terça-feira, 14 de agosto de 2012

"London, London" (como reatualização da “Canção do Exílio”)

Sharon Core, Cakes, 2004

sem dúvida, o verso mais belo diz: “I came around to say yes, and I say”. Há uma assertividade nessa tristeza caetana que é como saber que se provém de algo muito forte, que não é qualquer cultura, mesmo com séculos nas costas e um império onde o sol não morre, que nos vai privar dela. A letra então paira entre a urbanidade, o compromisso e a organização britânicos, numa das margens, e a angústia do transeunte exilado do turbilhão brasileiro de ritmos e mutações, na outra, para criar uma terceira. Mas essa terceira só pode ser percebida, em todo seu itinerário e repercusso, por um falante do português como primeira língua, que também domina o inglês, nem que de passagem. E o resultado, então, é a melancolia serena, à primeira vista resignada da canção transformando-se no manifesto de resistência que ela, de seu avesso, propõe. O mesmo que é, mais e mais, encorpado em ondas a cada vez que repete, à mantra, a aparente banalidade do refrão, que transmuta a solidão do transeunte em algo capaz de ser apropriado por um coro, uma multidão de vozes. (E não deixa de ser irônico que, antes de Jean Charles de Menezes ser morto por um policial, um dos grandes nomes da música pop do país de Menezes haja descrito esse outro policial, que se compraz em ajudar os outros com civilidade, presteza, enquanto o solitário exilado flana como alienígena pelas ruas de Kensington e Chelsea)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Num determinante momento


Yane Marques durante uma prova de esgrima do pentatlo moderno

Num determinado momento da Olimpíada, um pai e sua filha de nove anos assistiam a uma partida de vôlei feminino em um restaurante de Fortaleza. E o pai, visivelmente entediado - ou quem sabe querendo assistir o Brasileirão - tinha de ficar, porque a menina estava tão envolvida com a transmissão que seria um pecado interromper-lhe a torcida.
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Nesta Olimpíada, mais importante do que o resultado geral, foi o fato de um considerável número de medalhas ter sido obtido não só por atletas do Nordeste, mas que fizeram sua preparação sem sair do Nordeste. E, para completar o pacote da boa nova, de serem mulheres: Sarah Menezes, Yane Marques, Adriana Araújo, Juliana Silva¹. E a elas se juntam as garotas do vôlei: Dani Lins e Jaqueline Carvalho.
A auto-estima da região agradece.
E basta revisar o biotipo dessas mulheres de fibra para perceber o fato de o Nordeste ser uma sociedade multiracial e multicultural, em essência. E talvez a mais antiga delas, e não só no Brasil. Onde há espaço e tempo para todas as etnias. E, desde sempre, para a composição entre elas.
Mas tudo isso é só um primeiro indício de como será o país quando superar a barreira das desigualdades econômicas e interregionais: será mais seguro, acessível, viajável, justo, ainda mais composto e verdadeiramente federado.
E, evidente, muito menos presa de estereótipos.


¹Juliana Silva, nascida em Santos, de família cearense, retornou com meses de idade para Fortaleza, onde vive e treina.

domingo, 12 de agosto de 2012

5 breves notas para a próxima copa




ei, publicitários, essa é pra lembrar: quero essas meninas me vendendo carro, desodorante, plano de celular, refrigerante. chega de neymar!
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se é pra insistir, numa equação esférica, errar é o mano, isso eu já sabia, desde a copa américa.
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os meninos da seleção que levaram a prata são dezoito, mais a comissão, o cabeleireiro e o mordomo, fora os presidentes de federação. agora, o que ganharam: não é a mesma prata do esquiva falcão?
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não falo palavrão em vão. mas, olha, seu baitinga, esse vice do brasil com o méxico, puta que pariu. caralho. fela duma gringa. pronto, já saiu. quer mais? vai catar piolho lá em tabatinga.
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neymar cai tanto que fechou com a tim. cai a tarde, janto sopa de aipim. cai a chuva enquanto converso com ela. cai a linha, o rei, o preço do amianto. e o sereno vem caindo. 

só não cai o pranto.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Entre a Coincidência do Romance com a Mítica Telenovela: o Remake de Gabriela (2012)




E esse “sabe não” na nova versão de Gabriela, hein? Soa bem. Como de resto soa a manutenção, praticamente na íntegra, da bela trilha sonora da versão de 1975. E no atacado, até que o registro geral da fala das personagens não está tão desastrado como na maioria das adaptações da Globo. Mas há coisas hilárias.

Pense!”, como exclamação imperativa, que vaza para uma frase mais longa – "pense num texto desalinhado!" – é atualmente algo bastante cearense. Vinda do interior, como o rapaz da canção de Belchior. Mas a  exclamação foi também reconvertida quase numa expressão idiomática da periferia de Fortaleza. Ressignificada. Difundida que foi, justo pelos programas popularescos, de bonecos, da TV Diário. E caiu na graça graças à predisposição anterior do Fortalezense para o rural, o que testemunha bem de onde ele veio e há pouco.  É uma expressão que todo mundo usa, independente de classe social ou grau de escolaridade. Uma espécie de senha gostosa, que só os Fortalezenses dimensionam o quanto vai de humor em pronunciá-la. É também um dos poucos momentos em que todos se encontram, porque não há classes ou etiquetas. E é engraçado ouvi-la na Ilhéus da década de 20 do século passado.
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O remake de Gabriela em 2012 conta com algumas boas surpresas. A direção de arte com externas de Ilhéus à altura da belle-époque não é a menor delas. Às vezes, contudo, a mão carrega um pouco e parece um tanto coisa de um Brasil novo-rico. Onde certa falta de talento há de ser compensada de alguma forma. E é o caso desse Bataclã art-noveau, importado de Hollywood – talvez via o bordel de Nova Orleans ao tempo de E. J. Bellocq tal como remontado em certo filme de Louis Malle (Pretty Baby, 1978); e, assim, surge tão desmedidamente suntuoso, que lembra o Theatro José de Alencar. 
No mesmo rumo vão os interiores das casas dos coronéis, que talvez ficassem melhor num meio termo entre o despojamento da versão de 1975 e o fausto, estilo império, da versão atual.¹ Nem o mais rico e envernizado coronel de Ilhéus teve casas assim profusamente decoradas, nem semelhantes civilidades à mesa, como quando a família Bastos se reúne à refeição. Eles eram homens toscos e sanguinários. Sem qualquer refinamento. Novos-ricos, pesados e grosseirões, muito mais aptos a portar uma Winchester que uma Parker. E, no entanto, extremamente leais e devotados entre si e a uma certa ética da vassalagem. O que os humaniza também contrasta com essa truculência-ambiente de potentados medievais ou donos da lei, emprestando-lhes factibilidade e voz corrente. Na atual versão, o carinhoso desvelo dedicado pelo Coronel Ramiro à neta parece ilustrar bem essa complexidade. Mas é uma gota d'água de contradição num oceano de unilateralidades.
Já no elenco, uma das melhores surpresas é Giovanna Lancellotti como Lindinalva, a filha dos donos do armarinho que acaba no Bataclã após ficar órfã. Há uma força interior nessa atriz, um salutar minimalismo de expressão, que contrasta com o mise-en-scène mais carregado dos atores brasileiros em tendência. Ou com o exagero na caracterização das personagens. E, então, ela se transfigura com inusual facilidade. O que aponta para um talento dramático como não se encontra todo dia. Vanessa Giácomo, à sua vez, propõe uma Malvina suficientemente corajosa, digna: no meio-termo entre a personagem do livro e a neurótica Elisabeth Savalla da versão '75. E há nela uma alegria que transcende a unilateralidade programática da menina rebelde. Mas se ambas, ao lado de Marco Pigossi (Juvenal), Rodrigo Andrade (Berto) e Luiza Valdetaro (Gerusa) compõem bons perfis de nordestinos da orgulhosa elite cacaueira – vividos muito curiosamente por esses jovens atores sudestinos, descendentes de imigrantes recentes – alguns veteranos não estão tão bem assim na foto eletrônica.
É o caso de Wilker como o Coronel Jesuíno. O ator cearense, que foi um excelente Mundinho, na primeira versão, insistiu, na contramão desses jovens, numa pesada caricatura. E deu com os burros n'água. Não é o único. Quase todos os veteranos, incluída a Dona Sinhazinha de Maitê Proença, seguem nesse rumo que indica um excesso de estereótipo. Uma condescendência geral em relação à ruralidade e rudeza – de costumes, mundividências – dessas personagens, e que acaba reduzindo-as à franca indulgência ou ao paternalismo de um julgamento posterior. Wilker chegou a declarar que ri bastante interiormente toda vez que diz a Dona Sinhazinha: "eu vou usar a senhora". Pois é exatamente como o seu Coronel Jesuíno, de fato, surge: um pouco ridicularizado pelo ator. Certa sutileza básica, aqui, anda em demanda, pois o importante é ressaltar sem intermitência, a qualquer custo, o máximo possível, o lado machista, patriarcal, irascível de Jesuíno. Ainda que isso custe também a sua condição humana. E o que resulta desse pré-julgamento sumário, sempre com uma careta no rosto, não passa de um vilão plano, que parece já haver matado a mulher antes de haver matado. Não uma personagem, uma personalidade complexa ainda não julgada e condenada por quem o interpreta.  E o interpreta a partir dos parâmetros e de uma ética de quase cem anos depois. Uma distância assim parece facilitar bastante as escolhas. Não há muitos remorsos e hesitações.
Esse estado de coisas impregna quase toda a malta dos coronéis. Toda ela encarnada por atores de grande fôlego, aliás, como Nélson Xavier (Coronel Altino) ou Chico Diaz (Coronel Melk). E, no entanto, mesmo a um ator acima de qualquer suspeita como Ary Fontoura (Coronel Coriolano) falta certa rudeza sem empréstimo, certa ruralidade ainda presente em Rafael de Carvalho, o Coriolano da versão de 1975. Fontoura é demasiado urbano para um coronel. E o esforço de sê-lo atira à caricatura a personagem. E, então, os outros todos coronéis assomam um tanto como gente da cidade tentando, por força, soar rural. E o ponto alto disso é a empostação de voz do Coronel Amâncio (Genézio de Barros), que é pura charge, estereotipia, modelo, tipo – e onde não se acha de fato, o homem, o humano, tal como ainda está lá no Amâncio vivido por Castro Gonzaga, trinta e oito anos antes. 
À cabeça de todos, o Coronel Ramiro Bastos, numa caracterização excessivamente alusiva ao falecido Antônio Carlos Magalhães², ficou a cargo de Antônio Fagundes. E Fagundes não se sai mal – como aliás não se saem inteiramente os demais coronéis. Mas no caso de Fagundes há um prejuízo, sem contorno: o de ser comparado a Paulo Gracindo. 
Jorge Cherques fazia o Padre Cecílio com mais postura, em 1975. Talvez sem as neurastenias um pouco efeminadas do atual (Frank Meneses), que, outrossim, não estariam mal, não fossem tão ressaltadas. Maria Fernanda punha mais da sensualidade revisitada das meias-idades na sua Dona Sinhazinha. Mas também um pouco de sutileza, fantasia, algum mais amplo devaneio, vida interior. Paulo César Pereio era um príncipe Sandra malandro sem fazer esforço. E precisava? E só a voz do velho Dr. Ezequiel (Jayme Barcellos) iria fazer qualquer novo Dr. Ezequiel preocupar-se bastante com factibilidade e performance. E havia ainda uma Zarolha a cargo de Dina Sfat, uma deliciosa Glorinha  ingênua, solícita  nas mãos de Ana Maria Magalhães, e um professor Josué a cargo de ninguém menos que Marco Nanini. Todos de uma sutileza inoxidável. Mas também de uma inocência transgressora, que queria rachar com aquele tempo de mordaças.
E, aqui, chegamos ao ponto xis de nossa tese: o sucesso da versão de 1975, se deve a uma estranha coincidência entre personagens e elenco. É como se as personagens do romance tivessem encontrado nos atores dessa primeira versão da Globo seus tipos ideais. Suas carnes e ossos. Tivessem saltado das páginas do romance e achado uma vida nesses atores, pois há algo tão expressamente da ordem da coincidência instalado na adaptação dessa história da vida privada – passada na província, polifônica, panorâmica tanto quanto o Amarcord de Fellini – que quase qualquer ulterior adaptação estaria votada ao fracasso por comparação. Depois dela, impossível não identificar personagens e atores. Eles se fundem. E fundam a grandeza desse folhetim televisivo que conheceu também em Portugal uma popularidade avassaladora:


A “Gabrielomania” espalhou-se pelo país e poucos escaparam. A Assembleia da República encerrou mais cedo para que os deputados pudessem acompanhar os últimos capítulos. Álvaro Cunhal atrasou-se para um programa de televisão por ter ficado a assistir a um episódio. O então primeiro-ministro, Mário Soares, confessou ao Sunday Times que gostava de ver Gabriela. E o fenómeno do Brasil tornou-se notícia em Portugal.
[do Blog O Jornaleiro]


E, então, o mérito dos atores, na atual versão, segue por saber aplicar-se convenientemente à proposição de tipos que, quase por um dever de ofício, devem manter-se num tênue equilíbrio entre os personagens do livro e pelo menos uma menção honrosa à encarnação deles na telenovela de 1975. Não é fácil. Mas alguns conseguem. E chega a ser surpreendente que, em geral, sejam os mais novos.
O Tônico Bastos de Marcelo Serrado, por exemplo, não tem os mesmos maneirismos, dengues, tibieza, sobrancelhas, caprichos e covardia daquele impagável Tonico de 1975. E, ainda assim, funciona a contento. E justo por propor-se a meio-caminho entre o Tonico da letra do romance de Amado e o da encarnação de Fúlvio Stefanini. O mesmo se pode dizer da Dona Marialva atual. Bel Kutner sabe explorar o estreito espaço que há para representar a esposa do truculento Coronel Melk: assustadiça, submissa, empenhada em conciliar marido e filha; mas ainda assim com algumas veleidades, aspirações, memória. Como a de ela própria, em solteira, haver lido O Crime do Padre Amaro. Afinal, só quem provou um pouco de liberdade pode, de fato, sentir sua perda.
Mas há no remake problemas sérios. Especialmente com Gabriela e Nacib, os personagens mais centrais da trama. Eles saem excessivamente maltratados dessa relação de analogia. E em algum ponto fica evidente que a camaradagem entre a Gabriela e o Turco na versão atual – apesar da maior intensidade das cenas eróticas – não consegue repor algo do fascinante frescor, da jovialidade e da cumplicidade forjados por Sônia Braga e Armando Bógus na versão de 75.
E a ausência dessa aurática sensualidade se dá por duas razões. E vendo de perto ambas tem a ver com carisma.
Primeiro, porque o Nacib de Humberto Martins é excessivamente apalermado, hesitante, sem muita iniciativa. Ora, só o que não faltava era inciativa a esses astutos sírio-libaneses do Nordeste, comerciantes espertíssimos. A lábia deles, aliás, assim como a proverbial avareza, está documentada em páginas saborosas de escritores tão diversos entre si quanto Gustavo Barroso (crônicas, memórias), Gilberto Freyre (ensaio sociológico) e o próprio Jorge Amado (romance). Além de se dar, por sinal, justo por contraste entre certa aparente falta de jeito ou bisonhice de estrangeiro, mas que, na realidade, traveste uma astúcia como não há na praça. A velocidade com que esses libaneses e sírios fizeram fortuna é antológica. E responde pelo poder que amealharam em poucas décadas, ao longo do séc. XX. E em estados como o Ceará, caso expresso da família Jereissati (Grupo Iguatemi). Mas também de toda uma numerosa comunidade que situa-se, hoje, no centro nevrálgico da elite comercial, industrial e entre os profissionais liberais. Eles estão por todas as regiões do país, destacando-se sobretudo na Amazônia, no Maranhão, na Bahia, além de, claro, em São Paulo e no Ceará. Nacib é o bisavô desse pessoal todo. E o próprio Jorge Amado vai voltar ao tema dos libaneses e sírios num romance dedicado mais estreitamente a eles: A Descoberta da América pelos Turcos (1994). Afinal, por "turcos" entenda-se esse vasto contingente de imigrantes do Oriente Médio, muito mais composto por libaneses, sírios e até mesmo armênios, do que propriamente turcos.
A presença deles, de outro modo, faz-se sentir de forma marcante também em nossa literatura, com autores da importância de Raduan Nassar (Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera) ou Milton Hatoum (Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos).
E, então, chegamos à Gabriela de Juliana Paes. E nela esse equilíbrio é ainda menos acatado. E não por uma questão de tipo físico, pois vinda do interior, a morena de Amado muito possivelmente tendia mais à mameluca ou cafuza do que à mulata do litoral. E o tipo físico mais pendendo ao indígena de Juliana Paes, não está mal. E porém a idade demanda decididamente uma atriz mais jovem. Afinal, a morena, no livro, não é mais que uma pixota, como se diz: tem 16 anos! É pouco mais que uma Lolita – embora não para os padrões daquela época, em que uma menina de 16 anos já andava atrás de casar, se já não estivesse com filho pela mão, e mais um na encomenda. Juliana Paes faz Gabriela aos 33 anos. Sônia Braga, aos 24. Como esperar que quase dez anos não pesem?
E, assim, bem se pode supor a que se deveu, em larga medida, todo o fervor da versão de 1975: o de haver recrutado para protagonista uma jovem atriz, praticamente desconhecida do público, e que era "diferente" por ser mais familiar.³ E que, por conta disso, se constituiu também no primeiro caso de protagonista na televisão brasileira, cuja beleza não era um mero decalque do tipo de beleza à europeia. Especialmente da mediterrânea, da germânica, da portuguesa. Mas, do contrário, um documento vivo de nossa miscigenação. Ou mesmo uma celebração triunfal dela. Assim foi essa primeira Gabriela. Ela era não só a mulher que, com sua beleza e sensualidade mais desabusada (embora espontânea), desafiava uma época de pesadas censuras (aqui como em Portugal, que recém-saía de décadas de salazarismo), mas era também - e sobretudo - a que encontrou em Sônia Braga sua coincidência.


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¹ Na verdade, a versão de 1975 segue-se a uma pioneira adaptação para televisão produzida em 1961 para a TV Tupi e dirigida por Maurício Sherman. Mas, ironicamente, para canonizar ainda mais a versão de 1975, as cópias dessa pioneira adaptação foram perdidas num incêndio que destruiu parte do acervo da antiga Tupi. Trazia Paulo Autran no papel de Tonico Bastos. E, aqui, não deixa ainda uma vez de ser interessante essa disposição: uma quantidade considerável de atores ítalo-paulistanos ou descendentes de imigrantes europeus mais recentes, representando nordestinos nas três versões realizadas (Autran, Stefanini, Savala, Sfat, Giácomo, Valdetaro, Pigossi, Orciolli, Linzmeyer, Marmo, Lancellotti, Rizzi, Richter, Kutner, Cavalli, Castelli, etc.)
² Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), ex-senador da república e governador da Bahia, vulgo Toim Malvadeza. Deu as cartas na política baiana por décadas. Não era, diga-se de passagem, da região de Ilhéus, mas de Salvador. Tampouco era do tempo de Gabriela. Magalhães foi uma espécie de vice-rei de um Norte já um tanto mais amodernizado, como antes dele o foram, a seu tempo, Juarez Távora e, de modo já mais restrito à Bahia, Juracy Magalhães (não o ex-prefeito de Fortaleza, mas o integrante do movimento tenentista. Ambos udenistas e, de resto, mais ou menos contemporâneo dos sucessos de Gabriela, o romance, só que em outras latitudes). Essas caracterizações, decalcando de políticos regionais, contudo, não deixam de ser perigosas. Por reforçar, por exemplo, o estereótipo de que "o coronel", truculento e corrupto, só existe em seus desdobramentos históricos no jogo político do Nordeste, quando na realidade ele encontra herdeiros por toda parte. Impregna o país como uma praga. Por todas as regiões e estados. Da Fiesp à aldeia indígena, passando pelos departamentos universitários (não menos os de esquerda - que produzem o discurso que "analisa" e "'interpreta" o fenômeno do coronelismo), bem como pelas ONG's, ambientalistas ou não...E não se desconhece que alguns dos políticos mais suspeitos da história recente do país são do Sudeste e do Sul, como os paulistas Paulo Maluf (aliás, descendente de libaneses), Orestes Quércia, José Dirceu, ou alguns dos que passaram recentemente pela prefeitura de Campinas; os cariocas Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, entre muitos outros, ou a crônica ligação da Assembleia Legislativa do Rio com a contravenção e o tráfico. Além de escândalos de corrupção envolvendo diversos caciques políticos do Sul; a exemplo do caso do PRTB e do Banestado, no Paraná. Se fossem devidamente apurados e noticiados, provavelmente se constataria que os maiores escândalos políticos e esquemas de corrupção estão, de fato, onde está mais concentrado o poder e a riqueza: o Sudeste e o Sul do Brasil. Não são predominantemente do Sudeste os envolvidos no escândalo do mensalão, ora em julgamento? Porém, como esses estados também detêm o controle da mídia nacional, não custa nada transferir ao Nordeste, "subdesenvolvido", também esse ônus...Ou uma espécie de "exclusividade" ou "quintessência" dele.
³Desconhecida do público adulto, mas não da meninada, pois trabalhava no emblemático Vila Sésamo, junto com Aracy Balabanian e o próprio Armando Bógus, que, depois, faria o turco Nacib. Em Vila Sésamo, no entanto, a personagem de Sônia Braga plasmava ainda algo mais da ordem da menina, ou da irmã mais velha. Apesar de carismática, não irradiava ainda toda sensualidade de Gabriela. 

NOTA POSTERIOR
Ainda na versão de 1975 há também um dado curioso: Wilker, nordestino, faz um carioca (Mundinho); enquanto os sudestinos fazem os nordestinos, e uma sulista faz Gabriela. Essa circunstância dialética, de um nordestino fazer um sudestino e os sudestinos nordestinarem-se, também tem algo a ver com o fato dessa telenovela de 1975 ser tão sintética. Quer dizer, poder ser vista como uma síntese alegórica da sociedade brasileira. Especialmente em dois aspectos, os quais essa sociedade só vai dar atenção algum tempo depois: as relações interregionais e a questão da mulher. É certo que Sônia Braga é paranaense. Mas há em Sônia Braga uma encruzilhada de mulheres. Ela parece com muita gente ao mesmo tempo. E em muitas partes: a Norte, a Nordeste, a Centro e a Sul. (E parece com o que essas gentes têm de melhor: a beleza, a espontaneidade, a sensualidade, a astúcia, a alegria. E naturalmente, ao parecer com tanta gente, ela também é única).

domingo, 5 de agosto de 2012

Ídolos, Cobertura & Medalhas, Medalhas, Medalhas




O fraco desempenho da delegação olímpica brasileira tem gerado polêmica nas caixas de comentário. As reações seguem desde certo ceticismo ponderado (e, por vezes, até bem-humorado), até defesas ferozes ou sentimentais dos atletas. Mas há também aqueles que, ao modo de patrões ou feitores ou consumidores insatisfeitos, os detratam e xingam até a terceira geração. Como se pelo plano fato de perderem houvessem se convertido em seus inimigos pessoais. E com uma amargura, uma intensidade, um ressentimento que faz a gente adivinhar como deve ser existir dentro do esqueleto de quem escreveu isso ou aquilo. E por supostamente estarem pagando, como contribuintes, pela preparação dos atletas – quando, em não poucos casos, houve investimentos privados ou do próprio bolso ou do bolso das famílias. E mal se tem dimensão dos sacrifícios e esforços necessários para se chegar a uma final olímpica.
No mínimo, no entanto, algo faz sentido: i.) o Brasil leva um excesso de atletas para a modesta cifra de medalhas conquistadas ou a crônica dificuldade de chegar às de ouro. Também ii.) o COB deve orientar melhor a moçada sobre o que dizer em caso de muita expectativa e igual fracasso. Para que se evitem declarações pueris. Como a de Fabiana Murer, que foi glosada e gozada à exaustão na Tia Nete: "foi o vento".
Mas, se sentirmos melhor, muita coisa tem sido "vento". E, com certeza e muitos oras bolas depois, boa parte desse inflar as chances reais de um atleta para atrair a curiosidade do público vem da imprensa. Logo, iii.) a imprensa deveria ser mais clara quanto às reais chances dos atletas brasileiros em cada modalidade. Para que se evitassem frustrações advindas de esperanças sem lastro.
No entanto, não  bem é isso que ocorre.
Muitos jornalistas confundem realismo com pessimismo ou “torcer contra”. Informar que as chances de êxito são limitadas ou mínimas, quando o caso for, não mata ninguém. Ou compromete performances. 
Não mata, mas tira audiência, que é justo o que os patrocinadores – que estão se lixando para o tal “espírito olímpico” – desejam evitar a todo custo. 
O começo da campanha olímpica brasileira em 2012, com três medalhas no primeiro dia, inflou ainda mais esse falso estado de coisas. Todo mundo ficou ligado, pois pela primeira vez o Brasil liderou o quadro de medalhas. Talvez por menos de três horas, o rolo compressor chinês não dorme no ponto.
Mas uma semana depois, em termos de medalhas de ouro, prosseguimos somente com a conquistada pela piauiense Sarah Menezes ainda no primeiro dia. O que, aliás, gera estranho ranking interno: 1º lugar: Piauí, 1 ouro; 2º lugar, Resto do Brasil (São Paulo incluído), 0 (Zero) ouros. Necas de pitibiribas de ouro. E não poucos favoritos – Cielo, Murer, Scheidt, Camilo, o triplista Mauro Vinícius da Silva, o boxeador Everton Lopes, alguns judocas e tantos outros (judocas ou não) – ou nada ganharam ou não passaram do bronze. E isso não é o bastante.
Especialmente para um país ávido por ídolos. E que os encontra  com desesperado furor  até nessas rinhas de MMA, esporte que só cresce por aqui porque há brasileiros ganhando. Afinal, depois de Senna, os pilotos de Pindorama na Fórmula-1 – Barrichello, Massa, Nelsinho Piquet, Bruno Senna – foram medíocres. E seria ingenuidade pensar que teríamos, em breve prazo, no tênis, outro milagre como Guga. O basquete, que era nosso segundo esporte até a década de 80, felizmente conseguiu retornar à Olimpíada. Porém depois de longo hiato. E de haver perdido em importância e excelência. Além de, nos últimos anos, testemunhar uma indigesta hegemonia argentina na América do Sul. E para complicar de vez, não ganhamos nada digno de nota no futebol faz duas copas do mundo. E, nesta olimpíada, o vôlei de quadra (escape mais imediato do futebol) não começou bem. E o próprio futebol escapou fedendo de ser desclassificado por...Honduras. (Quem te viu!) E ainda que sua principal esperança para 2014, Neymar, pessoalmente pareça estar mais interessado em gravar anúncios, coreografar comemorações ou achar um novo corte de cabelo à moda dos anos 80, que propriamente em jogar bola. E, convenhamos, Mano Menezes não é treinador para a Seleção. E a atitude geral, pragmática, meio vigarista, mandriã, excessivamente malandra, vantagista de nosso futebol, não anima muito. E, recovenhamos, lugar de futebol – ao menos em sua milionária versão masculina – não é nos jogos olímpicos.
Nesse sentido, o de uma certa honestidade básica para com o telespectador/leitor/ouvinte, não vi comentário mais preciso que este, de Antônio Alonso, que cobre a vela para o UOL Esportes:


Para quem gosta de curiosidades e bizarrices das regras, eu preciso informar que há uma chance de Bimba ser medalhista. Isso pode acontecer se nenhum outro velejador conseguir largar na Medal Race, na terça-feira. Se eles "faltarem" à largada, a medalha fica com o brasileiro. Agora, se eles comparecerem, e desistirem logo após largar, Bimba fica mesmo com o nono lugar.

É isto.

Um jornalista mais dentro do padrão geral da cobertura, provavelmente – em nome dos patrocinadores, da audiência, do circo montado pela imprensa – iria dizer apenas: "o brasileiro tem chances de medalha". 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

brinde de um advogado poeta




a toda forma de amor entendida como tal pelas partes envolvidas, uma louvação. da mais sagrada à mais profana. da mais gentil à mais sacana.

domingo, 22 de julho de 2012

Como quase sempre em casos assim




havia outras garotas, do meu tempo, que eram mais parecidas com a daquela foto em que Helô Pinheiro não parece consigo. E, no entanto, mais do que não parecer com a Helô Pinheiro adulta, a adolescente da foto – de um modo bastante decidido – não é a Helô Pinheiro adulta

ela até parece mais com M. Uchôa, por exemplo. Uma garota do terceiro ano do secundário, lá do meu colégio. Ou pode ser tão prototípica como a garota da praia que o roteirista obcecado e surtado enxerga, por mise-en-abîme,  no desfecho de Barton Fink, o filme dos Coen

explico

a garota de Ipanema, como ela é uma geração adiante , sempre foi uma senhora de Ipanema, para mim. A exceção é essa foto de época, em que nem por sombras ela – de cabelos escuros, pernas trançadas, lendo uma revista na praia, o contraste entre o acobreado e o pálido na dobra superior dos seios, envergando um daqueles biquínis de talhe antigo, num allure e numa graça que não faz prefácio a qualquer balzaquiana de cabelo tingido, ou mesmo se importa em ser ou não inspiração para seja qual for canção de sucesso ou o escambau – se assemelhava com a senhora que nos era apresentada na TV. Nada da Helô Pinheiro posterior pôde macular essa garota inicial. E, logo, meio em piloto automático, também jamais assimilei a garota de Ipanema àquela senhora

seria uma espécie de desserviço à canção. (E principalmente à garota) 

como quase sempre em casos assim 




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"Garota de Ipanema", a canção, está fazendo 50 anos. E Heloísa (Helô) Pinheiro, a garota que a inspirou, 68. 


sábado, 21 de julho de 2012

Condomínio Eurídice




um oceano com alzheimer, querido: plácido, sem ondas, ideal para se brincar de nadar ao modo do tanque na fazenda dos avós. pés ante pés de água esquecidos das terras que lamberam, das quilhas que os chagaram. e onde não foram bem-vindos, a sandália da onda enxotou da sola qualquer resquício, para que não se misturassem os sóbrios e os insanos sob as mesmas árvores à praia. mas agora, que a sombra e o corpo têm algo em comum - a temperança, o riso - evade-se do esquecimento à crista rubra da onda, sob a primeira réstia, um nome (qual mesmo? - ela indaga) enquanto o galo escava o dia com a aspereza de esporas.
*
Às vezes, ia até o pequeno apartamento dela sem nenhum propósito. Era raro.
Deitava-se um pouco. Sentia o cheiro dos panos. Remexia nas gavetas: cartas, postais, fotos. E deixava as coisas numa perfeição incondicionada: copos e pratos lavados, cortina semi-cerradas. Exatamente como quando se encontravam, em outro dia da semana, e a presença dela.
A noção de tudo estar no lugar sob a penumbra, bem vincado nos armários. O aroma de imaculada ordem, limpeza. Mas também de algo indizível: uma espécie de cheiro de mulher ambiente.
Certa tarde, após um almoço de negócio e uma dose com amigos, largado na poltrona, o nó da gravata lasso, revirava um livro com a caligrafia dela nas observações, e uma flor aromática desidratada, em cheio, nas costuras. O disco na vitrola revirava trompetes. O trânsito a seguir ao largo, tenso, muito lá abaixo e branco. Embora às vezes reverberasse tênue, nos vidros da janela.
Foi quando a fechadura deu o alarme. Ele estava na própria saleta, sem sapatos. Convulsionou-se e ergueu-se a meio. Ligeiramente tonto. Sabia, não podia ser a faxineira. Mas de lá não arredou: respiração entrecortada; olhar longo, de flagrante, rumo a porta.
Porém não era ela, senão uma jovem loira, abundante - uns dois anos a diferença? - ligeiramente sobremaquiada.
Tomaram café no balcãozinho da cozinha. Virados para os azulejos da parede. Uma nesga de cidade doze andares lá fora.
A loira, casada, era amante do atual marido da inquilina. Eles eventualmente encontravam-se por lá, também. Do mesmo modo que eles outros. Quase no mesmo horário deles outros. Só que em outro dia da semana. Não deixava de ser conveniente, ponderaram.
Enquanto enxugavam a louça, riam muito daquele inusitado arranjo.
Propiciado, no caso dela, pela prontidão com que uma mensagem no celular cancelara o rendez-vous aos quarenta e cinco do segundo. E, então, ela que já se encontrava no quarteirão, resolveu subir, pousar um pouco. Tomar um banho, um café.
Riram muito daquilo tudo.
Depois foram para a vasta cama, que ocupava o quarto quase inteiro, e na penumbra urdiram surpreendentes núpcias.
Eles, os outros.
Ela apreciou bastante certa carícia. Embora não tenha confessado que já a havia praticado. Uma única vez. Faz tempo. Em outra cidade.
Talvez. Talvez tivesse contado em um tempo mais para trás. Na idade deles, quem tem mais disposição para contar detalhes? Podem ser tão pequenos, embora sejam bem ao contrário. E, contudo, parece que é melhor vivê-los avidamente:
-E o que seria da gente: se não esquecesse, lembrava? - ela disse. E penteou, prendeu o cabelo, retocou o batom com uma rapidez surpreendente. Parecia suave, profissional.

Levou de lembrança o pequeno chaveiro, com a estrela endentada na meia-lua. 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Peter Pan da Bárbara de Alencar


Georgia O'Keefe

Estudou no Renato Braga, embora não fosse mudo. Muito menos surdo. Havia uma classe lá para exceções assim. Meninos precoces, de famílias pobres, que pegam no breu e coisas no ar. Que jogam bola no ar. E ouvem falar antes que se abra a boca. Ou o galo cantar ainda no ovo. Que aprendem libras apenas por garantia. Que caem nas graças da primeira-dama, que a vez que ainda passa na rua - se ainda passa - lembra de perguntar por eles. E colhem maduro o jogo verde. E o multiplicam por cem, e cento e cinquenta. E não nasceram ontem, apesar de cheirarem a cueiros. Que parecem estar sempre a andar na tênue corda bamba entre o imponderável e o que pode dar certo. Muito certo. Talentos assim não se permitem ser ignorados.
*
A rua sabia: o menino podia dar muito certo, entanto às vezes tivesse lá seus tiques. Ladino, a ponto de, na contramão dos outros, não passar umas poucas de vezes pela DP depois de maior. O apelido, herdou da personagem mais notável dos Trapalhões. E, não bastasse, era bem apanhado.
Depois, ao que parece, fez boas amizades. E, antes, isso inclui ter tirado casca de todas as meninas num raio de três quadras da casa da mãe, com a possível exceção de uma coxa. E, dizem, de uma epilética – mas aqui não há certeza. E uma fama assim sempre fica, como se diz. Para bem, para mal.
E ficou. E ele não achava ruim. Nem elas.
Eles, às vezes. E isso, evidente, não sai na urina.
Também jamais saiu dessa mesma casa da mãe. Nem quando serviu o exército. “Agora sai”, disseram as vizinhas. Debalde. Não saiu nem quando a polícia andou atrás do irmão, e, comentam, podia ter sobrado feio para ele. Pior, nem depois que casou. Nem que descasou. “Não sai nunca mais”, disseram as vizinhas. Depois casou de novo. E ainda separou mais uma. E foi aí que comprou a velha Belina que todos faziam pouco, mas foi um dos primeiros carros do pessoal da rua. E, então, naquela Copa do Mundo do Japão, veio uma outra – loira tingida – que era menos ciumenta. E foi ela quem ficou com ele. E ele mal havia batido na porta dos trinta.
Emparelhado a isso tudo, a melhora da família veio zunindo. Como carretilha pegada na veia, Praia dos Diários afora. Ele desencavava coisas, mas quem administrava era o irmão: mais velho, dissimulado. Menos sutil nos métodos.
A casa ganhou muro alto, segundo piso. E isso pouco antes de vazar-se para a vizinha. E logo depois dos anos Lula, vieram a ampla churrasqueira, a piscina e o deck no quintal, e até uma dessas pickups com wifi onboard na garagem. Geringonças eletrônicas para todos os gostos, smartphones, e um gosto musical que, além das bandas de forró com nomes culinários, incluía a OfficialAdelle, devidamente adicionada à sua conta no Twitter.
As festas de Carnaval e São João visavam a casa dele, ano após ano, como a mosca marca o mesmo ponto no rosto quando se está refestelado no sofá após a feijoada. Ali, naquela quadra rente ao Ginásio, rumo do Centro, a casa dele era a Terra do Nunca, a capital da folia. E tome a chegar vereador. E, uma vez, até um superintendente de Regional. Verdade que não ficou hora e meia.
Nesse dia, ele fez discurso ao microfone. O desembaraço não é seu fraco. E embora já tenha passado os quarenta, surpreende pela jovialidade da aparência, a profusão dos planos. O tratar bem todo mundo.
Não é preciso muito mais que isso, umas poucas de promessas, e visões não só para si, porém abarcando três quarteirões de gente. Lúcidas? Sobretudo, se ditas com firmeza por planos não tão aéreos. Sim, lúcidas. A dizer chega. Talvez demais. Certezas de que o futuro exatamente daquele jeito vai chegar. Melhor. Mais asfaltado, mobiliado, amplo. Com um puxadinho aqui. Um sotãozinho acolá. O ajeitar a aposentadoria da Maria do Dozim. Providenciar a instalação de TV a Cabo para os meninos da república. Mais outras gambiarras. E sem depender de bingos ou rifas ou quermesses. Nem uma carreira a menos.
Agora os caminhões volta e meia estacionam na porta de casa. E os filhos é que cuidam dos negócios que ele tem, dizem, com gente do Mato Grosso. Mas, então, apesar de já ter netos, Dona Ercília e as outras senhoras ainda chamam ele de “o menino”. E ele lhes toma a benção com a compostura que falta aos outros. E as senhoras, gostosas, gabam-lhe delicadeza e educação.
O embaraço não é seu forte, embora quando fica mais excitado costuma afogar a voz num acesso de pigarros. E, se a situação é mesmo tensa, os pigarros vão-se intercalando por lapsos cada vez mais breves, e serrando-lhe as palavras em meias-palavras. E elas, às vezes, não bastam.
E foram esses pigarros o que se ouviu, um pouco ao largo de onde quer que se ouviu, rapidamente, ontem de manhã –  uma manhã de julho: fresca, desanuviada   – antes que as motos disparassem, no rumo do Centro, após os tiros. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Ao fim de duas boas prosas


Gaetan Henrioux

Nesta primeira metade de 2012 se foram Ivan Lessa e J.D. Salinger.
[Para mais de Salinger em Afetivagem, AQUI]

Ivan Lessa era a garantia de que se a semana seguia pouca inspirada nas crônicas, tínhamos um diferencial. Uma espécie de porto seguro. E, então, era se atacar para o site da BBC Brasil, e ler a crônica de Lessa. Ele foi dos colaboradores mais destacados do  Pasquim, e um conhecedor de literatura como poucos, embora ao estilo antigo - ou seja, sem dar bandeira e amedrontar o leitor ao sublinhar isso a todo instante. Nos últimos anos, aliás, Lessa era pura nostalgia de um Rio que existia só nas décadas de 50 e 60 de sua memória. Um ambiente cortado por sambas-canções e bossas, cigarros, doses de uísque, boutades de Antônio Maria, performances de Dolores Duran ou do Tamba Trio; e algum existencialismo tropicalizado, glosado em meio a penumbra de uma boate Zona Sul. Um Rio que ele provavelmente pintava mais belo do que foi, desde uma Londres cinza e distante. Mas quem ia reclamar?
*
J. D. Salinger, esquisitão, recluso, provavelmente teve mais publicidade na sua morte do que gostaria. Se ele era um freak, ou uma espécie de Greta Garbo da literatura, para que entrar no mérito? Seu único romance (O Apanhador no Campo de Centeio) e seus parcos volumes de contos falam amplamente por si. Falam do estilista ímpar que foi. Ele atravessou décadas como um dos autores favoritos dos escritores mais proeminentes dos Estados Unidos. Mas foi igualmente um enorme sucesso de público. Richard Yates – de quem falamos AQUI – caracterizava Salinger como “um homem que manejava a linguagem como se esta fosse pura energia belamente dosada, e que sabia exatamente o que estava fazendo em cada pausa, assim como em cada palavra”. ["a man who used language as if it were pure energy beautifully controlled, and who knew exactly what he was doing in every silence as well as in every word"].

And that is it.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nota sobre Flusser e o Twitter



Flusser e a Feira do Efêmero
-Flanagem sobre a função do humor, do lúdico e de sobretons de fantasia e barroco em Flusser

O que Flusser pensaria do Twitter? 
Provavelmente nada. Flusser teria deixado a análise do Twitter para os doutores da vez. Ou seja, para aqueles seus contemporâneos que apenas se limitavam a macaquear seus agudos insights e aplicá-los sobre as realidades mais aparentes do aqui e do agora. Ele mesmo estaria mais ocupado com formas de comunicar que ainda nem suspeitamos – e das quais o Twitter, entre outras redes sociais e outras modalidades de passagem de informação em público, não constituiria mais que um indício. Ou seja, um pretérito recente de algo que estaria ainda mal esboçado. Então, somente como esse pretérito recente de algo ainda mal esboçado é que o Twitter entraria em consideração, como elemento acessório, a ser investigado pelo autor da Filosofia da Caixa Preta. Não pelo que constitui em si.
Há algo em Flusser – como aliás em Benjamin – da tradição judaica do profeta. Flusser possuía a nobreza de se reservar assuntos ainda pouco tocados. Mas mesmo quando debruçava-se sobre temas da circunstância, os transfigurava pela força de seu ponto de vista, sempre voltado para a aventura da prospecção. E então, era como se esses assuntos, esses temas fossem vistos com olho de raio-x por entre as espessas muralhas do futuro.
Enquanto os doutos falavam em alienação, nas décadas de 60, 70, 80, enchiam a boca com o termo, com esse conceito - em verdade, tacanho, redutor, bastante problemático e constrangedoramente datado - como para demarcar a contemporaneidade do marxismo que abraçavam ao modo de uma crença, Flusser, ao imaginar coisas improváveis mas possíveis, já buscava lá, adiante, vislumbres do que seria a internet e do que viria a constituir uma sensibilidade pós-industrial.
Na verdade, o que há de novo (e resgate) em Flusser é também um desejo de jogo, de brincadeira. Um desejo de brinquedo que ainda se advinha em gente como Huizinga. Ou em temperamentos menos tutelados, bitolados ou de predisposição menos sectária ou dogmática. E é depois de dimensionar o quanto a máquina deixa muito pouco espaço à criatividade, que Flusser sugere o momento do jogo e da criação. Um jogo limitado pela potência, pela prepotência da tecnologia. Ou pela sofisticação por trás dela, que nos leva a um oximoresco, crescente paroxismo em relação ao fetiche que a anima, que vive embutido nela.¹
Mas, ocorre que, antes de Flusser – e em seguida a Huizinga - a geração dos teóricos de Frankfurt – com a possível exceção de Benjamin e do Kracauer de O Ornamento da Massa – pôs demasiada sisudez e propôs muito pouco jogo, ludo, brincadeira no que mentou. E isso foi absorvido por gente como Habermas, que levou essa sisudez e esse hieratismo acadêmico a uma máxima potência. Ocorre que Habermas, que foi contemporâneo de Flusser, foi também muito mais influente à época e até uns poucos anos atrás, com a sua “teoria da ação comunicativa”.
Hoje, as ações de Habermas na bolsa das teorias conhecem um severo refluxo. O que implica dizer que, dentro de um certo sentido, o “bom-humor” de Flusser é um dado recente, e, no entanto, muito bem-vindo: “imaginar, não coisas impossíveis, mas coisas improváveis, isto é ter fantasia”.
Ora, deter-se feito um basbaque na análise do Twitter não seria do temperamento de Flusser. Ele tinha fantasia. O Twitter não é algo propriamente improvável: é uma realidade, uma forma efetiva de comunicação utilizada por milhões de usuários no mundo inteiro há vários anos. Difícil prognosticar o ponto em que o Twitter atingirá seu zênite para, então, murchar - como já está murchando o Orkut. Mas é certo que ele cessará de disponibilizar sua lógica de teia social tão logo deixe de dar lucro. 
Em dado momento Flusser nos diz que “uma máquina é algo projetado para ludibriar”. Em outro, acerca o artista do trapaceiro; ou a arte do embuste.²
Não se ouve isso de teóricos renomados a todo o instante. Esse grau de jogo e diversão na construção da teoria mesma. Essa linguagem desabusada, informal, cortejando a fala. Essas nomeações, formações de terminologia quando muito tendem ao esoterismo teórico e à seita, como em Deleuze. [Quer dizer, mais entre os deleuzianos que em Deleuze propriamente dito]. Mas não ao ludo.
Na contramão disso, os materiais nas mãos de Flusser ainda são estimulantemente toscos, brutos, como nas mãos de uma criança que empresta vida aos bonecos ou ao sabugo de milho de forma jocosamente exemplar. Pois Flusser está sondando, investigando, nomeando fenômenos ainda incipientes – o que o Twitter já não é, em si. O que o Twitter só pode ser na relação com algo que ainda não percebemos, e ainda segue envolto nas dobras do futuro. 
Do mesmo modo, uma criança, por inversão, é incipiente ao investigar qualquer fenômeno. Inclusive o Twitter. Essa é a diferença da criança para Flusser. 
A outra face dessa diferença é a superficialidade. Quer dizer, crianças ao contrário de Flusser, são dispersas. Põem-se a pular de um para outro objeto de investigação. Saltam de um para outro brinquedo, feito estivessem num playground. E acabam não investigando nada mais detidamente. Embora recriem o mundo de um modo mágico e intuitivo, cheio de fantasia e jogo. De uma forma como não sabemos mais fazer depois de adultos. Embora essa forma - intuitiva, lúdica, mágica - quando inteiramente suprimida também nos deixe num tremendo prejuízo. 
Mas, de outro modo, nós hoje temos uma dimensão prática bem mais efetiva desses fenômenos de comunicação via redes de computador, mediante a universalização da internet e da tecnologia digital – pois era sobre esses fenômenos que o autor de Bodenlos já falava, quando eles apenas brotavam, botavam as manguinhas de fora. E, aqui, é necessário entender que a força do pensamento de Flusser nutre-se também dessa brusquidão, alimenta-se dessa aparente falta de polimento, de jeito.  De estar a farejar algo ainda em processo. E ao contrário do que ocorreu com Benjamin, a recepção de Flusser ainda é por demais recente e escassa para ter se voltado contra ele em potência.³
Isso para não falar que o judeu em Flusser casa muito bem com o improviso brasileiro. Ambos reconhecem-se mais transitórios, prófugos e obrigados a improvisar por força de se encontrarem à margem. E é essa mentalidade brasileira - naturalmente barroca e profusa, impreparada, assistêmica, bastante ahistórica, assimétrica, sensual, com sugestões a um inesperado reconsórcio com a natureza,  que se faz notar também como um dado novo no pensamento de Flusser. Sua recusa em citar fontes, por exemplo, passa ao largo de um desejo normativo que engessou o pensamento acadêmico não é de hoje. [4]


Para mais Flusser em Afetivagem: 

- Sobre a Recepção de Flusser, Moda e Certo Rancor-Ambiente
Nota Sobre Flusser e o Twitter
Um Extrato de Too Much a Sobreviver na Memória dos Outros
Interdito, Vox 
No Centro de um Império Equivocadoª
Bach e os Imigrantes
Isso Já Ocorreu uma Vez
Arte e Internet
Para uma Pós-Erfahrungologia da Experiência


___________
¹daí que para o empacotador de supermercado seja imperativo obter o novo smartphone, que traz a última ninharia técnica: a câmera de x-megapixels, ou a velocidade x.0. E então, ele terá de vender o antigo, quitar a dívida, para poder dar entrada no novo, endividar-se com ele. Sem falar no que há de antisustentável nessa lógica, que aposenta aparelhos, ainda em vida útil, numa velocidade cada vez mais brusca e cujo retorno não é mais que uma milimétrica vantagem técnica que logo será superada por outra. Mas não é essa a lógica de consumo em que já vivemos sendo apenas acelerada?

²de imediato se pode argumentar que o modo como Flusser trata a etimologia de certas palavras-chaves – tais como design, tecnologia e arte – em seu ensaio “Sobre a Palavra Design” é amplamente fantasioso. Mas isso não implica numa diminuição do valor heurístico do ensaio. Pois ele, de outro modo, revela, descobre coisas a partir dessa “fantasia etimológica”. E, indo mais fundo, pode-se indagar: que etimologia não é também fantasiosa e/ou intuitiva?

³a obra de Benjamin serviu de tema para um tão vasto número de paráfrases teóricas que praticamente desapareceu, afogou-se, submergiu, anulou-se, sumiu em meio ao turbilhão de palavras que a sitiam nos diascorrentes – muitas vezes sem qualquer contexto, coerência, conexão ou mesmo fantasia criativa – dentro das escolas de comunicação, literatura comparada, arquitetura, história, cinema e tradução ao redor do globo. No atacado, não há desdobramentos e descontinuidades a partir de Benjamin, senão um monstruoso catálogo de aberrações teóricas, as quais Benjamin acharia, no mínimo, "curiosas" ou fronteiras à barbárie. Há tantos Benjamins pelo mundo afora, de acordo com o gosto do freguês - um Benjamin semioticista, um Benjamin pós-estruturalista, um Benjamin deleuziano, um Benjamin historiador dos Annales, um Benjamin da desconstrução, um Benjamin das teorias do dispositivo cinemático, um Benjamin feminista e ligado aos estudos culturais; e dentro em breve, quem sabe, até um Benjamin adepto do pós-futebol e da liberação da maconha - que o Benjamin histórico, o autor de alguns ensaios prismáticos para compreensão do pós-tempo em que vivemos virou apenas uma pálida sombra indistinguível, e que, convenhamos, ninguém mais lê. Ou faz um esforço mínimo para compreender as matrizes e motivações de seus conceitos. Conclusão: Benjamin virou pau para toda obra e, logo, para obra nenhuma. Flusser está apenas começando a experimentar esse processo que Benjamin já passou. Passou, e foi arrasado nele. Esse processo, digamos, de pauperização pelo número. De pauparatodaobralização. Pauperização pelo número e pela inconsistência das paráfrases e desdobramentos teóricos. Com as excepções de praxe, esses desdobramentos não só são ralos, inconsistentes, como também vedam ao próprio estudante as palavras mesmas de Benjamin, seus conceitos. A leitura de seus textos. O acerto ou não das escolhas de seus tradutores. Uma familiaridade maior com sua obra. Mínima que seja. Uma possível conexão entre os conceitos de Benjamin e realidades que hoje experienciamos - em sua maior parte através de maquinismos. Pois são raros os teóricos que, a exemplo de Agamben, concedem um pouco de espaço a Benjamin antes de instrumentalizar a teoria de Benjamin para legitimar a montagem de seu  próprio sistema teórico. Ou a redação do próximo artigo par pôr na revistinha acadêmica: sempre há uma em demanda.
Outro ponto, aliás, que conta a favor de Flusser - além de ainda ser relativamente pouco conhecido - é a estranha sonoridade de seu nome. [um desses nomes que parecem evocar o que Melville nos diz no "Bartleby": "a name which, I admit, I love to repeat for it hath a rounded and orbicular sound to it, and rings like unto bullion". O prefixo flu- é o prefixo do rio e, logo, fluido, fluxo, flúmen, fluência, fluminense etc. O nome Flusser porta em si a transitividade do rio - que é, entre outras, a melhor metáfora de tempo, propagação, percurso e circunstância no Ocidente, desde Heráclito].

[4] no caso de Flusser, agregar algo da mentalidade barroca brasileira é um benefício porque consorcia-se a um pensamento que vem a ser, inicialmente, apolíneo, cartesiano, abstrato, geométrico, europeu. Um tanto sombrio, em contornos gerais. Sem muito a oferecer de saída que não sua solidez lógica. E, no caso, o barroco brasileiro tempera esse pensamento. Reveste-o de matizes intuitivas e subversoras da ordem, tal como Bakthin aponta o Carnaval – paroxismo do barroco – como elemento subversor. O problema no Brasil é que ao barroco não há um contraponto mais racional e sóbrio.  [Como houve, de resto, em Flusser, que já veio para cá munido dessa formação, ou egresso dessa escola]. E logo, no caso da inteligência brasileira, o barroco, dando uma volta sobre si mesmo acaba por anular-se. [Pode-se dizer que o barroco dobra-se sobre si mesmo e acomoda-se ao invés de explodir em arco na metade do caminho e vazar para a práxis - incompleto e subversor - a requerer um suplemento mais sóbrio e lógico.] Ou seja, em vez de subverter a ordem, o barroco no Brasil é subvertido por ela, e acaba ajudando a consolidar esse estado de coisas onde impera uma extrema desigualdade social e econômica. Ora, desigualdade, dessimetria têm tudo a ver com barroco. Senão é mesmo a pérola imperfeita que está na raiz da palavra.

Discrição e moda



segundo o As, os próprios atletas espanhóis têm feito piadas e brincadeiras com os novos uniformes da delegação ibérica que desembarcará em Londres nos próximos dias para disputar os Jogos Olímpicos. 

mas por que, se parecem tão discretos? (E provavelmente devem ter rendido um bom punhado de euros a um desses estilistas de plantão e gosto, algo: circense?). 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Digressão sobre Carnaval, Subversão e Barroco

Max Beckmann

é claro que o carnaval libera e subverte, como ensina Bakhtin. E se o Carnaval é um elemento central de nossa cultura, é porque há cargas de sanidade nela. [Quer dizer, por contraposição a outras, que são menos digestivas ou barrocas, como a europeia, onde essas cargas de contrariedade são sublimadas, reengolidas, como quando não se cospe o catarro após o escarro] 

mas também quando há só Carnaval, quando há só sarro o tempo inteiro, o Carnaval é suprimido

e domado. E organizado. E deixa de sê-lo

transforma-se em algo passivo. Apropriado pelo latifúndio, pelo consumo, pela mídia mais normativa e medíocre. Pelo espírito UDN da vez. Pela Une. Pelo Departamento de Ciências Sociais. Por tudo que há de mais sectário, cartorial e torpe. E, assim, por essa estranha dialética, o Carnaval torna-se, do contrário, algo mesquinho, autoritário. De uma festa que concentra o melhor das inadaptações sociais, ele se torna um repositório de superadaptações. A própria capital dessa sociabilidade carnavalizada

ora, já foram suprimidos muitos elementos que contrastavam com o Carnaval. E porque contrastavam com o Carnaval, também o desafiavam e definiam. O limiavam melhor, por contraste. É o caso da Quaresma

a Quaresma já foi um elemento essencial para a definição do Carnaval. Não é mais.  E se não é mais, é porque o Carnaval também não é mais o que era. Pois à mesma medida em que a Quaresma foi deixando de ser, o próprio Carnaval também tornou-se, por seu turno, menos subversor. Menos ele mesmo: uma etapa de delírio, de inversão de valores, que antecipa fastio e austeridade

e por quê? Porque tornou-se norma. Algo domado. Porque retirou-se do Carnaval seus germes de subversão. Hoje qualquer cidade sem uma tradição orgânica de Carnaval popular, como Fortaleza, pode ter sua micareta em julho ou agosto – ou em que mês mais for 

e o Carnaval que tinha data, hora e prazo e lugar para acontecer, por contraste a outros motivos, agora é algo portátil ao longo do ano. Algo meio descartável. Ou amoldável aos interesses puramente econômicos por trás da organização dessas micaretas

o Carnaval é algo precioso demais para ser banalizado e pulverizado, por meio de micaretas fuleiras, ao longo do ano. Aliás, já há festa demais no país. O perigo, então, é da festa - quando menos se esperar - brotar a polícia e a censura

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Casas tortas para dentro, sem possibilidades de relento




algumas casas, nota-se que o arquitecto as entortou para dentro. Como se devessem pagar eterno tributo, curvar-se em permanente reverência à perícia com que o espaço interior foi modulado, seccionado, esculpido
não me fio delas. Parecem cavernas 
uma casa também tem de se voltar para fora. Manter um olho na rua. E, mesmo, ensaiar ser parcialmente esse fora, essa rua. Aos poucos. E desde as varandas e alpendres, acostumar as crianças com o mundo: a chuva, o sol, as árvores, a grama, os calangos, o escuro. Estrelas. O cricri dos grilos. Desconfiar de quem não gosta de varandas, alpendres, terraços, num clima como o nosso. Um clima que convida à convivialidade nesses espaços em que dentro e fora diluem-se em terceiro rumo


uma espécie de pré-relento, onde é bom armar a rede

domingo, 15 de julho de 2012

térmitas e último dia para contrato



o entomologista investiga uma nova espécie de cupim descoberta na amazônia. a espécie tem apenas fêmeas. 
ainda assim, reproduz.
*
-não tenha pena de mim. lembre-se: eu fui tão ou mais sacana que você - o que não é pouco. e isso de fragilidades femininas é só charme. por dentro você mal ia adivinhar o torquemada de saias que me habita o espírito. nem o politicamente correto faria melhor por mim. (muito menos por você, sinto). e, segundo dizem, nessa nova espécie de cupins a casa está cosida em barro por dentro da casca. eu queria ser assim, meu caro. ter uma casa costurada por baixo da pele. mas não tenho. e ter onde morar não cai do céu. daí, se não sentir o cheiro do dinheiro na pele dos que levo para cama, melhor esquecer. pelo menos vou direto ao ponto, você sabe. e então, se me quiser de novo, faça o favor de sair dessa pindaíba. e muito. ser pobre é bonito, em biografias e enciclopédias. mulheres querem homens com charutos que se acendem em cédulas de cem dólares, e não garotos que fumam baganas atrás das portas. homens de verdade, que estribuchem sobre nós na mesma medida em que fodem com a vida dos outros. quanto mais subalternos tiverem, mais chances de darem certo no meu cetim, você sabe. não nasci no time desses cupins. e estou é ficando velha, não louca. tenho de quitar o financiamento da casa, assegurar uma aposentadoria, e um seguro educação pro waltinho.  

ninguém sabe o dia de amanhã.

sábado, 14 de julho de 2012

Conta outra, meu

Sara Ramo

difícil encontrar blog na primeira pessoa – eu, me, meu – com algo bacana de ler. A maioria fica naquela: dizer que é assim, assado. Que não gosta de jiló. Que está gripado. Que lê tais livros e vê tais filmes e ouve tais sons. Que se parece com probos, lêmures ou maçons. Que gosta de cabrito ao forno. Que encravou a unha. Que sofre com aquela dor de corno em La Corunha. Que tinha uma língua, mas o gato comeu.

tcherto. Mas e daí?

conta outra, meu.