terça-feira, 19 de junho de 2012

Branca de Neve é bicho


"Não é bicho não, Arthur. É uma moça. Uma pixota. Uma mocinha. É como a Deusedite". 

"Nietzsche não ia gostar dela. Porque ela seria a impossibilidade do Super Homem"

Um dia Arthur entendeu que Branca de Neve era bicho.
-Não é bicho não, Arthur. É uma moça. Uma pixota. Uma mocinha. É como a Deusedite. Bicho, não é não – disse o Jogador de Damas.
-É bicho, sim. É coisa dos Grimm. Mas foi o Disney que deu um mundo pra ela. E lá, os ratos, cavalos e patos falam. Se vestem, ganham dinheiro, sentam à mesa. E é porque os humanos é que são bichos. Inclusive quem faz uma maldade dessas com eles: gente falar com esquilo. Ou cavalos tanger cavalos. E além disso, vivem prendendo os pobres dos Metralhas, que são as únicas criaturas decentes naquela curriola toda.
Isso fora um pouco além da conta para o Jogador de Damas, que não só não gostava, não entendia, como desconfiava de paradoxos. E, então, voltou ao estudo da próxima jogada, no tabuleiro junto aos rolos de fumo. Mas não sem antes largar um:
-Todomundo acha a Branca de Neve linda de morrer.
-Só pode – retrucou Arthur - ao redor dela só tinha bruxas e anões! Eu prefiro a Rainha Má. Mas onde eu quero chegar, Jô, é na prova de que além de ser uma anã moral, Branca de Neve era de fato bicho. Nietzsche não ia gostar dela. Nem um pouco. Porque ela seria paradoxalmente a impossibilidade do Superhomem.
-Agora, você misturou tudo. Disney, os clássicos Marvel...
-Você também acha que ela é uma ameaça à ideia da pós-história?
Mas a essa altura, o Jogador de Damas já quedava completamente entretido no estudo da próxima jogada. O Terceiro Excluído ainda não tinha chegado. O Álisson fora comprar cocaína. E, logo, Arthur viu-se ainda mais desesperado, porque não tinha com quem partilhar aquele utilíssimo insight. Nem mesmo com o Narrador, que fora passar uns dias de licença prêmio na Praia do Discurso Indireto Livre, ali perto de Morro Branco. 
Agora, sim, Arthur achava que tinha chegado a algo grande. Uma dedução que provavelmente seria um divisor de águas conceitual na vida da comunidade:

-Branca de Neve é bicho.

domingo, 17 de junho de 2012

Escrever Ensaios ou A Arte da Ressalva


James Whitney

escrever ensaios, destemer a descida aos detalhes

não se pode falar de detalhes sem abdicar de uma visão panorâmica, totalizante, diagrama

para chegar ao detalhe, é preciso divisá-lo, individuá-lo, de alguma forma, dentro de algo maior. Para chegar ao close, é necessário, antes, o close inserido no plano geral. (Meio por acaso?)

planos gerais parecem algo rude, grosseiro no mundo dos detalhes em que vivemos

escrever ensaios é, então, ressalvar que o detalhe é assim, mas nem sempre assim. Também, por vezes, é assado. 


E, logo, só parcialmente assim, etc.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Corresponder, coincidir



Pessoas têm o desejo que um punhado de letras traduza uma complexidade, uma barafunda de sentimentos, sensações, condições e estados de espírito que são elas próprias. Que resgate, de algum modo, o que já esteve lá, escrito nas estrelas. Como fosse possível alguma correspondência. Ou uma caligrafia estelar, constelacional, que se pudesse reproduzir na ponta do lápis. Ou, mais adiante, coincidir com vida. Assim, sem mais.

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho, celenterado, formiga. E o que coincide não tem olhos para fora de si. Jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, de nascença. Pois coincidências e prisões têm o mesmo termo em latim no nome científico. São primas e já se amaram. Armaram poucas e boas. Arapucas. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las, imigrante e solitário que é. 


Imigrantes e solitárias que são, não se deixam ver à auto-suficiência. Mas então há essa necessidade tão violenta de espelho, que letras despertam lágrimas. E não por serem parecidas com pessoas. Não há imagem para discussão. Mas por saciarem nelas o desejo de se acharem parecidas tout court. De se acharem parecidas com paus e pedras. Marés e rios. A corda si, o naipe de copas, o Pico da Bandeira. Abóbadas, funâmbulos, sextas-feiras e o alfabeto cirílico. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Poliedro de coisas


Gretche Kelly

Olhou para o rosto dela vinte anos depois, viu um poliedro de coisas. Havia algumas marcas de expressão, sinais a mais de sensatez, jeito de rir que não estava. E achacou-se ante tanta desnudez travestida de sorrisos. Antes via apenas o rosto de uma mulher jovem, um pouco contida, a lhe dizer a todo instante um sim do tamanho do Edifício Itália. 


E o dia dos pelos dela tinha a cor.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pressa ou virtude


/sic/

sigo dirigindo veloz para dentro do feriado. Devo ter algum ou muito álcool na alma, no sangue. Mais no sangue, é verdade. Não espero que pressa ou virtude me façam escapar do tribunal. E é-me indiferente se atropelo bicho ou homem. Ou se o bicho se posta à minha frente. E sou eu

a última coisa que a justiça dos homens está interessada em saber na verdade é a verdade.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Žižek, idealismo hegeliano e sexo oral



E se ela estiver só fingindo?

Desde ontem, disparado, o texto mais lido e comentado no Guardian é uma entrevista com o extravagante Slavoj Žižek. O pensador esloveno acaba de lançar um livro: Menos que Nada, Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético.

Daqui há uns (poucos) meses, o livro deve ser traduzido para o português e lançado no Brasil. E haverá críticas soporíferas: a favor e contra. E em fórmulas mais que sambadas. E algum doutor ou mestre apresentará paper de fazer o bicho-preguiça dormir em um desses encontros acadêmicos que são a única glória e chance de professores de universidades estaduais tornarem-se starlets por algumas horas. (Em geral na semana nacional de alguma coisa: da sociologia, da comunicação, da filosofia pop ou da gastroendocrinologia zen). Depois, mais nada. Acabou.

Mas há Žižek, que é muito mais sagaz que esses professores que jogam charminho para incautos, deslumbrados pós-graduandos com algum défice teórico mas muitos hormônios à flor da pele. E que até brinca consigo próprio, quando diz que não tolera mais que lhe peçam conselhos, mesmo depois de perceberem que ele é completamente louco. E, em especial, se o pedinte for americano. Não à toa o chamam de "o Borat da Filosofia".

Agora, se a entrevista tanto repercute, não é por conta de Hegel, de Bauer ou das teses sobre Feuerbach. Ou ainda da suposta inversão materialista operada por Marx sobre as categorias hegelianas. Mas por trechos bem mais pé no chão e um tanto apimentados, postos em linha pela entrevistadora britânica Decca Aitkenhead. E, claro, pelo deslavado carisma de Žižek, que, de resto, diz sobre sua própria vida sexual:

"Yeah, because I'm extremely romantic here. You know what is my fear? This postmodern, permissive, pragmatic etiquette towards sex. It's horrible. They claim sex is healthy; it's good for the heart, for blood circulation, it relaxes you. They even go into how kissing is also good because it develops the muscles here – this is horrible, my God!" He's appalled by the promise of dating agencies to "outsource" the risk of romance. "It's no longer that absolute passion. I like this idea of sex as part of love, you know: 'I'm ready to sell my mother into slavery just to fuck you for ever.' There is something nice, transcendent, about it. I remain incurably romantic. "I keep thinking I should try to intervene with a question, but he's off again. "I have strange limits. I am very – OK, another detail, fuck it. I was never able to do – even if a woman wanted it – annal sex." Annal sex? "Ah, anal sex. You know why not? Because I couldn't convince myself that she really likes it. I always had this suspicion, what if she only pretends, to make herself more attractive to me? It's the same thing for fellatio; I was never able to finish into the woman's mouth, because again, my idea is, this is not exactly the most tasteful fluid. What if she's only pretending".

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dialética das imagens técnicas


/sic/

Os que se esforçam demais da conta para ter um painel de fotos na parede esquecem de propiciar algo que resulte nele fora dela.

domingo, 10 de junho de 2012

Estratégias sem muito cuspe & falsos alarmes


Sylvia Sleigh, Felicity Rainnie Reclining, 1972.


Nas fotos, tem reaparecido a coadjuvar, com um sorriso mais amarelo que uma banana prata e certa expressão lacaia, aquela amiga mais velha que recém-afinou o nariz para tentar casar melhor. Se é feliz? Quem é feliz? Você? A amiga? Aquele Narrador que um dia vos falou? E houve um rumor ou uma impressão de rumor no imenso auditório da fanqueza absoluta. 
Pareceu provir das últimas filas. 

Mas fora alarme falso. 

sábado, 9 de junho de 2012

Der Weg zum Strand


Olhou para o anúncio antes de embarcar, e lembrou de seu tempo de garoto. E de quê? Então, de uma estudante alemã desiludida. Seus belos olhos gris e guache. Ela havia vindo passar uns dias com o namorado, que estava já passando dias a mais por aqui. E não foi difícil perceber que o namorado estava achando a estadia por aqui um paraíso maior do que devia. 
Isso a preveniu não só contra o ex-namorado, mas contra o Brasil em geral. E pior - isso não se faz - contra a língua portuguesa tal como falada na América:
-Soa tão primitiva uma língua que não tem a segunda pessoa na conjugação do verbo - filosofava sobre o desaparecimento do tu. (Mas a verdade é que todos nós filosofamos, de um jeito ou de outro, quando nosso tu desaparece. De preferência, nos bares, em arengas que conseguem ser ainda mais cômicas que discussões sobre futebol).
Ou então:
-E como se pode mais empregar uma forma no singular para a segunda do plural? - referia-se, em estrita lógica, ao hábito sem retorno que temos de dizer a gente por nós a maior parte do tempo.
Não que ela estivesse propriamente interessada no emprego de pronomes numa língua romance dos confins da Europa. Mas a gente tem que dar vazão a sentimentos fortes sob formas mais ou menos racionais.
Compadecido, ele teve que explicar à moça que o você preenche perfeitamente os requisitos do tu, como segunda pessoa. E não é propriamente um erro, mas uma acomodação cultural que levou tempo para maturar, sedimentar-se. Até ser aceita em livros, gramáticas. Mais ou menos assim como no inglês o thou também desapareceu para glória maior do you. Levou algum tempo. 
Quanto à questão do a gente, aí então era até mais simples. Bastou-lhe lembrar que os franceses fazem isso à três por quatro. No caso, empregando o mágico on pelo nous mais formal. E nem por isso se metem em menos mènages. Relaxam e são felizes.
Mas, a esse tempo, ela já enchia a boca de vocês. E pronunciava o pronome com insuspeitados harmônicos. (Achava bela solução pronominal. Assim bíblica, com ressonâncias do vós na graciosa simplicidade da mercê. De fato, mais plástico, menos marcial que o tu. O tu que ainda lembra a precipitada aspereza da segunda pessoa no alemão). E ela estava até planejando passar uns tempos a mais no Brasil:
-Sabe que você explica muito bem as coisas – ela dizia-lhe - Mas e agorra, garroto?A gente vai parra o praia?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Roy, o Redentor





Do alto das alvas falésias de Dover (White Cliffs), contemplando a França, além do Canal, ergue-se Roy, o Redentor. A armação de 30 metros é suportada por guindastes. A ideia de transformar o treinador da inglaterra em réplica do Redentor, no Corcovado, foi da casa de apostas Paddy Power. A instalação foi alçada ontem. A intenção: inspirar o escudo dos Três Leões em sua jornada rumo ao improvável título. Assim como exorcizar o primeiro adversário, do outro lado do Canal. Agora, imaginem o rolo se isso tivesse sido feito em paródia a Alá, Buda ou Jeová. O bicho pegaria. Mas somos cristãos, não é mesmo? E do lado de cá, a sarça arde; a civilidade abunda. E tudo democracias. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O lp de Ana de Holanda

A atual ministra da cultura, Ana de Holanda, em foto de 1980

Embora tenha atuado mais na área do teatro, a atual ministra da cultura lançou um lp, em 1980, gravando compositores como Nelson Angelo, Novelli, Toquinho, Carlinhos Vergueiro, Carlos Pita, além de seu irmão famoso – em parceria com Miltinho - entre outros. Não eram tempos para ser estrela da música popular. E ninguém dessa época - Diana Pequeno, Kiko Zambianchi, Olivia Byighton ou Ritchie - embarcou em carreira longeva. Mas o lp de Ana é um bocado audível, ainda que fora de catálogo e hoje. E vem de um tempo em que a MPB prometia. E era mesmo um rito de passagem. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Prólogo a um prólogo de Béla Tarr



Pessoas agasalhadas, agrisalhadas e embrutecidas olham adiante numa fila. Fim do outono. De meia-idade e, de algum modo, vazias; pois não há muito o que fazer no campo dos sonhos ao largo do fim de uma fila assim.
Para onde todos olham como destino. 
(Ao fundo, teclados soam com mais harmonias que melodia)

A line of bundled up, grayish and brutalized people are looking ahead of themselves. End of autumn. They are middle-aged people and somehow empty, for there is not much to do in the field of dreams off  the line up they stand.
Looking ahead like destiny.
(On background keyboards sound more harmonies than melody)
Once William Carlos Williams composed a book called Pictures from Brueghel. Each poem in the book is nothing but the description of a Brueghel's picture. Similarly one could do the same to some sequences in Bela Tarr's films.

Certa vez William Carlos Williams fez um livro chamado Quadros de Brueghel. Cada poema do livro não é mais que a descrição de uma tela de Brueghel. Por analogia, pode-se fazer o mesmo com algumas sequências nos filmes de Bela Tarr.

To watch the short film in Youtube: http://bit.ly/acII15
Para assistir ao curta na integra: http://bit.ly/acII15

Começos de junho pelo mundo dos esportes & mundo em geral, sem nenhuma conclusão moral



A época é de Roland Garros, que já conhece sua 111ª edição. O torneio segue restrito a três nomes no masculino e aparentemente aberto às surpresas no feminino. Sem assunto, jornais europeus especulam sobre quem reforça os clubes para a próxima temporada. Os espanhóis e ingleses batem qualquer um na boataria. Mas os italianos são mais enfáticos, com seus admiráveis superlativos: Bravissimo! Já os leitores descem para balneários na Espanha, Itália, Croácia, Grécia e Turquia. É verão na banda de lá do mundo. 
Há um Campeonato Europeu, na Polônia e Ucrânia, que ameaça começar com muito pouco fogo na palha. Deve engrenar, próximos dias, quando estrear de fato. Enquanto isso, a presença de tantas estrelas pop ao redor de Sua Majestade, no Reino Unido, expõe ainda uma vez as delicadas relações entre espetáculo e poder.  Cantores, músicos e bandas pop cercam a Rainha como jacarés famintos em torno da gazela desprevenida. Chances assim não podem ser desperdiçadas. E isso também indica para o fato de as vedetes pop terem perdido espaço para esportistas – e, em especial, jogadores de futebol. Isso são cifras não pequenas. Se todo mundo antes queria ser cantor e jogador de futebol, não resta mais dúvidas, hoje em dia, sobre qual a mais rentável dessas carreiras. 
Por aqui, Ronaldinho Gaúcho torna-se Ronaldinho Mineiro, depois de recusar-se a ser carioca. Tudo a calar sobre Ronaldinho. A divulgação de certo vídeo pela direção do Flamengo beira a aberração. O Gaúcho foi o mais formidável e decisivo jogador que jamais pisou num gramado por cerca de dois anos e alguns semanas. Se tanto. E também um daqueles que atirou mais rápido, pela janela, a chance de ser um dos grandes do esporte. Defenestrou-a à base da mesma boa vida e molas que - dizem por aí mas não se sabe se é certo - não se deve entregar a ela. Ocorre, camarada, que a decisão foi dele. E quem pode condenar o tamanho do seu copo e da sua sede? Ainda sobre o ex-gremista, um leitor argentino pontifica, com aquela usual e enfática castelhaneidade: “a este le gusta la joda como a la mosca la mierda”.
*
Ainda sobre o Aberto da França, e as facilidades que o poder traz. 
Em 1997, quando Guga venceu seu primeiro torneio, recebeu o troféu das mãos de Guillermo Vilas. Gato escaldado, o argentino cochichou algo ao ouvido de Kuerten antes de lhe repassar o caneco. Instado a revelar o conteúdo, um Guga pouco mais que adolescente, recusou enrubescido. Mas os fotógrafos em torno guardaram a inteireza da frase: “Segura a onda, garoto: vai chover mulher na tua horta”.
*
Se tudo não parar de passar, aliás, por que deveríamos seguir?

A Cena Local

Piet Mondrian, 1898


Os sequestradores tinham cara de sequestradores nas fotos. A cabana que utilizavam não era forrada. Havia camas dispostas contra as paredes e janelas abertas ao sertão. A bagunça provavelmente fora feita na revista policial. Havia um alpendre. Tão baixo que era agachar-se para se pôr sob ele. E uma viatura da polícia atravessando o curso de um rio na estiagem, provavelmente a pedidos da equipe de reportagem. O cabeça era um tipo caucasiano, calvo, de barba mal-feita. Uma cópia de sua identidade foi mostrada enquanto rotundos oficiais depunham ao microfone. Um deles veio do Pará no encalço dos bandidos. O delegado tinha mais de suíno que de delegado. Poderia ser uma espécie de figurante modelo em quadros de Bosch. Ou parte da classe dirigente em Animal Farm. E sem carecer maquiagem. Um desses guardiães do inferno. Deve haver um comércio terrível de interessante entre mídia e polícia. Também se mostrou um Volkswagen com marcas de bala no chassi. Gerentes de banco e autoridades se pronunciaram. A apresentadora tentou fazer um semblante de preocupação, desagravo. Não conseguiu. E a cena mudou para a amenidade de um PV vazio, um pouco à penumbra, à espera da hora do jogo. E depois para um desses congressos quase compulsórios, mas que a gente esquece que foi, quando os anos passam. Eles são verdadeira mania dos telejornais locais. E ajudam a tornar personalidades por três dias obscuros professores de universidades estaduais.
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Meu pai é um ruido de chaves

Piet Mondrian

Meu pai é um ruído de chaves. E passos surdos. E um ângulo. Uma falta de palavras em Oviedo. Um passar, sem olhar para os lados, pela praça. Meu pai são cabelos cinzas logo depois da infância. Serões de trabalho. O corpo franzino. Rematada incapacidade de carinho, meu pai é apenas dever. Meu pai são os dias em que você não me veio ver: por que era melhor estar com a outra? E o que mais nas suas fantasias de amor-cortês? Ou o triângulo amoroso que a gente quer para si ardentemente como uma flâmula? O gole de conhaque, ao modo de um luxo que se toma emprestado de enredo barato? E quando se tem a noção do estrago, aí a hora é já de partir, meu Pai? E o peso dos não ditos há de sempre vergar nossas costas. Como uma mochila cheia de aporias. 

E a insípida regularidade das refeições e dos horários. Para nada.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Guinnevere had green eyes

Robert Bresson, Lancelot du lac, 1974


Ginebra tinha olhos verdes


Durante anos viveu nos livros e na fumaça de seu cigarro. 
As manhãs surgiam ásperas, abafadas e ainda sem a nódoa do idealismo que a nostalgia larga. E com os dedos amarelados, passava as páginas como quem passa debaixo do olhar e da varanda daquela a quem se deseja. Ele, ferido no bosque. Sangrando, com seu cavalo. 
Ela, de verdes olhos, a que dorme atrás da janela mais desejada, na amurada interna do castelo. A que oscilava entre o rei e ele.

domingo, 3 de junho de 2012

A Palavra Rapariga



No dia em que se reconciliar a palavra rapariga com sua extensão mais original, novo favor será feito à língua. Pois a palavra é linda. E é uma pena que não possamos lançar mão dela para referir-nos às nossas filhas, irmãs e amigas. Assim como, do mesmo modo, nos referimos àquelas que suprem beijo de namorada, cafuné de irmã e colinho de mãe.

sábado, 2 de junho de 2012

Taras e um bom vinho à mesa


Mark Rothko

-Eu não sou normal. Acho que não sou nada normal. Ao contrário do que meus pais me disseram. Acho que tenho umas taras meio estranhas. Adoro mulheres brancas, de olheiras, dentes pouquinho proeminentes, alguma leve celulite - apenas insinuada - e uma sombra de culote. E se tiverem os olhos um pouco juntos, ligeiramente vesgos e nos gestos algo desengonçado, então é a perfeição em Terra. Mas não a perfeição das passarelas de moda, das revistas. Esta parece aqueles pratos que os gastrônomos rasgam elogios e gastam verbo, energia e dólares para confeccioná-los – para não falar de horas em fotoshops. Mas quando se põe na boca, têm algo de papel sem sal. 

E é preciso ter um bom vinho à mesa, para tirar o gosto da noite.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mais do (mesmo) que isto impossível

Lucien Freud

Uma vez, em Viena, o regente dirigia um ensaio de ópera. Todo superlativo. Tudo superlativo. Era Wagner. Os naipes seguiam afiadíssimos, quando de repente, num destaque da trompa, o maestro deu sinal de parada. Podia-se ouvir um trincar de dentes.
Virou-se para o trompista: 
-Desejo que o Senhor execute esta passagem em forte, como Wagner propôs.
Retomaram. 
O trompista executou com mais acento. O maestro parou de novo: 
-Desejo esta passagem em forte, senhor, como está escrita na partitura. 
O músico tocou ainda mais forte. O regente parou de novo: 
-Pelo Amor de Deus, forte, forte, como está escrito!
Já com os bofes para fora, o spalla disse: 
-Mais forte do que isto impossível!
E o maestro: 
-O Senhor insiste em tocar fortissimo, quando está escrito apenas forte.


Pronto. Eis o diagrama da arte no Brasil, no atacado, em relação à intensidade com que ela busca representar ou compartilhar um ponto de vista. O exagero é já tão nosso, que qualquer ínfima modalidade de sutileza, sobriedade, comedimento ou sugestão é percebida como uma opulenta forma de tecer um novo comentário ou partilhamento. De empreender uma descoberta. Ou compor uma nova estética.


E há esse nome de uma banda californiana: Red Hot Chili Pepper. E é uma boa banda. Mas o nome. (Talvez funcione, por inversão no inglês, para a ética protestante). Vermelho, ardente, pimenta são características do chili. Por que ressaltar tanto? 

Quando se exagera, quando se acentua sempre - sem alternativa, sempre e de novo - perde-se o exagero como recurso, o acento como demarcador de ritmo. 

O deserto é bonito? Sem dúvida, porque é um despautério de nada. Nele, qualquer placa enferrujada, saindo da areia ou lagartixa movendo-se sobre as dunas, ganha uma ênfase, uma urgência, uma vitalidade extraordinárias. Agora, quando há toneladas de placas enferrujadas, todo uma sucata ou uma centúria de lagartixas rastejando à volta, o deserto é suprimido. Bem como as placas e as lagartixas. 

Trate bem o seu argumento. Ele é o único que você possui.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Antes de passar para o próximo

Emily Granader, 2009


De Sermos Numerosos

a crueldade das pessoas está em serem muitas. Se todos fôssemos só um e o mesmo, não teríamos o menor problema. Nem guerras. Nem terrorismos. Nem politicamentes corretos, ditadores torpes, sectarismos degradantes. Ou minorias. Tampouco preconceitos. 
Por outro lado, também não teria a menor graça. Seríamos miseravelmente sós. Sem conversa debaixo do sol. Enquanto umas partes do corpo fenecessem, outras na flor da idade. Mas que idade? Haveria necessidade de tempo?
Arthur pensava assim. Mas também pensava:
Mas como seria a questão ambiental, se fôssemos só um? Digamos, um imenso paquiderme pensante? Devastaríamos porções inteiras de continentes só para nos alimentar? Áreas do tamanho de Andorra e do Liechtenstein combinados, a cada dia? Um Arquipélago das Malvinas mais meio Sergipe por mês? É, seria impossível desenvolver-nos com sustento. A gente como paquiderme literalmente arrasaria uma porção de planetas antes de passar para o próximo.

Mas, de um outro modo, não é exatamente o que a gente faz sendo muitos?