segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Verbo Compartilhar




o verbo compartilhar é o verbo da moda. Há anúncios sem conta em que ele é escandido como sugestão: compartilhe!

mas mais que sugestão, é um imperativo. Uma ordem sem progresso: compartilhe, seu filho da puta! 

não importa o que seja. Qualquer porcaria vale: uma informação, um chocolate, uma foto, um câncer, um espartilho, um cair para o lado errado do precipício ou da tarde: compartilhe, seu fi' duma égua!

um soco inglês, um baseado, uma teoria de pós-graduação. E essa questão de ser em grupo não passa por solidariedade, compaixão, altruísmo. Tem outro viés¹ mas nenhum ouvido: compartilhe, seu ban' de baitola!

é isso, agora você percebe. Você, que é todo ouvidos: há nesse partilhamento uma dimensão Big Brother: dividir para controlar, lucrar, selar, vender melhor. Estilhaçar para manipular. Cortar na carne só pelo prazer do magarefe. Esmigalhar gente fraca, (porque o bonito é eugenicamente forte.) Prazer de bater em cachorro morto. Para monitorar desde o painel de controle à velha alavanca. Para moer carne de gente. E melhor deitar o tentáculo sobre o cidadão-sardinha (se é que já cidadão, mas certamente de há muito já sardinha: redeglutido, remoqueado em ônibus, trens urbanos, vans, metrôs. Nas ruas coalhadas de camelôs): compartilhe, caralho!

quando se diz compartilhe! hoje em dia, o conto é: consumir em grupo dá mais lucro que sozinho, seu Vigário

e ponto


_______________ 
¹Pelas barbas do Profeta, não se pode empregar um termo como "viés", a não ser por sátira àqueles seminários, palestras, simpósios, onde a vida lá fora já foi excluída antes mesmo da largada, apagada na saída, descartada na entrada.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Antes que Ela te venha buscar: Pignatari (1927-2012)


Capa de O Carrossel, 1950, primeira reunião de poemas de Décio Pignatari

O Lobisomem


O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.
(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar 
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).
Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágoa,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pelos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.
Não sou cão, não sou gente - sou Eu.
Iroquês, Iroquês, que fizeste?


Décio Pignatari (1927-2012)

E outros mil e mais cem desses depois: Catullus




'Vivamus, mea Lesbia'

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
Soles occidere et redire possunt;
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

Catullus


'Vamos viver, minha Lésbia'

Vamos viver, minha Lésbia, e amar:
a arenga desses velhotes austeros,
cheios de pompa, não vale vintém,
e logo o sol se vai para depois voltar.
Quando nossa breve luz se for, porém,
haverá uma só noite, um sono só.
Então, me dá mil beijos, depois mais cem
e depois mais mil depois desses cem
e outros mil e mais cem desses depois.
E, assim, ao menos o sobejo desses beijos,
a gente possa juntar em cumulada soma
que baralhe as contas dos invejosos, atrás
o tempo todo de contar, sem tirar nem pôr,
quantos esses beijos foram, e foram de amor.




_______________________________
Como em certa perspectiva tomada de empréstimo ao Robert Lowell de Imitations, essa "tradução" toma o famoso poema de Catulo mais como motivo. Um nome criei para essa modalidade de transposição que extrai e deforma: "deformaciância". Porque arranca e deforma, sim, mas com maciez e alguma breve lógica. Uma breve ciência. Provavelmente Catulo poria minha cabeça a prêmio se lesse esta versão. E especialmente os dois últimos versos. 
Porém, pode ser que não. Pode ser que fosse a cabeça dos outros. De todos eles. E mais especificamente daqueles doutos que tudo sabem de latim.
E nada de poesia.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O que do Rei não perdeu a majestade


A Via Anchieta (São Paulo-Santos), em 1969, ano da composição de "As Curvas da Estrada de Santos" e da inauguração dessa estrada, que, ao que tudo indica, não é a da canção.

Há os que dizem, no entanto, que a estrada da canção é, na verdade, a chamada Estrada Velha de Santos (foto), já desativada, e que também corta a Serra do Mar entre São Paulo e Santos.

A Rio-Santos (BR-101, que depois emenda com a SP-55), cortando uma das mais belas paisagens litorâneas do país, parece ser a estrada de "As Curvas da Estrada de Santos". Ela passa por locais paradisíacos como Angra dos Reis, Paraty, São Sebastião e Ilhabela. E o que não escasseiam são curvas. Dirigi por essa estrada  em duas ocasiões. Na primeira delas,  em 1997. Inclusive ouvindo "As Curvas da Estrada de Santos", num determinado momento. 

Lembro que a primeira vez que fui ao Rio o clima estava ameno, com ares de inverninho, embora já fosse outubro. Chovia quase todo dia. E o dia todo. E, pela noite, as minas do Leblon iam para os barzinhos de gola roulé: 14ºC na Cidade Maravilhosa. No mínimo era algo mediterrâneo, mas parecia até mais. Quer dizer, até menos no termômetro. Era o cúmulo. Eu saíra de São Paulo com o desejo febril de pegar uma praia, e levara um calção de banho na mochila. Sem chance. Inútil paisagem.
O Cristo permanecia encoberto, lá em riba, por brumas que, com certeza, eram mais espessas que as de Avalon. O Centro antigo da cidade revelou-se uma maravilha. E entrar em certos locais - a Leonardo da Vinci, a Colombo, o Gabinete Português - um sonho. E os serviços, em geral, um pouco mais bagunçados que em São Paulo. E, no entanto, parecia que definitivamente a gente estava mais no Brasil. Desde que o samba é samba, etc. 
Especialmente na Lapa, à noite, num boteco contemplando os arcos. E imaginando ao tomar umas e outras, as outras mesas ocupadas também por quem já as haviam ocupado: Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Sérgio Buarque, Noel Rosa, Mário Lago ou Madame Satã. Havia grupos de chorinho no Carioca da Gema. E num tempo em que era impossível manter-se sóbrio por mais de oito horas.
No Bairro Peixoto, ali entre Copacabana e a montanha, onde me arranchei, todo mundo parecia morar em prédios de apartamento. Havia padarias, praças com playgrounds, babás de avental, crianças, totós, lulus e uma sossegada ambiência de bairro, além de belas garotas debaixo de pulôveres e cardigãs, voltando da faculdade. Por conta disso, dessa onda de frio temporã, o meu Rio de Janeiro, para todos os efeitos e até hoje, ficou sendo uma cidade “temperada”. Uma cidade à beira das ondas. Porém meio fria, como Floripa. E que nem sempre dá praia. 
Mas, então, certo fim de tarde, em que o sol abriu com mais pormenor e promessa, fomos caminhar pela Urca, com um olho na marina, outro na enseada, um terceiro no Pão de Açúcar, etc. Há muitas direções para se olhar em quase qualquer parte por onde se passa no Rio. E foi então que alguém disse apontando para um condomínio antigo, de não muitos andares:
-O Roberto Carlos mora aí.
Imediatamente começamos a cantar: “Se você pretende saber quem eu sou...” E depois, emendamos, com “As Canções que Você Fez Pra Mim”; e, em seguida, tornamos a “Quero que vá tudo pro inferno” - esta cantada com uma particular ênfase. E a coisa foi rendendo pelo menos até o Cassino, sob o qual passa a avenida do bairro. O prédio foi recuperado recentemente. Mas à época encontrava-se fechado. E com aquela autoridade muda de quem viu coisas do arco da velha. Mas ainda não era propriamente o inferno. E estávamos quase dois meses entrados na primavera.
E, logo, a noite veio caindo sobre aquela cidade cinza e fria, úmida; de montanhas e mar. Quase tão inóspita quanto Liverpool.
*
À semelhança dos Beatles, Roberto Carlos é um gênero musical. Uma espécie de ubiquidade brasileira. E, no entanto, não todo ele, mas expressamente o que registrou os discos que vão de meados dos 60 até dez anos adiante, e a constatação de que "É Preciso Saber Viver", aí por 74. 
Oito a dez álbuns para antologia. Ou, por outra, muito ao pé do ouvido, aqueles bolachões gravados de 68 a 72, ouve-se praticamente sem ter de pular faixa. Eles respondem por uma onda meio soul, com órgãos Hammond cumprindo solos, guitarras e violões base descoladíssimos, além de certos empréstimos vindos não só dos Beatles ou dos jovens cantautori italianos, mas sobretudo em linha reta da Motown - caso dos naipes de metais e seus ataques incisivos ou dos coros femininos em modo soul. Um suingue que vibra no corpo de cada instrumento. Algo também cristalizado em composições de Tim Maia registradas pelo Rei, mas não só. Uma actualidade fascinante. E gestada pelos melhores session musicians brasileiros - o que não é pouco.
Isso para não falar daquela ambiência um pouco sombria, existencial, de uma sopesada angústia, que salpica as letras dessa fase. Letras ditas numa voz levemente nasalada, mas limpa e distinta, embora carregada de pesar. Desassossego de quem aparentemente ganhou na vida mas perdeu no amor. Tristeza de amor recolhido, que sabe bem: merecia mais. E então semeia dobras de blues na voz. Nem todas são de autoria de Roberto Carlos, ou são parcerias com Erasmo, mas invariavelmente soam como se fossem. E, sem embargo, há coisas ali que já pedem orquestra, mas são levadas à base de guitarras, baixos e tambores, como “As Flores do Jardim de Nossa Casa”. E muito bem levadas.
Ou atravessando a planície dessas levadas, noutra direção, chega-se a certa sensação de inevitabilidade, abandono, que é plasmada, por exemplo, na neurótica “Agora Eu Sei”. Há paixão, violência e juventude, como nas “Curvas da Estrada de Santos” ou em “Sua Estupidez”; ou de forma mais direta e ingênua em “Nasci Para Chorar”, "Se você pensa" e "Quero que vá tudo pro inferno".¹ E há os grandes hinos românticos: “Como Vai Você”, “De Tanto Amor”, “Detalhes”. E há já revisões prematuras e uma atmosfera amarga, densa, fatalista e até uma citação na maior delas: “As Canções Que Você Fez Pra Mim”.
E dá vontade, mesmo a nós, que não sabemos fazer canção ou sequer concluir uma progressão em ré maior ao violão: trancar-se num estúdio, dia após outro, por pelo menos uma hora, ao longo de meses. E aprender a tocar, e gravar uma porção de canções bacanas, que a gente bolou para quem nos quis. Para quem nos quis nem que pelo espaço de quinze minutos.²
E, no futuro, então, esse "quem nos quis", possa, assim, imediatamente lembrar de nós, quando, ao acaso, escutar as canções que a gente fez. Ou mesmo se um outro cabeludo aparecer. Talvez. O certo é que éramos todos cabeludos. O que quase ninguém é mais. E aparecíamos mais nas casas uns dos outros. Ou mais para o mundo também, de acordo com a disposição, o empenho e o talento de cada. Mas certamente todos sonharam ser Roberto Carlos um dia. Até Chico Buarque confessou isso. E, afinal, já havia um Roberto Carlos entre os detentos de Pixote, o filme de Babenco, que é de 1981. Acreditem.
Alguns desses  candidatos a Roberto Carlos, alguns desses Roberto Carlos virtuais, aliás, já estão calvos. Outros trabalham na Receita, na Petrobrás, no Banco do Nordeste. Um é já Professor Emérito na Universidade Federal. Outro perito forense. E todos já contam os dias para se aposentar, coçando os ventres proeminentes. Depois, evidente, virá o pijama de bolinhas, a casaca de madeira. Morte de facto. Porque a morte de direito, sabemos, já está aí de há muito. Entre nós. Mascando as tardes. Comendo pelas beiradas. A comandar, pós-graduar, bacharelizar nossos dias.
Mas, para além, outros ainda optaram por carreiras menos ortodoxas: são curadores de arte, videoartistas, dão palestras, concorrem a editais e mantém ONG's. (Estes, já meio calvos, grisalhos, um pouco raquíticos é verdade; mas com o indefectível rabinho de cavalo e, se possível, cavanhaque ou aquela barba rala e meio sebosa). Um dos mais brilhantes morreu de cirrose. Mas a vida segue. Uma das mais brilhantes foi parar na Dinamarca. E lá comeu o pão que Hamlet amassou. Outra foi morta no cruzamento da Padre Antônio Tomás com Via Expressa, na estupidez de um assalto. É, a vida segue. 
A ideia das gravações, no entanto, parece auspiciosa. E especialmente porque nunca foi tão fácil gravar. E compartilhar - esse verbo, sórdido, no sentido tal qual foi pinçado pela moda - o gravado com quem de direito.
Agora, auspiciosa mesmo era a própria música de Roberto Carlos entre 68 e 72. Acontece que quase nunca era como a ouvíamos, porque ela fazia muito sucesso. E se não atentávamos para sua imensa qualidade e capacidade de companhia, era porque ela dissolvia na paisagem. Ficava camuflada, como o Platypelis grandis ou o Gongylus gongylode. Dissimulada, lá, onde não existia a distância do senso e do crítico. Mimetismos. Escondia-se entre o riso da garota e a onda quebrando contra o casco da canoa. O bustiê cobrindo só em parte, e a primeira vez em que a gente disse o nome. Os quadrinhos de Disney e o Sítio do Pica-Pau Amarelo - ainda o livro. A primeira Coca-Cola e os casais evoluindo na pista de dança do clube, com um terraço abrindo-se ao rio. Como um gênero que rodava diferente dos demais. Talvez para um outro lado, em dissimulação; e, por isso, não devêssemos nos ocupar dela.
Anos depois, já mais crescidos, se quiséssemos um pouco mais de sofisticação harmônica, era bandear-se para a Bossa Nova, Jobim, Edu Lobo, os mineiros. Se quiséssemos mais das letras: Vinícius, Caetano, Chico, Fernando Brant, Belchior. Se o caso demandasse mais a presença de pura música: Baden, Hermeto Paschoal, Gismonti. Ou se balanço, o caso fosse: Luiz Gonzaga, Jackson, Simonal, Jorge Ben – que depois trocaria de nome. Nas vozes, havia Elis e Milton. E para aprender algo com uma sensibilidade de saias: Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Sueli Costa, para além de Rita Lee.
Tudo muito claro no Panteão, na Sala de Justiça, exceto o seguinte: havia uma zona que era distinta de tudo isso e, ao mesmo tempo, podia nos receber com opulentas canções. Um estado da federação da música que era bem menos demarcado que esses outros estados, e pelo simples fato de estar sempre presente. 
Um estado de espírito, que nascera no Espírito Santo, mas sua capital desde sempre fora o Rio, essa cidade fria e cinza, como depois constataríamos. E sua melodia passava soando ao fundo de tudo isso. Trilhasonando tudo. Esse filme editado na íntegra, que era a vida da gente, e que rodava por muito longe da Estrada de Santos, com suas curvas bruscas. Mas, ainda assim, talvez mais perto do que se imaginava. Pois quando se passou em frente à casa dele, na Urca, pela primeira vez, cantou-se “As Curvas da Estrada de Santos” quase em piloto automático. Numa homenagem não menos sincera que anônima.
Roberto Carlos Braga. Um estado de espírito, que nos acercava desde o serviço de alto-falantes no interior – com sua pracinha e as meninas circulando à volta. E depois pela Feirinha do Bairro de Fátima, já na capital, passando pela Volta da Jurema. Ou uma célebre Praça Portugal, que ficava acesa até o dobrar da madrugada. Atravessando esses espaços, assim como a sala de casa, e seguindo até o pátio do colégio com sua algazarra, à hora do recreio. Ali também esteve o Rei. Nas festas de família e aniversários. E, depois, na faculdade. Nas reuniões de músicos e poetas no CA da Psicologia, trepado num sobrado que imitava um castelo, ainda que caindo aos pedaços. E posteriormente no mall, mais bem cuidado e macio, calçado a granito polido, dos primeiros shopping centers. Ou, antes, dos barzinhos da Praia de Iracema. Ali, Sua Majestade esteve também. Assim como nos exílios: lá fora ou em Santas Cecílias,  Belas Vistas, Vilas Clementinos, Perdizes, Pompeias, Florianópolis. Uma ubiquidade majestosa, egrégia, que respondia por uma trilha sonora mais ou menos natural disso tudo. Ou seja, de nossas vidas, lugares. Cicatrizes. Canudos e Vietnames da alma. Eldorados. Carandirus, onde atuamos ao mesmo tempo como os detentos, os agentes prisionais e a polícia de reforço. Cotidiano mais impressentido. 
E, apesar de tudo, ainda é nosso dever tentar triar trigo, joio. Mesmo que sabendo: o buraco é mais embaixo nesses casos a joeirar. E é por isso que não se deve abrir mão de acercar-se de certos sedimentos preciosos. E por divisar neles uma fase mais luminosa. Como nessa galáxia Roberto Carlos, a constelação que responde pela fase 68-72. 
É possível, no entanto, que uma das maiores dificuldades em ser Roberto Carlos, deva ir pela solidão. E, aqui, a coisa não é tão simples. Não é só a impossibilidade de ir a locais públicos. Afinal, há viagens e outros países. É mais que isso. Quer dizer, por exclusão, Roberto Carlos não pode ter por ídolo a figura que o resto do país tem: Roberto Carlos. Isso é que deve ser terrível. Perguntado por artistas que admira, ele cita Chaplin, os Beatles, Elvis Presley, Nelson Gonçalves, João Gilberto, Tito Madi. Mas também há um outro, sempre mencionado. E que vem até antes de todos esses outros. Este ninguém mais quase conhece: Bob Nelson. 
Bob Nelson, o Vaqueiro Alegre, era o nome artístico de Nelson Roberto Perez, um cantor de Campinas, que fez algum sucesso à época do rádio. Vestia-se como um caubói dos filmes, gravou uma versão de "Oh! Susanna" em português e misturava ritmos sertanejos à música country com influxos do yodeling. Em 1974, Erasmo Carlos gravou uma canção (feita em parceria com Roberto) em sua homenagem: "A Lenda de Bob Nelson". Perez morreu em 2009. Mas foi quem despertou num jovem capixaba de nove anos o desejo de ser músico. E cumpriu, assim, um papel de fundamental importância: ser o Roberto Carlos de Roberto Carlos. 
E seguem, por fim, de chapéu nas mãos e cachimbo na boca (só pelo charme, mas devidamente apagado), dez motivos para celebrar a grandeza de Sua Majestade:


É difícil olhar o mundo e ver” -
As Canções Que Você Fez Pra Mim” (1968) -

Peça alguém pra me contar sobre seu dia”-
Como Vai Você” (1972) –

Se você pretende saber”
As Curvas da Estrada de Santos” (1969)

Você vai ter que ouvir” -
De Tanto Amor” (1971) -

Na longa estrada do tempo que transforma todo o amor” -
Detalhes” (1971) -

Quem sabe menos das coisas, sabe muito mais” -
Agora Eu Sei” (1972) -

Conte ao menos até três” -
Sua Estupidez” (1969) -

Relembro a casa com varanda” -
O Divã” (1972) -

Não me interessa o que de mais existe” -
Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” (1965) -

Sem resposta, digo adeus e vou-me embora” -
Nasci Para Chorar” (1964) -

Uma saudade imensa, de alguém que pensa e morre” -
E Por Isso Estou Aqui (1967) -



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¹Reza a lenda que o então Arcebispo do Rio de Janeiro protestou junto ao jovem cantor contra esse negócio de mandar tudo pro inferno. E, então, no disco seguinte, Roberto, um hábil conciliador, abria o álbum dizendo justamente que daria o seu amor, mas também o céu à amada ("Eu te darei o céu"). De outro modo, aos poucos os arranjos foram perdendo essa pulsação soul para ganhar em sofisticação até resvalarem, como os 70 a meio, para algo mais previsível e francamente kitsch. Em "Detalhes" essa opulência dos arranjos conhece um auge. E pode-se dizer que os detalhes estão até mais na música que na letra. A onda, então, já é mais latina, menos Motown. E há um bocado de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma procissão de pequenos solos, provindos de xilofone, cordas, piano, flauta e violão.
²Agora, imagine - ainda que só por um pouquinho - que esse "quem nos quis", não refere tão só a cada um, individualmente, mas a toda uma geração. Aquela geração que cresceu ouvindo as canções que Roberto Carlos fez para nós, e que não quer, de jeito nenhum, abrir mão delas em nome de qualquer cinismo mais rasteiro,  das distâncias e ironias, ou de uma insidiosa maturidade pós-graduada. Pois já nos basta haver crescido no espaço estreito, no gargalo existencial entre o Golpe de 64 e o impeachment de Collor. Ou levar nos ombros o karma e a canga de ter de oscilar - modo maniqueísta - entre o Pasquim e a UDN. Ou entre células de guerrilha e o General Mourão. E, então, ler entrevistas com todos aqueles exilados de esquerda, quando ainda estavam lá fora, aí por volta de 1979. E cheios de uma atenciosa e ingênua esperança: a de eles serem, de facto, diferentes. A de as coisas só poderem ir para muito melhor, quando voltassem. E só para depois perceber concretamente quem eles eram. Quem era Miguel Arraes em Pernambuco ou Leonel Brizola no Rio. E o grau de aliança espúria que tinham de fazer para governar. Ou, ainda mais recentemente, José Dirceu ou José Genoíno. Ou as pensões estatais de Jaguares, Ziraldos, e por aí vamos. E entender, então, o grau de patriciado, de reserva de mercado da esquerda, que esse pessoal compunha e compõem. Ou seja, com poucas e notáveis excepções, o modo como eles praticamente apenas constituem a outra face do mesmo patriciado de direita. Só que na esquerda. Com um discurso de esquerda. E, no entanto, com os mesmíssimos vícios e cacoetes dos políticos de direita: privilégios, clientelismo, corrupção, tráfico de influência, etc. E inclusive com  várias dessas prerrogativas mantidas no exterior, quando foram banidos. Quer dizer, mantidas não a todos, evidente, mas à elite desses exilados, já que os privilégios não se estendiam à maioria daqueles que amargaram essa experiência traumática do exílio. E que, portanto, viveram-na sem as benesses reservadas a essa suposta "elite do bem", a esses "estadistas ilustrados", reunidos à força no exterior - e dela fazia parte, não esqueçamos, um futuro presidente eleito do país. E, quem olha assim, apressadamente, ainda hoje, até julga tratar-se de estadistas. Porém, entre os próprios exilados há quem discorde, e denuncie a comodidade de fazer parte dessa elite no exílio. É o caso de Sérgio Kokis, um dissidente brasileiro que inicialmente morou na França, e depois migrou para o Canadá. Kokis trabalhou muitos anos como psicólogo e acabou naturalizando-se. Ele é hoje um dos principais escritores do Québec, expressando-se em francês. Guarda, contudo, uma visão muito pouco lisonjeira da elite de esquerda brasileira no exterior. Visão que ele vaza para o próprio Brasil enquanto projeto social ou construção histórica. Seu ponto de vista, todavia, é praticamente desconhecido por aqui. Talvez porque não haja interesse que seja divulgado. Ainda que somente para ser discutido, ou mesmo contestado, relativizado - pois há ressentimentos pessoais e de classe a descontar em casos assim - seria importante que fosse conhecido. Os curadores de Bienais do Livro ou de encontros e simpósios literários, no entanto, preferem empenhar-se na vinda de intelectuais estrangeiros - por vezes de um peso até menor - mas desde que não incomodem tanto a esse cardinalato de esquerda ou a seus herdeiros políticos. 
Não haveria, aqui, algo de mal resolvido? Ora, especialmente num momento de inquérito, como o nosso - de revisão, em que arquivos são reabertos e há grandes gestos pós-anistia, no sentido da apuração da justiça - outra forma de apurar essa justiça não seria conhecer melhor - e de modo mais matizado - a história desses brasileiros no exílio? E especialmente do ponto de vista daqueles que não compunham propriamente o núcleo ou mesmo a periferia dessa elite? Ainda hoje quando se fala em pluralidade, infelizmente parece não se falar em algo que seja amplo o suficiente para entrar em escrutínios que possam manchar a imagem da esquerda institucional. Como se pluralidade fosse sinônimo ou monopólio dessa esquerda institucional. E tudo isso não indica, no fundo e apenas, o quão próximo encontram-se a direita e a esquerda no Brasil?

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Meu Forte





viajar, essa nova maneira de evitar o desespero. nem sempre funciona:

-ei, dona maria, sabe qu'eu queria transar – disse ele, entornando o copo.

-é nada. como? - ela disse, refestelada na espreguiçadeira vizinha.

-por trás dessa vez.

-ah, meu Deus, dá-me paciência.

ela deitou-se de bruços, a carne farta, levemente estriada, saltando em abundância das metades do biquíni.

ele retirou o biquíni, desamarrando devagar, dobrou com pachorra, cheirou em piloto automático, e pôs à mesa, sob o guarda-sol, num esticar de braço. A mão serviu o gole e, depois, às cegas, desceu até a bolsa, à base da espreguiçadeira articulada, e tirou um saco plástico, apenas tateando.

no saco havia os preservativos e os bonecos. Eram de Forte Apache, miniaturas. 

ele pôs alguns em cima de uma das metades, que tremulavam, exuberantes, um tanto matizadas por sol, e a palidez. Era quase acabamento sunburst no chassi de uma Gibson 335, pensou. Um atirador de elite ficou numa posição estratégica, dominando o desfiladeiro. E, então, um segundo grupo à base da colina. Além de uma bateria com canhão e alguns sacos de areia na jarreteira. E, avante, um pouco acima da articulação do joelho, bem junto daquela verruguinha, um tocador de tambor, alguém portando a bandeira e um grupo de mulas. Quando pôs o corneteiro, ela sentiu cócegas:

-é que às vezes eu fico um pouco impaciente – disse – e, pra falar a verdade, rezando pr'essa arrumação não chegar nos ouvidos das minhas amigas.

ele ajustava metade dos guerreiros comanches nas costas dela, na ravina, atrás das montanhas:

-besteira - disse - brincar sempre foi meu forte. 




Baixo para cima



no futebol cearense, a revolução vem literalmente de baixo. Os títulos nacionais parecem estar à altura somente de times bastante modestos. O Guarany de Sobral conquistou o título da 4ª divisão: é o único título nacional de um clube cearense até agora. E de momento o Icasa ameaça vencer o da 3ª divisão. Será muito difícil: decidir no interior de São Paulo após um empate sem gols em Juazeiro do Norte. Enquanto isso, Fortaleza e Ceará: babau. Não têm um único título brasileiro, de qualquer divisão. Apesar de o Ceará ser o clube que mais vezes disputou a Segundona. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Editor




tinha que reprocessar o primeiro conceito visto às pressas num livro de Deleuze para o original ser minimamente levado em conta. Caso contrário, não seria publicado. Sabia. 
o editor era um sujeito alto, calvo, nem magro nem gordo, alvo, veias azuis, meio anêmico, que aparentemente namorava sua própria capacidade de pensar como era delicioso ler algo em que o ensaísta americano da vez meditava sobre a masturbação das vírgulas em Henry James. E pediu a ele para fazer uma cópia xerográfica de um dos livros que portava consigo: um poema épico modernista americano, numa edição barata da Penguin:
-a gente não topa com essas coisas por aqui todo dia – disse, resignado.
era ainda a fase heroica da net:
-cê acha que pode me dar uma resposta até o final do mês? - disse Arthur, quando de fato importou dizer algo. Embora tenha demorado chegar a esse algo.
e olha que antes já tinham passado pelas usuais bílis e perrengas entre escritores. Quem trepou com quem. A gafe cometida pelo Beltrano no lançamento do livro da Sicrana. A Mulher do F., que o trocou por uma aluna. O cômico prefácio do J.M. Como era desastrada a tradução daquele clássico da historiografia dos Annales feita pelo Fulano de Tal dos Anzóis. Ou aquele tipo político, que sempre se eximia de dar nomes aos bois. Ou, do contrário, o que o Túlio Bonsano aprontara dessa vez - e contra quem - em seu mais recente artigo na Folha, etc.
A pequena coleção de rixas que a alguns alimenta mais que frases ou sintaxe. Parece inevitável que se tenha de descer assim nos assuntos para publicar algo. O quê mesmo? Algo que ao menos Arthur julgava pronto e com algumas boas ideias. Algo em que ele acreditava, na bucha, haver posto um bocado de nervos, tendões. Só para parar ali, naquela sala de editora em São Paulo, e ficar contemplando os ladrilhos vermelhos na parede sem muita previsão do que a vida reservava. 
Uma coisa, no entanto, não reservava: a capacidade do editor perceber nos seus gestos, o tempo danado gasto para dispor as frases, daquele jeito, até formar, no todo, aquele algo, que estava ali em laudas encadernadas entre o plástico. 
E, não obstante, no navegar ainda não virtual da conversa, aquele algo tenha assim chegado quase como alga, boiando sobre as ondas, ao acaso. E, de repente, num manhã inesperada, algo está no seco da praia. E alguém pisa em cima de algo, como se limpa o dockside enlameado no capacho sobre o batente num dia de chuva. Ou então se retira o tênis depois de pisar na gosma - merda ou vômito - com um esgar no rosto:
-olha, cê sabe que a gente quase não tem editado poesia.
lá fora, uma moto passava avulsa. E o grande tráfego da 23 de maio, alguns blocos adiante, troava seu ruído branco na desgraceira sem fim de São Paulo.

Pedaço de Carne




quando eu morrer, vou ser um pedaço de carne

e nenhum anjo posto na sombra vai

me dizer para ser isso ou aquilo. ou

quem sabe, as moscas varejeiras digam:

será que vale a pena tirar sangue desse aí?

não. o sangue dele é ruim, viu? Tinha ruim até

no nome. leu demais, ficou mofino: o

sangue, fino; ralo como os cabelos sobre

a  testa. e a gente, a gente sabe que o 

sangue de um tipo assim não presta

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“pra todo mundo mas não pra qualquer um”




o mesmo coronel, que prendia e espancava os amigos, mandava-lhe flores. Recadinhos. Fiu-fius. 

mesmo que nada. 

um dia conseguiu abordá-la, no camarim:

como é que é isso, Leila: você dá pra todo mundo, menos pra mim?”

ah, obrigada. um buquê lindo, incomum”- retrucou a atriz – "pois é. eu dou pra todo mundo, mesmo. mas não dou pra qualquer um”.

Dentes Brancos: Zadie Smith



Zadie Smith em foto promocional (mais acima), e numa cerimônia de entrega de prêmios, em 2010 

Zadie Smith, David Foster Wallace, Jeffrey Eugenides e Jonathan Franzen contam entre os mais decantados escritores em língua inglesa surgidos nas duas últimas décadas. Recentemente Zadie Smith lançou mais um romance: NW - que é a abreviação para North West London, o código postal (postcode) da área. O livro, frequentemente comparado em desvantagem com o propalado romance de estreia da autora, o catatau White Teeth (2000), tem recebido uma apreciação mista. E um tanto morna. Com um, outro entusiasmo avulso.¹ Essa escritora, filha de inglês com jamaicana, nascida e criada na multiculturalidade pulsante (e um tanto desencantada) do Norte de Londres, hoje vive entre esta cidade e Nova York, onde é professora num programa de Redação Criativa (Creative Writing), além de escrever regularmente para prestigiosos suplementos literários. Fica a sugestão da leitura de White Teeth, a exemplo do Infinite Jest (1996), de Wallace, um daqueles livros que nos perspectivam diante de nosso tempo. E, de algum modo, fornece chaves para entendê-lo melhor. E, em geral, vindas de onde menos se espera. E abrindo portas para onde se quis estar, um dia. E de um modo mais gracioso que na filosofia francesa. Ou no rap nova-iorquino. O livro foi lançado aqui pela Companhia das Letras há quase dez anos, em tradução de José Antônio Arantes (Dentes Brancos, 2003).


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¹Críticos dizem de uma narrativa menos ambiciosa que em Dentes Brancos ou Da Beleza [On Beauty, 2005], livros onde há mais panorama e instantâneos desse mundo mutante e instável dos imigrantes do norte de Londres. (Ou, no caso de Uma Questão de Beleza - assim nomeado, na tradução brasileira, o 3º romance da autora - de uma família mestiça britânica morando na região de Boston). Alguns apontam para certo travo modernista, consubstanciado num fluxo de consciência que deriva de Joyce, segundo uns; de Virginia Woolf, segundo outros, pairando sobre NW. Um tanto como em Uma Questão de Beleza o modelo explícito é E.M. Forster. A história de NW, no entanto, se passa no cotidiano de duas mulheres criadas em North London. Uma atinge certo grau de sucesso e prosperidade, ao contrário da outra; embora ambas tenham chegado à universidade. Uma relação de ressentimento se interpõe. Como amigas íntimas elas se admiram, mas também conhecem os pontos fracos e o lado menos luminoso uma da outra. E há o fato de uma delas assomar mais bem delineada, como personagem. Para além, esse microcosmo londrino é igualmente habitado - e assombrado, como não podia deixar de ser - por quem elas desejam: dois sujeitos que também tiveram sortes muito distintas ao longo da vida. James Wood, o eminente crítico - que criou o conceito de "realismo histérico" justo numa apreciação de Dentes Brancos -  investiu com força contra o segundo romance de Smith, The Autograph Man (2002). E há um misto de fascínio e repulsa nas análises de Wood. Entre outras coisas, ele acusa a autora de converter situações sociais em personagens, esvaziando-os da possibilidade de um indivíduo. Mas mesmo Wood, um crítico feroz da equívoca hiperdisposição narrativa;  dos excessos meta: da profusão de citações, referências teoréticas, linhas paralelas de narração curtocircuitando-se ou conduzindo a detalhes mesquinhos; dos autores usurpando personagens e pondo palavras improváveis (ou no mínimo demasiadas) em suas bocas; e dos demais pastiches nessa prosa pós-industrial; não se furta a louvar a veia cômica de Dentes Brancos. Embora, no caso específico de O Caçador de Autógrafos (assim nomeado na tradução brasileira), ele proteste contra uma escrita que "é a mais próxima que uma escritora britânica chegou de soar como um(a) americano(a); o resultado é perturbadoramente mutante". Ou ainda: "o romance, que se passa num Norte de Londres e numa Nova York imaginários, porta o selo de escritores americanos, tais como David Eggers e David Foster Wallace, exibicionistas natos e astutos, QI's com I-Books, sujeitos que, no dizer de Smith, 'sabem das coisas', escritores com um dom para uma vertiginosa análise cultural e cuja prosa é vincada de interrupções" e de referências a metateorias e quejandos. Mas, mesmo aqui, não deixa de ser interessante que esses escritores virtualizados, já escrevendo na ambiência do hipertexto, mudando de continente como quem troca de roupa, perfeitamente desenraizados, elejam um lugar específico da memória como lastro de suas vidas. Caso da decadente Detroit que assombra a prosa de Jeffrey Eugenides; da Saint Louis das lembranças familiares de Jonathan Franzen; ou do Norte de Londres, mutante, revolvido e pós-industrial dos romances de Zadie Smith. O que James Wood lamenta é algo que situa-se a meio caminho da motivação, da pulsão comunicacional desses jovens escritores e o modo como empreendem esse registro: eles constroem sua linguagem a partir da estilização de uma fala que, bem entendido, está impregnada de absurdas referências pop (advindas, num primeiro momento da televisão, dos discos e filmes, e, posteriormente, da internet); mas, de outro modo, parecem não guardar suficiente distância disso. E, logo, assomam mais como resultantes desse estado caótico de coisas, que propriamente no papel de críticos mais abalizados desse panorama desolador. Os reclamos de Wood fazem sentido, desque a gente os entenda como algo que deplora não o retrato, em si, desse estado de coisas, mas uma espécie de vazamento da cultura pop para a prosa de vanguarda formatando, assim, um híbrido que desagrada ao crítico formativo, conservador, excessivamente apegado à ideia da narrativa e de um conceito mais ortodoxo de realismo, como é James Wood. Ele percebe bem: enquanto aparentemente apenas tecem uma espécie de sátira deste nosso mundo espetacularizado e coisificado, os romances também sucubem, eles próprios, à espetacularização, à coisificação e à banalização do  lixo midiático e pop no Ocidente: "a identificação de um problema não é necessariamente algo que se contrapõe a ele, e pode ser tão só uma simples cumplicidade: foi precisamente essa estrutura do romance trívio-tatuado de Rushdie, Fúria, que posava como um desafio, quando era em realidade uma carta de amor à sociedade do espetáculo". Ao se contrapor a esses jovens escritores, alguns, dentre os quais, mais ou menos da idade dele próprio, Wood, ironicamente, também ajuda-os a se definir e se enxergar melhor no panorama de mutações pelas quais tem passado a prosa em todo mundo - e no mundo de língua inglesa, em particular - nas duas últimas décadas, as do surgimento da internet e do livre compartilhamento de arquivos. E não deixa de ser um bocado abalizado - e mesmo um bocado divertido - o modo como Wood transpõe à tela do processador de texto suas inquietações sobre os admiráveis (e aterradores) novos rumos, as mutações e as reconfigurações do romance:


Incidentally, novels in which the leading characters are human Cray computers of arcane trivial facts, in which people quote Casablanca to each other, or start conversations with challenges like ‘name three vintage Hollywood decapitations’, or go on about Kitty Alexander and Lauren Bacall, are now coming to seem dismally familiar. We have had High Fidelity, and White Noise, and Quentin Tarantino, and The Sopranos, and Fury, and by now we get the idea that we are poor sops in the society of spectacle, and that everyone under fifty speaks in consumer clichés and TV tags. It may be time to retire this little observation.
[London Review of Books, 2002]


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Mano Menezes: sobre o inoportuno da demissão e a sonoridade do nome Guardiola




primeiro, a demissão de Mano Menezes é um alívio. Segundo, a imprensa especializada revela-se um bocado boboca, sem ideias, quando se constata o modo como analisa a demissão – em geral, taxando-a de inoportuna. Ou então, aferindo-a pela afabilidade do ex-técnico ou as conveniências das fontes já sedimentadas, próximas a ele. E que, em boa parte, eles irão perder, etc. Terceiro: seria ótimo se o boato sobre a vinda de Guardiola tivesse um fundo de verdade

sobre os pontos 2. e 3. - já que 1. é o óbvio: 

a imprensa devia regozijar-se, porque num período sem muito assunto de futebol, dezembro e janeiro, terá um verdadeiro boi-de-piranha: especular sobre quem será o novo técnico da Seleção. Logo, não foi nada inoportuna, mas até mesmo estratégica, a data escolhida pela CBF. Findaram os amistosos do ano, demite-se o técnico. O óbvio teria sido demiti-lo logo na mudança de comando, já com o outro nome na bucha

por seu turno, argumentar que o futuro treinador só irá beneficiar-se do trabalho de Mano é um truísmo e uma inverdade. Como se por conta de algum mínimo padrão de jogo ou uma ou outra vitória recente, sempre contra adversários de segunda linha, fossem então esquecidas as deficiências, as derrotas em competições importantes - sobretudo a Copa América - e as péssimas estatísticas da era Menezes¹

querer, aliás, que um técnico não se beneficie do trabalho do anterior, é exigir que ele comece rigorosamente do zero. O que não existe. Em nenhum ramo de atividade. Aqui, aparentemente, boa parte da crônica esportiva mais contestadora - nomes como PVC, Juca Kfouri ou André Rizek - misturam política com eficiência. Pode ser que Menezes represente algum avanço político - que, de resto, não vislumbramos bem onde está. Porém, concretamente, nenhum avanço desportivo

agora, o que existem são técnicos capazes de armar um time. Dotar-lhe de um padrão de jogo e de um instinto competitivo. Ou então, capazes de ler uma partida. Ou, no intervalo, fazer o time voltar melhor, mais aguerrido para o segundo tempo. Ou ainda apto e disposto a virar um resultado adverso. Voar em campo. Coisas que Mano não conseguiu em dois anos. Assim como não conseguiu bater nenhum adversário mais respeitável. Bem ao contrário de Dunga. E os progressos foram pífios

não se entra no mérito de quem compõe a CBF. Ninguém cheira bem por ali. Muito menos Andrés Sánchez. E vê-lo longe, sem chances de assumir a entidade, é também um quadro a desejar. Porque entre maus necessários e uma faxina geral, não custa nada sonhar com a última. Além disso, qualquer coisa que apequene o excessivo poder de barganha do Corinthians é bem-vindo. O time é a menina dos olhos da Rede Globo e do PT. Não é pouca coisa. Mas o Brasil necessita é de um maior espírito federativo, inclusive no futebol. Logo, o modelo devia preocupar-se em desconcentrar, justo o que não tem sido feito

por fim, seria bom se Guardiola viesse ensinar um pouco de futebol brasileiro para a gente. Genial mesmo. Deixaria no prejuízo todos esses retranqueiros de plantão: Muricy, Abel, Tite, Felipão, Luxemburgo... Técnicos resultadistas, pragmáticos, ultrapassados. O confronto mais constrangedor em favor de europeus contra brasileiros que já assisti na vida: os 4x0 e a atitude geral do Barcelona diante do Santos há um ano. Pareciam profissionais jogando contra a várzea: o que foi aquilo? Uma ocasião em que o futebol brasileiro foi humilhado, batido com brilhantismo e de muito. Isso não se vê todo dia, aliás

a vinda de Guardiola iria de encontro a procedimentos desagradáveis mas estabelecidos. Ou mesmo transformados em rotina. Como a convocação de jogadores apenas para valorizar-lhes a venda ao exterior. Assim como outros vícios e más posturas ligados ao jogo em si: excessiva "malandragem"; preocupação com cavar faltas, cartões, com pressionar o juiz; obsessão por volantes brucutus ou os tais jogadores "táticos" (como nos últimos tempos Thiago Neves(?)); uma certa incapacidade para lançar talentos da base; o monopólio de jogar sempre em contrataques, não ter saída de bola de pé em pé, não operar por trocas de passe; acomodar-se inevitavelmente após magra vantagem no placar e deixar ao adversário o protagonismo do ataque; dispensar demasiada importância a detalhes secundários, tais como comemorações coreografadas, ou a vida privada dos atletas extra-campo, etc. Enfim, é preciso recobrar foco: e reconcentrar-se no essencial: jogar bola

e, nesse rumo, dos males o menor: Guardiola tem esse nome meio Coca-cola que parece radiola, vitrola, esmola, padiola, carambola. Um nome que está prestes a incorporar a própria bola. A circunscrevê-la. Um nome, de alguma forma, esférico, long-play, perto da gente

Guardiola parece talhado para desafios épicos. E ele - que já foi treinado no final de sua carreira de volante, quando jogou no Qatar, por Pepe (José Macia, ex-Santos) - aprecia isso. E nem por sombras, em clubes ingleses - azeitados a petrodólares, xeiques, magnatas russos ou escroques do gênero - acharia um desafio maior do que levar o Brasil ao sexto título jogando em casa

um tanto improvável. Deve ficar entre Tite e Felipão. Mas a conferir. Embora qualquer rebotalho, e mesmo a pior hipótese - um Felipão, retornado sem melhores ideias, depois de despedido de um time que caiu para a segunda divisão - parecem melhores que Mano. Embora, quanto à filosofia geral da coisa - resultados e estatísticas a parte - seja apenas trocar seis pela metade dos apóstolos 

ou prosseguir com o caudilhismo gaúcho à frente do Scratch



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¹e, aqui, é mais fácil, então, desvalorizar competições, como se existisse apenas a Copa do Mundo. E a Copa América - que é o campeonato entre seleções mais antigo do planeta - devesse ser visto como um torneiozinho de várzea

O blogue enquanto forma

Zoe Williams, 2011

em Afetivagem, tentou-se o blogue enquanto forma. Entenda-se isso quase no sentido secundarista que temos de gênero literário. E então pense o blogue enquanto gênero: mais ou menos como se pensa em romance, conto, novela, crônica, crítica, poesia lírica, ensaio, memória, letra de música, tradução, pastiche, reportagem, travelogue, etc. Pense, análogo a esses, um gênero chamado blogue. Até porque por aqui há todos os gêneros, em todos os sentidos - com a possível exceção do romance. Ou do poema épico, desnecessário dizer

é por aí. E também por aqui

havia predisposto que este ano escreveria ao menos um post por dia. Foi mais. Embora haja considerável quantidade de bobagem. Ossos inevitáveis do ofício? Não. Mas é preciso ser magistral para escrever coisas boas todo dia. E se não é o caso, também não se deite à escarradeira o que deve ir para o álbum
mas em dado momento, escrever todo dia impede textos mais longos, encorpados, devidamente revisados. Ou algum poeminha ou tradução a mais. Ou mais bem faturados. Embora algo do momento deva restar, como na prescrição de Carlos Williams: “if anything of moment results-so much the better", etc.
queria provar a mim mesmo que posso escrever diariamente. E pude. E posso. E que os posts, em geral, divertem. E, do contrário, há também textos mais densos ou mais longos. E houve até o momento em que textos curtos ameaçaram nos conduzir para algo mais amplo como o romance. Uma ameaça de romance. Ô coisa tentadora.  E porém ficou só na ameaça, na tentação

como deve ser, quando ainda não deve ser, etc.



NOTA POSTERIOR
se é preciso ressaltar alguém: você, leitor. Você que esteve mais por aqui neste último ano que nos 5 anos anteriores somados. MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Emily




Eu não sou ninguém. E você: é quem?
Será que você é ninguém também?
Isso dá dois de nós, você vê.
Mas não diga. É segredo.
Senão eles nos põem na TV.