segunda-feira, 24 de setembro de 2012

There she is,/ old friend Liz: Creeley


Susan Rothenberg, 2005

A Wicker Basket

Comes the time when it's later
and onto your table the headwaiter
puts the bill, and very soon after
rings out the sound of lively laughter--

Picking up change, hands like a walrus,
and a face like a barndoor's,
and a head without any apparent size,
nothing but two eyes--

So that's you, man,
or me. I make it as I can,
I pick up, I go
faster than they know--

Out the door, the street like a night,
any night, and no one in sight,
but then, well, there she is,
old friend Liz--

And she opens the door of her cadillac,
I step in back,
and we're gone.
She turns me on--

There are very huge stars, man, in the sky,
and from somewhere very far off someone hands
me a slice of apple pie,
with a gob of white, white ice cream on top of it,
and I eat it--

Slowly. And while certainly
they are laughing at me, and all around me is racket
of these cats not making it, I make it

in my wicker basket.


Robert Creeley


________________________________
Agora, no returno, em que já há suficiente educação, talvez não haja mais necessidade de tradução. E se há na rede uma boa e sólida introdução aos modos e peças da poesia de creeley, aí segue o linque:


domingo, 23 de setembro de 2012

Imobilidade e Criação (ou O Paradoxo das Contas)


Marisol, 1993

Tenho para mim que a única arte moderna a ser lembrada no futuro não será o cinema, mas o futebol. E, ainda assim, para criar alguma coisa no futebol, dificilmente é necessária a imobilidade. A tal vida contemplativa. 

Ainda bem, não temos um poeta laureado, como os ingleses. Candidatos não faltariam. Temos, isso sim, um craque laureado, o que é muito menos subjetivo, convenhamos. Além disso, o craque laureado ganha um caminhão de dinheiro. E, o melhor, nem um centavo dessa grana vem do contribuinte, via mecenato estatal, como na Inglaterra.

Vejam Neymar, o atual “artista” nacional. Neymar tem causado polêmica nos últimos tempos. E não por suas mobilidades, que, no geral, sobre um gramado, até que nos encantam: criando chances de gol, assistindo-as, serrando espaços onde não há, esquivando-se pelos desfiladeiros enzagueirados, achando brechas no muro de pedra, convertendo gols. Mas precisamente por uma imobilidade. Como podem ser criativas também as vidas que apenas contemplam, mesmo no caso de um futebolista!

Quando do nascimento de seu filho – que não foi propriamente fruto de uma imobilidade - há pouco mais de um ano, Neymar fez o obstetra fechar a clínica só para si e a futura mamãe. Isso implicou em salas vazias, equipamentos ociosos. Em certa imobilidade-ambiente. Preço: R$ 45.00,00. Uma bagatela, que teria custado nadicas, se Neymar houvesse lançado mão de seu plano de saúde, entrado na fila, agendado dia e hora. Como os demais brasileiros. Mais ou menos imóveis. Suando sob o sol.

O problema é que, de acordo com o médico, Neymar ainda não pagou a conta. Ele está sendo processado por essa imobilidade, deveras criativa. Criativa para o bolso do próprio Neymar. Sem dúvida.

E logo ele, tão lépido em campo. Tão fagueiro diante dos microfones abertos ao pós-jogo. E por que demora em criar um pagamento?

E não há um problema crônico aqui? O médico, que não parece lá grande coisa com uma bola nos pés, por fim mobilizou-se. E acusou Neymar de mau pagador. E até entrou com um processo na justiça. Periga ganhar o jogo. A celeuma foi parar na imprensa marrom e não tão marrom assim. E tome processo.

Fosse Neymar Zenão, teria outras defesas. Sabe como? Instaurando um paradoxo do futebol. Há o infinito entre o 0x0 e o 1x0, etc.

Ou talvez um outro paradoxo: o das contas a pagar. 

É, pensando melhor, este último seria um paradoxo bastante disputado.

sábado, 22 de setembro de 2012

Sociologia da Participação Digital




Em linhas gerais pode-se ilustrar a participação dos leitores de um grande jornal ou portal de notícias, tomando esta como boa amostra:

Notícia (em resumo):

Pesquisa recém-conluída nos Estados Unidos assegura que pessoas que têm o sangue do tipo O são menos vulneráveis a problemas cardíacos do que quem possui sangue A, B, e AB.

Comentários (mais ou menos previsíveis):

Responder – Denunciar
Está aí uma pesquisa extremamente útil e confiável feita em Harvard.
O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Jorge José da Silva 25/09/2012 às 10h57

Responder – Denunciar
Ai, to ferrado! O meu tipo sanguíneo é AB+. Essas pesquisas só servem para deixar a gente preocupado. Só enxaqueca!
O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade etc.
Fulano de Tal, em 27/09/1012 às 10h58
por facebook/twitter

Responder – Denunciar
Ou seja, posso mandar meu cardiologista às favas e continuar minha dieta à base de torresminhos, churrasco e cerveja? Ótimo!!!! :D Mais notícias como esta, Jornal Y, por favor
O comentário, não representa, etc.
Sicrana de Tal dos Anzóis – 18/05/1912 às 10h59

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O Canarinho




Eu nunca estudei no Canarinho. É uma das minhas frustrações. Quando viemos morar em Fortaleza, em 1974, só havia até a 4ª série lá. E eu já vinha para a 5ª. Ou seja, para começar o antigo ginásio.

Mas ao retornar do General Osório, eu passava bem em frente ao Canarinho, ali na Barão de Aracati, tarde após tarde. E via as crianças saindo de lá, com aqueles uniformes de criança ou pequenos aventais. E elas pareciam ter passado uma tempo danado de bom por lá.

E deve ser mesmo uma delícia estudar num colégio que traz no logo um canário. E não qualquer canário, mas um que pode figurar em qualquer desenho do Mickey ou do Pernalonga.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Lunch atop a Skyscraper



E a clássica foto Almoço no Topo do Arranha-Céu completa 80 anos hoje. Uma matéria no Daily Mail tenta soar com algo de “novidade” ao decretar que a foto é posada.

A foto é impressionante, de qualquer ângulo. E ainda hoje, oitenta anos depois. Nunca se descobriu ao certo quem a tirou. Olha-se para os onze operários - são onze como num time de futebol - ainda jovens, as pernas dependuradas num vão de 69 andares, e, apesar da coragem deles, pode-se dizer com certeza: estão mortos. Pois até é possível postar-se acima, no espaço. Não no tempo. E ainda assim, ela parece a mais perfeita ilustração de uma frase de Benjamin: "articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'tal qual ele propriamente se deu'. Mas, do contrário, apoderar-se de uma lembrança tal como ela cintila num instante de perigo".

A foto foi bastante reproduzida. E todo mundo deve tê-la visto alguma vez. Desde salas de agência de publicidade a quartos de jovem namorada. Espaços assim, onde grandes campanhas perigam.

Agora, de verdade, seria menos autêntica, não fosse posada. Ou a gente imaginasse que esses operários almoçassem todo dia sentados nessa viga suspensa sobre os céus de Manhattan. Não, eles posaram uma só vez com essa desfaçatez de habitués. E isso não torna a foto mais rara?

E, então, a diferença para o presente talvez resida no fato de que, por lá, os operários que constroem arranha-céus hoje em dia dificilmente são wasps, como há oitenta anos. Hoje, estão mais para latinos, chineses, árabes, indianos, negros...

A Novela




olhei pra você. Você olhou pra mim. Olhamos-nos daquele jeito que só. E que todos esperam que só nós. Milhares. Milhões esperam

mas também só sabemos isso. E o tempo não nos disse para plantar bananeiras metafísicas 

enquanto fazemos o curso de pós-graduação em telenovela e marketing 

em telenovela e marketing, ninguém trabalha. Todos fazem de conta

fazem de conta que publicam papers imprescindíveis em horrendas revistas acadêmicas que ninguém lê: mil vezes as novelas

em compensação, é o Diabo: não poucos morrem de câncer

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Gato Que Falava Lituano



Falar javanês é fichinha. Depois do Google Tradutor e dos cursos em linha, falar javanês banalizou-se. Ao menos entre humanos. E hoje além de falar javanês e outros idiomas, há que dominar a linguagem de programação Java.
Outro dia, um desembargador veio costeando a calçada mínima na sua ancha camioneta. A placa com selo do judiciário, o decalque precediam-no. Quando topou comigo, fez sinal. Baixou o vidro. O bafo frio exalou-se à manhã de sol:
Por favor, moço, onde fica a pedicure, a Rosário?
Passei-lhe as coordenadas.
Um gato retumbantemente gordo seguia no assento do passageiro.
Vossa Excelência, do lado de lá, agradeceu e, ao notar que eu fixava o gato, que me fixava com um olho azul e outro verde:
-Diga bom dia ao moço, Dorly!
-Labas rytas – disse o gato.

Sobre um post lido no blogue da A. C. Que gosta de outra A. C.




Querida, A., falo daquele post em que você diz da angústia do jovem escritor em comentário ao artigo do proprietário da grande editora. E posso divisar o quanto ele difere do estado de espírito de seu provável orientador.

Nem precisa ser mais. Ser menos. Ser de todo. Não ser ou ser. Ou nada ser de burguês, para sacar que gostei daquele texto. E que aquele texto podia ter sido um manifesto ou quatro coisas: 1. poema do Chico Alvim; 2. Poema do Leminski; 3. Poema do Cacaso; 4. conto do Dalton Trevisan dos bons tempos; 5. Crônica do meu querido amigo Aldir Brasil Jr. Em geral, quatro coisas acabam desovando em cinco.

É isto. É esse mundo tenebroso do outro lado das páginas. Não é porque apareceu o mundo digital que ele deixou de existir – embora a percepção dele haja sido radicalmente afetada pelo advento da Tia Nete. E hoje não se pode viver lá no Céu, lá perto de Nosso Senhor, sem também filtrar-se e receber as boas-novas através de fotos instantâneas e arquivos de vídeo. Essas carícias digitais que vulgarizam à vista de todos os bilhetes mais íntimos. ( Como este? )

Aliás, o mundo para além dessas páginas não tem achado muito espaço. A gente não encontra mais o Seu Para Além de Páginas por aí. Não encontra mais na poesia. Ou nessa literaturazinha cosmética, que anda meta demais, poscuspida demais, posgraduada demais. O aluguel atrasado, contas a pagar, incertezas de chofre, aos montes, aos borbotões, em qualquer tempo ou afeto. Sob qualquer invocação. Elas precisam de um pouco mais de pé, irmã, irmão. Senão não dá, Irmã Lua.

Não se pode calçar metatênis. Ou andar por aí com metapés... Ou plantar metabananeiras em metachãos. Ou ser metafranciscano ao se caminhar em metadesvairio divino por uma Metaumbria.

Por algum tempo descri da caixa de comentários. E achei que a caixadecomentarologia não era gênero que se prezasse. Coisa séria. Ou algo que o valha. Que nada ou ninguém podia redimi-la. (A não ser talvez no Daily Mail). Que não tinha espaço nela para uma resposta digna. À altura do leitor que todos somos. (Que sonhamos ser). E os mais aloprados nunca vão deixar de sê-lo. Os mais perfeitos, moralmente falando. Pois não existe perfeição maior que a do leitor. O leitor que apenas lê, ponto. E não sente qualquer necessidade de comentar. Mas, ainda assim, a partir de hoje, a caixa de comentários voltou a ser uma esperança, querida A.

A esperança, A., que mais esse gênero se afirme.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pastiche ( de Lorca ) em falsa prosa

O blogueiro pastichador ao violão, 1987 [Foto: Márcio Figueiredo]



Aquela magra lá do sul veio, manhã, e me esqueceu. E eu não pude esquecer. Aquela esbelta do café, filha do fio de aroma; longa, só e sem amigas. Pisou-me a rua em desoras. A noite tinge-se, doura-se de uma chama delicada. E não a pude esquecer. Aquela de bela cintura. Sim, senti sua textura na ponta das pedras pume. Rasgou por mim noite escura. Um jasmineiro amarelo. Tanto me quis e a quero, que carregou os meus olhos. E eu não a pude esquecer. Aquela - foi em Pernambuco - veio, manhã, e me encarou. E não a pude encarar. 

Que carregou os meus olhos. Já não consigo dormir. Que me encarou, dia feito. Já não consigo sonhar

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

It Makes No Difference

Simplesmente A Banda, em foto de 1969


é provável que hoje goste mais dos dois primeiros discos de The Band do que qualquer coisa dos Beatles, antes ou mesmo (durante e) depois do Peppers. Há uma qualidade de plangência e blues, caminhos e amores que não deram em nada, desilusões, rematados fracassos após esforçadas tentativas, pó de estrada, roupa encardida, cadeira de balanço no umbral e o deserto, estragos e mochila rota, safras goradas, batalhas perdidas, que tornam esses dois discos absolutamente incomparáveis. E seus criadores parecem encarnar o espírito do Lancelot de Bresson. E após o sem sentido da vida e dos combates, alvejados, eles e seus cavalos sangram no bosque. E o bosque é o Diabo. Mas eles têm uma ideia. E uma paixão. E não precisam mais que isso. Ainda que também a distorção disso possa representar a matriz de todos os males.
E, como se não bastasse, há um repercusso da terra e da gente que nela mora. Um senso de história. Algo da ordem de se estar próximo, rente de onde se deu e dá a real coisa: Dixie. Sem importações. Sem adaptações britânicas ou europeias - que também não soam menos instigantes. Mas é coisa de outra ordem, bem entendido. Há bastante terra em seus bandolins, pífaros, rabecas, acordeões, gaitas, clarinetas, pianolas e naipes de metais. Nós que somos da América, de alguma forma nos entendemos. Por alguma cifra, apesar das imensas distâncias. (E às vezes não esquecemos disso?)
Há também o itinerário mais errático, trágico, violento da banda, que repassa bem a ideia do que é a cena pop menos o glamour. Eles são mais efetivos, como músicos, em espetáculos ao vivo que os de Liverpool. Disso me convenci primeiro. E foi apenas um passo para concluir que no estúdio se dá o mesmo. Em geral, session musicians são virtuoses a serviço de outros. Outros não tão bons tecnicamente, como músicos, mas mais inspirados como compositores ou performers. O ponto é que nesses discos iniciais, eles conseguiram ser as duas coisas. Ou pode-se dizer que foram session musicians de si mesmos. Ou uns dos outros. E depois em The Band há os cinco músicos que eu gostaria de ter sido. Pegando algumas qualidades aqui, lá, e montando o Frankenstein sonoro. 
Na primeira margem, as arrepiantes vozes de Helm, Danko e, em especial, Manuel.   E, melhor, acompanhadas da vasta gama de instrumentos que cada um toca, e que eles revezam entre si, como também o protagonismo da voz. Manuel cantava como se os prazeres e chagas do viver fossem, não postos em perspectiva, mas presentificados em seu timbre temperado a tabaco e bourbon. Mas isso só pôde durar pouco mais de dois discos, pois a carga auto-corrosiva de uma vida assim não podia deixar a voz ir mais longe. Os preços que se tem de pagar por certos pactos.
Na economia geral da Banda, é ainda notório o esforço que Robertson faz para aparecer. E nem precisava. Não é um tremendo guitarrista. Mas é suficiente guitarrista. É o guitarrista de The Band, e um belíssimo compositor (e não menor letrista: se duvidar, escutem “Whispering Pines”). E pode ser que uma guitarra menos gárrula tenha aberto espaço para uma maior variedade de solos propostos por outros instrumentos. E, no entanto, Robertson tem aquele impulso (meio judeu?) de exorbitar-se na vendagem de si. Por exemplo, fazia de contas que cantava os apoios, quando seu microfone seguia desligado durante os concertos. Puro jogo de cena.
Do contrário, na margem de lá, o outro que não cantava, simplesmente respondia pela música em seu grau mais elevado. Uma espécie de concepção geral do arranjo. E, então, nessa  outra margem, no campo da pura música, há certa ambiência feérica criada por Garth Hudson. Algo entre o acordeon francês e os temas de parquinho de diversão, que sempre nos deixa no prejuízo, atirados à nostalgia. Ou então, pode pender para uma sonoridade que evoca a do harmônio, num coro de igreja. 
Talvez Garth seja um primo do alagoano Hermeto, que se perdeu lá pelo Canadá. Só que um pouquinho mais disciplinado. Ou melhor, mais domado, mais  rente ao senso comum, e voltado para um trabalho em prol de um grupo de rock. No início mesmo da colaboração, ele dava aulas de música aos demais. Como fosse um George Martin que efetivamente fizesse parte da banda.
Há um momento que ilustra isso. É na performance ao vivo de “It Makes No Difference”, tal qual está registrada em The Last Waltz, o legendário filme de Scorsese.
Durante a execução dessa balada, Robertson contorce-se todo, e finge que canta. Ou entre os versos, lança-se a solos de guitarra. Apenas bons licks. Nas mesmas vezes, Garth responde lá detrás, em continuidade, numa perícia e desenvoltura incomuns em prol não de si, mas do todo. Como a insinuar a invisibilidade da música, que, feito o espírito, sopra onde bem entende e quer. E, ainda assim, Garth o faz totalmente a serviço da canção. E para, então, ao final, propor um solo de sax soprano de levantar a audiência e os pelos.
Garth Hudson parece um gnomo. Disforme e, talvez, desagradável à primeira vista. E até a segunda. Ele vive à sombra. Ou melhor, parece com música, aquela arte aparentemente insubstancial, da ausência, que surge do inesperado, e talha o tempo. 

E ilumina o mundo.


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Em seis anos de Blogue, por um pudor calculado, jamais postamos um vídeo sequer. E, já que é inevitável que o vídeo adentre a cena do hipertexto¹, seja cada vez mais parte dele, aí segue o primeiro:





NOTA À NOTA
¹Que lamentável termo - e esses termos quase sempre não duram muito. Minha aposta vai por ele retornar a texto, que desde sempre é (e foi e será) amplo o suficiente para receber bem mais que vídeos.
OUTRO ADENDO INDEPENDENTE DA NOTA
A quem quiser mergulhar melhor no processo de feição desses discos - mais especificamente do segundo: há um documentário na íntegra, em cinco partes, no youtube: "The Band: How 2nd Album Was Made".

domingo, 16 de setembro de 2012

Sociologia da criação dos peixes-beta




nós ainda não tínhamos idade de transar, embora já dispuséssemos do equipamento.

o negócio era criar peixe-beta.

sábado, 15 de setembro de 2012

Porvir (uma história romheriana)




Suzana às vezes lia os textos dele. Não que ela achasse alguma revelação ou consolo neles, apenas era o que tinha mais à mão. Especialmente quando faltava grana para ir ao próximo livro. Ou coragem para ir até a esquina comprar a Bravo! Essa, uma das poucas serventias dos blogues: suprir pequenas preguiças. Mais ou menos como ser bom supor ter por perto um supermercado 24 horas, ainda que não se vá lá a três por quatro, às três ou quatro da madrugada.
Principalmente às três. Como nos versos de Torquato.
E então Suzana às vezes lia o blogue dele, enquanto terminava de chupar o resto do iogurte na colher da sobremesa. Sequer a visão do amplo Atlântico tornado piscina serenada, na enseada, após o quebra-mar, lhe sustinha os achaques da idade. E do parque eólico junto ao porto deviam provir essas ventanias de agosto e de setembro. Desembestadas. Os cabelos de Suzana, no entanto, pouco esvoaçavam nesse vento que refresca à sombra mesmo com o dia a meio.
Desde menina, decidiu-se reclusa. Coisa que o pai, representante comercial e em constantes andanças por capitais atrás de capitais, não podia obstar-lhe: uma vida social mais estável e enérgica. Era separado, e a mulher afastara-se da vida deles por alguma razão. E então, Suzana, de costas, caída desde o encosto do sofá, refestelada, com o marca texto à mão, escolhia a frase mais ou menos barroca como a favorita da tarde, enquanto na área de serviço o canário cantava amplamente, anunciando que mais um dia sazonava no meio daquela greve, que não tinha mais fim, da universidade. E Suzana marcava textos, e imaginava o porquê de os escritores serem assim tão sórdidos, como ele se revelara num porvir que ela havia imaginado de outro jeito.
Mais precisamente em certo imeio. E logo ele, que tinha idade de ser pai dela e até parecia boa gente.
-É. Com folga. De longe – pensava agora – Deus'ulivre.
Mas Suzana tinha um porvir e planos. Uma pós-vida em uma pós-cidade, uma pós-graduação sobre um autor pós-moderno e a possibilidade de uma identidade postiça e pós-amigos, após isso. Possessa, ela fazia mil planos a posteriori. E, assim, quando os planos começavam a não dar certo na sua imaginação, ela desandava a enviar mensagens do smartphone sempre ao alcance de um toque. E em sessenta e quatro por cento dos casos era respondida. Pós-imaginação. Quase de imediato. E então meio que enviava uma foto com a nova pintura da unha do dedinho do pé. 
Mas, às vezes, não podia evitar de voltar-se sobre as próprias curvas. E, então, entregava-se à imaginação, à lassidão gozosa e às carícias auto. Grunhia baixinho, suave, se os vizinhos mais barulhentos entrassem em inesperado armistício. E o silêncio, como um devoto, ajoelhasse sobre o vão da sala e colhesse, em pleno quarto andar, os gemidos dela como se colhe amoras, e pusesse dentro de um ex-voto.
Mas e a escrita dele? Essa não entrava nessas posteridades desterritorializadas. E era apenas como o quê? Como a borra do iogurte na colher de sobremesa, que ela lambia lentamente enquanto o fade derretia tarde na câmera da estival primavera em que estavam condenados a viver.
Um dia encontraram-se à Beira Mar. Um pouco remotamente. E caminharam para lá e para cá. Como se faz. Quando não se tem mais uma tela entre. Lá e cá. Uma cela.
Uma tela, aliás, sempre nos deixa menos no prejuízo. E imediatamente depois de uns poucos blagues, ele logo começou a rir mais amarelo do que o uniforme número três do Palmeiras. Sozinho. Quem manda: na vida real não existem undos. Ela? Comprou um acarajé e discorreu sobre seus anos na França e uma amiga em comum:
Mesmo com pouca pimenta, tá pegando.
Ele apontou algumas coisas. Lá e cá. O velho edifício em forma de navio em que havia morado nos anos 90. Como era isso, aquilo. Como aqueloutro era animado:
Aqueloutro? – Suzana indagou.
É, Aqueloutro. Nunca ouviu falar?
Eu não – ela disse.
Puxa, é isso mesmo: não é do seu tempo, não, Suzie. Mas era um barzinho muito decente, viu? E o Sá Júnior servia nas mesas do Aqueloutro, e coisa e tal. E o Baleia... Não. O Baleia, não. Era só no Estoril.
E quem ia no Aqueloutro? – ela perguntou disfarçando certo tédio-ambiente. Não queria encompridar conversa, e, entretanto, não sabia abreviá-la com bisturi mais súbito.
E então a coisa ia longa: a que horas abria o Aqueloutro. Quem frequentava o bar famoso (além dele, claro). O que tocava. Que músicos iam por lá. Quem pintou o painel. Em que ano foi ampliado. As meninas que sorriam, acenando, desde o mezanino...E até o dia em que ele disse para o Cariry, ambos mortos de bêbados, que todo grande cineasta termina em -berg: como Rosemberg e Spielberg. E análogas sandices.
Ela ouvia enfastiada, mas fazendo ouvidos de interesse – não houvesse certa mercancia em volta da coisa – só para não contrariá-lo. E, quando ele não estava olhando, fixava aquelas entradas na testa, desolada, e os grisalhos. Cheia de fascínios. Mas era algo mais da ordem da mãe. E da filha. E da estudante marca-textos. E que mulher não porta mãe, filha e estudante marca-textos ao se esquecer de si?
Verdade: mal conseguia explicar o tesão que lhe davam os grisalhos dele.
E, entretantos, a coisa parava ali. Bem ali. Pois bem podia dissociar entre os grisalhos e ele. E entre ele e carícias menos públicas. Ele, no entanto, queria carícias mais púbicas. Ou pelo menos mais púbicas. Queria era beijar o cu dela, e, adiante, empreender uma ruma de outras fundas sacanagens. 
Ela, todavia, sonhava mesmo era com outro. Um sujeito jovem, suave, tímido, de cabelinho crespo, que deitava a cabeça no colo dela e ficava em silêncio. Um tempão. Não precisava lançar mão de tantas palavras. Ou tocar em tantos assuntos. Ou se tocava, era violino. Mas não, não gostava de poesia, embora o pai deste, do violinista, que cometera versinhos mais ou menos ao tempo em que tinha a idade dela, possuísse uma até vasta biblioteca.
Agora, pra falar a verdade, cores, embora emotivas, não correspondem à necessidade sólida de um bem querer. Afinal, amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve.
Grave essa! – disse Suzana baixinho, passando o marca texto na frase acima – “amor que fica...amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve” – repetiu em certo tom de sonho, supinamente recostada no sofá, os olhos comprimidos como espátulas.
E o mais, era só a repulsa que aquela figura de meia-idade, ensimesmada, professoral, ventre ligeiramente proeminente, muitos pelos avulsos do pescoço às orelhas, podia causar numa recém-pós-adolescente, que gostava de marcar textos, enviar mensagens, escrever diários,

enquanto seu lobo não vinha.

Nossas Ruas Eram Frias



Houve um tempo em que achávamos que o futuro da música brasileira passava pelas mãos de Arrigo Barnabé. E, depois que isso foi sonoramente desmentido pelo rock nacional e o sertanejo nos 80, e pelo axé e o pagode nos 90, voltamos, Seu Zé, ao ponto futuro, no esquema tático da música: o futuro passou de fato pela música de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Tatit, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Ná Ozzetti...Era justificado e meio o fascínio que eles despertavam naquelas audições ao mesmo tempo reverentes e entusiasmadas, entre amigos e iniciados, na casa de Márcio Figueiredo, ali na Tibúrcio. Ou em casa de Virgínia e Pádua, na Cidade dos Funcionários.
Outro dia, ouvi “Cidade Oculta”, que escutávamos na década de 80 como fosse recado de profeta. A volta ao deslumbre foi imediata. E estranho perceber: aquele tema que achávamos dissonante, deliciosamente vanguardeiro e um pouco estapafúrdio, apocalíptico, sombriamente urbano e deprimente, na verdade - hoje compreendemos bem - soa tão próximo de Jobim, de Edu Lobo. E não só na harmonia. E é coisa de um músico e sua porção lírica. E, ouvindo melhor, a poesia nunca deixou de ter razão:


Outra favorita era este pequeno lúcido delírio em forma de samba, com as luxuosas participações de Paulinho da Viola e de Vânia Bastos. (E por que as coisas de vanguarda daquela época, já naquela época podiam ser assim tão fruíveis e deliciosas?):

http://bit.ly/MFDmbE 

Um dia, quando escrever a História Geral da Década de 80 do Ponto de Vista Maníaco-Depressivo, hei de reivindicar essas músicas. Saravá, Nego Dito: 

http://bit.ly/zIOsJN

O Homem-Corredor




você saiu na hora do Jornal Nacional da minha vida, e não voltou mais. Lhe esperei até depois da novela das oito. E, em seguida, depois da Tela Quente. E até aproveitei a Tela Quente para assar pãezinhos na chapa e fazer um sanduíche de provolone. Debalde. Preparei aquele mate especial que você gosta. E movi as peças no tabuleiro até o rei não poder mais. É. Você sabe o quanto gosto de jogar quando estou sozinho. Jogar comigo mesmo. Comigo Mesmo sempre ganha. Eu perco. É uma forma de me educar para a vida. E pensar que podia aproveitar melhor aquela abertura com quem ainda não provou da manha. É impressionante como minha criatividade é informação. Preciso tirar as teias de aranha de perto dos neurônios. E seguir em frente. E seguir em frente não será mera repetição ou acúmulo. Mas, se ameaço perder tua lembrança, passo mais tempo nos corredores, para que tua ausência nunca me abandone. Almoço e janto nos corredores. Trabalho. Vivo neles. Desfruto folgas. Passo férias. Confesso, uma vez mandei instalar microjanelas. E só então percebi o quanto estava a te trair. Ceguei-as. Não posso ficar mais nem um minuto sem a tua ausência. E, logo, que qualquer semelhança com aquele vizinho anêmico, assessor da Câmara de Vereadores -- sim, o que leva a mulher para o Danadim no fim de semana -- seja extirpada de vez

como deve ser em casos assim

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Homem-Calçada



Era tão humilde, desprendido que virou calçada. Todos pisavam nele, cuspiam.

Faziam coisas piores.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Nem vem




você escuta “Nem Vem Que Não Tem” com Wilson Simonal, ouve o suingue daquelas guitarras, pianos e sopros, a voz mais que nunca tocada (toda) como um instrumento: até a sua alma samba feliz. E há tanto de presente e contemporâneo num tema assim, que a gente fica a se indagar qual seria o status de Simonal no panteão da música pop, se ele não tivesse se metido nas confusões em que se meteu.

Que monstro de musicalidade.

Entre o poder fácil e o poder estimável



nenhum poder ultra-jovem. Embora este costume a se render na primeira aduana. há uma recusa do poder fácil em nome do poder justificável, estimável, que é maravilhosa. E nem sempre preferida. E mesmo a um artista, que, não nos enganemos, vive do poder. E mesmo a um artista jovem, que, não nos esqueçamos, é obcecado por ele. Este deve sentir em que momento é necessário abdicar da normatividade da carreira. Aquela normatividade que implica, determinados momentos, numa série de concessões, procedimentos e rotinas de ascensão "profissional". Essas concessões podem ser qualitativas e de relações pessoais. Porém aquele artista, que não é tão imediatista assim, sabe driblá-las. Deixá-las a ver navio. Sabe que elas são secundárias em relação à sua arte e, sobretudo, à sua vida. E devem ser secundarizadas. E em nome de uma visada crítica que, a despeito de limiar seu poder circunstancial ou o acesso mais imediato à fama, acaba por aumentar esse poder a longo prazo. Mas também em termos de uma integridade verdadeiramente invejável. [Entenda-se, aqui, um raio de ação e discurso assentado numa moral de sentido amplo, mas bem pouco concessiva ao canto de sereias do sucesso].

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

E se a Universidade olhasse para fora de si?



O sintomático descolamento entre academia e realidade faz com que a Universidade Estadual do Ceará (UECE) não possua um núcleo de Engenharias. No momento em que o país demanda todo um contingente de engenheiros, inclusive mais capacitados e especializados, não há um único curso de engenharia na UECE. E por quê? E o que estão esperando? Que o mercado absorva mão de obra especializada vinda de fora, quando ela poderia ser forjada aqui, o que seria muito mais interessante? Enquanto isso, da Zona Norte ao Cariri, em quase qualquer cidadezinha do interior, pululam dezenas de cursos de Pedagogia ou Letras – deficientes, pouco conceituados. E praticamente inúteis.

Como usam ser. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Olha, Airton

O time do Fortaleza Esporte Clube, campeão cearense de 1974


olha, Airton, eu me lembro de uma crônica tua e eu estar morando em São Paulo. Morrendo em São Paulo. E te digo, com desconcertante firmeza: nem sempre achava que as tuas crônicas fossem a última cocada preta, meu velho, ou o mais recente fax do Parnaso; e, porém, naquela me atingiste como numa pedrada. E então, golpeado nos brios – falso orgulhoso Golias, que não se suspeitava David – sangrando entre as Clínicas e o Paraíso, enxergando o rosto das pessoas como pétalas numa rama, exilado e morrendo de saudade da Praia do Futuro e da marcação dos triângulos pelas ruas chapadas à luz, e os oitizeiros; te escrevi. E sem qualquer esperança que me respondesses. Afinal, já iam uns bons três anos que eu não publicava nada nos jornais de Fortaleza, e, como sabes, as pessoas esquecem rápido. E nem blogue a gente tinha àquela altura do returno.
Além disso, estavas uma geração adiante. O que é bastante e suficiente para que a gente se olhasse em prevenção. E, como se não bastasse, aqueles eram tempos de conexões discadas e precárias. E de imeios semelhantes às promessas de encontrar, que a gente sempre faz a amigos distantes e conhecidos próximos, a saber que nunca que irão acabar em boa cerveja. Quer dizer, era bastante incerto se chegavam ou não.
O fato é que aquele chegou.
E que me respondeste.
Nunca convivi contigo, meu velho. O máximo que trocamos, um aperto de mão – pode ser? – numa dessas cerimônias inglórias de lançamento de livro no Ideal ou ali no subsolo da Biblioteca. Ou seja, onde ainda há laquê no penteado da primeira dama e alfinete na gravata do “anfitrião”. Ou onde mais seja em que a pompa, oca, um pouco estúpida da Academia, haveria de te rejeitar de véspera.
É. Mudei de servidor. Parece que também mudaste. Perdi todos os imeios daquele tempo. E o que me escreveste, em resposta, foi junto. Mas sei: aquilo foi mais que virtual. Foi mais da ordem do humano que da doutrina do homem de letras. E deixa eu ver se entendi: e não é melhor assim? Para poder calar-nos em paz?
Mas hoje, Airton, eu vou pagar uma cerveja. E tomá-la lentamente e sozinho. Pensando em roubar manga no quintal e em São Francisco de Assis. Nas divas do cinema, que também encontravas pelas praças do Benfica. Em Noel Rosa e na Rua Dom Jerônimo. Na Perna Cabeluda e em Chet Baker. Em Freud, em Trótsky e no Baleia, o garçom. Pensando num mundo sem smartphones, mas com tertúlias imemoriais, nas quais os Fevers e o Rei cantam diferentes versões de "Agora, eu sei", para sempre. Nas mitologias que criastes desde a Gentilândia. No glorioso Leão do Pici  que sequer é meu time. E no sereno das madrugadas caindo sobre as teclas da tua máquina

aposentada de pouco.

O Aleph



no futuro, o homem valerá também pelo dispositivo portátil. Ou seja, os smartphones e tablets – ou algo análogo a eles, porém menor, já devidamente ultra-microchipado, não se sabe se já embutido sob a pele – terão de ser aceitos em concursos, avaliações. Talvez consistam em algo tão só tatuado, que você possa tocar de leve, não como se ataca o prurido com as unhas depois de algum tempo e resistência. E terão de ser aceitos, porque se o aluno anteriormente não podia consultar livros durante uma prova, isso se dava em função de não poder portar consigo todos os livros. Quer dizer, os da instituição ou os sobre o assunto em demanda. O caso do smartphone ou do mini-tablet é diferente: ele se propõe como complemento cerrado do pensamento. Se ideal ou não, não vem ao caso. Ele pode conter bibliotecas inteiras, vastíssimas, em muitas línguas, enciclopédias em fila – e não só livros, como também filmes, sons, mapotecas, 3D's, museus de belas artes...E, mais urgente, vai chegar-se ao ponto em que será impossível desfazer-nos deles, por mais que desejemos. Em resumo, talvez haja sido por uma desses que Esaú trocou a primogenitura. Equívocos sempre os há, ao se passar a mensagem, como na brincadeira do telefone sem-fio  que, de resto, agora é real. Mas é também toda cultura material do mundo compactada numa geringonça que ocupa menos área que uma lata de lentilhas em conserva. E se pode levar para onde se for. Como se porta um anel, uma verruga

o próprio Áleph materializado