domingo, 8 de fevereiro de 2009

Barcos, piladeiras, carrosséis, acrobatas


[s/i/c]



crônica

Uma prenda amazônica


Há uma palmeira amazônica que se chama meriti. É o mesmo buriti, de tão famoso doce, no Nordeste. Mas, e nem é do doce que pretendo falar. Mas de brinquedos. Brinquedos artesanais. Verdadeiras fantasias feitas com a levíssima madeira desse meriti, como chamam os amazônicos. Pequenas cobras articuladas, barcos, piladeiras, carrosséis, acrobatas. Formas assimétricas, nada industriais. E, por isso mesmo, dessimetricamente medidas e quase perfeitas.

A consistência da madeira do meriti é tão leve que semelha isopor. E qualquer vento brando pode deslocar as peças que se põem à prateleira.

Sobre a minha própria mesa de trabalho, tenho um pequeno barco de meiriti. E ele é uma perfeição. A chaminé e o tirante sobre a coberta são nitidamente em escala maior que o resto da peça. Assim como leme e área do casco são nitidamente menores. Desproporcionais, como assim os concebeu a mão única e o olhar que o fez. Sob a coberta há uma zona rotunda e fechada à popa. Segue-se, então uma delicada amurada que vai até o início do anguloso “v” que enforma a proa. O casco está repintado de um azul esverdeado. Há um friso marrom escuro, em alto relevo. Acima do friso, as laterais se cobrem de um denso verde. A rotunda da popa, graciosamente alta, é de um branco lavado, assim como o “v” da proa. A coberta, à exceção da chaminé e do tirante, é de um vermelho sangüíneo. Um cromatismo de perfeições. E naturalmente ninguém deu lições da versatilidade das cores a quem o fez.

A este tipo de barco amazônico chamam de popopô. Clara onomatopéia que reproduz tão concisamente os trancos do sacolejante motor diesel que o propulsiona em meio a rios e igarapés.

Ganhei meu popopô de uma grande amiga. Uma colega tão talentosa quanto temperamental. Dotada daquele humor hiperbólico, tão comum nas gentes do Norte. E, ainda por cima, misture-se isso tudo com sangue judeu. E até me lembro de andarmos meio estremecidos quando ela, voltando de uma viagem a Belém, me trouxe o cobiçado barquinho que eu lhe havia encomendado. Por conta desse mal-estar passei algum tempo sem aparecer em casa dessa amiga. E, bem depois, soube que, nesse ínterim, o barco foi cobiçado por toda uma claque de paulistas loucos para se apossarem de minha prenda. Mas ela, não obstante a cisma, fez questão de reservá-lo para mim.

Lembro que em Camocim, onde nasci, havia um senso constante de travessia. A travessia para o lado de lá da barra do Rio Coreaú – antigo Rio da Cruz ou Camucim, por onde Vieira desambarcou no rumo das missões jesuíticas da Ibiapaba, quatro séculos se vão. A travessia para margem leste, oposto à da cidade. E àquela região de alvas dunas e denso manguezal se chamava genericamente: o Outro Lado. Como fosse o outro lado do mundo ou do universo. E eu bem sabia que era. Quem habitava o Outro Lado, à época, eram matutos que viviam isolados e vez por outra vinham para “a rua” comerciar ou visitar compadres:

– Aquele mercado de Camocim é o lugar mais bonito do mundo – me confidenciou um deles, em deslumbramento sincero. Concordei com ele com um aceno de cabeça. Isso foi anos depois, quando, infelizmente, eu já era bem menos um camocinense, e fui por lá atrás de escrever uma espécie de reportagem [que depois virou documentário]. E, vejam, já nem achava o mercado o lugar mais fascinante da terra. E até muita televisão já tinha chegado – e com força – no Outro Lado.

O popopô de Camocim – não o chamávamos assim – era o “barco da prefeitura”. E todo um escambo se dava por meio dele. Sisal, galinhas, sal, surrões de feijão, arroz, farinha d'água; batata-doce, milho, melancias. Até porcos e cabritos. E cumpria lá suas vezes de ferryboat. Hoje há pelo menos duas balsas que transportam jipes de tração e até veículos mais pesados.

Mas antes de tudo isso, havia só um certo pescador. Seu nome era Piluca. Traços índios, pele encrostada pelo sol, magro e de porte elegante. O chapéu de palha puída sempre preso ao queixo por um cordame de tucum. Bastante velho. Parecia sair de uma tela de Raimundo Cela. Morava numa pequena casa de fachada azul e ibérica, na cidade – e não na colônia, à Praia das Pedrinhas. Era ele quem fazia as vezes do barco da prefeitura, quando barco da prefeitura ainda não havia.

Saía de madrugada, dia após dia. Fazendo-se ao mar dos ancoradouros junto aos pequenos cais, abertos em vãos, na balaustrada sobre o paredão que guarnecia a cidade das fortes marés de foz de rio. Os trapiches, molhes, a madrugada relentosa e fria. Um senso de dever.

Lembro que meu pai e meu avô tinham uma tácita reverência por esse homem. Uma reverência insinuada, discreta. Dessas que se podem medir por pequenas inflexões de uma voz que não modula fácil. Coisas dos cristãos-novos e açorianos de Camocim.

Seu Piluca morreu mais ou menos aos oitenta e cinco anos. Encontraram seu corpo junto à canoa, num lamaçal de mangue, no Outro Lado. O lado para o qual levou incontáveis gentes, bichos e coisas, ao longo de tantos anos. Como um Caronte. Seu corpo meio atolado na lama, na argila da qual se fez o próprio homem após um sopro. E foi lá, nessa lama, que o acharam, preliminarmente sepultado após uma última travessia.

Por essa época já havia o barco da prefeitura. Mas aquele homem nunca se aposentou. Nunca conheceu descanso. A madrugada sempre o viu partir, à mesma hora, mesmo sem relógio, a fazer a travessia. O senso de missão de homens assim assusta. Pode preencher o vão de uma vida.

Nisso foi o que pensei, quando minha amiga pronunciou pela primeira vez a palavra popopô. Em seu Piluca; no Barco da Prefeitura; na madrugada; nas praias limosas; no manguezal; nos sambaquis; nas alvas dunas; nos seixos do leito do rio sob a límpida água de depois, depois das chuvas, em junho; nos matutos do Outro Lado. E, embora ela viesse da Amazônia, eu do Nordeste, e nos encontrássemos pós-graduando em São Paulo, eu tinha a secreta dimensão do que significava aquela palavra tão logo a ouvi. E desejei a palavra para mim, concretamente, na forma de uma miniatura de barco.

Hoje, ainda está o popopô à bancada de trabalho. Se prossegue sua travessia, agradeço à generosidade de minha amiga. De verdade, nunca fomos mais tão próximos. A vida tem interesses vários. E São Paulo, não se duvide, é uma grande cidade de muitos rostos. E, claro, somos ambos inquietos o suficiente para buscar coisas diversas. Mas um fundo respeito calou em ambas as margens. Algo que pode, a qualquer momento, ser transposto por um brioso popopô. E o bem conformado, pequeno barco, à mesa de trabalho, parece indicar que as amizades, mesmo nos momentos atribulados, devem resguardar um tanto da levíssima textura do meriti.




Nota – crônica originalmente publicada em O Povo (2001) e na extinta revista eletrônica Nariz de Cera (2005)


* * *

2 comentários:

  1. Achei maravilhoso seu texto! Adorei a história, a sensibilidade, os caminhos e vãos que ela foi percorrendo, amarrando ao final desta forma tão bonita. Tenho uma amizade que se desgarrou por conta de umas sementes de jarinu!

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  2. obrigado, mas repare:

    por conta de uma sementes de jarinu
    eu deixei de pegar na sua mão

    rapaz, isso dá um poema. mas ficaria melhor rimado!

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