segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Três perplexidades do tamanho de um bonde



amadores construíram a Arca de Noé e profissionais, o Titanic”

certo. É preciso ser muito fã de efeitos (não propriamente especiais) para gostar de uma frase dessas no atacado

quando a gente vê semelhantes balelas e mimimis por esta rede afora, bota logo o pé pra fora da outra rede, e dá uma balançada

os armadores gemem gostoso que é uma beleza, e a gente pensa que ainda não conheceu quem se prontificasse a fazer uma cirurgia de desentupimento de artérias do coração com esses amadores que construíram a arca
*
nunca ouvi dizer algo como: "respeito é bom e tu gostas". Ou ainda: "és esperto, e moras longe" 
**
porque é sempre o gato - e não o lobo, os percevejos, o golem, o gnomo, a iara, o contrabaixo, o anjo, os grilos - quem come a língua das pessoas nos momentos de inesperada pausa?

domingo, 4 de novembro de 2012

Zebras, Varejeiras, Conflitos & Filmes de Bergman




você sabia que as zebras desenvolveram seu característico padrão de listas como forma de se tornarem menos atraentes às moscas varejeiras? Quem diria, camuflagem. É a conclusão à que chegaram pesquisadores húngaros e suecos. (Admira que húngaros e suecos disponham de tempo para tão indispensável sondagem científica. E a partir de tão ilustre hipótese. E sobre quadrúpedes que não propriamente pululam por suas latitudes) E, como se sabe, zebras, listas, moscas que sugam sangue, húngaros e suecos têm tudo a ver. Com um pouco mais de desespero, existencialismo, psicanálise, despeito e monólogos interiores, isso daria filme de Bergman

só que com zebras – devidamente listadas – passeando incólumes ao redor dos casais exasperados, enquanto eles se despedaçam verbalmente em bangalôs à margem de lagos

e as varejeiras sugando-os mais que conflitos existenciais

ou que eles entre si

sábado, 3 de novembro de 2012

Corda sob seu peso: Miłosz


Robert Motherwell, 1982 

'Você que enganou'

Você que enganou um homem simples
Às gargalhadas, em flagrante delito
E mantém um bando de esbirros à volta
A borrar a linha entre o bem e o maldito,

Embora todos se curvem ante você,
A gabar-lhe os dons: o saber que ilumina,
Conferindo medalhas de ouro em sua honra,
Contentes de chegar vivos à esquina,

Não se sinta seguro. O poeta lembra.
Um você manda matar, outro nasce.
As palavras, anotadas: as datas, os vezos.

E numa manhã de inverno, em melhor impasse:
Galho curvado por corda sob seu peso.



Czesław Miłosz



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NOTA POSTERIOR [05.11.12] 


é complicado. A gente lê um poema. O poema é lindo. O poema se chama "Który skrzywdziłeś"¹ [ou "You who wronged", em inglês]. A partir de algumas sonoridades no polonês e da tradução do sentido geral para o inglês, a gente fica morrendo de vontade de partilhá-lo com mais gente. Com os amigos. E então esboça uma versão apressada e meio urgente. A gente dirige prioritariamente a atenção para reproduzir sons e assonâncias, e deixa passar uma concordância verbal incorreta como:

"a dizer que a virtude, o saber lhe ilumina"(m) [v. 6]

até pode-se supor que a vírgula faz as vezes de "ou" em vez de "e". ou que há sínquise na frase "a dizer que a virtude". mas ainda assim... soariam como ressalvas, ambas justificativas. uma concordância tão simples, plural: no afã de achar uma rima, a gente cega. E só vai perceber depois, o logro. E é preciso consertar, claro. Porque se foi muito afoitamente ao pote e ao concerto. Antes de tudo. Antes de mais. Quer dizer, pôs a música das palavras (melopeia) por riba até do jogo das ideias, da trama conceitual (logopeia). Ou seja, pôs o concerto diante do conserto. Às vezes, uma impressão, mera hipótese: quando se lê demais em outros idiomas, abre-se espaço para alguma debilidade gramatical em alternância, variação. No idioma da gente. Na casa da gente.
Mas também a memória prega muitas peças. O primeiro verso de um de meus sonetos favoritos, de Luís de Camões, mal citei por aqui, num post, como sendo: "Enquanto quis ternura que tivesse". E na verdade é: "Enquanto quis Fortuna que tivesse". (Naturalmente Fortuna, aqui, no sentido de sorte, destino, etc.)

¹Para ouvir uma canção (em polonês) em que este poema (cujos versos encontram-se inscritos em um monumento de Gdansk, em memória de operários mortos pelo regime comunista) é proposto com letra: 




'Który skrzywdziłeś'

Który skrzywdziłeś człowieka prostego
Śmiechem nad krzywdą jego wybuchając,
Gromadę błaznów koło siebie mając
Na pomieszanie dobrego i złego,

Choćby przed tobą wszyscy się kłonili
Cnotę i mądrość tobie przypisując,
Złote medale na twoją cześć kując,
Radzi że jeszcze dzień jeden przeżyli,

Nie bądź bezpieczny. Poeta pamięta.
Możesz go zabić - narodzi się nowy.
Spisane będą czyny i rozmowy.

Lepszy dla ciebie byłby świat zimowy
I sznur i gałąź pod ciężarem zgięta. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quem tem olhos


A Sala São Paulo, casa da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp)

quando se ama São Paulo ou Fortaleza ou Lisboa ou Londres, reconhece-se igualmente aspectos belos e terríveis nessas cidades. Quem só vê beleza ou grandeza naquilo que ama:

não é um grandiosíssimo idiota?

Cansar-se



O câncer é a doença dos que falaram para mais gente do que seria lícito falar. O processo força alguma coisa. A voz, o semblante, gestos ao saírem do quarteirão podem alcançar gente nas mais remotas regiões do planeta. Mas isso, filtrado por aparelhos, tem um custo. Uma espécie de desmesura gerida por certa padronização e formato filtrados por aparelhos. E essa padronização, esse formato demandam um esforço e um desgaste psíquico que pune o corpo de quem é suficientemente bem sucedido para, na pele da celebridade, se meter com eles. 

O excesso de amostragem de ser.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Antes que te peguem para




-é preciso falar pelos cotovelos. Em seminários. E propor modelos e assinar apelos. Senão o cutelo te trincha pra churrasco no convescote político ou numa falsa ambiência de duelo - pensou Arthur

cotovelo modelo apelo cutelo duelo

(-deixe essas rimas para trás, meu rapaz. Isto. E, então, vai cuidar da vida antes que te peguem para)

To a Portuguese friend on his own images for writing



para onde leva essa conversa sobre metatexto, hipertexto, ao menos da forma como tem sido disposta pelos teóricos? Ou então, a velha questão, que, pensando melhor, esclarece muito pouco, é opaca, pois palavras não podem ser totalmente transparentes. E o que se expressa por afirmações do tipo: “eu escrevo assim, assado, cozido, cru; em pé, de joelhos, de gatinhas?” Parece, Bukowski é um tremendo chato e suas galochas. A tauromaquia, uma arte antiga e nobre, que todos combatem sem conhecer. Desafortunadamente. (A Catalunya acaba de proibi-la) Mas nada a ver com escrita, como quer Leiris em analogia. 
Agora, respeito medularmente quem pensa diverso. Por um aspecto e mais. 
Também os franceses, em geral – com espetaculares, dramáticas excepções – tendem a ser grandes enroladores. A encherem insofismáveis linguiças do tamanho de caiaques ou totens - vai nisso alguma compensação? (E o que não se compensa de um ponto de vista subliminar? Alguma fantasia fálica?) Especialmente os ensaístas franceses do pósmodernismo para cá. Há um ponto de vista de Richard Wilbur, poeta e tradutor norte-americano - já citado previamente por aqui - a respeito deles, franceses, que é de uma enorme lucidez:

Acho que, como muitos americanos, tenho muito respeito pelo atual e pelo físico. Vivemos chutando pedras, sabe, e não fazemos exatamente o tipo de nos encantar com sistemas de pensamento abstratos como os europeus, especialmente os franceses. Os franceses estão sempre chegando com coisas terrivelmente maçantes que eles acham trés, trés, trés interessantes. Gente como Sartre pode escrever um livro inteiro a partir de um proposição que é, no fundo, falsa: a de que Jean Genet, por ser masoquista, possui a humildade de um santo. Não faz nenhum sentido dizer isso uma única vez, mas um intelectual francês escreve um livro inteiro a respeito. Talvez nós americanos nos percamos um pouco na direção contrária, achando que somos muito primitivos e não temos qualquer respeito pelo que não tem voz ou é indizível. Talvez porque estejamos mais próximos da fronteira que eles, e, portanto, mais imunes a nos perdermos dentro de nossas próprias mentes—estamos certos de que há algo aqui fora.
Para a entrevista na íntegra (em inglês) segue o linque:
[http://www.theparisreview.org/media/3509_WILBUR.pdf]


E daí? Daí que entre outras, de momento, é inevitável que modifique compulsivamente o que escrevo com a voracidade de um soprador de vidros, de Sir Richard Burton – o escritor e viajante, não o ator –, Flannery O'Connor, Hermeto Pascoal ao piano, George Oppen. Exemplos não faltariam, embora não deem em árvore. E não figuro a razão de, no fim, esse poeta judeu-americano vir em meu auxílio, mesmo se não peço. E principalmente.
George Oppen iria pirar com os editores de texto de hoje. Não escreveria mais nada diante de tão massacrantes possibilidades de jogo. É possível que abandonasse a publicação para ficar apenas com o processo. Era tão obsessivo com a ordem das palavras que, depois de compor algumas poucas, parcas frases, testava todas as combinações de palavras possíveis e imagináveis dentro delas. E para tanto recortava as palavras, avulsas, e seguia movendo os recortes, intercambiando - mais ou menos como se monta um puzzle ou se edita um filme. Buscando novas formas de sintaxe. Um arejamento da linguagem. Das suas fronteiras. O sentido de sequência é tudo tanto em edição como em sintaxe. Achava graça até nos desenhos e na área em branco deixada por um texto. Ressaltava isto: os avanços e recuos da área de um poema sobre a página. Sua estranha sombra e concretude em estado de comércio com o especioso branco. E, no entanto, nunca foi hierático ou prescritor de programas, normas, ao modo dos poetas concretistas brasileiros. Ou de certos linguistas. Ou dos minimalistas. Ou de Cage ou Philip Glass.
Mas também creio que essa compulsão para revisar - ou para sobrerevisar, e esse escrúpulo - vem de certa atitude defensiva e cristã-nova. De um temperamento exilado e judeu, de todo modo. Exilado e judeu tal como pensa Vilém Flusser em 'Exílio e Criatividade'. Pois o mesmo George Oppen nos diz: "a meio caminho do fato de ser singular e de sermos numerosos está o de ser judeu”. 
Quando mais jovem, era bastante assertivo. Escrevia textos e mais textos num fôlego só. E de uma sentada. Do começo ao fim. E, no entanto, há coisas consideravelmente ruins, desagradáveis mesmo, desse tempo, que ainda assombram. Não poucas. Também escrevo por causa delas. Não para que no fim sejam transparentes. Mas ao menos para que, mesmo na sua opaca viscosidade, seja possível aludir. De algum modo. E as pessoas partilhem mundo.
E há outra coisa, sim. Antes que esqueça: quando começo a pensar em copiar e colar na minha escrita TUDO que vejo, sinto, cheiro, ouço – o mínimo gesto, expressão, passeio, conversa, voluta, galho, certo registro geral ou código de barra da coisa em questão – é a senha: hora de dar um tempo. 
Porque então parece que a gente começa a parasitar, a retirar o tutano mesmo do que escreve. Antes, preferível viver. Longe da escrita. Porque ocorre aqui uma coisa estranha e um tanto digna em geral e de nota: quando se quer pôr TUDO, acaba-se por chegar a muito pouco; e, então parece haver uma espécie de sabedoria em reconhecer que mesmo a escrita mais completa ainda é um meio muito deficitário, imperfeito de sondar, experienciar mundo. Escavá-lo aqui, ali. Ver a misteriosa água minar - como em jogos de praia, na infância. 
Ao largo dessa preocupação de trazer TUDO para a escrita – que, no íntimo é um ponto de vista ingênuo ou mitômano (no pior sentido), se quiserem – talvez seja preferível viver. E ler. E imitar. Quer dizer, parafrasear. (Traduzir é, de longe e ainda, a melhor escola de paráfrase. O melhor aquecimento, o alongamento necessário, a distensão prévia de cada dia: o exercício). 
Mas a  precedência ainda vai para um mundo, que também pulsa longe da palavra – pense em música, meu caro. Isso de empanzinar, de viver na inflação, no tumor, não faz bem. Ainda que se tenha bom-humor.
Há outras formas de lidar com compulsão. E com um pouquinho de cuidado, até se pode prevenir o contrário: as anorexias.

Profecia em 1988





consola-te

se o presente é mau, no futuro terão de ouvir michel teló

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Adeus, JT




Hoje deixou de circular em São Paulo o emblemático Jornal da Tarde. O diário, vespertino desde sua fundação (em 1966) até 1988, era célebre por haver transposto ao Brasil os eflúvios do New Journalism com as devidas e sábias adaptações. Em especial, quando ainda vespertino, o JT, editado pelo Grupo Estado, mostrou-se um vívido laboratório da relação entre diagramação e texto. Posteriormente, quando a existência dos vespertinos foi inviabilizada por questões técnicas e mercadológicas, o JT começou a concorrer mais cerradamente com outro jornal da casa: o Estado de São Paulo. E, com o progressivo encolhimento e perda de importância dos jornais como veículos impressos, a ser empurrado a escanteio por portais e pela mídia digital. Era tão distinto o estilo de noticiar desse diário, em especial nas duas décadas iniciais e mais gloriosas, que não era raro a compra de exemplares do JT apenas para ver a mesma notícia de modo distinto. Ou seja, mais plasticamente posta no papel. O JT absorveu no caminho opções e lições que vinham desde o concretismo e neo-croncretismo, ao tropicalismo, ao desbunde, à poesia marginal, ao minimalismo e à arte pop. Se houve um jornal de grande tiragem algo próximo ao conceito de meta-jornal - um jornal para jornalistas - o JT foi um dos que estiveram mais próximos desse conceito e dessa(e) meta por aqui. 

Sandy e os haitianos: até quando?


Artesanato haitiano: uma lagartixa de latão

a vergonha maior ao se noticiar algo como a tempestade Sandy, que atingiu o Caribe e alcançou a América do Norte, final de semana passado, está em se mencionar – sim, é apenas uma menção, às vezes nem isso – as mais de oitenta mortes no Haiti contra uma no Canadá e dez nos Estados Unidos 

levando em conta que a população dos Estado Unidos e a do Canadá somadas é trinta e oito vezes maior que a do Haiti, se tem ideia da tragédia no Haiti. Mas, não adianta. Inflexivelmente, como de vezes anteriores e sem conta, os holofotes da mídia, claro, não focam no Haiti. Embora os mortos no Haiti sejam em número oito vezes maior

além disso, noticia-se amplamente as causas das mortes mais ao Norte. Sabe-se que a vítima no Canadá, por exemplo, foi uma senhora que caminhava no centro de uma cidade quando uma placa de loja desprendeu-se e atingiu-a em cheio. E para todo óbito nos Estados Unidos há um acesso da imprensa às causas imediatas. Uma dignidade, assim, é conferida a cada uma das dez mortes. Mas não às mais de oitenta do Haiti

e esse modo de noticiar, de armar uma cobertura supostamente abrangente e internacionalista é feito pela nata da imprensa de maior reputação no Ocidente: os grandes jornais e portais dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa. Sim, há uma dignidade para as vítimas mais ao Norte. Ao menos se contrapostas às mais de oitenta vítimas haitianas que - evidente – são transformadas em menos vítimas e em menos humanas pela imprensa, porque jogadas na vala comum da barbárie, da ignorância, do anonimato, do descaso, etc.

como seres de segunda categoria. E se não são: por que são tratados assim?

e até quando?


NOTA POSTERIOR [noite de 31.1o.12] 
já se fala em 61 mortes nos Estados Unidos, o que é uma cifra bem maior que no início da manhã de hoje. E, ainda assim, menor que as ocorridas no Haiti

Em Memória de Márcio Figueiredo (1963-1992)



Outro dia, Márcio, um tema trouxe-me a turma toda de ouvido. Rejuntada de novo, ouvindo Pat Metheney, Weather Report, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, os mineiros, Nouvelle Cuisine na tua sala depois do ensaio. 
É provável, compadre, conversávamos sobre o acerto dos timbres e de como música do futuro teria por princípio a melodia. E o Moacir diria:
-Mas melodia, Flor: não é isso que a gente faz, meu irmão: melodia? – e ia alegar que Caetano Veloso já sacara isso de melodia no futuro antes da gente. E depois ia solfejar baixinho “Rapte-me, Camaleoa”, e abusando um pouco de vocalizar entre o p e o t, ao que o Ney não tardaria protestar com discrição e ênfase. 
Então, de repente, uma freira já idosa, com um daqueles chapéus à la noviça voadora, surgida não se sabe bem de onde e por qual produção de arte, passaria no corredor, e o Pádua ia dizer que estávamos num filme de Fellini. Não menos. A vida não era uma grande practical joke? A essas alturas, muitos já moravam em Tatuí, embora o Domingos tivesse vindo do Recife, passar uns dias:
-Ei, Seu Zé, me dá mil. Me dá mil aí, mach'.
A verdade, Márcio, é que ainda estamos num filme de Fellini, exatamente como os que passavam nos festivais do Cine Gazeta. Faz tanto tempo. E porque eras quem dizia que eram imperdíveis. E pressentias essa imperdibilidade melhor que nós. Mais: a propagavas.
Outro dia chegando de São Paulo, dei com a Maria, muito elegante, metida num uniforme azul. Bonita como num sonho azul, e o sorriso. Ela trabalha no Aeroporto Pinto Martins, e ainda tem aquele sorriso largo e cheio de luz que aquecia os fins de ensaio, embora os cabelos já misturem pretos e aplatinados. E eu fico imaginando, compadre, como estariam tuas fotos na Internet e por quais câmeras. Ou quais seriam os assuntos delas, agora. Ou ainda como te haverias com essas filigranas digitais. E se tu e a Maria tivessem casado, como seriam os semblantes das crianças, misturando o queixo de um ao erguer as sobrancelhas da outra. 
Como seriam os nomes dos teus filhos, dos teus filmes. Filmes certamente mais corretos, cinemáticos que os nossos. Se terias prosseguido com o Tai-Chi. Se a Rita guardaria um lugar para ti no Teatro São José, antes da função começar. E a gente então encontrasse: a turma toda reunida de novo, na praça, para soltar fogos em plena Epifania. E adentrar o teatro em cortejo, com beatas, padres, anjos, e uma retirante fake, recém-falecida, deitada numa rede. 
Gostávamos de milagres. Ou de entoar benditos com um furor escatológico e buñueleano. Ou, horas depois, na casa do Zé, lá no Sabiaguaba: vinhos e uma roda de violão em torno de um sinal no fogo; depois de escalar na varanda de tua casa da Tubúrcio, e deliberar para que lado a noite soprava.
Havia o café, os bolos, os docinhos da Bahia. Algum trago. Havia Rui, o cachorro. Havia o Rômulo um tanto marcial. Ou à paisana, dizendo alô, no vão da escada. Havia Cida, na flor da idade, que levamos junto com uma amiga para uma sessão de fotos nas Dunas, composta, além da paisagem, por uma porta lá de casa, que estava em reformas. E só a Bahia, gorda e bondosa, salvava a pele do Rui, porque ninguém gostava muito daquele bicho. E pensar que a Bahia e o Rui já estão aí do teu lado. 
Todos vocês seguiram para o Além, sem muita distância uns dos outros. E ainda no tempo em que a única rede de que se falava, além da Globo, era a de varandas e balançar com o pé na parede. E então, vocês se foram, como aquelas azeitonas pretas que não se colhiam, e juncavam o chão do teu quintal. Mas é um bom motivo para se estar feliz, ter uma boleira de mão cheia assim ao alcance de um pedido e na mesma dimensão. E um galgo de afiado faro, para caçar preás, e caminhar contigo pelas Jericoacoaras do além, quando enquadrares tudo mais que for preciso para tirar tuas fotos. 

(Ou revelar como tem sido morrer, como tinha sido viver, quando se tem apenas 27 anos.)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pra não assanhar o cabelo


Gabriel Figueroa

eu ando sempre
com o vidro fechado
pra não assanhar o cabelo
nem apagar o baseado 


escrito num vidro de cabine de caminhão estacionado para desembarque de mercadorias junto ao depósito de um movimentado supermercado de Fortaleza

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Bach e os imigrantes

Oscar Niemeyer, Museu de Arte Contemporânea de Niterói (vista(o) do interior)

-é difícil imaginar, mas naquele tempo podia-se contratar Bach para tocar num casamento – diz o narrador do documentário 

o que o narrador do documentário não presume é que fazer um bico tocando em casamentos e batizados é parte integrante da obra, vasta e gloriosa, do autor da Missa em Si Menor. Há demandas práticas. Quase todos os músicos que conheço ainda hoje, tenham empregos fixos em sinfônicas, filarmônicas ou não, fazem bicos tocando "por fora"

num inverno demasiado brando, aliás, Bach escreve a um amigo uma carta lamentando que não haja morrido gente o bastante para que ele pudesse auferir algum estipêndio extra tocando em funerais, como em invernos anteriores. Ao invés de revelar misantropia (modo como o homem contemporâneo inclina-se a ler a situação), o lamento de Bach aponta mais para uma aceitação do ciclo da vida, que inclui seu fim: a morte. E, para outro fato: se é inevitável morrer, que ao menos os mortos deem de comer aos vivos

de alguma forma. Ou pelo menos partam ao som de boa música, encomendados por um Réquiem solene e bem composto

ora, sem essas funções prosaicas, de batizados a funerais, passando por casamentos ou coroações, Bach não haveria sido o grande compositor que foi. E é precisamente isso o que roteiristas, produtores e narradores de documentários não dimensionam em nossos dias. Ou seja, que sem essas vivências aparentemente prosaicas, desimportantes, maçantes mas que demandavam música de encomenda, Bach não teria levado a vida que levou. Nem praticado, composto, repetido, variado, compilado e arranjado tanto. Nem conduzido a música aos limites 

e provavelmente nós não estaríamos aqui, escutando-o. Ou discutindo-o

há uma necessidade de se eliminar o sacrifício. Ou qualquer esforço e empenho em nível prático: o de ganhar a vida, o de dominar de fato uma linguagem. Basta diluí-los na genialidade. E escondê-los ou negá-los nos documentários padrões, junto com os tempos mortos. Pois, verdade, mesmo um virtuoso, como Bach, precisava trabalhar duro, suar para viver ou manter sua reputação de grande organista. Estudar horas extraordinárias sobre o órgão, o violino, a viola, o cravo. Era um esforço sobre-humano, que o fazia estudar à luz de velas quando adolescente, para aprender mais durante a noite. O que teria precipitado seus problemas de visão, que o levaram à cegueira ao fim da vida

ao contrário da Europa de hoje. A que vive do suor que é vertido em outras partes do planeta, para que se possa ir aos centros culturais ouvir Bach

hoje tudo na Europa é outsourcing. E qualquer trabalho braçal, mecânico ou mais pesado e repetitivo, logo rotulado de trabalho escravo. Estigmatizado como embrutecedor. Mas cinicamente reservado aos imigrantes. Ou subcontratado por vias oblíquas no exterior pagando salários que os europeus se recusam a receber. E, no entanto, em cadeia última, é esse trabalhador subcontratado, ganhando um salariozinho ínfimo, lá em Bangladesh a ou na Costa do Marfim, quem verdadeiramente confecciona o smartphone ou o chocolate que será posto em uma vistosa prateleira na Europa. E, pior, sem nenhum crédito a ele - em todos os sentidos que se possa imaginar (e não menos no econômico). E, contudo, não se deve esquecer: música é um "trabalho braçal". Requer um bocado de suor, repetição e, nos melhores casos, também algum cálculo, para se efetivar

hoje Bach, que palmilhou meia Alemanha a pé para encontrar os mestres com quem aprendeu - Buxtehude, Telemann, Schein, et alli - bem poderia ser o compositor desses imigrantes. Porque a alma é imigrante. O imigrante é cabeça-de-vento¹. E o vento sopra onde quer

a música de Bach é o rumor desse vento.



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¹Ou Luftmensch na saborosa inversão proposta por Flusser.

domingo, 28 de outubro de 2012

O relógio bem mais que nos ponteiros



o relógio bem mais que nos ponteiros. Está onde? No pelo escasso do cachorro, que quando veio para a casa, lustroso e farto feito lã. E as meninas brincavam com ele, enamoradas. E em dois pontos do pelo saltavam aqueles raios de olhar que as fascinava, plenos de estrepolia, carreiras

ou no semblante da atriz que não surgia na tela faz novelas, desaparecera da lembrança, mas retorna década depois, assemelhado a charge: açoitado por álcool, rugas, cocaína, câncer; o olhar com o rabo entre as pernas. Mas sobretudo ainda capaz de sorriso amarelo, alguma gabolice na voz fanha

para macaquinhos ensimesmados que somos, os ponteiros não estão mais nesses dois casos?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Três Retrancas do Desamor




-rapaz, por que tu não interrogou o cara com escalda-gato em vez de ir logo matando ele?
-sei lá. eu fiquei um pouco constrangido, sabe.
*
-ai, meu bem, meu amorzinho. assim você me mata.
-mato mesmo, sua peste.
-ui, que medo do meu tzarzinho subindo as escadarias de odessa depois de desembarcar do potemkin.
-cala a boca, peste.
*
-por que será que platão escrevia diálogos?
-porque não era esperto o suficiente para escrever triálogos. 

Subir por Mérito

R. B. Kitaj, 1980


se você tem mais de vinte e alguma ilusão de que é possível subir na vida por mérito, você precisa crescer. Envelheça

urgentemente

mas antes requisite ao jornaleiro - virtual ou não (de preferência não) - sua última história de trancoso

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Uma Sorte Lascada

Thomas Draschan

-Bu! - disse o fantasma. 
-Eu não acredito em fantasmas - ele disse.
Mas o fantasma não contou até três, e lepo: plantou-lhe a mão no pé do ouvido.
Ele estatelou-se no chão. Mordeu poeira. Um fio negro rubro escorreu do nariz:
-Não adianta – disse apalpando a mandíbula – não acredito. Deve ser uma sugestão psicossomática. Crise de pânico. Um delírio paranóico. Essas coisas. E ponto.
O fantasma, então, puxou um 38 do cós das fraldas de fantasma e descarregou o barril. Os tiros ressoaram bonito que nem em filme de faroeste. E pontos.
Já do lado de lá, no Além, ele próprio um fantasma, admitiu:
-É. Pisei na bola. Não se pode ganhar todas. E, além do mais, tive uma sorte lascada no amor.

Anterioridade e Clareza: de novo Bob Creeley


Retrato de Creeley por Francesco Clemente


os aspectos de Creeley que mais tomei em prioridade: o apontar a dignidade musical da fala corrente, bem estilizá-la, estranhá-la e também fazer largo uso do encadeamento: propondo partículas ao final do verso ou circunstâncias que possam pôr a leitura em dubiedade. Quebrando o verso onde menos de espera para ressaltar a suntuosa regularidade de preposições e conectivos. E arejar a frase. Abri-la a mais de uma sintaxe. Quer dizer a mais de uma possibilidade de sintaxe. E que essas possibilidades sigam em diversas velocidades ou idades
sutilezas acústicas que seguem na fala, como correntes e redemunhos num rio. Às vezes em simultâneo. Mas também de como é possível propô-las em estranhamento ao ressaltar determinada expressão extraída, arrancada de seu contexto usual ou até mesmo modificada pelo emprego de uma outra preposição ou partícula que de costume não vai com ela
quando se lê concordâncias erradas - muitas vezes deliberadamente - pela garotada no Twitter, tais como “bons drink”, não há como não lembrar de Creeley. A ressalva é a de que ele fazia isso há meio-século atrás e como muito mais consciência, contextos e clareza de propósitos. Com muito mais graça, sutileza. Enviando a coisa toda da linguagem - suas cansadas figuras e tropos e literatices inclusive - para algo estranhamente perto da abstração. Da mesma abstração expressionista e gestual, rítmica, que se encontra no jazz ou em Jackson Pollock¹ - mas também na sintaxe física da nossa capoeira, do nosso futebol, das nossas cirandeiras, transes de terreiro, atabaque e santos. Ou nos artistas neo-concretos: é o mesmo impulso em diferentes geografias - uma espécie de Zeitgeist. Quer dizer, uma abstração que é gesto. E cheia de tripas, curvas e sinergia. E em contextos únicos e um bocado perspicazes 

e mesmo e a seu modo, fazendo o errado soar mais que certo, bonito



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¹E pensar que em certa ocasião esses dois gigantes de um modernismo em segundo momento tenham saído no braço. Foi num boteco nas imediações do Black Mountain College, a célebre faculdade de vanguarda pela qual passaram nomes como John Cage, Franz Kline, Willem de Kooning, Denise Levertov ou Stan Brakhage. Creeley relembra o episódio em entrevista à Paris Review. (E dá mesmo coordenadas de que era um rufião bastante short temper quando mais jovem.) Depois desse momento anos 50, parte da energia vanguardista da Faculdade Black Mountain - cujo reitor era o poeta Charles Olson - será transferida para a New York State University at Buffalo, em que Creeley lecionará até o final da vida, consorciando essa tarefa com viagens, residências artísticas e ciclos de leitura e palestra pelos Estados Unidos e mundo afora.

O homem que foi à sua própria hora

Zoe Leonard

a notícia espetacular do momento: 

um lavador de carros na Bahia que foi ao seu próprio funeral, e causou um fuzuê de dizer chega

mas é no mínimo estranho isso de os parentes confundi-lo com outro. E após um estremecimento que ia para só quatro meses sem se ver

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Eu não tô en-ten-deeeein-do (ou Só se for pelo ladrão)


Get Smart (Agente 86), c. 1969

parece haver uma comoção meio mórbida por parte dos jornalista do Uol/Folha quando noticiam algo como a ocorrência de um ciclone no Brasil. Pode-se advinhar um fru-fru nas cadeiras. Um frisson. É como se, por conta disso, ficássemos mais dignos, mais próximos, mais limpos, mais parecidos com o modelo almejado. O modelo sonhado em horas de consumo, inevitabilidade de futuro e espelhos pelos cabeças-ocas: os Estados Unidos
ou então, aquela Europa "véa", a mais estapafúrdia e endividada, mas que parece com Estados Unidos sob tutela teutônica, apesar de não produzir um parafuso mais. Como se o futuro desejável fosse mera cópia do "grande irmão" do norte - ou no caso "das Europa", do lado de lá do Atlântico Norte, para onde a transposição da cultura europeia foi bem menos matizada que aqui. Foi mais direta e sem outros temperos a-ocidentais ou influxos étnicos batidos no liquidificador da miscigenação 
esse fascínio um tanto acrítico estende-se sobretudo aos saxões que ainda sobraram coçando os ovos nas latitudes mais ao norte do Velho Mundo, e revisando o espírito calvinista, enquanto islâmicos, paquistaneses, caribenhos e africanos trabalham para eles. Eles que exaltavam o valor do suor e do trabalho. Hoje em dia,  se ainda exaltam, só se for o dos outros. E para enriquecê-los - portugueses, espanhóis, irlandeses e gregos incluídos no pacote. No pacote da trabalheira, entenda-se bem claro e ainda. Enquanto mais ao Norte, eles vivem do outsourcing e deploram a falta de iniciativa do pessoal do Sul - incapazes de explorar tanto e tão bem os outros e o resto do mundo quanto eles próprios, não é de hoje. E lembrar que Alemanha, que passa esbregues de causar calafrios nos pobres europeus do sul, nunca que reembolsou a Grécia pelos tremendos prejuízos causados e tesouros artísticos afanados à época da Segunda Guerra. Ainda assim, os alemães não cansam de posar, rebenque à mão, de capatazes da Europa 
tornando ao terreiro, esses jornalistas do Uol/Folha entram em polvorosa quando falam da Broadway ou de Gay Talese. Babam quando referem Harvard ou o MIT. Têm delíquios quando citam Pierre Lévy ou um desses Michels Foucaults velhos de guerra quaisquer, do qual ouviram falar num retalho de seminário lá na ECA
ontem noticiaram um ciclone. Porém no Uruguay. E no texto só faltou algo como: “ah, que pena que não foi no Rio Grande do Sul”
é esse bando de alimárias de redação que tem importado acriticamente o politicamente correto. Integralmente. Inclusive em seus excessos mais torpes e foras de hora e lugar. E que contribuem para que aspectos melhor resolvidos na cultura brasileira que na estadunidense sejam postos de lado em nome de uma insidiosa imitação simiesca, burra e irresponsável da cultura norte-americana no que ela tem de mais degradante. E olha que, de outra forma, do melhor que os americanos produzem - que não é pouco - a melhor parte passa batido por eles como uma bela mulher diante de um cego
quase todos esses brothers já leram Gay Talese. Ou Kurt Vonnegut. Ou Jonathan Franzen. Ou Will Self. Alguns, mais sofisticados, conhecem Jorie Graham ou Mark Strand. Praticamente nenhum leu Gilberto Freyre. Ou Zé Lins do Rego. Ou Guimarães Rosa. Ou mesmo Antonio Candido ou Roberto Schwarz
a ver os próximos capítulos que os “mano” vão tramar. E discutir nas TV's por assinatura com aqueles gerúndios escandidos meio debiloidemente:
-o estáfe da cantora não está encampando essa solução, percebe, meu? 
às vezes a gente esquece que boa parte da pior borra impressa e televisiva - independente do brow: seja high, middle ou low - vem mesmo de São Paulo. E não pensem que se resume a Faustos Silvas, Gugus Liberatos ou Lucianos Hucks. Não. Ou àquela horrenda MTV com sotaque de suposto skatista da Mooca, e distribuindo má bobagem em vazão torrencial. Ou a hemorragia de programas feitos em festas, e que pululam na madrugada e tentam roer o osso que caiu da mesa das "celebridades". Não. Estes são apenas a ponta do iceberg. Ainda mais perigosos são esses sofisticados sacripantas de redação
caras, bocas. Nefelibatismos natos
curadorias mil. Vivências. Casas de cultura. Lactências
culturas escorrendo pelo ladrão

só se for pelo ladrão