domingo, 18 de novembro de 2012

Alguma Música para o Final de Ano e Natal (Edição 2012 – Ano 2)


Carl Theodor Dreyer, Ordet (A Palavra), 1955 


Jean-Baptiste Lully (1632-1687) - o florentino pobre e auto-didata cujo talento levou-o a ser superintendente da música de câmara da corte de França. Libertino, teve casos com mulheres e homens. Segundo alguns, com o próprio Luís XIV - o que é disputado. Era também bailarino. Morreu da gangrena que sobreveio após ter acertado os dedos do pé com o bastão com que se regia à época (marcando com pancadas no chão). Sua música é caracterizado pela prevalência do baixo contínuo. Como nest'As Folias de Espanha:
Há um filme sobre sua vida: Le Roi Danse (2000)

Dietrich Buxtehude (1639-1707) - é o dileto precussor de Bach e expressamente dedicado à temática sacra. Esse compositor teuto-dinamarquês, que também era organista e um fervoroso luterano, chegou a acolher Bach em sua casa. Dele ouviremos um Magnificat (ou seja, um canto de louvor à Virgem por carregar em seu ventre o Salvador. Concretamente, o Magnificat designa o encontro de Maria com sua prima Isabel, então grávida de João Baptista): 

Monsieur de Sainte Colombe (1640–1700) – há um belo filme sobre este compositor chamado Touts le matins du monde. Provavelmente quase todo o filme é ficcional, pois perto de nada se sabe deste compositor da Aquitânia que aparentemente viveu nas cercanias de Pau e era protestante. No filme, Sainte Colombe é retratado como um jansenista recluso. Sainte Colombe foi um dos expoentes da viola da gamba, instrumento que precedeu o violoncelo. E é a peça Le Pleurs (O Pranto) para viola da gamba solo que ouviremos agora. A peça faz parte de um conjunto de temas chamados de Tombeau Les regrets (Tumba dos Lamentos):

Johann Pachelbel (1653-1706) – compositor alemão que viveu ao tempo de Bach. É mais conhecido pelo Cannon in G, que apresentamos ano passado. Este ano, dele ouviremos, uma peça que é uma das favoritas, a Partita "Christus, der ist mein Leben". O tema retorna e é glosado várias vezes em fuga. Esta peça macia, exulta alegriaª, serenidade, fé e tem, especialmente em seu início, a estrutura de um hino devocional:
http://www.youtube.com/watch?v=zNFt0jPAd58&feature=my_liked_videos&list=LL3cA86tI6hSRDhagTdcap6A

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ªÉ provável que o conceito de alegria em música para o brasileiro seja algo tão vinculado a ritmos fortes em andamentos acelerados, que deve soar estranho dizer que este tema é alegre. Mas a alegria é algo que pode ser conduzido também pela melodia, e até comportar um marcante senso de serenidade. Como nesta peça. 

Marin Marais (1656-1728) –  compositor francês especialista em viola da gamba. Foi aluno de Lully e do Sieur de Sainte Colombe. Dele, optamos por esta Chaconne para Viola da Gamba Solo - o violoncelo com seu timbre tendendo ao grave e a grande extensão é um dos naipes mais encorpados, e era também o instrumento de Villa-Lobos. Às vezes, é possível ouvir essas peças solo como uma conversa, com suas pontuações inflexivas, perorações, redundâncias, interjeições, apelos, perguntas, ênfases, exultações, súplicas, etc.:

Phillip Heinrich Erlerbach (1657-1714) – compositor alemão ligeiramente anterior a Bach. Uma Cantata de Natal em estilo algo pomposo, que lembra o de Händel:

Antonio Vivaldi (1678–1741) - o padre ruivo florentino dispensa apresentações. Seguem seu Concerto de Natal para Dois Trumpetes e Baixo Contínuo e, num segundo momento, o magnífico Concerto Grosso em Sol Menor RV578, com sua abertura estacada e a característica vivacidade, os dramáticos contrastes, a paixão, certa atmosfera de inexorabilidade tão característicos da música vivaldiana. Há de geométrico e frio na música de Vivaldi. Algo de cálculo. E, no entanto, um dramaticidade que não se encontra em lugar algum. Possivelmente o mais importante compositor do barroco, depois de Bach:

Francesco Manfredini (1684-1762) – discípulo do anterior, compôs extensivamente. Este músico nascido em Pistoia passou uma fase de sua carreira na corte de Mônaco. Dele ouviremos um Concerto de Natal em estilo vivaldiano:

Georg Phillip Telemann (1681-1767) – músico germânico contemporâneo de Bach. Dele escolhemos a Ária de seu Oratório de Natal: "Hirten aus den goldnen Zeiten":

Georg Friedrich Händel (1685–1759) - outro que dispensa apresentação. Selecionamos a Suite I da Water Music. Esplêndida e solene como só Händel, que foi também um mestre do gênero Oratório. E em especial a introdução dessa belíssima peça. Händel, Lully e os violistas franceses constituem os momentos de música leiga. Mas no barroco ainda não há suficiente descolamento entre medieval e moderno, e, portanto, toda a música barroca, mesmo a mais profana, é percorrida por um sopro de fé e celebração. Há nela uma pulsão para a comensalidade - e, logo, para a comunhão - porque o ser, súdito de um Senhor tão desmedidamente superior, nivela até mesmo as rígidas hierarquias sociais de então:

Pietro Locatelli (1695 –1764) – compositor e virtuose precoce do violino. Dele, para nossa coletânea predominantemente de música para o Natal, um movimento (V. Andante) de seu Concerto de Natal, onde a semelhança vai por Acangelo Corelli. Seu estilo mescla Corelli e Vivaldi. Ou seja, provem dos Concerti Grossi e vai até às Árias e Concertos de estilo vivaldiano:
E, num segundo momento, dois movimentos [IV. Allegro e V. Capriccio] do Concerto para Violino em Ré Maior. Onde no Capriccio há já algo maneirista:
http://www.youtube.com/watch?v=uo1pctDLQu0&feature=relmfu[Violin

Emerico Lobo de Mesquita (1746 –1805) – do barroco mineiro, este belo Te Deum seguido de um Salve Rainha: 


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Johann Sebastian Bach (1685-1750) – felizmente falamos bastante dele este ano. Então, melhor calar-se, ouvir sua música numa escolha expressamente sacra:

http://www.youtube.com/watch?v=a6MMW-NJmt8 [Abertura do Oratório de Natal, BWV 248 -  "Jauchzet, frohlocket, auf, preiset die Tage"]
http://www.youtube.com/watch?v=Y1bfAmz05Do&feature=related [A Sinfonia - ou Pastorale - do Oratório de Natal, BWV 248 - Abertura da Segunda Parte: descreve a chegada dos Pastores para a adoração do Menino].
Para uma versão completa do Oratório: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=VVeluHdzcBY&feature=endscreen
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http://www.youtube.com/watch?v=dKMRNuCKHlM  [Cantata BWV 8 "Liebster Gott, wenn werd ich sterben?]
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Sôbolos Rios de Babilônia
Am Wassernflüssen Babylon, BWV 653:
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Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 Chorus: "Wir setzen uns mit Tränen nider"

Há no Youtube, entre outras, esta versão completa da Paixão: mais de duas horas e meia de música:
http://www.youtube.com/watch?v=YUNdQ_GW9Tw&feature=related

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paralaxe Espectroscópica de Adolfo Caminha – ou Esse cabra era bom (e já punha os imigrantes ao centro da trama)


Um dos raros retratos de Adolfo Caminha (1867-1897)

Há um entremear melhor da trama em A Normalista que no Bom-Crioulo. E por uma questão de proporções e situação, se entendermos por situação a paisagem do entorno. E não só a paisagem física como também a humana. E há, por igual, uma contradição interessante: o fato de João da Mata, que mais adiante irá deflorar a própria afilhada, ser um simpatizante do positivismo, das ideias modernas e francesas. Um entusiasta da ciência, anticlerical e leigo. Então, o romance não é nada unidimensional, como costumam ser algumas obras dessa fase de poesia simbolista ou parnasiana, e meio insuportável. Ou previsíveis romancezinhos predeterministas, positivistas, pseudo-científicos. Ou então, francamente insípidos, feito A Fome, de Rodolfo Teófilo.
A Normalista (1893) surge, então, mais arrematado, e mesmo mais romance que Bom-Crioulo (1895). Este, apesar de ser posterior, deve seus méritos, sobretudo, ao fato de tocar num tema completamente estigmatizado e tabu, à época. E, ainda assim, como estrutura literária oscila entre a concepção da novela e a do romance. Embora seja uma oscilação que vale a pena seguir.
No entanto, há algo de ainda mais moderno em Adolfo Caminha, que tematizar incesto ou homoerotismo. E é uma espécie de natural cuidado ao tratar da questão do imigrante. Ele próprio um migrante, do Ceará para o Rio, e então, de volta ao Ceará - e depois errante um pouco por toda parte na Marinha de Guerra - Caminha não se exime de demonstrar uma sorte de cuidado com seus personagens imigrantes e trânsfugas. Como se boa parte da respiração do mundo não se desse sem o arranco transformador e desestabilizador que só os imigrantes portam.
Há alusões à imigração por toda parte em suas páginas. E um de seus dois romances  - ou esboços em prosa - inacabados leva o sugestivo título de O Emigrado. Então, já há em sua obra uma compreensão intuitiva desse fenômeno da imigração e do desenraizamento como vital para a confecção da época em que vivemos. No Cap. II de Bom-Crioulo, por exemplo, em que Amaro, marujo passado na casca do alho, tenta aliciar o jovem grumete Aleixo, para que more consigo, tão logo retornem ao Rio, há a presença, não muito longe, desse senso de migração e moto perpétuo. Ou mesmo, se quiserem, peregrinação sobre a terra; pois no exato instante da proposição, em alto-mar, imigrantes passam, no convés de um transatlântico inglês, como testemunhas distantes, involuntárias dos acontecimentos. Eles não testemunham propriamente, mas demarcam o tempo. Acercam-se dele com sua presença insuspeitada:

Um mundo de gente movia-se na proa do [transatlântico] inglês, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro horas.
[Bom-Crioulo, Cap. II]

Praticamente todos os protagonistas de Adolfo Caminha são imigrantes. Maria do Carmo, a normalista, é filha de criadores de gado, da região do Jaguaribe. Estes, tendo perdido tudo na Grande Seca de 1877, buscam inicialmente Fortaleza e, depois, a Amazônia. A exceção, em termos de rumo, é a do irmão mais velho, ido previamente em sentido contrário, por mero acaso de temperamento: recrutado compulsoriamente pelo exército, e a serviço no Sul – mas, de algum modo, próximo à carreira militar que o próprio Caminha acabou empreendendo até ser afastado por uma escandalosa união com uma mulher casada. E casada com um oficial.
O Capítulo II de A Normalista que trata da viagem da família de Maria do Carmo dos currais de Campo Alegre para Fortaleza é, por sinal, dos mais vívidos e conta com uma qualidade de simpatia que destoa nesse autor usualmente mais seco ou misantropo:

Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o litoral na pista de socorros públicos. Totalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem por sua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera também ir-se com a família para Fortaleza, embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava a esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando o peito rijo, não se trocar por muito rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça, cheio de vícios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente, puro e abundante sangue português. Nunca sofrera a mais leve dor de cabeça. Conhecia a sífilis por ouvir falar. Casara muito moço, imberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eulália de Mendonça Furtado, de uma família de Furtados da Telha.

Que Mendonça não conhecesse a sífilis, não se entregasse ao tédio, à masturbação, assim como a menção aos casamentos endógenos - tão comuns em famílias sertanejas dos ranchos e currais do Jaguaribe, do Cariri, dos Inhamuns - revela algumas crenças em comum com os naturalistas em qualquer parte do mundo. Coisa dos pré-condicionantes físicos e sociais ditando os espirituais. E, no entanto, é notável essa exaltação do sangue português associado – mais ou menos como entre os de língua espanhola aos galegos - com a disposição para a faina incessante e pesada. Esta última observação, no entanto, é mais cultural que “científica”. Ou seja, que naturalista. E há muitas delas em Caminha. E exatamente por isso ele escapa de ser o naturalista padrão. O mesmo de quem Machado de Assis ainda vai detectar traços no Eça de Queiroz do Primo Basílio em uma brilhante página de crítica. 
De outro modo, é notável que seja justamente O Primo Basílio o romance que Maria do Carmo lia às escondidas, no banheiro de casa. E comentava com uma colega da Escola Normal, que a havia emprestado. E o contrapunha à literatura xarope reservada para as moçoilas da época numa Fortaleza ainda de um provincianismo exemplar. Como se fosse uma espécie de modelo de leitura a se sugerir.
Adolfo Caminho, ainda mais em A Normalista mas também em Bom-Crioulo, é um escritor que dá o que pensar. E se não houvesse morrido com apenas 29 anos, é possível que a gente ouvisse falar mais dele. E melhor. E é uma pena que só seja lembrado para provas de Literatura no secundário ou exames vestibulares.
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No presente, Adolfo Caminha é apenas a dor de cabeça de muitos colegiais brasileiros forçados a ler seus dois romances, que sobreviveram - A Normalista e Bom-Crioulo. Ele é mais que isso, no entanto. Compartimentalizado entre os naturalistas, com todas as reduções e prejuízos que isso implica, há em seus livros suficiente vida própria para serem lidos ao largo de se pensar em escolas ou movimentos. E, em especial, pelo que agregam da história social do Brasil de fins do séc. XIX. E de um esboço de Brasil urbano. Um esboço tênue, incipiente, que segue sendo protagonizado sobretudo pela figura de um pária: o imigrante. Como contemporâneo do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, não é nada natural – mas certamente naturalista – que se esqueçam dele por ofuscamento. Ou que, ao menos, ele não seja posto no devido lugar, para alguém que antes de contar trinta anos, escreveu romances sobre homossexualidade e incesto quando a resposta da sociedade a tais temas era um pesado silêncio.
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Há uma etnografia de um Brasil urbano em que o peso do rural ainda era demasiado. Em A Normalista, Maria do Carmo, embora morasse em Fortaleza, era filha de rancheiros das margens do Jaguaribe. Chegou à cidade com seis anos, fugindo da estiagem. Amaro, o Bom-Crioulo, um escravo fugido. E que até achava os primeiros tempos da duríssima vida na Marinha como um mar-de-rosas se comparados à extenuante faina na fazenda, da qual ele se lembra apenas fugazmente, muito em raro, e sem nenhuma saudade.¹ Aleixo vem das aldeias de pescadores, de extração açoriana, fixados em torno da Baía de Florianópolis (então, Desterro). Carolina, a senhoria que alcovitava o caso dos marinheiros num cortiço carioca, e depois tornar-se-ia amante de um deles, era uma imigrante portuguesa que também fora prostituta quando mais jovem. E o próprio quartinho no sobrado usado pelos amantes gays fora previamente ocupado por um jovem português recém-chegado que morrera de febre amarela. Ainda tresandava a ácido fênico. Como a aproximar, ainda uma vez, amor e morte. Zuza, o pretendente de Maria do Carmo, parece a exceção. Era amigo do presidente da província e bacharel. Mas seu pai, no entanto, vinha da truculenta cepa dos coronéis do Nordeste - e, portanto, tinha um pé no interior. E o próprio Zuza estudara Direito no Recife. E ao comparar Fortaleza com o Recife, deixava entrever uma situação que, por si, não prognosticava que essas cidades no futuro teriam mais ou menos o mesmo peso nacional, tal a dessimetria em favor do Recife, de meio para fim do séc. XIX:

Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última conquista amorosa — a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida: era argentina. Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena, um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho de amores. Zuzinha – era como ela o tratava com toda ternura, cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança, sentando-o no colo — ela de peignoir de fustão com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade, e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho – um deboche!

É, a vida em Recife parecia mais viva. Mas o próprio modo abrupto com que Zuza propõe a comparação com a acanhada Fortaleza de então aponta um pouco às suas origens:

Às seis horas da tarde já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos, uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades que ainda não havia no Ceará...

Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe um dia D. Terezinha.

Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em matéria de civilização; isto me parece ainda uma terra de bugres...

De bugres?!

...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza Americana...

Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus parentes...

Absolutamente não.

O que dizia é que o Recife está num plano muito superior a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.

É interessante essa ressalva final do autor: um pouco condescendente com a personagem, mas absolutamente realista em relação ao assunto. E, no atacado, o que dizem ser sombrio é, na verdade, apenas mais realista em Adolfo Caminha. Ocorre que, por temperamento, ele não suaviza nada. E de outra modo, ele só fala daquilo que conhece por dentro, com uso e vezo de uma experiência voraz e apaixonada. Caminha, entre outras, apaixonou-se pela esposa de um alferes. Foi correspondido. Passaram a viver juntos. Um escândalo na pequena Fortaleza do final do séc. XIX. Teve de renunciar a seu cargo de oficial da Marinha. E partir em definitivo para o Rio, onde passara parte dos anos de formação e estudos na Escola Naval. Tiveram duas filhas.
Quando escreve sobre homossexualismo na Marinha, em Bom-Crioulo, escreve sobre um fenômeno que sabia da existência por ter andado embarcado, e conhecido meio mundo. E inclusive compilado, em uma obra menos estudada, algumas vívidas impressões dos Estados Unidos (No País dos Ianques, 1894). Não era geografia pequena para um escritor àquela época.
Sua opção em tocar num assunto absolutamente tabu fez cair uma cortina de silêncio sobre Bom-Crioulo, onde, entre outras, há a insinuação de que alguns oficiais graduados da marinha eram homossexuais e mantinham casos com subordinados, a quem retribuíam com favores, quando embarcados. Não é pouca ousadia. Muitos daqueles críticos acadêmicos, bacharéis, um pouco empoeirados pelo vezo da classificação em escolas e a rigidez dos gêneros literários encaram essa opção temática como parte daquele apego à anomalia, ao defectivo, ao monstruoso, peculiar ao espírito naturalista. Outra impressão se tem quando se lê o livro e constata a naturalidade com que o caso entre os dois grumetes é narrado, descontados obviamente alguma observação de asco por força de época. Se essas observações ocorrem, são de todo infrequentes, no entanto. Pode-se mesmo dizer que talvez em nenhuma outra parte do planeta àquela altura falava-se de homossexualidade com a naturalidade - e não o naturalismo - presente em Bom-Crioulo²: 

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto!

Há cenas da intimidade, e mesmo das carícias entre Amaro e Aleixo. Algo ousado mesmo para os padrões de hoje. Mas é custoso a críticos do Sul - ou a esses papagaios de pirata pós-modernos, que por toda parte propagam pós-estruturalismos - reconhecer que tamanha coragem, independência de espírito e ousadia tenham vindo de um escritor da suposta "periferia", do Nordeste, e bastante afetado por ideais positivistas. Quando no futuro se reler a enormidade de bobagens escritas sob os eflúvios de Barthes, Blanchot, Baudrillard, Deleuze, Derrida & Cia. talvez, então, se tenha a dimensão do ridículo que constitui no presente a absorção acrítica, em pororoca, dessas teorias. 
É mais ou menos como tornar ao passado e vislumbrar aquele entusiasmo meio doentio mas contagiante que os escritores e intelectuais nutriam pelo positivismo. E lembrar que Fortaleza, através de um grpo de rapazes formados na Faculdade de Direito do Recife e capitaneados por Rocha Lima - só alguns poucos anos antes de Caminha - foi um dos centros pioneiros na absorção do ideário positivista em língua portuguesa. Aportes teóricos que tanto tem a ver com o naturalismo em literatura. E, no entanto, ao contrário dessa festividade insípida e pouco consistente de hoje, eles realmente sabiam da matéria que tinham em mãos e do solo em que estavam pisando.³ Mais importante que isso: sabiam tecer uma solução de continuidade e chegar a uma síntese entre esse pensamento importado e os cotidianos e realidades locais. Uma tarefa de tradução diante da qual as pós-graduações de hoje deviam voltar-se para esmiuçar e aprender com, com pés no chão e um mínimo senso de humildade intelectual.
Também conta a favor de Caminha haver participado da Padaria Espiritual, sob o pseudônimo de Félix Guanabarino. E como alguém que escolhe para pseudônimo Félix ou luta por um amor comprometido, quase impossível à época, poderia ser esse misantropo caricatural que nossos velhos professores de literatura nos impingiam? Entre outras coisas, Caminha editou praticamente sozinho um jornal em seus anos de Fortaleza. Na verdade, ia dizer: em seus anos de maturidade em Fortaleza. Mas como falar em maturidade para um homem que morreu aos vinte e nove anos?
E, então, é bem mais real colher impressões da atmosfera dos arrabaldes pobres e cortiços em Fortaleza ou no Rio de Janeiro nos capítulos de Caminha que em alguma página de Manuel Antônio de Almeida ou Joaquim Manoel de Macedo, cronistas anteriores, românticos, e de uma Corte mais alegre, bonachona ou dos salões. Mas também, mesmo nas tavernas, becos e vielas de Almeida - onde há tanta graça e povo - há menos escória que em Caminha. Quer dizer, em Caminha os personagens são ainda mais pobres e relegados ao esquecimento e à desesperança: uma filha de retirantes da seca violada pelo padrinho; um filho de humildes pescadores da costa de Santa Catarina que vê na Marinha a possibilidade de fugir da miséria; uma imigrante portuguesa fazendo a vida no Rio de Janeiro; e, por fim, o pária dos párias, Amaro: homossexual, negro, pobre, ex-escravo e militar subordinado numa Marinha onde ainda imperavam pesados castigos físicos. 
Os personagens de Caminha, no entanto, tem uma rica vida interior. E, evidente, também carregada de sordidez. Parecem tramar coisas más quase o tempo inteiro, ao ruminar em torno de seus pequenos desejos egoístas ou limitadíssimos pela estreiteza da vida na faixa social reservada a eles num instante em que à classe-média baixa urbana cabia um papel um bocado mesquinho na vida do país. Ao contrário de hoje. Mas isso, no entanto, não é algo determinista ou isolado. Se dá em contíguo com alegrias, pequenas conquistas e contentamentos, na vida e no amor.
E mesmo em Caminha há humor. Um humor menos ostensivo que o temperamento geral brasileiro. E, por isso mesmo, mais abrasivo e pleno de sugestões. O momento em que a senhoria portuguesa e Aleixo fazem sexo à borda do tanque, no quintal do pequeno sobrado em Bom-Crioulo é hilário: extremamente visual e deslavadamente cômico. Mais que uma notação de roteiro, surge como o próprio filme em edição final e irrevisável. Ou antes disso quando ela - que na juventude tivera a sugestiva alcunha de Carola Bunda - praticamente deflora o jovem grumete com um calor de meio-dia em Teresina:

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar. E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
[…]
E com fingida ternura, ameigando a voz:
-Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Mas há também o instante na Normalista em que João da Mata, roído de ciúmes, especula na cama se o Zuza passou ou não um bilhete à Maria do Carmo - a jovem afilhada por quem ele nutria um desejo reprimido  - por baixo da mesa do jogo de víspora. E a mulher, depois de ouvir por largo trecho a arenga, tasca um:

Homem, trate das suas hemorroidas que é melhor...
Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite.

Adolfo Caminha vale tanto pela observação mordaz da esposa quanto pelo ranger da cama ao gesto de repelência do casal para a noite. Ou pelo ronco e o silêncio. Ele é mesmo essa lamparina de azeite acesa sobre a face menos luminosa de nossa cultura urbana. Um caldo de cultura, aliás, assaltado pelo medo. Ou que vive de janelas atrás de grades, ainda longe da propalada pós-história. A vida dura, no improviso dos cortiços, depois propagada pelo tamanho e a miséria das favelas e zonas de anomia, onde uma espécie de seleção não natural decretou que a lei do mais forte é ainda mais forte.


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¹Aliás, essa imprecisão geográfica da localização, uma falta de nitidez do cotidiano na fazenda da qual fugira Amaro é uma das evidentes debilidades de Bom-Crioulo.  É sobre isso que falamos ao nos referir a "proporções e situação" no início mesmo do texto. Pois ao contrário de Aleixo, do qual se tem esse contexto na descrição da vida de pescadores na costa catarinense; ou do que se pode presumir do Portugal de Dona Carolina; ou ainda da sina de imigrantes de Maria do Carmo e sua família, em A Normalista; o que se sabe do contexto rural de Amaro é um bocado vago, lacunar. E por outra, não é tão árduo perceber que em alguns personagens se processam verdadeiras inversões de mitos ou clichês mais ou menos naturalistas. Ou mesmo senso-comuns. Como o fato de Amaro, apesar de negro e bem constituído fisicamente - era um jovem forte, bem apessoado - não se haver revelado amante dos mais solicitados pelas mulheres, quando o clichê ainda hoje é o de que negros são mais desenvoltos na cama do que brancos - isso também se estendendo a uma suposta volúpia e maior licenciosidade da mulher negra. E, logo, Caminha opera por meio de Amaro uma verdadeira inversão de valores. Ou quebra de clichês. Ora, os africanos é que eram tidos como mais lascivos e próximos de certa fixidez sexual. (Em palavras diretas: como melhores na cama pelas mulheres, como, aliás, registra Gilberto Freyre em certo passo de Sobrados e Mocambos, numa observação sobre o Rio Grande do Sul, que bem pode ser estendida ao senso comum do Brasil inteiro àquela altura e depois. A observação, aliás, é cristalizada numa citação de Saint-Hillaire, o naturalista  - e, entenda-se, porta-voz por excelência do positivismo científico: "as índias dizem que se entregam aos de sua raça por dever;  aos brancos por interesse; e aos negros por prazer" (Cap.  VIII, p. 489). Ora Amaro, negro, mas posto na condição de mau amante de mulheres, não é precisamente algo que fere certo senso-comum da desenvoltura sexual do africano? Isso, ao invés de aproximar o ponto de vista de Caminha dos determinismos naturalistas, ou mesmo de uma dedução um tanto senso-comum,  o afasta deles. Abre a Amaro uma perspectiva que segue para além de qualquer determinismo racial ou atávico, pondo ao plano praticamente da opção a condição homossexual. Ou mesmo facultando ao arbítrio pessoal a escolha dessa orientação. E não é isso justamente o oposto dos determinismos naturalistas? Quer dizer, a visão de Caminha é excepcionalmente moderna. E há miopia em quem não assim a reconhece apenas para tentar encostá-lo aos traços gerais que caracterizam uma "escola literária".
²De outro modo, à baixa auto-estima dos escritores e críticos brasileiros e fortalezenses não ocorre supor que, de dentro da modorra provinciana de Fortaleza, aparentemente estanque, sem nenhum dinamismo mais à tona, surja  um escritor que trata de temas tão deslavadamente modernos, temas que não recebiam tratamento em nenhum outro lugar do país, ou mesmo da ex-metrópole (Portugal) e de quase qualquer outro lugar do mundo. Ou seja, algo não está nos gonzos: como surgir um escritor assim - ou um movimento como a Padaria Espiritual - se não houvesse um mínimo de dinamismo, transitividade intelectual e algum cosmopolitismo ambiente? E quem ainda virá um dia, quem sabe num futuro mais distante, perceber que devia haver algum mérito na composição social da cidade de Fortaleza, a ponto de permitir a efervescência cultural de figuras literárias desse grau de modernidade e impacto?
³Rotulados de Geração de 77 ou referidos por certa Academia Francesa do Ceará, com toda a carga cômica que isso repassa. Contavam entre seus adeptos mais destacados: Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, Felino Barroso, Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico Farias, além de Rocha Lima.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

'So tart is art'



Ilustração afanada do blog da Eugénia de Vasconcellos, o Cabeça de Cão

so tart is art

life a spare part

mean is my heart

Fastio




Quando a luz cega
e não há muito critério de o que pôr
antes ou depois
no carrinho de compras dos afetos
assim meio puídos como meias de colegial
um casal, que estava destinado
a desencontrar, encontra-se
para só então

Você viu como a manchete
avizinhou em tom certo
verso de Dante?

Esse horror de estar desconectado

Espeta a azeitona preta
e contempla a tarde como se
o visor do smartphone, continuado
mesmo sem linha, pudesse
dar a resposta

E então, as molas, o sobressalto
antecipam o feriado e o nada rói
até o que se faz o tempo todo
para nada fazer

Erva daninha essa que você fuma
e sua, a pressão baixa, e vai ver se está
lá na esquina

Você bem sabe porque suas alegrias
viram alergias

Ou por outra, por onde
andaram meus sapatos e ideias
por aqueles dias

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Esta casa não tem lá fora, a casa não tem lá dentro






ainda a tecer coi­sas de aldeia. Maté­ria de judeu errante. De Nor­deste que não existe.¹ Só tem chão no ser pas­sante. Que só elegante no molambo. Que só há quando por um fio. Ou possui apenas pra escambo. Como uma nava­lha. Um verso. Um rio. Mas tam­bém “aqui os mor­tos são bons, se não atra­pa­lham nada: não comem o pão dos vivos, nem ocu­pam lugar na estrada”.




_________________________________________
¹O que ainda não existe é o que só. Ou seja, é o que só existe e é só: nossa instabilidade é a nossa riqueza.  E o Nordeste que não existe é o mais real. Há um futuro para nós. Nosso ponto está no futuro. Nossa praia. Nosso ponto e nossa praia são enrendados, são feitos em renda, (se constituem), no senso de precariedade e de aventura que ainda temos. E o aspecto lúdico que atravessa tudo isso. (Isto é, tudo que a Europa, mumificada senão pelos imigrantes, deixou de ter há algum tempo: um futuro). Então, o que se quer dizer: o Nordeste não existe da forma como a maioria o vê. Ou melhor posto: o Nordeste é forte a despeito dos que ao louvá-lo também o mumificam e o tornam inofensivo como os mortos da canção. É preciso entender que a astúcia de uma canção assim é o de tomar elementos tradicionais e reciclá-los e convertê-los em algo de uma modernidade aterradora para o momento em que foi gravada (1979). Uma astúcia que rompe com qualquer possibilidade de imobilismo. O que há aí - além de um espécie de propositado desatavio e improviso na gravação - é fundamentalmente aboios de vaqueiro numa roupagem pop que lembra o despojamento de Lennon em Plastic Ono Band (o álbum solo).  A astúcia não é a de resgatar e embalsamar essas formas de expressão - como o movimento armorial termina por fazer. Também não é rejeitá-las em nome de um cosmopolitismo vazio, urbanóide e um tanto nefelibata. Mas é de lançá-las ao futuro incerto a partir de um choque de modernidade que - não nos enganemos - só pode constituir-se exatamente por se alimentar delas. O tropicalismo foi um bálsamo. A última articulação instigante. Última vida inteligente em grupo. Uma lufada de ar fresco com real impacto na música. Mas também o tropicalismo, menos radical e árido que a estética magra de João Cabral, ainda permitia ser-se apropriado pelo imobilismo e o barroquismo da geleia geral brasileira em altíssima voltagem. E mesmo ser presa fácil de certo satus prevalente, de certa pasmaceira paralisante. É necessário algo muito mais radical que o tropicalismo, e que ao mesmo tempo não negligencie uma boa sugestão, como a estética cabralina ou a perspectiva de Joaquim Cardozo, entre outras. E principalmente não as negligenciem por superfluidade. Por exemplo, porque Caetano Veloso disse que João Cabral tem dor de cabeça ou é muito racionalista e auto-torturado, etc. Na música pop, num perigoso, brilhante, brevíssimo momento, alguns compositores ao norte da Bahia compreenderam isso um tanto intuitivamente. Mas eles eram jovens e também precisavam ganhar a vida. E logo a coisa foi por água abaixo. Ao que parece, a dissenção entre os baianos e os cearenses é algo mais geral que uma simples briga de egos. É algo cultural. Para um cearense é muito mais fácil entender e compartir com os pernambucanos as cifras, os códigos e a estética de João Cabral.

O Fortaleza, as amargas surpresas do futebol e um caso (mal cuidado) de polícia




para o fortaleza, o futebol não é uma caixinha de surpresas, é mais um caminhão baú de perplexidades. e, no caso, de péssimo sobressalto. amargo. para o menos fanático torcedor do leão, essa derrota para o oeste de itápolis não cabia no pior roteiro de cinema catástrofe. algo ainda é justo nisso tudo, no entanto. quando penso que airton monte morreu sem haver visto esse vexame, é sempre um poupar de dores desnecessárias a alguém

mas é preciso saber perder. e essa escória que saiu depredando o pv e a pracinha da gentilândia devia era estar atrás das grades, se o país, a cidade fossem um pouco mais sérios. como esses bandidos ainda não foram banidos dos estádios, se é tão simples para a pm monitorá-los por câmeras num local público? e identificá-los. fichá-los. proibir-lhes o ingresso no estádio? 

e por que a imprensa esportiva não é mais contundente, investigativa em casos assim? ou os próprios clubes não se distanciam das organizadas e demonstram alguma honradez, em vez de prosseguirem reféns delas? e por que esses tipos não estão prestando serviços comunitários como pena comutada ou simplesmente atrás das grades antes de estarem num lugar em que não têm a hombridade de se portarem como seres humanos? e como o orçamento dessas organizadas pode ser maior e elas lucrarem mais que os próprios clubes, parasitando-os, sugando-os descaradamente? e como é que pode haver gente decente, que a gente conhece, sabe que é boa gente em outros contextos, metendo-se com essa malta covarde, imbecilizada, que se esconde atrás de siglas como tuf e cearamor, e diluindo-se nelas para elidir a própria responsabilidade?

aí tem coisa. o aspecto mais hediondo de algo belíssimo como o futebol é essa intolerância machista, irracional e truculenta das organizadas. ou mesmo das torcidas em geral. e não adianta dizer que é uma minoria dentro dessas torcidas. pois, ainda que seja, o dever da maioria é o de sair dessas associações e festejar seu time na pluralidades, como um todo, sem facções truculentas ou sectarismos inúteis. eu não vou mais ao estádio. e só volto ao estádio no dia em que um sujeito com a camisa do ceará em plena torcida do fortaleza possa, sim, comemorar o gol do seu time sem ser importunado

a isso se chama liberdade e expressão. e nós, que estivemos na vanguarda de muita coisa no passado, como a abolição da escravatura e o modernismo literário, deveríamos mais era dar o exemplo. e não macaquear essa truculência barata que nos vem do rio, de são paulo, e até de mais além.

civilidade começa em casa

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Aspettare


Joan Miró, 1952

As estrelas em torno da lua, escondem-se de novo diante da luminosa, enquanto ela, plena, luz sobre a terra. No céu de sua mente, as ideias e as coisas eram também ofuscadas por uma lua assim. 
*
Sete e vinte.
Os skatistas não cessavam de saltar do alto dos degraus. Em diferentes níveis. Tão rentes aos passantes que quando um deles levou um tombo mais escabroso, isso satisfez a ele. De alguma forma. E foi um dos poucos instantes em que vazou-se para fora da redoma.
Havia casais ocupando o banco em meia-lua em torno da estátua, erroneamente voltada para o mar, quando deveria ter sido posta para o lado da avenida, assim que se pudesse admirá-la em primeiro plano, de alguma perspectiva, e com o oceano ao fundo.
Ainda que não houvesse muito o que admirar, pensou ele. E inquieto consultou o relógio e o smartphone sucessivamente, ainda uma vez, em meio ao chafurdo incessante dos skatistas. Unhas eram roídas mentalmente, será que mortalhas teciam-se em reverso a partir da mesma abstração?
Um grupo de turistas, sentados nos degraus consultava seus guias como crentes consultam a parábola no Novo Testamento, em brochuras baratas. Um outro grupo de motoristas de furgão, escorados nos parapeitos à altura dos degraus onde se aboletavam os turistas, volta e meia ofereciam - a quem achavam com o biotipo e indumentária mais ou menos de turista – parábolas de roteiros para as praias do Leste, distribuindo os folhetos como se distribui santinhos em Fátima, Lourdes, Aparecida, Canindé ou Juazeiro do Norte.
No calçadão, as pessoas passavam. Em geral, pisando os ladrilhos com os seus tênis, sapatilhas e sandálias. Mas também sobre patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes. Andar por ali tornara-se também um exercício de desviar-se. Uma espécie de desviobol. Um novo esporte, em que a velocidade do desvio empatava com a necessidade de olhar nos olhos de quem se desviava, de acordo com a carência de cada um. Ou com a beleza do observado. E, então, olhares topavam-se.
Para logo em seguida destoparem-se. Bruscos. Ou não. E muito não. Como em quase qualquer estranha química nesta vida. Em alguns, sobravam um anjo, uma iara. Em outros, um cifrão. Em outros tantos, um canivete. Em não poucos: a embalagem, os preservativos. Nos mais decididos uma suíte na penumbra com decoração de duvidoso gosto. Mas, enfim.
Ele, como um pássaro preso, circulava entre os diferentes planos do monumento. Quase sempre de pé, mas às vezes sentado por um pouco nos balaustres e observando em torno ou mais ao longe. Num desolamento em que não se previa melhor gávea ou garantia de panorama. Numa toda espécie particular de greve.
Mais acima, junto ao mar, abrigando-se na semi-penumbra, os casais. Sentados no semi-círculo da insuficiente esplanada, idealizada para se contemplar acima do pedestal de granito, a grande índia vergando, não se sabe bem por que, a ponta de um enorme arco que devia ser de uso exclusivo de seu companheiro por aquelas eras imemoriais. Uma mulher loira, metida num jeans um tanto sumário para sua silhueta um pouco excessiva, contorcia-se lubricamente no colo de um sujeito calvo e contente como o Imperador do Sacro Império:
-Cada qual, com seu cada qual – ele pensou.
No plano do meio, os grupos de skatistas - que permanentemente imaginavam que a índia devia ser da tribo dos Apaches - permanentemente desembestava-se em carreiras e saltos até o passeio, lá, abaixo. E, claro, ocupando permanentemente uma suposta rampa para pessoas com necessidades especiais:
-Talvez os skatistas se julguem mais especiais que essas pessoas, então - ele pensou.
Depois, nos degraus rentes ao calçadão, os grupos de turistas, dos motoristas de furgões de turismo. E para lá do meio fio, as vans e trêileres estacionados, e de onde emanava um olor de gordura, salsicha, carne de hambúrguer, atum, maionese e mostarda.
Oito e quarenta.
Então, os casais, os skatistas, os motoristas de furgões de turismo, os turistas, os que trabalhavam nos trêileres de lanches, os garçons, os comensais dos restaurantes fronteiros, os frequentadores dos clubes de ginástica e os passantes sobre seus tênis, sandálias, patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes, carrinhos de bebê, tróleres para catar lixo reciclável disseram em perfeito uníssono, voltando-se para ele:

-Enfim, está ali um homem só.

E ele tomou o smartphone e discou o número.

Ainda uma vez.


Titaníque, Taitânique




por que é que a gente ainda diz titaníque em vez de taitânique? Bom, talvez porque em 1912, todo mundo que escrevia, formava opinião por aqui, lia o mundo em francês

mas também esse titaníque está com os dias contados. Está de pau a pique, não é de hoje

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Lá e Lá: Bom Futebol e Banalização do Micro-Detalhe

Theibaud, 2011


ontem foi o dia em que a reeleição de Obama competiu com o Insano, como manchete do Daily Mail. Sinal de que a globalização é coisa do passado. E hoje vivemos a total universalização da banalidade. Tempo em que os noticiários locais são propagados pelo mundo, em retalhos. Picotes tomados quase ao léu, aqui e muito lá. Para ver se vendem melhor que o universal corriqueiro. 
e é isso mesmo: o Insano, um escorregador de 44 metros, num parque aquático de Fortaleza, inaugurado no já longínquo ano de 1989, disputando a atenção dos leitores de Londres e do mundo com o resultado do pleito norte-americano, que decide sobre vidas e acessos dos centros aos cafundós do planeta.¹ E cujo resultado saiu ontem e não 23 anos atrás. 
ainda nessa mesma linha de banalidade, do micro-detalhe mundializados: a libertação da irmã do atacante Hulk após sequestro relâmpago. E com direito à foto panorâmica de Campina Grande: alguma dúvida de onde a aldeia chegou? 
estima-se que o Mail seja hoje o jornal mais lido do planeta. E depois de deixar para trás o New York Times. E ampliando ao limite seu estilo popularesco, abrindo enormes fotos secundada por textos curtos, pouco densos, redigidos às pressas, mas profusamente comentados. Propondo uma perspectiva paparazzi. Com pequenos flagras da intimidade e do corpo das celebridades: a companheira de François Hollande, Valerie Trierweiler, de biquíni  na Riviera Francesa; Lady Gaga protegendo os seios com um coco numa sacada de hotel, no Rio. E. Além de uma carga de matérias que tende ao infinito. T. Mas um infinito trocado com pressa e uma aleatoriedade de labirinto. C. Um infinito descartável de um para outro dia.
um infinito que se tange. Como a um jumento, etc.
*
e o belo futebol do Shakhtar-Donetsk conquistou mais corações ontem à tarde. E com Fernandinho e Willian jogando o fino e comandando a festa. Nenhum dos brasileiros do Shakhtar é top de linha. Mas, juntos já há algum tempo, eles formam algo raro hoje: um time. Quer dizer, um time de verdade: futebol fluido, ao ataque, sem medo de ser feliz. Bonito de assistir, e de se assistir. Movido à base de posse de bola e envolventes triangulações. Arriscado e, por isso mesmo, palpitante. Ontem, por azar, foram derrotados em Londres (3x2) pelo mesmo Chelsea que haviam batido em Donetsk (2x1). Mas o Shakhtar jogou melhor. E vendeu caro a derrota. E numa partida para lembrar. E o segundo gol do Chelsea foi mais um puro surto de intuição para a antologia de obras-primas de Oscar. 




_______________________________
¹E não esqueça que, muitas vezes, os centros são os piores cafundós e versa-vice.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Falhado Nóstos



desci à mansão dos
mortos, e implorei a
Hades por ti e ele
disse que não, e de jeito
nenhum, amizade. pluguei
a Telecaster, e cantei refrão
té de manhã. de saco
cheio, mas também
olhos de lágrima, pois
até pedras choravam, ele
disse: “tá, ok, meu chapa,
você venceu, pode levar:
o que é seu, o bicho não
come. mas olha lá, não
tem devolução nem
recall, passado o portal e
o prazo: é como se
ela tivesse outro nome.
e fica esperto, num
olha pra trás no mei' do
caminho, senão a rosa
vira espinho, some, volta
por onde veio para o
mesmo cantinho. e aí,
brô, como no poema de
poe: nevermore. e lembra
da mulher de lot, que
virou estátua de sal. não cai
na esparrela de olhar pra trás,
senão já era, babau, nunca
mais. não esquece: esse 
é teu laço, pedágio, até
sair do pedaço”. 
                          
                          senti teus
passos na escada, tua sombra, teu
vulto, halo, pingentes, perfume,
tua sola nos batentes acercando
-se de mim, o articular dos
teus artelhos, baita
fluência de ciranda, mesmo 
naquele vale de lágrimas
- uma agonia, um xafarraz -
teu ninho de água-marinha,
senti teu cheiro de flor,
e até senti algo mais:
teu dente mordendo dente
teu hálito, rumor de seda nos
braços, teus panos quentes, teus 
passos sem repercusso ao
longo do corredor. teu
pigarro, alfazema, o jeito de 
mascar cravo, assim de mor
charme - feito lá pela
Praia de Iracema - a ponta 
dos teus saltos batendo no 
trottoir. mas a certa altura, numa
dessas horas - xis gê dê ou agá -
(ou seriam dias, praias, chips,
rios ou raios, décadas a fio)
o tropeço. teu grito. me
fez olhar de soslaio,
desprevenido ponto com,
cambaleei, quase caio.

e de tua sombra, ah, minha
Eurídice, não ficou nem som

Legais pra burro: será? (ou Serazinhos em Dobras)




-bergman e deleuze deviam ser caras legais pra burro - pensou Arthur - e, no entanto, geraram discípulos e admiradores mais pés no saco que na baixa da égua. e com fiapos de manga nos dentes. aquele sestro de cuspir a gente de entusiasmo e bobeira. do tanto que se empolgam. e tudo mais de direito. alguns deleuzianos, de manhã, no café, ao passar a manteiga no pão, devem antes pensar se deleuze entende essa passagem do produto lacticínico no derivado do trigo catolicamente canonizado como pós-ético 

será que videogames vão, um dia, ser vistos como arte?

A Maior Roubada: Contar em Dois Tempos



The Sun, tabloide sensacionalista inglês


o ser: embeleza-se no amor? Ou é apenas o amor que é belo? O amor em si, como relação, algo que não está nem só em uma ou só em outro, enfim os torna menos sós? E qual a diferença entre amor e sexo? Só o sofrimento? Maior ciúme? Os vexames? A rotina? A desesperada vontade de cuidar? De ser cuidado? Luz? A chama flava e azul? Aquilo de pensar 72 horas por dia? Nenhuma das respostas anteriores?

Ou mesmo posteriores?
(Quem sabe colaterais, devagar e pela direita)

*

manchete que saiu em veículos não cafés pequenos pela rede afora:

"milionário acusa meia espanhol Fábregas de roubar sua mulher" [Uol]

bom, será que há acusadores ou acusados, ladrões ou roubados num caso assim? - é o que se pode perguntar. E pelo menos até segunda ordem. Será que, seguindo a manchete, o tal Fábregas roubou a própria mulher? Não, isso a gente já faz todo dia e vice-versa, cara ou coroa, lulu e bolinha, etc.
(Quando há menores no meio, é roubada. Mas parece que a moça em questão é de maior)

que roubada, Seu Milionário. Ou então, vá aprender algo com a Ascron, lá em Rondônia - aquele civilizado povo amazônico. Evoluído. Cheio de amor pra dar