jornais de Fortaleza, e, como sabes, as pessoas esquecem rápido. E nem blogue a gente tinha àquela altura do returno.
Além disso, estavas uma geração adiante. O que é bastante e suficiente para que a gente se olhasse em prevenção. E, como se não bastasse, aqueles eram tempos de conexões discadas e precárias. E de imeios semelhantes às promessas de encontrar, que a gente sempre faz a amigos distantes e conhecidos próximos, a saber que nunca que irão acabar em boa cerveja. Quer dizer, era bastante incerto se chegavam ou não.
O fato é que aquele chegou.
E que me respondeste.
Nunca convivi contigo, meu velho. O máximo que trocamos, um aperto de mão – pode ser? – numa dessas cerimônias inglórias de lançamento de livro no Ideal ou ali no subsolo da Biblioteca. Ou seja, onde ainda há laquê no penteado da primeira dama e alfinete na gravata do “anfitrião”. Ou onde mais seja em que a pompa, oca, um pouco estúpida da Academia, haveria de te rejeitar de véspera.
É. Mudei de servidor. Parece que também mudaste. Perdi todos os imeios daquele tempo. E o que me escreveste, em resposta, foi junto. Mas sei: aquilo foi mais que virtual. Foi mais da ordem do humano que da doutrina do homem de letras. E deixa eu ver se entendi: e não é melhor assim? Para poder calar-nos em paz?
Mas hoje, Airton, eu vou pagar uma cerveja. E tomá-la lentamente e sozinho. Pensando em roubar manga no quintal e em São Francisco de Assis. Nas divas do cinema, que também encontravas pelas praças do Benfica. Em Noel Rosa e na Rua Dom Jerônimo. Na Perna Cabeluda e em Chet Baker. Em Freud, em Trótsky e no Baleia, o garçom. Pensando num mundo sem smartphones, mas com tertúlias imemoriais, nas quais os Fevers e o Rei cantam diferentes versões de "Agora, eu sei", para sempre. Nas mitologias que criastes desde a Gentilândia. No glorioso Leão do Pici – que sequer é meu time. E no sereno das madrugadas caindo sobre as teclas da tua máquina

aposentada de pouco.

O Aleph



no futuro, o homem valerá também pelo dispositivo portátil. Ou seja, os smartphones e tablets – ou algo análogo a eles, porém menor, já devidamente ultra-microchipado, não se sabe se já embutido sob a pele – terão de ser aceitos em concursos, avaliações. Talvez consistam em algo tão só tatuado, que você possa tocar de leve, não como se ataca o prurido com as unhas depois de algum tempo e resistência. E terão de ser aceitos, porque se o aluno anteriormente não podia consultar livros durante uma prova, isso se dava em função de não poder portar consigo todos os livros. Quer dizer, os da instituição ou os sobre o assunto em demanda. O caso do smartphone ou do mini-tablet é diferente: ele se propõe como complemento cerrado do pensamento. Se ideal ou não, não vem ao caso. Ele pode conter bibliotecas inteiras, vastíssimas, em muitas línguas, enciclopédias em fila – e não só livros, como também filmes, sons, mapotecas, 3D's, museus de belas artes...E, mais urgente, vai chegar-se ao ponto em que será impossível desfazer-nos deles, por mais que desejemos. Em resumo, talvez haja sido por uma desses que Esaú trocou a primogenitura. Equívocos sempre os há, ao se passar a mensagem, como na brincadeira do telefone sem-fio – que, de resto, agora é real. Mas é também toda cultura material do mundo compactada numa geringonça que ocupa menos área que uma lata de lentilhas em conserva. E se pode levar para onde se for. Como se porta um anel, uma verruga

o próprio Áleph materializado

Real novidade, talento, vida: uma homenagem aos que fazem




fácil gostar de Bergmans ou Cassavetes. Ou, hoje em dia, mesmo, digamos, de Marcelos Gomes ou Caos Guimarães. Mais difícil é gostar de um bando de pirralhos anônimos, que saem para gravar fora de hora. Levam chuvas ou se bronzeiam compulsoriamente. Arriscam perder equipamentos, pois a bandidagem não vacila. E equipamentos, para eles, não dão em pés de jambo. Vão para o estágio ou a faculdade no dia seguinte, morrendo de sono. Não podem contar com muita coisa além de seu próprio olhar; a sede de vontade de, saltando as engrenagens da indústria, oporem um rosto às ruas, gentes, gestos: pedra de toque. um rosto muito diverso da ficção do telejornal ou do documentário da telenovela, do blockbuster...

e ainda tem de ouvir de pais e amigos: estão perdendo tempo. E de críticos, que nunca juntaram dois takes gravados com câmera de celular, a redução a pó de seus esforços, depois de estes vomitarem a lenga-lenga amparada na usual listinha de autores, teorias, dispositivos, em que não vai qualquer real novidade, risco, talento, vida, astúcia, ser vivo

à lucidez de alguns é preferível essa poética falta de jeito e abençoada confusão dos mais novos. Coisas que procedimentos em série ainda não domaram

e, em certos casos, nunca hão de 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Hei De (ou São Tantas Acupunturas Nesta Vida)




gosto quando algo de você ainda escorre pelo ladrão de mim. O gatuno que fui. De hábeis mãos. E então sei que lhe roubei bem. Faz algum tempo. Algum passeio de bicicleta, um beijo, uma esperança. Aquela palavra alada. Talvez riso, cheio de emboabas e emboras. Embora a que eu conheci não ria assim fácil como quando você está em público agora. Ou ocupada em passar pelo fio de agulhas. Ou a tentar fintar as próprias dores. E aparecer menos complexa. São tantas acupunturas nesta vida. E então?

nada dada ao pastelão era você, naqueles carnavais. Fiquem com o pastelão

e eu hei de ficar com você, no instante em que perigar 

um pouco mais

domingo, 9 de setembro de 2012

O Escritor


Valdo Aderaldo, Pádua Pires, este blogueiro que vos fala, e, em segundo plano, Fernando Costa e Gentil Barreira #Sódelombras; em algum lugar dos 90', o grupo que apenas imaginava coisas

não é esta ou aquela foto no Instagram que faz de nós interessantes, mas nossa capacidade de experienciar mais o mundo fora da foto. Ao largo do filme 

(uhmm. É também preciso dizer que não se leva em conta a lógica em si da frase. Pois, no caso, esta frase será cada vez menos verdadeira. Quer dizer, quem não viver intensamente através de fotos, também não convergirá para os outros. não conseguirá viver de fato fora delas. Porque as fotos vem galopando sobre as palavras, faladas e impressas, não é de hoje)

é. em geral, a gente passa batido. um escritor? um escritor olha, reavalia. e então nota que há algo lá que pode ser melhorado. que pode ser dito de uma outra forma. anota a frase e cisma com ela. altera os termos. melhor? repete-a em voz alta. talvez. e cisma. e se pergunta: o quê? o que, meu Deus? seu ouvido-olho sopra-lhe a charada. ele a sente. a frase está no ar. ele pode até sentir sua extensão. a frase, ali, abstrata ainda, sem o sentido das palavras. como uma forma platônica e anterior, que periga. profundamente. mas não. é até antes que platônica. apenas uma duração. uma medida. um som deitado na rede de balanço do tempo. sem qualquer conceito ou sentido anterior. mas também ela ameaça querer escapar. e ir para a casa da mamãe. e fazer jogo duro. até que, enfim, ele chega lá:

não é aquela ou esta foto no Instagram que nos faz interessantes, etc.

A Direção de Arte dos Sonhos




ele se ligava mais na direção de arte dos sonhos do que propriamente no enredo. Afinal, todos os enredos são iguais: uma terra, um trabalho, um conflito, uma mulher. E do jeito que você contar, eles apenas vão ecoar, mais ou menos, dentro da tubulação. Mas, no caso dele, uma intricada rede de túneis e esgotos deixava a Paris subterrânea no desconsolo. O analista ainda tentou que ele contasse histórias. Não contou. Não abriu a matraca. Não teve jeito. Preferiu descrever a ambiência

e entrou pelo cano

sábado, 8 de setembro de 2012

Paranauê, paranauê, paraná



quem não percebe a tendência contemporizadora da cultura brasileira é também incapaz de temperá-la mediante acréscimos e analogias – as melhores das quais, perfeitamente inesperadas. E, logo, ao invés de fortalecê-la, a deprime. Essa tendência para o acordo antes que para a confrontação é tão ampla, que, numa das poucas artes marciais não asiáticas a difundir-se ao redor do globo, a capoeira, os atletas – chamados brincantes ou jogadores – sequer se tocam. Seus pés, mãos, joelhos, cotovelos, passam voando como lâminas afiadas, muito rentes ao corpo um do outro, mas em momento nenhum há toque. A não ser quando se cumprimentam. O resto é movimento. É a vitória da civilização sobre a truculência. E, então, eventualmente na roda, fazem soar juntos os atabaques. A capoeira, ao invés de luta, virou jeito de corpo, coreografia, dança, linguagem. 
Mas também quem só faz atenção aos movimentos, aos ritmos, perde a noção da beleza lamentosa e cheia de chagas que segue entoada nos cânticos e refrões de capoeira. É algo forte como nos blues, onde a tristeza assenhora-se do tempo. E é preciso exorcizá-la. E o exorcismo se dá através dela, remindo-a. E  há melhor forma de fazer isso do que cantando?
Conjugando tudo, essa é a mesma chispa, a mesma energia presente no drible do futebol. A que lega a nossos jogadores aquele plus necessário para improvisar coisas que os outros não acham tempo nem espaço de bolar. Coisas que simultaneamente são de vanguarda e do arco da velha. E eles próprios não estão nada inclinados a separar entre sedimento e novidade. (Essa não vocação para enveredar pelas especiosas comodidades do meta alimenta). Futebol é quase sempre intuição. Se não fosse, não pareceria com vida. Nem seria assim popular.
Mas, em outra instância, se tomarmos o frescobol, esporte de praia criado no Rio, é para notar sua índole cooperativa. Como na capoeira, não há vencedores ou vencidos. Nem mesmo uma competição expressa. Porém ambos os praticantes empenhados numa cooperação. Em reunir-se em torno de algo que, não só é prazeroso, como maior que a individualidade de cada um: o bem-estar físico e mental de ambos. A beleza, a sincronia dos movimentos. E de novo a tal inclinação para contemporizar.
E não há nisso uma sabedoria análoga à do budismo zen?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Regina Duarte, Alice Braga, as brunetes e certo riso nos jardins de outra década




um dia, aí pela década de oitenta a meio, vi Regina Duarte na alameda externa do Theatro José de Alencar. Envergava turbante e óculos escuros, blusa e calças compridas de tons claros, sapatos de salto e uma écharpe. Além daquela auto-suficiência –  mansa, não injustificada – de supor que todos a conheciam pelo país afora. (O que, de resto, era absolutamente verdade: haveria rosto mais famoso que o da ex-namoradinha do Brasil, mais ou menos ao tempo em que ela fez a Viúva Porcina?) Só estávamos nós dois. Ela, que reconhecia o entorno, olhou para mim, e sorriu em simpatia. Não falamos nada, apenas nos cumprimentamos

talvez ela haja pensado que eu era um jovem ator local no intervalo do ensaio, da oficina. E não lembro o que eu fora resolver no Theatro àquela altura. Ela estava em seu elemento. Mas nunca lidei bem com esse negócio de puxar conversa com gente famosa, embora naquele dia tenha ficado, algo, tentado. E, todavia, fere meus princípios incomodar alguém por motivos de celebridade. A não ser que sejamos apresentados¹. E, então, ficamos no boa tarde e no tudo bem 

provavelmente foi uma das vezes que cheguei mais perto de um daqueles mitos absolutos da televisão. Carinhoso, a telenovela – a exemplo de umas poucas outras – fazia nossa casa parar, naquele tempo em que a Globo detinha o monopólio da vida e dos corações. E que coisas inteligentes, como Roque Santeiro, iam ao ar no horário nobre. Porém nem todos que escrevem folhetins possuem a desenvoltura de Dias Gomes. E não que hoje não haja coisas inteligentes, palpitantes. Apenas os tempos são outros. E a gente também. E a Globo já não é mais tão monopólica assim

mas agora sabendo que Regina é filha de cearense, posso dimensionar melhor certas coisas. Alguma familiaridade que nos era cara. E não fazíamos ideia de onde vinha. Aquele gargalhar esganiçado, escovado, mais fluido que a de outras atrizes da TV. Um rir à solta, assim meio sem-vergonha, e que soa tão nosso. E, então só faltava ela vaiar do jeito que só nós vaiamos neste mundo. Isso bem que explica ela ser parecida com a menina que sentava a seu lado no ônibus, indo pro Pici. Ou tomava um coco na Praia do Futuro. Ou batia ponto à tarde na Ponte Metálica, numa roda de violões ao pôr-do-sol. Ou tomava sorvete no Juarez. Ou você via passar pelos corredores do Ibeu. Ou entrava numa das lojas de um Shopping Iguatemi recém-inaugurado – e você entrava atrás por mera inércia. Ou envergava um chapéu coco que parecia menos uma homenagem a Chaplin que a Lena Olin. Ou ainda ia a um show do Grupo Budega, no Anfiteatro da Volta. Ou à Feirinha da Praça da Igreja de Fátima. E vestia-se, ainda um pouco hipponga, com aquelas blusinhas artesanais bordadas, e pisava sobre um chinelinho de couro ou sapatilha chinesa. E assim seguia aos festivais da Crédimus. E às sessões de arte no Gazeta

e, por falar em Regina Duarte, é surpreendente a semelhança que há entre ela e Alice Braga. E ambas são muito parecidas com certo tipo de brunete fortalezense, que mescla um bocado de português a um leve delineio indígena. E não por acaso, Alice, que é uma alusão à Regina jovem, fez uma cearense na série As Brasileiras ("A Indomável do Ceará"), da Globo. Algo se ilumina

e essa mistura é pura explosão


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¹Isto, de resto, está no temperamento da família. Como uma regra tácita, que todos seguimos, sem termos acordado previamente. Uma opção por não dar muita trela à notoriedade. Durante as gravações de certa novela da Globo ambientada em Fortaleza, aí pelos 90, meu irmão mais novo fazia graduação. Estava próximo à parada de ônibus e, como estivesse em cima do horário de aula, pedia carona, o indefectível polegar em riste. Selton Mello, que fazia parte do elenco da novela, ia passando num carro, e lhe ofereceu carona. Meu irmão cumprimentou-o. Checou o itinerário. Entrou no carro. E seguiu calado. À certa altura, depois de algumas referências um pouco oblíquas sobre cinema, anúncios, telenovelas, televisão, Selton lhe diz:
–Cara, Fortaleza tem crescido pacas, né?
–É–responde meu irmão. 
–Parece que estão até gravando uma novela da Globo na cidade.
–É o que dizem. 
–Pô, você não vê televisão, meu irmãozinho? – indaga Selton, então um jovem ator, já um pouco desesperado.
–Vejo. Mas, repare, eu vou ter de ficar bem ali na esquina. 
Meu irmão agradeceu a carona, saltou na Treze com a da Universidade. E foi embora. 
Somos todos assim. 
E não adianta ir atrás de razões.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Breve Antologia da Poesia Cristã




Sammis Richers, do blog Mar Ocidental, recém-organizou uma Breve Antologia da Poesia Cristã, que pode ser baixada gratuitamente ou lida online, na íntegra, aqui. O trabalho reúne autores que vão desde Gregório de Nazianso, patriarca de Constantinopla (séc. IV), até a poeta espanhola Maria Vitória Atencia, passando por nomes imprescindíveis como San Juan de La Cruz, John Milton, William Blake, Gerard Manley Hopkins, Charles Péguy e Paul Claudel, bem como por nomes menos óbvios: Achim von Arnim, Theodor Körne, Ugo Betti, Lucian Blaga e Denise Levertov. O recorte é amplo, ecumênico, como o próprio espírito da cristandade. Para os interessados em conhecer alguns dos mais belos poemas dessa tradição, que bem pode ser posta em paralelo à da música sacra, no Ocidente, a antologia – de caráter propedêutico – vem a preencher bela lacuna e fazer as vezes de um instigante coro de abertura ou preâmbulo. E então, subsistem a fé, a esperança e a caridade. 

Mas a maior delas é a caridade.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mais dois tipos de arrasar quarteirão






[Aos que se prendem nesses detalhes imprescindíveis,] Após a revisão gráfica do site, em janeiro, quando sua aparência foi modificada pela terceira vez, desde 2007, foram adotados dois tipos de letras. Ambos não serifados e devidamente garimpados em famílias Open Source. A maioria dos textos está composta em Molengo. E, de julho para cá, se tem lançado mão também da Leelawadee.

Para uma noção dos tipos mais empregados em Afetivagem ao longo dos anos: Um pouco mais longilínea, como se fosse uma bela (e farta) mulher. No rol, dizem presente a Times New Roman, em sua versão mais longilínea; a clássica Palatino; a esguia Arial Narrow; e a surpreendente mas efêmera Undotum.

Avie. Indique Afetivagem a seu melhor amigo. E a seu pior inimigo. Eles se merecem e precisam saber da piscina. 

Só para ver se eu conhecia a letra dela

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

5 fatias do bolo de novas da madrugada



*
Hoje morreu Hal David, que escreveu a letra da magnética “Rain Drops Keep Fallin' on My Head”.
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Um terço dos brasileiros estão encalacrados em dívidas, segundo o Banco Central.
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Com o péssimo sistema educacional à nossa volta, estima-se que só 17% dos alunos encerra o ciclo básico com um domínio efetivo da matemática.
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Carlos Heitor Cony, que é daqueles escritores mais importantes em depoimentos que em livros, aparece em uma entrevista hoje. Mais uma. Desta vez no Globo. Cony, que é colunista da Folha, esteve tão próximo do presidente ao tempo de Juscelino, que chega a ser retórico o anarquismo que revindica para si. Ainda assim, por essa mesma razão, ele sabe de muitos rumores e bastidores. E joga com isso. E bem. Mas não existe algo como um estilo em Cony. E ele encerra a entrevista dizendo que, aos 86 anos e com câncer, só espera a morte e o Nobel. E que o Nobel não virá. 
Embora deselegante dizer, isto é certo: o Nobel sequer passa perto de Cony. E Ele é daqueles escritores que se gosta, com muitos descontos, do que costuma dizer. E também se desgosta um bocado. E, convenhamos, isso não deixa de ser uma virtude num país em que os escritores são apenas "gente boa" em seus previsíveis depoimentos públicos.
*****
São Gonçalo do Amarante verá sua população quadruplicar nos próximos dez anos. Passará a cerca de 200.000 habitantes. A cidade, é a sede de um município  que abrigará além do terminal portuário, já em operação no Pecém: uma siderúrgica, uma refinaria (estas procrastinadas à exaustão), duas usinas termelétricas (uma já em funcionamento) e um polo industrial em acelerada montagem. A região do Pecém e da Taíba atravessa uma muda de pele vertiginosa. Com todas as vantagens – e, num primeiro transe, as enormes desvantagens – que uma pequena cidade atravessa nessas circunstâncias de exorbitante crescimento econômico para praticamente nenhuma planificação: poluição (inclusive em sua faixa de praia), especulação imobiliária, falta de escola, de transporte,  de saneamento, de áreas de lazer,  de iluminação pública, de hospitais, complicações de tráfego, etc. Não há agenda ou interesse por uma planificação mais consequente neste país. E São Gonçalo, que não é excepção, já constitui um verdadeiro caso de estudo sobre mutação urbana no estado. Há valas de esgoto a céu aberto, lixo acumulando-se fora de aterros, loteamentos em áreas de risco ou de preservação de mananciais, etc. Para complicar, aquela era uma bela região de lagoas, dunas, mangues e pântanos. Para onde convergem pequenos rios, como o Siupé, concentrando em suas margens uma flora e fauna únicas e delicadas. Para não falar de um sem número de lagos e lagoas sazonais, que brotam ou se expandem consideravelmente durante a quadra de chuvas. Se a classe média alta buscou, do outro lado, o Porto das Dunas, para morar e veranear; a indústria apossou-se do lado inverso, que, ironicamente era até mais belo. É lazer x trabalho. Ou ainda quem mais trabalha sustentando a folga do pessoal de vida mansa. Ou, para todos o efeitos, a banda rica da cidade à leste a contrapor-se à pobre, no oeste.
Além disso, ambos os "Portos" balizam a expansão dos limites da Região Metropolitana de Fortaleza junto ao mar: a Oeste, Porto do Pecém, em São Gonçalo; a Leste, Porto das Dunas, em Aquiraz. 
Ainda que não haja nenhum porto no Porto das Dunas.

Um banho de sol no lethe



ei, nausícaa, como vão os náufragos e os grumetes,
as coisas que o mar traz e leva entre ilhas
e mesmo se nada der certo em tuas trilhas,
vem, vamos pegar um bronze lá no lethe.

sábado, 1 de setembro de 2012

Os Anjos da Artista

Ernesto Neto

Além do anjo da guarda, ela tinha também o anjo da vanguarda. Mas sobretudo tinha o direito de se auto-ajudar. Para que os projetos bastante pontuais, custosos, pudessem ser devidamente financiados por quem de direito: o namorado, que não era tão brilhante quanto ela no que tange a instalações, que não fossem as da elétrica praxe. Já aquelas outras, para ambientar em casas, centros e espaços de cultura, museus e galerias, eram com ela mesma. Pelo menos até a segunda ordem da conta. Quanto os afetos, então, podiam ser divididos entre o namorado e a família do namorado; e os editais e a família dos editais.

E era mais ou menos assim que ela divisava seus anjos: o da guarda, o do céu e o da vanguarda.

Mas o mais importante era o da vanguarda.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De três pra mais (síntese)


Escultura feita com jornais dobrados

na imprensa do Sul, os times do Nordeste nunca vencem. Os do Sul é que são vencidos. E estes jamais são objeto. São sempre sujeito

mesmo que tomem de três pra mais

De três para mais (glosa)



Distorção e Ponto de Vista

Na imprensa do Sudeste e do Sul, o Ceará Sporting, a exemplo de qualquer outro clube do Nordeste, nunca vence. Os times do Sul é que são vencidos. Mesmo um time relativamente modesto, como é o América-MG. E ainda que por 3x1. E em Belo Horizonte. Como terça passada.

É improvável, é excepção, que apareça na imprensa do Sul algo como: “O Ceará derrotou a domicílio o América-MG”. Na equação da manchete, um time do Nordeste jamais é sujeito. Não pode ser sujeito. É sempre objeto. 

É passivo na equação. E isso não reflete uma predisposição, um estado mental?

Não foge à regra a manchete do Uol Esporte sobre o jogo em questão: “América-MG inicia returno com derrota, em casa, para Ceará e continua má fase na Série B”. Ora, a torcida do Ceará é um bocado maior que a do América-MG. Consome mais. Tem mais projeção. E, inclusive, deve ler mais o próprio Uol. O mesmo se pode dizer de qualquer dos clubes mais populares do Nordeste: Sport, Bahia, Vitória, Santa Cruz, Fortaleza, Náutico, etc. Mas eles são tratados, em manchetes e textos, sempre do ponto de vista do objeto. Será que essa imprensa, que referenda acriticamente e até a medula o politicamente correto – que não foi criado num tête-à-tête com as realidades locais – não percebe a comicidade investida nesse modo centralista de noticiar? A ironia mesma?

Pode-se contrargumentar que o Ceará é visitante contra o América. E que Belo Horizonte está no Sudeste. E os grandes conglomerados de mídia do Eixão também. E, logo, estão mais próximos dos mineiros. E, portanto, noticiam do ponto de vista de Minas. [A despeito de haver muitas Minas. De Minas ser o estado da transição entre Sul Maravilha e Norte. E haver mesmo uma parte de Minas que esteja no Nordeste].

Porém a perspectiva é que é bem outra: a mídia de alcance nacional está toda, ultra-concentrada no Sudeste. Especialmente no Eixo. E é algo descompensado, imponderado, unidirecional. É algo que preda possibilidades em outros espaços. Que atenta contra a federação, pois seria necessário, no mínimo alguns poucos veículos de massa produzidos no Nordeste – e não só a TV Diário e sua vocação tão popularesca quanto legítima – que também tivessem alcance nacional. Que fossem nacionalizados. E, como não há essa emissão, o monopólio sudestino é feito uma grande mandíbula, de jacaré ou carro de coleta, que mastiga e tritura as possibilidades de uma diferença real, complexa, não esteada em estereótipos.

Essa mídia feita no Sudeste mas "nacionalizada" é também um predador que impõe a perseguição, de lá para cá. Pois não opera um fluxo inverso. Além disso, alguém no Acre ou no Espírito Santo vai sendo acostumado, desde sempre, a encarar o Nordeste na perspectiva do "eles", do "outros", do objeto – como fôssemos estrangeiros dentro do Brasil. Ou todo nordestino reduzido ao estereótipo, do tipo retirante, que dele se faz não é de hoje. Ou portássemos um selo ISO9000 do subdesenvolvimento por excelência, e em exclusividade. Ou fôssemos, grosso modo, os retardados mentais do país.

Ainda que  o conceito de subdesenvolvimento esteja em crise. Como se no Rio ou em São Paulo não existissem fundas desigualdades sociais. Como se o fenômeno dos coronéis não existisse lá, sob outras máscaras, disfarces, mutações. Como se as favelas não roessem os morros cariocas, e posseiros não fossem mortos a cada ano no Pontal de Paranapanema. Como se o Sudeste à época do Império não tivesse, drenando as possibilidades de crescimento econômico para si, esgotado as chances de desenvolvimento do Nordeste, transformando-o numa sub-colônia dentro do país. Uma zona exclusivamente agrícola, que consumisse os produtos manufaturados – nem sempre de forma competitiva, mas sempre de modo monopolista – em São Paulo. Como se as cifras da corrupção não fossem ainda mais avultadas no Sudeste e no Sul, embora menos noticiadas, menos apuradas na imprensa, uma vez que quem controla a mídia "nacionalizada" também anda de passo junto com a corrupção da elite política do Sudeste, a mais poderosa do país.

Como se Joaquim Cardozo, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, João Gilberto, Clarice Lispector, Celso Furtado, Marco Nanini ou Caetano Veloso não fossem do Nordeste. Porque ao Nordeste é bom que se associe somente o atraso. E dele se separe qualquer possibilidade de cosmopolitismo. Como se a Universidade Federal de Sergipe não tivesse deixado Usp, Unicamp e UFRJ no chinelo, no exame da OAB do ano passado, e isso não tenha despertado maiores reportagens. Ou mesmo menores. Repercussão nenhuma. O Sul Maravilha não quer ver-se ultrapassado nunca, em nenhum campo. Está mal acostumado ao monopólio de vencer sempre. Qual não vence, prefere calar. Como se qualquer índice de modernidade devesse ser extirpado do Nordeste, e a cara da região, exclusivamente reduzida à complacência de esquerda diante do retirante subnutrido e desgraçado pela intempérie, que lava a privada da classe-média no Sudeste.

Esse tom de notícia, naturalmente, despercebe, por completo, que vivemos numa federação. E, volta e meia – até por razões de auto-estima – seja necessário conceder o protagonismo aos estados "mais ao largo", e não só no Nordeste. Tornando-os o centro mesmo do assunto. E variando perspectiva e protagonismo, por turnos. Como deve ser, em equilíbrio.

E, claro, o futebol é apenas uma metáfora. Tudo é noticiado dessa forma. Absolutamente tudo. Ou quando não, revestido de complacências, paternalismos, menosprezo, alguma indulgência, e, logo, envolvido, embalado para pronta entrega, para viagem, no primeiro clichê mais grosseiro e à mão. Por exemplo, quando Sarah Menezes ganhou a medalha de ouro, vários trollers já aguardavam de plantão nas caixas de comentário dos grandes portais pela justificada euforia dos piauenses e nordestinos. Para logo tratar de relativizá-la. "Precisa ver onde essa menina evoluiu e pegou experiência", era o arrazoado da vez, esperando, praticamente supondo, que a judoca, como quase via de regra em casos assim, houvesse completado seu ciclo de treinamento no Rio, em São Paulo. Era o argumento com que esperavam ansiosamente contar, para sancionar, um pouco simploriamente, a suposta superioridade do Sudeste/Sul sobre o Nordeste/Norte. Quebraram a cara. Sarah vive e treina em Teresina. E saiu de Teresina para vencer em Londres. Sem escalas.

Em outros, em todos os ramos da atividade humana é necessário que itinerários como o de Sarah se multipliquem. E não só no Nordeste, como no Norte, no Centro-Oeste. E no próprio Sudeste, onde há muita gente e muitas áreas excluídas por esse câncer histórico que é nossa incapacidade para distribuir renda e descomprimir informação na grande mídia. E evitando intermediações, paternalismos. E isso só se vai conseguir se o Nordeste prosseguir a crescer, economicamente, acima da média nacional pelas próximas décadas. Assim como essas outras regiões menos achegadas ao Eixo.


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NOTA POSTERIOR (Uma Ultra-Glosa)
Há, no entanto e entre outras, duas exceções notáveis de paulistas em relação a essa mão única da notícia "nacionalizada". A essa rotina da perpetuação de falácias e sovados estereótipos. Dois autores, dois seres humanos que realmente compreenderam, antes do tempo, a tragédia e a complexidade do Nordeste e de onde mais no Brasil, em toda sua amplitude. Um deles é Euclydes da Cunha. Em Os Sertões, comove o modo como quase a despeito de toda a tradição em que foi educado – ou seja, das suas arraigadas convicções positivistas  – Euclydes termine por empatizar, meio que intuitiva e profundamente, com os sertanejos de Canudos. E denunciar um crime de Estado. Na outra ponta, o espírito moleque de Mário de Andrade propõe em Macunaíma, o herói sair de um estado como o Amazonas, atravessar a fronteira e já se achar, como que por mágica, no Rio Grande do Norte. E a intenção, a metáfora, aqui, vai por implicar que somos o mesmo país na e pela diversidade. Mas também que o que nos une, nessas diferenças, é uma vasta cultura e história comuns. Passadas sob o mesmo teto austral. Uma espécie de regime alimentar, no qual a língua – e por meio dela os mitos, a história – é o prato principal. O que nos torna, a todos, vizinhos e contíguos, a despeito ou não de os estados serem fronteiriços entre si. Os cearenses colonizaram o Acre, quando ele ainda era território boliviano. Mas também portaram as técnicas de charquear a carne para o Rio Grande do Sul. Pinheiro Machado, o famoso caudilho gaúcho da República Velha, era neto de um cearense: Ambrósio Pinheiro Machado, do Quixeramobim. (Aliás, padre.) E dados assim são só a ponta do imenso iceberg de nossos estreitíssimos parentescos...E responderia muito melhor do que qualquer clichê mais torpe, ensinar uma história que desse conta desses intercâmbios e suplementaridades interregionais. Uma que fizesse o jovem, desde cedo, perceber a razão de sentirmo-nos, em última instância, brasileiros. Mas também que o nordestino, que se e encontra no Sudeste e no Sul, em trabalho braçal, se encontra forçado, contra a vontade. E que seu desejo passou longe de ser empregado doméstico, explorado, ocupado com trabalhos árduos e mal remunerados, morador de favela, assalariado mínimo, mal ganhando o suficiente para se manter e sendo transportado por uma rede pública ineficiente, exígua, desconfortável. E, pior de tudo: longe de casa. E não menos também, que esse migrante, em sua humanidade, não é assim tão diferente do próprio ancestral de alguém da classe-média paulistana, e que chegou por lá roído de fome, uma mão na frente, outra atrás, da Europa, num passado só um pouco mais remoto. E que os próprios italianos sofreram duríssimos estigmas até serem aceitos pelos quatrocentões. E que a grandeza de São Paulo é obra desses imigrantes nordestinos tanto quanto dos imigrantes europeus do final do sec. XIX. E que há aí uma suplementaridade. O que implica também dizer que um dos méritos do Nordeste está em ter preservado, apesar de tudo, um largo contingente de descendentes de índios, negros e cristãos-novos, justamente as etnias mais estigmatizadas. Justamente as mais perseguidas por quem escreveu e escreve a história de um ponto de vista eminentemente ocidental e europeu. Basta lembrar que nos Estados Unidos, os indígenas foram praticamente extintos, dizimados por descendentes de europeus. Ou, a exemplo dos negros, viveram séculos confinados, segregados em reservas e guetos. E essa segregação, essa barbárie, só recentemente suavizadas pelo discurso politicamente correto e pelas teorias multiculturalistas – os mesmos que importamos acriticamente, sem separar trigo e joio – se dá até hoje. Ora, como esperar que alguém que emigra por necessidade, feito o nordestino pobre, chegue ao Sul do país em igualdade de competição com os que já se encontravam lá há séculos? Ou mesmo, depois deles, como os descendentes de imigrantes europeus mais recentes, que sobrevieram para substituir a mão de obra escrava? Ora, mesmo estes já chegaram imbuídos, "equipados" de valores (alfabetização,  ou semi-alfabetização, alguma educação formal ou treino profissional básicos), que portam consigo o selo da lógica, da disciplina, da acumulação de capital e da ilustração. E por vezes há gerações. É também evidente que os que mais ranço guardam contra os imigrantes nordestinos em São Paulo são, em geral, pessoas de baixa escolaridade formal ou falta de visão. Mas nem sempre. Estes também não percebem, por exemplo, que hoje em dia, com o boom econômico no Nordeste – que tem mais potencialidade de crescer, porque ficou estagnado por mais tempo que o resto do país – o fluxo migratório está até se invertendo. Sob outras variáveis e perspectivas. Ou seja, hoje, mais e mais, são sudestinos e sulistas que estão imigrando para o Norte. Ou nordestinos, ainda não suficientemente assentados no Sul, que seguem retornando para casa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Um Casarão em Granja




por vinte seis olhos, disponho vinte e seis e mais olhares, mais uma tórrida tarde, três mulheres na rua, uma vassoura nas mãos de uma; o silêncio das calçadas, o conjugamento das outras casas, e as vizinhanças do rio. O tempo a ver se estou lá na esquina. Uma imensa nuvem, nuclear-cogumelada, pairando acima de uma cidade para sempre perdida

À medida que se aproxima do agora

31 x 0



não é mentira. Deu no Guardian. Ontem, um time da 2ª Divisão da Romênia perdeu para um time da 3ª. Placar: 31x0. Achando que o adversário seria café pequeno, os perdedores escalaram sub-19's. O plano era empatar, cozinhar o jogo ou perder de pouco. Passaram longe. Só o primeiro tempo terminou 12x0. E o presidente do time vencedor, visivelmente constrangido, declarou: “estou vexado em lhes dizer o placar, mas não é da nossa conta se eles subestimaram a competição” 

e, convenhamos, não foi uma subestimação qualquer, cara de chulé

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Urbanismo e Convivialidade: o exemplo de Lima

A Catedral de Lima, na Plaza Mayor, ao cair da noite

O exemplo de revitalização mais exitoso de zona central urbana na América do Sul vem de Lima. E parece ocioso que o Brasil não haja mandado especialistas em urbanismo e políticas públicas para averiguar as razões do êxito dessa intervenção. E aprender com ela.
Até os anos 80, o centro de Lima assemelhava-se ao de qualquer grande cidade brasileira: violento, sujo, confuso, poluído visualmente, pobre, entregue à própria sorte: todo emporcalhado por pichações e equipamentos públicos arrebentados. Seus residentes eram ambulantes, trapeiros, gente de pouca qualificação profissional, já que os mais abastados - e mesmo a classe-média - haviam buscado no subúrbio distante o modelo dos condomínios, do carro, dos shoppings. Fluxo que a especulação imobiliária tem incentivado mediante publicidade ostensiva, sub-reptícia e, eventualmente, o molhar as mãos de vereadores e altos funcionários públicos inescrupulosos. 
O centro de Lima recebera em 1992 o título de Patrimônio da Humanidade. O receio da Unesco, então, era o de que todo um catálogo de estilos e funcionalidades da arquitetura colonial se perdesse definitivamente em meio a decadência do bairro. E o título veio justo para tentar contornar esse estado de coisas. 
O centro encontrava-se às traças. Prédios históricos, em péssimo estado. Trapeiros e ambulantes, que lá moravam, também ocupavam as ruas durante o dia. O clima era tenso: ruas violentas, assaltos, tráfico de drogas e outras formas de contravenção e gangues. Brigas entre facções. Escolas de péssimo nível, periodicamente depredadas. A auto-estima não andava em alta.
Desde então, sucessivas administrações municipais priorizaram o centro. Alberto Andrade, prefeito eleito para dois mandatos consecutivos, vestiu a camisa. Teve inicialmente de ganhar uma batalha pouco gloriosa, mas absolutamente necessária contra esses vendedores ambulantes que dominavam as ruas há anos, convertendo-as em propriedade privada, divididas por setores de prostituição, assaltos, repasse de drogas...Andrade logrou êxito em realocá-los. O que abriu o bairro para a visitação e a circulação, e desalojou focos de violência e tráfico. O próprio prefeito mudou-se para o centro com a família. Para dar o exemplo.
Nas administrações seguintes, o centro de Lima prosseguiu sendo prioridade, como deve ser. Foram recuperadas com dinheiro público as residências do entorno do Palácio do Governo. Gastou-se US$ 26 milhões na restauração do principal teatro. E seguem em implementação uma série de programas para incentivar a circulação de pedestres. A maioria deles conjugando ofertas de espetáculos nos prédios históricos recém-reformados. A iluminação desses prédios, aliás, merece destaque.
Os investimentos deram resultado no longo prazo. Há hoje um ciclo anual de eventos em curso, e negócios como lojas de grife, supermercados, escolas e restaurantes pululam no bairro. E tão ou mais importante que isso: a região voltou a ser atrativa para se morar, reaquecendo o mercado imobiliário e o desejo de zelo, conservação, reforma dos prédios mais antigos, reconvertidos em residências, pousadas, restaurantes, escolas, etc. E assim o Centro de Lima é já visto como um trampolim de imagem por grandes marcas e potenciais investidores – especialmente os do setor de entretenimento.
Os administradores limenhos gabam-se de ter um ponto de referência. Um eixo por onde pensar a reformulação da cidade para os próximos anos. A história de revitalização do Centro de Lima é uma história de êxitos. Mas também de políticas persistentes, continuadas. Por que eles conseguiram e nós ainda prosseguimos marcando passo?
Entre outras coisas porque um projeto dessa magnitude não tem como contentar a todos. A gregos e troianos. Ao menos de imediato. É mais ou menos óbvio que o morador indigente ou semi-indigente terá de ser realocado – como aconteceu recentemente em São Paulo com o desmanche da Cracolândia. O benefício que esse desmanche, desde que tivesse sido minuciosamente planificado, traria a São Paulo, seria sempre mais extensivo que os transtornos causados pela remoção dos habitantes desse corredor de drogas e gueto de violência. 
Agora, há modos e modos de realizar a quebra de domínios territoriais paralelos, buscando alguma forma de compensação social para as populações realocadas. Essas mesmas populações que, em geral, não passam de massa de manobra para os graúdos do tráfico ou de alguma sorte de contravenção, grassando na anomia. Alguma sorte de contravenção que acaba beneficiada pela complacência ingênua e tenaz de certas ONG's que julgam estar defendendo os interesses, não da contravenção ou do tráfico, mas da comunidade. Quando se dá o contrário. 
É óbvio que, nessas práticas clandestinas ou informais, à margem da lei e dos impostos, o lucro concentra-se nas mãos de poucos. Em geral, os mesmos, e morrendo cada vez mais jovens, em disputas entre si ou em choques com um aparelho policial mais localizado e mais ou menos lábil à corrupção. Mora-se mal. Estuda-se mal. Desloca-se mal. Ou quase não se sai do canto. Também não se deixa muita gente passar incólume. O índice de criminalidade é altíssimo. O de mobilidade social, praticamente zero. Ainda assim, pensar em realocar populações cheira a violência contra elas, ponto. E por quê?
Essa perspectiva, de coincidir violência com remoção é simplista. Mas abraçada por não poucas ONG's ou jornalistas. Ou mesmo nosso senso comum, ainda que o resultado da remoção seja um benefício sem medida para os próprios realocados (ou seus descendentes no futuro). Para não falar dos outros milhões que habitam a cidade e irão poder desfrutar novamente, amplamente, da revitalização de determinada zona como espaço de convivência, diversidade, lazer, segurança, circulação e...moradia.
De momento, em Fortaleza é preciso aferir, por exemplo, entre o que há de razoável ou ínfimo e o que há de exorbitante nas propostas e contrapropostas tanto da prefeitura quanto dos moradores da Comunidade do Trilho, por exemplo. Ao contrário do Campo do América, o que se passa com a Comunidade do Trilho começa a despertar alguma suspeita. E sobre as demandas da população a ser realocada. Se são de fato justas essas demandas. Se extrapolam ou exorbitam injustamente o que está sendo pago e oferecido a elas para que um bem-estar seja revertido em prol de uma comunidade incontavelmente maior: o restante da cidade. É justo o preço de mercado pago por essas desapropriações? É razoável o espaço projetado para receber essas populações?
Esses aspectos não podem sair do campo de visão. Às vezes, é necessário o deslocamento de 2 mil pessoas para que três milhões vivam melhor, e com desenvolvimento sustentado. Ou melhor e mais ampla malha de transporte público.
Enquanto em Lima, uma atenção coordenada das autoridades e da sociedade civil, certo pulso forte e uma visão dinâmica de urbanismo, além de políticas continudas e corrigidas deram algum resultado, no Maranhão, feudo dos Sarney, belos casarões coloniais desabam com a chegada das chuvas, a cada ano. Pura inaptidão, negligência e falta de planejamento. Mas também em São Luís comenta-se que o metrô local – que arrasta-se inconcluso há anos, a exemplo do Metrofor – quando pronto, irá ligar um shopping da família Sarney a outro shopping da propriedade de quem mesmo? Adivinhe!
E houve um slogan publicitário de São Luís que, involuntariamente, passa recibo dessa situação de penúria que é apanágio de quase qualquer capital neste país. Num anúncio da web para o carnaval na capital maranhense, em 2012, lia-se: “São Luís, Patrimônio Mundial da Humanidade, onde se esbanja cultura e história”. Parece que, dando sopa ao azar, com a permanente ameaça de desabamento desses velhos casarões, não se está esbanjando um tanto além da conta?