quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

É stupendo: Oscar Niemeyer (1907-2012)






Acima, cinco aspectos do prédio da Mondadori, 1975, projeto de Oscar Niemeyer



ou Da Brasília Decalcada de um Recife da Ideia


Em Brasília, o edifício mais elegante é o Itamaraty. Mas já se escreveu um bocado sobre ele. De sua complexidade. Ou acerca das relações entre a estética de Niemeyer e o barroco mineiro. Ou, mais expressamente, o Aleijadinho. E, ao que parece, se o Prédio do Itamaraty não foi superado, enxertou-se em outro. Esse duplo encontra-se a milhares de quilômetros: o Palazzo Mondadori, em Segrate, próximo a Milão. Um edifício, concluído em 1975 - cinco anos após a inauguração do Itamaraty - e que é sede do maior grupo editorial da Itália (de momento, sob controle direto da família Berlusconi).
Com seu ballet de arcos irregulares na fachada – ao contrário da regularidade dos arcos de seu modelo, a chancelaria, em Brasília, que originalmente chamava-se Palácio dos Arcos – o prédio é uma maravilha que se destaca na paisagem lombarda, e é posto em perspectiva pelo extenso espelho d'água à frente. Parece um pedaço de Brasília, arrancado por marretadas imagéticas, e aplicado em plena Milão. O que não deixa de ser auspicioso. Pois, na mão contrária - e com efeitos deletérios - somos acostumados desde cedo a ver só o oposto. Ou seja, pedaços da Itália na América. Inclusive muito de arquitectura art déco, proto-fascista, disseminada pelo interior do país, do Oiapoque ao Chuí, na forma de prefeituras e prédios públicos da Era Vargas e após. Mas, em geral, os italianos babam de prazer diante do edifício da Mondadori: "Mi piace tantissimo! É stupendo!" - dizem. E é mesmo. 
Por outro lado, uma das críticas mais procedentes, e que se pode fazer a olho nu, da concepção arquitectônica de Niemeyer (1907-2012), é - a despeito de ele louvar as formas rotundas e naturais – a ausência de vegetação mais densa, árvores copadas ou pequenos bosques, junto a seus edifícios. Ou a impossibilidade disso. Os edifícios parecem comportar apenas gramíneas, arbustos ou plantas aquáticas à volta. Para, então, destacar-se na paisagem como monólitos. A vegetação os incomoda: será que atenta contra a escala deles?
Mesmo um leigo em arquitectura, mas com alguma percepção mais aguda de espaço, desse suplemento entre a vegetação e os conjuntos erguidos, acha o fim da picada o Memorial da América Latina, em São Paulo: pelado, sem vegetação ao redor ou sequer na área entre as edificações. O sol caindo em placa fervente sobre milhares de metros quadrados de cimento. O poeta norte-americano Robert Creeley, por exemplo, comentou, quando visitou o conjunto, que Niemeyer devia gostar de plantas em vasos. 
Procede.
De outro modo, alguns edifícios, como os dois citados - o Ministério das Relações Exteriores e o Palazzo Mondadori, além do Palácio da Alvorada ou do Congresso Nacional - são magníficos. Outros, nem tanto. Especialmente os projetos mais recentes. Como os museus em Brasília e Curitiba, além do Centro Cultural em Avilés, e o novo complexo administrativo do governo de Minas. E, no entanto, o Museu de Arte de Niterói, que é dessa última fase: uma beleza. O mesmo se pode dizer do Auditório em Ravello, que leva o nome do arquitecto. 
Não por acaso, nessas duas últimas obras, o que mais ressalta: o modo como convivem com a paisagem. Com o relevo mais que com a vegetação. E com um relevo similar: a montanha, o mar. Assim como também propõem-se como mirantes. Pontos através. Prédios devassáveis para se olhar a paisagem, além. A privilegiada paisagem que dominam, acima do mar. Para melhor fruí-la. Espécie de prédios-varandas. Ou esculturas avarandadas. Boas de olhar, tanto de fora, quanto (e em especial) de dentro deles para fora. Prédios-belvederes. De onde se pode melhor contemplar, em ambos os casos, a mesma paisagem de escarpas e mar, incluindo as bordas dos prédios, que ameaçam somar-se à natureza, depois de tão bem sugeri-la em quadro. (Como se permanentemente a natureza fosse posta sob o ângulo e o ponto de vista de melhor enquadro numa câmera que apenas a registrasse para criar algo que está a meio caminho entre o que ela é e como ela se encontra representada em filmes e vídeos).
Outra conversa é aferir até que ponto esses edifícios são, de fato, funcionais.  Ou seja, a vida deles quando se volta para eles, em si. Isto é, quando se está dentro deles e se olha para dentro deles, dia após dia. Se são possíveis e praticáveis também para observar obras de arte numa terra em que a arte parece estar mais lá fora, na natureza, caso de Niterói. Ou se há boa acústica num auditório desenhado para uma pequena cidade da costa amalfitana, Ravello, que se orgulha de sua pujança musical, etc. 
Sim, porque é possível lembrar que, por volta de 1997, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) passou alguns meses utilizando um dos auditórios do Memorial da América Latina para seus concertos, concentrados em dois programas semanais. Àquela altura, a Sala São Paulo era projeto em andamento.  E, quando a orquestra terminava de tocar, um  eco artificial e pavoroso ainda se ouvia, vazando a sala por segundos e fração. Um verdadeiro desastre acústico de entortar ouvido. Mas, quem sabe, o auditório em questão não haja sido projetado para audições de música. E, ainda assim, auditórios devem ser ambientes construídos com alguma mínima preocupação com o que será ouvido dentro deles. Afinal, eles são locais de escuta. Espaços onde a expectativa é a de quem está sentado na última fila ainda perceber bem a voz do actor que representa o Avarento, lá no palco. 
Não é de hoje que os críticos apontam para três aspectos nada atraentes dos projetos arquitectônicos niemeyrianos: (a) serem caros (na construção e na manutenção); (b) dependerem excessivamente da engenharia estrutural (quer dizer exigirem uma verdadeira proeza técnica dos engenheiros de cálculos); e (c) devastarem o ambiente à volta como forma de sobressaírem desse ambiente a qualquer custo (ou seja, não estarem lá muito preocupados com o meio-ambiente do entorno). E não são críticas vãs.
Especialmente quando se pensa na suntuosidade geral dos projetos, e se conclui que Niemeyer desenhou edifícios para abrigar o poder, por excelência. E que não deixa de ser irônico que esse homem, unha e carne com o poder, fosse um comunista que pregava uma sociedade igualitária e humana, enquanto ele próprio transitava por ministérios, gabinetes presidenciais ou fartas festas em embaixadas. Inclusive, ironia extrema, cultivando amizades com líderes de governos tão ou mais ditatoriais quanto os da própria ditadura da qual ele estava fugindo num determinado momento. Caso dos regimes de Boumedienne, na Argélia; ou de Castro, em Cuba; que eram ditaduras ferrenhas e sanguinárias, para todos os efeitos, embora vendidas ao Ocidente sob outra dentição pelos Partidos Comunistas europeus e latino-americanos. Mais ou menos como o que se tenta fazer hoje em dia em relação a Chávez, na Venezuela - nicho, aliás, em que, surpreendentemente, a grife arquitetônica Niemeyer não adentrou ainda mais forte, sabe-se lá por quais razões.
De outro modo, por seu desenho heterodoxo, os edifícios de Niemeyer seriam inviáveis sem a estrita  colaboração dos engenheiros de estruturas. E, logo, parte do crédito por existirem passa por esses engenheiros, quase sempre postos num injustificado segundo plano, quando se pensa nessas obras. E, em especial, nas obras dos anos formativos e os da construção da Pampulha e de Brasília, quando o uso de computadores e supercomputadores para os cálculos ainda não era moeda corrente.
Parece que comparados à poesia e a pressa de alguns dos palácios brasilienses ou à requintada simplicidade de projetos como a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha ou a belíssima Capela do Palácio da Alvorada, há um quê de puerilidade, de gesto gráfico vazio e grife nos projetos mais recentes. A tal ponto, que chega a ser heresia comparar o Palácio da Alvorada ao Museu de Curitiba. 
Há no Alvorada uma carga de sedimento histórico, uma gana de forma, um conhecimento de causa, uma ousadia, uma pesquisa, um arejamento, um lirismo que não se vai encontrar no museu curitibano, por mais que se busque. Ou por mais que neste a estrepolia, o salto mortal entre os trapézios pareça bem mais evidente. Até nisso ele perde. Isto é, em subtileza. Porque nada há no museu paranaense que indique essa encruzilhada entre passado e presente. Olha-se para a Capela do Palácio da Alvorada e paira sobre ela a sombra da Igrejinha de Nossa Senhora do Ó, em Sabará.
É, uma Igrejinha de Nossa Senhora do Ó, sim, só que posta sobre palafitas, como se debruçada às margens do Rio Negro, em Manaus. Olha-se para a Capela do Palácio da Alvorada, e imediatamente reconhece-se aventura e história em suas formas. O barro da estrada e a poeira dos terreiros. Nela há bandeirantes e candangos, mas também ladainhas em latim, mármore e coro de igrejas. Uma feliz conjunção de espaços, tempos, materiais, gestos. Como a indicar que vivemos num país de intensas e múltiplas simultaneidades, e cuja felicidade possível passa pelo compósito. E, claro, também de contrastes. E que deles advém nossa fortaleza. 
É necessário, sobretudo, notar que a arquitectura moderna brasileira, a arquitectura de Niemeyer - mas também de  Vilanova Artigas, Sérgio Bernardes, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, e tantos outros craques - é irmã por excelência da Bossa Nova, do Futebol Clássico de 58-82, do Cinema Novo e da Poesia Concreta - e seu desdobramento neo-concreto no Rio. Esses influxos foram contribuições decisivas para o arejamento estético e a modernização definitiva do país. Para moldar-lhe um rosto. E definir melhor o modo como vemos e sentimos hoje. Eles compõem a utopia de toda uma geração. E é simbólico que só uns poucos dias separem na morte Décio Pignatari e Oscar Niemeyer. E quando se lembra que o manifesto da Poesia Concreta leva o significativo título de Plano Piloto.
Em outro mezanino, os vínculos do arquitecto da Pampulha com a literatura brasileira são notáveis. Basta lembrar que Joaquim Cardozo foi seu engenheiro calculista. E o que em Cardozo não é busca de burlar obviedades na direção de uma elegância que é simultaneamente novidade e reatualização profunda de um gesto coletivo, sedimentado em formas historicamente consolidadas? Basta ler sua poesia. E uma poesia que também estica-se ao teatro: para ser dita, em gesto dramático. Uma poesia que simultaneamente toma empréstimos de autos pastoris populares e da física das partículas. Não é pouco. O próprio Oscar Niemeyer repetia com todas as letras que Cardozo fora o brasileiro mais culto que ele conheceu. E Cardozo, que viabilizou em proeza as convulsões do concreto em curva dos palácios, assim expressou-se alguns poucos anos depois sobre a fundação da nova capital:


Brasília oferece um exemplo de cidade nova, construída como por encanto. Uma cidade que não começou em torno de um burgo ou de um castelo feudal ou de uma catedral; ou, ainda, de uma praça de mercado; em torno de um pouso de peregrinação ou de um rush para a conquista do ouro. Surgiu no deserto, pelos meios únicos e modernos adequados ao seu surgimento. Surgiu, se expandiu, se desenvolveu a partir das margens das pistas de um aeroporto, porque foram estas as primeiras obras reais da sua origem, as razões do seu milagre. [...] O lago, como toda a cidade, é um prolongamento das pistas do aeroporto, cabeça de Brasília, que representa a síntese das possibilidades brasileiras no campo da tecnologia e da cultura. Os grandes trabalhos arquitetônicos de Brasília, que colocaram Niemeyer na vanguarda dos mais importantes artistas de todos os tempos, e que, entretanto, são apenas uma parte de sua imensa obra, só comparável, em volume, à do pintor Pablo Picasso, foram incompreensivelmente mutilados pela não execução do seu projeto para o aeroporto da cidade. Brasília nasceu como têm nascido muitas cidades: de uma posse, de um pouso, de uma parada para descanso ou orientação. Duas linhas cruzadas, duas direções, quatro sentidos, quatro pontos cardeais; um aperto de mão, um signo de paz, de compreensão, de cordialidade entre os homens." 
[Joaquim Cardozo, in Forma Estática, Forma Estética, coletânea de ensaios sobre Arquitetura e Engenharia - compilada postumamente em 2009]

A ideia da arquitectura para Niemeyer, assim, passa perto das tardes translúcidas e aquáticas do Nordeste. Guarda um débito diante desse sentimento mineral transfixado. Desse sonho geométrico de clareza. Da ideia de ordem em Cardozo e João Cabral. No João Cabral, que em um de seus livros inaugurais - intitulado de O Engenheiro (1945), justamente para reforçar a noção de cálculo, a dimensão construtivista da linguagem, da escrita - nos diz que o "Engenheiro sonha coisas claras:/ superfícies, tênis, um copo d'água. [...]. Mas também descreve uma atmosfera em que podemos adivinhar ele e Cardozo, deambulando por um Recife em seu instante mesmo de modernização: "(Em certas tardes nós subíamos/ ao edifício. A cidade diária,/ como um jornal que todos liam,/ ganhava um pulmão de cimento e vidro)". 
Não são as tardes de Brasília, sob o amplo céu do Planalto, filhas dessas tardes do Recife, translúcidas, claras, magras, tal como surgem nos versos desses dois visionários? Pois, se há uma cidade que antecipa Brasília essa "cidade, diária como um jornal", é o Recife. E não só o Recife real, que se via ou  ainda  se vê. Mas o Recife como uma ideia abstracta, como uma utopia ou pós-lugar. O Recife tal qual passava feito filme nessas cabeças privilegiadas, e que refracta história e uma espécie de ideal. O Recife tal como apreendido pela sensibilidade, pela leitura e pela bagagem desses mestres. O Recife tal como contado por hábeis mãos, tanto na sociologia de Freyre quanto na história de Evaldo Cabral de Mello. 
Ora, todos falam de Minas (arquitectura colonial barroca e Aleijadinho) e do Rio (montanhas, mar, a sensualidade das cariocas) como anterioridades de Brasília. Mas talvez a nova capital federal esteja ainda mais prevista nessa ideia de clareza e ordem dos poetas modernistas pernambucanos e seu saudável senso de sobriedade e cálculo. Eles conformaram-na, anteciparam sua modelagem, como que a pré-esculpiram por imagens. Eles adivinharam-na, antes mesmo que se falassem em sua construção. Pois foi essa ideia, em suas cabeças, que propiciou o cálculo e a construção dos palácios brasilienses. E não apenas simbolicamente. Mas literalmente, no caso de Cardozo. Essa é uma ideia preciosa. A reter. Ela é o veio mais novidadoso, transiente e verdadeiramente vanguardeiro de nossas letras em meados do século passado. O  veio que se interpôs como ideia magra, esbelta e barrou energicamente a verbosidade bacharelesca da Geração de 45. Quando se admira as linhas essenciais de um edifício como o da Mondadori, não se está mais que reverenciando uma das encarnações possíveis dessa ideia. Uma de suas concreções:

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

Os edifícios, os palácios brasilienses de Niemeyer, devidamente calculados por Cardozo, são uma tentativa de chegar a esse mundo não encoberto. A essa solução de espaço que também é uma declaração de autonomia estética - e, por tanto, segue sendo admirada mundo afora, porque não copia, mas inventa a partir. Chegar a esses edifícios diáfanos implica na retirada de véus, que é a imagem clássica da Verdade. Para os gregos: varrer os obstáculos de impedimento, aqueles obstáculos que cegam, encurtam ou deformam a visão. Desencobrir, desnudar, destapar, remover os véus. As carapuças. Daí a sensação de translucidez, de transparência, de transfixidez que nos repassam esses edifícios. De certo paradoxo: estruturas levíssimas a sustentar a solidez. Mas apenas porque são muitas. São numerosas. Capilares. Simultâneas. E funcionam em conjunto, como as esbeltas colunas dos palácios brasilienses, que mal tocam as superfícies que suportam. Ou que mal se escoram no chão, porque querem flutuar. Transparência e colectividade estão por trás da concepção dessas caixinhas de vidro que abrigam o Poder. (E logo Quem: não são paradoxais?). Edifícios vazados, quase tão líquidos quanto os espelhos d'água que os reflectem. Elegantes em seu minimalismo.
De outro modo, sobre Niemeyer, o homem, o simpatizante comunista, ortodoxo, que jamais retrocedeu ou disse palavra mais forte contra o stalinismo, não vale a pena perder muito tempo. E ele foi amigo pessoal de ditadores. Caso de Fidel Castro, que certa feita lhe enviou cuidadosamente, acondicionadas num caixote, as luvas de um boxeador cubano, de quem o arquitecto era fã. O regime argelino, à época que lhe encomendaram os projeto de universidades em Constantine e Argel, também não era lá dos mais democráticos. Para dizer o de menos. Mas para que julgar os homens por seus erros, quando se pode ficar predominantemente com os acertos? E quando se contempla os arcos à fachada de um edifício como o da Mondadori, com seu ritmo elegante, sucedendo-se em continuidades e quebras - ora esguios, ora espaçados: não se está diante de um clássico acerto de nosso passado recente?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Na Ficção dos Telejornais




Não somos personalidades. Mas há repórteres demais em nossas vidas. Cedo de manhã, eles reúnem-se num qualquer lugar, concreto e real. Todos juntos, eles vão. Modo simultâneo. Brainstorm a boreste. E combinam as pautas.

Só para depois surgirem separados por distâncias de estados, fusos, países. 

Na ficção dos telejornais.

Seu Estado Animal


 "Like a lizard on a window pane"

E é possível que se a gente visse a casa por dentro, do ponto de vista das bribas, com aqueles ângulos animais (que nem câmeras de segurança flagram, por não móveis e mutantes, ou mais diletantes que controladoras), talvez houvesse mais paz dentro das casas. E nossa visão da criança, brincando num quarto; ou do casal sendo criado pelo amor que criou a criança, noutro quarto; ou do velho na varanda, tossindo e resmungando, enquanto tenta decifrar o smartphone, a sonhar com as formas da empregada; ou da empregada - quase extinta - diante da TV da cozinha ou atendendo o interfone. Seria tão diferente. E inaugural à cada vez. Vista daqueles ângulos que botam olhos na pele das paredes, e em plano sequência. Como quando se enxerga do décimo andar uma praça que só víamos ao rés do chão, passando por ela, em travelling. Percebida, então, com aquele ordenamento que outros ângulo, menos ortodoxos, nos facultam, a casa talvez fosse melhor considerada como o milagre que é. Ou que devia ser. Um milagre de redenção dos conflitos. E que é como criar um novo estado. Um novo modo de estar na terra. 

Um estado animal.

Seu Estimado Animal



que animal de estimação mais marcou a sua vida? - pergunta Arthur, o repórter, em mais um instante Selbstinterview 

e a celebridade Arthur responde: fácil, as víboras, lagartixas, taruíras, sardanitas, osgas, bribas, etc. São assim chamadas de acordo com freguês e região. Não confundir com o calango, que é bicho mais asqueroso e cheio de escamas. Ao contrário das bribinhas, o calango está por fora. A briba, no entanto, lembra o Interior, até no nome. No Interior do Ceará, quando víbora for palavra difícil e proparoxítona, a linguagem mais sábia, do povo, simplifica a coisa. E uma casa sem bribas, não é bem uma casa. Um quarto de casa sem elas, não é bem quarto, é algo menor. É quinto ou sexto. Ou sábado

e, no entanto, as bichinhas são, sem dúvida, os animais domésticos mais esquecidos que existem. Embora admiráveis. Não são bobonas como cães. Nem traiçoeiras e malandras como gatos. Não latem. Não miam. Não soltam as tiras, como as sandálias. Não soltam pelos. Não comem os passarinhos. Não mordem ou azunham. Não emporcalham a casa

do contrário. trabalham duro, diminuindo o número de insetos ambiente. E o trabalho é voluntário, porque não ganham nem ração, nem carinho

Dormir no Ponto




quando a conheceu, dormia no ponto de táxi. E foi aí que começaram, naquela intimidade outdoor da madrugada. O táxi que podia, a qualquer instante, ser solicitado ou vazado por transeunte e pressa. Mas que ocasião foi. Mais de ocasião. O que gerou, num dos casos, perorado pedido de desculpas. Que fazer numa hora assim

talvez ser breve. Não ocorre

anos depois, ainda estavam juntos. E não tinham amantes

costumavam comemorar o aniversário deles no táxi. Soltos. No relento da madrugada

Dormir no Ponto




O meu fornecedor de acentos, pontos e vírgulas anda dormindo no ponto. E os confeccionando em outra matéria que não aço inoxidável. Já não se fazem mais acentos, pontos, vírgulas, dois pontos e pontos e vírgulas como antigamente: na forja, sim, mas meio sem sentir, e intuitivamente. Eles chegam aqui já pré-moldados. Eu os aplico entre as palavras. Eles enferrujam fácil. 

Na primeira maré-cheia do Mar das Revisões.

(E ninguém vai pôr minha pontuação sob aspas.)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Três Literatices a Caminho do Trono




Ginsberg e Patti Smith
É 1969 e Patti Smith está tentando comprar um queijo numa padaria de Manhattan. Súbito, percebe que faltam dez centavos. Allen Ginsberg aproxima-se e pergunta se pode ajudar. Ele inteira os dez centavos e ainda a convida para tomar um café. Ela aceita. Os dois sentam-se à mesa e tratam de alguns assuntos, a poesia de Walt Whitman entre eles. De repente, Ginsberg inclina-se na direção dela:
-Escuta, você é mulher?
-Sou, algum problema? - ela diz.
-Não. É que eu a tinha tomado por um garoto danado de bonito.
-Bom, se 'cê quiser, eu posso devolver o sanduíche.
-Deixa quieto. Tá tudo em casa.

A anedota é uma das registradas num livro sobre encontros insólitos entre artistas famosos. O livro chama-se Hello Goodbye Hello, e foi escrito pelo britânico Craig Brown. Nele, estão narrados encontros entre Joyce e Proust; Harpo Marx e Bernard Shaw; Leonard Cohen e Janis Joplin, além de muitos outros. Quase sempre tão engraçados quanto. Brown reivindica a veracidade de todos os casos. O que não fácil. E nem o caso.
*
Roth e a Wikipédia
Em setembro passado, Philip Roth envolveu-se numa curiosa disputa com a Wikipédia. Segundo a enciclopédia colaborativa, o protagonista do romance de Roth, The Human Stain [A Nódoa Humana, 2ooo], um professor universitário, despedido por uma acusação de racismo, teria sido inspirado no escritor Anatole Broyard. Roth, contudo, escreveu aos colaboradores da Wikipédia ratificando: a fonte de inspiração não tinha nada a ver com Broyard. Tratava-se, na verdade, de Melvin Tumin, um amigo de Roth, que lecionara em Princeton. E, no entanto, dias depois, Roth recebeu uma mensagem afirmando que ele não era “uma fonte confiável”. Um administrador da Wikipédia notificou-lhe: “entendo seu parecer de que o autor é a principal autoridade sobre a própria obra, mas nós sempre solicitamos fontes secundárias fiáveis”. Neste ponto, Roth redigiu uma carta aberta. E não qualquer uma: são mais de duas mil palavras. A carta foi publicada na New Yorker. Nela, Roth argumenta que a hipótese aventada no verbete tratava-se de algo começado num mexerico de bastidores. E aponta, assim, as evidências de que Tumin constituía, de fato, a fonte de inspiração para o personagem. Devidamente convencidos, os editores fizeram a retificação.
* *
A Resenhista que Rima
A crítica Michico Kakutani, que escreve resenhas para a seção de livros do New York Times, tem sido centro recorrente de alguma polêmica por suas, digamos, excentricidades. Recentemente, ela despertou o furor de alguns editores de revistas e suplementos literários ao resenhar em verso - parodiando o estilo do autor - o livro Dogfight – A Presidential Race in Verse [Briga de Cachorro Grande – A Disputa Presidencial em Verso]. A resenha está disposta em treze estrofes de iâmbicos pentâmetros rimados, esquema AABB. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Verbo Compartilhar




o verbo compartilhar é o verbo da moda. Há anúncios sem conta em que ele é escandido como sugestão: compartilhe!

mas mais que sugestão, é um imperativo. Uma ordem sem progresso: compartilhe, seu filho da puta! 

não importa o que seja. Qualquer porcaria vale: uma informação, um chocolate, uma foto, um câncer, um espartilho, um cair para o lado errado do precipício ou da tarde: compartilhe, seu fi' duma égua!

um soco inglês, um baseado, uma teoria de pós-graduação. E essa questão de ser em grupo não passa por solidariedade, compaixão, altruísmo. Tem outro viés¹ mas nenhum ouvido: compartilhe, seu ban' de baitola!

é isso, agora você percebe. Você, que é todo ouvidos: há nesse partilhamento uma dimensão Big Brother: dividir para controlar, lucrar, selar, vender melhor. Estilhaçar para manipular. Cortar na carne só pelo prazer do magarefe. Esmigalhar gente fraca, (porque o bonito é eugenicamente forte.) Prazer de bater em cachorro morto. Para monitorar desde o painel de controle à velha alavanca. Para moer carne de gente. E melhor deitar o tentáculo sobre o cidadão-sardinha (se é que já cidadão, mas certamente de há muito já sardinha: redeglutido, remoqueado em ônibus, trens urbanos, vans, metrôs. Nas ruas coalhadas de camelôs): compartilhe, caralho!

quando se diz compartilhe! hoje em dia, o conto é: consumir em grupo dá mais lucro que sozinho, seu Vigário

e ponto


_______________ 
¹Pelas barbas do Profeta, não se pode empregar um termo como "viés", a não ser por sátira àqueles seminários, palestras, simpósios, onde a vida lá fora já foi excluída antes mesmo da largada, apagada na saída, descartada na entrada.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Antes que Ela te venha buscar: Pignatari (1927-2012)


Capa de O Carrossel, 1950, primeira reunião de poemas de Décio Pignatari

O Lobisomem


O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.
(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar 
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).
Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágoa,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pelos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.
Não sou cão, não sou gente - sou Eu.
Iroquês, Iroquês, que fizeste?


Décio Pignatari (1927-2012)

E outros mil e mais cem desses depois: Catullus




'Vivamus, mea Lesbia'

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
Soles occidere et redire possunt;
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

Catullus


'Vamos viver, minha Lésbia'

Vamos viver, minha Lésbia, e amar:
a arenga desses velhotes austeros,
cheios de pompa, não vale vintém,
e logo o sol se vai para depois voltar.
Quando nossa breve luz se for, porém,
haverá uma só noite, um sono só.
Então, me dá mil beijos, depois mais cem
e depois mais mil depois desses cem
e outros mil e mais cem desses depois.
E, assim, ao menos o sobejo desses beijos,
a gente possa juntar em cumulada soma
que baralhe as contas dos invejosos, atrás
o tempo todo de contar, sem tirar nem pôr,
quantos esses beijos foram, e foram de amor.




_______________________________
Como em certa perspectiva tomada de empréstimo ao Robert Lowell de Imitations, essa "tradução" toma o famoso poema de Catulo mais como motivo. Um nome criei para essa modalidade de transposição que extrai e deforma: "deformaciância". Porque arranca e deforma, sim, mas com maciez e alguma breve lógica. Uma breve ciência. Provavelmente Catulo poria minha cabeça a prêmio se lesse esta versão. E especialmente os dois últimos versos. 
Porém, pode ser que não. Pode ser que fosse a cabeça dos outros. De todos eles. E mais especificamente daqueles doutos que tudo sabem de latim.
E nada de poesia.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O que do Rei não perdeu a majestade


A Via Anchieta (São Paulo-Santos), em 1969, ano da composição de "As Curvas da Estrada de Santos" e da inauguração dessa estrada, que, ao que tudo indica, não é a da canção.

Há os que dizem, no entanto, que a estrada da canção é, na verdade, a chamada Estrada Velha de Santos (foto), já desativada, e que também corta a Serra do Mar entre São Paulo e Santos.

A Rio-Santos (BR-101, que depois emenda com a SP-55), cortando uma das mais belas paisagens litorâneas do país, parece ser a estrada de "As Curvas da Estrada de Santos". Ela passa por locais paradisíacos como Angra dos Reis, Paraty, São Sebastião e Ilhabela. E o que não escasseiam são curvas. Dirigi por essa estrada  em duas ocasiões. Na primeira delas,  em 1997. Inclusive ouvindo "As Curvas da Estrada de Santos", num determinado momento. 

Lembro que a primeira vez que fui ao Rio o clima estava ameno, com ares de inverninho, embora já fosse outubro. Chovia quase todo dia. E o dia todo. E, pela noite, as minas do Leblon iam para os barzinhos de gola roulé: 14ºC na Cidade Maravilhosa. No mínimo era algo mediterrâneo, mas parecia até mais. Quer dizer, até menos no termômetro. Era o cúmulo. Eu saíra de São Paulo com o desejo febril de pegar uma praia, e levara um calção de banho na mochila. Sem chance. Inútil paisagem.
O Cristo permanecia encoberto, lá em riba, por brumas que, com certeza, eram mais espessas que as de Avalon. O Centro antigo da cidade revelou-se uma maravilha. E entrar em certos locais - a Leonardo da Vinci, a Colombo, o Gabinete Português - um sonho. E os serviços, em geral, um pouco mais bagunçados que em São Paulo. E, no entanto, parecia que definitivamente a gente estava mais no Brasil. Desde que o samba é samba, etc. 
Especialmente na Lapa, à noite, num boteco contemplando os arcos. E imaginando ao tomar umas e outras, as outras mesas ocupadas também por quem já as haviam ocupado: Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Sérgio Buarque, Noel Rosa, Mário Lago ou Madame Satã. Havia grupos de chorinho no Carioca da Gema. E num tempo em que era impossível manter-se sóbrio por mais de oito horas.
No Bairro Peixoto, ali entre Copacabana e a montanha, onde me arranchei, todo mundo parecia morar em prédios de apartamento. Havia padarias, praças com playgrounds, babás de avental, crianças, totós, lulus e uma sossegada ambiência de bairro, além de belas garotas debaixo de pulôveres e cardigãs, voltando da faculdade. Por conta disso, dessa onda de frio temporã, o meu Rio de Janeiro, para todos os efeitos e até hoje, ficou sendo uma cidade “temperada”. Uma cidade à beira das ondas. Porém meio fria, como Floripa. E que nem sempre dá praia. 
Mas, então, certo fim de tarde, em que o sol abriu com mais pormenor e promessa, fomos caminhar pela Urca, com um olho na marina, outro na enseada, um terceiro no Pão de Açúcar, etc. Há muitas direções para se olhar em quase qualquer parte por onde se passa no Rio. E foi então que alguém disse apontando para um condomínio antigo, de não muitos andares:
-O Roberto Carlos mora aí.
Imediatamente começamos a cantar: “Se você pretende saber quem eu sou...” E depois, emendamos, com “As Canções que Você Fez Pra Mim”; e, em seguida, tornamos a “Quero que vá tudo pro inferno” - esta cantada com uma particular ênfase. E a coisa foi rendendo pelo menos até o Cassino, sob o qual passa a avenida do bairro. O prédio foi recuperado recentemente. Mas à época encontrava-se fechado. E com aquela autoridade muda de quem viu coisas do arco da velha. Mas ainda não era propriamente o inferno. E estávamos quase dois meses entrados na primavera.
E, logo, a noite veio caindo sobre aquela cidade cinza e fria, úmida; de montanhas e mar. Quase tão inóspita quanto Liverpool.
*
À semelhança dos Beatles, Roberto Carlos é um gênero musical. Uma espécie de ubiquidade brasileira. E, no entanto, não todo ele, mas expressamente o que registrou os discos que vão de meados dos 60 até dez anos adiante, e a constatação de que "É Preciso Saber Viver", aí por 74. 
Oito a dez álbuns para antologia. Ou, por outra, muito ao pé do ouvido, aqueles bolachões gravados de 68 a 72, ouve-se praticamente sem ter de pular faixa. Eles respondem por uma onda meio soul, com órgãos Hammond cumprindo solos, guitarras e violões base descoladíssimos, além de certos empréstimos vindos não só dos Beatles ou dos jovens cantautori italianos, mas sobretudo em linha reta da Motown - caso dos naipes de metais e seus ataques incisivos ou dos coros femininos em modo soul. Um suingue que vibra no corpo de cada instrumento. Algo também cristalizado em composições de Tim Maia registradas pelo Rei, mas não só. Uma actualidade fascinante. E gestada pelos melhores session musicians brasileiros - o que não é pouco.
Isso para não falar daquela ambiência um pouco sombria, existencial, de uma sopesada angústia, que salpica as letras dessa fase. Letras ditas numa voz levemente nasalada, mas limpa e distinta, embora carregada de pesar. Desassossego de quem aparentemente ganhou na vida mas perdeu no amor. Tristeza de amor recolhido, que sabe bem: merecia mais. E então semeia dobras de blues na voz. Nem todas são de autoria de Roberto Carlos, ou são parcerias com Erasmo, mas invariavelmente soam como se fossem. E, sem embargo, há coisas ali que já pedem orquestra, mas são levadas à base de guitarras, baixos e tambores, como “As Flores do Jardim de Nossa Casa”. E muito bem levadas.
Ou atravessando a planície dessas levadas, noutra direção, chega-se a certa sensação de inevitabilidade, abandono, que é plasmada, por exemplo, na neurótica “Agora Eu Sei”. Há paixão, violência e juventude, como nas “Curvas da Estrada de Santos” ou em “Sua Estupidez”; ou de forma mais direta e ingênua em “Nasci Para Chorar”, "Se você pensa" e "Quero que vá tudo pro inferno".¹ E há os grandes hinos românticos: “Como Vai Você”, “De Tanto Amor”, “Detalhes”. E há já revisões prematuras e uma atmosfera amarga, densa, fatalista e até uma citação na maior delas: “As Canções Que Você Fez Pra Mim”.
E dá vontade, mesmo a nós, que não sabemos fazer canção ou sequer concluir uma progressão em ré maior ao violão: trancar-se num estúdio, dia após outro, por pelo menos uma hora, ao longo de meses. E aprender a tocar, e gravar uma porção de canções bacanas, que a gente bolou para quem nos quis. Para quem nos quis nem que pelo espaço de quinze minutos.²
E, no futuro, então, esse "quem nos quis", possa, assim, imediatamente lembrar de nós, quando, ao acaso, escutar as canções que a gente fez. Ou mesmo se um outro cabeludo aparecer. Talvez. O certo é que éramos todos cabeludos. O que quase ninguém é mais. E aparecíamos mais nas casas uns dos outros. Ou mais para o mundo também, de acordo com a disposição, o empenho e o talento de cada. Mas certamente todos sonharam ser Roberto Carlos um dia. Até Chico Buarque confessou isso. E, afinal, já havia um Roberto Carlos entre os detentos de Pixote, o filme de Babenco, que é de 1981. Acreditem.
Alguns desses  candidatos a Roberto Carlos, alguns desses Roberto Carlos virtuais, aliás, já estão calvos. Outros trabalham na Receita, na Petrobrás, no Banco do Nordeste. Um é já Professor Emérito na Universidade Federal. Outro perito forense. E todos já contam os dias para se aposentar, coçando os ventres proeminentes. Depois, evidente, virá o pijama de bolinhas, a casaca de madeira. Morte de facto. Porque a morte de direito, sabemos, já está aí de há muito. Entre nós. Mascando as tardes. Comendo pelas beiradas. A comandar, pós-graduar, bacharelizar nossos dias.
Mas, para além, outros ainda optaram por carreiras menos ortodoxas: são curadores de arte, videoartistas, dão palestras, concorrem a editais e mantém ONG's. (Estes, já meio calvos, grisalhos, um pouco raquíticos é verdade; mas com o indefectível rabinho de cavalo e, se possível, cavanhaque ou aquela barba rala e meio sebosa). Um dos mais brilhantes morreu de cirrose. Mas a vida segue. Uma das mais brilhantes foi parar na Dinamarca. E lá comeu o pão que Hamlet amassou. Outra foi morta no cruzamento da Padre Antônio Tomás com Via Expressa, na estupidez de um assalto. É, a vida segue. 
A ideia das gravações, no entanto, parece auspiciosa. E especialmente porque nunca foi tão fácil gravar. E compartilhar - esse verbo, sórdido, no sentido tal qual foi pinçado pela moda - o gravado com quem de direito.
Agora, auspiciosa mesmo era a própria música de Roberto Carlos entre 68 e 72. Acontece que quase nunca era como a ouvíamos, porque ela fazia muito sucesso. E se não atentávamos para sua imensa qualidade e capacidade de companhia, era porque ela dissolvia na paisagem. Ficava camuflada, como o Platypelis grandis ou o Gongylus gongylode. Dissimulada, lá, onde não existia a distância do senso e do crítico. Mimetismos. Escondia-se entre o riso da garota e a onda quebrando contra o casco da canoa. O bustiê cobrindo só em parte, e a primeira vez em que a gente disse o nome. Os quadrinhos de Disney e o Sítio do Pica-Pau Amarelo - ainda o livro. A primeira Coca-Cola e os casais evoluindo na pista de dança do clube, com um terraço abrindo-se ao rio. Como um gênero que rodava diferente dos demais. Talvez para um outro lado, em dissimulação; e, por isso, não devêssemos nos ocupar dela.
Anos depois, já mais crescidos, se quiséssemos um pouco mais de sofisticação harmônica, era bandear-se para a Bossa Nova, Jobim, Edu Lobo, os mineiros. Se quiséssemos mais das letras: Vinícius, Caetano, Chico, Fernando Brant, Belchior. Se o caso demandasse mais a presença de pura música: Baden, Hermeto Paschoal, Gismonti. Ou se balanço, o caso fosse: Luiz Gonzaga, Jackson, Simonal, Jorge Ben – que depois trocaria de nome. Nas vozes, havia Elis e Milton. E para aprender algo com uma sensibilidade de saias: Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Sueli Costa, para além de Rita Lee.
Tudo muito claro no Panteão, na Sala de Justiça, exceto o seguinte: havia uma zona que era distinta de tudo isso e, ao mesmo tempo, podia nos receber com opulentas canções. Um estado da federação da música que era bem menos demarcado que esses outros estados, e pelo simples fato de estar sempre presente. 
Um estado de espírito, que nascera no Espírito Santo, mas sua capital desde sempre fora o Rio, essa cidade fria e cinza, como depois constataríamos. E sua melodia passava soando ao fundo de tudo isso. Trilhasonando tudo. Esse filme editado na íntegra, que era a vida da gente, e que rodava por muito longe da Estrada de Santos, com suas curvas bruscas. Mas, ainda assim, talvez mais perto do que se imaginava. Pois quando se passou em frente à casa dele, na Urca, pela primeira vez, cantou-se “As Curvas da Estrada de Santos” quase em piloto automático. Numa homenagem não menos sincera que anônima.
Roberto Carlos Braga. Um estado de espírito, que nos acercava desde o serviço de alto-falantes no interior – com sua pracinha e as meninas circulando à volta. E depois pela Feirinha do Bairro de Fátima, já na capital, passando pela Volta da Jurema. Ou uma célebre Praça Portugal, que ficava acesa até o dobrar da madrugada. Atravessando esses espaços, assim como a sala de casa, e seguindo até o pátio do colégio com sua algazarra, à hora do recreio. Ali também esteve o Rei. Nas festas de família e aniversários. E, depois, na faculdade. Nas reuniões de músicos e poetas no CA da Psicologia, trepado num sobrado que imitava um castelo, ainda que caindo aos pedaços. E posteriormente no mall, mais bem cuidado e macio, calçado a granito polido, dos primeiros shopping centers. Ou, antes, dos barzinhos da Praia de Iracema. Ali, Sua Majestade esteve também. Assim como nos exílios: lá fora ou em Santas Cecílias,  Belas Vistas, Vilas Clementinos, Perdizes, Pompeias, Florianópolis. Uma ubiquidade majestosa, egrégia, que respondia por uma trilha sonora mais ou menos natural disso tudo. Ou seja, de nossas vidas, lugares. Cicatrizes. Canudos e Vietnames da alma. Eldorados. Carandirus, onde atuamos ao mesmo tempo como os detentos, os agentes prisionais e a polícia de reforço. Cotidiano mais impressentido. 
E, apesar de tudo, ainda é nosso dever tentar triar trigo, joio. Mesmo que sabendo: o buraco é mais embaixo nesses casos a joeirar. E é por isso que não se deve abrir mão de acercar-se de certos sedimentos preciosos. E por divisar neles uma fase mais luminosa. Como nessa galáxia Roberto Carlos, a constelação que responde pela fase 68-72. 
É possível, no entanto, que uma das maiores dificuldades em ser Roberto Carlos, deva ir pela solidão. E, aqui, a coisa não é tão simples. Não é só a impossibilidade de ir a locais públicos. Afinal, há viagens e outros países. É mais que isso. Quer dizer, por exclusão, Roberto Carlos não pode ter por ídolo a figura que o resto do país tem: Roberto Carlos. Isso é que deve ser terrível. Perguntado por artistas que admira, ele cita Chaplin, os Beatles, Elvis Presley, Nelson Gonçalves, João Gilberto, Tito Madi. Mas também há um outro, sempre mencionado. E que vem até antes de todos esses outros. Este ninguém mais quase conhece: Bob Nelson. 
Bob Nelson, o Vaqueiro Alegre, era o nome artístico de Nelson Roberto Perez, um cantor de Campinas, que fez algum sucesso à época do rádio. Vestia-se como um caubói dos filmes, gravou uma versão de "Oh! Susanna" em português e misturava ritmos sertanejos à música country com influxos do yodeling. Em 1974, Erasmo Carlos gravou uma canção (feita em parceria com Roberto) em sua homenagem: "A Lenda de Bob Nelson". Perez morreu em 2009. Mas foi quem despertou num jovem capixaba de nove anos o desejo de ser músico. E cumpriu, assim, um papel de fundamental importância: ser o Roberto Carlos de Roberto Carlos. 
E seguem, por fim, de chapéu nas mãos e cachimbo na boca (só pelo charme, mas devidamente apagado), dez motivos para celebrar a grandeza de Sua Majestade:


É difícil olhar o mundo e ver” -
As Canções Que Você Fez Pra Mim” (1968) -

Peça alguém pra me contar sobre seu dia”-
Como Vai Você” (1972) –

Se você pretende saber”
As Curvas da Estrada de Santos” (1969)

Você vai ter que ouvir” -
De Tanto Amor” (1971) -

Na longa estrada do tempo que transforma todo o amor” -
Detalhes” (1971) -

Quem sabe menos das coisas, sabe muito mais” -
Agora Eu Sei” (1972) -

Conte ao menos até três” -
Sua Estupidez” (1969) -

Relembro a casa com varanda” -
O Divã” (1972) -

Não me interessa o que de mais existe” -
Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” (1965) -

Sem resposta, digo adeus e vou-me embora” -
Nasci Para Chorar” (1964) -

Uma saudade imensa, de alguém que pensa e morre” -
E Por Isso Estou Aqui (1967) -



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¹Reza a lenda que o então Arcebispo do Rio de Janeiro protestou junto ao jovem cantor contra esse negócio de mandar tudo pro inferno. E, então, no disco seguinte, Roberto, um hábil conciliador, abria o álbum dizendo justamente que daria o seu amor, mas também o céu à amada ("Eu te darei o céu"). De outro modo, aos poucos os arranjos foram perdendo essa pulsação soul para ganhar em sofisticação até resvalarem, como os 70 a meio, para algo mais previsível e francamente kitsch. Em "Detalhes" essa opulência dos arranjos conhece um auge. E pode-se dizer que os detalhes estão até mais na música que na letra. A onda, então, já é mais latina, menos Motown. E há um bocado de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma procissão de pequenos solos, provindos de xilofone, cordas, piano, flauta e violão.
²Agora, imagine - ainda que só por um pouquinho - que esse "quem nos quis", não refere tão só a cada um, individualmente, mas a toda uma geração. Aquela geração que cresceu ouvindo as canções que Roberto Carlos fez para nós, e que não quer, de jeito nenhum, abrir mão delas em nome de qualquer cinismo mais rasteiro,  das distâncias e ironias, ou de uma insidiosa maturidade pós-graduada. Pois já nos basta haver crescido no espaço estreito, no gargalo existencial entre o Golpe de 64 e o impeachment de Collor. Ou levar nos ombros o karma e a canga de ter de oscilar - modo maniqueísta - entre o Pasquim e a UDN. Ou entre células de guerrilha e o General Mourão. E, então, ler entrevistas com todos aqueles exilados de esquerda, quando ainda estavam lá fora, aí por volta de 1979. E cheios de uma atenciosa e ingênua esperança: a de eles serem, de facto, diferentes. A de as coisas só poderem ir para muito melhor, quando voltassem. E só para depois perceber concretamente quem eles eram. Quem era Miguel Arraes em Pernambuco ou Leonel Brizola no Rio. E o grau de aliança espúria que tinham de fazer para governar. Ou, ainda mais recentemente, José Dirceu ou José Genoíno. Ou as pensões estatais de Jaguares, Ziraldos, e por aí vamos. E entender, então, o grau de patriciado, de reserva de mercado da esquerda, que esse pessoal compunha e compõem. Ou seja, com poucas e notáveis excepções, o modo como eles praticamente apenas constituem a outra face do mesmo patriciado de direita. Só que na esquerda. Com um discurso de esquerda. E, no entanto, com os mesmíssimos vícios e cacoetes dos políticos de direita: privilégios, clientelismo, corrupção, tráfico de influência, etc. E inclusive com  várias dessas prerrogativas mantidas no exterior, quando foram banidos. Quer dizer, mantidas não a todos, evidente, mas à elite desses exilados, já que os privilégios não se estendiam à maioria daqueles que amargaram essa experiência traumática do exílio. E que, portanto, viveram-na sem as benesses reservadas a essa suposta "elite do bem", a esses "estadistas ilustrados", reunidos à força no exterior - e dela fazia parte, não esqueçamos, um futuro presidente eleito do país. E, quem olha assim, apressadamente, ainda hoje, até julga tratar-se de estadistas. Porém, entre os próprios exilados há quem discorde, e denuncie a comodidade de fazer parte dessa elite no exílio. É o caso de Sérgio Kokis, um dissidente brasileiro que inicialmente morou na França, e depois migrou para o Canadá. Kokis trabalhou muitos anos como psicólogo e acabou naturalizando-se. Ele é hoje um dos principais escritores do Québec, expressando-se em francês. Guarda, contudo, uma visão muito pouco lisonjeira da elite de esquerda brasileira no exterior. Visão que ele vaza para o próprio Brasil enquanto projeto social ou construção histórica. Seu ponto de vista, todavia, é praticamente desconhecido por aqui. Talvez porque não haja interesse que seja divulgado. Ainda que somente para ser discutido, ou mesmo contestado, relativizado - pois há ressentimentos pessoais e de classe a descontar em casos assim - seria importante que fosse conhecido. Os curadores de Bienais do Livro ou de encontros e simpósios literários, no entanto, preferem empenhar-se na vinda de intelectuais estrangeiros - por vezes de um peso até menor - mas desde que não incomodem tanto a esse cardinalato de esquerda ou a seus herdeiros políticos. 
Não haveria, aqui, algo de mal resolvido? Ora, especialmente num momento de inquérito, como o nosso - de revisão, em que arquivos são reabertos e há grandes gestos pós-anistia, no sentido da apuração da justiça - outra forma de apurar essa justiça não seria conhecer melhor - e de modo mais matizado - a história desses brasileiros no exílio? E especialmente do ponto de vista daqueles que não compunham propriamente o núcleo ou mesmo a periferia dessa elite? Ainda hoje quando se fala em pluralidade, infelizmente parece não se falar em algo que seja amplo o suficiente para entrar em escrutínios que possam manchar a imagem da esquerda institucional. Como se pluralidade fosse sinônimo ou monopólio dessa esquerda institucional. E tudo isso não indica, no fundo e apenas, o quão próximo encontram-se a direita e a esquerda no Brasil?

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Meu Forte





viajar, essa nova maneira de evitar o desespero. nem sempre funciona:

-ei, dona maria, sabe qu'eu queria transar – disse ele, entornando o copo.

-é nada. como? - ela disse, refestelada na espreguiçadeira vizinha.

-por trás dessa vez.

-ah, meu Deus, dá-me paciência.

ela deitou-se de bruços, a carne farta, levemente estriada, saltando em abundância das metades do biquíni.

ele retirou o biquíni, desamarrando devagar, dobrou com pachorra, cheirou em piloto automático, e pôs à mesa, sob o guarda-sol, num esticar de braço. A mão serviu o gole e, depois, às cegas, desceu até a bolsa, à base da espreguiçadeira articulada, e tirou um saco plástico, apenas tateando.

no saco havia os preservativos e os bonecos. Eram de Forte Apache, miniaturas. 

ele pôs alguns em cima de uma das metades, que tremulavam, exuberantes, um tanto matizadas por sol, e a palidez. Era quase acabamento sunburst no chassi de uma Gibson 335, pensou. Um atirador de elite ficou numa posição estratégica, dominando o desfiladeiro. E, então, um segundo grupo à base da colina. Além de uma bateria com canhão e alguns sacos de areia na jarreteira. E, avante, um pouco acima da articulação do joelho, bem junto daquela verruguinha, um tocador de tambor, alguém portando a bandeira e um grupo de mulas. Quando pôs o corneteiro, ela sentiu cócegas:

-é que às vezes eu fico um pouco impaciente – disse – e, pra falar a verdade, rezando pr'essa arrumação não chegar nos ouvidos das minhas amigas.

ele ajustava metade dos guerreiros comanches nas costas dela, na ravina, atrás das montanhas:

-besteira - disse - brincar sempre foi meu forte. 




Baixo para cima



no futebol cearense, a revolução vem literalmente de baixo. Os títulos nacionais parecem estar à altura somente de times bastante modestos. O Guarany de Sobral conquistou o título da 4ª divisão: é o único título nacional de um clube cearense até agora. E de momento o Icasa ameaça vencer o da 3ª divisão. Será muito difícil: decidir no interior de São Paulo após um empate sem gols em Juazeiro do Norte. Enquanto isso, Fortaleza e Ceará: babau. Não têm um único título brasileiro, de qualquer divisão. Apesar de o Ceará ser o clube que mais vezes disputou a Segundona. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Editor




tinha que reprocessar o primeiro conceito visto às pressas num livro de Deleuze para o original ser minimamente levado em conta. Caso contrário, não seria publicado. Sabia. 
o editor era um sujeito alto, calvo, nem magro nem gordo, alvo, veias azuis, meio anêmico, que aparentemente namorava sua própria capacidade de pensar como era delicioso ler algo em que o ensaísta americano da vez meditava sobre a masturbação das vírgulas em Henry James. E pediu a ele para fazer uma cópia xerográfica de um dos livros que portava consigo: um poema épico modernista americano, numa edição barata da Penguin:
-a gente não topa com essas coisas por aqui todo dia – disse, resignado.
era ainda a fase heroica da net:
-cê acha que pode me dar uma resposta até o final do mês? - disse Arthur, quando de fato importou dizer algo. Embora tenha demorado chegar a esse algo.
e olha que antes já tinham passado pelas usuais bílis e perrengas entre escritores. Quem trepou com quem. A gafe cometida pelo Beltrano no lançamento do livro da Sicrana. A Mulher do F., que o trocou por uma aluna. O cômico prefácio do J.M. Como era desastrada a tradução daquele clássico da historiografia dos Annales feita pelo Fulano de Tal dos Anzóis. Ou aquele tipo político, que sempre se eximia de dar nomes aos bois. Ou, do contrário, o que o Túlio Bonsano aprontara dessa vez - e contra quem - em seu mais recente artigo na Folha, etc.
A pequena coleção de rixas que a alguns alimenta mais que frases ou sintaxe. Parece inevitável que se tenha de descer assim nos assuntos para publicar algo. O quê mesmo? Algo que ao menos Arthur julgava pronto e com algumas boas ideias. Algo em que ele acreditava, na bucha, haver posto um bocado de nervos, tendões. Só para parar ali, naquela sala de editora em São Paulo, e ficar contemplando os ladrilhos vermelhos na parede sem muita previsão do que a vida reservava. 
Uma coisa, no entanto, não reservava: a capacidade do editor perceber nos seus gestos, o tempo danado gasto para dispor as frases, daquele jeito, até formar, no todo, aquele algo, que estava ali em laudas encadernadas entre o plástico. 
E, não obstante, no navegar ainda não virtual da conversa, aquele algo tenha assim chegado quase como alga, boiando sobre as ondas, ao acaso. E, de repente, num manhã inesperada, algo está no seco da praia. E alguém pisa em cima de algo, como se limpa o dockside enlameado no capacho sobre o batente num dia de chuva. Ou então se retira o tênis depois de pisar na gosma - merda ou vômito - com um esgar no rosto:
-olha, cê sabe que a gente quase não tem editado poesia.
lá fora, uma moto passava avulsa. E o grande tráfego da 23 de maio, alguns blocos adiante, troava seu ruído branco na desgraceira sem fim de São Paulo.

Pedaço de Carne




quando eu morrer, vou ser um pedaço de carne

e nenhum anjo posto na sombra vai

me dizer para ser isso ou aquilo. ou

quem sabe, as moscas varejeiras digam:

será que vale a pena tirar sangue desse aí?

não. o sangue dele é ruim, viu? Tinha ruim até

no nome. leu demais, ficou mofino: o

sangue, fino; ralo como os cabelos sobre

a  testa. e a gente, a gente sabe que o 

sangue de um tipo assim não presta

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“pra todo mundo mas não pra qualquer um”




o mesmo coronel, que prendia e espancava os amigos, mandava-lhe flores. Recadinhos. Fiu-fius. 

mesmo que nada. 

um dia conseguiu abordá-la, no camarim:

como é que é isso, Leila: você dá pra todo mundo, menos pra mim?”

ah, obrigada. um buquê lindo, incomum”- retrucou a atriz – "pois é. eu dou pra todo mundo, mesmo. mas não dou pra qualquer um”.