quinta-feira, 15 de novembro de 2012

'So tart is art'



Ilustração afanada do blog da Eugénia de Vasconcellos, o Cabeça de Cão

so tart is art

life a spare part

mean is my heart

Fastio




Quando a luz cega
e não há muito critério de o que pôr
antes ou depois
no carrinho de compras dos afetos
assim meio puídos como meias de colegial
um casal, que estava destinado
a desencontrar, encontra-se
para só então

Você viu como a manchete
avizinhou em tom certo
verso de Dante?

Esse horror de estar desconectado

Espeta a azeitona preta
e contempla a tarde como se
o visor do smartphone, continuado
mesmo sem linha, pudesse
dar a resposta

E então, as molas, o sobressalto
antecipam o feriado e o nada rói
até o que se faz o tempo todo
para nada fazer

Erva daninha essa que você fuma
e sua, a pressão baixa, e vai ver se está
lá na esquina

Você bem sabe porque suas alegrias
viram alergias

Ou por outra, por onde
andaram meus sapatos e ideias
por aqueles dias

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Esta casa não tem lá fora, a casa não tem lá dentro






ainda a tecer coi­sas de aldeia. Maté­ria de judeu errante. De Nor­deste que não existe.¹ Só tem chão no ser pas­sante. Que só elegante no molambo. Que só há quando por um fio. Ou possui apenas pra escambo. Como uma nava­lha. Um verso. Um rio. Mas tam­bém “aqui os mor­tos são bons, se não atra­pa­lham nada: não comem o pão dos vivos, nem ocu­pam lugar na estrada”.




_________________________________________
¹O que ainda não existe é o que só. Ou seja, é o que só existe e é só: nossa instabilidade é a nossa riqueza.  E o Nordeste que não existe é o mais real. Há um futuro para nós. Nosso ponto está no futuro. Nossa praia. Nosso ponto e nossa praia são enrendados, são feitos em renda, (se constituem), no senso de precariedade e de aventura que ainda temos. E o aspecto lúdico que atravessa tudo isso. (Isto é, tudo que a Europa, mumificada senão pelos imigrantes, deixou de ter há algum tempo: um futuro). Então, o que se quer dizer: o Nordeste não existe da forma como a maioria o vê. Ou melhor posto: o Nordeste é forte a despeito dos que ao louvá-lo também o mumificam e o tornam inofensivo como os mortos da canção. É preciso entender que a astúcia de uma canção assim é o de tomar elementos tradicionais e reciclá-los e convertê-los em algo de uma modernidade aterradora para o momento em que foi gravada (1979). Uma astúcia que rompe com qualquer possibilidade de imobilismo. O que há aí - além de um espécie de propositado desatavio e improviso na gravação - é fundamentalmente aboios de vaqueiro numa roupagem pop que lembra o despojamento de Lennon em Plastic Ono Band (o álbum solo).  A astúcia não é a de resgatar e embalsamar essas formas de expressão - como o movimento armorial termina por fazer. Também não é rejeitá-las em nome de um cosmopolitismo vazio, urbanóide e um tanto nefelibata. Mas é de lançá-las ao futuro incerto a partir de um choque de modernidade que - não nos enganemos - só pode constituir-se exatamente por se alimentar delas. O tropicalismo foi um bálsamo. A última articulação instigante. Última vida inteligente em grupo. Uma lufada de ar fresco com real impacto na música. Mas também o tropicalismo, menos radical e árido que a estética magra de João Cabral, ainda permitia ser-se apropriado pelo imobilismo e o barroquismo da geleia geral brasileira em altíssima voltagem. E mesmo ser presa fácil de certo satus prevalente, de certa pasmaceira paralisante. É necessário algo muito mais radical que o tropicalismo, e que ao mesmo tempo não negligencie uma boa sugestão, como a estética cabralina ou a perspectiva de Joaquim Cardozo, entre outras. E principalmente não as negligenciem por superfluidade. Por exemplo, porque Caetano Veloso disse que João Cabral tem dor de cabeça ou é muito racionalista e auto-torturado, etc. Na música pop, num perigoso, brilhante, brevíssimo momento, alguns compositores ao norte da Bahia compreenderam isso um tanto intuitivamente. Mas eles eram jovens e também precisavam ganhar a vida. E logo a coisa foi por água abaixo. Ao que parece, a dissenção entre os baianos e os cearenses é algo mais geral que uma simples briga de egos. É algo cultural. Para um cearense é muito mais fácil entender e compartir com os pernambucanos as cifras, os códigos e a estética de João Cabral.

O Fortaleza, as amargas surpresas do futebol e um caso (mal cuidado) de polícia




para o fortaleza, o futebol não é uma caixinha de surpresas, é mais um caminhão baú de perplexidades. e, no caso, de péssimo sobressalto. amargo. para o menos fanático torcedor do leão, essa derrota para o oeste de itápolis não cabia no pior roteiro de cinema catástrofe. algo ainda é justo nisso tudo, no entanto. quando penso que airton monte morreu sem haver visto esse vexame, é sempre um poupar de dores desnecessárias a alguém

mas é preciso saber perder. e essa escória que saiu depredando o pv e a pracinha da gentilândia devia era estar atrás das grades, se o país, a cidade fossem um pouco mais sérios. como esses bandidos ainda não foram banidos dos estádios, se é tão simples para a pm monitorá-los por câmeras num local público? e identificá-los. fichá-los. proibir-lhes o ingresso no estádio? 

e por que a imprensa esportiva não é mais contundente, investigativa em casos assim? ou os próprios clubes não se distanciam das organizadas e demonstram alguma honradez, em vez de prosseguirem reféns delas? e por que esses tipos não estão prestando serviços comunitários como pena comutada ou simplesmente atrás das grades antes de estarem num lugar em que não têm a hombridade de se portarem como seres humanos? e como o orçamento dessas organizadas pode ser maior e elas lucrarem mais que os próprios clubes, parasitando-os, sugando-os descaradamente? e como é que pode haver gente decente, que a gente conhece, sabe que é boa gente em outros contextos, metendo-se com essa malta covarde, imbecilizada, que se esconde atrás de siglas como tuf e cearamor, e diluindo-se nelas para elidir a própria responsabilidade?

aí tem coisa. o aspecto mais hediondo de algo belíssimo como o futebol é essa intolerância machista, irracional e truculenta das organizadas. ou mesmo das torcidas em geral. e não adianta dizer que é uma minoria dentro dessas torcidas. pois, ainda que seja, o dever da maioria é o de sair dessas associações e festejar seu time na pluralidades, como um todo, sem facções truculentas ou sectarismos inúteis. eu não vou mais ao estádio. e só volto ao estádio no dia em que um sujeito com a camisa do ceará em plena torcida do fortaleza possa, sim, comemorar o gol do seu time sem ser importunado

a isso se chama liberdade e expressão. e nós, que estivemos na vanguarda de muita coisa no passado, como a abolição da escravatura e o modernismo literário, deveríamos mais era dar o exemplo. e não macaquear essa truculência barata que nos vem do rio, de são paulo, e até de mais além.

civilidade começa em casa

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Aspettare


Joan Miró, 1952

As estrelas em torno da lua, escondem-se de novo diante da luminosa, enquanto ela, plena, luz sobre a terra. No céu de sua mente, as ideias e as coisas eram também ofuscadas por uma lua assim. 
*
Sete e vinte.
Os skatistas não cessavam de saltar do alto dos degraus. Em diferentes níveis. Tão rentes aos passantes que quando um deles levou um tombo mais escabroso, isso satisfez a ele. De alguma forma. E foi um dos poucos instantes em que vazou-se para fora da redoma.
Havia casais ocupando o banco em meia-lua em torno da estátua, erroneamente voltada para o mar, quando deveria ter sido posta para o lado da avenida, assim que se pudesse admirá-la em primeiro plano, de alguma perspectiva, e com o oceano ao fundo.
Ainda que não houvesse muito o que admirar, pensou ele. E inquieto consultou o relógio e o smartphone sucessivamente, ainda uma vez, em meio ao chafurdo incessante dos skatistas. Unhas eram roídas mentalmente, será que mortalhas teciam-se em reverso a partir da mesma abstração?
Um grupo de turistas, sentados nos degraus consultava seus guias como crentes consultam a parábola no Novo Testamento, em brochuras baratas. Um outro grupo de motoristas de furgão, escorados nos parapeitos à altura dos degraus onde se aboletavam os turistas, volta e meia ofereciam - a quem achavam com o biotipo e indumentária mais ou menos de turista – parábolas de roteiros para as praias do Leste, distribuindo os folhetos como se distribui santinhos em Fátima, Lourdes, Aparecida, Canindé ou Juazeiro do Norte.
No calçadão, as pessoas passavam. Em geral, pisando os ladrilhos com os seus tênis, sapatilhas e sandálias. Mas também sobre patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes. Andar por ali tornara-se também um exercício de desviar-se. Uma espécie de desviobol. Um novo esporte, em que a velocidade do desvio empatava com a necessidade de olhar nos olhos de quem se desviava, de acordo com a carência de cada um. Ou com a beleza do observado. E, então, olhares topavam-se.
Para logo em seguida destoparem-se. Bruscos. Ou não. E muito não. Como em quase qualquer estranha química nesta vida. Em alguns, sobravam um anjo, uma iara. Em outros, um cifrão. Em outros tantos, um canivete. Em não poucos: a embalagem, os preservativos. Nos mais decididos uma suíte na penumbra com decoração de duvidoso gosto. Mas, enfim.
Ele, como um pássaro preso, circulava entre os diferentes planos do monumento. Quase sempre de pé, mas às vezes sentado por um pouco nos balaustres e observando em torno ou mais ao longe. Num desolamento em que não se previa melhor gávea ou garantia de panorama. Numa toda espécie particular de greve.
Mais acima, junto ao mar, abrigando-se na semi-penumbra, os casais. Sentados no semi-círculo da insuficiente esplanada, idealizada para se contemplar acima do pedestal de granito, a grande índia vergando, não se sabe bem por que, a ponta de um enorme arco que devia ser de uso exclusivo de seu companheiro por aquelas eras imemoriais. Uma mulher loira, metida num jeans um tanto sumário para sua silhueta um pouco excessiva, contorcia-se lubricamente no colo de um sujeito calvo e contente como o Imperador do Sacro Império:
-Cada qual, com seu cada qual – ele pensou.
No plano do meio, os grupos de skatistas - que permanentemente imaginavam que a índia devia ser da tribo dos Apaches - permanentemente desembestava-se em carreiras e saltos até o passeio, lá, abaixo. E, claro, ocupando permanentemente uma suposta rampa para pessoas com necessidades especiais:
-Talvez os skatistas se julguem mais especiais que essas pessoas, então - ele pensou.
Depois, nos degraus rentes ao calçadão, os grupos de turistas, dos motoristas de furgões de turismo. E para lá do meio fio, as vans e trêileres estacionados, e de onde emanava um olor de gordura, salsicha, carne de hambúrguer, atum, maionese e mostarda.
Oito e quarenta.
Então, os casais, os skatistas, os motoristas de furgões de turismo, os turistas, os que trabalhavam nos trêileres de lanches, os garçons, os comensais dos restaurantes fronteiros, os frequentadores dos clubes de ginástica e os passantes sobre seus tênis, sandálias, patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes, carrinhos de bebê, tróleres para catar lixo reciclável disseram em perfeito uníssono, voltando-se para ele:

-Enfim, está ali um homem só.

E ele tomou o smartphone e discou o número.

Ainda uma vez.


Titaníque, Taitânique




por que é que a gente ainda diz titaníque em vez de taitânique? Bom, talvez porque em 1912, todo mundo que escrevia, formava opinião por aqui, lia o mundo em francês

mas também esse titaníque está com os dias contados. Está de pau a pique, não é de hoje

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Lá e Lá: Bom Futebol e Banalização do Micro-Detalhe

Theibaud, 2011


ontem foi o dia em que a reeleição de Obama competiu com o Insano, como manchete do Daily Mail. Sinal de que a globalização é coisa do passado. E hoje vivemos a total universalização da banalidade. Tempo em que os noticiários locais são propagados pelo mundo, em retalhos. Picotes tomados quase ao léu, aqui e muito lá. Para ver se vendem melhor que o universal corriqueiro. 
e é isso mesmo: o Insano, um escorregador de 44 metros, num parque aquático de Fortaleza, inaugurado no já longínquo ano de 1989, disputando a atenção dos leitores de Londres e do mundo com o resultado do pleito norte-americano, que decide sobre vidas e acessos dos centros aos cafundós do planeta.¹ E cujo resultado saiu ontem e não 23 anos atrás. 
ainda nessa mesma linha de banalidade, do micro-detalhe mundializados: a libertação da irmã do atacante Hulk após sequestro relâmpago. E com direito à foto panorâmica de Campina Grande: alguma dúvida de onde a aldeia chegou? 
estima-se que o Mail seja hoje o jornal mais lido do planeta. E depois de deixar para trás o New York Times. E ampliando ao limite seu estilo popularesco, abrindo enormes fotos secundada por textos curtos, pouco densos, redigidos às pressas, mas profusamente comentados. Propondo uma perspectiva paparazzi. Com pequenos flagras da intimidade e do corpo das celebridades: a companheira de François Hollande, Valerie Trierweiler, de biquíni  na Riviera Francesa; Lady Gaga protegendo os seios com um coco numa sacada de hotel, no Rio. E. Além de uma carga de matérias que tende ao infinito. T. Mas um infinito trocado com pressa e uma aleatoriedade de labirinto. C. Um infinito descartável de um para outro dia.
um infinito que se tange. Como a um jumento, etc.
*
e o belo futebol do Shakhtar-Donetsk conquistou mais corações ontem à tarde. E com Fernandinho e Willian jogando o fino e comandando a festa. Nenhum dos brasileiros do Shakhtar é top de linha. Mas, juntos já há algum tempo, eles formam algo raro hoje: um time. Quer dizer, um time de verdade: futebol fluido, ao ataque, sem medo de ser feliz. Bonito de assistir, e de se assistir. Movido à base de posse de bola e envolventes triangulações. Arriscado e, por isso mesmo, palpitante. Ontem, por azar, foram derrotados em Londres (3x2) pelo mesmo Chelsea que haviam batido em Donetsk (2x1). Mas o Shakhtar jogou melhor. E vendeu caro a derrota. E numa partida para lembrar. E o segundo gol do Chelsea foi mais um puro surto de intuição para a antologia de obras-primas de Oscar. 




_______________________________
¹E não esqueça que, muitas vezes, os centros são os piores cafundós e versa-vice.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Falhado Nóstos



desci à mansão dos
mortos, e implorei a
Hades por ti e ele
disse que não, e de jeito
nenhum, amizade. pluguei
a Telecaster, e cantei refrão
té de manhã. de saco
cheio, mas também
olhos de lágrima, pois
até pedras choravam, ele
disse: “tá, ok, meu chapa,
você venceu, pode levar:
o que é seu, o bicho não
come. mas olha lá, não
tem devolução nem
recall, passado o portal e
o prazo: é como se
ela tivesse outro nome.
e fica esperto, num
olha pra trás no mei' do
caminho, senão a rosa
vira espinho, some, volta
por onde veio para o
mesmo cantinho. e aí,
brô, como no poema de
poe: nevermore. e lembra
da mulher de lot, que
virou estátua de sal. não cai
na esparrela de olhar pra trás,
senão já era, babau, nunca
mais. não esquece: esse 
é teu laço, pedágio, até
sair do pedaço”. 
                          
                          senti teus
passos na escada, tua sombra, teu
vulto, halo, pingentes, perfume,
tua sola nos batentes acercando
-se de mim, o articular dos
teus artelhos, baita
fluência de ciranda, mesmo 
naquele vale de lágrimas
- uma agonia, um xafarraz -
teu ninho de água-marinha,
senti teu cheiro de flor,
e até senti algo mais:
teu dente mordendo dente
teu hálito, rumor de seda nos
braços, teus panos quentes, teus 
passos sem repercusso ao
longo do corredor. teu
pigarro, alfazema, o jeito de 
mascar cravo, assim de mor
charme - feito lá pela
Praia de Iracema - a ponta 
dos teus saltos batendo no 
trottoir. mas a certa altura, numa
dessas horas - xis gê dê ou agá -
(ou seriam dias, praias, chips,
rios ou raios, décadas a fio)
o tropeço. teu grito. me
fez olhar de soslaio,
desprevenido ponto com,
cambaleei, quase caio.

e de tua sombra, ah, minha
Eurídice, não ficou nem som

Legais pra burro: será? (ou Serazinhos em Dobras)




-bergman e deleuze deviam ser caras legais pra burro - pensou Arthur - e, no entanto, geraram discípulos e admiradores mais pés no saco que na baixa da égua. e com fiapos de manga nos dentes. aquele sestro de cuspir a gente de entusiasmo e bobeira. do tanto que se empolgam. e tudo mais de direito. alguns deleuzianos, de manhã, no café, ao passar a manteiga no pão, devem antes pensar se deleuze entende essa passagem do produto lacticínico no derivado do trigo catolicamente canonizado como pós-ético 

será que videogames vão, um dia, ser vistos como arte?

A Maior Roubada: Contar em Dois Tempos



The Sun, tabloide sensacionalista inglês


o ser: embeleza-se no amor? Ou é apenas o amor que é belo? O amor em si, como relação, algo que não está nem só em uma ou só em outro, enfim os torna menos sós? E qual a diferença entre amor e sexo? Só o sofrimento? Maior ciúme? Os vexames? A rotina? A desesperada vontade de cuidar? De ser cuidado? Luz? A chama flava e azul? Aquilo de pensar 72 horas por dia? Nenhuma das respostas anteriores?

Ou mesmo posteriores?
(Quem sabe colaterais, devagar e pela direita)

*

manchete que saiu em veículos não cafés pequenos pela rede afora:

"milionário acusa meia espanhol Fábregas de roubar sua mulher" [Uol]

bom, será que há acusadores ou acusados, ladrões ou roubados num caso assim? - é o que se pode perguntar. E pelo menos até segunda ordem. Será que, seguindo a manchete, o tal Fábregas roubou a própria mulher? Não, isso a gente já faz todo dia e vice-versa, cara ou coroa, lulu e bolinha, etc.
(Quando há menores no meio, é roubada. Mas parece que a moça em questão é de maior)

que roubada, Seu Milionário. Ou então, vá aprender algo com a Ascron, lá em Rondônia - aquele civilizado povo amazônico. Evoluído. Cheio de amor pra dar

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Três perplexidades do tamanho de um bonde



amadores construíram a Arca de Noé e profissionais, o Titanic”

certo. É preciso ser muito fã de efeitos (não propriamente especiais) para gostar de uma frase dessas no atacado

quando a gente vê semelhantes balelas e mimimis por esta rede afora, bota logo o pé pra fora da outra rede, e dá uma balançada

os armadores gemem gostoso que é uma beleza, e a gente pensa que ainda não conheceu quem se prontificasse a fazer uma cirurgia de desentupimento de artérias do coração com esses amadores que construíram a arca
*
nunca ouvi dizer algo como: "respeito é bom e tu gostas". Ou ainda: "és esperto, e moras longe" 
**
porque é sempre o gato - e não o lobo, os percevejos, o golem, o gnomo, a iara, o contrabaixo, o anjo, os grilos - quem come a língua das pessoas nos momentos de inesperada pausa?

domingo, 4 de novembro de 2012

Zebras, Varejeiras, Conflitos & Filmes de Bergman




você sabia que as zebras desenvolveram seu característico padrão de listas como forma de se tornarem menos atraentes às moscas varejeiras? Quem diria, camuflagem. É a conclusão à que chegaram pesquisadores húngaros e suecos. (Admira que húngaros e suecos disponham de tempo para tão indispensável sondagem científica. E a partir de tão ilustre hipótese. E sobre quadrúpedes que não propriamente pululam por suas latitudes) E, como se sabe, zebras, listas, moscas que sugam sangue, húngaros e suecos têm tudo a ver. Com um pouco mais de desespero, existencialismo, psicanálise, despeito e monólogos interiores, isso daria filme de Bergman

só que com zebras – devidamente listadas – passeando incólumes ao redor dos casais exasperados, enquanto eles se despedaçam verbalmente em bangalôs à margem de lagos

e as varejeiras sugando-os mais que conflitos existenciais

ou que eles entre si

sábado, 3 de novembro de 2012

Corda sob seu peso: Miłosz


Robert Motherwell, 1982 

'Você que enganou'

Você que enganou um homem simples
Às gargalhadas, em flagrante delito
E mantém um bando de esbirros à volta
A borrar a linha entre o bem e o maldito,

Embora todos se curvem ante você,
A gabar-lhe os dons: o saber que ilumina,
Conferindo medalhas de ouro em sua honra,
Contentes de chegar vivos à esquina,

Não se sinta seguro. O poeta lembra.
Um você manda matar, outro nasce.
As palavras, anotadas: as datas, os vezos.

E numa manhã de inverno, em melhor impasse:
Galho curvado por corda sob seu peso.



Czesław Miłosz



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NOTA POSTERIOR [05.11.12] 


é complicado. A gente lê um poema. O poema é lindo. O poema se chama "Który skrzywdziłeś"¹ [ou "You who wronged", em inglês]. A partir de algumas sonoridades no polonês e da tradução do sentido geral para o inglês, a gente fica morrendo de vontade de partilhá-lo com mais gente. Com os amigos. E então esboça uma versão apressada e meio urgente. A gente dirige prioritariamente a atenção para reproduzir sons e assonâncias, e deixa passar uma concordância verbal incorreta como:

"a dizer que a virtude, o saber lhe ilumina"(m) [v. 6]

até pode-se supor que a vírgula faz as vezes de "ou" em vez de "e". ou que há sínquise na frase "a dizer que a virtude". mas ainda assim... soariam como ressalvas, ambas justificativas. uma concordância tão simples, plural: no afã de achar uma rima, a gente cega. E só vai perceber depois, o logro. E é preciso consertar, claro. Porque se foi muito afoitamente ao pote e ao concerto. Antes de tudo. Antes de mais. Quer dizer, pôs a música das palavras (melopeia) por riba até do jogo das ideias, da trama conceitual (logopeia). Ou seja, pôs o concerto diante do conserto. Às vezes, uma impressão, mera hipótese: quando se lê demais em outros idiomas, abre-se espaço para alguma debilidade gramatical em alternância, variação. No idioma da gente. Na casa da gente.
Mas também a memória prega muitas peças. O primeiro verso de um de meus sonetos favoritos, de Luís de Camões, mal citei por aqui, num post, como sendo: "Enquanto quis ternura que tivesse". E na verdade é: "Enquanto quis Fortuna que tivesse". (Naturalmente Fortuna, aqui, no sentido de sorte, destino, etc.)

¹Para ouvir uma canção (em polonês) em que este poema (cujos versos encontram-se inscritos em um monumento de Gdansk, em memória de operários mortos pelo regime comunista) é proposto com letra: 




'Który skrzywdziłeś'

Który skrzywdziłeś człowieka prostego
Śmiechem nad krzywdą jego wybuchając,
Gromadę błaznów koło siebie mając
Na pomieszanie dobrego i złego,

Choćby przed tobą wszyscy się kłonili
Cnotę i mądrość tobie przypisując,
Złote medale na twoją cześć kując,
Radzi że jeszcze dzień jeden przeżyli,

Nie bądź bezpieczny. Poeta pamięta.
Możesz go zabić - narodzi się nowy.
Spisane będą czyny i rozmowy.

Lepszy dla ciebie byłby świat zimowy
I sznur i gałąź pod ciężarem zgięta. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quem tem olhos


A Sala São Paulo, casa da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)

quando se ama São Paulo ou Fortaleza ou Lisboa ou Londres, reconhece-se igualmente aspectos belos e terríveis nessas cidades. Quem só vê beleza ou grandeza naquilo que ama:

não é um grandiosíssimo idiota?

Cansar-se



O câncer é a doença dos que falaram para mais gente do que seria lícito falar. O processo força alguma coisa. A voz, o semblante, gestos ao saírem do quarteirão podem alcançar gente nas mais remotas regiões do planeta. Mas isso, filtrado por aparelhos, tem um custo. Uma espécie de desmesura gerida por certa padronização e formato filtrados por aparelhos. E essa padronização, esse formato demandam um esforço e um desgaste psíquico que pune o corpo de quem é suficientemente bem sucedido para, na pele da celebridade, se meter com eles. 

O excesso de amostragem de ser.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Antes que te peguem para




-é preciso falar pelos cotovelos. Em seminários. E propor modelos e assinar apelos. Senão o cutelo te trincha pra churrasco no convescote político ou numa falsa ambiência de duelo - pensou Arthur

cotovelo modelo apelo cutelo duelo

(-deixe essas rimas para trás, meu rapaz. Isto. E, então, vai cuidar da vida antes que te peguem para)

To a Portuguese friend on his own images for writing



para onde leva essa conversa sobre metatexto, hipertexto, ao menos da forma como tem sido disposta pelos teóricos? Ou então, a velha questão, que, pensando melhor, esclarece muito pouco, é opaca, pois palavras não podem ser totalmente transparentes. E o que se expressa por afirmações do tipo: “eu escrevo assim, assado, cozido, cru; em pé, de joelhos, de gatinhas?” Parece, Bukowski é um tremendo chato e suas galochas. A tauromaquia, uma arte antiga e nobre, que todos combatem sem conhecer. Desafortunadamente. (A Catalunya acaba de proibi-la) Mas nada a ver com escrita, como quer Leiris em analogia. 
Agora, respeito medularmente quem pensa diverso. Por um aspecto e mais. 
Também os franceses, em geral – com espetaculares, dramáticas excepções – tendem a ser grandes enroladores. A encherem insofismáveis linguiças do tamanho de caiaques ou totens - vai nisso alguma compensação? (E o que não se compensa de um ponto de vista subliminar? Alguma fantasia fálica?) Especialmente os ensaístas franceses do pósmodernismo para cá. Há um ponto de vista de Richard Wilbur, poeta e tradutor norte-americano - já citado previamente por aqui - a respeito deles, franceses, que é de uma enorme lucidez:

Acho que, como muitos americanos, tenho muito respeito pelo atual e pelo físico. Vivemos chutando pedras, sabe, e não fazemos exatamente o tipo de nos encantar com sistemas de pensamento abstratos como os europeus, especialmente os franceses. Os franceses estão sempre chegando com coisas terrivelmente maçantes que eles acham trés, trés, trés interessantes. Gente como Sartre pode escrever um livro inteiro a partir de um proposição que é, no fundo, falsa: a de que Jean Genet, por ser masoquista, possui a humildade de um santo. Não faz nenhum sentido dizer isso uma única vez, mas um intelectual francês escreve um livro inteiro a respeito. Talvez nós americanos nos percamos um pouco na direção contrária, achando que somos muito primitivos e não temos qualquer respeito pelo que não tem voz ou é indizível. Talvez porque estejamos mais próximos da fronteira que eles, e, portanto, mais imunes a nos perdermos dentro de nossas próprias mentes—estamos certos de que há algo aqui fora.
Para a entrevista na íntegra (em inglês) segue o linque:
[http://www.theparisreview.org/media/3509_WILBUR.pdf]


E daí? Daí que entre outras, de momento, é inevitável que modifique compulsivamente o que escrevo com a voracidade de um soprador de vidros, de Sir Richard Burton – o escritor e viajante, não o ator –, Flannery O'Connor, Hermeto Pascoal ao piano, George Oppen. Exemplos não faltariam, embora não deem em árvore. E não figuro a razão de, no fim, esse poeta judeu-americano vir em meu auxílio, mesmo se não peço. E principalmente.
George Oppen iria pirar com os editores de texto de hoje. Não escreveria mais nada diante de tão massacrantes possibilidades de jogo. É possível que abandonasse a publicação para ficar apenas com o processo. Era tão obsessivo com a ordem das palavras que, depois de compor algumas poucas, parcas frases, testava todas as combinações de palavras possíveis e imagináveis dentro delas. E para tanto recortava as palavras, avulsas, e seguia movendo os recortes, intercambiando - mais ou menos como se monta um puzzle ou se edita um filme. Buscando novas formas de sintaxe. Um arejamento da linguagem. Das suas fronteiras. O sentido de sequência é tudo tanto em edição como em sintaxe. Achava graça até nos desenhos e na área em branco deixada por um texto. Ressaltava isto: os avanços e recuos da área de um poema sobre a página. Sua estranha sombra e concretude em estado de comércio com o especioso branco. E, no entanto, nunca foi hierático ou prescritor de programas, normas, ao modo dos poetas concretistas brasileiros. Ou de certos linguistas. Ou dos minimalistas. Ou de Cage ou Philip Glass.
Mas também creio que essa compulsão para revisar - ou para sobrerevisar, e esse escrúpulo - vem de certa atitude defensiva e cristã-nova. De um temperamento exilado e judeu, de todo modo. Exilado e judeu tal como pensa Vilém Flusser em 'Exílio e Criatividade'. Pois o mesmo George Oppen nos diz: "a meio caminho do fato de ser singular e de sermos numerosos está o de ser judeu”. 
Quando mais jovem, era bastante assertivo. Escrevia textos e mais textos num fôlego só. E de uma sentada. Do começo ao fim. E, no entanto, há coisas consideravelmente ruins, desagradáveis mesmo, desse tempo, que ainda assombram. Não poucas. Também escrevo por causa delas. Não para que no fim sejam transparentes. Mas ao menos para que, mesmo na sua opaca viscosidade, seja possível aludir. De algum modo. E as pessoas partilhem mundo.
E há outra coisa, sim. Antes que esqueça: quando começo a pensar em copiar e colar na minha escrita TUDO que vejo, sinto, cheiro, ouço – o mínimo gesto, expressão, passeio, conversa, voluta, galho, certo registro geral ou código de barra da coisa em questão – é a senha: hora de dar um tempo. 
Porque então parece que a gente começa a parasitar, a retirar o tutano mesmo do que escreve. Antes, preferível viver. Longe da escrita. Porque ocorre aqui uma coisa estranha e um tanto digna em geral e de nota: quando se quer pôr TUDO, acaba-se por chegar a muito pouco; e, então parece haver uma espécie de sabedoria em reconhecer que mesmo a escrita mais completa ainda é um meio muito deficitário, imperfeito de sondar, experienciar mundo. Escavá-lo aqui, ali. Ver a misteriosa água minar - como em jogos de praia, na infância. 
Ao largo dessa preocupação de trazer TUDO para a escrita – que, no íntimo é um ponto de vista ingênuo ou mitômano (no pior sentido), se quiserem – talvez seja preferível viver. E ler. E imitar. Quer dizer, parafrasear. (Traduzir é, de longe e ainda, a melhor escola de paráfrase. O melhor aquecimento, o alongamento necessário, a distensão prévia de cada dia: o exercício). 
Mas a  precedência ainda vai para um mundo, que também pulsa longe da palavra – pense em música, meu caro. Isso de empanzinar, de viver na inflação, no tumor, não faz bem. Ainda que se tenha bom-humor.
Há outras formas de lidar com compulsão. E com um pouquinho de cuidado, até se pode prevenir o contrário: as anorexias.

Profecia em 1988





consola-te

se o presente é mau, no futuro terão de ouvir michel teló

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Adeus, JT




Hoje deixou de circular em São Paulo o emblemático Jornal da Tarde. O diário, vespertino desde sua fundação (em 1966) até 1988, era célebre por haver transposto ao Brasil os eflúvios do New Journalism com as devidas e sábias adaptações. Em especial, quando ainda vespertino, o JT, editado pelo Grupo Estado, mostrou-se um vívido laboratório da relação entre diagramação e texto. Posteriormente, quando a existência dos vespertinos foi inviabilizada por questões técnicas e mercadológicas, o JT começou a concorrer mais cerradamente com outro jornal da casa: o Estado de São Paulo. E, com o progressivo encolhimento e perda de importância dos jornais como veículos impressos, a ser empurrado a escanteio por portais e pela mídia digital. Era tão distinto o estilo de noticiar desse diário, em especial nas duas décadas iniciais e mais gloriosas, que não era raro a compra de exemplares do JT apenas para ver a mesma notícia de modo distinto. Ou seja, mais plasticamente posta no papel. O JT absorveu no caminho opções e lições que vinham desde o concretismo e neo-croncretismo, ao tropicalismo, ao desbunde, à poesia marginal, ao minimalismo e à arte pop. Se houve um jornal de grande tiragem algo próximo ao conceito de meta-jornal - um jornal para jornalistas - o JT foi um dos que estiveram mais próximos desse conceito e dessa(e) meta por aqui. 

Sandy e os haitianos: até quando?


Artesanato haitiano: uma lagartixa de latão

a vergonha maior ao se noticiar algo como a tempestade Sandy, que atingiu o Caribe e alcançou a América do Norte, final de semana passado, está em se mencionar – sim, é apenas uma menção, às vezes nem isso – as mais de oitenta mortes no Haiti contra uma no Canadá e dez nos Estados Unidos 

levando em conta que a população dos Estado Unidos e a do Canadá somadas é trinta e oito vezes maior que a do Haiti, se tem ideia da tragédia no Haiti. Mas, não adianta. Inflexivelmente, como de vezes anteriores e sem conta, os holofotes da mídia, claro, não focam no Haiti. Embora os mortos no Haiti sejam em número oito vezes maior

além disso, noticia-se amplamente as causas das mortes mais ao Norte. Sabe-se que a vítima no Canadá, por exemplo, foi uma senhora que caminhava no centro de uma cidade quando uma placa de loja desprendeu-se e atingiu-a em cheio. E para todo óbito nos Estados Unidos há um acesso da imprensa às causas imediatas. Uma dignidade, assim, é conferida a cada uma das dez mortes. Mas não às mais de oitenta do Haiti

e esse modo de noticiar, de armar uma cobertura supostamente abrangente e internacionalista é feito pela nata da imprensa de maior reputação no Ocidente: os grandes jornais e portais dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa. Sim, há uma dignidade para as vítimas mais ao Norte. Ao menos se contrapostas às mais de oitenta vítimas haitianas que - evidente – são transformadas em menos vítimas e em menos humanas pela imprensa, porque jogadas na vala comum da barbárie, da ignorância, do anonimato, do descaso, etc.

como seres de segunda categoria. E se não são: por que são tratados assim?

e até quando?


NOTA POSTERIOR [noite de 31.1o.12] 
já se fala em 61 mortes nos Estados Unidos, o que é uma cifra bem maior que no início da manhã de hoje. E, ainda assim, menor que as ocorridas no Haiti