terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pastiche ( de Lorca ) em falsa prosa

O blogueiro pastichador ao violão, 1987 [Foto: Márcio Figueiredo]



Aquela magra lá do sul veio, manhã, e me esqueceu. E eu não pude esquecer. Aquela esbelta do café, filha do fio de aroma; longa, só e sem amigas. Pisou-me a rua em desoras. A noite tinge-se, doura-se de uma chama delicada. E não a pude esquecer. Aquela de bela cintura. Sim, senti sua textura na ponta das pedras pume. Rasgou por mim noite escura. Um jasmineiro amarelo. Tanto me quis e a quero, que carregou os meus olhos. E eu não a pude esquecer. Aquela - foi em Pernambuco - veio, manhã, e me encarou. E não a pude encarar. 

Que carregou os meus olhos. Já não consigo dormir. Que me encarou, dia feito. Já não consigo sonhar

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

It Makes No Difference

Simplesmente A Banda, em foto de 1969


é provável que hoje goste mais dos dois primeiros discos de The Band do que qualquer coisa dos Beatles, antes ou mesmo (durante e) depois do Peppers. Há uma qualidade de plangência e blues, caminhos e amores que não deram em nada, desilusões, rematados fracassos após esforçadas tentativas, pó de estrada, roupa encardida, cadeira de balanço no umbral e o deserto, estragos e mochila rota, safras goradas, batalhas perdidas, que tornam esses dois discos absolutamente incomparáveis. E seus criadores parecem encarnar o espírito do Lancelot de Bresson. E após o sem sentido da vida e dos combates, alvejados, eles e seus cavalos sangram no bosque. E o bosque é o Diabo. Mas eles têm uma ideia. E uma paixão. E não precisam mais que isso. Ainda que também a distorção disso possa representar a matriz de todos os males.
E, como se não bastasse, há um repercusso da terra e da gente que nela mora. Um senso de história. Algo da ordem de se estar próximo, rente de onde se deu e dá a real coisa: Dixie. Sem importações. Sem adaptações britânicas ou europeias - que também não soam menos instigantes. Mas é coisa de outra ordem, bem entendido. Há bastante terra em seus bandolins, pífaros, rabecas, acordeões, gaitas, clarinetas, pianolas e naipes de metais. Nós que somos da América, de alguma forma nos entendemos. Por alguma cifra, apesar das imensas distâncias. (E às vezes não esquecemos disso?)
Há também o itinerário mais errático, trágico, violento da banda, que repassa bem a ideia do que é a cena pop menos o glamour. Eles são mais efetivos, como músicos, em espetáculos ao vivo que os de Liverpool. Disso me convenci primeiro. E foi apenas um passo para concluir que no estúdio se dá o mesmo. Em geral, session musicians são virtuoses a serviço de outros. Outros não tão bons tecnicamente, como músicos, mas mais inspirados como compositores ou performers. O ponto é que nesses discos iniciais, eles conseguiram ser as duas coisas. Ou pode-se dizer que foram session musicians de si mesmos. Ou uns dos outros. E depois em The Band há os cinco músicos que eu gostaria de ter sido. Pegando algumas qualidades aqui, lá, e montando o Frankenstein sonoro. 
Na primeira margem, as arrepiantes vozes de Helm, Danko e, em especial, Manuel.   E, melhor, acompanhadas da vasta gama de instrumentos que cada um toca, e que eles revezam entre si, como também o protagonismo da voz. Manuel cantava como se os prazeres e chagas do viver fossem, não postos em perspectiva, mas presentificados em seu timbre temperado a tabaco e bourbon. Mas isso só pôde durar pouco mais de dois discos, pois a carga auto-corrosiva de uma vida assim não podia deixar a voz ir mais longe. Os preços que se tem de pagar por certos pactos.
Na economia geral da Banda, é ainda notório o esforço que Robertson faz para aparecer. E nem precisava. Não é um tremendo guitarrista. Mas é suficiente guitarrista. É o guitarrista de The Band, e um belíssimo compositor (e não menor letrista: se duvidar, escutem “Whispering Pines”). E pode ser que uma guitarra menos gárrula tenha aberto espaço para uma maior variedade de solos propostos por outros instrumentos. E, no entanto, Robertson tem aquele impulso (meio judeu?) de exorbitar-se na vendagem de si. Por exemplo, fazia de contas que cantava os apoios, quando seu microfone seguia desligado durante os concertos. Puro jogo de cena.
Do contrário, na margem de lá, o outro que não cantava, simplesmente respondia pela música em seu grau mais elevado. Uma espécie de concepção geral do arranjo. E, então, nessa  outra margem, no campo da pura música, há certa ambiência feérica criada por Garth Hudson. Algo entre o acordeon francês e os temas de parquinho de diversão, que sempre nos deixa no prejuízo, atirados à nostalgia. Ou então, pode pender para uma sonoridade que evoca a do harmônio, num coro de igreja. 
Talvez Garth seja um primo do alagoano Hermeto, que se perdeu lá pelo Canadá. Só que um pouquinho mais disciplinado. Ou melhor, mais domado, mais  rente ao senso comum, e voltado para um trabalho em prol de um grupo de rock. No início mesmo da colaboração, ele dava aulas de música aos demais. Como fosse um George Martin que efetivamente fizesse parte da banda.
Há um momento que ilustra isso. É na performance ao vivo de “It Makes No Difference”, tal qual está registrada em The Last Waltz, o legendário filme de Scorsese.
Durante a execução dessa balada, Robertson contorce-se todo, e finge que canta. Ou entre os versos, lança-se a solos de guitarra. Apenas bons licks. Nas mesmas vezes, Garth responde lá detrás, em continuidade, numa perícia e desenvoltura incomuns em prol não de si, mas do todo. Como a insinuar a invisibilidade da música, que, feito o espírito, sopra onde bem entende e quer. E, ainda assim, Garth o faz totalmente a serviço da canção. E para, então, ao final, propor um solo de sax soprano de levantar a audiência e os pelos.
Garth Hudson parece um gnomo. Disforme e, talvez, desagradável à primeira vista. E até a segunda. Ele vive à sombra. Ou melhor, parece com música, aquela arte aparentemente insubstancial, da ausência, que surge do inesperado, e talha o tempo. 

E ilumina o mundo.


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Em seis anos de Blogue, por um pudor calculado, jamais postamos um vídeo sequer. E, já que é inevitável que o vídeo adentre a cena do hipertexto¹, seja cada vez mais parte dele, aí segue o primeiro:





NOTA À NOTA
¹Que lamentável termo - e esses termos quase sempre não duram muito. Minha aposta vai por ele retornar a texto, que desde sempre é (e foi e será) amplo o suficiente para receber bem mais que vídeos.
OUTRO ADENDO INDEPENDENTE DA NOTA
A quem quiser mergulhar melhor no processo de feição desses discos - mais especificamente do segundo: há um documentário na íntegra, em cinco partes, no youtube: "The Band: How 2nd Album Was Made".

domingo, 16 de setembro de 2012

Sociologia da criação dos peixes-beta




nós ainda não tínhamos idade de transar, embora já dispuséssemos do equipamento.

o negócio era criar peixe-beta.

sábado, 15 de setembro de 2012

Porvir (uma história romheriana)




Suzana às vezes lia os textos dele. Não que ela achasse alguma revelação ou consolo neles, apenas era o que tinha mais à mão. Especialmente quando faltava grana para ir ao próximo livro. Ou coragem para ir até a esquina comprar a Bravo! Essa, uma das poucas serventias dos blogues: suprir pequenas preguiças. Mais ou menos como ser bom supor ter por perto um supermercado 24 horas, ainda que não se vá lá a três por quatro, às três ou quatro da madrugada.
Principalmente às três. Como nos versos de Torquato.
E então Suzana às vezes lia o blogue dele, enquanto terminava de chupar o resto do iogurte na colher da sobremesa. Sequer a visão do amplo Atlântico tornado piscina serenada, na enseada, após o quebra-mar, lhe sustinha os achaques da idade. E do parque eólico junto ao porto deviam provir essas ventanias de agosto e de setembro. Desembestadas. Os cabelos de Suzana, no entanto, pouco esvoaçavam nesse vento que refresca à sombra mesmo com o dia a meio.
Desde menina, decidiu-se reclusa. Coisa que o pai, representante comercial e em constantes andanças por capitais atrás de capitais, não podia obstar-lhe: uma vida social mais estável e enérgica. Era separado, e a mulher afastara-se da vida deles por alguma razão. E então, Suzana, de costas, caída desde o encosto do sofá, refestelada, com o marca texto à mão, escolhia a frase mais ou menos barroca como a favorita da tarde, enquanto na área de serviço o canário cantava amplamente, anunciando que mais um dia sazonava no meio daquela greve, que não tinha mais fim, da universidade. E Suzana marcava textos, e imaginava o porquê de os escritores serem assim tão sórdidos, como ele se revelara num porvir que ela havia imaginado de outro jeito.
Mais precisamente em certo imeio. E logo ele, que tinha idade de ser pai dela e até parecia boa gente.
-É. Com folga. De longe – pensava agora – Deus'ulivre.
Mas Suzana tinha um porvir e planos. Uma pós-vida em uma pós-cidade, uma pós-graduação sobre um autor pós-moderno e a possibilidade de uma identidade postiça e pós-amigos, após isso. Possessa, ela fazia mil planos a posteriori. E, assim, quando os planos começavam a não dar certo na sua imaginação, ela desandava a enviar mensagens do smartphone sempre ao alcance de um toque. E em sessenta e quatro por cento dos casos era respondida. Pós-imaginação. Quase de imediato. E então meio que enviava uma foto com a nova pintura da unha do dedinho do pé. 
Mas, às vezes, não podia evitar de voltar-se sobre as próprias curvas. E, então, entregava-se à imaginação, à lassidão gozosa e às carícias auto. Grunhia baixinho, suave, se os vizinhos mais barulhentos entrassem em inesperado armistício. E o silêncio, como um devoto, ajoelhasse sobre o vão da sala e colhesse, em pleno quarto andar, os gemidos dela como se colhe amoras, e pusesse dentro de um ex-voto.
Mas e a escrita dele? Essa não entrava nessas posteridades desterritorializadas. E era apenas como o quê? Como a borra do iogurte na colher de sobremesa, que ela lambia lentamente enquanto o fade derretia tarde na câmera da estival primavera em que estavam condenados a viver.
Um dia encontraram-se à Beira Mar. Um pouco remotamente. E caminharam para lá e para cá. Como se faz. Quando não se tem mais uma tela entre. Lá e cá. Uma cela.
Uma tela, aliás, sempre nos deixa menos no prejuízo. E imediatamente depois de uns poucos blagues, ele logo começou a rir mais amarelo do que o uniforme número três do Palmeiras. Sozinho. Quem manda: na vida real não existem undos. Ela? Comprou um acarajé e discorreu sobre seus anos na França e uma amiga em comum:
Mesmo com pouca pimenta, tá pegando.
Ele apontou algumas coisas. Lá e cá. O velho edifício em forma de navio em que havia morado nos anos 90. Como era isso, aquilo. Como aqueloutro era animado:
Aqueloutro? – Suzana indagou.
É, Aqueloutro. Nunca ouviu falar?
Eu não – ela disse.
Puxa, é isso mesmo: não é do seu tempo, não, Suzie. Mas era um barzinho muito decente, viu? E o Sá Júnior servia nas mesas do Aqueloutro, e coisa e tal. E o Baleia... Não. O Baleia, não. Era só no Estoril.
E quem ia no Aqueloutro? – ela perguntou disfarçando certo tédio-ambiente. Não queria encompridar conversa, e, entretanto, não sabia abreviá-la com bisturi mais súbito.
E então a coisa ia longa: a que horas abria o Aqueloutro. Quem frequentava o bar famoso (além dele, claro). O que tocava. Que músicos iam por lá. Quem pintou o painel. Em que ano foi ampliado. As meninas que sorriam, acenando, desde o mezanino...E até o dia em que ele disse para o Cariry, ambos mortos de bêbados, que todo grande cineasta termina em -berg: como Rosemberg e Spielberg. E análogas sandices.
Ela ouvia enfastiada, mas fazendo ouvidos de interesse – não houvesse certa mercancia em volta da coisa – só para não contrariá-lo. E, quando ele não estava olhando, fixava aquelas entradas na testa, desolada, e os grisalhos. Cheia de fascínios. Mas era algo mais da ordem da mãe. E da filha. E da estudante marca-textos. E que mulher não porta mãe, filha e estudante marca-textos ao se esquecer de si?
Verdade: mal conseguia explicar o tesão que lhe davam os grisalhos dele.
E, entretantos, a coisa parava ali. Bem ali. Pois bem podia dissociar entre os grisalhos e ele. E entre ele e carícias menos públicas. Ele, no entanto, queria carícias mais púbicas. Ou pelo menos mais púbicas. Queria era beijar o cu dela, e, adiante, empreender uma ruma de outras fundas sacanagens. 
Ela, todavia, sonhava mesmo era com outro. Um sujeito jovem, suave, tímido, de cabelinho crespo, que deitava a cabeça no colo dela e ficava em silêncio. Um tempão. Não precisava lançar mão de tantas palavras. Ou tocar em tantos assuntos. Ou se tocava, era violino. Mas não, não gostava de poesia, embora o pai deste, do violinista, que cometera versinhos mais ou menos ao tempo em que tinha a idade dela, possuísse uma até vasta biblioteca.
Agora, pra falar a verdade, cores, embora emotivas, não correspondem à necessidade sólida de um bem querer. Afinal, amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve.
Grave essa! – disse Suzana baixinho, passando o marca texto na frase acima – “amor que fica...amor que fica, não é amor de apostilha, como é sabido. Mesmo em tempos de greve” – repetiu em certo tom de sonho, supinamente recostada no sofá, os olhos comprimidos como espátulas.
E o mais, era só a repulsa que aquela figura de meia-idade, ensimesmada, professoral, ventre ligeiramente proeminente, muitos pelos avulsos do pescoço às orelhas, podia causar numa recém-pós-adolescente, que gostava de marcar textos, enviar mensagens, escrever diários,

enquanto seu lobo não vinha.

Nossas Ruas Eram Frias



Houve um tempo em que achávamos que o futuro da música brasileira passava pelas mãos de Arrigo Barnabé. E, depois que isso foi sonoramente desmentido pelo rock nacional e o sertanejo nos 80, e pelo axé e o pagode nos 90, voltamos, Seu Zé, ao ponto futuro, no esquema tático da música: o futuro passou de fato pela música de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Tatit, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Ná Ozzetti...Era justificado e meio o fascínio que eles despertavam naquelas audições ao mesmo tempo reverentes e entusiasmadas, entre amigos e iniciados, na casa de Márcio Figueiredo, ali na Tibúrcio. Ou em casa de Virgínia e Pádua, na Cidade dos Funcionários.
Outro dia, ouvi “Cidade Oculta”, que escutávamos na década de 80 como fosse recado de profeta. A volta ao deslumbre foi imediata. E estranho perceber: aquele tema que achávamos dissonante, deliciosamente vanguardeiro e um pouco estapafúrdio, apocalíptico, sombriamente urbano e deprimente, na verdade - hoje compreendemos bem - soa tão próximo de Jobim, de Edu Lobo. E não só na harmonia. E é coisa de um músico e sua porção lírica. E, ouvindo melhor, a poesia nunca deixou de ter razão:


Outra favorita era este pequeno lúcido delírio em forma de samba, com as luxuosas participações de Paulinho da Viola e de Vânia Bastos. (E por que as coisas de vanguarda daquela época, já naquela época podiam ser assim tão fruíveis e deliciosas?):

http://bit.ly/MFDmbE 

Um dia, quando escrever a História Geral da Década de 80 do Ponto de Vista Maníaco-Depressivo, hei de reivindicar essas músicas. Saravá, Nego Dito: 

http://bit.ly/zIOsJN

O Homem-Corredor




você saiu na hora do Jornal Nacional da minha vida, e não voltou mais. Lhe esperei até depois da novela das oito. E, em seguida, depois da Tela Quente. E até aproveitei a Tela Quente para assar pãezinhos na chapa e fazer um sanduíche de provolone. Debalde. Preparei aquele mate especial que você gosta. E movi as peças no tabuleiro até o rei não poder mais. É. Você sabe o quanto gosto de jogar quando estou sozinho. Jogar comigo mesmo. Comigo Mesmo sempre ganha. Eu perco. É uma forma de me educar para a vida. E pensar que podia aproveitar melhor aquela abertura com quem ainda não provou da manha. É impressionante como minha criatividade é informação. Preciso tirar as teias de aranha de perto dos neurônios. E seguir em frente. E seguir em frente não será mera repetição ou acúmulo. Mas, se ameaço perder tua lembrança, passo mais tempo nos corredores, para que tua ausência nunca me abandone. Almoço e janto nos corredores. Trabalho. Vivo neles. Desfruto folgas. Passo férias. Confesso, uma vez mandei instalar microjanelas. E só então percebi o quanto estava a te trair. Ceguei-as. Não posso ficar mais nem um minuto sem a tua ausência. E, logo, que qualquer semelhança com aquele vizinho anêmico, assessor da Câmara de Vereadores -- sim, o que leva a mulher para o Danadim no fim de semana -- seja extirpada de vez

como deve ser em casos assim

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Homem-Calçada



Era tão humilde, desprendido que virou calçada. Todos pisavam nele, cuspiam.

Faziam coisas piores.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Nem vem




você escuta “Nem Vem Que Não Tem” com Wilson Simonal, ouve o suingue daquelas guitarras, pianos e sopros, a voz mais que nunca tocada (toda) como um instrumento: até a sua alma samba feliz. E há tanto de presente e contemporâneo num tema assim, que a gente fica a se indagar qual seria o status de Simonal no panteão da música pop, se ele não tivesse se metido nas confusões em que se meteu.

Que monstro de musicalidade.

Entre o poder fácil e o poder estimável



nenhum poder ultra-jovem. Embora este costume a se render na primeira aduana. há uma recusa do poder fácil em nome do poder justificável, estimável, que é maravilhosa. E nem sempre preferida. E mesmo a um artista, que, não nos enganemos, vive do poder. E mesmo a um artista jovem, que, não nos esqueçamos, é obcecado por ele. Este deve sentir em que momento é necessário abdicar da normatividade da carreira. Aquela normatividade que implica, determinados momentos, numa série de concessões, procedimentos e rotinas de ascensão "profissional". Essas concessões podem ser qualitativas e de relações pessoais. Porém aquele artista, que não é tão imediatista assim, sabe driblá-las. Deixá-las a ver navio. Sabe que elas são secundárias em relação à sua arte e, sobretudo, à sua vida. E devem ser secundarizadas. E em nome de uma visada crítica que, a despeito de limiar seu poder circunstancial ou o acesso mais imediato à fama, acaba por aumentar esse poder a longo prazo. Mas também em termos de uma integridade verdadeiramente invejável. [Entenda-se, aqui, um raio de ação e discurso assentado numa moral de sentido amplo, mas bem pouco concessiva ao canto de sereias do sucesso].

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

E se a Universidade olhasse para fora de si?



O sintomático descolamento entre academia e realidade faz com que a Universidade Estadual do Ceará (UECE) não possua um núcleo de Engenharias. No momento em que o país demanda todo um contingente de engenheiros, inclusive mais capacitados e especializados, não há um único curso de engenharia na UECE. E por quê? E o que estão esperando? Que o mercado absorva mão de obra especializada vinda de fora, quando ela poderia ser forjada aqui, o que seria muito mais interessante? Enquanto isso, da Zona Norte ao Cariri, em quase qualquer cidadezinha do interior, pululam dezenas de cursos de Pedagogia ou Letras – deficientes, pouco conceituados. E praticamente inúteis.

Como usam ser. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Olha, Airton

O time do Fortaleza Esporte Clube, campeão cearense de 1974


olha, Airton, eu me lembro de uma crônica tua e eu estar morando em São Paulo. Morrendo em São Paulo. E te digo, com desconcertante firmeza: nem sempre achava que as tuas crônicas fossem a última cocada preta, meu velho, ou o mais recente fax do Parnaso; e, porém, naquela me atingiste como numa pedrada. E então, golpeado nos brios – falso orgulhoso Golias, que não se suspeitava David – sangrando entre as Clínicas e o Paraíso, enxergando o rosto das pessoas como pétalas numa rama, exilado e morrendo de saudade da Praia do Futuro e da marcação dos triângulos pelas ruas chapadas à luz, e os oitizeiros; te escrevi. E sem qualquer esperança que me respondesses. Afinal, já iam uns bons três anos que eu não publicava nada nos jornais de Fortaleza, e, como sabes, as pessoas esquecem rápido. E nem blogue a gente tinha àquela altura do returno.
Além disso, estavas uma geração adiante. O que é bastante e suficiente para que a gente se olhasse em prevenção. E, como se não bastasse, aqueles eram tempos de conexões discadas e precárias. E de imeios semelhantes às promessas de encontrar, que a gente sempre faz a amigos distantes e conhecidos próximos, a saber que nunca que irão acabar em boa cerveja. Quer dizer, era bastante incerto se chegavam ou não.
O fato é que aquele chegou.
E que me respondeste.
Nunca convivi contigo, meu velho. O máximo que trocamos, um aperto de mão – pode ser? – numa dessas cerimônias inglórias de lançamento de livro no Ideal ou ali no subsolo da Biblioteca. Ou seja, onde ainda há laquê no penteado da primeira dama e alfinete na gravata do “anfitrião”. Ou onde mais seja em que a pompa, oca, um pouco estúpida da Academia, haveria de te rejeitar de véspera.
É. Mudei de servidor. Parece que também mudaste. Perdi todos os imeios daquele tempo. E o que me escreveste, em resposta, foi junto. Mas sei: aquilo foi mais que virtual. Foi mais da ordem do humano que da doutrina do homem de letras. E deixa eu ver se entendi: e não é melhor assim? Para poder calar-nos em paz?
Mas hoje, Airton, eu vou pagar uma cerveja. E tomá-la lentamente e sozinho. Pensando em roubar manga no quintal e em São Francisco de Assis. Nas divas do cinema, que também encontravas pelas praças do Benfica. Em Noel Rosa e na Rua Dom Jerônimo. Na Perna Cabeluda e em Chet Baker. Em Freud, em Trótsky e no Baleia, o garçom. Pensando num mundo sem smartphones, mas com tertúlias imemoriais, nas quais os Fevers e o Rei cantam diferentes versões de "Agora, eu sei", para sempre. Nas mitologias que criastes desde a Gentilândia. No glorioso Leão do Pici  que sequer é meu time. E no sereno das madrugadas caindo sobre as teclas da tua máquina

aposentada de pouco.

O Aleph



no futuro, o homem valerá também pelo dispositivo portátil. Ou seja, os smartphones e tablets – ou algo análogo a eles, porém menor, já devidamente ultra-microchipado, não se sabe se já embutido sob a pele – terão de ser aceitos em concursos, avaliações. Talvez consistam em algo tão só tatuado, que você possa tocar de leve, não como se ataca o prurido com as unhas depois de algum tempo e resistência. E terão de ser aceitos, porque se o aluno anteriormente não podia consultar livros durante uma prova, isso se dava em função de não poder portar consigo todos os livros. Quer dizer, os da instituição ou os sobre o assunto em demanda. O caso do smartphone ou do mini-tablet é diferente: ele se propõe como complemento cerrado do pensamento. Se ideal ou não, não vem ao caso. Ele pode conter bibliotecas inteiras, vastíssimas, em muitas línguas, enciclopédias em fila – e não só livros, como também filmes, sons, mapotecas, 3D's, museus de belas artes...E, mais urgente, vai chegar-se ao ponto em que será impossível desfazer-nos deles, por mais que desejemos. Em resumo, talvez haja sido por uma desses que Esaú trocou a primogenitura. Equívocos sempre os há, ao se passar a mensagem, como na brincadeira do telefone sem-fio  que, de resto, agora é real. Mas é também toda cultura material do mundo compactada numa geringonça que ocupa menos área que uma lata de lentilhas em conserva. E se pode levar para onde se for. Como se porta um anel, uma verruga

o próprio Áleph materializado

Real novidade, talento, vida: uma homenagem aos que fazem




fácil gostar de Bergmans ou Cassavetes. Ou, hoje em dia, mesmo, digamos, de Marcelos Gomes ou Caos Guimarães. Mais difícil é gostar de um bando de pirralhos anônimos, que saem para gravar fora de hora. Levam chuvas ou se bronzeiam compulsoriamente. Arriscam perder equipamentos, pois a bandidagem não vacila. E equipamentos, para eles, não dão em pés de jambo. Vão para o estágio ou a faculdade no dia seguinte, morrendo de sono. Não podem contar com muita coisa além de seu próprio olhar; a sede de vontade de, saltando as engrenagens da indústria, oporem um rosto às ruas, gentes, gestos: pedra de toque. um rosto muito diverso da ficção do telejornal ou do documentário da telenovela, do blockbuster...

e ainda tem de ouvir de pais e amigos: estão perdendo tempo. E de críticos, que nunca juntaram dois takes gravados com câmera de celular, a redução a pó de seus esforços, depois de estes vomitarem a lenga-lenga amparada na usual listinha de autores, teorias, dispositivos, em que não vai qualquer real novidade, risco, talento, vida, astúcia, ser vivo

à lucidez de alguns é preferível essa poética falta de jeito e abençoada confusão dos mais novos. Coisas que procedimentos em série ainda não domaram

e, em certos casos, nunca hão de 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Hei De (ou São Tantas Acupunturas Nesta Vida)




gosto quando algo de você ainda escorre pelo ladrão de mim. O gatuno que fui. De hábeis mãos. E então sei que lhe roubei bem. Faz algum tempo. Algum passeio de bicicleta, um beijo, uma esperança. Aquela palavra alada. Talvez riso, cheio de emboabas e emboras. Embora a que eu conheci não ria assim fácil como quando você está em público agora. Ou ocupada em passar pelo fio de agulhas. Ou a tentar fintar as próprias dores. E aparecer menos complexa. São tantas acupunturas nesta vida. E então?

nada dada ao pastelão era você, naqueles carnavais. Fiquem com o pastelão

e eu hei de ficar com você, no instante em que perigar 

um pouco mais

domingo, 9 de setembro de 2012

O Escritor


Valdo Aderaldo, Pádua Pires, este blogueiro que vos fala, e, em segundo plano, Fernando Costa e Gentil Barreira #Sódelombras; em algum lugar dos 90', o grupo que apenas imaginava coisas

não é esta ou aquela foto no Instagram que faz de nós interessantes, mas nossa capacidade de experienciar mais o mundo fora da foto. Ao largo do filme 

(uhmm. É também preciso dizer que não se leva em conta a lógica em si da frase. Pois, no caso, esta frase será cada vez menos verdadeira. Quer dizer, quem não viver intensamente através de fotos, também não convergirá para os outros. não conseguirá viver de fato fora delas. Porque as fotos vem galopando sobre as palavras, faladas e impressas, não é de hoje)

é. em geral, a gente passa batido. um escritor? um escritor olha, reavalia. e então nota que há algo lá que pode ser melhorado. que pode ser dito de uma outra forma. anota a frase e cisma com ela. altera os termos. melhor? repete-a em voz alta. talvez. e cisma. e se pergunta: o quê? o que, meu Deus? seu ouvido-olho sopra-lhe a charada. ele a sente. a frase está no ar. ele pode até sentir sua extensão. a frase, ali, abstrata ainda, sem o sentido das palavras. como uma forma platônica e anterior, que periga. profundamente. mas não. é até antes que platônica. apenas uma duração. uma medida. um som deitado na rede de balanço do tempo. sem qualquer conceito ou sentido anterior. mas também ela ameaça querer escapar. e ir para a casa da mamãe. e fazer jogo duro. até que, enfim, ele chega lá:

não é aquela ou esta foto no Instagram que nos faz interessantes, etc.

A Direção de Arte dos Sonhos




ele se ligava mais na direção de arte dos sonhos do que propriamente no enredo. Afinal, todos os enredos são iguais: uma terra, um trabalho, um conflito, uma mulher. E do jeito que você contar, eles apenas vão ecoar, mais ou menos, dentro da tubulação. Mas, no caso dele, uma intricada rede de túneis e esgotos deixava a Paris subterrânea no desconsolo. O analista ainda tentou que ele contasse histórias. Não contou. Não abriu a matraca. Não teve jeito. Preferiu descrever a ambiência

e entrou pelo cano

sábado, 8 de setembro de 2012

Paranauê, paranauê, paraná



quem não percebe a tendência contemporizadora da cultura brasileira é também incapaz de temperá-la mediante acréscimos e analogias – as melhores das quais, perfeitamente inesperadas. E, logo, ao invés de fortalecê-la, a deprime. Essa tendência para o acordo antes que para a confrontação é tão ampla, que, numa das poucas artes marciais não asiáticas a difundir-se ao redor do globo, a capoeira, os atletas – chamados brincantes ou jogadores – sequer se tocam. Seus pés, mãos, joelhos, cotovelos, passam voando como lâminas afiadas, muito rentes ao corpo um do outro, mas em momento nenhum há toque. A não ser quando se cumprimentam. O resto é movimento. É a vitória da civilização sobre a truculência. E, então, eventualmente na roda, fazem soar juntos os atabaques. A capoeira, ao invés de luta, virou jeito de corpo, coreografia, dança, linguagem. 
Mas também quem só faz atenção aos movimentos, aos ritmos, perde a noção da beleza lamentosa e cheia de chagas que segue entoada nos cânticos e refrões de capoeira. É algo forte como nos blues, onde a tristeza assenhora-se do tempo. E é preciso exorcizá-la. E o exorcismo se dá através dela, remindo-a. E  há melhor forma de fazer isso do que cantando?
Conjugando tudo, essa é a mesma chispa, a mesma energia presente no drible do futebol. A que lega a nossos jogadores aquele plus necessário para improvisar coisas que os outros não acham tempo nem espaço de bolar. Coisas que simultaneamente são de vanguarda e do arco da velha. E eles próprios não estão nada inclinados a separar entre sedimento e novidade. (Essa não vocação para enveredar pelas especiosas comodidades do meta alimenta). Futebol é quase sempre intuição. Se não fosse, não pareceria com vida. Nem seria assim popular.
Mas, em outra instância, se tomarmos o frescobol, esporte de praia criado no Rio, é para notar sua índole cooperativa. Como na capoeira, não há vencedores ou vencidos. Nem mesmo uma competição expressa. Porém ambos os praticantes empenhados numa cooperação. Em reunir-se em torno de algo que, não só é prazeroso, como maior que a individualidade de cada um: o bem-estar físico e mental de ambos. A beleza, a sincronia dos movimentos. E de novo a tal inclinação para contemporizar.
E não há nisso uma sabedoria análoga à do budismo zen?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Regina Duarte, Alice Braga, as brunetes e certo riso nos jardins de outra década




um dia, aí pela década de oitenta a meio, vi Regina Duarte na alameda externa do Theatro José de Alencar. Envergava turbante e óculos escuros, blusa e calças compridas de tons claros, sapatos de salto e uma écharpe. Além daquela auto-suficiência   mansa, não injustificada  de supor que todos a conheciam pelo país afora. (O que, de resto, era absolutamente verdade: haveria rosto mais famoso que o da ex-namoradinha do Brasil, mais ou menos ao tempo em que ela fez a Viúva Porcina?) Só estávamos nós dois. Ela, que reconhecia o entorno, olhou para mim, e sorriu em simpatia. Não falamos nada, apenas nos cumprimentamos

talvez ela haja pensado que eu era um jovem ator local no intervalo do ensaio, da oficina. E não lembro o que eu fora resolver no Theatro àquela altura. Ela estava em seu elemento. Mas nunca lidei bem com esse negócio de puxar conversa com gente famosa, embora naquele dia tenha ficado, algo, tentado. E, todavia, fere meus princípios incomodar alguém por motivos de celebridade. A não ser que sejamos apresentados¹. E, então, ficamos no boa tarde e no tudo bem 

provavelmente foi uma das vezes que cheguei mais perto de um daqueles mitos absolutos da televisão. Carinhoso, a telenovela – a exemplo de umas poucas outras – fazia nossa casa parar, naquele tempo em que a Globo detinha o monopólio da vida e dos corações. E que coisas inteligentes, como Roque Santeiro, iam ao ar no horário nobre. Porém nem todos que escrevem folhetins possuem a desenvoltura de Dias Gomes. E não que hoje não haja coisas inteligentes, palpitantes. Apenas os tempos são outros. E a gente também. E a Globo já não é mais tão monopólica assim

mas agora sabendo que Regina é filha de cearense, posso dimensionar melhor certas coisas. Alguma familiaridade que nos era cara. E não fazíamos ideia de onde vinha. Aquele gargalhar esganiçado, escovado, mais fluido que a de outras atrizes da TV. Um rir à solta, assim meio sem-vergonha, e que soa tão nosso. E, então só faltava ela vaiar do jeito que só nós vaiamos neste mundo. Isso bem que explica ela ser parecida com a menina que sentava a seu lado no ônibus, indo pro Pici. Ou tomava um coco na Praia do Futuro. Ou batia ponto à tarde na Ponte Metálica, numa roda de violões ao pôr-do-sol. Ou tomava sorvete no Juarez. Ou você via passar pelos corredores do Ibeu. Ou entrava numa das lojas de um Shopping Iguatemi recém-inaugurado  e você entrava atrás por mera inércia. Ou envergava um chapéu coco que parecia menos uma homenagem a Chaplin que a Lena Olin. Ou ainda ia a um show do Grupo Budega, no Anfiteatro da Volta. Ou à Feirinha da Praça da Igreja de Fátima. E vestia-se, ainda um pouco hipponga, com aquelas blusinhas artesanais bordadas, e pisava sobre um chinelinho de couro ou sapatilha chinesa. E assim seguia aos festivais da Crédimus. E às sessões de arte no Gazeta

e, por falar em Regina Duarte, é surpreendente a semelhança que há entre ela e Alice Braga. E ambas são muito parecidas com certo tipo de brunete fortalezense, que mescla um bocado de português a um leve delineio indígena. E não por acaso, Alice, que é uma alusão à Regina jovem, fez uma cearense na série As Brasileiras ("A Indomável do Ceará"), da Globo. Algo se ilumina

e essa mistura é pura explosão


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¹Isto, de resto, está no temperamento da família. Como uma regra tácita, que todos seguimos, sem termos acordado previamente. Uma opção por não dar muita trela à notoriedade. Durante as gravações de certa novela da Globo ambientada em Fortaleza, aí pelos 90, meu irmão mais novo fazia graduação. Estava próximo à parada de ônibus e, como estivesse em cima do horário de aula, pedia carona, o indefectível polegar em riste. Selton Mello, que fazia parte do elenco da novela, ia passando num carro, e lhe ofereceu carona. Meu irmão cumprimentou-o. Checou o itinerário. Entrou no carro. E seguiu calado. À certa altura, depois de algumas referências um pouco oblíquas sobre cinema, anúncios, telenovelas, televisão, Selton lhe diz:
–Cara, Fortaleza tem crescido pacas, né?
–É–responde meu irmão. 
–Parece que estão até gravando uma novela da Globo na cidade.
–É o que dizem. 
–Pô, você não vê televisão, meu irmãozinho? – indaga Selton, então um jovem ator, já um pouco desesperado.
–Vejo. Mas, repare, eu vou ter de ficar bem ali na esquina
Meu irmão agradeceu a carona, saltou na Treze com a da Universidade. E foi embora. 
Somos todos assim. 
E não adianta ir atrás de razões.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Breve Antologia da Poesia Cristã




Sammis Richers, do blog Mar Ocidental, recém-organizou uma Breve Antologia da Poesia Cristã, que pode ser baixada gratuitamente ou lida online, na íntegra, aqui. O trabalho reúne autores que vão desde Gregório de Nazianso, patriarca de Constantinopla (séc. IV), até a poeta espanhola Maria Vitória Atencia, passando por nomes imprescindíveis como San Juan de La Cruz, John Milton, William Blake, Gerard Manley Hopkins, Charles Péguy e Paul Claudel, bem como por nomes menos óbvios: Achim von Arnim, Theodor Körne, Ugo Betti, Lucian Blaga e Denise Levertov. O recorte é amplo, ecumênico, como o próprio espírito da cristandade. Para os interessados em conhecer alguns dos mais belos poemas dessa tradição, que bem pode ser posta em paralelo à da música sacra, no Ocidente, a antologia – de caráter propedêutico – vem a preencher bela lacuna e fazer as vezes de um instigante coro de abertura ou preâmbulo. E então, subsistem a fé, a esperança e a caridade. 

Mas a maior delas é a caridade.