quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Maus hálitos, remelas, muco, vastos silêncios


John Cassavetes, Love Streams, 1984




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Impossíveis bonitos possíveis

-Os amores impossíveis são os mais bonitos!
-Não sei se concordo.
-Como, não? Logo você que vive traduzindo Dante.
-O que acho bonito em Dante passa longe da impossibilidade do amor, mas o que ele escreveu, com a maestria com que escreveu - não só sobre amor. Apenas. Além disso, eram tempos outros... Tenho certeza de que os amores mais bonitos são possíveis. E, em especial, possíveis onde há rotinas, maus hálitos, remelas, muco escorrendo do nariz, vastos silêncios, o esquecer de comprar o gás, crianças chorando fora de hora, contas a pagar. E, ainda mais especialmente, aqueles sobre os quais nunca ninguém escreveu. Nem escreverá. Mas existem e existem, chama viva de encontro humano. Ao largo do clichê do jornal, longe de câmeras e sets de luzes, à distância de divãs em consultórios, não cantado por prosas, versos,  aparte de posts em redes de comunicação. Infinitamente mais ricos, diversos que nos roteiros dos filmes. Muito mais veementes que qualquer forma de exposição que soa tão mais coletiva e rala quanto a individualidade que cada um busca avidamente afirmar publicando-se despudoradamente e se tornando um só a mais dentro dessa massa informe que é comunicar-se à distância, em público.

* * *

3 comentários:

  1. na projeção tudo parece ser mais feliz do que na realidade. o impossível é irreal.
    abração, ruy. o blog tá cada vez melhor!

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  2. Ney Vasconcelos28/9/09 12:36 PM

    perfeito.

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