segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Três temas dos tempos de algum ontem

A Estação Ferroviária de Camocim em foto da década de 30

1. "Que acaba de partir da praça" 

Parque Araxá” foi composta em 1986, um ano de muitas descobertas e de intenso comércio com o pessoal do Grupo Latim em Pó, que se dissolveu no começo do ano seguinte. Eles representaram mais que uma graduação intensiva não só em música, em artes (e, muito mais importante, na vida). Mas a canção não chegou a ser tocada pelo grupo. A letra faz referências a temas do dia a dia, como ter de tomar um ônibus diariamente na Praça José de Alencar para ir ao Campus do Pici (onde fazia Computação), e achar que a palavra “araxá”, vista de relance no letreiro de um outro ônibus, era bela, evocativa, e portava uma espécie de síntese secreta e inalienável. Mas também faz referência à Odisséia (a “Aurora de róseos dedos”), que lera maravilhado àquela época. A canção foi gravada pioneiramente por Marcus Britto (que atualmente assina seus trabalhos como Marcus Caffé). E posteriormente por Idilva Germano. E ambas as versões me agradam bastante.  A primeira é arejada, contemplada por certo humor resignado na voz de Caffé, e possui samplers característicos de meados dos anos 199o (um dia ainda vou precisar dizer pessoalmente ao Marcus o quanto gosto de sua versão). A segunda, de quase dez anos depois abre um primoroso disco de jazz com uma atmosfera de música de câmera, ao modo de uma sorte de Lied. Esta gravação caseira, abaixo, foi feita ao final de 2009. E consiste apenas de violão e voz. Deem nos ouvidos os devidos descontos: para o violonista amador e o compositor bissexto: 






2. "No Oeste, eu sei"

Parodiando Pete Brown” foi escrita em parceria com Domingos Fazio um ano depois do “Parque”, em 1987. Foi um tempo de uma intensa e calma solidão, porque os amigos haviam partido e se instalado em Tatuí, no interior de São Paulo, para estudar música no conservatório famoso. Não havia muito que fazer a não ser ler, tocar violão, estudar um pouquinho de teoria musical, enquanto me preparava para o mestrado. Mas antes disso, fui passar o Carnaval em Recife, e Domingos, que estava morando lá, me mostrara um tema que, achei, tinha a ver com western. Era em tom menor e um bocado plangente. Depois acresci algumas partes ao tema original de Domingos e à letra, que escrevera nos intervalos do Carnaval de Olinda. Pete Brown foi o letrista de algumas canções de Jack Bruce, do Cream. Entre elas, “Theme for an Imaginary Western”. Western e cinema confundiam-se em Camocim, durante a infância. Filmes de faroeste foi onde passei parte da minha infância. Se não era western, não era propriamente filme, tal a paixão que tínhamos pelo gênero imortalizado por Ford e Wayne. Por isso quando digo na letra: “No Oeste, eu sei”, desejo (também) referir-me expressamente a Camocim, que fica no oeste do Ceará. E que à época possuía um elemento emblemático dos westerns: uma ferrovia. Possuía também um rio com um delta de mangue. E cujas praias desertas e devastadoramente belas, como Barra dos Remédios ou Tatajuba, tinham muito daquela locação do deserto. Nesta gravação, de 2010, usei dois violões e algumas vozes sobrepondo-se em certas passagens. O registro é tão artesanal quanto o anterior:






3. Para Leamington e mais além

Royal Leamington-Spa é uma cidade de águas termais com bela arquitetura vitoriana e que fica há só uns poucos quilômetros de Coventry, onde morei no início da década de 90. As viagens de trem até lá eram fantásticas, como quase qualquer viagem de trem. Como as que fazíamos na infância, entre Camocim e Fortaleza com uma baldeação em Sobral. E ainda mais na Inglaterra, com ramais para todos os lados, aqueles campos e bosques desenhados à mão e de onde sobressaem campanários normandos, jardins e pequenos cemitérios rurais. Aquela paisagem mais "racional", antiquíssima, cruzada por rios que já correm ali desde à época das Cruzadas e muito antes, quando o Imperador Adriano mandou erguer muralhas a nordeste da Cumbria, por exemplo. (Era quase tão bonito quanto no Ceará. Mas, claro, Ceará há só um, e uma infância). Agora, Leamington, mais ao centro, é apenas há uns poucos quilômetros de Stratford-on-Avon, terra natal de Shakespeare e o próprio coração da Inglaterra: o Warwickshire. E há muitas boas recordações que se cristalizaram neste teminha chamado de “Journey to Leamington”: uma atmosfera de evocação e também algo de estrada-de-ferro. Registrei-o com um violão, algumas guitarras (em afinação alternativa) e voz. E preferi não pôr uma letra como forma de chamar atenção para a melodia. A gravação caseira é da mesma época da composição do tema: julho de 2010. Foi um tempo em que voltei a tirar o violão debaixo da cama e compor alguma coisa pensando em utilizar os temas como trilha de um documentário que estava editando:




A Relação dos Sons




passe sons entre
as letras, tudo
mais são tretas

domingo, 7 de outubro de 2012

Conversados


Edwin Porter, 1903

o bebê tenta desesperadamente morder o tablete de cereal. Nesse afã seu rostinho comprime-se deformado contra a vidraça

-ôrra, meu- diz Faustão

é domingo. Estamos conversados.

A Primeira Suíte para Cello de João Sebastião Ribeiro

Pere Portabella, O Silêncio Antes de Bach, 2007


Em O Silêncio Antes de Bach (Die Stille Vor Bach), de Pere Portabella, há uma cena que diz muito para quem escuta como músico. 
Não é necessário ser músico para entendê-la.¹ Para escutá-la ao vê-la. E perceber que o centro da cena vai pelo contraste entre os ruídos que se dão antes e depois com o “ruído da música” e o deslizar do trem lá fora, durante.
A peça, no caso, é o Prelúdio da primeira das suítes para cello, a mais bela da série.
E é encantador como num único momento uma das cellistas, fugindo das indicações de direção, não consegue conter o sorriso. Provavelmente provocado pelo mungango de algum gaiato sentado, diante dela, no fora de campo. (Ou porque um chaveiro caiu no piso do vagão ou alguém errou a arcada ou pôs os dedos onde não devia). Esse aparente deslize, no entanto, ilumina a cena. E a humaniza de vez.
E demarca a diferença do filme para "os filme".
Sim, porque, notem, o heroísmo desse "clipe" vai pelo contraste entre os jeans,  os tênis, as sandália, as t-shirts fuleiras envergados pelos jovens músicos e a nobreza das formas curvas e o som, desesperadamente próximo do registro humano em lamento ou rogo, dos cellos.
Talvez O Silêncio Antes de Bach não seja uma obra-prima. É irregular demais. Nem todas as sequências possuem a mesma tensão, coesão e ousadia desta. E então: nem mesmo digno de contar numa antologia de filmes sobre ou com a música de Bach? É possível. Mas alguns de seus momentos valem à pena. Mesmo à alma mesquinha. Como esta gravação do prelúdio entre estações do metrô.



_____________________________
¹É antes preferível que haja musicalidade que propriamente técnica (ou exibição de destreza: mera técnica, falsa técnica) musical. Quantos não tocam peças de grande grau de dificuldade, de velocidade e, no entanto, não são músicos. São técnicos, tanto quanto o bancário, o agricultor, o balconista, o professor. O melhor exercício para quem não é acostumado a ouvir coisas enquanto as vê é ouvir a banda sonora isoladamente. Depois ver o filme sem som. E, enfim, fazer a soma, que ninguém é de ferro ou  à prova de fogo.

Pássaro Judeu

Um exemplar de blackbird (melro)

eu também canto
tenho asa, voo 
e também vou
até onde o santo
diz ao pássaro
seu igual, seu irmão
eu sem alçapão
além do claro
vou cantar no breu
pássaro judeu
entre o escombro
também quero
pousar feito melro
no teu ombro

sábado, 6 de outubro de 2012

Taken at All


O blogueiro tocando em uma gig , 1997


repare bem, 
veja bem, este sou
eu, eu que mal consigo
lhe ver, eu que passei
tanto tempo cego
olhando para um livro
incapaz de lhe escrever
incapaz de comprar o
bilhete e botar no
rumo um pé depois
do outro com um
pouquinho mais de 
prumo, um pouquinho
mais de abrigo e 
sentir o vento a
soprar nos cabelos 
que agora arrumo

será que ainda
é possível tomar
esse rumo até onde 
o texto, o vento
os cabelos e o depois 
fazem a curva
viram resumo?




Sincronia




agora falamos a mesma
língua, se vou por cima
você adivinha o porão
se alibabado em quarentena
a ocasião, o fazer, o ladrão
se você geme baixinho
o gozo do samba suinga-se
pelas paredes do ninho

aí, ponho o megafone
no labirinto
e tudo que você sonhar
(you know)
eu já sinto

Uma pergunta simples




há melhor coisa
que no meio
afunda
que a tua?

(mas agora entendo
quando doutos
dizem que o homem
é um produto do)

Geometria Plena



depois daquela
côncava brecha
a vida ficou
mais convexa


Uma trilha de sol




No Brasil, o Norte, o Sul, o Centro-Oeste, o Sudeste: que fazer com eles? São direções. Apenas direções. Pontos onde se ir na bússola. Trabalho. Férias. Cardealidades. 

Mas o Nordeste é um destino, um povo, um estado de espírito, um estilo de vida, uma forma de arte. Um ponto onde há a interseção entre a paisagem e o homem. Uma nostalgia. Um levar-se consigo. Um passado glorioso e pleno de tradições, mais que qualquer dos outros Brasis. Uma trilha de sol, um ano inteiro de mar. Uma mulher.

O chão abençoado. O mais antigo. O mais áspero. O mais belo.

Só quero filmar no Nordeste. Escrever sobre o Nordeste. Morrer no Nordeste.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Associação dos Cornos de Rondônia lança o programa Habitacorno




A Associação dos Cornos de Rondônia (Ascron) lançou o programa Habitacorno. Como se não bastasse, antes, já havia decretado o “Dia do Orgulho Corno”. Assim vai longe. De momento, conta com advogados, jornalistas e psicólogos em suas fileiras. Há homens, mulheres, gays, lésbicas e até simpatizantes. Gente de toda idade e extração social. Com trinta anos de existência, já possibilita descontos no comércio a seus afiliados. E não é fantástico que uma brincadeira assim, praticada por populares nos cafundós do Brasil Ocidental, porte germes e requintes de vanguarda? E que vá de encontro a certa prática truculenta, sanguinária que já fez não poucas vítimas? O lema, nada eufônico mas absolutamente solidário é: "corno unido é melhor do que corno solitário". Fico imaginando qual seria o hino. Talvez: "Garçom, aqui nesta mesa de bar..."

Festival de Cinema do Extremo Oeste do Carlito Pamplona




Algo que causa certa repulsa: ver esses curadores de festivais de cinema alardearem a “entrada grátis”. Será que ninguém percebe que, na vasta maioria dos casos, essa entrada na realidade não é nada grátis. Que quem está pagando por ela é o contribuinte? E, mais, pagando sem nenhum controle do conteúdo e da seleção que esses curadores e gestores culturais enfiam goela abaixo de seus públicos sem qualquer auditoria externa ou comissão mais ampla e minimamente participativa. Que vaze de fato para fora do usual grupelho.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Registro




teu nome era
um nome aberto
e cheio de ás

frágil no centro
firme nas pontas
bom de falar

meada uma de 
rio já se botando
no mar

a cruviana, o estio
nome depois
do lugar

nele havia
lua e mangue
imburana, preamar

dunas, casa
seis janelas
no copiar estavas

passamos juntos
eu e teu nome
pelo canal do panamá

tiramos fotos
em paris, deu
vontade de ficar

depois, gravei teu
nome, e o fiz no
tronco mesmo do araçá

teu nome disse:
tenho fome, e
então fomos lanchar

por anos, assinamos
planos, as
versões a cotejar

disse teu nome:
tinha uma alma no
corredor, bem acolá

pelos arredores
de teu nome havia
um transe liminar

algo que vem e
depois some e mais
não cansa de voltar

passamos férias
em minas, para quê:
minas já não há

lemos juntos
bazin e borges
e até jacques derrida

bolamos juntos no capim:
feliz quem tem
nome a zelar

-pensei, enquanto
desabotoava teu nome
bem devagar

o que teu nome 
sabotava: minha
tristeza secular

essa vontade de
partir, sem perder
o de ficar

e então quando
a última casa abriu
e fui tocar

teu tenro nome
flor de lis, teu nome
não estava lá

Isso, sim




Ainda Arthur. Há uma propaganda que lhe decepciona. É de cartão de crédito. Nela vê-se uma filha que conduz o velho pai ao reencontro do irmão, presumivelmente em um país europeu. A Itália, provável. Os dois estão velhos e sabem que vão morrer dentre em pouco.

Porque estava imerso em alheio corpo de atenção, Arthur pensou que o contexto fosse outro. Inusitado. Ou, no mínimo, menos piegas. 

Mas qual?

Afogueado, certo dia, viu-a, inicialmente e de modo inteiramente distinto: um dos irmãos conseguia para o outro uma jovem e bela prostituta. Para o outro namorar a valer.

-Isso, sim. Não teria tido preço - disse Arthur - e também como VT.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Política? Eleições?


Frank Freed, 1954

prever o futuro da cidade é fácil. Mais difícil é ordená-lo um bocadinho mais, trabalhar no rumo de melhorá-lo, desde já e um pouco. um pouquinho. e às vezes sem tanta visibilidade imediata 

nesse rumo nenhum dos candidatos tem proposto algo mais do que vagas promessas de campanha e excessos de populismo. Chega a ser cômico que Marina apoie Férrer. Elmano Freitas foi uma escolha para pôr à prova a popularidade da atual prefeita, de Lula, do PT: o fortalezense não tolera um tipo assim, com essa barba supostamente de “guerrilheiro”. Barba de cearense, diria Daniel Filho em implacabilidade. Um tipo que nem abriu a boca e já se adivinha a palavra de ordem, o "companheiro" apostrofado. Será para comprovar, de fato, a bravata de Luizianne Lins: a de que pode eleger quem ela quiser? Talvez. Elmano Freitas, no entanto, tem subido nas pesquisas. E parece seguir no rumo de polarizar com Roberto Cláudio ou com Moroni. E porém três administrações seguidas é algo que atenta contra alternância de poder e aponta para certa acomodação inevitável. Roberto Cláudio, à sua vez, alinharia de vez a prefeitura ao Cambeba, o que não costuma ser boa fórmula. Moroni e Marcos Cals representam tudo que há de mais retrógrado na política cearense. E não menos a ressurreição política de Tasso, no caso de Cals. O que seria um passo atrás do tamanho de uma jamanta. Esse retorno ostensivo de Tasso não ocorrerá, no entanto, apesar de não se saber do real status das relações entre Cid e Tasso. E em que ponto do mapa dessas relações está Roberto Cláudio.

ando por longe de política há tempo demais para declarar voto. Mas o momento não pede renovação? E, no entanto, entre a renovação e Moroni ou Cals, a saída menos comprometedora é a continuidade

NOTA POSTERIOR
A rigor, o nome novo seria Roseno - que, convenhamos, já não é tão novo assim. Mas Roseno além de não ter chances, está de alguma forma ligado à grife política de João Alfredo, líder de uma carcomida coligação de esquerda que se arrasta ineficientemente pela política cearense não é de hoje.  (Quais os projetos de destaque propostos por Alfredo quando de seus mandatos na Assembleia e na Câmera Federal? Não se vai achar no palheiro a agulha. E ainda assim, em certo momento, ele teve veleidades de se candidatar a governador e, como não achou espaço, bandeou-se ao PSOL). Outro fenômeno foi a queda abrupta de Inácio Arruda. Abrupta mas perfeitamente merecida: Arruda não tramou nada de bom para o Ceará em seus anos como Senador. Do contrário, sua ineficácia só empatava com o despreparo de quem o elegeu. Durante esses anos, o estado viu uma série de obras infra-estruturais e de instalação de indústrias de grande porte serem abiscoitadas por Pernambuco, por exemplo. Raras vezes o terno de senadores do Ceará foi tão inexpressivo e submisso a interesses outros e particulares, alheios aos do estado, quanto nos últimos oito anos - pois Eunício Oliveira e José Pimentel, nomes para descartar numa eleição, foram os eleitos na renovação de 2/3, em 2010. E o mandato é de oito anos. Ou seja, o Ceará vai ficar a ver navios no senado pelos próximos seis anos. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Para bom entendedor



para bom entendedor
a resposta segue
no banco de trás 
do carro  da pergunta:
por que a gente perde 
aquilo que mais junta?


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A hora e a vez de João Sebastião (ou A arte da Fuga)



é tocante. Simplesmente acaba. De repente

o modo como se figura a morte de Bach num documentário da BBC. Você vê as notas escritas, ouve a música soando. O nome inscrito na pauta. E logo depois há apenas o pentagrama vazio

e silêncio

deve haver melhores modos de se figurar a morte. Mas este¹:
[se estiver com pressa, favor, vá a 2:29]




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¹É provável que se o momento se desse num desses filmes da vanguarda norte-americana, fosse saudado com flores críticas de perfumar os vãos do Centro de Eventos Ceará ou o Anhembi. Como algo do engenho estético de Kubelka ou Jonas Mekas. Mas como se encontra "escondida" em um documentário um tanto padrão, bem produzido mas nada vanguardista, meio fuleiro, middlebrow, para consumo de simples mortais, a cena, que é conduzida por uma instrumentista vestida com a extravagância étnica lançada nos 90 (ou algum sobejo punk tardio), passa um tanto batida...A sacada dessa instrumentista, no entanto, é que é o bicho. E revela todo o conhecimento de causa que ela porta, através de si, a respeito de Bach. Tudo isso também me lembra certa conversa com Alexandre Veras, ao tempo em que montávamos "Uma Encruzilhada Aprazível". Veras certa vez informou, com aquela sua ênfase particular, o quanto lhe impressionava que, num documentário sobre a II Guerra, os soldados simplesmente ficassem imóveis quando atingidos e mortos. Ao contrário das contorções e espasmos teatrais dos filmes de ficção. E a morte em imagem é mesmo essa imobilidade, nem que sob a forma do silêncio, quando transposta para os domínios do tempo. Há uma  frase de Bresson que, de tão simples, chega a ser tautológica. E, talvez por isso mesmo, vá de encontro à norma de representação mais instituída: "não se deve mostrar a morte, mas a sua consequência: a imobilidade". 

À guisa de endecha: Hobsbawm e o Espírito da Revolta

Sidney Bechet quando jovem

Hoje morreu Eric Hobsbawm (1917-2012), um espírito ligeiramente mais cosmopolita que Hebe Camargo. Mas certamente Hobsbawm não levará um selinho de Sílvio Santos à guisa de endecha. Nem será tão festejado em morte pela Rede Globo.

Surpreende, por antes do tempo, a abertura ao mundo desse prolífico historiador judeu-inglês nascido em Alexandria. De como ele se interessava verdadeiramente pela América Hispânica e por nós. Hobsbawm já falava em Lampião muito antes dos estudos culturais e da onda de politicamente correto. E com mais contexto para o cangaceiro. Mais compreensão do fenômeno do cangaço posto ao lado de exemplos de "banditismo social" em outros países - nos Balcãs, na Península Ibérica, na Córsega e no Mezzogiorno italiano inclusive. Suas análises recendem a um universalismo extremamente saudável, ponderado, onde para todos os efeitos não havia nem a complacência paternalista, muito menos a empáfia tipicamente primeiromundistas.¹ 

Entre outras, Hobsbawm já advertia, estudando o recente fenômeno da Primavera Árabe, que eram as classes-médias, via redes sociais e internet, o que estava por trás da agitação. E não só no mundo árabe. E do papel ressaltado de mulheres sob véus, mas em plena agitação...Ele também escreveu - inicialmente sob pseudônimo, pois pegava mal para um intelectual respeitável à época - uma notável História Social do Jazz² - que, de resto, foi seu livro que li com maior prazer e na época certa. 

Mas também Bandidos e Nações e Nacionalismo são livros muito prezados e admiravelmente bem escritos. Quem sabe até mais que suas obras mais conhecidas ou festejadas: A Era das Revoluções e A Era dos Extremos. Neste último encontra-se a seguinte menção de um fã do futebol: "e quem tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?". Li Bandidos só um pouco depois de A História Universal da Infâmia, de Borges. E a meus olhos esses dois livros, de autores ideologicamente tão diversos, e de propósitos não menos distintos, guardam uma grande afinidade. 

Hobsbawm era um marxista nada ortodoxo de uma invejável erudição e incansável sede de conhecimento e geografias. Havia um germe de inconformismo. E notava-se a abertura até o Subcontinente Indiano, o Oriente-Médio, a América Latina, a África Oriental e do Sul, o Magrebe e o Egito - onde, aliás, nasceu - com um conhecimento de causa admirável. E um senso de abordagem que desconhecia qualquer resquício de prepotência ou indulgência paternalista. A erudição o vacinava contra as tentações do sectarismo. E, então, era a revolta, o espírito da revolta,  da inconformidade, mais que o da revolução, o que fascinava e movia esse marxista incomum, que tinha mais a ver com Camus que com Sartre. 

Enquanto isso, a maioria dos previsíveis neo-marxistas brasileiros querem apenas espezinhar qualquer coisa que não cheire a proletariado e sindicato. Arrancar o véu das mulheres árabes, sem antes indagar se é isso que elas querem. Ou culpar a classe-média por tudo que há de pior na face da terra - a telenovela incluída.

Hobsbawm vivia com sua mulher, Marlene, em Hampstead Heath, no Norte de Londres. Coincidentemente a mesma área em que viveram e conspiraram Karl Marx e Friedrich Engels, um século antes. Sua vida foi longeva, 95 anos, e ele deixou mulher, três filhos, netos e um bisneto. Entre seus amigos brasileiros está Luís Fernando Veríssimo, que repartia com ele o gosto pelo Jazz e assina a apresentação das edições mais recentes da História Social impressas por aqui. 

_______________________
¹E a gente se pergunta: quando um grande historiador brasileiro vai falar de África - que, aliás, Gilberto Freyre já falou com grande propriedade para seu tempo e espaço - tocando também na questão do escravo, mas seguindo para além dela até a África do presente, onde a China segue repaginando o colonialismo europeu tardio e densamente exploratório e reinventando a monocultura e a exploração de minérios para alimentar suas fábricas? (Mas onde a presença brasileira por igual se faz notar, sobretudo em Angola.)
²O título original em inglês é menos pomposo: The Jazz Scene [A Cena do Jazz]. Mas isso não torna o livro menso saboroso. Ou dentro dos propósitos de uma história social, tal como concebida por uma geração de historiadores ingleses de meados  para fins do sec. XX, e que incluía, entre outros, E. P. Thompson, Raymond Williams, Christopher Hill, além do próprio Hobsbawm. 

De todas as vistas à vista: Bèla Tarr

Bela Tarr, Werckmeister Harmonies, 2000


É estranho.

Não gosto do discurso de Bèla Tarr. Da maioria de seus pontos.

Sua visão de mundo surge bastante desinteressante, quando dita por ele em entrevistas.¹ O que os atores dizem em seus filmes é irrelevante. O que críticos dizem sobre eles é ainda mais pavoroso.²

As vistas isoladas. Não os filmes. Nem mesmo certas sequências. Mas as vistas salvam o artista.  

E, salvo engano, não é acima de tudo de vistas que se faz o cinema? De visões? As divisões classificatórias que se fazem sobres essas visões são extremamente mais secundárias.³ E perfeitamente desinteressantes.

As vistas de Bèla Tarr remetem a Brueghel e a Gabriel Figueroa.[4] Há algo da ordem da revelação, da citação bíblica. Mas também de certa fotografia P&B que se vê naqueles belíssimos filmes hllywoodianos da mais reacionária e clássica das décadas: os anos 50. Terá Bela Tarr se apropriado de algo que via em admiração quando criança? [5]

É provável.



________________________
¹Sua biografia é apenas a de um artista. E a maioria dos artistas é de grandes salafrários. E fazem coisas de segunda ordem diante da necessidade que temos de comida e roupa. Mesa e água encanada. Cama e iogurte. Dinheiro e escola.
²E há esse momento em que o próprio Tarr desanca um crítico judeu-norte-americano que, de sua parte, se esforça, coitado, por agradá-lo a qualquer custo. É constrangedor [Entenda-se, o vexame, aqui, é o de um crítico, um professor, um ser humano deixar-se tratar dessa forma sem reagir. Ainda que por alguém que admire. Ou por isso mesmo]:




³Embora algumas busquem o primeiro plano por uma sorte de valor em si. São raras. As de Bazin, por exemplo. Mas elas não substituem a imagem, é preciso dizer, embora isso pareça tão óbvio. O valor da imagem não é o de mil palavras. Mas é o de mil ou mais clichês. Ou pixels, se quiserem. E nenhuma fala anterior ou posterior agregará nada de mais à imagem que não já esteja na imagem. 
[4]Gabriel Figueroa também vem por Brueghel. Mas desdobra-o em algo mais solar, equatorial, de algum modo próximo do Ceará. Nesse ponto, ele divide aspectos com Raimundo Cela (injustamente estigmatizado por supostos artistas de vanguarda mal informados) e Chico Albuquerque. Ou, para uma geração mais recente e com outras compositividades no olhar: Ivo Lopes Araújo, que talvez sequer o reivindique. 
[5]Para conceber, clarificar melhor o que chamamos de visões clique em: "A Separação das Imagens - Ter Visões".

Caminho e Humanidade e Assim



nas caixas de comentários 
do espírito
pela voracidade com 
que as pessoas trolam, 
trocam insultos, sopapos 
virtuais, assim também 
tira-se a limpo caminho e 
humanidade e assim

eles não podem ser 
vendidos separadamente