domingo, 14 de outubro de 2012

Ponge, Cabral e os Objetos




há muita coisa que se pode aprender com Francis Ponge que se pode aprender com João Cabral de Melo Neto. E se é possível aprender com João Cabral, é também preferível aprender com João Cabral

porque para um poeta a linguagem da concreção dos objetos deve ser limítrofe. E como manejar essa linguagem, se não se faz uso desses objetos? Ou se está longe deles? Algo se perde

e, ainda assim, um poeta adivinha e sonha, e isso empresta uma concreção misteriosa até mesmo a esses objetos distantes, de que não faz uso. Porque suas adivinhações e sonhos são mais precisos e matemáticos, por uma lógica distinta da matemática

sábado, 13 de outubro de 2012

Cadê a chave de fenda?




-Cadê a chave de fenda?
-Eu trago uma no bolso da calça.
-E encontrou?
-Encontrei não.
-Procura direito.
*
Há coisas que só se entende algum tempo depois.
Havia a garota grega que às vezes soltava um xaveco. E ele fazia-se de desentendido. A estação corria pródiga. Ambos moravam no campus, em alojamentos. O inverno fora de congelador de Brastemp, e uma primavera mal ensaiava-se. Não raro iam às mesmas festas de confraria.
Certa tarde encontraram-se por acaso na papelaria da universidade, antes do seminário. Ambos segundanistas na pós. Ele com sua paixão por stationery e algum alheamento. Ela, com o inseparável sobretudo negro, cabelos em coque e botas, contou que estava montando umas prateleiras em seu alojamento:
-Você tem uma chave de fenda, Carlos?
-Não. Não tenho, não, Corina. Sinto.
E a velha senhora inglesa desde o balcão, com aquele comedido histrionismo na entoação da frase:
-Ah, mas um cavalheiro deve ter pelo menos duas coisas: um lenço no bolso e uma chave de fenda em casa. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Apontados no Caderno


Pieter de Hooch, 1663

A internet nos inventa um passado em que vivíamos avulsos, dispersos, ilhados. Pulverizados em pequenas zonas de interação e conhecimento. (Toda cidade, por maior que fosse e já no sec. XX,  era Delft no sec. XVII, um pouco). Mas constrangedoramente dependentes de nossa intuição. E onde era necessário que a intuição estivesse à flor da pele, se quiséssemos nos educar. E descobrir coisas. Já havia televisão. Mas a televisão não concedia buscas ou trocas de mensagens em público a todo instante. E, claro, se essa educação era mais consistente, era porque dependia de uma aplicação mais visceral de intuição. E de uma intuição que necessitava ser densa o suficiente para não quedar descartada pela primeira busca no Google ou na Wikipédia. E, logo, tínhamos de pôr mais energia nas hipóteses.
(Mas também no tempo em que vivemos, as palavras envelhecem rápido. E as próprias palavras internet e Google já parecem um pouco cansadas).
*
Ao contrário da harmonia de Vermeer, que não pode se dar sem um mínimo de elegância (embora seja, de fato, um mínimo), as composições de de Hooch revelam uma maior modéstia doméstica. Mas, se um de seus elementos mais óbvios é a luz vazando-se para o interior de edifícios e pátios, a diferença de Vermeer segue pela presença de crianças nesses ambientes sóbrios. Essa presença, aliás, parece ser um motivo chave para de Hooch. E há uma espécie de suplemento secreto entre elas e os adultos. Como a indicar que também precisamos ser irmãos, amigos dos que só instavelmente são nossos contemporâneos. Há um senso de companhia entre crianças e adultos que é um selo de dignidade. Mais do que isso, a criança assoma como advento ou mensageira de algo. É o caso do menino que entrega o pão, e cujo corpo se verga comovedoramente, em (aceitável) esforço, a segurar o cesto diante da porta da senhora que o atende. Ou da menina que brinca com as cascas da maçã que sua mãe descasca a um canto da sala. O impressionante senso de representação e divisão do espaço arquitetônico sob a luz: os pisos, as vidraças, perspectivas, brilhos. As cores e texturas dos ladrilhos. As fissuras e falhas nos batentes e parapeitos. A luz coando-se pelos vidros nos caixilhos e postigos. Há tanta calma e completude que dá vontade de morar nesses quadros. Por muito tempo os especialistas criam que Vermeer havia aprendido com de Hooch. Hoje a crença vai em sentido contrário. E, para além da harmonia, há um tempo da chegada. Da comiseração definitiva. Um tempo da utopia. Do chegar-se a um ideal de vida em comunidade: o dessas pequenas e prósperas cidades holandesas do seiscentos. Há uma atmosfera geral de conclusão, de mundo acabado, que tanto difere do nosso (em tempo e propósito  - e no caso, lugar). E o sentido de ordem que há nessa cidade em escala reduzida, nesse ovo. Delft era um ovo: como pôde propiciar-nos esses pintores?). A pintura flamenga dessa época concebeu uma forma acabada de representação. Semelhante às canções trovadorescas de Provença e da Galícia, aos poemas chineses da Dinastia T'Ang, ao hai-ku japonês, ao Soneto da Renascença na Toscana, em Portugal e Espanha ou nas peças e poemas dos Elizabetanos. 
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bom, ao que parece, o que preza demais a própria conta anda excepcionalmente bem informado sobre a conta dos outros. Ou seja, quem não admite qualquer forma de curiosidade é curioso compulsivo. E, pior, meticuloso, calculista

embora nunca revele o cálculo. E recheie a curiosidade entre uma suposta bondade e o saber de elementos para uma sugestão - mas que na verdade viram trunfo à manga. É como faz seu sanduíche moral. E o cálculo está próximo de uma ética, não propriamente protestante, mas calvinista. (Mas, e então, como esse sentido de completude em Delft? E além disso, Vermeer não era católico para todos os efeitos?)
***
o que se lê por aí é uma espécie de mimimiografia. Não se pode pensar que a literatura vai-se reduzir a isso. A essa falta de consistência estética, técnica, teórica. Mas sobretudo moral

a esse mimimi nosso, insosso, de redes sociais, tumblr's, fotos, displays com música, ou ao escrever uma literatura apenas confessional ou "terapêutica": isso não existe. O que os poetas confessionais norte-americanos ou autoras como Alejandra Pizarnik ou Ana Cristina Cesar escreviam não era uma poesia meramente auto-biográfica e ingenuamente "espontânea", mas uma derivação de forma, também coletiva. O que nos prende a eles é a moral que está por trás da beleza que nos transmitem

e, claro, o mimimi também vem pelos blogues. E dá pra pensar no desserviço que um professor pode fazer com isso tudo. Com essa massa amorfa, aparentemente “democrática”, de conhecimento

mas, ainda assim, ele pensa que está educando e que dispõe de "mais" recursos para isso, etc. Ocorre que sem também pensar nos poderes de dispersão desses recursos, que não são fascinantes só ao professor mas também aos pupilos. E pupilos que, na maioria dos casos, já se encontram até mais versados e em casa na arte de mover-se por esses suplementos de memória e conhecimento do que o próprio professor. E, melhor, sem aquele fervor um pouco estúpido, um pouco prosélito, um pouco doutrinador, um pouco iterante de professor. Aquele de onde se deriva o adjetivo professoral. Aquele que sabe que repete, mas força a barra para assomar como quem acabou de descobrir a América. A mesma América que já esta aí há mais ou menos uns quinhentos anos, na forma como a conhecemos após a chegada dos europeus e dos africanos

em nosso tempo o professor não é mais um mestre, senão um repetidor de conteúdos cuja matriz teórica passa longe de ser adequada ao clima, ao passado, à composição histórica, e às realidades locais na maioria dos casos. (É diferente de pensar como Vermeer podia ensinar a de Hooch. Ambos conheciam a luz por dentro. Mas o que conhecia mais ainda ensinava e o que conhecia menos ainda buscava o ensinamento. Sinal dos tempos. E do tempo em que o que ensinava era um mestre de ofício ou de guilda: sabia fazer. Esse era mesmo o primeiro pré-requisito. Mas como pensar que hoje o professor de literatura sabe compor um poema; o de música, um lied ou uma ópera; o de artes plásticas, uma aquarela; o de cinema, ao menos um curta criativo e arejado; e assim em sucesso?  (E que os alunos vão aprender mais com esses exemplos que com qualquer outra coisa? E até mais do que com a convivência com o próprio artista que urdiu, moldou, editou, compôs esses exemplos, mas cuja fala sobre eles será sempre inequivocamente menor, por mais lúcida e eloquente que seja). E, no entanto, quase todos os nossos professores apenas escrevem artigos. É o que sabem fazer: escrever artigos. E  por obrigação. E currículo. E uma espécie de norma assemelhada às das práticas bacharelescas de até meados do séc. XX. Soporíferos artigos em revistas empoladas: um pouco obtusos, redundantes, que corriqueiramente não são lidos sequer por seus colegas de área específica de tão insípidos e implacavelmente chatos e descriativos)

no caso do professor contemporâneo, quase sempre ele apenas revomita teorias que ele próprio não sabe bem para onde vão, (embora as defenda com um fervor de sequaz)

e, elemento decisivo para a situação acima: pouco sabe por onde e como vieram essas teorias dar à sua porta. Ou  pouco é capaz de ajudar os alunos a relacioná-las com outras coisas que não elas. Ou a partir de elementos, combustíveis e materiais insinuados pelos próprios alunos. As tais 'associações inusitadas' ou 'associações impressentidas' [conceitos nossos], que, por sua progressiva rarefação, nos deixam em tamanho prejuízo nos departamentos da universidade, como nos da vida

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Presidenta


Pieter de Hooch, circa 1670

A rigor, chamar a presidente de presidenta é o mesmo que chamar a atendente de atendenta. A docente de docenta. A ignorante de ignoranta.  A combatente de combatenta. Presidente é comum aos dois gêneros: é aquela ou aquele que preside. Como a assistente assiste e a superintendente superintende. Como a crente crê. Mas a presidente insistiu com “presidenta”, supostamente por ser mais fã do feminismo que da gramática. E aí, se a coisa pega e os homens resolvem retaliar: dentista, analista, artista, comunista ou motorista iam para dentisto, analisto, artisto, comunisto e motoristo. 

Isso não vai acabar bem.

O Acento




Mas e aí, seu Zé do Norte, tem umas índia' bem bonitinha' pra gente namorar?
Respondeu com frase posta no meio termo do sotaque do Brizola e o de Filipão:
Não. Gos'dê índia, não. Gos'dê bola, dê bola, quadradinha.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Observação Semi-Musical


Jean-Baptiste-Siméon Chardin


Há os frios como Vivaldi. Ou os quentes como Brahms. Bach está equidistante de ambos. Assim como dos maneirismos de Mozart. Se insistirem em polarizar, bebendo mais na fonte do italiano, de quem chegou a transcrever e arranjar alguns concertos. (Até porque os outros dois lhe são posteriores). Mas então, há uma arte que passa mais pelo intelecto, como em Vivaldi, que pratica uma música de belas séries matemáticas. E por isso interrompia missas para correr até a sacristia e anotar o trecho da música que vinha à cabeça em hora imprópria. E, todavia, em Bach, o enorme esforço e estudo, à época de frutificar¹, dá em coisas intuitivas e racionais. Simultaneamente. Pois até mesmo o racional bachiano está tingido de humanidade, do espírito da subjetividade, da ordem da adivinhação e do dia-a-dia, da generosidade, da inclusão, do abrigo e da emoção. E vice-versa. A música de Bach cava espaços para sermos e estarmos mais confortáveis e abrigados neste mundo. Mais em consórcio com ele. Sentindo-o e desdobrando-o melhor. Aceitando nossa finitude por via de um Senhor.

Em Bach o subjetivo objeta-se e o objetivo sujeita-se.

E sujeita-se, bem entendido, ao único Senhor a que se deve sujeitar. 

Amém. 

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¹Que como entre os mestres não se dissocia do exercício.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Vestígios, a Loura, o Poema, o Dia D & a Misteriosa Elisão do D


O prédio da antiga Estação Ferroviária de Camocim 


Um dos vestígios de sotaque do interior, nunca perdi. Uma amiga costumava zombar desse vestígio. Mas ela – e nem suspeitava - parecia a loura (ou loira, no caso) do poema de Drummond. Este: 

Esperteza

Tenho vontade de
- ponhamos amar
por esporte uma loura
o espaço de um dia.

Certo me tornaria
brinquedo nas suas mãos.

Apanharia, sorriria
mas acabado o jogo
não seria mais joguete
seria eu mesmo.

E ela ficaria espantada
de ver um homem esperto.

(O poema não vai muito para antologias, mas é saboroso. Há uma astúcia muito pertinaz e mineira. O poema é sonso, como deve ser. E como as louras são mais, se a gente deixar).

Mas eu falava de sotaque do interior. De um vestígio, porque acabei agregando um sotaque de Fortaleza, meio neutro como o do maioria dos amigos e conhecidos. É Carlos Heitor Cony, que se veio ao Nordeste não foram muitas vezes, quem dizia que o sotaque cearense culto é dos mais bonitos da língua. Mas no meu há quase imperceptíveis vestígios de sotaque interiorano, e que um homem esperto preza.

No caso, certa tendência para limar o “d” no final dos gerúndios. Digo “anuncian'o” por “anunciando”, na melhor trilha interiorana que vai bater em Camocim. E acho legal que seja assim. Que, quando muito, o “d” surja lá ao fundo, quase imperceptível. Apenas insinuado. Pressentido. Rajada de ventoinha.

Como descer uma ladeira em Tiradentes, à toda, carregando a amiga no tuntum. Ou o desembarque na Normandia de nossas vicissitudes por aqueles tempos. Lembra? Tudo eram heroísmos. Conquistas. Principalmente nós e a vida adiante. E haja matar d's em gerúndios. (Ainda hoje gosto de pensar que um de meus ancestrais era um renomado ladrão de cavalos que agia na fronteira norte entre o Piauí e o Ceará. Talvez isso explique um tanto o excesso de zelo e honestidade das últimas quatro gerações - as que eu conheço a história. Mas também uma perfeita incapacidade para a imaginação e a fantasia. Algo que acabou nos perseguin'o na hora do bote final, quanto a levar a sério isto de escrever).

Ou então, como aparece na seguinte frase:
-Não esqueça do poema na página 112 - ele disse acenan'o. E repetiu, enquanto ela tomava o táxi sob a chuva fina.

(Aliás, este relato cheio de chaves? Para ser lido ouvindo o Largo do Concerto em Fá Menor BWV 1056 de J. S. Bach - se, no entanto, você já assistiu Hannah e Suas Irmãs [Hannah and Her Sisters], deve figurar do que se trata along the way.)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Os Carrega Baratinho


Susan Bee

Você põe uma mãe em depoimento dizendo que aquele é o filho. E é maravilhoso. E é isso, aquilo. O melhor filho do mundo. E o marmanjo, que está sendo entrevistado, mesmo que leve os outros no braço lá pelas rinhas de MMA, baba-se inteiro e bebe as lágrimas. Desmancha-se. Olhares lânguidos instalam-se entre as macacas de auditório. A audiência sobe como guindaste hidráulico ou fiel escalando pau de sebo. 

E todos ficam felizes, que nem em último capítulo de novela: 42 pontos no Ibope.¹ Há uma espécie de alívio, compensação. Uma espécie de vingança do mundo. 

Todos felizes.

Principalmente o Diabo que os carrega.


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¹Cada ponto equivale a 60 mil domicílios na Grande São Paulo. Porque são assim esses pontos, na grande São Paulo, e não podem ser em outro lugar, não sei explicar. São pontos fixos, exclusivos de um espaço. Talvez para referendar a célebre abertura do Tratactus: "um ponto no espaço é o lugar para um argumento". E o argumento tilinta como arca da Ilha do Tesouro em tais casos.  

Ensaio sobre continuidade e rompimento: Pelechian

Artavazd Peleshyan, The End [Konec], 1992


Há um trem. 

Haverá uma saída?


Três temas dos tempos de algum ontem

A Estação Ferroviária de Camocim em foto da década de 30

1. "Que acaba de partir da praça" 

Parque Araxá” foi composta em 1986, um ano de muitas descobertas e de intenso comércio com o pessoal do Grupo Latim em Pó, que se dissolveu no começo do ano seguinte. Eles representaram mais que uma graduação intensiva não só em música, em artes (e, muito mais importante, na vida). Mas a canção não chegou a ser tocada pelo grupo. A letra faz referências a temas do dia a dia, como ter de tomar um ônibus diariamente na Praça José de Alencar para ir ao Campus do Pici (onde fazia Computação), e achar que a palavra “araxá”, vista de relance no letreiro de um outro ônibus, era bela, evocativa, e portava uma espécie de síntese secreta e inalienável. Mas também faz referência à Odisséia (a “Aurora de róseos dedos”), que lera maravilhado àquela época. A canção foi gravada pioneiramente por Marcus Britto (que atualmente assina seus trabalhos como Marcus Caffé). E posteriormente por Idilva Germano. E ambas as versões me agradam bastante.  A primeira é arejada, contemplada por certo humor resignado na voz de Caffé, e possui samplers característicos de meados dos anos 199o (um dia ainda vou precisar dizer pessoalmente ao Marcus o quanto gosto de sua versão). A segunda, de quase dez anos depois abre um primoroso disco de jazz com uma atmosfera de música de câmera, ao modo de uma sorte de Lied. Esta gravação caseira, abaixo, foi feita ao final de 2009. E consiste apenas de violão e voz. Deem nos ouvidos os devidos descontos: para o violonista amador e o compositor bissexto: 






2. "No Oeste, eu sei"

Parodiando Pete Brown” foi escrita em parceria com Domingos Fazio um ano depois do “Parque”, em 1987. Foi um tempo de uma intensa e calma solidão, porque os amigos haviam partido e se instalado em Tatuí, no interior de São Paulo, para estudar música no conservatório famoso. Não havia muito que fazer a não ser ler, tocar violão, estudar um pouquinho de teoria musical, enquanto me preparava para o mestrado. Mas antes disso, fui passar o Carnaval em Recife, e Domingos, que estava morando lá, me mostrara um tema que, achei, tinha a ver com western. Era em tom menor e um bocado plangente. Depois acresci algumas partes ao tema original de Domingos e à letra, que escrevera nos intervalos do Carnaval de Olinda. Pete Brown foi o letrista de algumas canções de Jack Bruce, do Cream. Entre elas, “Theme for an Imaginary Western”. Western e cinema confundiam-se em Camocim, durante a infância. Filmes de faroeste foi onde passei parte da minha infância. Se não era western, não era propriamente filme, tal a paixão que tínhamos pelo gênero imortalizado por Ford e Wayne. Por isso quando digo na letra: “No Oeste, eu sei”, desejo (também) referir-me expressamente a Camocim, que fica no oeste do Ceará. E que à época possuía um elemento emblemático dos westerns: uma ferrovia. Possuía também um rio com um delta de mangue. E cujas praias desertas e devastadoramente belas, como Barra dos Remédios ou Tatajuba, tinham muito daquela locação do deserto. Nesta gravação, de 2010, usei dois violões e algumas vozes sobrepondo-se em certas passagens. O registro é tão artesanal quanto o anterior:






3. Para Leamington e mais além

Royal Leamington-Spa é uma cidade de águas termais com bela arquitetura vitoriana e que fica há só uns poucos quilômetros de Coventry, onde morei no início da década de 90. As viagens de trem até lá eram fantásticas, como quase qualquer viagem de trem. Como as que fazíamos na infância, entre Camocim e Fortaleza com uma baldeação em Sobral. E ainda mais na Inglaterra, com ramais para todos os lados, aqueles campos e bosques desenhados à mão e de onde sobressaem campanários normandos, jardins e pequenos cemitérios rurais. Aquela paisagem mais "racional", antiquíssima, cruzada por rios que já correm ali desde à época das Cruzadas e muito antes, quando o Imperador Adriano mandou erguer muralhas a nordeste da Cumbria, por exemplo. (Era quase tão bonito quanto no Ceará. Mas, claro, Ceará há só um, e uma infância). Agora, Leamington, mais ao centro, é apenas há uns poucos quilômetros de Stratford-on-Avon, terra natal de Shakespeare e o próprio coração da Inglaterra: o Warwickshire. E há muitas boas recordações que se cristalizaram neste teminha chamado de “Journey to Leamington”: uma atmosfera de evocação e também algo de estrada-de-ferro. Registrei-o com um violão, algumas guitarras (em afinação alternativa) e voz. E preferi não pôr uma letra como forma de chamar atenção para a melodia. A gravação caseira é da mesma época da composição do tema: julho de 2010. Foi um tempo em que voltei a tirar o violão debaixo da cama e compor alguma coisa pensando em utilizar os temas como trilha de um documentário que estava editando:




A Relação dos Sons




passe sons entre
as letras, tudo
mais são tretas

domingo, 7 de outubro de 2012

Conversados


Edwin Porter, 1903

o bebê tenta desesperadamente morder o tablete de cereal. Nesse afã seu rostinho comprime-se deformado contra a vidraça

-ôrra, meu- diz Faustão

é domingo. Estamos conversados.

A Primeira Suíte para Cello de João Sebastião Ribeiro

Pere Portabella, O Silêncio Antes de Bach, 2007


Em O Silêncio Antes de Bach (Die Stille Vor Bach), de Pere Portabella, há uma cena que diz muito para quem escuta como músico. 
Não é necessário ser músico para entendê-la.¹ Para escutá-la ao vê-la. E perceber que o centro da cena vai pelo contraste entre os ruídos que se dão antes e depois com o “ruído da música” e o deslizar do trem lá fora, durante.
A peça, no caso, é o Prelúdio da primeira das suítes para cello, a mais bela da série.
E é encantador como num único momento uma das cellistas, fugindo das indicações de direção, não consegue conter o sorriso. Provavelmente provocado pelo mungango de algum gaiato sentado, diante dela, no fora de campo. (Ou porque um chaveiro caiu no piso do vagão ou alguém errou a arcada ou pôs os dedos onde não devia). Esse aparente deslize, no entanto, ilumina a cena. E a humaniza de vez.
E demarca a diferença do filme para "os filme".
Sim, porque, notem, o heroísmo desse "clipe" vai pelo contraste entre os jeans,  os tênis, as sandália, as t-shirts fuleiras envergados pelos jovens músicos e a nobreza das formas curvas e o som, desesperadamente próximo do registro humano em lamento ou rogo, dos cellos.
Talvez O Silêncio Antes de Bach não seja uma obra-prima. É irregular demais. Nem todas as sequências possuem a mesma tensão, coesão e ousadia desta. E então: nem mesmo digno de contar numa antologia de filmes sobre ou com a música de Bach? É possível. Mas alguns de seus momentos valem à pena. Mesmo à alma mesquinha. Como esta gravação do prelúdio entre estações do metrô.



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¹É antes preferível que haja musicalidade que propriamente técnica (ou exibição de destreza: mera técnica, falsa técnica) musical. Quantos não tocam peças de grande grau de dificuldade, de velocidade e, no entanto, não são músicos. São técnicos, tanto quanto o bancário, o agricultor, o balconista, o professor. O melhor exercício para quem não é acostumado a ouvir coisas enquanto as vê é ouvir a banda sonora isoladamente. Depois ver o filme sem som. E, enfim, fazer a soma, que ninguém é de ferro ou  à prova de fogo.

Pássaro Judeu

Um exemplar de blackbird (melro)

eu também canto
tenho asa, voo 
e também vou
até onde o santo
diz ao pássaro
seu igual, seu irmão
eu sem alçapão
além do claro
vou cantar no breu
pássaro judeu
entre o escombro
também quero
pousar feito melro
no teu ombro

sábado, 6 de outubro de 2012

Taken at All


O blogueiro tocando em uma gig , 1997


repare bem, 
veja bem, este sou
eu, eu que mal consigo
lhe ver, eu que passei
tanto tempo cego
olhando para um livro
incapaz de lhe escrever
incapaz de comprar o
bilhete e botar no
rumo um pé depois
do outro com um
pouquinho mais de 
prumo, um pouquinho
mais de abrigo e 
sentir o vento a
soprar nos cabelos 
que agora arrumo

será que ainda
é possível tomar
esse rumo até onde 
o texto, o vento
os cabelos e o depois 
fazem a curva
viram resumo?




Sincronia




agora falamos a mesma
língua, se vou por cima
você adivinha o porão
se alibabado em quarentena
a ocasião, o fazer, o ladrão
se você geme baixinho
o gozo do samba suinga-se
pelas paredes do ninho

aí, ponho o megafone
no labirinto
e tudo que você sonhar
(you know)
eu já sinto

Uma pergunta simples




há melhor coisa
que no meio
afunda
que a tua?

(mas agora entendo
quando doutos
dizem que o homem
é um produto do)

Geometria Plena



depois daquela
côncava brecha
a vida ficou
mais convexa


Uma trilha de sol




No Brasil, o Norte, o Sul, o Centro-Oeste, o Sudeste: que fazer com eles? São direções. Apenas direções. Pontos onde se ir na bússola. Trabalho. Férias. Cardealidades. 

Mas o Nordeste é um destino, um povo, um estado de espírito, um estilo de vida, uma forma de arte. Um ponto onde há a interseção entre a paisagem e o homem. Uma nostalgia. Um levar-se consigo. Um passado glorioso e pleno de tradições, mais que qualquer dos outros Brasis. Uma trilha de sol, um ano inteiro de mar. Uma mulher.

O chão abençoado. O mais antigo. O mais áspero. O mais belo.

Só quero filmar no Nordeste. Escrever sobre o Nordeste. Morrer no Nordeste.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Associação dos Cornos de Rondônia lança o programa Habitacorno




A Associação dos Cornos de Rondônia (Ascron) lançou o programa Habitacorno. Como se não bastasse, antes, já havia decretado o “Dia do Orgulho Corno”. Assim vai longe. De momento, conta com advogados, jornalistas e psicólogos em suas fileiras. Há homens, mulheres, gays, lésbicas e até simpatizantes. Gente de toda idade e extração social. Com trinta anos de existência, já possibilita descontos no comércio a seus afiliados. E não é fantástico que uma brincadeira assim, praticada por populares nos cafundós do Brasil Ocidental, porte germes e requintes de vanguarda? E que vá de encontro a certa prática truculenta, sanguinária que já fez não poucas vítimas? O lema, nada eufônico mas absolutamente solidário é: "corno unido é melhor do que corno solitário". Fico imaginando qual seria o hino. Talvez: "Garçom, aqui nesta mesa de bar..."