sábado, 15 de setembro de 2012

Porvir (uma história romheriana)




Suzana às vezes lia os textos dele. Não que ela achasse alguma revelação ou consolo neles, apenas era o que tinha mais à mão. Especialmente quando faltava grana para ir ao próximo livro. Ou coragem para ir até a esquina comprar a Bravo! Essa, uma das poucas serventias dos blogues: suprir pequenas preguiças. Mais ou menos como ser bom supor ter por perto um supermercado 24 horas, ainda que não se vá lá a três por quatro, às três ou quatro da madrugada.
Principalmente às três. Como nos versos de Torquato.
E então Suzana às vezes lia o blogue dele, enquanto terminava de chupar o resto do iogurte na colher da sobremesa. Sequer a visão do amplo Atlântico tornado piscina serenada, na enseada, após o quebra-mar, lhe sustinha os achaques da idade. E do parque eólico junto ao porto deviam provir essas ventanias de agosto e de setembro. Desembestadas. Os cabelos de Suzana, no entanto, pouco esvoaçavam nesse vento que refresca à sombra mesmo com o dia a meio.
Desde menina, decidiu-se reclusa. Coisa que o pai, representante comercial e em constantes andanças por capitais atrás de capitais, não podia obstar-lhe: uma vida social mais estável e enérgica. Era separado, e a mulher afastara-se da vida deles por alguma razão. E então, Suzana, de costas, caída desde o encosto do sofá, refestelada, com o marca texto à mão, escolhia a frase mais ou menos barroca como a favorita da tarde, enquanto na área de serviço o canário cantava amplamente, anunciando que mais um dia sazonava no meio daquela greve, que não tinha mais fim, da universidade. E Suzana marcava textos, e imaginava o porquê de os escritores serem assim tão sórdidos, como ele se revelara num porvir que ela havia imaginado de outro jeito.
Mais precisamente em certo imeio. E logo ele, que tinha idade de ser pai dela e até parecia boa gente.
-É. Com folga. De longe – pensava agora – Deus'ulivre.
Mas Suzana tinha um porvir e planos. Uma pós-vida em uma pós-cidade, uma pós-graduação sobre um autor pós-moderno e a possibilidade de uma identidade postiça e pós-amigos, após isso. Possessa, ela fazia mil planos a posteriori. E, assim, quando os planos começavam a não dar certo na sua imaginação, ela desandava a enviar mensagens do smartphone sempre ao alcance de um toque. E em sessenta e quatro por cento dos casos era respondida. Pós-imaginação. Quase de imediato. E então meio que enviava uma foto com a nova pintura da unha do dedinho do pé. 
Mas, às vezes, não podia evitar de voltar-se sobre as próprias curvas. E, então, entregava-se à imaginação, à lassidão gozosa e às carícias auto. Grunhia baixinho, suave, se os vizinhos mais barulhentos entrassem em inesperado armistício. E o silêncio, como um devoto, ajoelhasse sobre o vão da sala e colhesse, em pleno quarto andar, os gemidos dela como se colhe amoras, e pusesse dentro de um ex-voto.
Mas e a escrita dele? Essa não entrava nessas posteridades desterritorializadas. E era apenas como o quê? Como a borra do iogurte na colher de sobremesa, que ela lambia lentamente enquanto o fade derretia tarde na câmera da estival primavera em que estavam condenados a viver.
Um dia encontraram-se à Beira Mar. Um pouco remotamente. E caminharam para lá e para cá. Como se faz. Quando não se tem mais uma tela entre. Lá e cá. Uma cela.
Uma tela, aliás, sempre nos deixa menos no prejuízo. E imediatamente depois de uns poucos blagues, ele logo começou a rir mais amarelo do que o uniforme número três do Palmeiras. Sozinho. Quem manda: na vida real não existem undos. Ela? Comprou um acarajé e discorreu sobre seus anos na França e uma amiga em comum:
Mesmo com pouca pimenta, tá pegando.
Ele apontou algumas coisas. Lá e cá. O velho edifício em forma de navio em que havia morado nos anos 90. Como era isso, aquilo. Como aqueloutro era animado:
Aqueloutro? – Suzana indagou.
É, Aqueloutro. Nunca ouviu falar?
Eu não – ela disse.
Puxa, é isso mesmo: não é do seu tempo, não, Suzie. Mas era um barzinho muito decente, viu? E o Sá Júnior servia nas mesas do Aqueloutro, e coisa e tal. E o Baleia... Não. O Baleia, não. Era só no Estoril.
E quem ia no Aqueloutro? – ela perguntou disfarçando certo tédio-ambiente. Não queria encompridar conversa, e, entretanto, não sabia abreviá-la com bisturi mais súbito.
E então a coisa ia longa: a que horas abria o Aqueloutro. Quem frequentava o bar famoso (além dele, claro). O que tocava. Que músicos iam por lá. Quem pintou o painel. Em que ano foi ampliado. As meninas que sorriam, acenando, desde o mezanino...E até o dia em que ele disse para o Cariry, ambos mortos de bêbados, que todo grande cineasta termina em -berg: como Rosemberg e Spielberg. E análogas sandices.
Ela ouvia enfastiada, mas fazendo ouvidos de interesse – não houvesse certa mercancia em volta da coisa – só para não contrariá-lo. E, quando ele não estava olhando, fixava aquelas entradas na testa, desolada, e os grisalhos. Cheia de fascínios. Mas era algo mais da ordem da mãe. E da filha. E da estudante marca-textos. E que mulher não porta mãe, filha e estudante marca-textos ao se esquecer de si?
Verdade: mal conseguia explicar o tesão que lhe davam os grisalhos dele.
E, entretantos, a coisa parava ali. Bem ali. Pois bem podia dissociar entre os grisalhos e ele. E entre ele e carícias menos públicas. Ele, no entanto, queria carícias mais púbicas. Ou pelo menos mais púbicas. Queria era beijar o cu dela, e, adiante, empreender uma ruma de outras fundas sacanagens. 
Ela, todavia, sonhava mesmo era com outro. Um sujeito jovem, suave, tímido, de cabelinho crespo, que deitava a cabeça no colo dela e ficava em silêncio. Um tempão. Não precisava lançar mão de tantas palavras. Ou tocar em tantos assuntos. Ou se tocava, era violino. Mas não, não gostava de poesia, embora o pai deste, do violinista, que cometera versinhos mais ou menos ao tempo em que tinha a idade dela, possuísse uma até vasta biblioteca.
Agora, pra falar a verdade, cores, embora emotivas, não correspondem à necessidade sólida de um bem querer. Afinal, amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve.
Grave essa! – disse Suzana baixinho, passando o marca texto na frase acima – “amor que fica...amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve” – repetiu em certo tom de sonho, supinamente recostada no sofá, os olhos comprimidos como espátulas.
E o mais, era só a repulsa que aquela figura de meia-idade, ensimesmada, professoral, ventre ligeiramente proeminente, muitos pelos avulsos do pescoço às orelhas, podia causar numa recém-pós-adolescente, que gostava de marcar textos, enviar mensagens, escrever diários,

enquanto seu lobo não vinha.

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