segunda-feira, 23 de maio de 2011

Em frente, marcha: o resplendor da fogueira

Três telas de Alfredo Volpi (1896-1988)


Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes

Sim, há aquelas pessoas que vão morrer agarradas a si mesmas. Como se elas fossem os últimos troços a flutuar depois do dilúvio. Difícil supor de onde vem tanta obstinação. Aqui, não se trata de pessoas pusilânimes, fracas. E, ainda assim, há uma espécie de marca de Caim em suas testas. Uma maldição bíblica que elas não conseguem ver, quando todo mundo em volta já está cansado de ver. De ver e de aperceber-se daquela estranha marca cinza na testa, mesmo após um baile de carnaval.
Note bem, isso nada tem a ver com mau caráter. Elas, em geral, passam por (e efetivamente são) pessoas boníssimas. São, sobretudo, discretas. Economizam juízos de valor. Mostram-se prestativas, solícitas. Tem até senso - e muito bom - de humor. O tema de suas troças destrói pompa e circunstância. Tem endereço certo e boa medida de corrosividade. E de ternura. Porém é senso de humor que funciona até o limiar. E desse limiar falaremos mais adiante. No rastro, podem, eventualmente, importar-se com os outros. E efetivamente o fazem. São sociáveis, polidas, confiáveis. A dureza não está no trato com os demais. Isso elas resolvem, de um jeito, de outro. Com flexibilidade e jujubas de laranja. E jeitos e jujubas que surtem bem. Elas, aliás, não deixam de ser menos sensíveis por isso. E suas escolhas podem partir corações. Ser sem jeito não é com elas.
Porém, no caso, é mais na incapacidade de auto-perdão que mora o perigo. Especialmente no que refere a afetos. Se uma vez dão com os burros n'água; então, era uma vez. Quer dizer, não há qualquer possibilidade de a carga ser perdida em outro vau, porque qualquer contingência de risco há que ser lixada da ponta das unhas do cotidiano. O risco torna-se um precipício ainda mais fundo. Intransponível. O Grand Canyon no Arizona. E, mesmo que atravessável, o precipício, por lançamento de ponte, jumping ou escalada, entra aí o tal faz-de-conta. Um faz-de-conta que faz esquecer que o precipício pode ser contornado no cavalgar-se um potro recém-domado, como numa dessas clássicas passagens ao largo dos desfiladeiros, nos Westerns, onde se é acossado por índios, ladrões de cavalo, caçadores de recompensa, párias de toda sorte e, por vezes, até se tem a diligência assaltada. Mas, qual o quê! Nem que Gregory Peck, John Wayne e Clint Eastwood viessem à frente de um bando de bravos a coisa teria jeito. Ou que as cores do deserto fossem tão sobressaltadas quanto em Johnny Guitar. E se  o precipício ao invés, fosse uma fossa submarina -- mesmo que branda, não uma daquelas fossas abissais, que na sua escuridão e frieza são jamais tocadas pela luz solar e onde vivem estranhos seres cegos que se guiam por sonares, como na mais funda delas, uma fenda com nome de mulher ao largo da costa sudeste do Japão -- sequer as astúcias subaquáticas do Capitão Nemo as demoveria de entrar no mediterrâneo dos riscos, de arriscar o mínimo possível. E por uma espécie de alergia. E é quando o faz-de-conta ganha letra capital.
O Faz-de-conta é o antídoto anti-alérgico que possibilita que a coisa permaneça como está. Paliativa. Anti-distônica. Despó de pir-lim-pim-pim. Lexotânica. Uma emenda. Daquelas bem piores que o soneto. Dos horripilantes: "é possível preservar-se". Eis o motto do Faz-de-Conta. E é o que o Faz-de-Conta sempre repete para a vítima do conto-do-vigário-do faz-de-conta. Quer dizer: preservar-se de sentir, eis a emenda. Sentir forte vira um problema quando o objeto desse sentimento ao invés de voucher, de ipad, de bilhete ida-e-volta a Paris tirado na promoção, de show de rock; ao invés de som para carro, degustação de bordeauxs numa boa casa de vinhos, de filminho decente, sábado à noite, de pós-graduação em Londres é, do contrário, outra pessoa. Aí, elas simplesmente endoidam. Não se permitem esse acinte. Seria como o quê? Como guardar fósforo usado dentro da caixa, de novo, Princesa. 

E aí então chega a prova de fogo. Ou aquele cavaleiro austero a quem desafiamos para uma partida de xadrez na bacia das almas, como no Sétimo Selo, de Bergman. Ou coisa parecida. Porque o fósforo, longe de gasto, ateia aquela colossal fogueira de São João da alma. Uma fogueira do desejo. Com bandeirinhas de Volpi da saudade e tudo mais, a despertar comichões no corpo e insônias na psique. E, aliás, não é ironia, diga, que quem melhor haja captado em arte e minimalismo o espírito do São João não tenha sido esse ítalo-paulistano? E, no entanto, em frente, marcha: o resplendor da fogueira, o encarnado das brasas, os fogos enchendo o céu de riscos. E o céu todo iluminado, pintadinho de balão, como diz Lamartine Babo, faz a gente olhar para cima. E ver como está lindo. Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes.


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